quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Quem lê, entende: no meu caso, o jornal era um caça-palavras


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Encerro as duas primeiras aulas da manhã e encaro uma “janela” de quase duas horas sem atividades. Primeiro, um respiro de alívio — ou tomada de fôlego — pelos desafios que hão de vir. Com a garrafa térmica em mãos, a fumaça aguça os sentidos que precisam estar despertos. Sento-me calmamente e vou sorvendo cada gole junto com as ideias que ainda não estão aqui. Seria um ótimo momento para escrever, mas estou adiando, pois… você sabe… Forço-me, então, a buscar pelas notícias. Abro portais jornalísticos em busca de assuntos, que não dão conta de uma crônica. Do nacional ao estadual; do regional ao municipal — nada diz o que diria a crônica.

Um deles, porém, apresenta como slogan a frase: “Quem lê, entende”. Pois bem, pus-me a ler.

Havia notícias, claro. Havia reportagens, óbvio. Havia crônicas, por certo. Havia, enfim, um amontoado de palavras (como já disseram por aí) que — juro — li, reli, li novamente e não entendi. “Jornalistas patranheiros!”, bradei baixinho. Como podem afirmar que “quem lê, entende”, se eu, que li e tresli, não entendi patavinas?

Estava prestes a amassar o jornal (se cheiro de jornal sentisse), mas não podia danificar a tela, quando uma matéria me tragou os olhos. O sangue que se espreme sempre de tais folhas não estava ali. Um casal estadunidense do passado comprou um terreno em meio a lagos e florestas para passar o verão. Aquele verão, na verdade, durou a vida inteira que vinha pela frente por culpa de uma coruja-de-chifres. A pobrezinha, ferida, foi levada ao casal, que acabou lhe devolvendo as asas.

Mudança de rota. A temporada de verão tornou-se missão de uma vida toda.

Já eu, não mudo de rota, mas volto ao início. Quem lê, entende. “Jornalistas fidedignos”, sussurrei em alta voz.

O pior cego é aquele que não quer ver, diz a sabedoria popular. A terça-feira modorrenta torrava-me a vista, e as notícias eram nulas ao meu querer. O amargo do café demorou, mas fez efeito. Porque a leitura só faz sentido quando ressoa. Não é à toa que, muitas vezes, um romance seja preterido por um caça-palavras ou deslizar a tela seja mais atrativo que Drummond. Nesse caso, quem lê, não entende mesmo. No meu caso, o jornal era um caça-palavras.

As notícias daquela manhã não bastavam. Eram aquilo mesmo: um amontoado de palavras que precisavam ser buscadas. Mas não seria esse o ofício do cronista: o dever de desentranhar do cotidiano as palavras mais recônditas? Pois pronto! A coruja-de-chifres foi a minha palavra. Ei-la, bela e esvoaçante, cruzando o céu em plena saúde, depois de passar por aquele reduto, ex-rancho de veraneio. E também passar por mim, ex-reduto obscuro aos fatos que merecem ser escritos.

A minha coruja me fez perceber que não se pode apenas caminhar sobre as palavras. Para entendê-las, é preciso mergulhar. Foi assim que pincei, daquele emaranhado de vocábulos, o sentido necessário. Por isso, sou grato à minha coruja. E sou grato também ao jornal, com o qual brado aos quatro ventos: quem lê, entende.

0 comments:

Postar um comentário

Deixe-nos uma mensagem.

Tecnologia do Blogger.