Da primeira adaptação cinematográfica, em 1965, à minissérie de 1985 e às releituras contemporâneas de Bia Lessa e Guel Arraes, “Grande Sertão: Veredas” continua desafiando quem tenta levar Rosa para outras linguagens
Adaptar “Grande Sertão: Veredas” nunca foi tarefa das mais tranquilas. Publicado em 1956, o romance de João Guimarães Rosa combina uma narrativa cheia de desvios, centenas de personagens, batalhas, deslocamentos pelo sertão, reflexões filosóficas, histórias de amor, violência, religiosidade e uma linguagem que inventa palavras enquanto conta a história de Riobaldo.
Ainda assim, o livro chegou ao cinema menos de uma década depois da primeira publicação. Em seguida, ganhou uma das mais ambiciosas adaptações da televisão brasileira, voltou ao teatro, inspirou experiências audiovisuais de diferentes formatos e, em 2024, chegou novamente aos cinemas pelas mãos de Guel Arraes. A mesma história passou por linguagens muito diferentes sem deixar de provocar novas leituras.
A primeira adaptação cinematográfica de “Grande Sertão: Veredas” chegou aos cinemas em 1965, apenas nove anos depois da publicação do romance. Dirigido por Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira, “Grande Sertão” levou Maurício do Valle ao papel de Riobaldo e Sônia Clara como Reinaldo/Diadorim. Jofre Soares interpretou Zé Bebelo, enquanto Milton Gonçalves e Zózimo Bulbul também estavam no elenco. A Cinemateca Brasileira registra o filme como uma adaptação do romance. Com aproximadamente uma hora e meia, o filme precisava condensar uma história monumental.
A narrativa acompanha Riobaldo, Diadorim e a vingança contra Hermógenes, preservando o eixo de aventura e conflito entre os jagunços. O resultado pertence a um cinema brasileiro que também dialogava com os filmes de cangaço e com o imaginário do sertão que dominava parte da produção nacional naquele período. O romance, entretanto, já apresentava um desafio que continuaria acompanhando todas as versões seguintes: como transportar para imagens uma obra cuja força está tanto no que acontece quanto na maneira como Riobaldo conta o que aconteceu?
A minissérie "Grande Sertão: Veredas" pode ser vista no Globoplay em junho. Na imagem, em destaque entre a figuração, os atores Bruna Lombardi e Tony Ramos. Foto: Globo/ Divulgação
1985: a televisão encara o romance
Vinte anos depois, a televisão brasileira resolveu apostar em uma adaptação de proporções ainda maiores. Exibida pela TV Globo entre 18 de novembro e 20 de dezembro de 1985, “Grande Sertão: Veredas” teve 25 capítulos, com roteiro de Walter George Durst, colaboração de José Antonio de Souza e direção de Walter Avancini. Tony Ramos interpretou Riobaldo e Bruna Lombardi assumiu Diadorim, enquanto Tarcísio Meira viveu Hermógenes e José Dumont interpretou Zé Bebelo.
A produção foi inteiramente gravada em locações do sertão mineiro. A equipe se instalou em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, e aproximadamente duas mil pessoas participaram das filmagens ao longo de 90 dias. O esforço de produção foi tão grande que até o maestro Júlio Medaglia, responsável pela trilha sonora, passou uma semana no local para conhecer aquele universo.
Tony Ramos se preparou fisicamente para o papel, perdeu oito quilos e fez aulas de equitação, rastejamento militar e tiro. Bruna Lombardi também passou longos períodos a cavalo durante as gravações. A escolha de levar a equipe para o sertão não era apenas uma questão de cenário, já que a produção procurava construir fisicamente o mundo dos jagunços, das travessias e dos conflitos que Rosa havia criado na literatura.
Bruna Lombardi encontra Diadorim
A interpretação de Bruna Lombardi tornou-se uma das marcas da minissérie. A atriz contou posteriormente que inicialmente teve dúvidas sobre a própria capacidade em interpretar a personagem, especialmente porque era associada a papéis de perfil mais romântico. Walter Avancini, porém, acreditava que havia nela uma força adequada à personagem.
