terça-feira, 7 de abril de 2026

.: Cineflix Santos estreia "Pai mãe irmã irmão", "O Drama" e "O Mago do Kremlin"

"O Dramaé uma das estreias Cineflix Cinemas de Santos


A unidade Cineflix Cinemas de Santos, localizada no Shopping Miramar, apresenta a estreia de três filmes, a partir de 9 de abril, o romance "O Drama" com Zendaya e Robert Pattinson, o thriller político, ficção "O Mago do Kremlin", com  Paul Dano e Jude Law, além do drama comédia com Adam Driver e Cate Blanchett, "Pai mãe irmã irmão"

A Cineflix Santos segue em cartaz com a animação "Super Mario Galaxy: O Filme", a comédia de ação policial nacional com Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, "Velhos Bandidos" e a ficção científica "Devoradores de Estrelas". Compre antecipadamente os ingressos aquihttps://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN.

Estão disponíveis para venda baldes colecionáveis da animação "Super Mario Galaxy: O Filme" e "Cara de Um, Focinho de Outro"A unidade de Cinemas Cineflix Santos, fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga.


"O Drama" (The Drama). Gênero: Comédia, Drama, RomanceDireção e Roteiro: Kristoffer BorgliDuração: 1h 50 minutos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Mamoudou Athie, Zoë Winters. Sinopse: A trama acompanha um casal (Zendaya e Robert Pattinson) nos preparativos finais para o seu casamento. A relação é abalada quando revelações inesperadas e segredos inimagináveis vêm à tona, forçando-os a questionar o quanto realmente conhecem um ao outro e o futuro da união

"O Mago do Kremlin" (The Wizard of the Kremlin (Le Mage du Kremlin)). Gênero: Suspense Político, Drama. Direção: Olivier Assayas. Roteiro: Olivier Assayas e Emmanuel Carrère. Baseado em: Romance homônimo de Giuliano da Empoli. Duração: 2h 26 minutos. Distribuição: Imagem Filmes. Elenco: Paul Dano (Vadim Baranov), Jude Law (Vladimir Putin), Alicia Vikander. Sinopse: Suspense político francês dirigido por Olivier Assayas, baseado no livro de Giuliano da Empoli. O filme narra a ascensão de Vadim Baranov (Paul Dano), produtor de TV que se torna a "eminência parda" de Vladimir Putin (Jude Law), explorando os bastidores do poder russo.

"Pai mãe irmã irmão" (Father Mother Sister Brother). Gênero: Comédia Dramática, TrípticoDireção e Roteiro: Jim JarmuschDuração: 1h 50 minutos. Distribuição: Mubi / Imovision Elenco: Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Luka Sabbat, Françoise Lebrun. Sinopse: O filme narra três histórias focadas em relações entre filhos adultos e pais distantes, ambientadas em locais diferentes: o nordeste dos EUA (Pai), Dublin (Mãe) e Paris (Irmã/Irmão)

"Super Mario Galaxy: O Filme" (The Super Mario Galaxy Movie). Gênero: Animação, Aventura, Comédia. Direção: Aaron Horvath e Michael Jelenic. Roteiro: Matthew Fogel. Duração: 1h 39 minutos.  Distribuição: Universal Pictures. Sinopse: Desta vez, a trama expande o universo cinematográfico para uma missão intergaláctica onde Mario e seus amigos devem deter uma nova ameaça cósmica. O filme marca a introdução da Princesa Rosalina e conta com a participação de Bowser Jr.

"Velhos Bandidos"(nacional). Gênero: Comédia, ação, policialDireção: Cláudio Torres. Roteiro: Cláudio Torres, Fábio Mendes e Renan Flumian. Duração: 1h 33min. Distribuição: Paris Filmes. Elenco: Fernanda Montenegro (Elvira, uma assaltante experiente), Ary Fontoura (Dionísio, parceiro de crimes de Elvira), Bruna Marquezine (Nancy, jovem que se junta aos veteranos para um grande roubo), Vladimir Brichta (Sid), Lázaro Ramos (investigador de polícia responsável pelo caso). Sinopse: O longa acompanha o casal de aposentados Elvira e Dionísio, que planeja um assalto audacioso a um banco para garantir uma aposentadoria tranquila. Para executar o plano, eles recrutam dois jovens comparsas, mas acabam sendo perseguidos por um obstinado investigador. 

"Devoradores de Estrelas"(Project Hail Mary). Gênero: Ficção Científica, Aventura, Ação. Direção: Phil Lord e Christopher Miller. Roteiro: Drew Goddard (baseado no livro de Andy Weir). Duração: 2h 36min. Distribuição: Sony Pictures. Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, Milana Vayntrub, Lionel Boyce, Ken Leung. Sinopse: Um astronauta acorda sozinho em uma espaçonave com amnésia e precisa reconstruir suas memórias para salvar a humanidade de uma crise solar.


O Resenhando.com é parceiro da rede Cineflix Cinemas desde 2021. Para acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no GonzagaConsulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN.


