sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sorumbáticos da existência


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.

Que não pedimos pela vida, é certo. Que não escolhemos o próprio contexto, todos sabemos. Agora, que teríamos de trabalhar para prover o próprio sustento? Ah, vá! Adão, seu filho de uma serpente! Eva, sacripanta do Éden! Posto isso, as eras vão avançando, e cá estamos nós, a pagar pelo crime alheio. É preciso construir todo um circo em torno de si para que se cumpra a pena. E, pasmem, nos definimos por isso. “Quem é você?”, perguntarão; “Apresente-se, por favor”, será solicitado. “Sou fulano de tal, professor — ou marceneiro, ou médico, ou advogado, ou deputado —, doutor no raio que o parta, seu criado”, poderá se responder, como se disso as maiores conclusões pudessem ser alcançadas.

Porque o trabalho tem dessas. Ocupa muito mais espaço que o coração e nos obriga a vestir a camisa até ela virar mortalha, ainda que reste algum fiapo de vida. Pois foi isso que vi um dia desses. E vi com esses meus olhos sorumbáticos de sexta-feira. Explico.

Era segunda-feira — há de se registrar. Mas os olhos eram de sexta, posso garantir. E eu que, se pudesse, não trabalhava nunca, vinha do trabalho. Era tarde, muito tarde — também há de se registrar. As mãos automáticas guiavam o volante no rumo de casa. Conformado pela existência produzida, puxei o freio de mão. Casa, para que te quero, senão para habitá-la por algumas horinhas depois do labor? Pois bem, fui à casa.

Mas antes de cruzar o portão, vinha um ônibus. Vinha um ônibus, e havia um homem. Estava sentado o homem no degrau do comércio fechado, alguns palmos (ou metros?) distante do local de parada do coletivo. Cabeça curvada, apontada para as mãos, talvez com os ouvidos tampados. Ergueu-se de súbito, à cata de um tiro que vinha. Lançou-se ao meio-fio, ocupou um dos bolsos, ergueu o outro braço, esticou o indicador. Tarde demais. Apenas poeira e vento alcançaram seus dedos. Restou-lhe bater as asas nos flancos e agitar a cabeça.

Agora, havia apenas um homem com olhos no chão. O andar mocorongo, no mesmo rumo do ônibus que passou. Certamente saía do trabalho. Certamente estava cansado. Certamente, se pudesse, também não trabalhava nunca. E, caso lhe perguntassem, certamente se definiria: “Sou fulano de tal, empregado no entreposto, doutor em malabarismos e milagres, seu criado.” Encerramos assim, ele e eu, o nosso dia, sorumbáticos da existência. Porque, para produzir a própria vida é preciso entregar o corpo, a alma e, se bobear, até o recibo.

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