Na história, Bruna precisava viver Reinaldo, o jagunço conhecido como Diadorim, preservando para Riobaldo - e para o público - o segredo sobre sua identidade. O conflito afetivo entre os dois ocupava o centro da narrativa televisiva. A minissérie também teve uma dimensão histórica própria. O trabalho foi realizado em uma época em que a televisão brasileira ampliava o espaço destinado às adaptações literárias, e “Grande Sertão: Veredas” entrou nesse movimento com uma produção que apostou em locações reais e em uma grande estrutura de filmagem.
Bia Lessa leva Guimarães Rosa para o palco
Bia Lessa leva Guimarães Rosa para o palco
Entre uma versão e outra no audiovisual, o romance ganhou uma importante releitura teatral pelas mãos de Bia Lessa. Em 2017, a diretora estreou no Sesc Consolação, em São Paulo, uma montagem de “Grande Sertão: Veredas” com Caio Blat como Riobaldo e Luiza Lemmertz como Diadorim. Luisa Arraes também integrava o elenco. A montagem tinha aproximadamente três horas, estrutura de arquibancadas e fones de ouvido para o público acompanhar diálogos e trilha sonora de Egberto Gismonti. Bia Lessa não tentou simplesmente reproduzir o sertão no palco.
A encenação trabalhou com atores, animais, plantas e elementos da paisagem, criando uma espécie de ambiente humano em constante transformação. O cenário foi concebido por Paulo Mendes da Rocha, e a experiência aproximava teatro, instalação e artes visuais. A diretora já tinha uma relação anterior com o universo de Rosa. Em 2006, havia criado uma instalação sobre “Grande Sertão: Veredas” para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa. Anos depois, levou novamente o romance ao palco, agora com uma estrutura que colocava o espectador dentro da experiência cênica. A montagem circulou por outras cidades e chegou ao Festival de Curitiba em 2018. O trabalho recebeu o prêmio APCA de melhor direção para Bia Lessa.
Em cena de “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, os atores Caio Blat e Luiza Lemmertz interpretam Riobaldo de Diadorim. Foto: divulgação
“O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”
A relação de Bia Lessa com o romance não terminou no teatro. Em 2018, a diretora filmou uma nova experiência com parte do mesmo elenco. O resultado, lançado posteriormente como “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, não procurou reproduzir o romance inteiro. A própria diretora preferiu definir o processo como uma “transcriação”, termo que indicava uma liberdade maior diante do texto original. Caio Blat, Luiza Lemmertz, Luisa Arraes e Leonardo Miggiorin estavam novamente ligados ao projeto.
As filmagens foram realizadas em 17 dias, e o filme adotou outra relação com a narrativa de Guimarães Rosa, concentrando-se em questões e fragmentos que interessavam à diretora. Essa escolha revela uma possibilidade que as adaptações de “Grande Sertão: Veredas” apresentam com frequência: não tentar carregar as cerca de 600 páginas para uma tela ou um palco, mas encontrar dentro delas uma história, uma imagem, uma relação ou uma pergunta capaz de sobreviver em outra linguagem.
Guel Arraes troca o sertão pelas periferias
Em 2024, Guel Arraes levou “Grande Sertão” aos cinemas com Caio Blat como Riobaldo e Luisa Arraes como Diadorim. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor em parceria com Jorge Furtado. O filme chegou ao circuito nacional em junho daquele ano. A mudança mais evidente está no espaço. Em vez do sertão mineiro e dos bandos de jagunços, a produção apresenta uma comunidade periférica urbana cercada por grandes muros e dominada por organizações criminosas. A guerra entre jagunços ganha outra configuração: policiais e grupos criminosos ocupam o espaço do conflito, enquanto a relação entre Riobaldo e Diadorim continua funcionando como eixo afetivo da história.
