sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: Manual Crônico: Nome de garçom... Bastião, meu chapa, traz mais uma!


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site 
Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


O universo já esteve em minhas mãos. Como já não sou garçom, ele não está mais. Pois, ser garçom imprime no sujeito uma universalidade rara de alcançar. Em mim, durou cerca de seis meses, e nada mais.

Se o amigo não sabe, o garçom atende por vários nomes, ainda que nenhum conste em sua certidão de batismo. Um bom frequentador de restaurantes, botecos, pizzarias e frege-moscas que se preze tem o dom de olhar para aquele que carrega a bandeja e dar-lhe um nome. Não um nome qualquer, mas aquele que mais convém ao momento. Pode ser João, pode ser Severino, Luiz (mas tem que ser com Z), Manuel (com U), Zé Carlos, Ubaldo etc. Não há regra. Há o instante, a cara do garçom, e a inspiração.

Eu já tive alguns, poucos. Garanto que fui um garçom mais ou menos, e, portanto, recebi certas alcunhas. A única mancha verdadeira em meu currículo é não ter servido num boteco do tipo “copo-sujo”, pois este é o auge da carreira de qualquer garçom. É nele que se alcançam os codinomes mais sublimes, colecionam-se os mais criativos heterônimos, angariam-se os mais perfeitos apelidos, ou, se o leitor tiver alma de artista, pseudônimos.

Digo isso porque os frequentadores dos copo-sujos — ou frege-moscas — são os melhores que há. Geralmente, estão de bem com a vida, ou de coração partido, e isso rende assunto, movimenta pés e mãos, e marca-se a carreira. É comum que tais clientes carreguem sobre o lábio superior farta bigodeira e, ao final, retribuam alguma gorjeta, nem sempre gorda como o bigode, mas, ainda assim, gorjeta. Sem contar os nomes. E que nomes!

O atento leitor deve estar se perguntando como sei de tudo isso, se nunca servi num frege-moscas. Bom, se não servi…

Antes, servi numa requintada e falida pizzaria de minha cidade natal, nos idos anos dois mil. Dois mil e cinco, para ser exato. Lá, os clientes vinham de todas as classes sociais, com todos os gostos (alguns até com belos bigodes), mas não eram bons em dar nomes. Faltava-lhes, penso, ovos coloridos, linguiça acebolada e moela ao molho, junto com um bom rabo de galo, e uma vasta coleção de copos americanos trincados. Havendo isso, certamente se tornariam bons nomeadores.

Da pizzaria restou apenas a pizza portuguesa requentada que comíamos ao final do expediente e que, até hoje, me pinça a memória sempre que como uma pizza portuguesa contemporânea. De nome, ganhei apenas um Luís bem mequetrefe (certeza que era com S) ou um Joaquim qualquer… Nada de um potente Oswaldo, ou um violento Jeremias, muito menos um exótico Nicodemos. Nicodemos é elite, o suprassumo, o auge da carreira garçônica. E se você não concorda é porque não tem um bigode farto.

Mesmo sendo professor, sou um exímio equilibrista de copos (garanto que isso veio da experiência como garçom), só não sei se me tornei um bom cliente. Cultivo o bigode — ainda que grudado à barba —, mas estou em débito com os botequins. Os frege-moscas não me veem há muito tempo, os copo-sujos hoje devem me achar um distinto senhor esnobe, o que me envergonha. A prova disso, conto-a agora:

Era um exemplar boteco copo-sujo, não apenas metafórico: os fundilhos do americano traziam uma camada de poeira fina e acinzentada. Isso talvez não seja mentira, apesar dos dez anos que separam estas linhas da ocorrência do fato. O copo era sujo tanto quanto a minha intenção. Nesta minha última e saudosa vez em um frege-moscas, avistei o garçom, que gabaritava o figurino: calças pretas, sapato social de sola gasta, camisa de botões branca amarelada, um pano de prato encardido sobre o ombro, olhar cansado, mas sorridente e acolhedor, encimado por ampla testa, emendando com a calva.

De início, aproximou-se solicito:

Bom dia, doutor! — esparramou o pano de prato encardido na mesa. — Vai aquela gelada?

Até queria — soltei um sorriso de cachorro pidão —, mas tá cedo, né?

— Passarinho que não deve nada a ninguém tá de pé desde cedo, doutor. — Esboçou um sorriso cúmplice.

Tem razão. Mas só uma, viu. — Assenti, satisfeito com a cumplicidade já esperada.

Sem que eu percebesse o tempo correr, logo a quarta cerveja já estava na mesa. Nem meio-dia ainda. E o meu amigo já suava em bicas, correndo de uma mesa à outra, espantando os mosquitos e enxugando a calva com o pano de prato roto. O frege-moscas fervia.

Na quinta cerveja, já estávamos íntimos. Era doutor pra cá, patrão pra lá. E a família, como está? O menino vai bem na escola? (Eu ainda não tinha menino). Semana quase acabando, meu peixe. Vai trabalhar no sábado? Acho que vai dar praia. Amizade forjada em copo americano é para a vida toda. Mas e o nome? Como eu ainda não havia arriscado um nome? Péssimo cliente, eu…

Bastião, meu chapa, traz mais uma! A sexta, né?

Sétima — respondeu entre dentes.

A sétima, isso! — sorri, já de olhos cruzados.

O Bastião trouxe a sétima, sisudo.

Tá tudo bem, meu patrão? Cansado, né? — expressei minha solidariedade ante a mudança de humor repentina.

Bastião, doutor? Bastião?!

Não gostou? Desculpe. — O impossível parecia acontecer.

Não é que não gostei… É que… é… esse é meu nome mesmo.

Acabou-se a amizade. A oitava não veio…

0 comments:

Postar um comentário

Deixe-nos uma mensagem.

Tecnologia do Blogger.