Sete décadas depois da publicação, o romance de João Guimarães Rosa permanece aberto a novas leituras, adaptações, pesquisas e interpretações que mantêm linguagem e personagens em movimento
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Em julho de 1956, “Grande Sertão: Veredas” chegou às livrarias brasileiras. Setenta anos depois, o romance continua sendo lido, estudado, adaptado, encenado, desenhado, filmado e discutido. A distância entre essas duas datas ajuda a dimensionar a permanência de uma obra que nunca se acomodou dentro da própria importância. O livro de João Guimarães Rosa atravessou gerações sem perder a capacidade de provocar estranhamento.
Riobaldo continua contando a história dele, Diadorim permanece escondendo segredos, os jagunços seguem atravessando o sertão e as perguntas sobre amor, violência, fé, destino, coragem, medo e escolha ainda estão abertas. A explicação para a vitalidade do romance é uma: “Grande Sertão: Veredas” não oferece uma leitura única de si mesmo. A publicação de 1956 representou um momento decisivo na trajetória de Guimarães Rosa. O escritor já havia chamado atenção com “Sagarana”, publicado dez anos antes, mas o novo romance ampliou de maneira radical as possibilidades de sua literatura.
A história acompanha Riobaldo em um longo relato sobre a vida entre jagunços, as guerras, as alianças, as perdas e a relação com Diadorim. Só que a aventura nunca aparece separada das grandes questões que ocupam o narrador. Enquanto conta o que viveu, Riobaldo tenta compreender o que fez, o que desejou, aquilo em que acreditou e até onde suas escolhas foram realmente suas. Essa combinação dá ao livro uma característica incomum. Há uma história para acompanhar, mas também há uma linguagem que exige atenção. Há personagens e acontecimentos, mas existe ainda uma voz que pensa sobre tudo isso enquanto narra. O resultado é um romance que permite diferentes portas de entrada.
Um leitor pode chegar pela história de Riobaldo e Diadorim. Outro pode se interessar pelo sertão. Há quem entre pela linguagem, pela filosofia, pela religiosidade, pela violência ou pela própria construção do narrador. Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende essa condição viva do clássico. Para ele, uma obra dessa dimensão não deve ser tratada como peça de museu: cada nova leitura pode recolocar o livro em circulação e fazer com que leitores de épocas diferentes encontrem outras possibilidades na narrativa.
O sertão ficou maior que o mapa
A frase de Riobaldo - “o sertão é do tamanho do mundo” - ganhou uma espécie de vida própria ao longo das décadas. Guimarães Rosa conhecia o sertão mineiro desde a infância, mas também voltou a ele como observador e escritor. Em 1952, acompanhou durante dez dias uma comitiva de oito vaqueiros que conduzia cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. Durante a viagem, registrou palavras, expressões, nomes de lugares, histórias, comportamentos e detalhes do cotidiano, um material que foi transformado pela literatura. No livro aparecem rios, veredas, fazendas, chapadas, animais, vaqueiros e jagunços reconhecíveis. mas também existe também um território interior, feito de dúvidas e decisões, no qual qualquer pessoa pode se reconhecer.
Riobaldo ainda tem perguntas está o tempo todo tentando interpretar os acontecimentos. O homem mais velho que ele se tornou olha para o jagunço do passado e procura compreender o jovem que tomou determinadas decisões. A distância entre experiência e memória produz uma narrativa cheia de dúvidas. Ele acredita que fez um pacto com o Diabo? O destino existe ou é uma explicação que inventamos depois dos acontecimentos? As pessoas escolhem seus caminhos ou apenas descobrem tarde demais aquilo que já fizeram?
Süssekind aproxima Riobaldo de personagens de tradições muito diferentes, como Hamlet, de Shakespeare. A comparação pode parecer inesperada, mas parte de uma ideia simples: a dimensão de um personagem não depende do lugar onde ele vive. Riobaldo pensa sobre a existência com uma intensidade que ultrapassa a classificação de “personagem regional”.
