sexta-feira, 25 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela quem paga a conta para filme chegar até você


Fundo Setorial do Audiovisual, leis de incentivo, editais estaduais e municipais e políticas de descentralização ajudam a financiar uma produção que movimentou cifras recordes em 2025


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir um filme, existe uma pergunta pouco cinematográfica: quem vai pagar por ele? A questão costuma desaparecer quando começam os festivais. Depois de pronto, o filme ganha cartaz, trailer, entrevistas, sessões e, em alguns casos, prêmios internacionais. O público vê o resultado, enquanto os créditos finais passam rapidamente diante dos olhos. Antes disso, porém, existe um percurso de desenvolvimento, roteiro, contratação de equipe, preparação, filmagem, montagem, finalização, distribuição e divulgação que precisa ser financiado.

O crescimento recente do cinema brasileiro também passa por essa conta. Em 2025, a Agência Nacional do Cinema registrou R$ 1,41 bilhão em recursos efetivamente destinados para o setor, o maior volume da série histórica. No mesmo ano, havia 1.556 projetos audiovisuais em execução com apoio do fomento da Ancine, enquanto outros 3.697 estavam em fase de captação por leis de incentivo ou de contratação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA. O número ajuda a explicar por que falar em novo cinema brasileiro também significa lembrar de política pública, investimento, empresas, editais e mecanismos de financiamento, já que uma boa história ainda precisa encontrar dinheiro para virar imagem.

O dinheiro que volta para o cinema
O principal mecanismo federal de investimento direto no audiovisual é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que recebe, entre outras fontes, recursos da Condecine, contribuição criada para estimular e financiar o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira. Em 2025, o Fundo alcançou números expressivos. Foram R$ 564,3 milhões contratados em investimentos, segundo a Ancine, o maior valor da série histórica, além de R$ 411,1 milhões destinados a operações de crédito para infraestrutura, modernização de estúdios, equipamentos e criação e comercialização de conteúdos. As leis de incentivo liberaram outros R$ 437,8 milhões.

O FSA pode funcionar por meio de investimento em projetos, enquanto suas linhas de crédito financiam empresas e estruturas do setor. Já os mecanismos de incentivo fiscal permitem que projetos habilitados captem recursos junto a empresas e outros investidores dentro das regras estabelecidas pela legislação. A própria Ancine passou a disponibilizar uma ferramenta que permite consultar as fontes de financiamento das obras brasileiras e identificar aquelas que utilizaram recursos públicos administrados pela agência, como o FSA e as leis de incentivo. O mapa financeiro do cinema, portanto, é mais complexo do que uma simples pergunta sobre quem “bancou” determinado filme.


O Fundo que chega antes do filme
Em 2025, o Comitê Gestor do FSA aprovou um Plano Anual de Investimentos de R$ 911 milhões. Desse valor, R$ 330 milhões foram planejados para o Prodecine, voltado ao cinema; R$ 315 milhões para o Prodav, relacionado à televisão; e R$ 266 milhões para operações de crédito do Proinfra. A existência dessas linhas significa que o financiamento pode alcançar diferentes etapas da cadeia. Desenvolvimento de projeto, produção, infraestrutura, circulação e internacionalização fazem parte de um sistema que tenta manter o audiovisual funcionando para além de um filme específico.

Em dezembro de 2025, por exemplo, o Comitê Gestor aprovou novas ações que incluíram R$ 100 milhões para suplementação da produção cinematográfica, R$ 30 milhões para complementação de projetos, R$ 90 milhões relacionados ao desempenho comercial de produtoras, R$ 40 milhões para desempenho artístico e R$ 25 milhões para coproduções internacionais binacionais. O cinema, portanto, pode receber dinheiro em momentos diferentes. Um projeto pode precisar de recursos para ser desenvolvido antes de conseguir filmar. Uma produtora pode precisar complementar o orçamento. Uma coprodução internacional pode abrir outra porta de financiamento. A famosa expressão “tirar um filme do papel” envolve uma papelada considerável.


O dinheiro também precisa sair do eixo
Se o dinheiro se concentrasse nos mesmos lugares onde historicamente estão as maiores produtoras, distribuidoras, equipes e estruturas, a descentralização da produção continuaria sendo apenas uma promessa. Por isso, os chamados "arranjos regionais" ganharam importância dentro do FSA. O mecanismo combina recursos federais e investimentos de estados e municípios para apoiar políticas audiovisuais locais.

Na edição de 2025, o programa teve R$ 300 milhões aprovados pelo FSA como complemento aos recursos dos entes locais. No resultado final, 41 entes locais foram selecionados e, pelas regras da chamada, 70% dos recursos foram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto 30% ficaram para propostas do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. A complementação federal pode chegar a cinco vezes o aporte do ente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e a quatro vezes no segundo grupo. A lógica é simples de entender, embora a operação seja bem mais complicada: o dinheiro federal entra para reforçar estruturas e recursos que já estão sendo organizados localmente.

Em vez de imaginar que uma produtora de Fortaleza, Recife, Belém ou Goiânia precisa disputar exatamente as mesmas condições de uma empresa instalada no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a política tenta criar mecanismos para fortalecer os próprios ecossistemas regionais. É uma mudança importante porque cinema não se faz apenas durante as semanas de filmagem. Para existir produção contínua, uma região precisa de roteiristas, produtores, técnicos, equipamentos, empresas, espaços de formação, festivais, salas e capacidade de distribuição.


Paulo Gustavo deixou dinheiro na ponta
Outro capítulo dessa história foi escrito pela Lei Paulo Gustavo. Criada em 2022, a legislação destinou R$ 3,862 bilhões para ações culturais em todo o território nacional. O dinheiro foi transferido pela União aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, que ficaram responsáveis pela execução de editais, chamamentos públicos, premiações e outras formas de seleção. A diferença em relação a um edital federal tradicional está justamente nessa descentralização. O dinheiro chega aos governos locais, que passam a organizar chamadas de acordo com suas realidades.

Para o audiovisual, isso pode significar recursos para curta-metragem, desenvolvimento de projetos, formação, cineclubismo, manutenção de espaços e outras atividades que dificilmente aparecem quando o público pensa apenas no filme pronto. A Política Nacional Aldir Blanc, por sua vez, foi criada como uma política permanente de financiamento cultural. O modelo prevê um total de R$ 15 bilhões em repasses ao longo de sua implementação, distribuídos de forma descentralizada entre estados, Distrito Federal e municípios. No segundo ciclo, referente a 2025 e 2026, todos os estados e 99,9% dos municípios haviam aderido à política, segundo o Ministério da Cultura.

O resultado dessa descentralização não aparece necessariamente no cartaz de um filme famoso. Pode estar em uma oficina de roteiro, na compra de equipamentos para uma produtora, na formação de uma equipe técnica ou no primeiro curta de alguém que ainda está longe dos festivais internacionais. É assim que uma política cultural começa a produzir efeitos antes mesmo de existir um filme para o público assistir.


O Ceará coloca dinheiro no próprio cinema
O caso do Ceará ajuda a visualizar essa engrenagem. Em 2026, o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual reuniu um conjunto de ações que totaliza R$ 34 milhões sendo R$ 25 milhões provenientes do FSA e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. O pacote inclui modalidades para curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão, produção de longas-metragens para salas de cinema e produção para TV e vídeo sob demanda.

É uma política que tenta alcançar diferentes momentos da cadeia. Um cineasta pode precisar de dinheiro para desenvolver o roteiro muito antes de conseguir captar o orçamento de produção. Uma produtora pode precisar de recursos para filmar. Depois, ainda existe a etapa de levar a obra ao público. O cinema independente depende dessa continuidade. 

“Feito Pipa”, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, portanto, não deve ser entendido apenas pelo valor de um eventual edital ou pela quantidade de instituições que aparecem em seus créditos. O filme é resultado de uma cadeia de produção na qual diferentes mecanismos podem se somar. A própria trajetória da Deberton Filmes, sediada em Fortaleza, mostra como uma produtora regional pode construir projetos ao longo de anos, articulando produção, distribuição e parcerias.

Existe ainda outro caminho: os mecanismos de incentivo fiscal. A Lei do Audiovisual permite que projetos habilitados captem recursos dentro de determinados mecanismos de incentivo. Em 2025, a Ancine liberou R$ 437,8 milhões por meio das leis de incentivo, mantendo esse mecanismo como uma das fontes importantes de financiamento da produção brasileira.

Nesse mesmo ano, os limites de aporte dos mecanismos previstos nos artigos 1º e 1º-A da Lei do Audiovisual foram atualizados para até R$ 12 milhões na soma desses dispositivos, enquanto os artigos 3º e 3º-A passaram a ter limite de R$ 9 milhões na soma. A legislação também teve sua vigência prorrogada até 2029. Na prática, o produtor não recebe simplesmente um cheque do governo para fazer o filme. Existem regras, aprovação do projeto, captação, prestação de contas e acompanhamento da execução. É uma engrenagem que mistura dinheiro público, participação privada e mecanismos de incentivo.


Coproduzir também é uma maneira de produzir
Quando o orçamento brasileiro não é suficiente para determinado projeto, a coprodução internacional pode abrir outra possibilidade. Em 2026, o FSA lançou chamadas específicas para coproduções com Portugal e Argentina. A chamada com Portugal prevê aproximadamente R$ 2 milhões em recursos do FSA para longas-metragens brasileiros realizados em coprodução com o país europeu. A chamada com a Argentina prevê aproximadamente R$ 1,5 milhão do Fundo para longas brasileiros realizados em coprodução com produtoras argentinas.

Coprodução não significa simplesmente conseguir dinheiro estrangeiro. Ela envolve regras, empresas dos países envolvidos, divisão de responsabilidades e reconhecimento formal da parceria. Também pode ampliar o caminho internacional de um filme. Uma obra que nasce no Brasil pode encontrar parceiros, financiamento, profissionais e circuitos de circulação em outros países. O cinema contemporâneo, nesse sentido, pode ser local na história e internacional na estrutura de produção.


