Filme de Ozualdo Candeias transforma personagens esquecidos pela cidade em figuras de uma história áspera, poética e ainda desconcertante
O cinema brasileiro volta a olhar para as margens do rio Tietê com “A Margem”, primeiro longa-metragem de Ozualdo Ribeiro Candeias, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 1967, o filme permanece como uma das obras fundamentais para compreender o cinema marginal paulista e uma São Paulo que crescia em ritmo acelerado enquanto empurrava para fora do enquadramento quem não combinava com a fotografia oficial da cidade.
Candeias acompanha quatro personagens que vivem às margens do rio e da própria sociedade: duas prostitutas, um homem com problemas mentais e um cafetão. Entre encontros, desencontros, afetos improváveis e destinos trágicos, o diretor constrói uma narrativa fragmentada, carregada de símbolos e pouco interessada em facilitar a vida de quem assiste.
O resultado tem uma beleza áspera. O Tietê aparece como cenário, mas também como presença constante, cercando personagens que parecem condenados a permanecer naquele pedaço esquecido da cidade. Uma mulher negra vestida de noiva dentro de uma igreja em ruínas, um homem à procura de uma rosa e uma pequena flor que circula entre os personagens estão entre as imagens que ajudam a transformar a precariedade em matéria poética.
A câmera de Candeias acompanha essas figuras com uma liberdade que ainda impressiona. O diretor também assume fotografia e montagem ao lado de Belarmindo Manccini e Máximo Barro, respectivamente, numa produção realizada com recursos escassos. O próprio histórico do filme registra essa economia como parte de sua força estética: Candeias fez de limitações práticas uma linguagem cinematográfica própria.
A estreia de “A Margem” aconteceu em São Paulo em novembro de 1967. No 3º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme recebeu menções honrosas para Valéria Vidal e para a música. Depois vieram outros reconhecimentos, incluindo os prêmios de melhor direção e melhor música do Instituto Nacional de Cinema e o prêmio de melhor diretor concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.
O reconhecimento crítico, porém, não significou uma carreira comercial confortável. Pesquisa acadêmica da USP sobre a recepção do filme registra que “A Margem” chegou a ser exibido em cinemas de arte paulistanos, entre eles o Belas Artes, mas permaneceu pouco tempo em cartaz. Décadas depois, a importância histórica da produção ganhou uma espécie de carimbo da crítica brasileira. “A Margem” entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine e aparece na 51ª posição na relação publicada pela associação.
Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo por ocasião dos 50 anos do filme, Inácio Araujo chamou atenção para a maneira particular como Candeias se aproxima dos personagens pobres retratados na obra. Em vez de transformar aquelas pessoas em meros exemplos de uma tese social, o diretor as observa de perto, encontrando nelas uma poesia estranha, áspera e profundamente brasileira. O filme não precisa explicar seus personagens para fazê-los existir. Eles estão ali, entre o lixo, a água, a igreja deteriorada, os pequenos gestos de afeto e uma cidade que parece avançar sem levar todos consigo.
Também chama atenção o jogo entre o real e o simbólico. A barca que surge no começo e retorna no encerramento dá ao filme uma estrutura quase circular. A imagem remete a uma travessia de mortos, enquanto os personagens parecem permanecer presos entre uma vida que pouco oferece e um destino que nunca se esclarece completamente.
O curioso é que, quase seis décadas depois, certas imagens perderam o caráter documental e ganharam outra camada. O Tietê de 1967 ainda permitia cenas que hoje parecem pertencer a outro planeta. O filme registra um rio que já carregava as marcas da degradação, mas que ainda fazia parte da paisagem cotidiana daquela população. A própria pesquisa sobre Candeias observa como o diretor confronta a pujança econômica paulista com aquilo que a cidade deixava nas bordas. É uma oportunidade de reencontro com um dos filmes brasileiros que ajudaram a deslocar o centro do cinema para lugares menos confortáveis.
Ficha técnica
“A Margem” (título original)
Gênero: drama, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1967. Data de lançamento: 27 de novembro de 1967. Idioma: português. Direção e roteiro: Ozualdo Ribeiro Candeias. Elenco: Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho e Lucy Rangel. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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