segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: De Ryûsuke Hamaguchi, “O Mal Não Existe” confronta natureza e ganância


Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, drama japonês acompanha comunidade rural ameaçada pela instalação de um empreendimento de glamping e chega à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ryûsuke Hamaguchi troca a atmosfera urbana de seus trabalhos anteriores por uma comunidade rural japonesa em “O Mal Não Existe”, filme que chega ao streaming Reserva Imovision e coloca natureza, interesses econômicos e relações humanas em rota de colisão. Vencedor do Grande Prêmio do Júri, o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2023, o longa-metragem confirma a disposição do cineasta de seguir por caminhos bem diferentes depois do reconhecimento internacional de “Drive My Car”.

A história acompanha Takumi (Hitoshi Omika), pai de Hana (Ryo Nishikawa), uma menina de oito anos. Os dois vivem em Mizubiki, uma pequena vila cercada por florestas, onde o cotidiano segue um ritmo distante da pressa das grandes cidades. Takumi trabalha em diferentes serviços para os moradores e conhece profundamente a região, enquanto Hana circula pela mata e aprende com o pai a reconhecer árvores, animais e caminhos.

A rotina começa a sofrer pressão quando uma empresa apresenta aos moradores um projeto de glamping, modalidade que combina a experiência de acampamento com estrutura e conforto de hospedagem. A proposta pretende atrair visitantes interessados em uma temporada de contato com a natureza, mas esbarra em questões muito concretas: abastecimento de água, tratamento de esgoto, segurança e impacto sobre o ecossistema.

A reunião entre os representantes da empresa e os moradores é uma das passagens centrais do filme. Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (Ayaka Shibutani) chegam à vila para apresentar o projeto e ouvir a comunidade, mas logo percebem que conhecem pouco sobre o lugar onde pretendem instalar o empreendimento. A conversa, conduzida com aparente cordialidade, ganha contornos cada vez mais incômodos à medida que os moradores apontam problemas que deveriam ter sido considerados antes da apresentação.

Hamaguchi não transforma os representantes da empresa em vilões simplórios. Depois da reunião, o roteiro acompanha Takahashi e Mayuzumi em momentos mais pessoais, especialmente durante uma viagem de carro, quando os dois falam sobre trabalho, relacionamentos e suas próprias insatisfações. A mudança de perspectiva ajuda a embaralhar a divisão entre bons e maus e dá ao conflito uma dimensão mais humana.

O diretor já havia demonstrado interesse por personagens que se revelam por meio das conversas, dos gestos e daquilo que deixam de dizer. Em “O Mal Não Existe”, porém, a natureza ocupa um espaço muito maior. A floresta aparece desde os primeiros minutos, acompanhada pela trilha de Eiko Ishibashi, e o filme dedica tempo ao cotidiano de Takumi, aos trabalhos manuais e aos caminhos percorridos por ele e pela filha.

A parceria entre Hamaguchi e Ishibashi começou antes do longa-metragem. A compositora, responsável pela trilha de “Drive My Car”, havia convidado o cineasta para criar imagens que acompanhassem uma apresentação musical ao vivo. O resultado foi “Gift”, projeto inicialmente concebido sem diálogos. Hamaguchi percebeu naquele material a possibilidade de desenvolver uma história e transformou a ideia em “O Mal Não Existe”.

A relação entre os dois projetos é fundamental para compreender a particularidade do filme. A música de Ishibashi não funciona simplesmente como acompanhamento das imagens: ela participa da construção do clima, alternando momentos de serenidade e inquietação. O próprio percurso visual também preserva algo da experiência contemplativa que estava na origem de “Gift”.

A escolha de Hitoshi Omika para interpretar Takumi tem uma história curiosa. Segundo Hamaguchi contou ao Los Angeles Times, o diretor conheceu o ator durante a busca por locações rurais para “Gift”. Omika dirigia o carro que levava Hamaguchi pelas regiões pesquisadas e acabou chamando a atenção do cineasta. Quando recebeu o convite para atuar, Omika inicialmente ficou surpreso.

Outro detalhe pouco convencional está no figurino. Omika usou as próprias roupas durante as filmagens. Hamaguchi também explicou que imaginou Takumi com uma personalidade mais próxima de personagens interpretados por Clint Eastwood ou Charles Bronson, mas percebeu que a suavidade do ator acrescentava outra camada ao protagonista. A produção foi construída a partir de uma pesquisa do diretor por diferentes vilas japonesas. Mizubiki é uma localidade fictícia, composta por características de vários lugares visitados por Hamaguchi durante o desenvolvimento do roteiro. A equipe também filmou em áreas próximas às fronteiras das províncias de Yamanashi e Nagano.

A ameaça representada pelo empreendimento não está limitada à chegada de turistas. O projeto evidencia uma maneira de enxergar a natureza como produto, algo que pode ser organizado, vendido e consumido. A comunidade, por sua vez, conhece o território de outra maneira: a água, a floresta e os animais fazem parte da própria sobrevivência dos moradores.

É  nessa diferença de percepção que Hamaguchi encontra o conflito central. A empresa quer acelerar o projeto para aproveitar subsídios ligados ao período da pandemia, enquanto os moradores observam consequências que não cabem em uma planilha financeira. A situação aproxima o filme de questões contemporâneas sobre desenvolvimento, turismo e exploração ambiental, sem abandonar o interesse do diretor pelo comportamento humano.

A narrativa reserva uma mudança radical para os minutos finais. Depois de acompanhar durante boa parte da projeção a rotina de Takumi, os moradores e o conflito provocado pelo empreendimento, o filme encaminha a história para uma situação de violência e ambiguidade. A conclusão pode causar estranhamento porque Hamaguchi não fecha todas as possibilidades de interpretação. A floresta, a presença de um cervo ferido, o desaparecimento de Hana e a reação de Takumi colocam em primeiro plano uma relação entre instinto, proteção e violência. O que parecia ser uma discussão sobre um empreendimento turístico ganha uma dimensão muito mais sombria.


Ficha técnica
“O Mal Não Existe” | “Aku wa sonzai shinai” (título original) | “O Mal Não Está Aqui” (título em Portugal)

Gênero: drama. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Data de lançamento no Brasil: 1º de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idioma: japonês. Direção: Ryûsuke Hamaguchi. Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Eiko Ishibashi. Elenco: Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryûji Kosaka, Ayaka Shibutani, Hazuki Kikuchi e Hiroyuki Miura. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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