quinta-feira, 29 de outubro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Minha pequena árvore


Thiago Sobral é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack. 

Dia desses, me peguei pensando em uma jovem árvore lá da minha escola que tombou por causa de uma ventania, quase um ano atrás. Era magrinha, de baixa estatura arborística e de copa nada frondosa. Poderíamos até dizer que tinha cara de pinto recém-nascido — mas não o faremos. Nem tu, nem eu. É preciso lembrar que, ainda que jovem, era árvore e, portanto, digna de nossas honrosas vênias.

Mas a verdade é que eu nunca a reverenciei. Nunca me acheguei ao seu corpo e o lacei pela cintura com meus braços finos, muito menos tentei sentir sua respiração ou ouvir seu coração. De minha parte, antes de sua queda, nunca houve qualquer gratidão — ou gratiluz. Sua mirrada copa nunca me ofereceu sombra, seu odor nunca me ocupou as narinas, sua seiva nunca me alimentou e seu verde nunca me deu esperança. O que de fato ocorreu é que nunca me dei conta de sua existência até o dia em que o vento a derrubou.

O corpinho franzino, que teve a grama como travesseiro para a rala cabeleira, e as raízes expostas aos céus tragaram os meus olhos enfeitiçados. Como no entorno da minha escola há muitas árvores e, naqueles dias, ventou muito, algumas outras árvores também tombaram, mas pouco me importei. Daquele dia em diante, somente a minha pequena tinha a minha atenção. Passaram dias, passaram semanas, passaram meses, e ela continuou ali. Ninguém cuidou de suas feridas, ninguém enfaixou suas fraturas, nenhuma criatura providenciou o seu enterro.

Ao longo do tempo, o verde de suas folhas foi minguando, sorvendo o tom da terra e ganhando meus olhos, que têm cor parecida. Esses meus olhos a olhavam na chegada e na saída do trabalho e dela sentiam falta aos sábados e domingos. E assim foi, até que se encerrou o ano letivo e o nosso enamoramento. No último dia, meu coração pulsou um tantinho a mais ao reparar que as folhas eram agora terra e que aquele verde que nunca me dera esperança vivia então dentro de mim.

Ao retornar ao trabalho, no início do ano, minha árvore deixou apenas o buraco onde antes dormiam suas raízes. Seu magro corpo havia sido recolhido e talvez alimentado alguma fogueira por aí. Lembrei-me do tronco fino, da minguada copa e do verde que de vez em quando me fazia cócegas dentro do peito. Apenas isso e nada mais. Não houve mais lembranças, não houve compaixão, não houve saudade alguma de minha pequena que partiu.

O passar dos meses até agora tem se mostrado tão cruel quanto aquela ventania que deitou a minha árvore. Sinto que quase diariamente sou jogado ao chão e calcado por ventanias e tempestades. Minha copa é tão minguada como a de minha pequena, e minhas parcas folhas se espalham na terra com o temor pelo que há de vir. Tenho medo e sei que todos temos. As tempestades e ventanias que enfrentamos ameaçam as raízes.

Enquanto pensava nisso, entre uma aula e outra, olhei para o chão onde vivia minha árvore. Cadê buraco das raízes? Foi coberto por uma graminha verde rasteira, brilhante e com cara de macia. Desde então, não paro de pensar na minha pequena. Acho que foi por isso que voltei a sentir pequenas cócegas verdes dentro do peito.

Sei que nada está perdido.

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