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quarta-feira, 11 de março de 2026

.: Entrevista: Babu Santana reflete sobre a polêmica participação no "BBB 26"


Ao analisar a trajetória no programa, ator destaca o que faria diferente. Foto: Globo/ Beatriz Damy

Ator consagrado, Babu Santana se permitiu viver mais uma vez a experiência de participar do "Big Brother Brasil". Seis anos depois de inaugurar o grupo Camarote, o ator virou veterano no "BBB 26" e, nessa nova jornada, acredita que a postura anteriormente “passiva”, como diz, deu lugar a uma posição enérgica de jogo. Foi nesta edição que Babu alcançou a famigerada liderança, realizou o sonho de desfrutar de uma festa a seu gosto e integrou um grande grupo que mais tarde viria a se dividir por divergências internas. O embate do participante com a também já conhecida Ana Paula Renault marcou uma virada em sua trajetória no reality show e contribuiu para sua segunda ida ao paredão, já que a recreadora Milena Moreira definiu em consenso com Jonas a indicação do brother. 

Na berlinda contra Milena e a amiga Chaiany Andrade, o ator acabou eliminado com 68,62% dos votos. Ao analisar a trajetória no programa, Babu destaca o que faria diferente: “Depois da conquista da liderança, eu pisaria mais no freio para poder sair com alguma coisa da casa. Com a condição de ser TOP 10 para ganhar o apartamento, eu desaceleraria aquele embate com a Ana Paula, deixaria o meu incômodo um pouco mais guardado para depois, então, pensar de forma mais tranquila o que fazer com aquela insatisfação”. Na entrevista a seguir, Babu Santana observa como o jogo deve seguir depois de sua saída e conta sobre próximos passos depois do "BBB".

 
Depois de inaugurar o grupo Camarote no "BBB 20", você retornou ao programa como um Veterano nesta edição. Quais foram as maiores diferenças entre essas duas experiências? 

Babu Santana - A maior diferença foi que da primeira vez eu entrei a esmo total, à revelia, a pura atitude de aventura. Não tinha nenhum tipo de malícia nem expectativa. E agora, no "BBB 26", eu acho que eu entro com a intenção de não ser tão passivo. Eu adoto uma postura de jogar, de tretar e acelerar o jogo. Eu vim com esse intuito de ter mais atitude para que o entretenimento se tornasse mais interessante. O "BBB 20" tem o Babu mais passivo e o "BBB 26", o Babu mais ativo.
 

No início da temporada, você chegou a comentar que não sabia como era ser querido dentro da casa, comparando a recepção dos brothers nas duas edições. O que mudou de lá para cá, na sua opinião?
Babu Santana É muito engraçado, porque no "BBB 20", quando eu entrei, eu só sabia quem era a Manu Gavassi. E no "BBB 26", eu já entro com a Solange Couto e o Henri Castelli, que são pessoas que já trabalharam comigo; o Edilson (Capetinha), que é um cara em que eu me amarro pra caramba; a Sol,  que já fez parte do Nós do Morro; a Sarah (Andrade), que em algum momento a gente havia se encontrado aqui fora; o Jonas (Sulzbach)... Ali eu já encontro familiaridades e me sinto mais acolhido logo ao abrir a porta. E por eu já ter esse acolhimento externo eu acho que aquilo se espalhou e me deu um conforto que me incomodou. Eu falei: “Opa, não vim aqui para ficar confortável”. Essa foi a principal mudança. Já no "BBB 20", eu me sentia um bicho acuado.

Acredita ter sido por isso que levou um certo tempo para se estabelecer em um grupo de aliados para jogar? 
Babu Santana Sim. Começou a me incomodar ter o conforto, ainda mais pilhado com a Ana Paula falando que o pessoal estava num resort. Aí eu falei: “Opa, não vamos transformar o 'BBB' num sarau”. Logo ali eu comecei a tentar identificar pessoas com linhas filosóficas e de vida mais compatíveis com a minha e também a tentar entender quem eram aquelas pessoas, sem criar uma panelinha de veteranos. Eu gosto de misturar. Logo cedo a gente começou a entender quem teria a filosofia de jogo parecida e eu acho que isso foi bem interessante.

Você voltou do paredão que eliminou a Sarah Andrade um mês atrás. A que atribui a sua eliminação agora, nessa segunda berlinda?
Babu Santana O ataque em excesso à Ana Paula (Renault). Eu querer trazer uma questão tão complexa em um programa editado num mundo fragmentado. Acho que faltou inteligência emocional nesse quesito. E isso tudo foi desencadeando outros problemas.

Na segunda semana da temporada, você conquistou a liderança pela primeira vez e celebrou bastante essa vitória. Como foi essa experiência?
Babu Santana Foi lindo! Acho que foi a melhor experiência que eu tive nos dois "BBB"s. Quarto do líder, o roupão, o "contato" com as pessoas que eu tinha deixado aqui fora, a festa... Poder celebrar a minha liderança com uma festa que homenageava o grupo que originou toda a minha carreira foi especial. Dessas dores todas, eu vou guardar esse momento bom.

 
Depois de uma briga com o Jonas, você decidiu se aliar à Ana Paula. Mas em determinado momento do jogo, optou por se distanciar dela e da Milena, e também por não falar mais de jogo com o Juliano, que era um de seus principais aliados. Por que tomou essa decisão sem que houvesse uma conversa com o grupo antes? 
Babu Santana A convivência com elas começou a me incomodar e, para que eu não brigasse, eu saí. Para que eu não conflitasse com o Juliano - eu não deixei de jogar com ele - eu falei: “Eu não vou falar mais de jogo com você, mas também não vou participar de nenhuma estratagema que inclua você para votar”. Isso nos afastou, até porque a gente já tinha tido algum tipo de discussão boba ali. E me incomodava muito - foi quase um ciúme - ele estar mais próximo da Ana Paula e não de mim. Depois da insatisfação dela de ter sido tirada da prova do anjo, ele também ficou chateado. Eu falei para ele: “Por que você acha que fui eu que te tirei se foi ela que te chamou e ainda debochou falando que você é o filho do Babu? Por que era óbvio? Desculpa, era óbvio que ela iria te tirar e de repente era até uma forma de te mostrar que você não era prioridade dela”. E aí, como ele disse para mim que não queria mais ver a gente brigando, que era uma coisa que o estava incomodando, eu continuei no jogo com o mesmo foco, que foi até o final. Porém, a minha convivência com a Ana Paula não estava agradável para mim. Como ele optou por ficar com ela - e em termos de jogo fez o certo - eu não quis atrapalhá-lo. Então, eu acho que foram esses exageros, ter jogado toda a minha revolta em cima de uma pessoa só, mas também me recuso a dizer que eu deixei de jogar com o Juliano, porque eu jamais deixaria votarem nele. Inclusive votei quase todas as vezes igual a ele.

Naquele momento você decidiu seguir jogando com Solange Couto, Leandro (Rocha), Chaiany e Breno (Corã). Foram eles seus maiores aliados nesta edição? 
Babu Santana Sobretudo Solange Couto, Boneco e Chaiany. O Breno é uma figura flutuante, um ser humano interessantíssimo. Eu acho que talvez ele consiga se esgueirar e chegar longe. Sabendo aqui da preferência do público, talvez ele não ganhe, mas acho que ele vai conseguir chegar longe.

 
Dentro da casa, você foi visto pelos adversários como uma espécie de “pai” desse terceiro grupo que se formou. Acreditava exercer algum tipo de liderança naquele contexto do quarto “Sonho do Amor”?
Babu Santana Houve uma dinâmica em que a gente tinha que decidir um líder. Quando a gente foi fazer a votação para essa ação, foi solicitado um líder para aquele grupo de pessoas e não fui eu o escolhido. E eu nem questionei ser ou não ser. Eu julgava haver ali pessoas maduras, com exceção da Chaiany que era a mais nova. O momento que talvez eu tenha errado foi a indignação que eu tive com a manipulação da Samira (Sagr) para com a Chai, que a levaria a retirar o anjo da amiga dela (Gabriela Saporito), o que eu achava que seria um erro na linha histórica do jogo da Chaiany. Esse foi o único momento que eu impus uma condição para ela pensar. Eu disse: “Cara, você está jogando o tempo todo com a menina (Gabriela), que te deu o anjo mesmo sendo sua adversária. Você não vai fazer o mesmo? Não vai ser recíproco, por causa de uma pessoa que não está ameaçada? A pessoa fala que tem uma cama vaga lá em cima, diz para você ir para lá, te expulsa e é sua aliada?”. Eu acho que nos dois meses essa foi a única questão na qual eu posso ter influenciado algum jogador. Sobre o resto, eu sempre fui uma pessoa que propõe o debate e que cada um defenda a sua autonomia. Eu não me vejo numa posição de liderança em momento algum.

Olhando para sua trajetória, faria algo diferente, se tivesse a chance?
Babu Santana Faria muitas coisas diferentes. Depois da conquista da liderança, eu pisaria mais no freio para poder sair com alguma coisa da casa. Com a condição de ser Top 10 para ganhar o apartamento, eu desaceleraria aquele embate com a Ana Paula, deixaria o meu incômodo um pouco mais guardado para depois, então, pensar de forma mais tranquila o que fazer com aquela insatisfação.

Que movimentos você vislumbra no jogo a partir da sua saída?
Babu Santana Eu acho que a galera vai ter uma certeza da força da dupla Milena e Ana Paula. Eu acho que eles vão se inclinar mais a essa dupla e a esse estilo de jogo. Eu espero que a Solange e o Boneco não cometam os mesmos erros que eu.

E para quem fica a sua torcida?
Babu Santana Para a Chaiany.

O que deseja realizar profissional e pessoalmente após essa segunda passagem pelo reality?
Babu Santana Eu vou me concentrar para exercer uma nova função na minha profissão, que é dirigir um projeto, e também pretendo voltar à direção do Nós do Morro. 

domingo, 8 de março de 2026

.: Maxiane Rodrigues relembra alianças, avalia conflitos e conta quem quer levar


Após deixar o “BBB 26”, Maxiane Rodrigues relembra alianças, comenta os principais embates do jogo e revela quais amizades pretende manter fora da casa. Foto: 
Globo/ Beatriz Damy


Eliminada do “BBB 26” com 63,21% dos votos, Maxiane Rodrigues deixou a casa mais vigiada do país após enfrentar um paredão disputado contra Milena Moreira e Chaiany Andrade. A votação mobilizou o público e alcançou 3 milhões de CPFs únicos, tornando-se a maior desde a implantação do sistema que separa voto de torcida e voto único. Natural de Nazaré da Mata, em Pernambuco, a influenciadora digital faz um balanço de sua trajetória no reality, revisita alianças, comenta rupturas estratégicas e reflete sobre os conflitos que marcaram sua participação. Na conversa a seguir, Maxiane também fala sobre os aprendizados que leva da experiência e revela quais amizades pretende cultivar fora da casa.
 

