terça-feira, 1 de setembro de 2026

.: "Egoísta" leva mulher negra, viagens e liberdade ao palco da CAIXA Cultural SP


Espetáculo protagonizado por Ana Marlene transforma a história real da cearense Josefa Feitosa em uma conversa sobre maternidade, etarismo e o direito de escolher o próprio caminho

Mochileira, viajante, passageira do mundo. É assim que Josefa Feitosa, ou simplesmente Jô, se apresenta. Aos 64 anos, a cearense de Juazeiro do Norte já passou por mais de 60 países e decidiu fazer da própria vida uma espécie de mapa sem residência fixa. Agora, sua história ganha o palco em "Egoísta", espetáculo idealizado e dirigido por Juracy de Oliveira, com Ana Marlene no papel de Jô. A produção da Peixe-Mulher estreia em São Paulo com temporada de 3 a 13 de setembro, de quinta a domingo, na CAIXA Cultural São Paulo. Depois, segue para a CAIXA Cultural Fortaleza.

A peça parte da trajetória de uma mulher negra que resolveu contrariar o roteiro social reservado à terceira idade. Depois da aposentadoria, Jô colocou a mochila nas costas e saiu pelo mundo. Nada de recolhimento doméstico, rotina engessada ou obrigação de dedicar os dias aos netos. Para ela, a vida continua acontecendo enquanto houver caminho pela frente. "Egoísta" acompanha lembranças da infância, experiências de viagem e episódios da trajetória de Jô, aproximando essas memórias de temas como maternidade e etarismo. A relação com o público também faz parte da proposta, criando um espaço para que a história pessoal da personagem encontre outras experiências.

A montagem ainda oferece atividades complementares durante a temporada paulistana. No dia 5 de setembro, Jô ministra a oficina "A Fantástica Experiência de Viajar Sozinha", voltada para mulheres a partir de 50 anos. A partir da própria experiência como nômade, ela aborda questões práticas das viagens, como utilização de cartão de crédito, comunicação e orientação em diferentes lugares. As sessões dos dias 4 e 11 de setembro terão bate-papo com o público após a apresentação. Já as sessões dos dias 6 e 13 serão acessíveis ao público surdo, com intérprete de Libras.


De assistente social a cidadã do mundo
Jô nasceu em Juazeiro do Norte, é mãe, avó e assistente social por formação. Durante quase três décadas, trabalhou no sistema carcerário cearense, onde se dedicou à defesa dos Direitos Humanos. Também foi uma das responsáveis pela criação de alas exclusivas para pessoas trans no sistema prisional.

Fora do trabalho, criou sozinha três filhos e acompanhou a criação de um neto. A experiência fez com que a própria ideia de liberdade ganhasse contornos particulares. Para algumas mulheres, a maternidade solo também pode assumir a aparência de uma prisão. Depois de se aposentar, Jô decidiu viver como nômade. Passou um ano viajando e, quando retornou, doou tudo o que tinha. Dividiu o patrimônio, organizou a mochila e voltou para a estrada. Desde então, vive onde a mala está.

A tecnologia também entrou no roteiro durante os percursos. Hospedada em hostels e convivendo com viajantes mais jovens, aprendeu a utilizar aparelhos, redes sociais e ferramentas que facilitam a vida de quem não tem endereço fixo. Em troca, compartilhou com os novos amigos outras maneiras de olhar para o mundo. Hoje, suas viagens também podem ser acompanhadas pelas redes sociais, no perfil @joviajando.


Uma história que encontrou o teatro
A transformação da trajetória de Jô em espetáculo começou a partir do encontro dela com Juracy de Oliveira. O diretor conheceu a viajante por intermédio da irmã, que estava se tornando nômade. “Conhecer a Jô foi uma surpresa, a história de vida dela é inacreditável e por ter sido criado em uma família com uma maioria de mulheres, a coragem dela me atravessou, me fez lembrar das mulheres que são referência pra mim. Essa peça parte de um desejo genuíno de homenagear pessoas enquanto estão vivas, ainda que não sejam famosas”, explica Juracy, diretor do projeto.

A história também conquistou Ana Marlene. Com 46 anos de carreira, a atriz, fundadora da Trupe Caba de Chegar - primeiro grupo de teatro de rua de Fortaleza - encontrou em Jô uma personagem capaz de dialogar com sua própria trajetória. "A Jô me inspira. A história dela conta também uma parte da minha: uma mulher negra, que saiu de casa pra viver um sonho, que não teve medo de enfrentar o preconceito, não teve medo de ousar e se aventurar. Mesmo no alto dos seus 50, 60 anos, quando tudo o que a sociedade quer é que você se esconda, ela fez o contrário, apareceu mais ainda e pintou o cabelo de azul", conta a atriz.

"Egoísta" marca o primeiro solo de Ana Marlene, que recebeu indicação ao Prêmio Shell 2024 na categoria Melhor Atriz pela atuação. A produção já passou por mais de dez cidades brasileiras e teve duas temporadas no Rio de Janeiro. A primeira aconteceu em 2024, no Sesc Tijuca, com ingressos esgotados. Em maio de 2026, o espetáculo voltou ao estado e circulou pela capital e pelo interior, passando por seis cidades. Agora, chega a São Paulo com entrada gratuita. Para quem acredita que depois de certa idade o mundo deve ficar pequeno, Jô tem uma resposta prática: basta arrumar a mochila.


Ficha técnica
Espetáculo "Egoísta"
Direção e idealização: Juracy de Oliveira
Concepção dramatúrgica: Juracy de Oliveira e Sara Síntique
Texto: Sara Síntique
Elenco: Ana Marlene
Coordenação de Produção: Luana Caiubi
Coordenação de Comunicação: Renata Monte
Produção: Marisa Bezerra e Rodrigo Ferrera
Maquiagem: Rodrigo Ferrera
Figurino: Cris Rodrigues
Cenário: Li Coelho e Cris Rodrigues
Assistência de Direção: Alda Pessoa
Direção musical: Clau Aniz
Fotos: Matheus Tavares / Karla Brights
Redes sociais: Peixe-Mulher
Design: Lorena Araújo
Iluminação: Tayná Maciel
Realização: Peixe-Mulher

Serviço
"Egoísta"
Datas: 3, 4, 5, 6, 10, 11, 12 e 13 de setembro de 2026
Horário: quinta-feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h
Local: CAIXA Cultural São Paulo — Praça da Sé, 111, São Paulo
Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes do início de cada apresentação, limitados a um por pessoa.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: livre


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