domingo, 7 de junho de 2026

.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

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