Quais foram os momentos mais especiais do "BBB" para você?
Maxiane Rodrigues - Fazer alianças que se transformaram em amizades que quero levar para a vida toda foi muito especial. Entre elas, destaco a de Sarah e a de Marciele, que foram grandes parceiras minhas. Um dos pontos mais incríveis do programa também foi ser Líder, porque é o ápice do reality. Viver tudo aquilo foi extraordinário. A minha festa também foi marcante, pois me ajudou a me reconectar com minha identidade e origens. Em algum momento do jogo, a gente acaba se perdendo, porque a dinâmica nos faz focar demais no jogo. Mas quando olhamos para as fotos e lembramos de onde viemos, isso nos faz relaxar e sentir em casa. Sempre tive curiosidade sobre as festas do "BBB" e foi muito especial participar delas, conhecer os cantores de perto e viver todas as dinâmicas.


E os mais desafiadores?
Maxiane Rodrigues - Os momentos mais desafiadores foram lidar com a hostilidade. Aqui fora, quando não nos damos bem com alguém, simplesmente nos afastamos. Lá dentro, isso não é possível, e os embates acabam acontecendo. Muitas vezes falamos coisas que não deveríamos, por causa da raiva e da pressão. Além disso, a imprevisibilidade das dinâmicas também foi difícil. Em um dia pode haver um “sincerão” pesado, e no outro algo mais leve, o que muda completamente o clima da casa. Outro desafio foi ter que votar e tirar o sonho de alguém. Cada pessoa ali é vitoriosa e merece estar naquele lugar, então machucar e ser machucada fez parte dos momentos mais difíceis para mim.


Você começou o jogo em um grupo e depois acabou indo para o outro lado. Por que optou por esse movimento? Houve algum momento de virada?

Maxiane Rodrigues - O momento de virada foi a prova do Líder, mas isso já vinha acontecendo gradualmente. Eu e Marciele nos identificávamos mais com a forma de jogar de um grupo, especialmente com Sarah, com quem me conectei muito. Aos poucos, fomos nos afastando do outro grupo, e chegou um momento em que era preciso tomar decisões. A prova do Líder apenas consolidou essa escolha. Eu não queria ficar em cima do muro; preferia jogar com pessoas com quem me identificava, mesmo correndo o risco de sair. O "BBB" é muito sobre o dia a dia e a convivência, e foi isso que nos levou a essa mudança.

Nos últimos dias, também houve um rompimento da sua aliança com Breno e Marcelo. Por que acha que isso aconteceu? 
Maxiane Rodrigues - Eu e Marciele nos identificávamos mais com Sarah, Sol, Cowboy e Jonas, enquanto Breno e Marcelo tinham afinidades com Babu, Juliano e Boneco. Essa ruptura foi acontecendo gradualmente, não de forma repentina. O jogo exige que, muitas vezes, passemos por cima de sentimentos para seguir nossas razões, porque no final só um vence, só um sai no paredão. Cada um tomou suas decisões, pensando em si, e tudo bem.

Quando o Marcelo foi eliminado, você chorou a saída dele, embora já não estivessem mais jogando juntos. Sentiu-se culpada pela eliminação dele?
Maxiane Rodrigues - Quando ele saiu, foi um choque. Eu realmente não acreditava que ele fosse sair, e acho que ninguém na casa imaginava. Todo mundo lá dentro acreditava que ele movimentava o jogo, que articulava, tinha presença, opinião e boas relações. Então, imaginávamos que ele protagonizava e jamais sairia. Eu até falei para ele, minutos antes, que não iria sair. Quando anunciaram o nome dele, eu pensei: “Ué, Nossa Senhora!”. A gente acaba se sentindo culpada de alguma forma, embora ele já tivesse embates com Jonas. Se Jonas o colocou, é porque tinha motivos para isso. E se o Marcelo saiu, foi porque o público quis que ele saísse. Não era minha responsabilidade. Só que eu só consegui entender isso ao longo dos dias, porque lá dentro todo mundo acreditava que era paredão falso, inclusive o meu. Ficamos naquela expectativa de que ele voltaria. Eu sou muito emoção e agi com o coração. Por mais que uma pessoa saia pela porta, você não deseja mal a ela. A gente conhece as histórias das pessoas, e quando alguém sai, é também um sonho que vai embora, junto com seus propósitos e objetivos. Sofri muito com a saída dele porque não queria que acontecesse, embora todas as dinâmicas sejam cheias de surpresas. Fui pega de surpresa no contragolpe. Mesmo que tenhamos nos afastado, eu jamais desejaria que ele estivesse fora da casa. Desejava que continuássemos juntos ali, mesmo jogando em lados opostos. Isso vem do fundo do coração.. 


Enquanto eles se afastavam, Jordana acabou se aproximando de você e da Marciele. As duas foram suas maiores aliadas no reality?

Maxiane Rodrigues - A Jordana era parceira da Aline, que saiu, e depois da Sol, que também saiu. Ela sempre deixava claro que estava ali e poderia jogar com a gente. Minha relação com a Jordana e com a Marciele foi acontecendo de forma gradativa, e chegou um momento em que precisei decidir se jogava ou não com ela. Foi uma excelente decisão, porque Jordana é uma mulher inteligente, articulada e que vai para o embate sem abaixar a cabeça. Às vezes eu até dizia: “Jordana, menos, segura um pouco a onda”, porque ela é intensa e enfrenta tudo de frente. Temos histórias e profissões parecidas, e antes de sair ela me disse que me admirava muito. Isso foi especial, porque sempre quis que minhas conexões fossem naturais e não forçadas.

Seus embates com a Ana Paula fizeram parte da rotina da casa nas últimas semanas. Na sua opinião, o que provocou esses conflitos?
Maxiane Rodrigues - Foram as diferenças de pensamento e de forma de jogar. Ela já tem experiência, é uma mulher inteligentíssima e estratégica, com sua maneira própria de se posicionar. Eu tenho a minha forma de ver e de jogar. Por sermos muito diferentes, o afastamento aconteceu naturalmente. Em alguns posicionamentos, ela tinha total razão, mas só conseguimos enxergar isso depois que saímos, porque viver e assistir são coisas bem diferentes. Esses embates refletem personalidades distintas, e no BBB é inevitável ir para o confronto.

Por diversas vezes o seu grupo especulou que os eliminados às terças-feiras estariam em paredões falsos, o que não aconteceu. As eliminações não davam nenhuma pista do jogo para vocês lá dentro?
Maxiane Rodrigues - Não. Por exemplo, o discurso da Sarah foi tão suave que acreditávamos que ela ficaria. Eu a via como uma pessoa coerente, cautelosa, gentil e cuidadosa com o que dizia. Ninguém imaginava que ela fosse sair. Ficamos sete dias esperando que fosse um paredão falso. Lá dentro, todos estavam sempre com essa expectativa, mas nunca se confirmava.

Com que participantes deseja manter amizade fora da casa?
Maxiane Rodrigues - Estou com o coração muito tranquilo. Lá dentro sempre falei que, apesar dos conflitos, mágoas e ressentimentos, tudo ficaria naquela porta para dentro. Aqui fora quero levar apenas coisas boas. Quem quiser se aproximar de mim, estou de coração aberto; quem não quiser, está tudo bem também, porque cada um sente e reage de uma forma. Há muitas pessoas que quero levar para a vida: Marciele, Jordana, Breno, Babu, que é um cara que respeito muito, Chai, que tem uma história magnífica, Gabi, Cowboy... Enfim, muita gente. Mas isso precisa ser recíproco. Eu estou de peito aberto, porque tudo que foi ruim ficou lá dentro. Aqui é vida real.

Que aprendizados carrega dessa experiência?
Maxiane Rodrigues - Foram muitos aprendizados. Aprendi a falar menos e ouvir mais. A julgar menos. Muitas vezes é melhor refletir antes de falar ou decidir se vale a pena bater de frente. Esses são aprendizados que quero levar para a minha vida.

Já conseguiu assimilar o que muda na sua vida depois da passagem pelo "BBB"? Pretende seguir atuando como influenciadora digital?
Maxiane Rodrigues - Estou assimilando tudo aos poucos, porque é uma bomba de informações. Saímos de lá vulneráveis e desestabilizados, com a frustração de sair sem o prêmio. Acho que ainda não consegui absorver nem 10% de tudo. Mas eu amo trabalhar com o que faço. Já atuava como influenciadora na minha região, e até o Gil comentou isso no bate-papo. Quero continuar nesse caminho, mas também quero investir no meu negócio como empreendedora. Trabalhar é minha fonte inesgotável de energia e vigor, é o que me ajuda a perceber quem eu sou e aonde quero chegar. Então, quero seguir tanto como influenciadora quanto como empreendedora. Para mim, está tudo certo. É isso que eu quero. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

.: Katia Simões e Roberto Prioste dizem porque Love Story desafiou o moralismo


Em entrevista, Katia Simões e Roberto Prioste revelam como a Love Story se tornou patrimônio afetivo da noite paulistana e por que um lugar assim talvez hoje não sobrevivesse à era da vigilância digital. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Durante mais de duas décadas, a Love Story ocupou um endereço físico no centro de São Paulo - mas construiu algo muito maior do que uma pista de dança. Entre a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, a casa atravessou transformações urbanas, crises econômicas, mudanças de comportamento e revoluções tecnológicas sem perder aquilo que a tornaria lendária: a capacidade de reunir, no mesmo espaço, fama e anonimato, desejo e discrição, excessos e códigos próprios de convivência.

Ali, travestis dividiam a pista com empresários, jovens anônimos dançavam ao lado de celebridades internacionais e mulheres frequentavam sozinhas um ambiente que, para muitos, ainda carregava o estigma da noite. Havia exageros, contradições, episódios que hoje seriam lidos sob outras lentes morais e, sobretudo, uma sensação rara de liberdade compartilhada. A Love Story era um microcosmo da São Paulo que fervia depois da meia-noite.

Agora, essa memória ganha registro no livro "Love Story - A Casa de Todas as Casas", biografia não autorizada escrita pelos jornalistas Katia Simões e Roberto Prioste. Construída a partir de mais de 25 horas de depoimentos, a obra evita tanto a romantização fácil quanto o julgamento retrospectivo. Em vez disso, propõe um mergulho documental nos bastidores de um espaço que se tornou patrimônio afetivo da cidade e que talvez só pudesse existir antes da era da vigilância permanente.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, Katia Simões e Roberto Prioste falam sobre os riscos de narrar uma história sem controle institucional, os silêncios que encontraram pelo caminho, a fama de “puteiro” que o livro confronta e a pergunta inevitável: a Love Story acabou porque o tempo mudou - ou será que o tempo mudou porque lugares como a Love Story deixaram de existir? Compre o livro "Love Story - A Casa de Todas as Casas" neste link.