O filme começa muito antes da câmera
Existe uma imagem romântica do cinema que começa quando a câmera é ligada. Na prática, o filme já começou muito antes. Começa quando alguém escreve um argumento, procura uma produtora, desenvolve um roteiro, apresenta um projeto, participa de um laboratório, procura financiamento, entra em um edital, negocia uma coprodução, monta um plano de produção e tenta convencer outras pessoas de que aquela história merece existir.

Depois vêm contratação de equipe, locações, elenco, equipamentos, transporte, alimentação, seguros, montagem, correção de cor, desenho de som, acessibilidade, cópias, materiais de divulgação, distribuição e tudo aquilo que aparece nos créditos quando a sessão termina. É por isso que o número de 3.981 obras audiovisuais brasileiras registradas em 2025, recorde histórico, precisa ser lido ao lado dos dados de financiamento. A Ancine registrou ainda 2.500 obras brasileiras independentes naquele ano, crescimento de 6,7% em relação a 2024, e 810 registros de produtoras sediadas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, alta de 9%.

No entanto, o aumento dos recursos não elimina os problemas: um edital não garante que um filme encontrará público. Um prêmio não paga sozinho a próxima produção. Um projeto aprovado pode enfrentar dificuldades de captação. Uma produtora pode conseguir realizar um filme e ainda ter problemas para distribuí-lo. Além disso, o dinheiro destinado à produção precisa chegar em tempo suficiente para que o setor consiga transformar orçamento em trabalho.

A própria Ancine registrou, ao lado dos recordes de 2025, milhares de projetos ainda em fase de captação ou contratação. O número mostra que existe dinheiro disponível e uma demanda enorme por recursos. Também existe uma questão que os números não resolvem sozinhos: quem consegue acessar os mecanismos de financiamento? Para um produtor experiente, entender um edital pode fazer parte da rotina. Para quem está começando, as exigências técnicas, jurídicas e administrativas podem ser uma barreira tão grande quanto encontrar dinheiro.


O cinema que aparece na tela tem muitos investidores invisíveis
Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, em 5 de novembro, o espectador poderá acompanhar Gugu, Dilma e aquela história familiar ambientada no Ceará. Poderá gostar ou não do filme, emocionar-se, discordar, encontrar referências próprias ou simplesmente seguir para a próxima sessão. Por trás dessa experiência estarão produtoras, profissionais, equipamentos, editais, fundos, leis de incentivo, investimentos, coproduções e anos de trabalho. Alguns desses nomes aparecem nos créditos. Outros ficam escondidos nos documentos de financiamento.

Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu o maior volume de recursos efetivamente desembolsados pela Ancine em sua série histórica. Ao mesmo tempo, a produção independente bateu recorde e regiões fora do eixo tradicional aumentaram sua participação. Ainda existe uma longa estrada entre conseguir dinheiro e atrair público. Saber disso é uma boa maneira de olhar para o chamado novo cinema brasileiro: os filmes que fazem parte dele são resultado de uma infraestrutura que tornou possível filmá-los.

.: "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

Ex-baixista da banda Barão Vermelho, Rodrigo Santos tem desenvolvido vários projetos interessantes em sua carreira solo; Agora ele apresenta um disco com releituras de canções de Nelson Motta. com várias participações especiais de convidados. Jogar luz sobre a obra de Nelson Motta foi uma ideia muito feliz, porque apesar de ser um compositor de várias parcerias de sucesso. Nelson Motta sempre foi pouco citado por essa sua contribuição na música. 

Em que pese o fato dos vários hits nas rádios, o repertorio se concentra mais nos férteis anos 80, tem parcerias com Lulu Santos ("Tudo Azul", "Como Uma Onda", "Certas Coisas"). e Guilherme Arantes ("Coisas do Brasil"), passandos por outras canções tipo lado B que mereciam ser resgatadas. Com espírito agregador, Rodriho reuniu um seleto elenco de nomes conhecidos como Leila Pinheiro, Sandra Sá, Fernanda Abreu. Ivo Meirelles, Luiz Caldas, Lobão, Sergio Britto (Titãs), Frejat entre outros.

Difícil destacar uma única faixa ou participação especial. Paula Toller está em "Como Uma Onda". Leo Jaime canta "Sereia". E até Chico Chico, filho da Cassia Eller, canta o rock "Perigosa" (o antológico hit das Frenéticas). Mas eu estaria sendo leviano citando apenas essas faixas. O disco merece ser ouvido na integra. "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração. Ele mostra bem a importância de Nelson Motta na nossa música popular. Vale a pena ser conferido.

 "Coisas do Brasil" (Fernanda Takai)


"Como Una Onda" (Paula Toller)


"De Repente Califórnia" (Rogério Flausino)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Quem lê, entende: no meu caso, o jornal era um caça-palavras


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Encerro as duas primeiras aulas da manhã e encaro uma “janela” de quase duas horas sem atividades. Primeiro, um respiro de alívio — ou tomada de fôlego — pelos desafios que hão de vir. Com a garrafa térmica em mãos, a fumaça aguça os sentidos que precisam estar despertos. Sento-me calmamente e vou sorvendo cada gole junto com as ideias que ainda não estão aqui. Seria um ótimo momento para escrever, mas estou adiando, pois… você sabe… Forço-me, então, a buscar pelas notícias. Abro portais jornalísticos em busca de assuntos, que não dão conta de uma crônica. Do nacional ao estadual; do regional ao municipal — nada diz o que diria a crônica.

Um deles, porém, apresenta como slogan a frase: “Quem lê, entende”. Pois bem, pus-me a ler.

Havia notícias, claro. Havia reportagens, óbvio. Havia crônicas, por certo. Havia, enfim, um amontoado de palavras (como já disseram por aí) que — juro — li, reli, li novamente e não entendi. “Jornalistas patranheiros!”, bradei baixinho. Como podem afirmar que “quem lê, entende”, se eu, que li e tresli, não entendi patavinas?

Estava prestes a amassar o jornal (se cheiro de jornal sentisse), mas não podia danificar a tela, quando uma matéria me tragou os olhos. O sangue que se espreme sempre de tais folhas não estava ali. Um casal estadunidense do passado comprou um terreno em meio a lagos e florestas para passar o verão. Aquele verão, na verdade, durou a vida inteira que vinha pela frente por culpa de uma coruja-de-chifres. A pobrezinha, ferida, foi levada ao casal, que acabou lhe devolvendo as asas.

Mudança de rota. A temporada de verão tornou-se missão de uma vida toda.

Já eu, não mudo de rota, mas volto ao início. Quem lê, entende. “Jornalistas fidedignos”, sussurrei em alta voz.

O pior cego é aquele que não quer ver, diz a sabedoria popular. A terça-feira modorrenta torrava-me a vista, e as notícias eram nulas ao meu querer. O amargo do café demorou, mas fez efeito. Porque a leitura só faz sentido quando ressoa. Não é à toa que, muitas vezes, um romance seja preterido por um caça-palavras ou deslizar a tela seja mais atrativo que Drummond. Nesse caso, quem lê, não entende mesmo. No meu caso, o jornal era um caça-palavras.

As notícias daquela manhã não bastavam. Eram aquilo mesmo: um amontoado de palavras que precisavam ser buscadas. Mas não seria esse o ofício do cronista: o dever de desentranhar do cotidiano as palavras mais recônditas? Pois pronto! A coruja-de-chifres foi a minha palavra. Ei-la, bela e esvoaçante, cruzando o céu em plena saúde, depois de passar por aquele reduto, ex-rancho de veraneio. E também passar por mim, ex-reduto obscuro aos fatos que merecem ser escritos.

A minha coruja me fez perceber que não se pode apenas caminhar sobre as palavras. Para entendê-las, é preciso mergulhar. Foi assim que pincei, daquele emaranhado de vocábulos, o sentido necessário. Por isso, sou grato à minha coruja. E sou grato também ao jornal, com o qual brado aos quatro ventos: quem lê, entende.

.: Novo cinema brasileiro revela diretores que ampliam a ideia de autoria


De Allan Deberton a Grace Passô, cineastas com trajetórias, idades e formações diferentes constroem filmes autorais a partir de territórios, experiências pessoais e maneiras diversas de olhar para o Brasil

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se existe uma palavra que costuma aparecer quando se fala em cinema brasileiro contemporâneo, é “novo”. O problema começa quando ela precisa ser definida. Novo em relação a quê? À idade dos diretores? À linguagem? Aos temas? À maneira de produzir? À presença em festivais internacionais? A lista brasileira que disputou a indicação ao Oscar 2027 ajuda a complicar a resposta.

Entre os seis finalistas estavam Allan Deberton, Carlos Saldanha, Eliza Capai, Gabriel Martins, Grace Passô e Rafaela Camelo. São profissionais com trajetórias bastante diferentes, vindos de experiências distintas e que chegaram ao cinema por caminhos que não cabem em uma mesma biografia. “Feito Pipa”, de Deberton, acabou escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, mas os outros cinco filmes ajudam a entender a diversidade de autoria existente no país.


Allan Deberton levou o Ceará para o centro da conversa
A trajetória de Allan Deberton começa em Russas, no interior do Ceará, passa pela Universidade Federal Fluminense e retorna ao estado de origem por meio das próprias histórias. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve curtas exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios antes de chegar a “Feito Pipa”. O caminho também passa por “Pacarrete”, filme de 2019 que conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado, e por uma produtora que Deberton mantém em Fortaleza ao lado do produtor Marcelo Pinheiro.

A Deberton Filmes foi criada em 2001 e trabalha com desenvolvimento, produção e distribuição. Além de “Pacarrete”, produziu “Transversais” e “O Melhor Amigo”, lançado em 2025, antes de chegar à coprodução de “Feito Pipa” com a Biônica Filmes e a Warner Bros. Pictures Brasil. O percurso é significativo porque Deberton não precisou transformar o Ceará em uma paisagem exótica para fazer um filme reconhecível fora do Brasil. 

