Dirigido por Laurence Dunmore, drama de época acompanha o poeta John Wilmot, vivido por Depp, entre escândalos, sexo, literatura e uma paixão que muda o rumo de sua vida
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
A Inglaterra da Restauração ganha contornos pouco comportados em "O Libertino", drama histórico dirigido por Laurence Dunmore que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado originalmente em 2004, o filme coloca Johnny Depp na pele de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta, aristocrata e personagem célebre por transformar o desprezo pelas convenções sociais em uma espécie de método de vida. Na corte de Carlos II, Rochester circula entre bebida, mulheres, provocações e escritos que incomodam justamente por atingirem quem está acostumado a mandar. O rei, interpretado por John Malkovich, decide recorrer ao velho amigo quando precisa de uma peça capaz de impressionar a corte francesa. A encomenda, porém, encontra um homem muito mais interessado em seus próprios excessos do que em cumprir qualquer obrigação real.
A situação ganha outra dimensão quando Rochester conhece Elizabeth Barry, interpretada por Samantha Morton, uma atriz ainda pouco conhecida que ele decide preparar para os palcos. A relação entre os dois começa como uma espécie de parceria artística, mas rapidamente ganha contornos afetivos e sexuais. Enquanto Lizzie desenvolve uma presença cada vez mais forte como atriz, Rochester segue numa trajetória de autodestruição que cobra uma conta bastante alta.
O filme nasceu no teatro. O roteiro de Stephen Jeffreys é baseado na própria peça "The Libertine", escrita pelo dramaturgo inglês e anteriormente encenada pela Steppenwolf Theatre Company, de Chicago. John Malkovich já havia interpretado Rochester nos palcos e, na adaptação cinematográfica, passou para o outro lado da história ao assumir Carlos II. Além de atuar, o astro também aparece entre os produtores da produção.
Johnny Depp também não teria sido a primeira opção de Laurence Dunmore para o protagonista. A ideia inicial do diretor era contar com o próprio Malkovich como Rochester, antes de o ator assumir o papel do rei. A escolha acabou criando uma curiosa troca de posições entre a montagem teatral e o filme: Malkovich conhecia profundamente o personagem principal, enquanto Depp mergulhou no aristocrata libertino com uma composição que exigia tanto extravagância quanto degradação física.
A proposta visual de Dunmore também foge do acabamento elegante que costuma acompanhar dramas ambientados na aristocracia. O filme foi realizado quase todo com câmera na mão, recurso que aproxima o espectador da sujeira, da fumaça e da desordem daquela Londres. As tomadas panorâmicas do interior do teatro são algumas das exceções e funcionam como uma mudança calculada de perspectiva.
A fotografia de Alexander Melman segue a mesma lógica. Para iluminar determinadas cenas, a equipe criou estruturas com várias velas e uma superfície refletora, batizadas nos bastidores de "birthday cakes". A iluminação precisava produzir luz suficiente sem abandonar a aparência característica de um ambiente iluminado por velas. O resultado divide opiniões até hoje: enquanto alguns espectadores consideram a imagem propositalmente áspera e coerente com o universo de Rochester, outros enxergam excesso de granulação e pouca definição.
A produção também guarda uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas por alguém com senso de humor peculiar. O orçamento registrou £6.890 em óleo vegetal utilizado para produzir fumaça e neblina. A planilha ainda contabilizou £3.672 gastos em 17 pênis artificiais inspirados no século XVII. É o tipo de informação que ajuda a imaginar a quantidade de trabalho necessária para recriar uma época em que o diretor claramente não pretendia esconder os excessos de seu personagem.
A vida de John Wilmot, por si só, já oferecia material suficiente para um filme bastante indigesto. Poeta satírico e figura conhecida pela conduta escandalosa, Rochester morreu aos 33 anos, vítima das consequências de uma vida marcada pelo abuso de álcool e pela sífilis. A reputação literária, contudo, cresceu depois de ele morrer, o que acrescenta uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que tratava a própria existência como uma provocação acabou conquistando reconhecimento duradouro justamente por aquilo que escrevia.
"O Libertino" não tenta tornar Rochester agradável. O próprio personagem avisa o público logo no começo que não quer ser querido. A estratégia reaparece no encerramento, numa construção que aproxima o espectador diretamente do protagonista e reforça a origem teatral do material. Essa escolha foi bastante comentada nas avaliações do filme, com espectadores destacando a força da abertura e da atuação de Depp.
O elenco acompanha a aposta. Samantha Morton encontra em Elizabeth Barry uma personagem que cresce conforme aprende a dominar o palco e, sobretudo, a não se deixar reduzir às vontades de Rochester. Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet, esposa do protagonista, enquanto Tom Hollander vive o dramaturgo George Etherege. Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly e Jack Davenport completam o elenco.
John Malkovich merece atenção especial. Existe algo de deliciosamente contraditório na escalação de um ator que já havia vivido Rochester no teatro para interpretar o monarca que tenta controlar os estragos provocados pelo amigo. Carlos II conhece os excessos do poeta, tolera muitos deles e, ao mesmo tempo, precisa impedir que Rochester leve suas provocações longe demais.
O resultado é um filme deliberadamente desconfortável, com humor ácido, sexo, doença, literatura e uma visão pouco decorativa da aristocracia inglesa. "O Libertino" chegou ao público cercado por opiniões divididas, especialmente em razão da fotografia carregada, do ritmo e da forte presença do texto teatral. Ainda assim, a atuação de Depp aparece como um dos pontos mais elogiados nas avaliações, ao lado do trabalho de Samantha Morton, John Malkovich e da recriação visual do período.
Ficha técnica:
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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