Resenhando.com - Ao optar por uma “biografia não autorizada”, vocês se libertaram de controles, mas também assumiram riscos. Em algum momento pensaram: isso aqui talvez não devesse ir para o papel e decidiram ir mesmo assim?
Katia Simões - A intenção sempre foi retratar um ícone importante da noite paulistana, e não invadir a vida pessoal dos frequentadores e das pessoas envolvidas no negócio, muito embora seja natural que, em alguns momentos, seja difícil realizar essa separação.
Roberto Prioste - Usar a expressão uma “biografia não autorizada” foi uma necessidade. Alguns relatos se referiam a terceiros. Embora a maioria das histórias foi checada, há ótimos relatos que não conseguimos cruzar as informações. Mesmo assim foram mantidos. Um exemplo é o caso do frequentador que se passava por delegado de polícia e certa vez levou na conversa até o Delegado Geral.


Resenhando.com - A Love Story aparece no livro como um território onde fama e anonimato coexistiam sem hierarquia. Hoje, numa era de stories, câmeras e vigilância constante, um lugar assim ainda seria possível?
Katia Simões - Não existe mais anonimato, vivemos num eterno Big Brother desde que as redes sociais ganharam voz e os celulares registram cada passo. Enquanto os flagrantes eram feitos apenas com máquinas fotográficas, os seguranças davam conta de inibir os “bisbilhoteiros” já na revista. Depois, com a chegada dos celulares, a tarefa ficou mais árdua, até se tornar impraticável. Não há mais espaço para uma casa noturna com o perfil do Love Story, tanto pela mudança dos costumes, quanto pelo uso massivo da tecnologia.
Roberto Prioste - Entendo que não. Hoje vivemos num mundo cercado por olhos e ouvidos eletrônicos.


Resenhando.com - O livro evita romantizar a noite, mas também não a demoniza. Como foi o equilíbrio entre documentar excessos e preservar a potência libertária que a Love Story representava?
Katia Simões - A noite abordada no livro, que é a da música, da diversão, do lazer, da paquera, não tem de ser demonizada. O que procuramos traduzir foi a atmosfera noturna paulistana que não existe mais. Vale observar que o que hoje é excesso, naquela época não era visto como tal, o que não significa que não havia. O livro retrata passagens envolvendo drogas, bebedeiras, brigas e até armas dentro do contexto da época.
Roberto Prioste - Foi justamente documentando excessos (bebidas/substâncias/atitudes) que conseguimos preservar a potência libertária. Porque a abordagem ousada, por exemplo, ao mesmo tempo em que era tolerada pela sociedade, no Love era combatida. Não era não! Várias mulheres contam passagens que confirmam essa postura e por isso se sentiam livres naquele ambiente.
 

Resenhando.com - Entre mais de 25 horas de depoimentos, o que chamou mais atenção: o motivo das pessoas que não quiseram falar ou o das histórias que nunca haviam sido ditas antes?
Katia Simões - Acredito que as duas coisas. Recebemos com surpresa a negativa de vários grupos, que eram assíduos frequentadores da casa, como os jogadores de futebol. Embora suas passagens foram registradas na mídia, preferiram ficar calados. Histórias surpreendentes também vieram à tona e nos ajudaram a rechear a narrativa.
Roberto Prioste - Na minha percepção, sem dúvida, foram as histórias nunca contadas. Ainda que reveladas sob pseudônimo ou aquelas em que preservamos a identidade do famoso ou do empresário.


Resenhando.com - A Love Story atravessou Boca do Lixo e Boca do Luxo. Em que momento vocês perceberam que estavam contando, na verdade, uma biografia da própria São Paulo e não apenas de uma boate?
Katia Simões - Porque a Love Story era um recorte de um retrato maior do que acontecia na noite, na sociedade e na São Paulo das décadas de 1990 e 2000. Ali estavam representados os perfis e trajetórias mais diversos. Homens, mulheres, nativos e estrangeiros, migrantes e imigrantes, homossexuais, prostitutas, doutores, banqueiros, trabalhadores da noite, artistas, ricos e pobres, como acontece na capital que abraça a todos.
Roberto Prioste - Foi quando as pessoas começaram a verbalizar, para além das histórias de azaração, o carinho com a Love Story. Quando revelavam memórias incrivelmente emocionais. Foi aí que percebemos que estávamos diante de um patrimônio imaterial da cidade de São Paulo.


Resenhando.com - Muitos relatos apontam a Love como um espaço de igualdade radical, onde roupa, profissão ou status social não importavam. Isso era um projeto consciente da casa ou um efeito colateral da noite bem vivida?
Katia Simões - Não acredito que seja um projeto consciente, mas resultado dos sentimentos de liberdade e alegria que as pessoas dividiam na pista. Na LS todos eram recebidos da mesma maneira, com as honras da casa.
Roberto Prioste - Não foi consciente, por óbvio. Entendo que ninguém constrói sozinho - e aqui eu me refiro à alma do Love, o tio João - um espaço tão democrático. Mas foi, efetivamente, o efeito colateral de uma atitude coletiva: receber e tratar bem a todos. Existe uma frase lendária que resume tudo. No Love ia do porteiro ao Garnero (Álvaro).


Resenhando.com - O pacto de discrição parece ter sido um dos grandes segredos da Love Story. O que esse cuidado com a privacidade revela sobre a relação entre desejo, liberdade e espetáculo naquela época?
Katia Simões - Até a chegada da internet o pacto da discrição funcionou. Não era permitida a entrada com máquina fotográfica, filmadoras, os seguranças barravam. Com a chegada dos celulares, contudo, ficou impossível controlar, restringir ao Love o que acontecia no Love.
Roberto Prioste - Estamos falando de um pacto não escrito. A certeza do anonimato (não se entrava com máquinas fotográficas) fazia com que jovens e casais abastados, do interior e da capital, se divertissem tranquilamente juntos e misturados com garotas de programa, malandros. Sem falar nas damas da sociedade e de casadas que iam ao Love viver fantasias, dançar nos famosos queijinhos (os pequenos palcos) sem qualquer pudor. Isso é bastante revelador.


Resenhando.com - Ao ouvir depoimentos tão diversos - de artistas a frequentadores anônimos -, houve alguma versão da Love Story que contrariou frontalmente a memória afetiva que vocês mesmos tinham da casa?
Katia Simões - A memória afetiva e a ligação com a Love Story entre quem viveu a casa nos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000 é muito diferente das recordações de quem frequentou a pista nos seus últimos anos. Talvez esteja aí alguns pontos contraditórios.
Roberto Prioste - Pelo menos duas gerações passaram pela Love Story. A do Love raiz, da década de 1990, e a do gourmet, após 2010. É claro que quem viveu uma, estranha a outra. Pessoalmente, ao ouvir alguns relatos, revisitei memórias de quando era um jovem estudante e circulava de vez em quando pela Boca do Luxo. Calçadas cheias, neon, paqueras, carros em baixa velocidade. Estava tudo lá. Agora, existiu a fama, quase senso comum, de que o Love era um puteiro. Nesse ponto o livro vai contrariar a percepção de muitos, principalmente daqueles só conheceram o Love por fora.


Resenhando.com - O livro documenta uma época em que a noite era lugar de invenção social. Vocês enxergam a Love Story como um espaço político, mesmo sem jamais se assumir como tal?
Katia Simões - Era um espaço de contestação de costumes, não de política. Bem diferente dos tempos atuais de polarização em todos os lugares.
Roberto Prioste - O livro cobre um longo período. Portanto, diverso social e politicamente. Não ouvimos relatos que corroborem com a tese, a não ser na questão de costumes. Mas podemos entender como um ato político o fato de mulheres frequentarem o Love sozinhas, sem medo. Ou trans e travestis expressando preferências e condutas sem qualquer repressão.


Resenhando.com - Depois de escrever "A Casa de Todas as Casas", o que ficou mais evidente: que a Love Story acabou porque o tempo mudou ou que o tempo mudou porque lugares como a Love Story deixaram de existir? As pessoas mudaram de lá para cá? 
Katia Simões - O LS acabou porque o tempo mudou, os costumes são outros, a tela do celular encurtou distâncias, mudou a maneira como as pessoas se conhecem e se relacionam. A noite, assim como a cidade, se tornou mais violenta. Hoje, as pessoas estão menos tolerantes, mais preconceituosas e pouco dispostas a saírem da própria bolha. Embora se fale tanto de diversidade - mais na teoria, do que na prática -, o Love por décadas fez da diversidade uma marca registrada.
Roberto Prioste - Acabou porque os tempos são outros. E não estou olhando para a degradação do centro ou para a violência. Hoje, ninguém precisa sair de casa para paquerar, comer ou se divertir. Está tudo na palma da mão. E sim, as pessoas mudaram. Tanto que sentimos necessidade de alertar o leitor sobre termos usados por entrevistados que denotam cargas de machismo, homofobia, enfim... Conceitos e posições comuns e aceitáveis à época, mas que hoje são impensáveis.


.: Entrevista: cantora Claudya completa 60 anos de carreira com novo show


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

A cantora Claudya está completando 60 anos de carreira com um novo show em que revisita as canções que marcaram a sua trajetória. Ela construiu um percurso singular na música popular brasileira, transitando com naturalidade entre o samba, a bossa nova, o soul, a canção romântica e a música internacional. Dona de uma voz marcante, de timbre quente e fraseado preciso, ela se destacou desde cedo não apenas como intérprete, mas como uma artista atenta ao tempo histórico, às transformações estéticas e às múltiplas linguagens da canção brasileira. Em entrevista para o portal Resenhando.com, Claudya conta algumas de suas passagens e a sua expectativa para reencontrar o público na nova turnê. “Levarei para o palco o melhor das canções que gravei”.

Resenhando.com - Desde quando você sentiu que entraria no mundo da música?
Claudya -
Desde menina. Lembro que a primeira vez que cantei foi em uma festa, com meu tio ao violão. Ao ouvir as palmas no final, senti que aquilo era o que queria fazer. E o interessante é que antes eu queria ser bailarina. O Ballet perdeu uma dançarina, mas acabou ganhando uma cantora


Resenhando.com - Você é reconhecidamente uma autodidata como intérprete. Como você cuida de sua voz?
Claudya - 
Eu passo por acompanhamento de uma fonoaudióloga, que sempre me recomenda alguns exercícios para manter a voz. E evito bebida alcóolica e o cigarro. Procuro viver para a minha arte de cantar.


Resenhando.com - Como você  está preparando esse show para a turnê?
Claudya - Terei uma banda com nove integrantes. Os arranjos serão do Alexandre Vianna e terei a alegria de contar com minha filha, Graziela Medori no backing vocals. Para o show em São Paulo convidei a Alaíde Costa, que além de ser uma pessoa da melhor qualidade, ainda continua cantando muito bem. E convidei também o Ayrton Montarroyos, que representa com louvor a nova geração de intérpretes. Ele é muito talentoso e vai brilhar cada vez mais. Vou repassar alguns momentos importantes, como o repertório dos três discos que gravei pela Odeon entre 71 e 73. Essas são canções que marcaram a minha trajetória na música.


Resenhando.com - Você tem uma relação direta com os festivais de música.
Claudya - Em todos em que estive, consegui sempre classificar a canção ou ganhar como melhor intérprete. Teve um festival  na década de 70 na Grécia em que cantei Minha Voz Virá do Sol da America, dos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Valle. Gnhamos o primeiro lugar.


