Espetáculo dirigido por André Corrêa adapta romance de Gilvan Azevedo e coloca em cena dois homens maduros diante das escolhas que fizeram — e das que ainda desejam fazer. Foto: Daniela Ferreira
O que acontece quando a vida construída durante décadas começa a pedir uma revisão de roteiro? É dessa inquietação que parte “Nós, Ursos”, espetáculo que chega ao Teatro Commune, em São Paulo, com direção de André Corrêa e adaptação teatral assinada pelo escritor Gilvan Azevedo. A montagem, que segue em cartaz até dia 27 no Teatro Commune, reúne no elenco o próprio autor e Mauricio Constantino, seu marido e parceiro na criação da Cia. Salor. O espetáculo adapta o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, obra que conquistou leitores ao tratar de amor, identidade e reinvenção na maturidade. As apresentações acontecem aos sábados e domingos, às 20h00.
Em cena, Saulo e Rodney são dois homens maduros que passaram boa parte da vida seguindo os caminhos que pareciam previamente traçados. Pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a atender às expectativas alheias, eles se conhecem quando já carregam no currículo afetivo uma boa coleção de responsabilidades, escolhas e renúncias. A aproximação começa entre mensagens, viagens e encontros escondidos. Aos poucos, a relação ganha espaço e se transforma em algo difícil de manter nos bastidores. O romance passa então a conviver com afastamentos, conflitos internos, pressões familiares e as pequenas vitórias de quem decide, finalmente, olhar para a própria vida com outros olhos.
Misturando humor, drama e poesia, “Nós, Ursos” aborda amor, paternidade, masculinidades, liberdade, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta. A montagem também coloca em evidência relações LGBTQIA+ maduras, tema ainda pouco explorado pela dramaturgia brasileira contemporânea. Gilvan Azevedo, além de adaptar o romance, interpreta um dos protagonistas ao lado de Mauricio Constantino. A passagem da literatura para o palco nasceu da vontade de investigar o que o teatro poderia acrescentar à história.
"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens. A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única", afirma Gilvan Azevedo. Na direção, André Corrêa concentra a encenação nas relações entre os personagens e na passagem do tempo. A proposta combina interpretação, projeções e desenho de som, mantendo os atores e os vínculos estabelecidos entre eles no centro da narrativa.
"Vejo 'Nós, Ursos' como uma história sobre pessoas que chegam a um determinado momento da vida e precisam lidar com escolhas feitas, caminhos abandonados e possibilidades que ainda permanecem abertas. Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", afirma o diretor. O título da peça remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos na década de 1980 e difundida no Brasil a partir dos anos 1990.
Na comunidade LGBTQIA+, "urso" identifica homens gays ou bissexuais associados a corpos robustos, pelos e barbas. A expressão também carrega ideias de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A referência serve de ponto de partida para ampliar a conversa sobre corpos, afetos e diferentes formas de masculinidade, longe de caricaturas e estereótipos. "A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos, pessoas tentando conciliar expectativas externas e necessidades internas", afirma Gilvan Azevedo.
O escritor vê na trajetória de Saulo e Rodney uma história capaz de conversar com questões que vão muito além da experiência específica dos protagonistas. "Por isso, embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver”. Publicado inicialmente no Brasil e posteriormente lançado em inglês com o título “We Were Bears and Didn't Know”, o romance reúne leitores interessados em temas como identidade, afeto, corpo, pertencimento e as possibilidades que surgem depois dos 40 anos.
A adaptação marca, portanto, uma nova etapa para uma história que nasceu nas páginas de um livro e agora ganha corpo, voz e presença no palco. Porque algumas histórias de amor podem até demorar para começar. O problema é convencer o coração de que ele deveria continuar esperando. “Nós, Ursos” é uma produção da Cia. Salor, criada por Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino a partir da experiência da Editora Salor. A companhia desenvolve projetos que aproximam literatura, teatro e outras linguagens artísticas.
“Éramos Ursos e Não Sabíamos” transforma crise de identidade em romance sobre liberdade
Publicado em 2024, o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, acompanha dois homens maduros inseridos no universo corporativo de São Paulo e diante de uma pergunta que costuma chegar sem convite: e se a vida que deu certo para todo mundo estiver errada para quem a vive?
Rodney é um executivo bem-sucedido, mas enfrenta um casamento desgastado e desejos que permanecem escondidos. A rotina ganha outro contorno quando ele conhece Paulo, também executivo e marcado por uma formação familiar conservadora. A aproximação entre os dois provoca uma sucessão de questionamentos sobre identidade, desejo, autonomia e as escolhas feitas ao longo da vida.
Com 213 páginas, o livro combina romance, conflitos familiares, discussões filosóficas e situações do cotidiano para acompanhar personagens que precisam decidir entre a segurança de uma existência conhecida e os riscos de uma vida mais autêntica. O título faz referência à cultura bear e à descoberta tardia de uma identidade que esteve ali o tempo todo, ainda que os próprios personagens não soubessem reconhecê-la.
A obra, que deu origem ao espetáculo “Nós, Ursos”, também propõe uma reflexão sobre o envelhecimento e as possibilidades de recomeço depois dos 40. Afinal, amadurecer pode trazer rugas, boletos e algumas certezas — mas também a coragem de descobrir que ainda há tempo para mudar o roteiro. Compre o livro “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, neste link.
Ficha técnica
Espetáculo "Nós, Ursos"
Direção: André Corrêa. Texto e adaptação teatral: Gilvan Azevedo. Elenco: Mauricio Constantino e Gilvan Azevedo. Produção: Cia. Salor. Figurinos e preparação corporal: Lu Castro. Desenho de iluminação: Rodrigo Pivetti. Desenho de som e projeções: Giba. Coordenação de produção: Lu Castro. Assistência de produção: Diogo Castro. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Design gráfico: Werner Schultz. Fotos e filmagens: Daniela Ferreira. Realização: Cia. Salor. Apoios: Carne Fresca Clothing, Planeta’s Restaurante, Cantina Luna di Capri, Piolin, Instituto Marcio Kozonara e ABC Bailão.
Serviço
Espetáculo “Nós, Ursos”
Temporada: de 8 de agosto a 27 de setembro de 2026. Sessões: sábados e domingos, às 20h00. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 70 minutos. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada). Vendas: Sympla - https://www.sympla.com.br/evento/nos-ursos/3453018. Teatro Commune | Rua da Consolação, 1218, Consolação / São Paulo. Próximo à estação Higienópolis-Mackenzie.









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