quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: Manual Crônico: Uma dama-da-noite, as mudanças acontecem à revelia de nossa própria vontade


As mudanças acontecem à revelia de nossa própria vontade

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Mudar é preciso, sempre se pode ouvir em algum lugar. Mudar é inevitável, outros ainda dirão. Até porque, já disseram por aí, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Logo, nada permanece o mesmo o tempo todo; ou tudo sempre muda a todo momento. Entre nada e tudo, talvez estejamos nós. Ou talvez nem estejamos. Não sei, já me perdi. Mais fácil mandar tudo às favas (ia dizer à merda, mas pega mal) e deixar o rio seguir seu curso. Pois muito cedo aprendemos que as mudanças acontecem à revelia de nossa própria vontade.

Contava eu quatro ou cinco anos de idade (ou talvez seis?) e habitávamos uma edícula com um vasto quintal à frente. Nele, cultivávamos couve, repolho e mandioca, bastante mandioca. Havia também uma jaqueira frondosa e preguiçosa. Havia galinhas, havia ovos, havia pintinhos. E havia um galo muito bravo, que insistia em eleger certas pernas para perseguir. Uma vez, “mordeu-me” a barriga porque tentei cruzar uma fronteira em busca dos ovos de uma de suas galinhas.

Nesse mesmo quintal, dei os primeiros chutes de minha exitosa carreira no futebol. Foi ali, jogando bola com meu irmão, que angariei meu primeiro grande corte na perna, cuja ferida verteu muito sangue e exigiu intensas lágrimas, cinco pontos e muito bilu-bilu nos dias seguintes. A ida ao pronto-socorro, na garupa da bicicleta do meu outro irmão, permanece na memória para sempre. A cicatriz na perna também. Hoje em dia, gosto de dizer aos desavisados que é marca de um tiro.

Também havia, nesse mesmo quintal, quase encostada ao muro, tímida durante o dia, esplendorosa ao anoitecer, uma dama-da-noite. Hoje, sei que era uma dama-da-noite. Pois, em 1992, sabia apenas que era planta, que tinha flores e que cheirava. E como cheirava! Bastou isso para que ela se tornasse um grande amor, certamente a primeira dama por quem me apaixonei.

Mas como mudar é preciso e o progresso sempre vem, nosso imenso quintal não foi poupado. Inquilinos que éramos, empurraram-nos goela abaixo um prédio. Enxadas e marretas, foices e rastelos e, os mais temidos, machados e facões tomaram posição. Zás! Cadê leiras de mandioca? Cadê pintinho piando? Cadê galo de briga? Abaixo a grande jaqueira, no chão o galinheiro. E o facão? No tronco de minha dama. Era novembro. Não me disseram, não tenho certeza da data, mas sei que era novembro. Porque o cheiro insistiu em ficar, mesmo depois de recolhidos os despojos.

No auge do sacrifício, minha irmã mais nova e eu gritávamos, não queríamos o corte, repudiávamos o assassínio. A dama era nossa, não podia deixar de existir. As bochechas quentes e molhadas, os braços contidos por mamãe e pela irmã mais velha, que cumpriam as ordens, assistiram ao ritual. Choramos, Maiara e eu, o fim da nossa dama-da-noite.

O quintal foi povoado por um prédio, que foi povoado por engradados e bebidas. No topo do edifício, um novo lar para uma nova família, que tinha crianças. Uma delas inspirou o nome do gato mais cavalheiro que já houve no mundo. As mudanças ocorrem. A vida acontece. De alguma forma, tudo passa e sempre vem uma nova vida, ainda que perfumada pelos mesmos cheiros. Na lembrança, o cheiro de minha dama, que insiste em passar sob minhas narinas sem que eu esteja esperando. Mesmo que dezembro não esteja chegando, nessa hora, para mim, é sempre novembro.

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