“Feito Pipa” surgiu de memórias de infância, foi filmado em Quixadá e chegou à Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Generation Kplus. Depois, acumulou outros reconhecimentos até ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. O próximo projeto do diretor, “A Adoção”, também já vem conectado a uma rede internacional de produção, com participação de Deberton Filmes, Paramount Pictures, Iwaso Films e Arthood Films. 


Gabriel Martins transforma a experiência coletiva em cinema
Gabriel Martins chegou ao cinema por uma trajetória ligada à Filmes de Plástico, produtora criada em Belo Horizonte por ele, André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia. O grupo se tornou um dos exemplos mais conhecidos de produção independente brasileira surgida fora do eixo tradicional. “Marte Um”, lançado em 2022, ampliou essa trajetória para um público internacional e foi escolhido pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar 2023. Quatro anos depois, Martins retorna com “Vicentina Pede Desculpas”, filme protagonizado por uma professora aposentada de 75 anos que tenta lidar com as consequências de um acidente provocado pelo próprio filho. 

A mudança de idade da protagonista já diz alguma coisa sobre o caminho percorrido pelo diretor. Depois de acompanhar uma família negra de classe média baixa em “Marte Um”, Martins volta sua atenção para uma mulher idosa diante de uma tragédia que a obriga a percorrer a cidade em busca das famílias das vítimas. “Vicentina Pede Desculpas” também amplia a circulação internacional do diretor. Em 2026, o filme foi selecionado para a competição oficial do Festival de San Sebastián e para a seção Plataforma do Festival Internacional de Cinema de Toronto.


Grace Passô chegou ao cinema por outro caminho
Grace Passô representa outra espécie de percurso. Atriz, dramaturga e diretora, ela construiu uma carreira de destaque principalmente no teatro antes de chegar à direção de um longa-metragem. “Nosso Segredo” marca sua estreia na direção de longas e nasceu de uma peça escrita por ela duas décadas antes, “Amores Surdos”. A adaptação leva para o cinema uma família negra que tenta reconstruir a rotina depois da morte do pai, misturando drama familiar, elementos fantásticos e uma linguagem que mantém relação com a experiência teatral da diretora.

O filme também chegou ao Festival de Gramado cercado de atenção e venceu o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, além de outros prêmios. Existe uma ironia interessante nessa estreia: Grace Passô não aparece como uma desconhecida que descobriu o cinema de repente, já que chega ao primeiro longa-metragem carregando anos de experiência com dramaturgia, atuação e direção. O primeiro filme, nesse caso, é apenas o primeiro longa-metragem, não o primeiro capítulo da carreira. 


Rafaela Camelo estreia no longa-metrag
em depois de rodar o mundo
Rafaela Camelo oferece outro exemplo. “A Natureza das Coisas Invisíveis” é o primeiro longa-metragem dela, mas a diretora e roteirista já vinha acumulando experiências em curtas, laboratórios e festivais internacionais. Formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília e pós-graduada em roteiro pela FAAP, Camelo dirigiu “O Mistério da Carne”, selecionado para o Sundance Film Festival em 2019. Com “As Miçangas”, codirigido com Emanuel Lavor, voltou à Berlinale em 2023. Em 2025, estreou “A Natureza das Coisas Invisíveis” na Berlinale.

O filme acompanha Glória e Sofia, duas meninas de dez anos que se conhecem em um hospital durante as férias. A partir da amizade entre elas, a narrativa passa por doença, ausência, memória e mudanças familiares. Camelo também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. A carreira dela mostra como funciona uma parte menos visível do cinema contemporâneo: antes de um longa chegar ao público, existe uma longa caminhada por oficinas, laboratórios, programas de desenvolvimento, curtas e festivais. 


Eliza Capai leva o documentário para dentro da brincadeira
Eliza Capai também chegou à disputa do Oscar 2027 por uma via diferente. “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário construído a partir do encontro com meninas do sertão do Piauí, que inventam uma máquina do tempo para imaginar o passado de suas mães e avós e projetar os próprios futuros. A diretora já havia trabalhado com temas sociais e políticos em “Espero tua (Re)volta”. No novo filme, porém, encontra outra maneira de construir a narrativa: a brincadeira vira ferramenta de investigação.

Meninas de dez anos falam sobre religião, gênero, casamento, alcoolismo, pobreza e desigualdade enquanto inventam regras, personagens e futuros. O documentário se aproxima da infância sem retirar das personagens a capacidade de interpretar a própria realidade. A escolha formal também diz respeito à autoria. Sem transformar as meninas em fontes de depoimentos previsíveis para falar sobre desigualdade, ela deixa que a imaginação delas participe da construção do filme. A máquina do tempo existe porque o cinema permite inventá-la.


Carlos Saldanha chega de Hollywood sem abandonar o Brasil
Carlos Saldanha é o nome que mais desmonta a ideia de que o “novo cinema brasileiro” precisa ser feito exclusivamente por profissionais que começaram recentemente. Diretor de animações como “A Era do Gelo”, “Rio” e “O Touro Ferdinando”, Saldanha construiu durante décadas uma carreira internacional ligada à indústria norte-americana. Em “100 Dias”, porém, retorna a uma história brasileira inspirada na travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul.

O filme acompanha o navegador durante a viagem solitária entre a África e o Brasil e transforma uma experiência real em uma narrativa sobre resistência física, memória e relações familiares. A produção teve première brasileira no Festival do Rio, onde foi escolhida para a Gala de Encerramento. O movimento é curioso porque Saldanha poderia ser apresentado apenas como um brasileiro que fez carreira fora do país. 


Marianna Brennand filma uma infância que já tinha história
Marianna Brennand também construiu sua relação com o cinema a partir do documentário. Em “Manas”, porém, leva para a ficção uma personagem adolescente que vive na Ilha do Marajó. O filme acompanha Marcielle (Jamilli Corrêa), de 13 anos, enquanto ela percebe as limitações impostas às mulheres de sua família e começa a imaginar uma maneira diferente de conduzir a própria vida.

A produção tem uma trajetória internacional expressiva e também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Direção. Brennand também assina a produção do filme pela Inquietude, em parceria com outras empresas brasileiras e portuguesas. A ficha técnica reúne ainda nomes como os produtores associados Jean-Pierre e Luc Dardenne, o que mostra como uma produção brasileira pode estabelecer pontes com outros circuitos de cinema sem deixar de partir de uma história profundamente localizada.

O “novo cinema brasileiro” pode ter sotaques, idades, métodos e até modelos de produção diferentes. O que aproxima esses cineastas não é uma cartilha, mas a disposição de encontrar uma forma própria de olhar para um país que continua oferecendo histórias demais para caber em um único cinema.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro reúne 15 filmes e desenha muitos Brasis


De Amyr Klink à Revolta dos Malês, de uma família negra em luto a profissionais do sexo da Vila Mimosa, lista brasileira para o Oscar 2027 apresentou histórias, gêneros, territórios e personagens muito diferentes antes de “Feito Pipa” ser escolhido

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.


Antes de “Feito Pipa” ganhar o direito de representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, outros 14 filmes dividiram com a produção de Allan Deberton a atenção da Academia Brasileira de Cinema. A lista de 15 títulos habilitados à disputa reuniu ficções, documentários, histórias contemporâneas, personagens históricos, crianças, idosos, artistas, criminosos, profissionais do sexo, famílias, políticos, aventureiros e personagens que poderiam facilmente habitar universos cinematográficos completamente diferentes. A escolha final aconteceu em 16 de setembro, depois de uma primeira triagem que reduziu os 15 títulos para seis.  

Além de “Feito Pipa”, chegaram à segunda etapa “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”. A comissão formada pela Academia Brasileira de Cinema acabou escolhendo o filme de Allan Deberton, que agora segue no processo internacional do Oscar. O interessante está, também, no que aconteceu antes da escolha. Olhar para os 15 filmes permite enxergar uma espécie de fotografia do cinema brasileiro contemporâneo, ainda que uma lista de premiação nunca consiga representar sozinha toda a produção de um país.


"A Fabulosa Máquina do Tempo": no sertão do Piauí, meninas de dez anos navegam entre TikTok, cultos evangélicos e sonhos de futuro

Um barco, uma máquina do tempo e um menino do Ceará
“100 Dias”, de Carlos Saldanha, acompanha uma experiência real que parece ter sido escrita para o cinema: a travessia do Atlântico Sul feita por Amyr Klink a remo, entre a África e o Brasil. Sozinho em um pequeno barco, o navegador enfrenta o oceano enquanto a narrativa também mergulha em memórias, conflitos familiares e nos limites físicos e emocionais de quem decidiu encarar uma viagem dessa dimensão.

Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, parte do sertão do Piauí para acompanhar meninas que circulam entre religião, redes sociais, histórias familiares e sonhos de futuro. A invenção de uma máquina do tempo permite que elas revisitem as experiências de mães e avós e imaginem outras possibilidades para suas próprias vidas.

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, também olha para a infância. Glória, de dez anos, conhece Sofia durante uma temporada no hospital onde a mãe trabalha. A amizade entre as duas nasce em meio à doença da bisavó de Sofia e continua quando as meninas e suas mães seguem para o interior de Goiás.

Em “Feito Pipa”, Allan Deberton leva o espectador para Quixadá, no Ceará, onde um menino de 12 anos, interpretado por Yuri Gomes, vive com a avó Dilma (Teca Pereira) e enfrenta a possibilidade de precisar morar com o pai, vivido por Lázaro Ramos. Futebol, família, infância, afeto e pertencimento se encontram na história que acabou escolhida pela Academia Brasileira de Cinema.


Quando o desejo vira assunto
“Ato Noturno”, dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, leva a lista de candidatos a representante do Brasil no Oscar para um território completamente diferente. O filme acompanha um ator ambicioso (interpretado por Gabriel Faryas) e um político em ascensão (Cirillo Luna) que mantêm um relacionamento secreto e compartilham o desejo por encontros sexuais em locais públicos. Conforme os dois se aproximam da fama, o risco também aumenta. O filme coloca sexualidade, desejo, exposição e poder dentro de uma mesma história. A relação entre os personagens também introduz uma questão recorrente no cinema contemporâneo: aquilo que uma pessoa faz quando a vida pública começa a entrar em conflito com aquilo que deseja viver longe dos olhos dos outros.

