Documentário de Sepideh Farsi acompanha por videochamadas a rotina de uma fotojornalista palestina em Gaza e ganha outro significado após a morte da jovem
Com a impossibilidade de entrar em Gaza, a cineasta iraniana Sepideh Farsi encontrou no celular uma maneira de se aproximar de quem vivia sob os bombardeios. Foi assim que conheceu Fatma Hassouna, jovem fotojornalista palestina que passou a registrar para Farsi o cotidiano de uma população submetida à guerra. Durante mais de 200 dias, as duas mantiveram contato por videochamadas, trocando imagens, fotografias, mensagens e impressões sobre uma realidade marcada pela destruição.
O resultado dessa relação está em “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”, documentário que chega à plataforma Reserva Imovision. A produção acompanha Fatma entre conversas pela internet e imagens que ela própria registrava em Gaza, enquanto Farsi, do outro lado da tela, tentava manter aberta uma ligação com uma jovem que se tornou os olhos dela naquela região. O formato, aparentemente limitado pelas telas de celulares e pela precariedade das conexões, acaba incorporando ao filme a própria distância física entre as duas.
Fatma fala sobre fotografia, família, alimentação, sonhos e sobre a vontade de conhecer outros lugares. Ao mesmo tempo, relata os efeitos dos ataques que atingem a região e fotografa os escombros ao redor de onde vive. O filme alterna a convivência entre a brutalidade da guerra e os momentos cotidianos das conversas e aproxima o público da experiência de Fatma por meio de assuntos que vão dos bombardeios e das mortes de familiares a poesia, café, roupas e esperanças pessoais.
A câmera de Farsi também permanece consciente da própria posição dela. Muitas imagens são feitas a partir da tela de outro celular, enquanto televisores ligados ao fundo exibem notícias do conflito. A precariedade do sinal, os congelamentos da imagem e o áudio irregular passam a integrar a experiência de assistir ao documentário. Em uma das conversas, quando Farsi manifesta a angústia por não conseguir ajudar a amiga, Fatma responde que o simples fato de ela estar ali, ouvindo, já significa alguma coisa.
A trajetória de Farsi também ajuda a compreender a proximidade entre as duas. Nascida no Irã e radicada em Paris, a cineasta deixou seu país ainda jovem e construiu uma carreira que inclui documentários, ficção e animação. A filmografia dela é marcada pelo interesse por conflitos políticos e pelas experiências de pessoas submetidas a situações de violência e deslocamento.
O filme foi selecionado para a mostra ACID do Festival de Cannes de 2025. A notícia chegou a Fatma em 15 de abril daquele ano. No dia seguinte, ela foi morta, aos 25 anos, junto de familiares, em um ataque israelense contra sua casa, segundo a produtora do filme e o Instituto Moreira Salles. A circunstância altera profundamente a percepção do material registrado durante os meses anteriores: aquelas conversas passam a constituir também o registro de uma vida que foi interrompida.
A morte de Fatma aconteceu antes da estreia em Cannes, mas o documentário preserva sua presença em momentos que vão muito além da condição de vítima de uma guerra. Ela aparece como fotógrafa, jovem apaixonada pelo que fazia, mulher com planos para o futuro e alguém que ainda encontrava espaço para sorrir diante da câmera. É um filme pensado como retrato de uma jovem que também passa a carregar a dimensão de uma despedida.
A escolha estética de Sepideh Farsi dispensa uma estrutura convencional de reportagem. As imagens produzidas por Fatma, os registros feitos pela diretora e as chamadas virtuais constroem um documento marcado pela intimidade. É uma janela para a vida em Gaza durante os bombardeios, realizada a partir das conversas entre as duas. O filme também ganhou reconhecimento em festivais internacionais. Entre as premiações estão o prêmio de Melhor Documentário no Arab Film Festival e o Gold Hugo de Melhor Documentário no Chicago International Film Festival, além de outras seleções e indicações.
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” mantém aberta a conversa entre Sepideh Farsi e Fatma Hassouna. O celular, que poderia ser apenas uma limitação diante da distância, torna-se o instrumento que permite preservar a voz, o rosto e as imagens de uma jovem fotojornalista que continuou fotografando enquanto tentava sobreviver em Gaza.
Ficha técnica
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” | “Put Your Soul on Your Hand and Walk” (título original) | “Com a Alma na Mão, Caminha” (título em Portugal)
Gênero: documentário. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 15 de maio de 2025, no Festival de Cannes; lançamento comercial francês em 24 de setembro de 2025. Idioma: árabe, francês e inglês. Direção e roteiro: Sepideh Farsi. Elenco: Fatma Hassouna e Sepideh Farsi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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