terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Aos 97 anos, Nathália Timberg encara "Fôlego" e reafirma a paixão pelo teatro


Texto inédito de Andréa Bassitt, escrito especialmente para a atriz, acompanha uma veterana dos palcos diante das dificuldades para manter de pé o teatro que construiu ao longo da vida. Foto: Fernando Ocazione

Aos 97 anos e em plena atividade profissional, Nathália Timberg volta aos palcos para protagonizar "Fôlego", espetáculo inédito escrito por Andréa Bassitt especialmente para a atriz. Com direção de Ricardo Grasson, a montagem pode ser assistida no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, onde permanece em cartaz até 13 de dezembro. As atrizes Carla Marins e Rita Elmôr completam o elenco.

Na peça, Nathália interpreta Rosa, uma atriz que fundou um teatro ao lado da irmã e do cunhado, ambos já falecidos. Durante décadas, os três mantiveram o espaço, que acabou se tornando uma referência cultural de sua geração. Com o passar dos anos, porém, Rosa fica sozinha diante das dificuldades financeiras e da falta de recursos para manter o teatro funcionando. 

Escrito especialmente para Nathália Timberg e inspirado em aspectos de sua trajetória, "Fôlego" não é uma biografia. Andréa Bassitt realizou uma pesquisa sobre a vida da atriz para criar uma narrativa ficcional que parte da relação visceral de Nathália com o teatro. “Deixei que a imaginação ficasse livre para falar de uma mulher cuja casa é o teatro, essa foi a essência do texto. A partir desse ponto, deixei que a imaginação fluísse, mas sem perder a conexão com a vida dela, toda dedicada ao teatro que, num sentido metafórico, se tornou sua casa”, explica a autora.

Para Nathália, a relação com os palcos vem de uma vida inteira. “É uma vida inteira respirando teatro. Foi assim que aprendi a estar no mundo e a me comunicar com os que estavam à minha volta. Depois desse tempo longe dos palcos, é como se eu tivesse estado privada de ar e agora, finalmente, pudesse voltar a respirar”, explica.

A dramaturgia também incorpora referências à trajetória da atriz e à história do teatro brasileiro. Uma delas é "Antígona", de Jean Anouilh, protagonizada por Nathália em 1964. Em uma das apresentações daquela montagem, a plateia chegou a se manifestar dizendo “não” a Creonte junto com a personagem. Ricardo Grasson trabalha com Nathália há quase duas décadas e identifica na proximidade entre atriz e personagem uma das camadas mais interessantes da montagem.

“A Rosa mistura muito da história de vida da Nathália e da história do teatro brasileiro. É uma atriz de 97 anos que passou a vida inteira no teatro, vivendo com o teatro e vivendo do teatro. É um pouco o que a Nathália faz hoje: ela não deixa o teatro sair dela”, afirma o diretor. O conflito ganha novos contornos quando Juliana (Carla Marins), sobrinha de Rosa, apresenta uma proposta para vender o imóvel a uma igreja. Laura (Rita Elmôr), afilhada de Rosa e filha de uma antiga camareira do teatro, torna-se uma de suas principais aliadas.

A possível venda do espaço amplia a discussão para a própria sobrevivência dos teatros. A situação vivida por Rosa dialoga com uma realidade conhecida no setor cultural: salas que fecham as portas, dificuldades financeiras e novas formas de consumo disputando a atenção do público com as artes presenciais.

Na encenação, Grasson parte do realismo da dramaturgia e da situação vivida pelos personagens. “O espetáculo fala do passado porque é importante termos consciência dos que vieram antes e do que foi feito antes, para entendermos aquilo que estamos fazendo e o que queremos para o futuro. Pretendo trabalhar de maneira muito realista, porque o texto nos coloca diante daquilo que estamos vivendo. Vamos lidar com o imagético e o lúdico, mas com o pé no chão”, conclui.

Andréa Bassitt amplia a questão para a relação entre arte, sociedade e a condição da própria protagonista. “A arte, por meio do teatro, se comunica diretamente com a plateia, com a sociedade, que é um reflexo das histórias contadas em cena”, afirma. A autora também chama atenção para a idade de Rosa e para a trajetória construída pela personagem ao longo de décadas: “Rosa é uma senhora de 97 anos, que trabalhou a vida toda, fez uma carreira digna, não tem filhos e vê sua vida sendo ameaçada por um sistema que devora os mais frágeis. A luta de Rosa é a luta de todos nós”.

Para Grasson, a presença de Nathália em cena resume uma das questões centrais de "Fôlego": a vontade de continuar. “Ela tem consciência de tudo o que fez e vontade de continuar fazendo até o último dia. É isso que a Nathália pensa hoje: continuar trabalhando, continuar fazendo teatro. A gente vai passar, mas o teatro continua”. Aos 97 anos, Nathália segue fazendo aquilo que a personagem Rosa conhece tão bem: viver do teatro, viver com o teatro e, sobretudo, continuar respirando por ele.


Ficha técnica
Espetáculo "Fôlego"
Elenco: Nathália Timberg, Carla Marins e Rita Elmôr. Texto: Andréa Bassitt. Direção: Ricardo Grasson.
Cenário: Cris Aizner. Figurinos e visagismo: Fabio Namatame. Iluminação: Cesar Pivetti.bTrilha sonora: Aghata. Gerente de captação e casting: Marcus Montenegro. Produção executiva: Rosy Farias.
Coordenação de produção: Andréa Bassitt. Produção/Administração: Oasis Empreendimentos Artísticos Ltda. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.


Serviço
Espetáculo "Fôlego"
Duração: 80 minutos. Classificação: 12 anos. Sesc Santo Amaro | Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro/São Paulo. Temporada: até dia 13 de dezembro. Quintas, sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00. Sessões extras: 13 de novembro, sexta-feira, às 15h00; 4 de dezembro, sexta-feira, às 15h00. Acessibilidade em Libras: 5, 13, 28 de novembro e 6 de dezembro. Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$ 35,00 (meia) e R$ 21,00 (Credencial Plena). Venda disponível on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site da Central de Relacionamento do Sesc e nas bilheterias das unidades.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 21h30; sábado, domingo e feriado, das 10h00 às 18h30. Como chegar de transporte público: 300 metros a pé da Estação Largo Treze (metrô); 900 metros a pé da Estação Santo Amaro (CPTM); 350 metros a pé do Terminal Santo Amaro (ônibus).
Acessibilidade: a praça dá acesso a todos os andares (subsolo, térreo, 1º pavimento e 2º pavimento) do prédio e aos espaços de atividades por meio de dois elevadores. A unidade possui banheiros e vestiários adaptados para pessoas com mobilidade reduzida, espaço reservado no teatro e seis vagas especiais no estacionamento.

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