quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela diretores que ampliam a ideia de autoria


De Allan Deberton a Grace Passô, cineastas com trajetórias, idades e formações diferentes constroem filmes autorais a partir de territórios, experiências pessoais e maneiras diversas de olhar para o Brasil

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se existe uma palavra que costuma aparecer quando se fala em cinema brasileiro contemporâneo, é “novo”. O problema começa quando ela precisa ser definida. Novo em relação a quê? À idade dos diretores? À linguagem? Aos temas? À maneira de produzir? À presença em festivais internacionais? A lista brasileira que disputou a indicação ao Oscar 2027 ajuda a complicar a resposta.

Entre os seis finalistas estavam Allan Deberton, Carlos Saldanha, Eliza Capai, Gabriel Martins, Grace Passô e Rafaela Camelo. São profissionais com trajetórias bastante diferentes, vindos de experiências distintas e que chegaram ao cinema por caminhos que não cabem em uma mesma biografia. “Feito Pipa”, de Deberton, acabou escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, mas os outros cinco filmes ajudam a entender a diversidade de autoria existente no país.


Allan Deberton levou o Ceará para o centro da conversa
A trajetória de Allan Deberton começa em Russas, no interior do Ceará, passa pela Universidade Federal Fluminense e retorna ao estado de origem por meio das próprias histórias. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve curtas exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios antes de chegar a “Feito Pipa”. O caminho também passa por “Pacarrete”, filme de 2019 que conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado, e por uma produtora que Deberton mantém em Fortaleza ao lado do produtor Marcelo Pinheiro.

A Deberton Filmes foi criada em 2001 e trabalha com desenvolvimento, produção e distribuição. Além de “Pacarrete”, produziu “Transversais” e “O Melhor Amigo”, lançado em 2025, antes de chegar à coprodução de “Feito Pipa” com a Biônica Filmes e a Warner Bros. Pictures Brasil. O percurso é significativo porque Deberton não precisou transformar o Ceará em uma paisagem exótica para fazer um filme reconhecível fora do Brasil. 

“Feito Pipa” surgiu de memórias de infância, foi filmado em Quixadá e chegou à Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Generation Kplus. Depois, acumulou outros reconhecimentos até ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. O próximo projeto do diretor, “A Adoção”, também já vem conectado a uma rede internacional de produção, com participação de Deberton Filmes, Paramount Pictures, Iwaso Films e Arthood Films. 


Gabriel Martins transforma a experiência coletiva em cinema
Gabriel Martins chegou ao cinema por uma trajetória ligada à Filmes de Plástico, produtora criada em Belo Horizonte por ele, André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia. O grupo se tornou um dos exemplos mais conhecidos de produção independente brasileira surgida fora do eixo tradicional. “Marte Um”, lançado em 2022, ampliou essa trajetória para um público internacional e foi escolhido pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar 2023. Quatro anos depois, Martins retorna com “Vicentina Pede Desculpas”, filme protagonizado por uma professora aposentada de 75 anos que tenta lidar com as consequências de um acidente provocado pelo próprio filho. 

A mudança de idade da protagonista já diz alguma coisa sobre o caminho percorrido pelo diretor. Depois de acompanhar uma família negra de classe média baixa em “Marte Um”, Martins volta sua atenção para uma mulher idosa diante de uma tragédia que a obriga a percorrer a cidade em busca das famílias das vítimas. “Vicentina Pede Desculpas” também amplia a circulação internacional do diretor. Em 2026, o filme foi selecionado para a competição oficial do Festival de San Sebastián e para a seção Plataforma do Festival Internacional de Cinema de Toronto.


Grace Passô chegou ao cinema por outro caminho
Grace Passô representa outra espécie de percurso. Atriz, dramaturga e diretora, ela construiu uma carreira de destaque principalmente no teatro antes de chegar à direção de um longa-metragem. “Nosso Segredo” marca sua estreia na direção de longas e nasceu de uma peça escrita por ela duas décadas antes, “Amores Surdos”. A adaptação leva para o cinema uma família negra que tenta reconstruir a rotina depois da morte do pai, misturando drama familiar, elementos fantásticos e uma linguagem que mantém relação com a experiência teatral da diretora.