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.: Monólogo “Não Me Entrego, Não!” leva Othon Bastos ao Sesc Santos


“Não Me Entrego, Não!” é o primeiro monólogo do ator, que revisita mais de sete décadas de carreira. Foto: Beti Niemeyer

Com mais de 40 mil espectadores e uma trajetória reconhecida por prêmios e indicações, o  espetáculo  “Não Me Entrego, Não!” chega ao Teatro do Sesc Santos nesta sexta e sábado, dias 10 e 11 de abril, às 20h00, reafirmando a força de comunicação de Othon Bastos com o público. Trata-se do primeiro monólogo do ator, que revisita mais de sete décadas de carreira com lucidez e presença cênica marcante. A origem do trabalho revela muito da trajetória do artista: a partir de aproximadamente 600 páginas de anotações pessoais entregues a Flávio Marinho. 

A dramaturgia da peça organiza lembranças e pensamentos em blocos temáticos. Teatro, cinema, política, amor e ofício se entrelaçam em uma biografia que amplia o alcance das experiências individuais. No palco, Othon não apenas recorda, mas recria sua trajetória. Passagens marcantes de sua carreira - como a atuação em "Deus e o Diabo na Terra do Sol" e no espetáculo "Um Grito Parado no Ar" - surgem atravessadas por novas leituras, compondo um discurso que dialoga com o presente. 

A encenação incorpora ainda a presença da atriz Juliana Medella como uma espécie de “memória em cena”, criando um jogo teatral que tensiona e complementa as lembranças do protagonista. O recurso amplia a dimensão reflexiva do espetáculo e reforça a ideia de que lembrar é também reinterpretar. O espetáculo é indicado a importantes reconhecimentos, como o Prêmio Shell e o Prêmio APTR. 

Serviço
Espetáculo “Não Me Entrego, Não!”
Sexta-feira, dia 10, e sábado, dia 11 de abril, às 20h00

Venda de ingressos
As vendas de ingressos para os shows e espetáculos da semana seguinte (segunda a domingo) começa na semana anterior às atividades, em dois lotes: on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e portal do Sesc São Paulo: às terças-feiras, a partir das 17h00. Presencialmente, nas bilheterias das unidades: às quartas-feiras, a partir das 17h00.

Bilheteria Sesc Santos - Funcionamento
Terça a sexta-feira, das 9h00 às 21h30 | Sábados e domingos, 10h00 às 18h30   

Sesc Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136 - Aparecida / Santos
Telefone: (13) 3278-9800        
Site do Sesc Santos
Instagram e Facebook: @sescsantos

.: Sábado: mostra "Alice Yura: um ato fotográfico" na Pinacoteca de São Paulo

Mostra reúne fotografia, arquivos familiares e instalação participativa para investigar memória, encenação e construção da imagem

Foto Yura (2022)


A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, inaugura Alice Yura: um ato fotográfico, na Galeria Praça do edifício Pina Contemporânea. Com curadoria de Thierry Freitas, a mostra reúne ensaios visuais recentes em diálogo com um robusto conjunto documental e material herdado da família da artista.

Alice Yura (1990) nasceu em uma família de imigrantes japoneses que se estabeleceu no Brasil na década de 1950, e foi criada em um ambiente marcado pela produção de imagens. Seu avô, seu pai e seus tios atuaram como fotógrafos em sua cidade natal, no interior do Mato Grosso do Sul, experiência que atravessa e fundamenta sua prática artística. A artista aproxima a imagem dos campos da performance e da teatralidade, desdobrando sua pesquisa em torno da memória e da autobiografia.

Sobre a exposição: Estruturada em três núcleos, a exposição articula diferentes tempos e regimes da imagem. No primeiro, são apresentados materiais provenientes do Foto Yura, estúdio fotográfico da família que, ao longo da segunda metade do século XX, constituiu-se como espaço central de sociabilidade em Aparecida do Taboado, no Rio Grande do Sul. Fotografias, objetos e documentos evidenciam tanto a trajetória da família quanto as transformações da fotografia, do analógico ao digital.

O segundo núcleo reúne o ensaio Foto Yura (2022), no qual a artista investiga suas heranças familiares ao mesmo tempo em que tensiona papéis sociais. Ao se colocar como modelo de seu pai, com o retrato do avô ao fundo, Yura reencena uma linhagem marcada por um ofício historicamente masculino, deslocando as posições de autoria e representação. A exposição recria o cenário dessas imagens, convidando o público a ocupar esse espaço.

No terceiro núcleo, a artista se apropria de arquétipos da história da arte e de figuras da Antiguidade para reencená-los a partir de seu próprio corpo. Ao mobilizar essas imagens, Yura propõe novas possibilidades de identificação e permanência, afirmando a produção de imagens por corpos transexuais como forma de construir lastro simbólico para além das convenções de gênero. A série Restos de Carnaval integra esse conjunto, assim como uma obra inédita na qual a artista se apresenta como Cupido, tensionando iconografias clássicas a partir de uma corporalidade dissidente.

Ao tomar a biografia como eixo, a exposição propõe um deslocamento entre documento, memória e ficção, reafirmando a imagem como espaço de presença, encenação e fabulação.


SOBRE A ARTISTA

Alice Yura é uma artista visual nipo-caipira que trabalha principalmente com fotografia e performance. Em seus trabalhos, investiga a relação entre arte e vida, abordando temas como memória, afeto, corpo e identidade. Sua produção parte de experiências pessoais para refletir sobre aspectos mais amplos da existência, utilizando sua imagem e o próprio corpo como formas de expressão, em propostas que aproximam o fazer artístico do cotidiano.


