Em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, Carlos Baptista Junior abandona a distância confortável dos livros de história e conta, por dentro da Aeronáutica, como os meses entre 2021 e 2023 colocaram disciplina, hierarquia e democracia numa rota de colisão
Um país pode chegar muito perto de um golpe sem que um tanque precise atravessar a avenida. Às vezes, a crise acontece em salas fechadas, reuniões de comando, telefonemas, conversas reservadas e decisões tomadas por homens acostumados a obedecer até o momento em que obedecer pode significar colocar a própria Constituição em risco. É nesse terreno que Carlos Baptista Junior coloca o leitor em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, publicado pela Editora Autêntica. O título já entrega a posição do autor, mas o livro é mais interessante quando deixa de ser uma declaração de princípios e passa a contar como esse “não” foi construído, sustentado e, sobretudo, quanto custou para mantê-lo.
Tenente-brigadeiro, piloto de caça, com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea Brasileira, Baptista Junior comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023. Portanto, não escreve sobre os acontecimentos olhando para fotografias antigas. Ele estava dentro da foto. E, para alguém acostumado a voar, a expressão “cockpit”, termo em inglês usado para designar a cabine de comando de uma aeronave, ganha aqui uma dimensão curiosa: Baptista Junior estava no cockpit de uma das instituições colocadas sob pressão durante a crise.
O primeiro capítulo, “Doze Horas na Polícia Federal”, por exemplo, começa longe da solenidade dos grandes acontecimentos nacionais. O autor está com o neto, fala da rotina familiar, passa por situações corriqueiras e, de repente, a narrativa o leva para um episódio que ajuda a explicar como aquele homem chegou ao centro de uma das maiores crises institucionais da história recente do país. A estratégia aproxima o leitor do personagem antes de colocá-lo novamente diante do uniforme.
Baptista Junior escreve a partir de uma formação em que palavras como “disciplina” e “hierarquia” têm peso concreto. Só que existe uma terceira palavra que se torna decisiva: Constituição. O livro ganha densidade quando essas três ideias deixam de caber confortavelmente na mesma frase. A crise de 2021 aparece como um ponto de inflexão. A troca do ministro da Defesa, a substituição dos comandantes das Forças Armadas e a reorganização do alto comando militar revelam um ambiente em que a política já não podia ser tratada como assunto externo aos quartéis.
Jair Messias Bolsonaro havia chegado ao poder com uma relação particular com os militares, e o livro acompanha a deterioração dessa convivência até o momento em que o papel institucional das Forças Armadas passa a ser testado de maneira brutal. O autor não precisa inventar um thriller, já que a realidade brasileira daquele período já havia feito esse trabalho com competência assustadora. A eleição de 2022 ocupa boa parte do relato e mostra uma engrenagem em movimento: questionamentos sobre as urnas, pressão política, reuniões, manifestações, expectativas dentro e fora dos quartéis e o comportamento das cúpulas militares diante da derrota de Bolsonaro.
A narrativa acompanha os acontecimentos até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e chega ao ponto em que a democracia brasileira parecia estar sustentada por uma quantidade desconfortavelmente pequena de bom senso. O livro desmonta, com detalhes, aquela impressão posterior de que a tentativa de ruptura teria sido uma maluquice improvisada por meia dúzia de exaltados. O autor descreve um ambiente em que a possibilidade de golpe foi discutida, estimulada e considerada por setores que tinham acesso real às estruturas de poder.
“Eu Disse Não!” é um livro sobre o limite da obediência, questão capaz de incomodar quem enxerga as Forças Armadas como guardiãs naturais da política. Baptista Junior apresenta uma instituição composta por pessoas, disputas, interesses, avaliações e diferentes compreensões sobre até onde poderia ir a atuação militar. A democracia, no livro, não aparece protegida por uma entidade abstrata chamada “instituições”, mas depende de indivíduos tomando decisões.
O mérito da obra está em mostrar que uma ruptura institucional exige mais do que discursos sobre democracia. Em determinados momentos, alguém precisa estabelecer um limite e aceitar as consequências de fazê-lo. O relato ganha interesse quando o autor também se permite olhar para a própria trajetória. Piloto de caça, comandante e homem formado dentro da FAB, ele conhece profundamente o universo que descreve. O leitor percebe a linguagem, os códigos e a lógica de funcionamento de uma organização em que a cadeia de comando pode determinar o destino de uma instituição inteira.
O livro acerta ao não transformar esse gesto em fantasia heroica de história em quadrinhos. Mesmo quando o autor assume claramente um lado, permanece a sensação de que está reconstruindo um período complicado, cheio de zonas de tensão e escolhas difíceis. O leitor acompanha os bastidores e percebe que o país esteve perto de uma situação cuja dimensão fica mais nítida quando os episódios são colocados em sequência.
Existe ainda uma ironia involuntária e bastante brasileira em tudo isso. Um país que passou décadas discutindo o papel dos militares na política chegou ao século XXI diante de uma pergunta quase primitiva: o que faz um militar quando recebe ou percebe uma ordem que entra em choque com a Constituição?
“Eu Disse Não!” ganha força quando deixa de lado a caricatura do herói solitário e permite que apareçam o homem dentro da farda, o comandante dentro da instituição e a instituição dentro de uma crise política que extrapolou os muros dos quartéis. É uma leitura especialmente interessante para quem acompanhou os acontecimentos de 2021 e 2022 e ficou com a impressão de que faltavam algumas peças do quebra-cabeça. Compre o livro "Eu Disse Não", de Carlos Baptista Junior, neste link.








0 comments:
Postar um comentário
Deixe-nos uma mensagem.