“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, parte de outro tipo de tensão. Murilo (João Vitor Silva) é um jovem músico em luto que se envolve com Marlene (Bella Campos), uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. As histórias deles se cruzam com as de Luciana (Bárbara Colen), uma policial movida por vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado com segundas intenções. O filme é inspirado em histórias reais e organiza os personagens em uma trama de vidas que se aproximam até o ponto de não haver mais caminho de volta.


Três mulheres apostam tudo
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, foca em três gerações de mulheres. Aos 65 anos, Dolores (Carla Ribas) tem uma premonição de que a vida dela vai mudar e imagina um futuro como dona de um cassino de sucesso. O problema é que o passado de vício em jogo continua por perto. A filha, Deborah (Naruna Costa), espera a saída do namorado da prisão para começar uma nova vida. Duda (Ariana Aparecida), neta de Dolores, vê uma oportunidade de trabalhar nos Estados Unidos. As três projetam futuros diferentes e apostam em mudanças que podem alterar a trajetória da família.

Em “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias, a relação familiar também conduz a história. Ana (Paolla Oliveira) quer vender a casa onde passou a infância depois da morte da mãe, uma grande vedete chamada Narcisa (Rosamaria Murtinho), e dividir o dinheiro com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller). O problema surge quando sinais da presença do espírito da mãe começam a aparecer.

“Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, apresenta outra mulher mais velha como protagonista. Vicentina (Rejane Farias) é uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley (Renato Novaes), motorista de um ônibus envolvido em um acidente que mata praticamente todos os passageiros. Depois da tragédia, ela procura as famílias das vítimas para pedir desculpas.


O Brasil que aparece quando a câmera muda de lugar
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda. Cada integrante lida com o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula guarda um segredo que pode levar a família a encarar as raízes de suas dores. Eles são uma família, com problemas, afetos, conflitos e segredos. O fato de serem negros integra essa experiência, mas não esgota seus personagens.

“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, olha para outro momento da história brasileira. Ambientado em Salvador, em 1835, o filme acompanha dois jovens muçulmanos que são separados depois de serem escravizados no Brasil. A trajetória dos dois se cruza com a Revolta dos Malês, uma das maiores insurreições de pessoas escravizadas da história brasileira. Entre um drama familiar contemporâneo e uma produção histórica ambientada no século XIX existe uma distância enorme. Ainda assim, os dois filmes colocam personagens negros no centro da narrativa e trabalham com experiências que durante muito tempo foram representadas de maneira limitada pelo audiovisual brasileiro.

A fama como destino
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, acompanha Daniel Nascimento (João Guilherme), personagem inspirado em uma história real. Ele ganhou fama como um dos melhores hackers do Brasil, entrou para uma organização criminosa que movimentava milhões de reais, viveu cercado por luxo e acabou preso em uma operação da Polícia Federal. A internet aparece aqui como território de ascensão, dinheiro e crime. A fama, que em outras histórias pode significar reconhecimento artístico ou sucesso profissional, assume outro formato.

Em “Papagaios”, de Douglas Soares, a obsessão por aparecer também está no centro da narrativa. Tunico (Gero Camilo) é conhecido no Rio de Janeiro como “Papagaio de Pirata”, aquele personagem que persegue repórteres para tentar aparecer nas transmissões de televisão. Depois de sofrer um acidente, ele conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que se torna seu aprendiz. A história usa a televisão e a busca pela fama para falar de um Brasil com milhões de aparelhos ligados diariamente, onde aparecer pode se tornar uma espécie de profissão informal. São dois filmes interessados em personagens que querem ser vistos. Um encontra a fama na internet; o outro, na televisão.


Quando a história recente volta a bater à porta
“A Conspiração Condor”, de André Sturm, parte de uma investigação jornalística. Depois da morte de Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, um jornalista interpretada por Mel Lisboa começa a investigar o caso. A morte de João Goulart meses depois aumenta suas suspeitas sobre uma possível conspiração relacionada à ditadura militar. O filme entra em uma zona conhecida do cinema brasileiro: a tentativa de revisitar acontecimentos históricos ainda cercados de dúvidas e interpretações. A proposta se aproxima do thriller político e utiliza uma investigação para retornar a um período que continua presente no debate histórico brasileiro.

A variedade da lista também aparece no modo como o passado é abordado. Em “Malês”, o cinema retorna ao século XIX. Em “A Conspiração Condor”, olha para a ditadura militar. Em “Herança de Narcisa”, o passado aparece dentro de uma casa e de uma família. Em “Feito Pipa”, surge nas memórias de infância de seus criadores. O passado brasileiro, portanto, não chega ao cinema de uma única maneira.

O que fica escondido
“Quando Vira a Esquina”, documentário dirigido por Chris Alcazar, leva a câmera para a Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, um dos mais conhecidos territórios de prostituição do país. O filme escuta profissionais do sexo que trabalham no local e constrói sua narrativa a partir da relação de confiança estabelecida entre realizadora e personagens. É outro tipo de movimento dentro da lista. Em vez de criar personagens ficcionais, o documentário abre espaço para pessoas que raramente controlam a maneira como suas vidas são representadas.

Essa mesma vontade de olhar para personagens e ambientes pouco convencionais aparece, de maneira diferente, nos demais títulos. A lista não se limita a histórias de famílias de classe média, grandes centros urbanos ou personagens já conhecidos do público. Ela passa por comunidades, profissões, cidades, períodos históricos e experiências que ampliam o repertório do cinema brasileiro.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

.: “Os Deuses Malditos” expõe a família que se vendeu ao poder nazista


Clássico de Luchino Visconti mergulha na decadência de uma dinastia industrial alemã enquanto o nazismo transforma disputas familiares em um jogo de sobrevivência

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A chegada de “Os Deuses Malditos” ao streaming Belas Artes À La Carte recoloca em circulação um dos filmes mais provocadores de Luchino Visconti. Lançado em 1969, o drama acompanha a derrocada dos von Essenbeck, uma poderosa família alemã ligada à indústria siderúrgica, enquanto o nazismo avança e reorganiza as relações de poder no país. Inspirado livremente na trajetória de grandes famílias industriais alemãs, especialmente os Krupp, o filme transforma a mansão aristocrática em palco para ambição, traição, assassinato e oportunismo.

A história começa em 1933, quando Joachim von Essenbeck, patriarca do clã, reúne os familiares e anuncia mudanças no comando de seu império. A decisão provoca uma disputa interna que ganha contornos cada vez mais brutais. Enquanto alguns personagens tentam preservar seus privilégios, outros percebem na ascensão de Adolf Hitler uma oportunidade para ampliar poder e fortuna. O resultado é uma sucessão de alianças frágeis, conspirações e mortes que acompanha a consolidação do regime nazista até a Noite das Facas Longas.

Visconti não se limita a reconstituir acontecimentos históricos. O interesse dele está também na maneira como uma elite econômica reage diante de uma nova configuração política. A família von Essenbeck, embora fictícia, remete aos grandes grupos industriais alemães que mantiveram relações com o regime. O filme usa essa família como uma espécie de laboratório moral, no qual dinheiro, parentesco e poder entram em combustão à medida que os personagens percebem que colaborar com o novo regime pode ser bastante conveniente.

A referência aos Krupp é recorrente na fortuna crítica sobre o filme, mas “Os Deuses Malditos” não deve ser tomado como uma reconstituição literal da história dessa família. A própria construção dos personagens mistura referências históricas e elementos de tragédia familiar. A comparação com “Macbeth”, de William Shakespeare, também aparece na leitura crítica da obra, sobretudo pela sucessão de assassinatos, manipulações e disputas pelo poder.

O elenco reúne Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Umberto Orsini, Charlotte Rampling e Florinda Bolkan. Helmut Berger interpreta Martin von Essenbeck, personagem que se tornou um dos grandes cartões de visita de sua carreira. A produção também marcou uma das primeiras aparições importantes de Florinda Bolkan no cinema, no papel de Olga. IMDb confirma ainda a participação de nomes como Renaud Verley, René Koldehoff e Albrecht Schönhals.

Berger ganhou especial projeção com Martin, personagem que concentra boa parte do caráter teatral e perturbador do filme. Uma das cenas mais conhecidas mostra o personagem interpretando uma canção associada a Marlene Dietrich, momento que já foi destacado pela crítica como exemplo da maneira extravagante com que Visconti trabalha aparência, sexualidade, poder e representação. A sequência aparece também em análises contemporâneas do filme publicadas pelo British Film Institute.

A trilha sonora de Maurice Jarre acompanha esse universo de excessos com uma música igualmente grandiosa. Na fotografia, Pasqualino De Santis e Armando Nannuzzi ajudam a construir a atmosfera visual da produção, enquanto Ruggero Mastroianni assina a montagem. O roteiro foi escrito por Nicola Badalucco, Enrico Medioli e o próprio Visconti. “Os Deuses Malditos” também abriu o que ficou conhecido como a “trilogia alemã” de Visconti, seguida por “Morte em Veneza” (1971) e “Ludwig” (1973). O British Film Institute observa que os filmes tardios do cineasta frequentemente trabalham com a ideia de ordens sociais em processo de decadência, e situa “Os Deuses Malditos” dentro dessa investigação histórica sobre o desaparecimento de um determinado mundo europeu.

A recepção internacional do filme foi marcada por reconhecimento e controvérsia. Visconti, Badalucco e Medioli receberam indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 1970. Helmut Berger também foi indicado ao Globo de Ouro como revelação masculina. No cinema italiano, Visconti recebeu o Nastro d'Argento de melhor diretor. O conteúdo sexual e a violência provocaram problemas com órgãos de classificação em diferentes países. Nos Estados Unidos, a produção chegou a receber classificação X e posteriormente teve essa classificação alterada para R depois de cortes. A repercussão ajuda a explicar por que o filme continua sendo lembrado tanto por sua construção dramática quanto pelo modo frontal com que Visconti aborda os excessos de seus personagens.

