Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
O retorno ao lar depois do trabalho noturno tem sido muito salutar, apesar do cansaço. Não vou repetir o que venho dizendo sobre trabalhar — o amigo já não deve me aguentar. Digo apenas que, depois de vender a alma ao diabo (venda esta bem disparatada e de pouco rendimento, não se pode negar), as portas do céu têm se aberto para mim e captado meus olhos embotados de cimento e lágrima. Porque o tráfego diário entre escolas e salas de aula, ruas e avenidas é de rachar a cuca e botar um homem doido! Talvez não restasse vista capaz de ver, nem olhos dispostos a enxergar no mundo algo que merecesse ser escrito. Mas a vida é boa e sempre nos oferece a matéria-prima de que necessitamos. Por isso, cá estamos, assentando palavra sobre palavra, naquilo que se pretende como uma construção a que chamaremos crônica. Se o amigo assim não reconhecê-la, não há mal. Fica aqui ao menos a intenção de um dia ter sido cronista.
Dito o que era imprescindível, e para não mais agastar o leitor, vamos à crônica.
Vivemos num recanto privilegiado do mundo. Uma grande extensão de terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Nela não há terremotos, não nos habitam os vulcões, e os maremotos jamais nos alcançarão (prometo!). Há mares e rios em abundância, a fauna e a flora nos acalentam, e o ouro negro nos garante um futuro próspero em mutretas. Temos por aqui muito o que comemorar: somos experts em operações anticorrupção hesitosas, os três poderes mantêm a mesma força na queda-de-braço, compramos inúmeras blusinhas na Shein e estamos no pódio entre os líderes mundiais em desperdício de tempo na internet. Para fechar, apenas nós somos Penta — e olha que ainda nem usamos a nossa arma secreta: o menino Ney!
Seríamos, veja bem, seríamos uma nação perfeita, certamente a primeira do mundo, se não fosse — pasmem — o Pix.
Pois é! Até por esses dias eu julgava exatamente o contrário, porque, se assim não fosse, não teríamos angariado ódio e inveja yankees à toa. Quando a esmola é muita, o cego desconfia. Quanto ao ódio, vale o mesmo. E o ódio vindo do norte encontrava em mim um espelho. Se odeiam o Pix é porque é bom. E se é bom, eu o amo. Uso-o o tempo todo (alguns dias, enquanto dura o salário) e, por isso, sou feliz. Ou julgava ser…
Aconteceu que, ao saltar do carro para a rua e da rua para casa — fim de noite, pós-expediente —, meus olhos embotados de cimento e tráfego cederam aos ouvidos, que ouviram:
— Uns com tanto, e eu com tão pouco. Se eu tivesse um tamanho desse…
Era um homem alto, magro, fumando um toco de cigarro, que caminhava expansivo, talvez flutuando no ar como se fosse um pássaro. E era comigo que falava.
— Mim dá um real pra mim tomar uma, pai.
— Não tenho nada aqui — respondi, querendo dizer que tinha tudo, dada a sinceridade aventada.
— Eu acredito, pai. Se fosse antes do Pix, todo mundo tinha, eu até achava no chão. Vou pedir pro meu primo que tá vindo ali, vou encher o saco dele.
E saiu na contramão atrapalhando a noite. Da outra ponta da rua, vinha alguém parecido com ele, como um pássaro, mas sem flutuar. Estanquei no portão, esperando o solene encontro. As mãos, ao se unirem, comungaram da mesma alegria. E eu pude adentrar em minha alcova, agora mais triste e tendo que dar razão aos yankees.
Se fosse antes do Pix...








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