SOBRE A PINACOTECA DE SÃO PAULO

A Pinacoteca de São Paulo é um museu de artes visuais com ênfase na produção brasileira do século XIX até́ a contemporaneidade e em diálogo com as culturas do mundo. Museu de arte mais antigo da cidade, fundado em 1905 pelo Governo do Estado de São Paulo, vem realizando mostras de sua renomada coleção de arte brasileira e exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais em seus três edifícios, a Pina Luz, a Pina Estação e a Pina Contemporânea. A Pinacoteca também elabora e apresenta projetos públicos multidisciplinares, além de abrigar um programa educativo abrangente e inclusivo. B3, a bolsa do Brasil, é Mantenedora da Pinacoteca de São Paulo.


SERVIÇO:  

Pinacoteca de São Paulo  

Edifício Pina Contemporânea | Galeria Praça

De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)   

Gratuitos aos sábados - R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios - válido somente para o dia marcado no ingresso 

2º Domingo do mês – gratuidade Mantenedora B3 

domingo, 5 de abril de 2026

.: Bruna Martiolli rejeita a leitura superficial e reafirma força da literatura


Bruna Martiolli revisita a própria formação como leitora, atravessa perdas e questiona o papel da literatura em um tempo que acelera tudo — inclusive a leitura. Imagem a partir de uma foto do acervo pessoal da autora, modificada por IA

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

É tempo de morangos e a conversa com Bruna Martiolli começa antes da primeira pergunta. Passa por estantes, algoritmos e histórias que não cabem em qualquer postagem. Entre uma lembrança de infância e outra, aparecem "A Hora da Estrela", Clarice Lispector, Elena Ferrante, José Saramago, Lygia Fagundes Telles, Eça de Queiroz e Lima Barreto como presença contínua na vida de quem aprendeu cedo a ler o mundo pelos livros e, mais tarde, a desconfiar deles também.

Escritora, podcaster, professora e doutoranda, acompanhada por centenas de milhares de leitores nas redes sociais, ela estreia com o livro "É Tempo de Morangos - Reflexões Sobre Livros", publicado pela Editora Intrínseca, sem organizar a própria trajetória em linha reta. As memórias aparecem acompanhadas de leituras, mudanças de rota e perdas que ainda não se acomodaram. Bruna prefere ficar numa literatura que desestabiliza, erra junto, volta atrás e continua insistindo. Em entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, ela retoma esse percurso em primeira pessoa, entre livros, escolhas e aquilo que ficou pelo caminho. Compre o livro "É Tempo de Morangos", de Bruna Martiolli, neste link.

Resenhando.com - Você foi uma criança que brincava de dar aulas para suas bonecas. Em sua trajetória, os livros se tornaram não só companheiros, mas guias. Como você enxerga esse movimento de infância para a maturidade literária?
Bruna Martiolli - Sinto que esse movimento foi menos uma ruptura e mais um desdobramento natural, já existia ali um desejo muito genuíno de entender o mundo, as relações, as pessoas sobretudo. Os livros entraram nesse cenário quase como aliados silenciosos. Na vida adulta a leitura deixou de ser apenas uma atividade prazerosa e passou a ser uma ferramenta de investigação. 


O que aconteceu entre esses dois momentos para que a leitura se transformasse em uma ferramenta tão poderosa para você?
Bruna Martiolli - Eu comecei a ler para compreender as pessoas, os conflitos, os silêncios e as contradições, inclusive as minhas. No fundo, acho que não sou muito diferente daquela criança que ensinava as suas bonecas, a diferença é que hoje entendo que, antes de ensinar, estou sempre aprendendo a ler o mundo.


Resenhando.com - O título do seu livro, "É Tempo de Morangos", evoca um tempo mais doce e nostálgico. Mas, ao mesmo tempo, a literatura que você aborda traz à tona reflexões profundas e dolorosas. Qual é a relação entre esses dois tempos na sua obra? 
Bruna Martiolli - O título vem da última frase da “A Hora da Estrela” da Clarice, não posso explicar abertamente pois seria o maior spoiler sobre a Macabéa (protagonista do livro), mas, eu vejo esses dois tempos não como opostos, mas como camadas que coexistem. Existe ali uma nostalgia, sim, mas é mais um convite a lembrar que a vida é feita de instantes, fases, ciclos, mas que ela acaba e  por isso é preciso viver os morangos, viver cada fase. Porque viver e, principalmente, olhar com atenção para a vida inevitavelmente nos coloca diante das complexidades, das dores, das ausências, das perguntas que não têm resposta fácil. 

O que significa para você “morar” entre os morangos e as complexidades da vida?
Bruna Martiolli - “Morar” entre os morangos e as complexidades é, para mim, um exercício de equilíbrio e de honestidade. É entender que a doçura não anula a dor, e que a dor também não invalida a beleza. Eu não acredito em uma literatura que romantiza a vida a ponto de apagá-la, mas também não me interessa uma escrita que se fixa apenas no peso das coisas. O que me move é justamente esse "entrelugar" da Clarice, há sensibilidade suficiente para perceber o que é leve, mas também coragem para sustentar o que é difícil. Acho que os morangos me devolveram à vida, me ensinaram a aceitar que posso estar vivendo um momento bonito enquanto ainda carrego algo que dói. Eu amei o lançamento do livro no Rio e em São Paulo, principalmente por ter conseguido estar o máximo possível com as pessoas que amo. Mas ainda assim existe uma sensação de incompletude: a ausência da minha avó ali também doeu e é essa a vida que vou ter pra sempre.