Também chama atenção o fato de “Os Deuses Malditos” ter sido construído em inglês e alemão, apesar de ser uma produção dirigida por um italiano. A ficha técnica registra Itália e Alemanha Ocidental entre os países de produção, enquanto diferentes fontes apontam pequenas variações na duração, entre 154 e 158 minutos, de acordo com a versão consultada. Rever “Os Deuses Malditos” hoje significa reencontrar um Visconti interessado em famílias ricas, ambientes luxuosos e personagens dispostos a ultrapassar praticamente qualquer limite para preservar seus lugares à mesa. Só que, desta vez, a mesa está posta diante de uma Alemanha em transformação, e os convidados descobrem rapidamente que, quando o poder muda de mãos, ninguém permanece completamente protegido.


Ficha técnica
“Os Deuses Malditos” | “La caduta degli dei” (título original) | “Os Malditos” (título em Portugal) | “The Damned” (título internacional)
Gênero: drama, guerra. Duração: 154 minutos. Classificação indicativa: 16 anos, conforme registros consultados; a classificação pode variar segundo a versão e o serviço. Ano de produção: 1969. Data de lançamento: 14 de outubro de 1969, em Roma; 16 de outubro de 1969, na Itália. Idiomas: inglês e alemão. Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Nicola Badalucco, Enrico Medioli e Luchino Visconti. Elenco: Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Renaud Verley, Umberto Orsini, René Koldehoff, Albrecht Schönhals, Florinda Bolkan, Charlotte Rampling, Nora Ricci e Irina Wanka. Distribuição no Brasil: Warner Bros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Cansei de Ser Belo" cutuca a vaidade e leva galã de novela ao teatro


Comédia inédita de Emílio Boechat estreia em outubro no Teatro YouTube e acompanha um astro da televisão disposto a abrir mão da própria beleza para conquistar o respeito da crítica. Foto: divulgação

A beleza pode abrir muitas portas. Para Rodrigo Contreiras, personagem de Fernando Pavão em "Cansei de Ser Belo", ela também virou uma espécie de prisão. Galã absoluto das novelas, rosto requisitado por marcas e dono de milhões de seguidores, ele chega a uma conclusão bastante peculiar: se quiser ser levado a sério como ator, terá de acabar com a própria imagem de homem perfeito. Essa é a premissa da nova comédia de Emílio Boechat, que estreia no dia 3 de outubro, no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu, em São Paulo. Com direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo reúne no elenco Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes. A produção é assinada por Boechat e Marília Toledo.

Rodrigo está cansado de ser visto apenas como um "corpo sarado com milhões de seguidores". Na tentativa de conquistar reconhecimento artístico, ele resolve destruir a própria imagem de perfeição e escolhe o teatro como atalho. Afinal, segundo sua lógica bastante conveniente, montar uma peça é mais rápido do que produzir um filme ou uma série. A ideia para a comédia surgiu depois que Emílio Boechat assistiu à leitura de uma peça protagonizada por um conhecido galã de novelas. “Pensei: por que esse homem tão bonito e bem sucedido ainda se dá ao trabalho de fazer teatro? Foi então que eu lembrei que, segundo o filósofo Henri Bergson, a vaidade é o ‘vício cômico’ mais engraçado. A partir disso decidi escrever sobre a vaidade de uma perspectiva diferente”, revela.

A obsessão de Rodrigo pelo reconhecimento chega ao ponto de fazê-lo encarar aquilo que considera o submundo da profissão: o teatro alternativo e experimental. A provocação, porém, não mira esse segmento teatral. Boechat esclarece que a peça volta suas atenções para quem busca prestígio a qualquer preço e enxerga o teatro experimental como um lugar menor. “Nossa crítica é voltada às pessoas que buscam o reconhecimento a qualquer preço, que têm uma visão distorcida de quem são e tratam esse teatro experimental como algo menor, que dá trabalho pra quem ‘não é bonito o suficiente pra fazer televisão’”, comenta.

Erica Montanheiro vê no absurdo uma das principais fontes de humor do espetáculo. “O texto cria situações limítrofes nas quais, dificilmente, alguém iria se colocar. Essas situações criam constrangimento e, ao mesmo tempo, um olhar debochado sobre o ‘ser artista’. E é, através desse deboche, que as fragilidades do fazer artístico são expostas. Em um país como o Brasil - que não valoriza os trabalhadores da cultura - cada vez mais os próprios artistas são responsáveis por criar situações para vender sua imagem”, diz.

Na pele de Rodrigo, Fernando Pavão também enxerga uma conexão direta entre o personagem e a busca contemporânea por visibilidade. “Acho que o texto acerta a mão em cheio ao espelhar esse Rodrigo, um ator que precisa desesperadamente de visibilidade e reconhecimento com o tempo em que vivemos hoje, em que muita gente busca isso via o mundo fantástico das redes sociais. Uma comédia deliciosa onde o universo dos atores e seus exageros é primorosamente retratado”. A direção de Kleber Montanheiro parte do jogo cênico típico da comédia de Boechat e acrescenta uma camada surrealista à encenação. A proposta trabalha o exagero como ferramenta para criar um espelho da sociedade.

Na cenografia e nos figurinos, a ideia é apostar na simplicidade com bastante movimento. “Queremos que a cenografia seja muito simples, mas muito mutante, que tenha elementos que se transformam. Então, eles se transformam numa sala, num escritório, num camarim, quase como um grande contêiner que vai abrindo e dando origem a diferentes espaços físicos. E isso remete um pouco a essa velocidade das redes sociais, quase como uma tela de celular”, comenta o diretor.


Sobre Emílio Boechat
Emilio Boechat tem 35 anos de carreira escrevendo para rádio, teatro, cinema, TV e plataformas de streaming. Junto com Marilia Toledo ganhou o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Dramaturgia Original em Musicais (2023) por "Ney Matogrosso - Homem com H". Já foi indicado aos prêmios Destaque Imprensa Digital (2023 e 2022), Rio Web Fest (2021), Troféu Mambembe (1998) e APETESP (1991). Ao lado dela, escreveu também os musicais "Uma Noite na Broadway", "Silvio Santos Vem Aí" e "Os Dez Mandamentos".

É autor das comédias "Camila Backer Lives in Concert", "Eu era tudo pra ela e ela me deixou"; do longa-metragem "Barraco de Família" e da série "A Secretária do Presidente" (Multishow/Mixer). É co-produtor e head-writer da série "Camila Baker", premiada pela Lei Paulo Gustavo em 2023. Com Miguel Falabella e Rosana Hermann escreveu a minissérie "O Som e a Sílaba" e a 2ª temporada de "O Coro - sucesso aqui vou eu" (Disney+), ainda inédita.

Foi head-writer da segunda temporada da série "Na Fama, Na Lama" (Multishow). Escreveu com Ingrid Guimarães, por três anos, os roteiros do programa "Mulheres Possíveis" (GNT). De 2005 a 2020, foi roteirista da Record TV, onde escreveu novelas e minisséries como "Bela, a Feia", "Rebelde" e "Os Dez Mandamentos".


Sobre Kleber Montanheiro
Multiartista com 30 anos de carreira, Kleber Montanheiro é diretor cênico, cenógrafo, figurinista e artista visual em expografia. Indicado a mais de 25 prêmios (FEMSA, APCA, Shell, Prêmio Bibi Ferreira e Prêmio DID - Destaque Imprensa Digital) em diversas categorias, foi contemplado pela maioria delas.

Entre seus trabalhos de direção estão espetáculos como "Ópera do Malandro", de Chico Buarque de Holanda; "Carmen, a Grande Pequena Notável", de Heloísa Seixas e Júlia Romeu; "Nossos Ossos", baseado no livro homônimo de Marcelino Freire; e "Tatuagem", musical adaptado do filme de Hilton Lacerda, trabalho que recebeu diversas indicações ao Prêmio Bibi Ferreira e lhe rendeu o prêmio APCA de melhor diretor.

Por "Carmen, a Grande Pequena Notável", recebeu o Prêmio São Paulo de melhor figurino. Dirigiu, concebeu e criou cenografia e figurinos do musical da Broadway "Cabaret", de John Kander e Fred Ebb, que cumpriu temporada no 033 Rooftop, do Teatro Santander - SP, recebendo os prêmios Bibi Ferreira de melhor direção e melhor figurino. Em 2025, dirigiu e concebeu o musical brasileiro original "João", indicado a melhor direção nos prêmios Bibi Ferreira, DID e APCA. Em "Gal - o musical", assina a direção e o figurino.


Sobre o Teatro YouTube
O Teatro YouTube ocupa o Conjunto Nacional, em São Paulo, dentro da Galeria Magalu, sob gestão da Aventura Teatros. O espaço aproxima a experiência presencial do universo digital e recebe espetáculos, projetos de criadores de conteúdo elegíveis, iniciativas de marcas e diferentes formatos de interação com o público. A estrutura também comporta transmissões ao vivo, gravações de podcasts e eventos. O local recebe ainda projetos institucionais, como o YouTube Music Nights, série de shows intimistas lançados exclusivamente nos canais dos artistas convidados.


Sobre a Aventura
Fundada em 2008 e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e de produção geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura atua na produção de espetáculos e no desenvolvimento do teatro musical no Brasil. A empresa soma mais de 40 produções, entre espetáculos inéditos e versões da Broadway, como "Elis, a musical", "A Noviça Rebelde", "Mamma Mia", "Hair", "Sete", "O Mágico de Oz", "SamBRA", "Chacrinha, o musical", "Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte", "Merlin e Arthur, um sonho de liberdade" e o infantil "Zaquim".

Em 2022, a produtora lançou "Vozes Negras – A Força do Canto Feminino", primeiro musical em formato de série do país, e "Seu Neyla", apresentado em dois palcos com uso da internet para criar uma experiência diferenciada para o público. No mesmo período, estreou a parceria com a Disney-Pixar em "Pixar in Concert". Com a proposta de ampliar o acesso à cultura, a Aventura criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil, e também responde pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, são mais de 3,8 mil apresentações, cerca de 4,5 milhões de espectadores e mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados.


