segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: “Grande Sertão: Veredas” revela as faces de Diadorim nas telas e no palco


De Bruna Lombardi a Luiza Lemmertz e Luisa Arraes, as intérpretes de Diadorim encontram maneiras distintas de representar uma das personagens mais complexas de João Guimarães Rosa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucas personagens de “Grande Sertão: Veredas” carregam tantos segredos quanto Diadorim. Companheiro de jagunçagem, amigo de infância e grande amor de Riobaldo, ela atravessa praticamente toda a narrativa escondendo a própria identidade. Para quem lê o romance, a personagem já representa um desafio. Para quem precisa colocá-la em cena, a dificuldade ganha corpo, voz, gesto, figurino e olhar. Ao longo das adaptações da obra de João Guimarães Rosa, diferentes atrizes encontraram suas próprias maneiras de lidar com essa personagem.

Sônia Clara foi Diadorim no primeiro filme, lançado em 1965. Bruna Lombardi assumiu o papel na minissérie da TV Globo de 1985. Décadas depois, Luiza Lemmertz viveu a personagem na montagem teatral e no filme de Bia Lessa, enquanto Luisa Arraes interpretou a personagem no filme de Guel Arraes, lançado em 2024. São interpretações separadas por décadas, linguagens e propostas estéticas. Em comum, todas precisam enfrentar uma personagem cuja identidade permanece deliberadamente em suspensão durante boa parte da história.


Bruna Lombardi encontra Reinaldo
Em 1985, Bruna Lombardi  recebeu de Walter Avancini a tarefa de interpretar Diadorim na minissérie de 25 capítulos da TV Globo. Tony Ramos vivia Riobaldo, enquanto Tarcísio Meira e José Dumont interpretavam Hermógenes e Zé Bebelo. A produção foi gravada em locações do sertão mineiro e apostou em uma estrutura grandiosa para levar o romance à televisão. A personagem aparecia principalmente como Reinaldo, nome pelo qual era conhecida entre os jagunços. Diadorim era o nome pelo qual Riobaldo a conhecia, numa relação marcada pela amizade, pela cumplicidade e por um sentimento que o próprio narrador demorava a compreender.

A escolha de Bruna Lombardi também contrariava, de certa maneira, a imagem que a atriz tinha naquele momento. Em entrevista concedida anos depois, ela contou que ficou surpresa com o convite de Avancini e que não compreendia inicialmente o que o diretor havia enxergado nela para o papel. A experiência acabou sendo muito mais profunda do que uma composição de personagem. 

Bruna contou que a equipe viveu no sertão durante as gravações e que Avancini buscava um realismo intenso. Para a atriz, permanecer naquele ambiente, sem os confortos habituais, ajudou a compreender Diadorim e o universo de Rosa. Ela definiu aquela experiência como uma “grande viagem da alma”. O resultado entrou para a memória da televisão brasileira. A cena em que Riobaldo descobre a verdadeira identidade de Diadorim, depois da morte da personagem, permanece entre os momentos mais marcantes da minissérie.

Uma personagem que precisava esconder até o corpo
Interpretar Diadorim exige lidar com uma particularidade que vai além do figurino masculino. A personagem precisa convencer os outros personagens e, em boa medida, o próprio leitor, de que é um jagunço. Isso significa construir uma presença que não revele imediatamente o segredo guardado por ela. A questão ganha outra dimensão quando se considera a relação com Riobaldo. O afeto existe, mas não encontra uma forma simples de ser nomeado. 

Riobaldo sente desejo, admiração, amizade e amor por alguém que acredita ser um homem. Diadorim, por sua vez, também vive uma relação afetiva marcada por limites, códigos de honra e pela necessidade de manter a própria identidade escondida. Por isso, cada intérprete precisa trabalhar com aquilo que a personagem mostra e com aquilo que precisa esconder. Na televisão de 1985, essa tensão ganhou a dimensão de uma narrativa seriada. O público acompanhava durante 25 capítulos a convivência entre Riobaldo e Reinaldo/Diadorim até chegar à revelação final. No palco, a experiência seria outra.


Luiza Lemmertz encontra a Diadorim de Bia Lessa
Em 2017, Bia Lessa levou Guimarães Rosa ao teatro em uma montagem que misturava encenação, instalação, música e artes visuais. Caio Blat interpretava Riobaldo, enquanto Luiza Lemmertz  assumia Diadorim. Luisa Arraes também fazia parte do elenco. A montagem colocava os espectadores em arquibancadas e trabalhava com uma estrutura espacial que fazia do próprio ambiente parte da narrativa. A música de Egberto Gismonti e a cenografia colaboravam para construir uma experiência que não pretendia simplesmente reproduzir o sertão descrito no livro.

Nesse espaço, Luiza Lemmertz encontrou uma Diadorim que precisava existir diante do público sem depender dos recursos de uma produção televisiva. O gesto, a voz, o corpo e a relação com Riobaldo ganhavam outra importância. A experiência com a personagem, porém, não terminaria no palco. Em “O Diabo na Rua no Meio do Redemunho”, filme de Bia Lessa inspirado em “Grande Sertão: Veredas”, Luiza Lemmertz voltou a interpretar Diadorim. A montagem teatral também tem outra particularidade interessante: Luisa Arraes estava no mesmo elenco e, anos depois, interpretaria a personagem em uma adaptação diferente, desta vez no cinema, no “Grande Sertão” de Guel Arraes.