Resenhando.com - Você fala da importância da literatura em momentos de desamparo, como foi no seu caso. Em tempos de crise, como o que todos estão vivendo, a literatura pode ser a cura ou só um paliativo? 
Bruna Martiolli - Eu não sei se a literatura pode ser chamada de cura, e talvez a Martha Nussbaum me ajude a sustentar isso. Quando ela fala da importância das emoções na vida ética, ela não está dizendo que a arte resolve a dor, mas que ela nos educa sensivelmente para lidar com ela. A literatura, não elimina o sofrimento, mas amplia a nossa capacidade de compreendê-lo, de nomeá-lo, de reconhecê-lo no outro.


Qual é o papel da ficção no enfrentamento das nossas angústias contemporâneas?
Bruna Martiolli - A ficção, muitas vezes, abre espaço para vozes que foram historicamente silenciadas e, ao fazer isso, desloca o nosso olhar. Em tempos de crise, isso é fundamental, porque nos tira de uma experiência isolada da dor e nos coloca em relação. Então talvez a literatura não seja cura no sentido de apagar a angústia, nem apenas um paliativo que anestesia. Ela é uma forma de resistência num mundo que frequentemente simplifica, acelera e silencia o ser humano. A ficção nos obriga a demorar, a escutar, a sustentar ambiguidades,  e isso muda a forma como habitamos e sentimos a vida. No meu caso, foi exatamente isso: a literatura não me salvou da dor, mas me deu condições de não me perder completamente dentro dela.


Resenhando.com - Clarice Lispector e Elena Ferrante foram influências marcantes na sua vida. Mas, se você pudesse resgatar um autor que considera fundamental para a sua formação literária e que talvez não tenha sido mencionado em suas reflexões, quem seria?
Bruna Martiolli - Tem um nome muito fundamental e que nem sempre aparece quando falo das minhas influências, eu diria Lima Barreto. A escrita dele tem uma urgência crítica, quase incômoda, que desmonta ilusões sobre o nosso país, sobre as nossas instituições e sobre a própria ideia de progresso. No "Triste Fim de Policarpo Quaresma" ele expõe o abismo entre o ideal e a realidade brasileira com uma ironia que ainda hoje é perturbadora. Lima me ensinou a encarar a estrutura  histórica, racial e política que molda as nossas experiências.


Resenhando.com - Você traz uma relação íntima com a literatura de língua portuguesa, mas também abre espaço para reflexões sobre como ela pode estar sendo negligenciada, principalmente pelos jovens que consomem literatura através de plataformas como o BookTok. Qual é o risco que se corre ao não valorizar mais a literatura nacional em favor de tendências globais e rápidas?
Bruna Martiolli - Eu me baseio nisso pelo olhar sensível que Alfredo Bosi tinha para a literatura como forma de consciência histórica e digo que o risco é profundamente cultural. Quando a literatura de língua portuguesa passa a ser deixada de lado em favor de tendências globais rápidas, como as que circulam no BookTok, a gente não está só trocando um tipo de leitura por outro. A gente está, aos poucos, enfraquecendo a nossa própria capacidade de nos reconhecer enquanto sujeitos históricos, sociais e afetivos num país que fala a língua portuguesa. Bosi sempre defendeu que a literatura é uma forma de memória viva. Ela não é só entretenimento: ela carrega conflitos, linguagem, identidade, modos de ver o mundo. Quando o jovem leitor deixa de acessar autores nacionais, ele perde contato com experiências que dialogam diretamente com a realidade dele, seja ela urbana, periférica, rural, atravessada por desigualdades ou por afetos muito específicos do nosso contexto. O problema das tendências globais e rápidas não está necessariamente na sua existência, mas na lógica de consumo que as sustenta. Inclusive, eu também as leio e, gostando ou não, formo minhas próprias opiniões. São leituras frequentemente mediadas por algoritmos, por modas passageiras e por uma estética da velocidade que não favorece a profundidade. Isso acaba formando um leitor que consome mais do que elabora, que atravessa os textos sem, de fato, ser transformado por eles. E é aí que reside o maior risco: a formação de uma relação superficial com a leitura. Sem o contato com obras mais densas da literatura nacional, o leitor pode perder a oportunidade de desenvolver um olhar crítico mais refinado sobre as próprias vivências, além de uma sensibilidade mais complexa para a linguagem e para a realidade. Valorizar a literatura de língua portuguesa, dos nove países que falam a língua portuguesa, não é um gesto de resistência vazia ou de nacionalismo simplista porque “tô a fim”. É, na verdade, um modo de preservar a nossa capacidade de pensar a partir de nós mesmos. Porque, no fim, quando a gente abandona essas vozes, a gente também corre o risco de se tornar estrangeiro dentro da própria cultura.


