Espetáculo da CASCA – Coletivo de Criação acompanha uma criança de nove anos que deseja crescer e mergulha em questões como solidão infantil, consumo, produtividade e relações entre crianças e adultos. Foto: Camila Riveredo
Uma menina de nove anos quer crescer. Pati acredita que a vida adulta poderá lhe oferecer aquilo que sente faltar na infância: ser vista, ouvida e ter acesso aos lugares que ainda lhe são proibidos. O desejo parece simples, mas ganha contornos bastante peculiares em "Planeta Pelúcia", espetáculo da CASCA – Coletivo de Criação que retorna aos palcos em nova temporada, desta vez no Sesc Belenzinho. Com dramaturgia de Bruno Canabarro e direção de Rodolfo Amorim, a montagem fica em cartaz de 24 de outubro a 29 de novembro, aos sábados e domingos, às 12h00, com sessões também nos feriados de 2 e 20 de novembro. A temporada integra o Projeto Começa 2026.
Depois da estreia em abril deste ano, no Sesc Consolação, a peça retoma uma pesquisa do grupo sobre as infâncias e acompanha Pati em uma aventura que começa quando ela decide entrar no quartinho de bagunça dos adultos, espaço proibido onde estão guardados objetos, documentos, memórias e segredos. Quando finalmente consegue abrir a porta, a menina passa a enxergar um universo que parecia reservado aos crescidos. E, como costuma acontecer quando uma criança ganha acesso a um lugar proibido, a descoberta vem acompanhada de algumas surpresas.
Escrito por Bruno Canabarro, que também integra o elenco ao lado de Bruna Betito e Paula Spinelli, "Planeta Pelúcia" investiga os desejos, as inquietações e a autonomia das crianças, enquanto coloca em xeque a maneira como os adultos escutam — ou deixam de escutar — aquilo que os pequenos têm a dizer. A montagem também se distancia daquela imagem açucarada da infância que costuma aparecer em determinadas histórias para crianças. Curiosidade, vontade de superar desafios, desejos e conflitos pertencem ao ser humano, independentemente da idade. Afinal, criança também tem opinião, desejo próprio e uma boa dose de teimosia. Às vezes, o adulto chama isso de desobediência. A peça prefere fazer outra pergunta.
Em "Aqui Tem Vida Demais!", primeiro espetáculo do grupo, as crianças lidavam com o luto sem o apoio dos adultos. Agora, o interesse se volta para a convivência entre esses dois universos e para a possibilidade de estabelecer relações menos hierárquicas, em que as crianças tenham espaço para expressar desejos e opiniões. “Embora a adultização seja o grande plano de fundo, durante o processo percebemos que a peça acabou sendo muito mais sobre a solidão dessas crianças da cidade que vivem praticamente fechadas em casa. Nossa protagonista se sente sozinha e usa a imaginação para criar diversos mundos. E assim surgiu a vontade de adentrar o universo dos adultos”, conta Amorim.
Na história, o quartinho de bagunça dos adultos funciona como uma espécie de passagem para um mundo que Pati deseja conhecer. Lá estão objetos e lembranças, mas também uma série de referências ao universo adulto que a menina ainda não consegue compreender completamente. A personagem entra em contato com figuras da mídia, como ídolos do esporte, influenciadores de beleza, coaches e até crianças que alcançaram fama nas redes sociais. Conforme avança por esse novo território, Pati começa a se afastar de seu companheiro inseparável: o urso de pelúcia que a acompanha desde o início da aventura.
A encenação utiliza uma câmera ao vivo para ampliar aquilo que aparece em uma "casa de bonecas", espécie de reflexo do quartinho dos adultos. As projeções de Vic Von Poser ajudam a construir esse universo e fazem referência ao consumo exacerbado, enquanto a música executada ao vivo por Demian Pinto e Gabi Queiroz, vestidos de pelúcia, cria a Banda Telúrica. A iluminação de Daniel Gonzalez completa o ambiente com atmosferas cósmicas e jogos de luz e sombra, acompanhando os conflitos de uma criança fascinada pela possibilidade de crescer.
É nesse universo que surge a "Síndrome da Adultopia", invenção da CASCA para definir o "sonho-sem-graça" que acomete crianças interessadas em crescer antes da hora. O diagnóstico vem de Traça e Cupim, bichinhos-leitores que vivem no quarto dos adultos, devoram livros e palavras e aparecem como dispositivos líricos da montagem, brincando com pontuação, metalinguagem e humor filosófico.