Resenhando.com - E foi marcante também a sua participação no musical Evita. Como foi essa experiência?
Claudya - Foi em 1983. Titubeei muito para aceitar, porque não era atriz e sabia que seria comparada a Bibi Ferreira e Marília Pêra. A trilha sonora era dificílima. Mas valeu a pena.  O esforço foi recompensado com elogios da crítica, capas em jornais e revistas e indicação ao Prêmio Molière.


Resenhando.com - E a turnê começa em São Paulo. Há planos de estender para outras localidades?
Claudya - Com certeza. A estreia será na Casa Natura, em São Paulo. Mas estamos acertando algumas apresentações em unidades do Sesc. Quem sabe conseguimos uma data no Sesc de Santos, que tem um teatro maravilhoso? Quero levar esse repertório para o maior número de pessoas que for possível.  E agradeço a todos que ajudaram a divulgar essa apresentação. Será um momento mais do que especial.

"Com Mais de 30"

"Deixa Eu Dizer"

"Pois É Seu Zé"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

.: Entrevista: Marcelo Alves, do "BBB 26": "Meu maior adversário fui eu mesmo"


Ao relembrar a trajetória no reality show, ele reconhece erros cometidos no programa e afirma que deveria ter se expressado mais. Foto: Globo/ Beatriz Damy

Da casa de vidro para o "BBB 26", Marcelo Alves foi eliminado no quinto paredão da temporada, com 68,56% dos votos, na última terça-feira, dia 17 de fevereiro, em uma disputa contra Solange Couto e Samira Sagr. Ao relembrar a trajetória no reality show, ele reconhece erros cometidos no programa e afirma que deveria ter se expressado mais. "Senti falta de externar meus pensamentos. Era importante que o público soubesse o que eu estava pensando. Algumas atitudes me irritavam, mas eu não falava. Planejava conversar com Ana Paula antes do paredão para mostrar que estava com eles, mas não fiz. O rompimento com Maxiane e Marciele apenas confirmou o que eu já pensava, mas não estava mostrando para fora. Na minha cabeça, eu estava bem-posicionado, mas não deixei isso claro para o público, que era o principal", observa. Em entrevista, o ex-participante analisa os fatores que atrapalharam a permanência dele na competição e faz um balanço de sua passagem pelo programa. Marcelo também revela o que teria feito de diferente e como seria seu pódio com quem ainda segue na disputa.


Como resume o que foi o "Big Brother Brasil" para você? 
Marcelo Alves - O "BBB", para mim, foi a realização de um sonho. Eu me inscrevo desde 2014. Sei que tive minhas flutuações no jogo. Não consegui me mostrar por inteiro, tive minhas falhas e consigo reconhecê-las. Dentro da casa já percebia isso, e aqui fora só se confirmou. Mas estou muito feliz, viveria tudo de novo. Se fosse chamado novamente para participar, iria com outros olhos, com outra garra, com um posicionamento diferente e sendo 100% eu. Acredito que não consegui entregar totalmente quem eu sou.


Quais foram os erros e acertos dessa experiência?
Marcelo Alves - Erro foi não ter conseguido me doar 100% por causa de medos e inseguranças relacionados à minha sexualidade. Eu tinha muito receio de como isso iria repercutir aqui fora, tanto para mim quanto para minha família. Ser gay não é fácil, e isso me deixava inseguro. Outro erro foi me apegar rápido às pessoas e ser leal muito cedo, o que me fez tomar partido por outros e me perder no jogo. Eu deveria ter me posicionado de um lado só, não importava qual, mas firme. Infelizmente, percebi isso apenas no final, quando já era tarde.

Apesar de não ser tão próximo ao grupo do quarto Sonho da Eternidade, houve ocasiões em que você e o Breno se juntaram a eles para combinar votos. Como avalia essa posição de jogo?
Marcelo Alves - Sempre tive carinho pelas pessoas do quarto da Eternidade, como Babu, Juliano, Boneco (que veio comigo da casa de vidro) e Chay. Tive uma questão pequena com Ana Paula, mas lá dentro tudo ganha proporções maiores. Acabei tomando a dor do que aconteceu com Maxiane. Hoje, vendo de fora, percebo que a situação com Ana Paula foi mínima e eu a transformei em algo grande. Gosto muito dela, mesmo com as implicâncias. Faltou percepção e força para me situar em um lugar só. Minha questão foi tomar dores que não eram minhas e esquecer que o jogo era individual. Um exemplo foi a situação com Jonas, que virou justificativa para ele me colocar no paredão, mesmo não tendo sido algo diretamente comigo.

A prova do líder da última semana marcou um rompimento entre você, a Maxiane e a Marciele?Marcelo Alves - Senti falta de externar meus pensamentos. Era importante que o público soubesse o que eu estava pensando. Algumas atitudes me irritavam, mas eu não falava. Planejava conversar com Ana Paula antes do paredão para mostrar que estava com eles, mas não fiz. O rompimento com elas [Maxiane e Marciele] apenas confirmou o que eu já pensava, mas não estava mostrando para fora. Na minha cabeça, eu estava bem-posicionado, mas não deixei isso claro para o público, que era o principal.


Como acredita que as duas irão se posicionar daqui para frente? E o Breno, após a sua saída?
Marcelo Alves - Já sentia que iria sair, porque tinha consciência da minha flutuação e de não estar me entregando por inteiro. Tive crises de ansiedade e insegurança pela questão da sexualidade e pelo medo de minha família ser atacada. Antes de sair, falei para o Breno: “Se posicione. Fique do lado dos meninos, Babu, Juliano e Boneco.” Mas sei que as meninas vão querer conversar com ele, e Breno cede muito fácil. Espero que não ceda, porque minha eliminação foi consequência disso. Se elas tivessem me colocado sentado [na prova do Líder] uma ou duas vezes e eliminado Jonas ou Cowboy, que são fortes em provas, eu ou Breno poderíamos ter vencido a liderança e mudado o cenário. Infelizmente, percebi isso tarde demais..


Depois da indicação do líder Jonas, você relembrou que ele o havia colocado no primeiro castigo do monstro da temporada e que não teria argumentos para votar em ti. Imaginava receber essa indicação ou o voto dele te pegou de surpresa? 
Marcelo Alves - Eu já imaginava. Minutos antes do paredão, senti que seria eu e perguntei ao Breno se estava preparado, porque seríamos os dois na berlinda. Jonas tinha colocado Babu, que puxou Sarah, e ela saiu. Então, se ele colocasse Juliano, poderia eliminar Alberto, amigo dele. Ele preferiu o caminho mais fácil. Infelizmente, estamos em uma fase do jogo em que eles acham que os pipocas são fracos. Tenho até dó quando colocarem Chai no paredão, porque vão ver que não somos fracos. Fico feliz por Chaiany, que tem um coração enorme e uma inocência boa. Inclusive, Ana Paula perguntou a Jonas por que ele me indicou, e ele disse que as outras opções, Milena e Chai, estavam imunizadas. Ou seja, mais uma vez, tudo sobre os pipocas. Mas é aí que eles vão se surpreender.

Considera ter sido ele seu maior adversário no programa? Ou outra pessoa? 
Marcelo Alves - Acredito que meu maior adversário fui eu mesmo. Se tivesse seguido minhas intuições e me firmado de um lado da casa, sem ficar no meio, teria ido muito bem. Não tive nenhum adversário que me desestabilizasse de verdade.

Neste paredão, o grupo do qual ele faz parte conseguiu colocar três adversários na berlinda. Acha que faltou articulação ou foi questão de sorte?
Marcelo Alves - Eu conseguia articular bem, mas não pensei que o voto de Alberto estava vetado. Se tivesse percebido isso, teria articulado para colocar Jordana e Maxiane no paredão. Quando fui indicado, queria ter ido com Maxiane, mesmo que saísse. Podia ter gritado na sala: “Votem em Maxiane!”, mas não fiz. Talvez tivesse mudado tudo. Para mim, seria mais confortável sair contra ela do que contra pessoas do meu grupo.

Você e o Breno protagonizaram o primeiro beijo da edição e desde então mantiveram uma relação próxima dentro da casa. Foi ele seu maior aliado? 
Marcelo Alves - Sim. Falei para ele que, se não estivesse tão próximo, eu teria me perdido ainda mais. Mesmo com meus medos e inseguranças, ele conseguia me reconectar comigo em momentos difíceis. Foi uma aproximação genuína, de afeto, que quero levar para fora da casa, seja da forma que for.

Que amizades fez no "BBB" e deseja cultivar aqui fora?
Marcelo Alves - Chai, Leandro, Juliano, Babu, Samira e Breno, claro. Quero ver como ficará a situação com Ana Paula e Milena, porque tenho carinho por elas. As outras meninas ainda me deixam chateado, então prefiro falar das pessoas de quem tenho certeza.

Quais são seus planos a partir de agora? Pretende seguir atuando na Medicina e voltar para Currais Novos (RN)? 
Marcelo Alves - Meus planos serão conforme Deus me guiar. Se aparecer trabalho, adoro fotografar, fazer publicidade, televisão... O que vier, estarei aberto. Se não, volto para minha cidade para exercer a Medicina com orgulho, porque amo ajudar pessoas. Comentei com Babu que um dos meus maiores sonhos é ir até a África para ajudar com meu trabalho quem realmente precisa.

Se pudesse montar seu pódio agora que deixou a disputa, como ele seria? 
Marcelo Alves - Chai, Breno e Leandro.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Renato Amado enfrenta a finitude e expõe contradições em “Nonada”


Em entrevista para o portal Resenhando.com, o autor carioca fala sobre melancolia, machismo estrutural, erotização da ausência e o salto no escuro que o levou da carreira jurídica à literatura. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Em um mundo hiperconectado e afetivamente exausto, Renato Amado escolheu ampliar as distâncias para falar de proximidade. Em "Nonada", publicado pela Editora Cajuína, segundo romance assinado por ele, o escritor carioca imagina uma Terra plana e mil vezes maior que a nossa para narrar a crise silenciosa de Galeano - motorista de aplicativo, ex-praticante de wingsuit e homem marcado por melancolia, desejo e contradições.

Entre telescópios que substituem o toque, diálogos de Uber que revelam microviolências cotidianas e um machismo que opera quase sem ruído, o romance combina ficção científica, existencialismo e crítica social. Mais do que contar uma história de amor à distância, Amado investiga o medo da morte, a dificuldade de sustentar vínculos profundos e a tentação permanente de adiar o desespero com doses de intensidade. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre o vazio como gesto político, a literatura como adiamento e exercício de aceitação, e o risco de viver quando já se sabe o desfecho da batalha. Compre o livro "Nonada", de Renato Amado, neste link.

