Reunião de poemas escritos na maturidade, "Miserere", oitavo livro de poesia de Adélia Prado, publicado originalmente em 2013, marca o retorno da autora aos temas que sempre estruturaram sua obra, agora atravessados por uma consciência ainda mais aguda da finitude. Ainda que permeado por leveza e humor, o livro se apresenta como um “pedido de socorro” - expressão que atravessa seus versos — diante do tempo que passa, dos pecados, dos males terrenos e das inquietações da alma. Trata-se de uma reflexão de vida inteira sobre o cotidiano, a intimidade e a experiência espiritual, na qual a relação com o sagrado se espalha por todos os gestos da existência, do rigor do fazer poético à mais prosaica receita culinária.
Dividido em quatro seções - “Sarau”, “Miserere”, “Pomar” e “Aluvião” -, o livro revela uma poesia cada vez mais econômica, marcada pela capacidade rara de dizer muito com pouco. A concisão, que sempre foi uma marca de Adélia, aqui se intensifica sem perder densidade emocional. Em poemas como “Uma pergunta”, a poeta traduz com precisão sentimentos complexos e dolorosos que pais e mães experimentam em algum momento da vida: “Vede como nossos filhos nos olham, / como nos lançam em rosto / uma conta que ignorávamos. / Não cariciosos, convertem em pura dor / a paixão que os gerou”. É nesse gesto de transformar experiências íntimas em matéria universal que Miserere encontra sua força mais duradoura.
Mesmo ao abordar a iminência da doença e da morte, Adélia Prado preserva um olhar bem-humorado e humano, capaz de arrancar da bruma onírica uma cena de graça inesperada. Em “Distrações no velório”, a poeta escreve: “Deus, tem piedade de mim. / Peço porque estou viva / e sou louca por açúcar”. O verso, aparentemente simples, condensa fé, fragilidade e desejo em uma única respiração poética, reafirmando a singularidade de uma escrita que nunca separa o corpo do espírito.
Livro após livro, a sensibilidade de Adélia Prado segue transformando o corriqueiro em matéria poética e espiritual. Dos tomates da feira ao quarto de costura, Miserere fala diretamente ao coração do leitor ao lembrá-lo de que o divino não está apartado da vida cotidiana, mas completamente imerso nela. A maturidade, aqui, não significa apaziguamento, e sim aprofundamento: a poesia continua sendo, para Adélia, forma de oração, de resistência e de escuta radical do mundo.
As novas edições chegam às livrarias com projetos gráficos renovados, trazendo capas assinadas pelo premiado designer Leonardo Iaccarino a partir de obras do artista plástico Pedro Meyer. O cuidado estético dialoga com a permanência e a atualidade de uma obra que, mesmo escrita sob o signo da maturidade, permanece pulsante e inquieta. Aos 90 anos, Adélia Prado é reconhecida como uma das maiores escritoras brasileiras de todos os tempos, vencedora de prêmios como Camões, Machado de Assis, Griffin, Jabuti e Biblioteca Nacional. Em 2014, foi condecorada pelo Governo Brasileiro com a Ordem do Mérito Cultural.
Em recente entrevista ao podcast Casa do Livro, Adélia falou sobre sua relação com o mistério, elemento central de sua escrita: “Acho que eu vivo de mistérios, dou graças a Deus pelos mistérios existirem, desde o mistério da Santíssima Trindade ao mistério da encarnação de Deus, até a física quântica. Dá uma energia, esse mundo desconhecido, que eu não sei como é, o além, o depois disso”. Ao refletir sobre o passar do tempo e as mudanças no modo de fazer poesia, foi ainda mais reveladora: “Por dentro, ainda tenho as mesmas curiosidades, as mesmas dificuldades, os mesmos sofrimentos, as mesmas perguntas de quando eu tinha 18”.
Declarações como essas ajudam a compreender Miserere não como um livro de encerramento, mas como um gesto de continuidade. Um livro em que Adélia Prado reafirma, com humildade e rigor, que a poesia — assim como a fé — nasce da dúvida, do espanto e da vida comum. Compre o livro "Miserere", de Adélia Prado, neste link.
Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.
Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.
O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.








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