Diadorim continua mudando de rosto
Sônia Clara viveu Diadorim no filme de 1965. Bruna Lombardi assumiu a personagem na minissérie da TV Globo de 1985. Luiza Lemmertz levou a personagem para a montagem teatral de Bia Lessa e depois voltou a interpretá-la no cinema. Luisa Arraes, que também participou da montagem teatral, assumiu Diadorim no “Grande Sertão” de Guel Arraes. A cada versão, a personagem muda de corpo, de ambiente e de linguagem.
A televisão dos anos 1980 encontrou uma Diadorim inserida em uma produção de grandes dimensões, filmada no sertão mineiro. O teatro de Bia Lessa transformou o romance em uma experiência espacial. O cinema de Guel Arraes transferiu os conflitos dos jagunços para uma periferia urbana. As adaptações de “Grande Sertão: Veredas” mostram isso com clareza. O filme de 1965 precisou condensar uma narrativa monumental. A minissérie de 1985 ampliou o tempo e a dimensão da história. Bia Lessa transformou a obra em teatro e instalação. Guel Arraes levou os conflitos do livro para outro território. Também houve quadrinhos, música e videoinstalação. Mas nenhuma dessas versões substitui o romance, já que ajudaram a mantê-lo em circulação.
Setenta anos também cabem em novas leituras
A permanência de “Grande Sertão: Veredas” aparece ainda na quantidade de maneiras encontradas para voltar a ele. Em 2026, a edição especial de 70 anos publicada pela Companhia das Letras ganhou novo projeto gráfico, capa inspirada em trabalho da artista mineira Sonia Gomes, ensaio de Érico Melo sobre o processo de construção do romance e depoimentos de escritores, pesquisadores e leitores. O aniversário também movimenta outras iniciativas, entre elas uma nova edição de “Diário do Grande Sertão”, de Bruna Lombardi, debates e uma versão em audiolivro narrada por Caio Blat.
Na Flip de 2026, mais de 300 pessoas acompanharam a conferência “70 Anos de Grande Sertão: Veredas”, com Itamar Vieira Junior, dedicada à permanência e à força do romance no presente. A quantidade de atividades em torno da obra revela uma coisa curiosa: comemorar 70 anos não significa olhar para trás durante sete dias, pelo contrário, evidencia encontrar novos motivos para voltar ao livro. Existe ainda uma razão menos evidente para a permanência de “Grande Sertão: Veredas”: Guimarães Rosa continua sendo descoberto.
A biografia dele ajuda a entender parte dessa obra. O menino de Cordisburgo que cresceu ouvindo histórias, o médico que percorreu pequenas cidades do interior, o diplomata que viveu na Europa e ajudou a salvar muitas vidas, o homem interessado por idiomas e culturas diferentes e o escritor que voltou ao sertão para recolher palavras e histórias não cabem numa imagem única.
Chamar Guimarães Rosa apenas de escritor regional seria pequeno demais. Colocá-lo exclusivamente entre os autores do modernismo também não dá conta do que ele fez com a linguagem. Transformar “Grande Sertão: Veredas” em monumento literário pode até reconhecer sua importância, mas cria uma distância desnecessária entre o livro e quem ainda não o leu. A literatura brasileira mudou muito desde 1956. Mudaram os leitores, os costumes, as formas de publicação, os meios de comunicação e as maneiras de contar histórias.
O livro hoje pode ser encontrado numa edição comemorativa, discutido em uma universidade, transformado em filme, levado ao teatro, convertido em quadrinhos, ouvido em audiolivro ou apresentado em uma conversa com escritores. Pode chegar ao leitor que conhece Guimarães Rosa desde a escola e também àquele que abre o livro pela primeira vez. A obra sobrevive porque permite essas aproximações sem perder a ´própria estranheza e não precisa ser simplificada para continuar atual. Ele permanece disponível para novas perguntas sem entregar uma interpretação definitiva de si mesmo.
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