Resenhando.com - Na sua obra, há uma relação direta entre livros e transformações de vida, como no caso da sua mudança para Portugal. Quais livros você recomenda para quem está passando por uma transição significativa, seja pessoal ou profissional?
Bruna Martiolli - Um livro que eu destacaria, sem dúvida, é "Sodade", da Ana da Cunha. É uma obra muito recente, mas que já nasce com essa força de tocar em algo muito íntimo: a sensação de ausência, de deslocamento, de viver entre lugares. O que me atravessa ali é a maneira como a saudade deixa de ser só um sentimento e vira quase uma estrutura de vida. Para quem está em transição, esse livro não oferece respostas fáceis, e isso é essencial, mas legitima o desconforto, a ambivalência, a incompletude. E, talvez trazendo mais para perto da nossa tradição, eu lembraria de "Dois Irmãos", do Milton Hatoum, que toca em questões de origem, memória e pertencimento dentro de um contexto marcado por heranças migratórias. É um livro que fala muito sobre como carregamos nossos lugares dentro da gente, mesmo quando tudo muda ao redor.


Resenhando.com - Você menciona como a "Tetralogia Napolitana" de Elena Ferrante se tornou dolorosa após o esmorecimento de uma grande amizade. A literatura tem o poder de refletir as vivências, mas até que ponto a ficção é uma extensão da realidade ou um escape dela? 
Bruna Martiolli - Eu acho que a literatura nunca é só uma coisa ou outra, ela não é puramente espelho, nem puramente fuga. Quando li a "Tetralogia Napolitana", não foi nada confortável, abandonei a cadeira na faculdade e fugi mesmo, não era momento. A ficção, pra mim, funciona como uma espécie de lente que me faz ver melhor e vendo melhor reorganiza o que já existe dentro da gente. Às vezes ela amplia, às vezes distorce, às vezes ilumina coisas que estavam ali, quietas, esperando uma linguagem. 


Resenhando.com - Você já se deparou com momentos em que a literatura também a traiu, revelando mais do que você gostaria?
Bruna Martiolli - Sim, já senti que a literatura me traiu. Mas não no sentido de enganar, no sentido de expor. De colocar em palavras algo que eu ainda não tinha coragem de formular. É como se o texto dissesse: “olha, é isso aqui que você tá sentindo”, antes de estar pronta pra admitir. E aí não tem mais como fingir que não viu. Respondendo melhor: a vida trai mais do que a literatura, prefiro ela.


Resenhando.com - A literatura sempre teve papel central na sua vida, mas você também compartilha esse amor com uma grande audiência através das redes sociais e seu podcast "É Tempo de Morangos". Como você equilibra a pressão da visibilidade pública com a intimidade da sua escrita, que é, em essência, tão pessoal?
Bruna Martiolli - Eu sou filha única e vivo uma solidão que, apesar de boa, às vezes até assusta. A internet, pra mim, nunca foi sobre números, sempre foi sobre pessoas que, infelizmente, eu nunca esbarrei na vida. Tive poucas amigas que gostavam de ler, e acho que virei professora muito por essa necessidade de continuar falando sobre livros, de não deixar essa conversa morrer. Eu devo muito a eles: a vida que levo hoje, bem vivida, gostosa, calma, passa diretamente pela literatura. E eu nunca pensei “vou postar sobre livros nas redes sociais”. Eu falo de literatura onde eu estiver, na internet ou fora dela. Não existe uma separação tão rígida pra mim. Quando paro pra pensar no número de ouvintes, fico triste. Não quero saber quantas pessoas estão ali, isso é uma grande ilusão da nossa geração, o que me importa é ouvir essas pessoas. É por isso que gosto tanto dos comentários: é ali que descubro o que gostam, onde moram, vejo suas fotos, seus cabelos, suas famílias. As pessoas. Eu gosto de livros, mas gosto muito de gente. E a internet é só o que me aproxima delas. No fundo, não acho que o que eu digo seja pessoal. Pessoal, pra mim, é quem ouve, quem escolhe me dar um pedaço do próprio tempo de vida.


Resenhando.com - Se a literatura fosse uma pessoa, como você a descreveria em termos de identidade? Ela seria amiga, amante ou uma figura de autoridade?
Bruna Martiolli - A literatura é a formiga e ao mesmo tempo a cigarra. É o gato de Cheshire e a Alice, a literatura é a dúvida. É amiga e, ao mesmo tempo, é uma figura de autoridade. É uma pessoa, mas é aquela ideia do Fernando Pessoa de que em um cabem mil. 


Resenhando.com - Você defende a ideia de que a boa literatura não precisa agradar à primeira vista. No entanto, as redes sociais e plataformas como o BookTok são movidas por emoções rápidas e “recompensas instantâneas”. Como é possível reconstruir um espaço literário que valorize o tempo de amadurecimento, sem se perder nas urgências da era digital?
Bruna Martiolli - Eu não acho que seja uma questão de disputar com a lógica das redes, porque a literatura nunca funcionou no tempo da pressa, e talvez nem deva tentar funcionar. O que dá pra fazer é criar pequenos desvios dentro desse fluxo. As redes sociais, operam muito pela reação imediata, pelo entusiasmo rápido, pela necessidade de sentir algo agora e isso não é necessariamente um problema, é só uma linguagem diferente. O risco está quando a gente começa a confundir intensidade com profundidade, como se o impacto imediato fosse o único critério de valor. Mas, reconstruir um espaço literário mais paciente, pra mim, passa por insistir em outras formas de presença. Falar de um livro que não “funcionou” de primeira, revisitar uma leitura depois de um tempo, admitir silêncios, dúvidas, mudanças de opinião. Mostrar que a experiência literária também é feita de demora, de estranhamento, de algo que vai se abrindo aos poucos. E, principalmente, confiar que existe gente disposta a isso. Porque existe. Nem todo mundo está buscando recompensa instantânea o tempo todo, muitas pessoas só não encontram com frequência espaços que legitimem esse outro ritmo. Acho que não se trata de desacelerar a internet inteira, o que seria impossível, mas de sustentar, dentro dela, um outro tempo. Um tempo em que o livro não precisa agradar de imediato para permanecer porque ele pode incomodar, escapar, e ainda assim continuar trabalhando em quem lê.