Guel Arraes não escondeu a dificuldade de trabalhar com o romance. Em entrevista à CNN, comparou a experiência à adaptação de “O Auto da Compadecida” e explicou que o texto de Guimarães Rosa apresentava uma estrutura muito mais complexa para o cinema. A operação é radical: tirar a história do sertão histórico e colocá-la em um território urbano contemporâneo. O resultado mantém nomes, relações e conflitos fundamentais, mas altera o ambiente em que eles acontecem. Riobaldo continua procurando entender o que sente por Diadorim. A guerra continua existindo. A violência continua organizando as relações de poder. A dúvida sobre o bem, o mal, a coragem, o medo e o desejo permanece.
Do cinema para a televisão outra vez
A história não terminou com a estreia nos cinemas. Em janeiro de 2025, “Grande Sertão” ganhou uma versão em quatro episódios exibida pela TV Globo. A minissérie foi construída a partir do filme de Guel Arraes e de seu roteiro com Jorge Furtado. A mudança de formato permitiu ampliar a experiência da narrativa. Caio Blat e Luisa Arraes permaneceram como Riobaldo e Diadorim, acompanhados por Rodrigo Lombardi como Joca Ramiro, Eduardo Sterblitch como Hermógenes, Luís Miranda como Zé Bebelo, Mariana Nunes como Otacília e Luellem de Castro como Nhorinhá.
Para Caio Blat, que já havia vivido Riobaldo no teatro de Bia Lessa, o personagem representava um retorno particularmente curioso. O ator passou por duas experiências muito diferentes com a mesma obra: primeiro, uma montagem teatral que colocava o público dentro de uma espécie de sertão imaginário; depois, uma produção audiovisual que transferia os conflitos para uma periferia urbana.
Quadrinhos, música e outras veredas
As adaptações não ficaram restritas ao cinema, à televisão e ao teatro. Em 2014, “Grande Sertão: Veredas” ganhou uma versão em quadrinhos com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa. A graphic novel recebeu reconhecimento em premiações voltadas aos quadrinhos, mostrando que a obra também poderia ser reorganizada pela combinação entre desenho, enquadramento e texto.
Na música, o compositor argentino Rufo Herrera criou “Sertão Sertões”, cantata cênica baseada em textos do romance, apresentada em 2001 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A obra reuniu música, teatro, dança e elementos visuais para construir sua própria interpretação do universo rosiano.
Em 2008, a artista Rosângela Rennó criou “Febre do Sertão”, videoinstalação que colocou em diálogo imagens do filme de 1965 e da minissérie de 1985. Em vez de escolher uma adaptação, a obra fez as duas versões se encontrarem, criando um novo trabalho a partir das imagens produzidas por outros artistas.
Não existe uma única maneira de representar o sertão de Guimarães Rosa. O filme de 1965 apostou na aventura e no conflito dos jagunços. A televisão de 1985 construiu uma produção de grandes dimensões diretamente no sertão mineiro. Bia Lessa transformou o romance em experiência cênica, trabalhando com corpos, sons, imagens e espaço. Guel Arraes deslocou os personagens para uma periferia urbana e refez as relações de poder em outro território. São caminhos diferentes para uma mesma obra.
A melhor forma de pensar essas adaptações é perceber o que cada uma escolhe preservar. Algumas ficam mais próximas da trama. Outras se aproximam de personagens específicos. Há aquelas que preferem a atmosfera, uma pergunta ou uma imagem. O livro permanece como ponto de partida, mas cada linguagem precisa descobrir o próprio modo de contar essa história. Setenta anos depois da publicação, “Grande Sertão: Veredas” continua oferecendo material para novas interpretações porque seu sertão nunca coube inteiro em uma única imagem.
Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos
- "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos e abre novos horizontes
- João Guimarães Rosa, o escritor que inventou um sertão universal
- “Grande Sertão” mobiliza personagens que atravessam amor, guerra e destino
- Guimarães Rosa: as paisagens, viagens e lugares que entraram para a literatura
- “Grande Sertão” é teatro, cinema e TV em diferentes versões de Rosa
- Diadorim em cena: Bruna Lombardi, Luisa Arraes e as diferentes faces da personagem
- Setenta anos depois: por que “Grande Sertão: Veredas” continua vivo












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