Ficha técnica
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Texto: Emilio Boechat
Direção, cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Elenco: Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes
Direção de Produção: Marilia Toledo e Emilio Boechat


Serviço
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Temporada: 3 de outubro a 22 de novembro de 2026
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00
Teatro YouTube (Galeria Magalu - Conjunto Nacional) - Av. Paulista, 2073 - Bela Vista / São Paulo
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada)
Vendas online: Eventim
Classificação: livre
Duração: 70 minutos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: “A História dos Meus Peitos” coloca o desejo feminino no centro da narrativa


Romance de estreia de Mariana Guimarães revisita memórias de uma mulher a partir da relação com o próprio corpo e chega a São Paulo em noite de lançamento na Livraria Megafauna

“Nenhum homem nunca mais chupou meus peitos desde que minhas filhas botaram suas boquinhas neles.” É com essa frase que Luiza se apresenta ao leitor. Diante do espelho, ela examina o corpo até chegar aos seios, insatisfeita com as mudanças provocadas pelo tempo e pela maternidade. Depois de marcar uma consulta com um cirurgião plástico, o choque inicial dá lugar a uma viagem pelas lembranças que ajudaram a construir sua relação com o desejo e com o próprio corpo. 

O que começa diante do espelho, entre incômodos com o próprio corpo e a decisão de procurar um cirurgião plástico, logo ganha outros contornos em “A História dos Meus Peitos”, romance de estreia de Mariana Guimarães, publicado pela Editora Record. A protagonista Luiza transforma a própria memória em matéria literária e percorre infância, adolescência, descobertas do prazer, casamento e maternidade a partir de uma perspectiva bastante particular: a dos próprios peitos. 

A escritora Natalia Timerman assina o texto de orelha. O lançamento do livro será no dia 8 de outubro, às 19h00, na Livraria Megafauna do Copan, em São Paulo. Após o bate-papo, a autora participa de uma sessão de autógrafos. A conversa será conduzida pela jornalista Cris Bartis, do Mamilos Podcast.

A narrativa acompanha essa trajetória com intimidade e bom humor, revisitando diferentes momentos da vida da personagem e as maneiras pelas quais ela experimentou o prazer, fez escolhas e passou a enxergar a própria sexualidade. Os peitos, que poderiam ocupar apenas o papel de parte do corpo, ganham voz dentro dessa memória afetiva e se tornam uma espécie de fio condutor da história. 

O romance parte de uma experiência real vivida pela autora e transforma uma inquietação pessoal em literatura. Ao colocar o desejo de Luiza no centro, Mariana Guimarães também desloca a maneira como o corpo feminino costuma aparecer nas narrativas, especialmente quando observado pelo olhar alheio. Compre o livro "A História dos Meus Paitos", de Mariana Guimarães, neste link.


Sobre a autora
Mariana Guimarães nasceu em 1980, em São Paulo. Formada em Direito e Psicologia, trabalhou como advogada criminalista e atualmente atua como psicóloga e psicanalista. Mãe de três meninas, estreia na literatura com “A história dos meus peitos”.


Serviço
“A História dos Meus Peitos”
Lançamento: 8 de outubro, às 19h00
Local: Livraria Megafauna do Copan
Av. Ipiranga, 200, loja 53 - Centro / São Paulo

.: Novo cinema brasileiro coloca novos personagens no centro das histórias


Filmes recentes aproximam crianças, mulheres, idosos, personagens negros e LGBTQIA+ do centro da narrativa e revelam um país contado a partir de experiências que durante muito tempo apareceram nas margens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Gugu tem quase 12 anos, gosta de futebol, dança e maquiagem, vive com a avó e tenta administrar sozinho uma situação que ultrapassa a idade que tem. Em “Feito Pipa”, Allan Deberton escolheu esse menino do interior do Ceará para conduzir uma história sobre afeto, família, preconceito, memória e perda. A escolha do personagem ajuda a entender uma das características mais interessantes do cinema brasileiro recente: o centro das narrativas está ficando maior.

Durante muito tempo, o cinema brasileiro comercial e autoral repetiu determinados tipos de protagonista. Homens adultos, urbanos, geralmente inseridos em conflitos políticos, familiares ou profissionais, ocuparam boa parte desse espaço. Eles continuam existindo, naturalmente, mas dividem a cena com personagens que chegam de outros lugares, idades, classes sociais, regiões e experiências.

O resultado aparece em filmes de perfis muito diversos em que circulam personagens que fogem do óbvio. Nessas produções, estão uma menina de 13 anos na Ilha do Marajó, uma professora aposentada de 75 anos em Belo Horizonte, duas meninas que se conhecem em um hospital, uma família negra lidando com o luto, duas mulheres que atravessam deslocamentos entre cidade e campo e um menino cearense criado pela avó podem parecer personagens sem muita relação entre si. Juntos, porém, ajudam a desenhar um país cinematográfico menos preocupado em caber em um único retrato.

A escolha de Gugu como protagonista de “Feito Pipa” chama atenção porque o personagem reúne características que poderiam facilmente empurrá-lo para o papel de coadjuvante dentro de uma história familiar. Ele é criança, vive no interior, gosta de atividades que desafiam expectativas associadas ao comportamento masculino e precisa lidar com a doença da avó enquanto teme ser separado dela.

No filme, essas características organizam a própria narrativa. Gugu, interpretado por Yuri Gomes, conduz o espectador por uma experiência de infância marcada por afeto, insegurança e descoberta, enquanto Dilma, interpretada por Teca Pereira, ocupa outro espaço que costuma receber menos atenção no cinema: o de uma mulher idosa que não existe apenas em função dos personagens mais jovens.

A relação entre os dois é fundamental para o filme e também ajuda a deslocar uma ideia antiga de família no audiovisual. Em vez de colocar adultos como responsáveis por explicar o mundo às crianças, “Feito Pipa” acompanha uma criança que também precisa cuidar, decidir, esconder, compreender e encontrar maneiras de continuar vivendo. A repercussão internacional do filme reforça essa escolha. Antes de ser selecionado para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, “Feito Pipa” passou pela Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri da Generation Kplus, e depois conquistou cinco prêmios no Festival de Gramado, entre eles os reconhecimentos para Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.


Protagonista de "Manas", Jamilli Correa foi descoberta em testes com centenas de crianças na Região Metropolitana de Belém e ilhas próximas, sem nenhuma experiência em atuação. Foto: divulgação

Uma menina olha para o futuro
“Manas”, de Marianna Brennand, também coloca uma adolescente no centro de uma história atravessada por violência, desigualdade e falta de perspectivas. Marcielle tem 13 anos e vive na Ilha do Marajó, no Pará. A personagem percebe que o futuro oferecido a ela segue um roteiro conhecido pelas mulheres de sua família e decide confrontá-lo. A diferença está no ponto de vista. O filme acompanha uma menina que observa o mundo ao redor e começa a entender as estruturas que limitam as possibilidades. Marcielle não aparece como uma figura distante a ser observada pelo público, mas é ela quem conduz a narrativa e percebe, aos poucos, aquilo que os adultos ao redor naturalizaram.

O cinema brasileiro recente tem apresentado outras personagens femininas em posições semelhantes, sem precisar encaixá-las em modelos de heroísmo tradicional. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Gabriel Martins acompanha uma professora aposentada de 75 anos que decide procurar as famílias das vítimas de um acidente provocado pelo próprio filho. Vicentina parte de uma tragédia íntima para entrar em contato com pessoas que ela sequer conhece e tentar encontrar uma maneira de continuar vivendo.

A idade da personagem também importa. Mulheres idosas ainda aparecem com frequência menor como protagonistas de histórias cinematográficas, sobretudo quando a narrativa não está organizada em torno da doença, da memória afetiva ou da relação com filhos e netos. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Rejane Faria conduz uma personagem que toma decisões, erra, sofre, se movimenta e ocupa a história por inteiro.


Crianças também descobrem o mundo
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, dirigido por Rafaela Camelo, aproxima duas meninas de experiências relacionadas à doença, à amizade, à perda e ao amadurecimento. Glória, de dez anos, passa as férias no hospital onde a mãe trabalha e conhece Sofia, outra menina que está lidando com a piora da saúde da bisavó.

A infância aparece novamente como ponto de observação do mundo adulto. Em vez de apresentar crianças como personagens que apenas acompanham as decisões dos pais, o filme acompanha a maneira como elas interpretam acontecimentos que nem sempre conseguem compreender completamente. Parece uma diferença pequena, mas o que acontece é algo grande na construção narrativa. 

A criança deixa de ser apenas uma lembrança da infância dos adultos e passa a ter uma experiência própria, com dúvidas, desejos, medos e interpretações. “Feito Pipa” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” partem de situações diferentes, mas compartilham uma escolha: permitir que personagens infantis sustentem questões complexas sem transformá-los em pequenos adultos que reproduzem discursos prontos.


Famílias negras contam as próprias histórias
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, parte de uma família negra que tenta reorganizar a vida depois de uma perda. O filme acompanha diferentes maneiras de lidar com o luto e coloca no centro uma família formada por personagens negros, com relações, conflitos e afetos que não precisam ser apresentados ao espectador como uma exceção.

Essa mudança de perspectiva aparece também em outros filmes brasileiros recentes, em que personagens negros ocupam posições variadas dentro das narrativas. Eles podem ser crianças, pais, trabalhadores, artistas, amantes, professores, criminosos, religiosos, idosos, protagonistas ou personagens secundários. A experiência negra deixa de estar limitada a determinados assuntos e passa a integrar a variedade de histórias possíveis.

“Malês”, de Antonio Pitanga, trabalha com outro registro ao recuperar a Revolta dos Malês e acompanhar personagens negros na Salvador de 1835. A produção utiliza um episódio histórico como matéria narrativa, mas também devolve nomes, relações, conflitos e protagonismo a personagens negros que durante muito tempo foram tratados de maneira secundária nas representações audiovisuais da história brasileira.

A diferença entre esses filmes também é reveladora. “Nosso Segredo” parte de uma família contemporânea e de uma experiência de luto. “Malês” olha para o século XIX e para a resistência de pessoas escravizadas. Um fala de uma família; o outro, de uma revolta histórica. Nenhum precisa reduzir seus personagens a uma única questão identitária.