sábado, 4 de abril de 2026

.: "Barba Ensopada de Sangue", livro que inspirou filme mergulha na violência


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Poucos títulos recentes da literatura brasileira provocam tanto desconforto imediato quanto "Barba Ensopada de Sangue". Publicado pela Companhia das Letras em 2012 e relançado em edição especial uma década depois, o romance de Daniel Galera chamou atenção no momento em que foi lançado e se fixou no tempo. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, o livro atravessa os anos sem perder a capacidade de inquietar. O livro inspirou o filme homônimo dirigido por Aly Muritiba e protagonizado por Gabriel Leone, em cartaz na Rede Cineflix e nos cinemas brasileiros.

A história acompanha um protagonista sem nome, marcado por uma condição neurológica tão específica quanto simbólica: a prosopagnosia, incapacidade de reconhecer rostos. Após o suicídio do pai, ele se muda para Garopaba, em Santa Catarina, levando consigo apenas a cadela Beta, que herdou do genitor, e um projeto difuso de isolamento. 

O deslocamento geográfico funciona como tentativa de suspensão, um corte abrupto com tudo o que ainda não foi elaborado. No entanto, o passado não se deixa conter. Décadas antes, o avô foi assassinado na mesma região, e a permanência naquele espaço passa a operar como uma espécie de reencenação involuntária, a partir do momento em que ele passa a investigar o crime.

A busca por respostas não avança de maneira linear e nem oferece garantias. O romance se constrói em um ritmo que respeita o tempo da hesitação, da dúvida e da observação. Há longos trechos em que nada parece acontecer, mas é justamente nesse aparente vazio que a narrativa ganha densidade. 

O protagonista observa, circula, testa hipóteses e estabelece vínculos precários. A dificuldade em reconhecer rostos desloca a percepção para outros elementos: gestos, vozes, ambientes, repetições. O mundo, filtrado por essa limitação, se reorganiza em padrões instáveis, e o leitor passa a compartilhar essa mesma sensação de incerteza.

Daniel Galera sustenta esse percurso com uma prosa que evita ornamentos e prefere a exatidão. O mar, as trilhas, o ritmo lento da cidade compõem um cenário que tanto acolhe quanto expõe. A relação com Beta introduz um tipo de vínculo que escapa à lógica da explicação. Sem recorrer à humanização do animal, o romance constrói uma proximidade marcada por presença e rotina. 

Em meio à instabilidade das relações humanas, a cadela funciona como um ponto de ancoragem, ainda que insuficiente para conter o avanço das tensões. Quando a narrativa se aproxima do núcleo mais violento da história, Galera não altera o tom para intensificar o efeito. Ao contrário, mantém a mesma contenção, o que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. Compre o livro "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera, neste link.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

.: Crítica: "Barba Ensopada de Sangue" é excelente suspense introspectivo

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Em abril de 2026


O tom introspectivo do protagonista e a atmosfera de mistério da produção "Barba Ensopada de Sangue" causam o desconforto necessário em quem assiste a história de suspense na telona Cineflix Cinemas de Santos. O longa nacional dirigido por Aly Muritiba, baseado no livro homônimo de Daniel Galera, começa numa sala aconchegante, com um enquadramento incômodo capaz de gerar diversos questionamentos no público, enquanto que um diálogo entre pai e filho tendo uma cachorra, bem acomodada no sofá, por testemunha dá o pontapé inicial da trama.

Protagonizado por Gabriel Leone ("O Agente Secreto"), que interpreta um rapaz de mesmo nome, mergulhado numa história familiar extremamente conturbada, "Barba Ensopada de Sangue" vai além ao focar no drama existencial tendo como agravante a incapacidade de reconhecer rostos (prosopagnosia ou cegueira facial). Logo, há poesia em certas resoluções que permite enternecer a interpretação do público.

Em conflito com a morte do pai, Gabriel (Gabriel Leone) precisa voltar ao passado, mudando-se para a cidade litorânea de Armação, no Sul do Brasil (locação fictícia, uma vez que o filme foi gravado em Cananeia, situada no extremo sul do litoral paulista. No livro a cidade é Garopaba) e entender a história da morte de seu avô Gaudêncio, ocorrida décadas antes. No local, com a ideia de vender o imóvel, descobre a má fama do homem, virando alvo de ameaças constantes.