O filme também chegou ao Festival de Gramado cercado de atenção e venceu o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, além de outros prêmios. Existe uma ironia interessante nessa estreia: Grace Passô não aparece como uma desconhecida que descobriu o cinema de repente, já que chega ao primeiro longa-metragem carregando anos de experiência com dramaturgia, atuação e direção. O primeiro filme, nesse caso, é apenas o primeiro longa-metragem, não o primeiro capítulo da carreira. 


Rafaela Camelo estreia no longa-metrag
em depois de rodar o mundo
Rafaela Camelo oferece outro exemplo. “A Natureza das Coisas Invisíveis” é o primeiro longa-metragem dela, mas a diretora e roteirista já vinha acumulando experiências em curtas, laboratórios e festivais internacionais. Formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília e pós-graduada em roteiro pela FAAP, Camelo dirigiu “O Mistério da Carne”, selecionado para o Sundance Film Festival em 2019. Com “As Miçangas”, codirigido com Emanuel Lavor, voltou à Berlinale em 2023. Em 2025, estreou “A Natureza das Coisas Invisíveis” na Berlinale.

O filme acompanha Glória e Sofia, duas meninas de dez anos que se conhecem em um hospital durante as férias. A partir da amizade entre elas, a narrativa passa por doença, ausência, memória e mudanças familiares. Camelo também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. A carreira dela mostra como funciona uma parte menos visível do cinema contemporâneo: antes de um longa chegar ao público, existe uma longa caminhada por oficinas, laboratórios, programas de desenvolvimento, curtas e festivais. 


Eliza Capai leva o documentário para dentro da brincadeira
Eliza Capai também chegou à disputa do Oscar 2027 por uma via diferente. “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário construído a partir do encontro com meninas do sertão do Piauí, que inventam uma máquina do tempo para imaginar o passado de suas mães e avós e projetar os próprios futuros. A diretora já havia trabalhado com temas sociais e políticos em “Espero tua (Re)volta”. No novo filme, porém, encontra outra maneira de construir a narrativa: a brincadeira vira ferramenta de investigação.

Meninas de dez anos falam sobre religião, gênero, casamento, alcoolismo, pobreza e desigualdade enquanto inventam regras, personagens e futuros. O documentário se aproxima da infância sem retirar das personagens a capacidade de interpretar a própria realidade. A escolha formal também diz respeito à autoria. Sem transformar as meninas em fontes de depoimentos previsíveis para falar sobre desigualdade, ela deixa que a imaginação delas participe da construção do filme. A máquina do tempo existe porque o cinema permite inventá-la.


Carlos Saldanha chega de Hollywood sem abandonar o Brasil
Carlos Saldanha é o nome que mais desmonta a ideia de que o “novo cinema brasileiro” precisa ser feito exclusivamente por profissionais que começaram recentemente. Diretor de animações como “A Era do Gelo”, “Rio” e “O Touro Ferdinando”, Saldanha construiu durante décadas uma carreira internacional ligada à indústria norte-americana. Em “100 Dias”, porém, retorna a uma história brasileira inspirada na travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul.

O filme acompanha o navegador durante a viagem solitária entre a África e o Brasil e transforma uma experiência real em uma narrativa sobre resistência física, memória e relações familiares. A produção teve première brasileira no Festival do Rio, onde foi escolhida para a Gala de Encerramento. O movimento é curioso porque Saldanha poderia ser apresentado apenas como um brasileiro que fez carreira fora do país. 


Marianna Brennand filma uma infância que já tinha história
Marianna Brennand também construiu sua relação com o cinema a partir do documentário. Em “Manas”, porém, leva para a ficção uma personagem adolescente que vive na Ilha do Marajó. O filme acompanha Marcielle (Jamilli Corrêa), de 13 anos, enquanto ela percebe as limitações impostas às mulheres de sua família e começa a imaginar uma maneira diferente de conduzir a própria vida.

A produção tem uma trajetória internacional expressiva e também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Direção. Brennand também assina a produção do filme pela Inquietude, em parceria com outras empresas brasileiras e portuguesas. A ficha técnica reúne ainda nomes como os produtores associados Jean-Pierre e Luc Dardenne, o que mostra como uma produção brasileira pode estabelecer pontes com outros circuitos de cinema sem deixar de partir de uma história profundamente localizada.

O “novo cinema brasileiro” pode ter sotaques, idades, métodos e até modelos de produção diferentes. O que aproxima esses cineastas não é uma cartilha, mas a disposição de encontrar uma forma própria de olhar para um país que continua oferecendo histórias demais para caber em um único cinema.

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