“As sociedades totalmente guiadas por produtividade, estética, autocontrole e consumo também moldam as crianças, o que estimula esse desejo de crescimento acelerado. Nesta peça, é a criança quem deseja. Por isso, o que muito me interessa na pesquisa é o que vemos como desobediência infantil. Os pequenos e as pequenas têm vontades próprias e, como nem sempre compreendemos isso, não abrimos espaço para o diálogo, simplesmente associamos à desobediência e à má educação. Eu gostaria que os adultos pensassem sobre isso enquanto assistem ao trabalho: em como podemos mediar as vontades infantis ao invés de simplesmente se impor”, comenta Bruno Canabarro.
A aventura de Pati também mexe com a comunicação dentro da própria família. Em determinados momentos, a menina e os pais parecem falar idiomas diferentes. A incompreensão ganha forma física e sonora na encenação, enquanto a dança e o brincar acabam encontrando caminhos para reconstruir essa comunicação. Pati se vê diante de um universo novo sem saber muito bem como voltar para aquilo que conhecia. O caminho de retorno passa, portanto, pelo reencontro com a própria infância e com a criança que continuou existindo mesmo durante a tentativa de crescer depressa.
“Pati é jogada para esse mundo novo sem nenhum suporte e, quando ela tenta voltar à sua infância, já não consegue mais. Por esse motivo, acreditamos que o tal Planeta Pelúcia é um lugar de segurança e proteção, onde as crianças podem crescer asseguradas. E é justamente essa a nossa responsabilidade enquanto adultos. Paulo Freire já dizia, baseado num provérbio africano, que é preciso de uma comunidade inteira para educar uma criança. Então, estamos convidando os adultos a realmente olharem para as crianças ao invés de invalidá-las”, reflete o dramaturgo.
Com uma aventura que parte do imaginário infantil para chegar a questões bastante concretas da vida contemporânea, "Planeta Pelúcia" coloca adultos e crianças no mesmo espaço de investigação. Pati quer crescer. O problema é descobrir o que existe do outro lado da porta — e se, depois de entrar, ainda será possível voltar.
Ficha técnica | Espetáculo "Planeta Pelúcia"
Dramaturgia: Bruno Canabarro
Direção e cenografia: Rodolfo Amorim
Elenco: Bruna Betito, Bruno Canabarro e Paula Spinelli
Direção musical e música ao vivo: Demian Pinto e Gabi Queiroz
Música original: Demian Pinto e Gabi Queiroz
Letras: Bruno Canabarro
Atores-contrarregras: Lucas Asseituno e Rafael Costa
Iluminação: Daniel Gonzalez
Videografia: Vic Von Poser
Figurinos e adereços: Felipe Cruz
Assistentes de figurinos: Asroba e Marcel Marques
Cenotecnia e objetos cênicos: Zé Valdir
Maquete cenográfica: Doideca no Papel – Marcela Falci
Bonecos e cabeção: Edson Gon
Identidade visual: Fernanda Zotovici e Gabriela Meyer
Preparação corporal e coreografias: Jhennifer Peguim
Voz em off: Alice Asseituno
Técnico de som: Maurício Caetano
Técnico de segurança: Sérgio de Souza (Boca)
Montador: Roberto Oliveira
Direção de produção: CASCA – Coletivo de Criação e Plataforma – Estúdio de Produção Cultural
Coordenação de produção: Fernando Gimenes
Produção executiva: Bruno Ribeiro
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli
Administração: Victor Bittow
Fotografia: Camila Rivereto
Realização: SESC SP
Apoio: IBT – Instituto Brasileiro de Teatro, Teatro Estúdio e Armazém Grupo XIX de Teatro.
Serviço | "Planeta Pelúcia"
Dramaturgia: Bruno Canabarro
CASCA – Coletivo de Criação
Projeto Começa 2026
Datas e horários: de 24 de outubro a 29 de novembro de 2026, sábados e domingos, às 12h00.
Sessões nos feriados de 2 e 20 de novembro, às 12h00.
Classificação: livre
Duração: 60 minutos
Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia-entrada), R$ 12,00 (Credencial plena).
Entrada gratuita: para crianças até 12 anos.
Vendas: sescsp.org.br/programacao/planeta-pelucia-5
Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000
Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700
sescsp.org/Belenzinho
Estacionamento: de terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h.
Valores: credenciados plenos do Sesc: R$ 10 a primeira hora e R$ 4 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 20 a primeira hora e R$ 5 por hora adicional.
Transporte público: Metrô Belém (550 m) | Estação Tatuapé (1.400 m).
Sesc Belenzinho nas redes: Facebook, Instagram e YouTube: @sescbelenzinho








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