O uso da escuridão e das sombras para criar um clima de suspense ajudam a trama misteriosa a ganhar contornos a respeito de traumas geracionais. Assim, enquanto tenta elucidar o crime do avô, o protagonista completa um mergulho de autoconhecimento. Junto ao talento de Gabriel Leone estão Thainá Duarte ("Corrida dos Bichos"), Ricardo Blat (Carandiru, o Filme), Ivo Müller ("Ato Noturno"), Roberto Birindelli ("Águas Selvagens") e Teca Pereira ("Velhos Bandidos"). Excelente e dar orgulho do cinema nacional, "Barba Ensopada de Sangue" é imperdível!


A equipe Resenhando.com assiste aos filmes em Santos, no primeiro andar do Miramar ShoppingPara acompanhar as novidades da Cineflix mais perto de você, acesse a programação completa da sua cidade no app ou site a partir deste link. No litoral de São Paulo, as estreias dos filmes acontecem no Cineflix Santos, que fica no Miramar Shopping, à rua Euclides da Cunha, 21, no Gonzaga. Consulta de programação e compra de ingressos neste link: https://vendaonline.cineflix.com.br/cinema/SAN


"Barba Ensopada de Sangue" (nacional). Gênero: Drama, Suspense, Crime. Direção: Aly Muritiba Roteiro: Aly Muritiba, Jessica Candal. Elenco: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ricardo Birindelli, Ivo Müller, Ricardo Blat, Teca Pereira. Distribuição: O2 Play. Duração: 1h 48 min. Sinopse: Após a morte do pai, Gabriel parte para a Praia da Armação em busca de suas origens. 

Trailer de "Barba Ensopada de Sangue"


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.: Chris Standring no novo CD "Time Of Change" é puro soul jazz


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural

Chris Standring retorna em 2026 com onze canções inspiradas em composições que remetem a uma era de ouro. Este conjunto retrô-soul evoca uma época familiar, talvez nostálgica, em que arranjos sofisticados e belas harmonias estavam em voga. Com uma seção de metais de primeira linha, composta por quatro músicos, e uma vasta gama de cores orquestrais, além dos timbres únicos de guitarra de Chris, "Time Of Change" leva você a uma jornada revigorante do início ao fim.

Casar-se pela primeira vez e o falecimento de seu pai marcaram um período de mudanças para Chris Standring, guitarrista de jazz contemporâneo que já figurou no topo das paradas da Billboard. Com a nostalgia em mente e as transformações da vida moldando o terceiro ato de sua existência, Standring compôs e produziu onze novas canções para "Time of Change", que foi lançado pela Ultimate Vibe Recordings. O álbum, que mistura cool jazz inspirado nos anos 70 com grooves retrô de rhythm and blues, será promovido pelo primeiro single, “Hollywood Hustle”, uma faixa animada com toques de metais que começou a ganhar espaço em playlists e rádios no exterior.

Destaco as faixas "Photographs", com uma levada irresistível a la Steely Dan no arranjo. E a faixa "All The Good Times", com um groove que remete aos melhores trabalhos de Standring. Na verdade, as demais faixas estão no mesmo nível e merecem ser conferidas O quarteto principal de “Time of Change”, o décimo oitavo álbum de Standring, é formado por Standring (guitarras, teclados, programação, arranjos de metais e cordas), o baixista Andre Berry, o baterista Chad Wright e o percussionista Lenny Castro.

Quatro faixas do álbum contam com a participação de uma seção de metais composta por Brandon Fields (saxofone tenor), Tom Saviano (saxofone alto), Michael Stever (trompete) e Erik Hughes (trombone). Outros músicos que contribuíram para o álbum são o baixista vencedor do Grammy, Brian Bromberg, George Whitty (piano), Dave Karasony (bateria) e Rodney Lee, o tecladista que fez parceria com Standring na banda Solar System há trinta anos, no início de sua carreira musical. "Time of Change" é mais do que um álbum confessional de Standring. É uma verdadeira aula de como produzir e arranjar um disco mesclando elementos de soul e jazz fusion. É um trabalho de extremo bom gosto de Standring, que merece ser apreciado por amantes da música instrumental.

"Hollywood Hustle"

"Photographs"

"All the Good Times"

.: "Libitina - Elegias e Alguns Infortúnios", de Jorge Ventura


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

A existência mostra-se frágil e breve qual um singelo e inofensivo joguete nas mãos da deusa Libitina, a guardiã dos funerais e dos rituais fúnebres dos tempos ancestrais e obscuros das mitologias. Porém, nas páginas de "Libitina - Elegias e Alguns Infortúnios", pequeno e grandioso livro de Jorge Ventura, seus caprichos, manipulações e artifícios revelam-se ante nossos olhos com profunda sagacidade e perspicácia com o intuito de abreviar os dias das espécies ante a imperativa subjugação das fatalidades. Através de concisos relatos, o autor nos apresenta três dezenas de micro-contos, onde o clímax final destaca-se nos óbitos de cada personagem.

A configuração do livro, publicado por Ventura Editora, traz páginas alternadas em branco e preto. Os textos estão impressos em papel couchê ornamentados por arabescos e amparados por páginas vestidas de luto negro. Traz, ainda, ilustrações de Waldez Duarte com temas sinistros, mórbidos e surreais revestindo de forma coerente o teor funéreo dos textos. A fugacidade dos dias vividos e seu repentino término são realçados pela escrita sintética e certeira a nos conduzir, inapelavelmente, para o fim de cada trajetória de vida.