Resenhando.com - Galeano observa o mundo à distância, mas evita o contato pleno. Em que medida "Nonada" sugere que o homem contemporâneo prefere o risco da imaginação ao perigo real do encontro?
Renato Amado - Galeano é deslocado em relação à realidade imediata, mas se conecta com uma mulher de outro canto do planeta. Do mesmo modo, por meio de telas damos preferência a ausentes e nos afastamos dos que estão à nossa volta. Parece que a presença assusta. Quanto mais instâncias de mediação, mais protegidos nos sentimos. E mais eficaz do que a distância, só o anonimato.


Resenhando.com - ⁠A Terra plana e descomunal do romance amplia distâncias físicas para falar de abismos emocionais. Essa distopia nasce mais do medo da tecnologia ou da incapacidade humana de sustentar vínculos profundos?
Renato Amado - 
Sem dúvida da dificuldade em sustentar vínculos profundos. A mulher do outro lado do oceano é uma fantasia: a voz não chega, o idioma é outro. Eles estabelecem traços de linguagem que permitem alguma comunicação, mas uma comunicação incompleta, com espaço para vazios preenchidos pela fantasia. Já as pessoas próximas se apresentam com seus defeitos, manias, irracionalidades, teimosias. Não é fácil se conectar em um nível mais profundo com seres tão imperfeitos. Além disso, todos carregamos abismos inomináveis que o outro não alcança, o que gera solidão. No fim das contas, somos sós em nossos universos internos, acessíveis ao outro apenas por brotamentos pontuais na fala, nos gestos, nas expressões.


Resenhando.com - Galeano não é apresentado como vilão, mas como produto de um machismo estrutural “inconsciente”. Até que ponto humanizar esse homem é um gesto crítico e até que ponto pode ser lido como complacência?
Renato Amado - 
O romance não adota um tom panfletário nem subestima a inteligência do leitor. A literatura nos dá uma oportunidade que não existe fora dela: de entrarmos na cabeça do outro. Isso amplia nossa compreensão do humano. A literatura que me interessa, portanto, humaniza qualquer tipo de personagem, pois a desumanização é necessariamente uma simplificação. E humanizar não é justificar, mas compreender processos. Galeano é um homem comum, atravessado pelo machismo estrutural como praticamente todos nós. Desumanizá-lo seria desumanizar a todos. Ele funciona como espelho: reconhecemos nele traços nossos. Ao criticar o machismo estrutural, o livro acaba por criticar também o leitor e o autor.


Resenhando.com - ⁠O telescópio permite ver, mas não tocar. Em tempos de redes sociais, aplicativos e amores espectrais, você diria que estamos vivendo uma erotização da ausência?
Renato Amado - 
O que se apresenta parece não ter mistério: está ali, na nossa frente, é aquilo e pronto. Acostumamo-nos a não perscrutar mais profundamente. Já o que está ausente é promessa, fantasia, possibilidade. Sem precisar caçar para sobreviver, o ser humano moderno - ao menos aquele incluído nos confortos da modernidade – tornou-se um grande entediado. Será que, da tela que despeja bits e bytes em todas as suas variações, não virá algo mais interessante do que a melancolia que nos cerca? Essa expectativa pelo novo e pelo surpreendente a qualquer instante na palma da mão é, sim, uma erotização da ausência. Deseja-se menos o que existe do que o que ainda não se mostrou. O presente tornou-se quase sempre insuficiente.


Resenhando.com - ⁠Os diálogos no Uber expõem um Brasil saturado de preconceitos e microviolências. Galeano escuta muito, reage pouco. O silêncio dele é forma de resistência ou mais um sintoma de acomodação masculina?
Renato Amado - 
É fruto de melancolia, de falta de energia, de desistência. Mas é também uma forma de dar voz ao leitor. A literatura deixa espaço e o leitor o ocupa. O silêncio é uma convocação.


Resenhando.com - ⁠"Nonada" é um romance curto, rarefeito, cheio de vazios. Você escreveu pensando no silêncio como escolha estética ou como limite ético diante do que não pode, ou não deve, ser explicado?
Renato Amado - 
Não deve ser explicado por escolha estética. Obras que explicam subestimam o leitor. Obras que apenas sugerem requerem sua intervenção. É nesse momento, quando o leitor precisa completar o texto, que a experiência se torna realmente marcante. Informações mastigadas podem até parecer interessantes, mas costumam se dissipar rapidamente. Já os fragmentos que tocam a emoção e exigem elaboração produzem uma experiência mais duradoura e, se intensos o bastante, passam a integrar a própria constituição psíquica de quem lê.


Resenhando.com - Há algo de paradoxal em um ex-atleta radical, habituado ao risco extremo, tornar-se um homem paralisado diante da vida afetiva. O medo da morte é menor que o medo da intimidade? 
Renato Amado - Por paradoxal que possa parecer, é por medo da morte que Galeano se tornou praticante de esportes radicais. Galeano via a morte como inimiga (só há inimigo quando há temor; não existe inimizade na indiferença) e queria mostrar que poderia vencê-la, ainda que provisoriamente. Uma forma de fazê-lo não era apenas se arriscar, mas viver intensamente: no absoluto do momento, a morte não existe. Mas ele quase foi derrotado, ao sofrer um grave acidente, e a ilusão se rompeu. A morte mostrou-se, “estou aqui, te pego a qualquer hora!”. E Galeano passou a se debater ininterruptamente com a finitude. É uma briga perdida. Se habitamos uma batalha cujo resultado desfavorável já conhecemos, e que perdurará por toda a vida, a consequência é a melancolia. Como se entregar a uma relação afetiva estando tomado pela melancolia? Se a morte cobre e esvazia tudo, nada tem sentido ou beleza. Nada conecta. Ao menos até Galeano ver, através de um telescópio, aquele olho do outro lado do planeta.


Resenhando.com - ⁠Ao trocar uma carreira estável no Direito por uma vida dedicada à literatura, você também realizou um salto no escuro. Que partes de Galeano dialogam, ainda que indiretamente, com essa decisão?

Renato Amado - Assim como Galeano tentava enganar a morte pela intensidade praticando wingsuit, eu tentei fazer o mesmo, buscando outras intensidades. A carreira no Direito não me dava vida, me dava salário. Precisei saltar no escuro, buscar a vida a 100% para enganar a morte.


Resenhando.com - ⁠O título "Nonada" sugere o “quase nada”, o resto, o intervalo. Em um mundo obcecado por performance, produtividade e respostas rápidas, escrever sobre o vazio é um gesto político?

Renato Amado - Existir e escrever, o que seja, é um gesto político, pois implica propor um modo de estar no mundo. Nesse sentido, Nonada se insere em uma das vocações mais recorrentes da arte: não oferecer respostas, mas abrir questões, sugerir possibilidades. Em um contexto obcecado por performance e produtividade, sustentar o vazio, a pausa e o intervalo, torna-se, por si só, uma forma de resistência.


Resenhando.com - ⁠Você afirma que a melhor saída diante da finitude é a aceitação. A literatura, para você, é um caminho real para essa aceitação ou apenas uma forma mais sofisticada de adiar o desespero?
Renato Amado - Faço muitas coisas para adiar o desespero. São as tais ações que buscam intensidade, que nos permitem esquecer a nossa condição por instantes, viver inteiros. Não vejo isso como algo negativo: talvez a melhor estratégia seja justamente adiar o desespero a tal ponto que a morte chegue antes de termos tido tempo para nos desesperar. Quanto à aceitação, ela é difícil, muito difícil, mas também é um caminho. A literatura pode ser ambas as coisas: adiamento e exercício de aceitação. Em Nonada, ao escrever o percurso de Galeano, que se constitui como um ser humano mais íntegro à medida que caminha em direção a uma aceitação ao menos parcial, eu buscava fazer o mesmo. Escrevi este livro para lidar com meus fantasmas, equilibrar-me. O caminho de Galeano é o meu caminho.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

.: Entrevista com Guilherme Arantes: 50 anos de carreira e no jogo na música


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: Leo Aversa

Ele está completando 50 anos de carreira e segue no jogo na música. Uma trajetória na qual pôde estar presente ao lado de ídolos. Nomes consagrados como Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa Roberto Carlos e tantos outros nomes importantes da nossa MPB. E ainda conseguiu produzir uma obra de valor inquestionável. Desde o primeiro álbum até o mais recente, o disco "Interdimensional". 

Guilherme Arantes sempre demonstrou ser um caldeirão de influências que ele absorveu ainda na adolescência e conserva acesa a chama da criatividade para produzir novas pérolas musicais. Em entrevista para o portal Resenhando.com, ele conta como vê o momento atual para a música e se considera um !transgressor’ dos tempos atuais. Ao invés de lançar singles de forma homeopática, ele chega com um álbum completo de canções inéditas. “Vivemos um tempo muito imediatista, na velocidade de um vídeo de Tik Tok”.


Resenhando.com - Passados 50 anos, o que o motiva a continuar produzindo novas canções?
Guilherme Arantes - Eu ainda conservo a mesma vontade de buscar coisas novas. Recentemente eu me vi mentalmente transportando para 1975, e me perguntei – Guilheme, quem você quer ser daqui a 50 ano? E a resposta é ser eu mesmo, sem mudar nada. Tudo o que conquistei na música valeu a pena. E continua valendo muito. Sem dúvida, eu sou uma alma inquiet... Apenas quero mostrar minha música e continuar me aperfeiçoando cada vez mais.

Resenhando.com - Ao longo de sua trajetória você colecionou hits e canções que permanecem vivas na memória popular. O que tornou sua obra perene?
Guilherme Arantes - Acho que foi o fato de buscar as inspirações no cotidiano. As pessoas acabam se identificando com as mensagens. “Amanhã, ser´um lindo dia”. As canções românticas falam sobre  amor de uma forma verdadeura.  Tem um trecho de Cheia de Charme  em que eu falo “ Investi tudo naquele olhar”. Uma metáfora bem bolada de conquista.


Resenhando.com - Como foi trabalhar e ter canções gravadas por outros nomes da MPB?
Guilherme Arantes -  Eu me considero um privilegiado. Caetano Velkoso, Gal Costa, Giberto Gil, Sandra de Sá,Fafa de Belém,  Roberto  Carlos. Lembro de morar em 1985 ho Rio de Janeiro e encontrar Tom Jobim. Teve um outro encontro surreal em Belo Horizonte. O Milton Nascimento veio no hotel em que eu estava hospedado para gravar uma entrevista comigo. O Roberto Carlos me recebeu na casa dele, Cinversamos sobre vários assuntos e acabei compçonro pra ele Toda Vâ Filosofia. Depois que gravou ele me ligou para agradecer.  Ter uma canção gravada pelo Roberto é um privilégio  e tanto.


Resenhando.com - Os anos 80 foram bastante produtivos?
Guilherme Arantes - Eu acabei surfando naquela onda do rock nacional. Não fazia rock como os outros. Eu vim da geração dos anos 70. Minha ambição sempre  foi diferente.


Resenhando.com - Você tem uma produção autoral e algumas parcerias com nomes como Nelson Motta. Ronldo Bastos entre outros. Há alguma vontade de compor com outros parceiros?
Guilherme Arantes - Se é para sonhar alto, gostaria de produzir algo com a Adele, Alicia Keys e Ed Sheeran. No Brasil, tenho vontade de convidar o Caetano Veloso. Ainda não tive chance. Mas se rolar seria muito especiql.