O desejo também muda de lugar
A presença de personagens LGBTQIA+ no cinema brasileiro recente também ajuda a perceber essa ampliação. Em “Feito Pipa”, Gugu é um menino queer que vive sua infância em uma relação de afeto com a avó, enquanto o conflito com o pai está ligado à dificuldade de aceitação de quem ele é. Em “Cidade; Campo”, Juliana Rojas acompanha, entre outras questões, a relação de Flávia e Mara, duas mulheres que se mudam para uma fazenda depois da morte do pai de uma delas. O filme cruza relações afetivas, migração, trabalho, memória e território, sem transformar a relação das duas em uma história isolada do restante da vida.

A presença de personagens LGBTQIA+ nesse cinema também aparece acompanhada de diferenças de classe, idade, região e contexto familiar. Isso amplia a representação porque não existe uma única maneira de contar uma experiência dissidente. O cinema deixa de perguntar apenas quem esses personagens desejam amar e passa a mostrar onde trabalham, como vivem, do que têm medo, o que desejam, de onde vieram e para onde querem ir.


Mulheres atrás e diante da câmera
Os dados mais recentes da Ancine mostram que, entre os 367 longas-metragens brasileiros exibidos em 2025, 78 foram dirigidos exclusivamente por mulheres. O número representa 21,3% do total e supera os 52 filmes dirigidos exclusivamente por mulheres em 2024, quando a participação havia sido de 16,8%.

Ainda existe uma diferença considerável, mas a comparação entre os dois anos ajuda a perceber uma movimentação. “Cidade; Campo”, “Manas” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” são exemplos de filmes recentes dirigidos por mulheres em que personagens femininas ocupam posições centrais. A relação entre quem conta e quem é contado não precisa seguir uma regra automática. Uma diretora não precisa fazer filmes sobre mulheres, assim como um homem não está condenado a contar histórias protagonizadas por homens. O que muda quando mais pessoas chegam às diferentes etapas da produção é o número de experiências disponíveis para virar roteiro, personagem, conflito e imagem.


Wagner Moura encabeça o elenco de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho. Foto: divulgação

Um país com mais de um protagonista
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, oferece outro caminho. O protagonista é Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um homem que retorna ao Recife em 1977 e tenta reencontrar o filho enquanto é perseguido pela repressão da ditadura militar. É um personagem masculino, adulto e inserido em uma trama política, mas a narrativa também se constrói ao redor de figuras que ampliam o retrato daquela cidade e daquele período.

Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, é um desses exemplos. O personagem integra uma rede de pessoas que oferecem abrigo e proteção a quem está sendo perseguido. A cidade também deixa de ser apenas cenário: Recife participa da construção da história, com seus cinemas, ruas, hábitos, sons, memórias e personagens. É essa variedade que ajuda a compreender o chamado “novo cinema brasileiro”. O termo não define uma escola estética nem uma geração fechada, mas pode ser observado na quantidade de perspectivas que passam a disputar o centro das narrativas. Compre o roteiro de “O Agente Secreto” neste link.


O centro ficou maior
Uma das melhores maneiras de observar o cinema brasileiro atual seja prestar atenção a quem aparece quando a câmera começa a filmar. As histórias são diferentes, os gêneros variam e os lugares também. O que elas têm em comum é a possibilidade de transformar experiências específicas em matéria de cinema. “Feito Pipa” chegou ao Oscar a partir do Ceará. Outros filmes recentes chegaram a Berlim, Cannes, Sundance, Toronto, San Sebastián e a diferentes festivais brasileiros levando personagens que não precisam abandonar sua origem para serem compreendidos fora dela.

O novo cinema brasileiro, nesse sentido, também pode ser observado pelo tamanho do elenco de protagonistas que ele ostentar. Quanto mais gente encontra espaço para contar a própria história, mais difícil fica resumir o país a meia dúzia de personagens conhecidos. O Brasil continua reconhecível, mas começa a aparecer por ângulos que o cinema nem sempre teve disposição, dinheiro ou liberdade para mostrar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: “Os Assassinatos da Casa Decagonal” desafia leitores a decifrar clássico


Clássico de Yukito Ayatsuji, considerado um dos romances policiais mais importantes da literatura japonesa, chega em setembro pela Intrínseca em edição inédita no país. Foto: Naoto Otsubo / Kodansha Ltd.


Yukito Ayatsuji é um dos grandes nomes do honkaku, vertente do mistério japonês marcada pela construção de enigmas e pela valorização do raciocínio lógico na solução dos crimes. Publicado originalmente em 1987, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ajudou a renovar o gênero no Japão, tornou-se referência para uma geração de escritores e chega ao Brasil, pela Intrínseca, em uma edição inédita por aqui, com tradução de Lídia Ivasa. O romance também foi incluído pela revista Time entre os 100 thrillers mais importantes do mundo e tem como uma de suas inspirações “E Não Sobrou Nenhum”, clássico de Agatha Christie.

A história começa alguns meses depois de um crime que chocou o país. Um grupo de universitários decide viajar até uma ilha remota na costa do Japão, cenário de um homicídio quádruplo ainda sem solução. O destino escolhido é a Casa Decagonal, residência projetada pelo arquiteto Seiji Nakamura, uma das vítimas do caso e dono da propriedade. Apaixonados por romances policiais, os jovens chegam ao local esperando aproveitar a viagem entre enigmas, livros e aquela dose de excitação que acompanha uma boa história de mistério. 

O passeio, porém, ganha contornos bem menos divertidos quando um deles é encontrado morto. Isolados na ilha e sem possibilidade de contato com o continente, os universitários percebem que o conhecimento acumulado nas leituras de romances policiais pode ser a única ferramenta disponível para descobrir quem está por trás dos assassinatos - e, principalmente, permanecer vivos.

Com uma morte atrás da outra, a tensão cresce dentro da casa enquanto o grupo tenta compreender a lógica do criminoso e encontrar uma saída antes que seja tarde. No continente, a investigação ganha uma segunda frente quando um ex-integrante do grupo recebe uma carta misteriosa assinada por Seiji Nakamura, morto meses antes. Desconfiado de que a mensagem tenha relação com os crimes, ele começa a seguir as pistas por conta própria. Enquanto os jovens presos na ilha tentam solucionar o enigma que os cerca, a investigação no continente procura entender o que realmente aconteceu naquela casa e qual ligação existe entre a carta e os assassinatos.

Livro de estreia de Ayatsuji, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ocupa um lugar importante na história do mistério japonês e ajudou a consolidar o honkaku como uma vertente de grande força na literatura policial do país. A estrutura de quebra-cabeça, os personagens isolados e a sucessão de pistas fazem da obra uma espécie de jogo literário em que o leitor também é convidado a desconfiar de cada detalhe. Compre o livro “Os Assassinatos da Casa Decagonal”, de Yukito Ayatsuji, neste link.


Sobre o autor
Yukito Ayatsuji nasceu em 1960 e se tornou um dos principais escritores japoneses de suspense e terror. É um dos fundadores do Honkaku Mystery Writers Club, grupo formado por autores dedicados a histórias de mistério construídas em torno de enigmas, investigação e raciocínio lógico, com forte influência dos clássicos policiais. A relação de Ayatsuji com o gênero começou ainda na Universidade de Quioto, quando participou do clube de mistério da instituição. 

O ambiente reunia alguns dos nomes que posteriormente se destacariam na literatura policial japonesa e serviu de inspiração para o grupo de estudantes retratado em “Os assassinatos da Casa Decagonal”. Com o romance de estreia, Ayatsuji recuperou elementos tradicionais do policial de enigma e ajudou a impulsionar uma nova geração de escritores dedicados ao honkaku. O livro se tornou uma referência do gênero no Japão e consolidou o autor entre os principais nomes da literatura de mistério do país. Compre os livros de Yukito Ayatsuji neste link.

.: “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, na Funarte, recupera memórias inscritas


Criação de Claudia Palma reúne Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini em espetáculo inspirado no livro “Escute as Feras”, de Nastassja Martin. Foto: Hamilton Ramos

Depois de décadas de trajetórias que se cruzaram na dança paulistana, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini voltam a dividir a cena em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, criação coreográfica de 2023 que reestreia no Complexo Cultural Funarte SP. As apresentações acontecem nos dias 25, 26 e 27 de setembro e 1.°, 2 e 3 de outubro, na Sala Renée Gumiel, dentro do projeto “Ser Tempo”, realizado pela iN SAiO Cia. de Arte.

Dirigido por Claudia Palma, o espetáculo parte de “Escute as Feras”, livro da antropóloga francesa Nastassja Martin. A obra nasceu de uma experiência real vivida pela autora durante uma pesquisa de campo entre os even, na península de Kamtchátka, na Sibéria: o encontro com um urso que deixou marcas físicas e profundas consequências em sua relação com o mundo. Publicado originalmente na França como “Croire aux Fauves”, em 2019, o livro chegou ao Brasil pela Editora 34 em 2021.

A experiência de Martin interessa ao espetáculo justamente pela ideia de encontro como acontecimento capaz de deixar marcas no corpo e na memória. Em “Miêdka”, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini não retomam coreografias antigas de suas trajetórias. O reencontro acontece a partir das lembranças, sensações, afetos e experiências acumuladas ao longo dos anos.

A palavra que dá nome à criação vem de uma referência ligada aos povos even e designa a pessoa marcada pelo encontro com um urso, que passa a carregar uma condição entre o humano e o animal. A própria companhia apresenta a figura da miêdka como alguém que sobrevive ao encontro e passa a compartilhar marcas e sonhos com a natureza.

