terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Clássico, “Aria” leva ópera ao cinema pelas lentes de diretores consagrados


Clássico de 1987 reúne Robert Altman, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Nicolas Roeg e outros nomes do cinema em dez interpretações visuais de famosas árias

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A ópera ganha imagens bem pouco comportadas em “Aria”, produção de 1987 que reúne dez diretores de diferentes estilos para transformar árias famosas em pequenas narrativas de desejo, ciúme, erotismo, obsessão, violência e humor. O filme, concebido pelo produtor britânico Don Boyd, chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte como uma oportunidade para reencontrar uma experiência cinematográfica tão ambiciosa quanto peculiar.

Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge e Julien Temple receberam liberdade para escolher uma ária e criar uma interpretação visual própria. O resultado passa longe de uma adaptação convencional de ópera: cada segmento encontra sua própria maneira de conversar com a música, muitas vezes abandonando completamente a narrativa original. O projeto reúne, assim, dez curtas que funcionam como um mosaico de linguagens, atmosferas e provocações. O Festival de Cannes selecionou “Aria” para a competição oficial de 1987 e ainda o escolheu como filme de encerramento daquela edição.

A ideia partiu de Don Boyd, produtor que queria aproximar duas de suas paixões, cinema e música, tomando como referência o impacto de “Fantasia”, da Disney, mas trabalhando com atores e imagens em ação real. Cada diretor escolheu uma peça do repertório operístico e recebeu liberdade para criar sua própria leitura. O projeto acabou envolvendo dez diretores de fotografia, 19 estúdios e locações, além de dezenas de atores e centenas de figurantes.

A diversidade de propostas é justamente uma das atrações do filme. Robert Altman revisita “Les Boréades”, de Rameau, enquanto Bruce Beresford trabalha com “Die tote Stadt”, de Korngold. Bill Bryden parte de “I Pagliacci”, de Leoncavallo; Godard encara “Armide”, de Lully; Derek Jarman escolhe “Louise”, de Charpentier; e Franc Roddam mergulha em “Tristão e Isolda”, de Wagner. Nicolas Roeg utiliza “Un ballo in maschera”, de Verdi, Ken Russell aposta em “Turandot”, de Puccini, Charles Sturridge trabalha com “La forza del destino”, também de Verdi, e Julien Temple fecha a seleção com trechos de “Rigoletto”.

O segmento de Godard é um dos exemplos mais curiosos da proposta. Em vez de reproduzir a trama de “Armide”, o cineasta coloca a música como combustível para uma construção visual envolvendo mulheres e fisiculturistas em uma academia. A relação entre corpo, desejo e performance ganha uma leitura tão particular quanto provocadora, característica de um filme no qual nenhum diretor parece disposto a simplesmente ilustrar aquilo que a música já conta.

Nicolas Roeg, por sua vez, leva “Un Ballo in Maschera” para uma fantasia histórica protagonizada por Theresa Russell como o rei Zog I da Albânia. A sequência parte de um episódio real ocorrido em Viena, em 1931, e o reorganiza dentro da lógica delirante e sensual do cineasta. John Hurt, Tilda Swinton, Bridget Fonda, Elizabeth Hurley, Beverly D’Angelo e Buck Henry também integram o elenco dessa experiência que mistura música erudita, cinema autoral e uma boa dose de extravagância.

Outro detalhe saboroso da produção envolve Orson Welles. O cineasta chegou a ser convidado por Boyd para participar do projeto, aceitou a proposta e pediu que o contrato fosse enviado a Los Angeles. Welles morreu antes de assiná-lo. A história ganhou um desfecho macabro quando, segundo o próprio Boyd, o documento acabou encaminhado ao endereço que constava nos papéis - justamente a funerária onde o diretor estava sendo velado.

A estrutura de “Aria” também explica por que o filme continua despertando curiosidade décadas depois. Em vez de procurar uma unidade estética impossível diante de dez realizadores, a produção abraça as diferenças entre eles. Altman, Godard, Jarman, Roeg, Ken Russell e Julien Temple, entre outros, levam para o mesmo projeto suas obsessões, seus métodos e seus modos particulares de filmar. O próprio material de arquivo de Don Boyd mostra que alguns conceitos foram modificados durante a produção, enquanto outros chegaram à tela praticamente como haviam sido imaginados no papel.

A recepção crítica foi dividida desde o lançamento, o que talvez seja uma consequência natural de um filme que reúne propostas tão distintas. Roger Ebert enxergou graça na tensão entre os diretores e suas próprias obsessões, enquanto Janet Maslin, do “The New York Times”, considerou a obra irregular. O tempo, porém, ajudou “Aria” a ganhar espaço como uma experiência cinematográfica singular, especialmente pela reunião de realizadores que dificilmente voltariam a dividir uma produção com tamanha liberdade artística.


Ficha técnica
“Aria” (título original) 
Gênero: Drama, comédia, musical. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 18 anos no Reino Unido; a classificação brasileira deve ser confirmada para a disponibilização no Belas Artes à La Carte.
Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 27 de maio de 1987. Idioma: Inglês, italiano, francês e alemão. Direção: Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge e Julien Temple. Roteiro: Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge, Julien Temple e Don Boyd. Elenco: John Hurt, Theresa Russell, Stephanie Lane, Tilda Swinton, Bridget Fonda, Elizabeth Hurley, Beverly D’Angelo, Buck Henry, Anita Morris, Sophie Ward, Julie Hagerty, Geneviève Page, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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