Resenhando.com - Os tempos atuais são muito imediatistas?
Guilherme Arantes - É incrível. A vida parece correr na velocidade de um vídeo do tik tok. Para quem trabalha com música pe importante buscar o nicho certo para fazer valer o trabalho. Recentemente viralizou um vídeo no qual apareço mostrando os acordes de Meu Mundo e Nada Mais em uma loja da Santa IIfigêni, em São Paulo. Alcançpu uma marca que eu mumca imaginei conseguir. Aliás nem tive mesmo essa intenção, pois era somente para ele gravar a sequência dos acordes no piano. Virou essa loucura de corrida pela visualização.

 "Coisas do Brasil"

"Meu Mundo e Nada Mais"

"Amanhã"


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

.: Entrevista com Leon Carvalho, da banda Gatos Feios: bons de rock


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: Pri Nakano

Desde os anos 60, São Paulo rem revelado talentos na seara do rock. Desde Mutantes, Rita Lee e Made In Brazil, passando por outros nos anos 80, como Ira, Titãs e Ultraje a Rigor, o rock sempre se mostrou presente, de alguma forma. E a dinastia roqueira continua com os novos grupos que buscam seu lugar ao sol, com a banda paulista Gatos Feios, que mesclam uma mistura de rock inocente da jovem guarda com pitadas fortes de punk rock californiano representado pelo Green Day. 

E a receita vem encontrando seu espaço nos cenários alternativos, muito embora o desejo dos integrantes seja alcançar o tão sonhado mainstream. Em entrevista para o portal Resenhando.com, o vocalista Leon Carvalho conta como foi elaborado o projeto para preparar o primeiro álbum, Eu Sou Produto, que está tendo disponibilizado suas faixas nas plataformas de streaming. “São Paulo sempre foi um celeiro de bandas de rock”.


Resenhando.com - Na sua opinião, o que levou o Estado de São Paulo a revelar tanta banda de rock?
Leon Carvalho - Se você parar para pensar, São Paulo sempre esteve na vanguarda do rock. Onde eram gravados os programas da Jovem Guarda? Aquii em São Paulo. Eu sempre curti muito rock nacional dos anos 80 e novamente surgiram bandas paulistas que seguem  até hoje. Eu acho que São Paulo sempre foi um grande celeiro de bandas de rock.


Resenhando.com - Comlo está sendo a gravação do primeiro álbum de músicas autorais?
Leon Carvalho - Tem sido tudo muito pensado, com o pé no chão. Vamos lançando os singles de forma “homeopática”. Temos ideia de disponibilizar em todas as plataformas digitais, Se der, vamos fazer uma tiragem pequena de discos físicos, porque o público sempre costuma pedir algo assim para poder atender essa demanda.


Resenhando.com - Como funciona o processo de produção musical da banda?
Leon Carvalho - Eu concentro a produção das canções  a partir de violão e voz. Aliás poderíamos até fazer um disco acústico porque as canções nascem dessa forma. Os demis integrantes contribuem na elaboração do arranjo e sugerindo alguma frase ou palavra diferente que se encaixw na canção. As letras destacam cenas do nosso cotidiano.


Resenhando.com - Quais foram as principais influências musicaus da banda?
Leon Carvalho - Com certeza vice encontra toques de Jovem Guardfa e o rock dos anos 50 e 60. Mas temos muita influência do punk rock. Eu sempre gostei muito do rock dos anos 80, representado por nomes como Cazuza, Legião Urbana e Titãs. E não posso deiar de mencionar o Green Day como outra referência importante.


Resenhando.com - Como estão os planos para divulgar esse novo trabalho?
Leon Carvalho - Estamos finalizando uma agende de shows. Se tudo der certo, Santos deve estar no roteiro dessas apresentações.

"Bruxa"

"Nome ou Religião"

"Quero que Vá Tudo pro Inferno"

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

.: Alexandre Lino expõe conflitos familiares e desafia rótulos em “A Miss”


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Aos poucos, Alexandre Lino construiu uma trajetória marcada pela recusa ao óbvio. Ator de presença discreta, mas de escolhas contundentes, ele passa pelo teatro, pelo cinema e pela televisão interrogando papéis, estereótipos e expectativas - sobretudo aquelas projetadas sobre corpos, sotaques e origens. No filme "A Miss", em breve em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo o Brasil, ele dá vida a Athena, personagem marcado por angústias, disputas familiares e ambiguidades morais, reafirmando a vocação dele em dar vida a personagens que incomodam mais do que confortam. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, o ator reflete sobre protagonismo tardio, humor como linguagem política, identidade nordestina, processos criativos e a responsabilidade ética de existir em cena sem se render à caricatura.


Resenhando.com - Athena, seu personagem em "A Miss", ajuda a subverter uma tradição familiar baseada em concursos de beleza. Em que momento da sua vida você também precisou “trapacear o roteiro” que o mundo tinha escrito para você?
Alexandre Lino - Subverti o roteiro quando cheguei ao Rio e me pediram para “neutralizar” meu sotaque nordestino para disputar testes e me enquadrar. Naquele momento, era uma exigência comum do mercado e eu precisava trabalhar, mas isso nunca apagou quem eu sou, mesmo tendo me submetido a essa imposição. Hoje vejo esse padrão sendo revisto e fico feliz em perceber como "A Miss" dialoga com essa quebra de expectativas e com a coragem de existir fora das molduras impostas.


Resenhando.com - Você passou décadas sendo um ator essencial, mas muitas vezes coadjuvante no audiovisual. O sucesso tardio no cinema muda o ego ou apenas confirma uma espera que sempre fez sentido para você?
Alexandre Lino - O cinema não inflou minha vaidade, mas tem confirmado uma trajetória construída degrau a degrau. Meu reconhecimento começou no teatro, onde alcancei protagonismos mais rapidamente, e o audiovisual veio depois como consequência dessa maturidade artística. "A Miss" chega como a coroação de uma carreira forjada nos palcos, sem alterar meu modo de encarar a profissão: continuo sendo um operário das artes.


Resenhando.com - Em "A Miss", o desejo da mãe fala mais alto que a escuta dos filhos. Na sua leitura, esse filme fala mais sobre identidade de gênero ou sobre o autoritarismo disfarçado de amor dentro das famílias brasileiras?
Alexandre Lino - "A Miss" é, antes de tudo, um filme sobre família. A discussão sobre identidade de gênero está presente, mas o centro dramático é esse amor que vira controle e a projeção de frustrações da mãe sobre os filhos. O quarteto central revela contradições muito humanas - gente que ama e machuca, acerta e erra - e é nessa ambiguidade que o filme se fortalece e torna-se universal.


Resenhando.com - Depois de dar voz a personagens socialmente invisíveis - porteiros, migrantes, figuras à margem - o que ainda o assusta mais: a invisibilidade ou a caricatura quando finalmente se ganha destaque?
Alexandre Lino - A caricatura me assusta mais que a invisibilidade, porque ela cristaliza estigmas e empobrece realidades complexas, sobretudo quando falamos do nordestino. Muitas vezes o público se surpreende ao encontrar reflexão por trás de personagens populares, como o Porteiro Waldisney. Meu compromisso é seguir oferecendo densidade a essas figuras que o audiovisual insiste em simplificar.


Resenhando.com - Você transita com naturalidade entre o riso popular e o drama sensível. Existe preconceito dentro do próprio meio artístico contra quem domina o humor antes de ser reconhecido como “ator sério”?
Alexandre Lino - Existe, sim, um preconceito estrutural contra quem vem do humor. O meio artístico ainda supervaloriza o drama e o experimental, enquanto subestima quem faz rir ou trabalha para públicos populares. Eu sigo transitando entre gêneros porque acredito que um ator se mede pela seriedade do trabalho e não pelo rótulo que tentam lhe impor. Sou plural e diverso na vida, e na arte cultivo essa multiplicidade, transitando entre gêneros, linguagens e personagens sem me prender a julgamentos e denominações.


Resenhando.com - Athena é irreverente, afetuoso e provocador. Ele carrega algo do Alexandre diretor, algo do Alexandre ator ou algo do Alexandre homem que não cabe mais em rótulos?
Alexandre Lino - Athena reúne muito do meu humor e da minha sensibilidade, mas também carrega as experiências acumuladas em 25 anos de carreira. Ele nasce dessa mistura entre vida pessoal e repertório artístico que todo ator mobiliza ao criar um personagem. E há algo raro ali: a capacidade de perdoar, que me comove e me interessa profundamente no ser humano.


Resenhando.com - Em "O Porteiro", você inverte o foco e coloca o “figurante da vida real” como protagonista. Em "A Miss", a inversão é de gênero e expectativa. A subversão virou um projeto político na sua arte?
Alexandre Lino - Não chamaria de um projeto político no sentido partidário, mas de uma escolha estética e ética: lançar luz sobre histórias simples e de pessoas comuns, corpos pouco celebrados e temas que costumam ficar à margem. "O Porteiro" nasce dessa vontade de inverter centros e provocar empatia por quem quase nunca ocupa o protagonismo. Já "A Miss" apresenta uma família disfuncional que serve de espelho para milhares de outras ao redor do mundo.


Resenhando.com - Depois de tantos anos criando pontes entre teatro, cinema e educação artística, o que ainda move você: reconhecimento, sobrevivência ou a necessidade quase física de contar histórias que incomodam?
Alexandre Lino - O que ainda me move é o desafio do novo e a necessidade de contar histórias conectadas às minhas raízes nordestinas, mas também capazes de deslocar olhares. Quero seguir construindo projetos que dialoguem com esse lugar de origem e com outros territórios simbólicos, mantendo viva a tríade que organiza minha vida artística: teatro, cinema e educação.


Resenhando.com - Você já afirmou que “ser homem hoje é reinventar-se”. O que o cinema brasileiro ainda precisa desaprender para representar novas masculinidades sem medos ou clichês?
Alexandre Lino - O cinema brasileiro precisa desaprender a objetificação feminina e os atalhos fáceis que ainda surgem, sobretudo na comédia. Representar novas masculinidades passa por mostrar homens que não se afirmam pela dominação, mas pelo respeito e pela parceria. Rir não pode servir de desculpa para uma liberdade marcada por preconceitos.


Resenhando.com - Se "A Miss" fosse menos sobre concursos de beleza e mais sobre o Brasil atual, que faixa simbólica você acha que o país está tentando usar, e qual ele definitivamente não merece?
Alexandre Lino - Se "A Miss" fosse uma metáfora direta do Brasil, eu diria que ainda estamos tentando ostentar uma faixa de certezas quando deveríamos assumir a da diversidade e do diálogo. O filme aponta que não existe beleza eterna nem modelo único de família, e que a polarização é a faixa que definitivamente não merecemos usar.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

.: Entrevista: Victor Garbossa reinventa “O Alienista” para fazer o Brasil repensar


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.comFoto: Joaquim Araújo

Em um país onde o clássico frequentemente é visto como sinônimo de inacessível, "O Alienista" -adaptação teatral protagonizada por Victor Garbossa e dirigida por Eduardo Figueiredo - surge como uma espécie de rebelião poética: leve, irônica, musical e, ao mesmo tempo, profundamente crítica. Inspirada no conto homônimo de Machado de Assis, a montagem reimagina o médico Simão Bacamarte que, além de um estudioso da razão e da loucura, é também, alguém que faz parte das contradições e obsessões de nosso tempo.