Luisa Arraes vive outra Diadorim
No filme “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e lançado em 2024, Luisa Arraes assumiu novamente a personagem. Só que o sertão de Guimarães Rosa já não estava ali da mesma maneira. A produção deslocou a história para uma comunidade periférica urbana, cercada por muros e atravessada por conflitos entre organizações criminosas e forças policiais. Riobaldo continuou sendo interpretado por Caio Blat, que também já havia vivido o personagem na montagem de Bia Lessa. Essa mudança de território altera também a maneira como Diadorim pode ser percebida.

A personagem continua ligada a Riobaldo por uma relação de amizade, desejo e amor. Continua sendo alguém cuja identidade é protegida por um segredo. Continua inserida em uma estrutura de violência e disputa de poder. O que muda é o mundo ao redor dela. Luisa Arraes, portanto, não recebeu apenas a tarefa de interpretar novamente uma personagem conhecida. Precisou encontrar Diadorim dentro de uma adaptação que alterava profundamente o espaço, o tempo e a organização da história.


A mesma atriz, duas experiências
A presença de Luisa Arraes em "O Diabo na Rua no Meio do Redemunho", de Bia Lessa, e em "Grande Sertão", de Guel Arraes, cria uma ponte curiosa entre duas leituras cinematográficas do universo de João Guimarães Rosa. No filme de Bia Lessa, a atriz interpreta Nhorinhá e também Riobaldo jovem, enquanto Luiza Lemmertz assume Diadorim e Caio Blat vive Riobaldo adulto.

Em "Grande Sertão", de Guel Arraes, Luisa Arraes ganha outro papel central: é Diadorim, novamente ao lado de Caio Blat, que interpreta Riobaldo. A mudança de personagem acompanha uma transformação radical na proposta de adaptação. O filme de Guel Arraes desloca a história para um Brasil urbano contemporâneo, no qual a guerra entre jagunços encontra correspondência na violência das grandes cidades.

As duas produções partem de "Grande Sertão: Veredas", mas seguem caminhos próprios. A partir de Bia Lessa, a relação com a obra de Rosa passa pela experiência cênica e pela construção visual de um universo particular. No longa-metragem de Guel Arraes, o romance ganha uma leitura cinematográfica contemporânea, com os conflitos de Riobaldo e Diadorim inseridos em outro território e em outra realidade brasileira. Para Luisa Arraes, o percurso ainda guarda uma particularidade: ela passa de Nhorinhá e do jovem Riobaldo a Diadorim, assumindo diferentes lugares dentro da mesma obra.


Diadorim não termina na revelação
O maior risco ao interpretar Diadorim seja reduzir a personagem ao segredo da identidade dela. A revelação final é fundamental para a narrativa, mas ela não explica sozinha quem é Diadorim. Antes disso, a personagem já demonstrou coragem, lealdade, habilidade para a guerra, capacidade de liderança, dureza e afeto. A identidade escondida interfere em sua trajetória, mas não esgota a personalidade dela, forjando uma complexidade que permite interpretações diferentes.

Na televisão, Bruna Lombardi construiu uma Diadorim marcada pela convivência prolongada com Riobaldo e pela dimensão épica da minissérie. No palco e no filme de Bia Lessa, Luiza Lemmertz encontrou uma personagem inserida numa experiência cênica de grande intensidade física. No filme de Guel Arraes, Luisa Arraes participou de uma releitura que deslocou o universo rosiano para outro Brasil. Nenhuma dessas Diadorins precisa apagar a anterior, já que cada uma pertence ao seu tempo.

Bruna Lombardi também escreveu sobre essa experiência
A relação de Bruna Lombardi com Diadorim não terminou quando as gravações de 1985 chegaram ao fim. Em “Diário do Grande Sertão”, publicado pela Autêntica, a atriz recuperou anotações feitas durante os bastidores da produção. O livro apresenta a experiência de filmar a minissérie, acompanhada de fotografias, desenhos e materiais que ajudam a reconstruir aquele período.

A publicação ganha importância especial dentro das comemorações dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”
, porque permite olhar para a adaptação de 1985 também pelo ponto de vista de quem esteve dentro dela. Bruna não retorna apenas à personagem, mas também ao sertão, à equipe, às filmagens e à experiência de conviver diariamente com um universo que, até então, existia principalmente nas páginas de Guimarães Rosa. É uma espécie de segunda travessia: primeiro, a atriz atravessou o sertão para interpretar Diadorim; décadas depois, voltou àquela experiência pela memória e pela escrita.

Uma personagem que continua mudando
Diadorim sobrevive às adaptações porque não depende de uma única aparência. Sônia Clara, Bruna Lombardi, Luiza Lemmertz e Luisa Arraes encontraram diferentes caminhos para chegar à personagem. A cada nova versão, muda o cenário, muda a linguagem, muda a época e mudam as ferramentas disponíveis para representar aquele universo.

O que permanece é a personagem criada por Guimarães Rosa: alguém que escolheu viver sob uma identidade masculina para escapar do destino reservado às mulheres de seu tempo e que construiu com Riobaldo uma relação que desafia classificações simples. A própria apresentação da personagem na minissérie de 1985 a descrevia como uma mulher que se disfarçava de homem para escapar da condição feminina no sertão. Ela não se entrega inteira de uma vez: nem ao leitor, nem a Riobaldo, nem ao público que a vê no palco ou na tela. Setenta anos depois, ainda existem novas maneiras de olhar para ela.

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