O projeto gráfico de Victor Marques traz capa negra com letras prateadas em estilo gótico e uma árvore com os galhos totalmente ressecados a emoldurar sua concepção artística. É complementado por prefácio de Almir Zarfeg e orelhas a cargo de Alexandre Brandão. Salientamos, ainda, que o poeta e jornalista Jorge Ventura com este décimo terceiro livro publicado expande sua marca literária de forma abrangente e significativa.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

.: Cineflix celebra o Dia do Autismo com “Cara de Um, Focinho de Outro”


Em celebração ao Dia Mundial da Conscientização do Autismo, a Rede Cineflix realiza, nesta sexta-feira, 3 de abril, uma sessão especial adaptada para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em todas as unidades. A iniciativa reforça a importância da inclusão e propõe uma experiência mais acolhedora dentro das salas de cinema, com iluminação suave, som reduzido, ar-condicionado em temperatura leve e liberdade de circulação durante a exibição.

Como parte da ação, pessoas com TEA têm direito à gratuidade no ingresso, enquanto acompanhantes pagam meia-entrada. A proposta não apenas amplia o acesso ao cinema, como também contribui para a construção de espaços culturais mais sensíveis às diferentes necessidades do público. Em Santos, o filme escolhido para a sessão é “Cara de Um, Focinho de Outro”, exibido às sextas-feiras, às 14h10, na sala 4.

A produção apresenta uma trama instigante ao acompanhar uma amante dos animais que utiliza uma tecnologia experimental para transferir sua consciência para o corpo de um castor robótico. A partir dessa experiência incomum, ela passa a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva, mergulhando em descobertas que revelam aspectos surpreendentes do comportamento animal.

Ao combinar ficção científica e sensibilidade, o longa propõe uma reflexão sobre empatia, consciência e os limites entre humano e natureza. Inserido em uma programação voltada à inclusão, o filme ganha ainda mais força ao dialogar, de forma indireta, com a ideia de ampliar percepções e compreender diferentes formas de existência.


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.: Filme "Barba Ensopada de Sangue" aposta no vazio e provoca desconforto


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

A adaptação de "Barba Ensopada de Sangue" finalmente chega às telas da Rede Cineflix e dos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, dia 2 de abril, apostando em um suspense psicológico de atmosfera rarefeita e construção paciente. Dirigido por Aly Muritiba, o filme homônimo transforma em imagens a prosa densa de Daniel Galera, autor que se consolidou como uma das vozes mais influentes da literatura contemporânea no país. A produção, que carrega o selo Original Globoplay, é também mais um movimento estratégico da plataforma em direção ao circuito cinematográfico tradicional.

Na trama, os espectadores acompanham um professor de educação física interpretado por Gabriel Leone, que se muda para o litoral catarinense após a morte do pai. O que começa como uma tentativa de reorganizar a própria vida rapidamente se transforma em uma investigação íntima e fragmentada sobre o desaparecimento do avô, figura envolta em versões contraditórias e perguntas persistentes. A narrativa se constrói em camadas, explorando o deslocamento do protagonista e sua dificuldade de se inserir em uma comunidade que parece proteger segredos com obstinação.

Muritiba, que já havia demonstrado interesse por personagens à margem em trabalhos anteriores, como Deserto Particular, aposta aqui em uma encenação contida, na qual o não dito tem tanto peso quanto os diálogos. O roteiro, assinado em parceria com Jessica Candal, preserva o espírito introspectivo do livro, ainda que adapte sua estrutura fragmentária para um formato mais linear, sem abrir mão da ambiguidade que sustenta o mistério.

O elenco traz ainda nomes como Thainá Duarte, Ivo Müller, Roberto Birindelli e Teca Pereira, compondo um conjunto que sustenta a atmosfera de estranhamento e isolamento que atravessa o filme. A presença da cadela Beta, herdada do pai, funciona como elo afetivo e simbólico, reforçando a solidão do protagonista e sua busca por pertencimento.

Exibido na seleção oficial do Festival de Gramado, o longa já havia chamado atenção pela atuação contida de Leone e pela fidelidade temática ao material original. A adaptação carrega ainda a curiosidade de não ter contado com envolvimento direto de Galera no roteiro, decisão que, segundo entrevistas à imprensa, foi respeitada pelo autor, interessado em ver a obra reinterpretada por outros criadores.

Publicado em 2012, o romance original venceu o Prêmio São Paulo de Literatura e foi traduzido para mais de dez idiomas, consolidando-se como um marco da ficção brasileira contemporânea. No cinema, “Barba Ensopada de Sangue” preserva essa vocação para o incômodo e a introspecção, recusando respostas fáceis e convidando o espectador a habitar as lacunas existentes no livro.


Ficha técnica
“Barba Ensopada de Sangue” (título original)
Gênero: drama.
Duração: 108 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: português.
Direção: Aly Muritiba.
Roteiro: Aly Muritiba e Jessica Candal.
Elenco: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ivo Müller, Roberto Birindelli, Teca Pereira.
Distribuição no Brasil: O2 Play.
Cenas pós-créditos: não.

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“Barba Ensopada de Sangue” no Cineflix Miramar | Santos
De 2 a 8 de abril | Sessões no idioma original | Sala 1 | 21h00 

No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo
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