Em cartaz até o dia 1º de fevereiro no Teatro J. Safra, em São Paulo, "O Alienista" convida cada espectador a revisitar Machado de Assis. Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, Victor Garbossa fala sobre arte, identidade, redes sociais, fé cega e o ofício performático que transita entre palco, estúdio de dublagem e tela.

Com uma linguagem que dialoga diretamente com o público jovem e familiar, o espetáculo propõe uma aproximação radical entre palco e plateia - que começa ainda na recepção do teatro, quando um ator se mistura aos espectadores para compartilhar como a leitura de um clássico transformou sua vida. Ao longo de 60 minutos, humor e reflexão se misturam à música ao vivo e à multiplicidade de personagens encarnados por Garbossa, convidando o público a rir, pensar e questionar a própria noção de normalidade.


Resenhando.com - "O Alienista" é uma obra sobre o poder de definir quem é “normal”. Em 2026, quem você acredita que ocupa esse lugar de alienista na sociedade brasileira: a ciência, a política, o mercado ou as redes sociais?
Victor Garbossa - Eu acredito que o tribunal das redes sociais seja um antro onde pessoas de todos os segmentos se sentem autorizadas - e empoderadas - a julgar o que é certo, o que é errado, o que é normal e o que não é. Existe uma crença perigosa de que qualquer um pode opinar sobre qualquer assunto sem embasamento algum, e as redes sociais reforçam isso ao oferecerem anonimato e sensação de impunidade. Basta um perfil fechado ou falso para que atrocidades sejam ditas e, na maioria das vezes, nada acontece.


Resenhando.com - Ao se misturar ao público logo na recepção e contar sua própria “queda” em Machado de Assis, você rompe a quarta parede e também a hierarquia entre ator e espectador. Esse gesto é mais teatral ou mais político?
Victor Garbossa - É mais humano. A partir do momento em que busco equalizar a nossa relação, tento trazer para as pessoas uma proximidade que muitas vezes o estereótipo de um texto difícil cria logo de início. Quando somos apresentados a um texto clássico, geralmente temos a impressão de algo arcaico, chato ou de difícil leitura. O que eu busco dizer, por meio desse ato, é que estamos juntos. Ao fazer isso, rompo previamente uma barreira que, por exemplo, no cinema, existe de forma clara entre tela e espectador. Aqui, apesar de também existir uma separação, estamos todos dentro da mesma história.


Resenhando.com - Machado de Assis escreveu "O Alienista" como sátira, mas muitos hoje o leem quase como profecia. Em cena, você ri mais de Simão Bacamarte ou sente medo dele?
Victor Garbossa - A primeira coisa que busco é a empatia. Não posso ser leviano ou ingênuo a ponto de dizer que nunca julguei algo com preconceito ao longo da minha trajetória, nem condenar o personagem como um tipo de monstro. Esse discernimento vem primeiro do lugar de leitor e espectador, para só depois se transformar em intérprete. Procuro entender as motivações do personagem, mas também faço questão de analisar o resultado final disso tudo nos dias de hoje. Existem pessoas com comportamentos muito semelhantes aos de Bacamarte, e elas me assustam. Como disse na primeira pergunta, a sensação de impunidade lhes dá uma falsa segurança para rotular, julgar e aprisionar pessoas e situações conforme lhes convém, sustentadas por atitudes egoicas, absurdas e prepotentes. Talvez o riso surja justamente desse desconforto: perceber que, ainda hoje, há quem prefira julgar em vez de acolher.


Resenhando.com - Interpretar vários personagens sozinho exige rapidez, precisão e risco. O que mais o assusta num solo: o silêncio da plateia ou o riso que vem no tempo errado?
Victor Garbossa - O que mais me assusta é suprir uma expectativa que muitas vezes eu mesmo crio. Fazer um solo exige, antes de tudo, estar despido de vaidade, permitir ser vulnerável e generoso a tudo o que pode acontecer. É evidente que ensaiamos muito e nos preparamos intensamente para que a piada entre no tempo certo, para que a comoção chegue até a plateia, mas também é fundamental estar atento e disponível para saber lidar com os reveses quando situações fora do nosso controle acontecem.


Resenhando.com - Sua carreira transita entre teatro, dublagem, televisão e literatura infantil. Em qual desses territórios você sente que pode errar mais - e por que errar ainda é essencial para um artista?
Victor Garbossa - Eu vejo o "erro"na verdade como o que funciona e o que não funciona às vezes uma técnica uma expressão uma piada funciona e/ou não funciona para um espetáculo em específico o teatro acaba sendo esse espaço mais fértil pois muitas vezes ele nasce desse inesperado ele nasce da experimentação de apostar de sair um pouco do óbvio Em contrapartida, a dublagem e a televisão exigem um estado de mais prontidão existe ensaio existe preparo mas poucas vezes você pode fugir muito a regra E são poucos os momentos em que você pode improvisar com algo que pode acontecer de inesperado numa apresentação com uma plateia diferente.


Resenhando.com - Como dublador, você empresta voz a outros corpos; como ator solo, empresta corpos a muitas vozes. O que essa inversão ensinou a você sobre identidade e atuação?
Victor Garbossa - Toda experiência artística nos transforma de alguma maneira. Mesmo quando utilizo apenas a minha voz, o corpo está atuando e vice-versa. Criar personagens amplia minha gama e meu repertório, para que, quando estou diante de um estande, eu tenha mais arsenal para trabalhar com a voz. O bonito do nosso trabalho é que, para aqueles que sabem aproveitar, toda ocasião se torna uma oportunidade de aprendizado e de enriquecimento do próprio ofício.


Resenhando.com - Machado de Assis ironiza a obsessão científica de Bacamarte. Hoje, que tipo de “fé cega” você enxerga substituindo a religião ou a ciência no imaginário coletivo?
Victor Garbossa - Acredito que hoje basta alguém pensar diferente para que um conflito se instale. Quando trazemos à tona questionamentos que demandam fatos e estudos, o mais coerente seria permitir que aquilo que se aproxima da verdade se sobreponha à sua antítese. No entanto, a disseminação de notícias falsas e o uso malicioso da inteligência artificial acabam confundindo e influenciando pessoas que chegam a confrontar fatos que não deveriam sequer ser contestados. Muitas vezes, essas mesmas pessoas tentam trazer à luz argumentos e opiniões infundadas apenas pelo prazer de estarem certas, mesmo quando não estão. Isso, por si só, já é suficiente para alimentar uma nova forma de “fé cega”, capaz de gerar atrito, ruído e discussão.


Resenhando.com - A montagem aposta em uma linguagem jovem e musical sem “simplificar” Machado de Assis. Existe um preconceito silencioso contra o público jovem quando o assunto é clássico brasileiro?
Victor Garbossa - Da nossa parte, é justamente o contrário. Acreditamos que o jovem tem plena capacidade de absorver e se entreter com um texto clássico, respeitando sua forma original, fazendo apenas as adequações necessárias. Talvez isso não se trata nem de preconceito, mas de uma preocupação genuína em resgatar, junto aos jovens, o acesso aos nossos livros clássicos e à nossa identidade cultural. Vivemos um tempo em que eles são diariamente bombardeados pelas redes sociais e, muitas vezes, têm acesso mais fácil ao que vem de fora do que ao que é nosso. Nesse contexto, o espetáculo acaba se tornando também um evento familiar, no qual o jovem pode trazer sua família e amigos para consumir e compartilhar arte e literatura brasileira.


Resenhando.com - Você atua em produções bíblicas na TV e, ao mesmo tempo, encarna um personagem que questiona moral, razão e poder. Como conciliar fé, dúvida e crítica no mesmo artista?
Victor Garbossa - Eu não vejo por que elas não podem coexistir. A fé não deveria nos enclausurar; deveria nos sustentar, mas também abrir espaço para o questionamento e para o conhecimento das coisas, como forma de nos apaziguar, e não de nos prender ou limitar. Como artista, acredito que personagens diversos e temas conflituosos tendem a nos enriquecer, ampliando nossa dialética e nosso repertório. O saber não deve ser visto como algo assustador, mas como algo libertador.


Resenhando.com - Se Machado de Assis sentasse hoje na plateia do Teatro J. Safra, o que ele estranharia mais: o espetáculo, o Brasil ou nós mesmos?
Victor Garbossa - Sinceramente eu espero que tudo. Ele faleceu em 1908, um salto centenário de princípios de valores, de regras que mudaram, de meios de se contar histórias. Eu espero que ele se choque com tudo, no entanto esperaria que ele tivesse a empatia de compreender essas mudanças e assimilar que elas fazem parte de um novo cotidiano.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

.: Marcos Damigo desmonta o mito bandeirante para rir de projeto colonial


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com. Foto: Heloísa Bortz

Entre o mito e a farsa, a história do Brasil sempre foi um território disputado - não apenas por quem a escreveu, mas por quem decidiu o que não poderia ser falado. Ao longo de três décadas de trajetória, Marcos Damigo tem feito do teatro um espaço de fricção entre passado e presente, revisitando narrativas oficiais para expor o grotesco escondido sob o verniz da civilização e do progresso. Ator, autor e diretor, ele transforma pesquisa histórica em jogo cênico, ironia e desconforto, recusando a ideia de que o palco deva apenas ilustrar a história. Antes, ele a interroga.

Em cartaz com "Entre a Cruz e os Canibais", comédia farsesca ambientada na São Paulo de 1599, até dia até dia 15 de fevereiro no Teatro Arthur Azevedo, em São Paulo, Damigo desmonta o mito bandeirante ao revelar o desajuste entre o projeto colonial e a realidade violenta que o sustentou. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o artista fala sobre humor como estratégia crítica, a permanência de estruturas coloniais no Brasil contemporâneo, o risco do fracasso como método criativo e o papel do teatro na disputa por outras formas de imaginar o passado e, talvez, o futuro.


Resenhando.com - Você começou a vida adulta estudando agropecuária e agronomia. Em que momento o Brasil real - do campo, da terra e da exploração - virou matéria estética e política do seu teatro, e não apenas uma lembrança biográfica?

Marcos Damigo - Desde sempre, na verdade. Quando fazia agronomia, participava do movimento estudantil e tive muita convivência com a MST. O primeiro texto que eu escrevi nesse viés de história do Brasil no teatro foi sobre a Guerra de Canudos, eu tinha lido “Os Sertões” do Euclides da Cunha com 16, 17 anos, e foi um livro que me impactou muito. Então, quando abandonei a agronomia e caí no teatro, trouxe essas vivências e interesses pro meu fazer artístico. Essa questão da disputa pela terra e de histórias do Brasil ainda dizem muito pra gente - e da gente - são emblemáticas de estruturas que ainda permanecem hoje no Brasil, e elas estão presentes no meu trabalho desde o começo. Um certo idealismo que germinou em mim quando era mais jovem forjou o artista que eu me tornei.