A escolha do livro de Nastassja Martin também aproxima a dança de uma experiência antropológica bastante particular. Em sua obra, a autora parte do episódio ocorrido em 25 de agosto de 2015 para refletir sobre identidade, natureza, mito e as fronteiras entre diferentes formas de existência. “É um extrato essencial daquilo que reflete nos nossos corpos hoje”, afirma Claudia Palma, que dirige a iN SAiO Cia. de Arte desde 2010. A companhia tem uma trajetória dedicada à pesquisa do corpo e das possibilidades expressivas do movimento e reúne, em seu repertório, trabalhos como “Um Outro Corpo”, “Cálamo”, “Lugar Algum”, “Dark Room”, “Abissal” e “Ato Infinito”.

A criação também marcou a temporada de 2023 ao receber o prêmio APCA Dança de Melhor Elenco para Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini. A premiação reconheceu o trio pela atuação em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”. A programação da Funarte amplia a proposta da apresentação com atividades gratuitas relacionadas à dança e ao processo criativo. No dia 26 de setembro, após a sessão, acontece o bate-papo “Dança e Etarismo - A Potência das Idades”, com Ana Terra e Mariana Muniz. A apresentação do dia 27 terá audiodescrição.

O projeto “Ser Tempo” continua em outubro com uma residência artística conduzida pelos três intérpretes-criadores, entre os dias 6 e 9, além de duas mesas de discussão. “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”, no dia 8, reúne Zé Maria Carvalho e Zé Renato. No dia 9, “Criação e Memória na Dança” recebe Mariana Muniz, Luis Arrieta e Wellington Duarte, com mediação de Ana Terra.

Toda a programação é gratuita, incluindo as apresentações de “Miêdka – Uma Metáfora do Encontro”. O projeto da iN SAiO Cia. de Arte foi contemplado pela 39ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.


Ficha técnica
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Direção Geral e Artística: Claudia Palma | Intérpretes-Criadores: Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini | Trilha Sonora Original: Joaquim Tomé | Ambientação Cênica, Desenho e Operação de Luz: Hernandes Oliveira | Operação de Som: Gui Afonso | Figurino: Elenco | Provocação Filosófica: Rodrigo Vilalba | Escrita e Colaboração Dramatúrgica: Tatiana Avanço | Fotografia: Hamilton Ramos | Assessoria de Comunicação: Elaine Calux | Produção artística: Cristina Ávila | Produção executiva: Dionísio Produção Cultural (Cristiane Klein).


Serviço
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Com: Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini
Dias  25, 26 e 27 de setembro | Sexta-feira, às 19h00; sábado e domingo, às 18h00
Dias 1.°, 2 e 3 de outubro | Quinta a sábado, às 19h00
Complexo Cultural Funarte SP - Sala Renée Gumiel
Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos / São Paulo
Duração: 60 minutos. Classificação: livre. Acessibilidade: sim. Audiodescrição: 27 de setembro, mediante reserva pelo WhatsApp 11 99548-4773. Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes do espetáculo

Residência artística “Miêdka”
6 a 9 de outubro, das 11h00 às 14h00 | 25 vagas

Mesas de discussão
8 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”
9 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Criação e Memória na Dança”
Toda a programação é gratuita.

.: Últimos dias de “Mire Veja”, com acervos do MAM SP no Sesc Bom Retiro


Mostra ocupa diferentes espaços da unidade do Sesc Bom Retiro até 27 de setembro e aproxima obras, públicos, práticas curatoriais e formas de mediação. Na imagem, Rodrigo Braga, Comunhão I, 2006. Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo. Foto: Rodrigo Braga

Até 27 de setembro, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Sesc São Paulo apresentam “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”, no centro da capital paulista. Com curadoria de Valquíria Prates e Mirela Estelles, a exposição reúne cerca de 50 obras de diferentes linguagens, suportes e períodos, colocando lado a lado trabalhos pertencentes aos acervos das duas instituições. 

A proposta parte do encontro entre coleções que possuem histórias, características e formas distintas de relação com o público. Como visitante, o MAM leva obras de sua coleção para a unidade do Sesc, sem alterar a configuração do espaço anfitrião. Ao mesmo tempo, trabalhos que já fazem parte do edifício e do Acervo Sesc de Arte passam a integrar a exposição, ganhando novas possibilidades de leitura a partir da convivência com as obras trazidas pelo museu.

Entre os artistas representados pelo MAM estão Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Ceschiatti, Amelia Toledo, Brígida Baltar, Cao Guimarães, Carlos Zilio, Emanoel Araujo, Franz Weissmann, German Lorca, Giuliana Giorgi, Heitor dos Prazeres, Labo & Rafaela Kennedy, Laura Vinci, Lenora de Barros, Lothar Charoux, Paulo Nenflidio, Pedro Motta, Rodrigo Braga, Rosângela Rennó, Sara Ramo, Xadalu Tupã Jekupe e Zimar. Já o acervo presente no Sesc Bom Retiro inclui obras de Antonio Henrique Amaral, Artur Barrio, Cássio Vasconcellos, Claudio Tozzi, Cleber Machado, Eduardo Coimbra, Iran do Espírito Santo, Motta & Lima, Nelson Leirner, Paulo Bruscky, Rodrigo Andrade e Rubens Gerchman. O encontro entre esses trabalhos amplia as possibilidades de percepção sobre as próprias obras e sobre os espaços onde elas são apresentadas.

A exposição integra o programa “MAM em Movimento”, iniciativa dedicada à circulação de obras do acervo do museu em diálogo com outros espaços e instituições culturais. Em “Mire Veja”, o encontro entre as duas coleções também coloca em pauta as maneiras de construir narrativas, organizar acervos e estabelecer relações com diferentes públicos. A curadoria ocupa toda a unidade do Sesc Bom Retiro e investiga a atuação da mediação cultural na relação pública com os acervos, especialmente por meio de ações de curadoria, educação e comunicação de exposições de arte. 

“Todo acervo começa com um gesto de escolha. Escolher guardar é também escolher o que permanece, o que será cuidado, pesquisado, documentado e mostrado ao longo do tempo”, explica Mirela Estelles, que também é coordenadora do MAM Educativo. “Partindo dessa reflexão, a mostra convida as pessoas a pensar sobre o que significa constituir, preservar e tornar público um conjunto de obras, evidenciando os processos, decisões e práticas que sustentam a vida pública da arte”, diz Mirela.

“A exposição convida o público a refletir sobre o que se busca transformar a partir do contato de pessoas com obras de arte em exposições, conversando sobre trabalhos de arte contemporânea e sobre as múltiplas camadas de experiência que podem ocorrer nas exposições”, continua Valquíria Prates. “O que se coloca em exposição são as obras e seus processos de criação, mas também as formas de mostrá-las, os dispositivos que as acompanham, os textos, os áudios, os livros, os materiais educativos e os próprios espaços por onde o público circula. Aqui, a obra é entendida como um campo aberto de relações intencionais, continuamente atualizado no encontro com cada visitante que esteja interessado em fazer parte dos processos de mediação de uma mostra de arte”, reflete a curadora, que investiga saberes e práticas colaborativas de mediação cultural em diferentes territórios, instituições e contextos sociais.


Arte espalhada pelo Sesc Bom Retiro
A exposição ocupa o edifício onde parte do Acervo Sesc de Arte é apresentada desde a abertura do Sesc Bom Retiro. O percurso passa pelo espaço expositivo e pela biblioteca, mas também chega aos corredores, escadas e áreas de convivência da unidade. Com isso, a experiência diante das obras ganha outros caminhos. A arte aparece em lugares de circulação cotidiana e passa a dividir espaço com as atividades habituais do Sesc, ampliando a possibilidade de encontro entre os trabalhos e seus frequentadores.

Constituído desde os primeiros anos da instituição, o Acervo Sesc de Arte representa uma das principais ações do Sesc São Paulo no campo das artes visuais. A coleção atua simultaneamente como patrimônio cultural e como suporte para atividades educativas. Reúne obras de arte moderna, contemporânea e popular e teve momentos decisivos de formação nas décadas de 1970 e 1980, mantendo-se em expansão por meio de aquisições e doações orientadas por critérios estéticos e históricos.

O acervo está distribuído pelas unidades do Sesc no estado de São Paulo e possui uma característica que interfere diretamente na experiência de quem frequenta os espaços: muitas obras permanecem em exibição permanente, em locais de circulação ou em projetos site-specific, criados especialmente para determinados ambientes arquitetônicos. A opção aproxima arte, arquitetura e território, colocando a produção artística em contato direto com diferentes públicos.

"A opção por apresentar seu acervo artístico em espaços de circulação, é um gesto da instituição que visa aproximar a produção visual do cotidiano de seus frequentadores. Dessa forma, o Sesc São Paulo escolheu pela apresentação de sua coleção em locais improváveis - piscinas, ginásios, centrais de atendimento - permitindo que a arte esteja presente para além dos espaços dedicados", comenta Juliana Braga, gerente de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, responsável pela gestão do Acervo Sesc de Artes.

Biblioteca também vira espaço de pesquisa
A pesquisa sobre mediação cultural, educação e exposições também ocupa a biblioteca do Sesc Bom Retiro, que passa a funcionar como espaço de exposição, pesquisa e mediação. Livros, materiais educativos, maquetes táteis e outros recursos desenvolvidos pelo MAM Educativo ampliam a experiência da mostra e ajudam a colocar em evidência os conhecimentos, práticas e experiências construídos ao redor das obras.

Ao aproximar obras, instituições, práticas curatoriais e ações educativas, “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro” propõe uma reflexão sobre os caminhos percorridos pelos acervos quando entram em contato com seus públicos. Cada apresentação pode criar novas relações a partir daquilo que o visitante percebe, questiona e compartilha. O próprio título da exposição brinca com essa relação entre olhar e perceber. Entre “mirar” e “ver”, a mostra abre espaço para diferentes experiências diante das obras e dos ambientes que passam a fazer parte do percurso.


Serviço
Exposição: “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”

Local: Sesc Bom Retiro
Curadoria: Valquíria Prates e Mirela Estelles
Período expositivo: até dia 27 de setembro de 2026
Horários: terça a sexta, das 9h às 20h; sábado, das 10h às 20h; domingo e feriado, das 10h às 18h
Local: Espaço Expositivo
Classificação: livre
Endereço: Alameda Nothmann, 185 - Campos Elíseos / São Paulo
Entrada: gratuita

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