Resenhando.com - Em "Entre a Cruz e os Canibais", o riso nasce do grotesco. Você acredita que hoje o humor é mais eficaz do que o drama para desmontar mitos nacionais, ou ele corre o risco de anestesiar a violência histórica que denuncia?
Marcos Damigo - O humor e o drama têm, cada um, sua força. O drama opera mais pela identificação, talvez, e a comédia pressupõe um distanciamento crítico. E eu fui me inspirar numa tradição de comédia popular pra escrever esse texto, desde Aristófanes, que criticava os poderosos da Grécia, mas passando também pelos nossos grandes brasileiros, como Martins Pena e Artur Azevedo, por exemplo. O Dario Fo também faz isso muito bem na “Descoberta das Américas”, por exemplo. Nesse caso, de “Entre a Cruz e os Canibais”, operamos no desmonte de uma certa ideia bem sedimentada no nosso imaginário, que é o bandeirante como esse desbravador, destemido, que vai gerar essa cidade-trabalho. Não à toa, quando o mito bandeirante é forjado, na passagem do século 19 para o 20, quando os barões do café investem na construção dessa imagem dos bandeirantes como heróis e de São Paulo como locomotiva do Brasil, é também quando a cidade tem a sua explosão populacional. De uma certa maneira, a construção do mito bandeirante foi muito bem sucedida, né? E eu acho que através do riso e da farsa, e de desmontar e mostrar o absurdo disso, a gente consiga talvez abrir espaço para se pensar outros modos de vida e outros modelos de cidade.


Resenhando.com - O bandeirante já foi herói, vilão, estátua e nome de avenida. O que mais assusta você nessa figura: o passado que ela representa ou a facilidade com que ainda é celebrada no presente?
Marcos Damigo - As duas coisas estão intimamente conectadas: o passado que ele representa, na maneira como esse mito bandeirante foi construído, justifica e fundamenta a celebração dele no presente, na forma das estátuas, das estradas, do Palácio do Governo. É realmente assustador pensar que a gente não está conseguindo se libertar de um paradigma cujo fracasso está cada vez mais evidente, porque ninguém aguenta mais, essa é a verdade, a gente está cada vez mais precarizado, trabalhando cada vez mais, ganhando cada vez menos, tudo em nome desse desenvolvimento desenfreado, e esse paradigma está ancorado nessa imagem dos bandeirantes.


Resenhando.com - Seus trabalhos com Machado de Assis dialogam com ironia, ambiguidade e corrosão moral. Ao olhar para o Brasil colonial, você se sentiu mais próximo de Machado ou de um cronista indignado dos dias de hoje?
Marcos Damigo - Eu sinto que hoje a gente está mais literal, talvez, né? Os discursos estão mais explícitos e nós, como artistas, estamos sendo convocados a nos posicionar de uma maneira mais explícita, para que não haja dúvida do nosso posicionamento e a gente não sofra cancelamentos e tal. O Machado é um pouco o oposto disso, né? Ele vivia, como homem negro, numa sociedade escravista, e alçou uma posição entre uma elite branca e letrada. Então, ele precisava da ironia como arma, que é justamente esse mecanismo de dizer sem dizer. Ele foi desenvolvendo isso como ferramenta, e isso é um dos elementos que o torna genial. Então, de uma certa maneira, nesse equilíbrio precário entre uma posição e outra, eu acho que eu me sinto mais próximo do Machado.


Resenhando.com - Você afirma ter pedido aos atores que “destruíssem” o seu texto. O que mais interessa a você hoje: o controle autoral ou o risco do fracasso em cena?

Marcos Damigo - Eu não tenho nenhum apego ao meu texto, de verdade, eu acho que essa questão do controle autoral é uma armadilha, porque o texto precisa estar a serviço da cena, e não da vaidade do autor. E quando eu escrevo essas peças de conteúdo histórico, tem uma pesquisa prévia muito grande, então é natural que o texto fique um pouco “gordo”, com excesso de referências e tal. E aí é na cena, no ensaio com os atores, que as coisas vão ser testadas, e o que funciona fica, o que não funciona naturalmente cai. O próprio processo começa a se autogerir nesse sentido, e o trabalho do diretor passa a ser muito mais de abrir uma escuta para o que a cena pede do que exatamente impor um ponto de vista. Mas eu gosto de fazer essa dupla comigo mesmo, na dramaturgia e na direção, porque essas escolhas são fundamentadas na pesquisa que eu já fiz. No caso de “Entre a Cruz e os Canibais”, o “destruir o texto” que eu pedi para os atores no começo do processo era justamente nesse sentido de pegar aquilo que eu tinha estruturado através de uma pesquisa e colocar a serviço de uma cena que explicitasse o grotesco das situações.


Resenhando.com - Ao tratar personagens históricos como “tipos”, você rejeita a reconstituição fiel. Em tempos de disputas por narrativas históricas, o teatro deve disputar a verdade ou assumir a mentira como estratégia crítica?
Marcos Damigo - 
Hoje existe uma disputa sobre narrativas, a gente vê isso muito explicitamente na questão da ditadura empresarial-militar que existiu no Brasil, é importante usar essa denominação, que algumas pessoas ainda insistem em chamar de “revolução”. O que a peça faz, na verdade, é mais do que disputar a verdade: é revelar, pelas contradições, a farsa do projeto Moderno. Porque, de uma certa maneira, se a gente parar para pensar, toda a história é uma grande farsa, pelo menos da maneira como a gente conta sem pensar muito no que está dizendo. Se você pensar no Brasil colonial, bem no começo, ali, século 16, costumamos dizer “ah, o Brasil era colônia de Portugal”. Mas, na verdade, o que Portugal conseguiu ocupar eram pontinhos muito isolados de um imenso território. Ou mesmo o Tratado de Tordesilhas, que todo mundo aprende da escola: então quer dizer que um Papa, lá na época, reúne o rei de Portugal e o rei da Espanha, e fala “Vamos traçar uma linha nesse pedaço do mundo aqui e esse lado fica para você e esse outro fica para você”. Não é meio absurdo? Claro que esses absurdos foram se sedimentando no nosso imaginário e criando o mundo da maneira como ele é hoje. Mas a comédia tem essa função de revelar a farsa e talvez abrir possibilidades para outras formas de pensar o mundo.


Resenhando.com - Sua trajetória transita entre teatro, televisão, cinema e audiolivros. O que muda - ética e artisticamente - quando sua voz serve à ficção, à história oficial ou à memória traumática, como em "Última Parada: Auschwitz"?

Marcos Damigo - O que muda, principalmente, é que no teatro, especialmente nesses projetos que eu idealizo e que construo do zero, eu tenho uma autonomia maior para determinar os modos como essa obra vai operar com as questões. Quando eu estou a serviço de um outro produto, seja na televisão, no cinema ou mesmo no audiolivro, eu tento emprestar a minha sensibilidade e a minha visão de mundo para esses trabalhos, e isso obviamente é um importante na maneira como eu sou visto como artista e até do porquê eu sou contratado para esses trabalhos. Mas eu tenho muito menos autonomia, obviamente. Então quando eu pego um livro como esse que você mencionou, “Última Parada: Auschwitz”, eu fico muito feliz porque é um livro importante para entender o que aconteceu num momento tenebroso da história da humanidade.


Resenhando.com - Em "Entre a Cruz e os Canibais", o progresso nasce junto da barbárie. Você diria que São Paulo ainda vive sob essa mesma lógica colonial, apenas com nomes mais sofisticados?
Marcos Damigo - Desde a minha última peça, “Babilônia Tropical”, que estreou no CCBB BH em 2023, eu tive essa percepção muito evidente desse casamento entre “progresso” e “barbárie”. E cada vez mais vivemos essa distopia, essa dissociação entre o modo como as coisas realmente são e o que elas parecem ser. Então acredito que sim, tanto que eu cheguei a escrever uma frase, falando de “Entre a Cruz e os Canibais”, que é: “revelar o grotesco escondido sob o verniz de modernidade que mascara até hoje interesses abjetos”. E é isso, né? A gente hoje, por exemplo, vive uma situação de exploração absurda, mas através de uma captura do nosso desejo, por algo que alguns autores chamam de “servidão voluntária”. A gente não precisa mais ser obrigado a trabalhar porque a gente mesmo se obriga, a gente quer poder consumir, usufruir de uma vida confortável, e tudo certo, é legítimo, claro, mas isso mascara a violência e o absurdo da situação como um todo. Ainda mais no Brasil, que é um dos países com maior concentração de renda do mundo.


Resenhando.com - Depois de tantos anos revisitando a história do Brasil em cena, o que mais o incomoda: o que ainda não foi contado ou o que já foi contado demais, sempre do mesmo jeito?

Marcos Damigo - Essas duas questões andam juntas, porque o que a gente escolhe contar e a maneira como a gente escolhe contar diz muito de quem nós, coletivamente como sociedade, nos tornamos. Por exemplo, em “Leopoldina, Independência e Morte”, peça que eu escrevi sobre a imperatriz Leopoldina, questionando a maneira como a vida dela era contada, colocando ela só num lugar de mulher traída e abandonada, mãe… Isso mascarava a importância política que ela teve, porque não era interessante, numa sociedade patriarcal, que uma mulher fosse retratada tendo a importância e inteligência que ela teve naquela época. Então recontar histórias, que nos acostumamos a contar de um certo modo, de outros modos, é o que me move nessa pesquisa com a história do Brasil no teatro.


Resenhando.com - Se o espetáculo "Entre a Cruz e os Canibais" fosse visto daqui a 50 anos, o que você gostaria que o público entendesse sobre nós: que finalmente aprendemos com o passado ou que seguimos rindo para não encarar a realidade?
Marcos Damigo - É interessante pensarmos um pouco nesse paralelo entre o tempo atual e o tempo da história que é retratada em “Entre a Cruz e os Canibais”, porque foram ambos tempos de grandes transformações. Ali, a gente estava nas navegações, a Europa descobrindo outros continentes, povos, culturas, cobiçando muito também essas riquezas e se transformando a partir de tudo isso que eles foram encontrando. Porque é uma via de mão dupla, sempre. E muitas vezes nos acostumamos a pensar a colonização como uma sociedade impondo seus valores sobre outra. Mas o inverso também ocorre, embora seja silenciado, obviamente. E hoje a gente está vivendo essa revolução digital, também um mundo em grande transformação. Então é difícil imaginar como é que o espetáculo seria visto daqui a cinquenta anos. Sendo muito otimista, eu espero que a gente tenha superado questões urgentes, que têm a ver com as crises climáticas, as crises democráticas do mundo. Para que a gente pudesse olhar para essa peça pensando “nossa, que loucura que era naquele tempo!”, e não se identificasse tanto com as questões que ela suscita.

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