quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: Tragédia, narcotráfico e feminismo em contos de Dahlia de la Cerda


Autora de "Cadelas de Aluguel" retorna ao Brasil com histórias de mulheres e jovens marcadas pela violência, pelo desejo e pela luta para decidir os próprios caminhos

Medeia conhece bem a história do amor que termina em tragédia. A personagem de Eurípides matou os próprios filhos para se vingar de Jasão e entrou para a mitologia como uma das figuras mais perturbadoras da literatura ocidental. Nas mãos da escritora mexicana Dahlia de la Cerda, porém, ela ganha novas companhias, uma sacola de açougue e uma receita que mistura ervas, medicamentos e invocações a deusas. O resultado atende pelo curioso título de "Medeia Me Cantou Um Corrido". Segundo livro da autora publicado no Brasil pela DBA Literatura, depois de "Cadelas de Aluguel", a obra reúne contos independentes que se conectam e formam uma espécie de mosaico sobre violência, maternidade, crime organizado, desejo e sobrevivência. A tradução é de Marina Waquil.

No livro, Paulina está grávida e não quer colocar no mundo uma criança sem pai. Perla decidiu não ter filhos porque teme "estragar" o próprio corpo. Jordán foi cooptado pelo crime organizado e desapareceu há meses. Antonia quer fugir da violenta Aztlán para construir uma vida como mãe solo. Reina procura o filho, sem saber se ainda poderá encontrá-lo vivo. No meio dessas histórias aparece Medeia, movida pela combinação explosiva de amor e ódio que acompanha sua trajetória desde a tragédia grega. Aqui, entretanto, ela se torna uma espécie de aliada para mulheres que precisam lidar com relacionamentos abusivos, uma gravidez indesejada ou a procura desesperada por um filho.

O título resume a mistura proposta por Dahlia de la Cerda. Medeia vem da mitologia grega; o corrido é um gênero musical profundamente ligado à cultura popular mexicana. Entre os dois, a escritora constrói uma literatura que cruza referências aparentemente distantes e coloca lado a lado Hello Kitty e Jean-Paul Sartre, uma bolsa da Gucci e um fuzil, mitologia grega e tradição católica. Essa combinação também está no modo como as personagens são construídas. Inseridas em um ambiente marcado pelo narcotráfico mexicano, elas carregam desejos, medos, vaidades e necessidades bastante concretos. A violência está presente, mas as mulheres não são reduzidas ao papel de vítimas ou peças de uma engrenagem criminosa. Elas querem, amam, erram, planejam, se desesperam e, quando possível, tentam encontrar uma saída.

A oralidade é outro elemento fundamental. O universo dos corridos mexicanos contamina a narrativa, dando às histórias um ritmo próprio e aproximando a literatura da tradição popular. A linguagem também serve para aproximar mundos que costumam aparecer separados: o erudito conversa com o popular, a cultura pop se encontra com a filosofia e a religião divide espaço com armas, grifes e referências do cotidiano.

Em "Cadelas de Aluguel", as mulheres partiam para a vingança com as próprias mãos. Em "Medeia Me Cantou Um Corrido", a personagem mitológica ganha uma função quase de madrinha das desesperadas. Ela aparece como possibilidade de amparo para quem quer romper com um relacionamento abusivo, interromper uma gravidez ou encontrar um filho desaparecido. A própria autora ocupa um lugar de presença forte dentro desse universo. Seu feminismo é frontal, sua escrita não economiza no desconforto e suas personagens vivem em uma sociedade na qual as escolhas femininas frequentemente vêm acompanhadas de consequências violentas.  Compre o romance "Medeia Me Cantou Um Corrido", escrito por Dahlia de la Cerda, neste link.


Sobre a autora
Dahlia de la Cerda (1985) é escritora e ativista mexicana. É cofundadora e codiretora do Morras Help Morras, coletivo feminista voltado à segurança reprodutiva de mulheres periféricas. É autora de "Cadelas de aluguel" (DBA Literatura, 2025), "Medeia me cantou um corrido" (DBA Literatura, 2026) e "Desde los zulos" (2023). Compre os livros de Dahlia de la Cerda neste link.

.: "Obra-prima" transforma o sumiço de uma escultura em mistério literário


Juan Tallón parte de um caso real no Museu Reina Sofía para investigar, pela ficção, os limites entre arte, memória, original e cópia

Uma escultura de 38 toneladas desaparece e ninguém sabe onde foi parar. Não há corpo, pista convincente ou explicação capaz de fazer o absurdo parecer razoável. O cenário parece inventado por algum escritor especialmente empenhado em testar a credulidade do leitor, só que aconteceu de verdade. É a partir desse episódio que o escritor espanhol Juan Tallón constrói "Obra-prima", lançamento da Editora Nós. O livro acompanha o curioso desaparecimento de "Equal-Parallel/Guernica-Bengasi", monumental escultura do artista estadunidense Richard Serra, e usa o caso para levantar perguntas incômodas sobre o próprio conceito de obra de arte. Vencedor dos prêmios Rodolfo Walsh e Euskadi de Plata, "Obra-prima" chega ao Brasil com tradução de Joca Reiners Terron. 

A escultura havia sido encomendada especialmente para a inauguração do Museu Reina Sofía, em Madri. Depois de ser retirada de exibição, foi armazenada por uma empresa terceirizada. Anos mais tarde, quando surgiu a intenção de colocá-la novamente em exposição, veio a pequena questão - pequena apenas no tamanho da frase: ninguém fazia ideia de onde estavam os quatro enormes blocos de aço.

A empresa responsável pelo armazenamento havia falido e desaparecido, deixando para trás pouquíssimos rastros. O problema é que não se tratava de um quadro escondido atrás de outro, de uma pequena peça extraviada ou de algum objeto capaz de desaparecer discretamente numa mudança. Eram quatro blocos de aço que, juntos, pesavam 38 toneladas. O escândalo ganhou proporções internacionais. Diante do desaparecimento, Richard Serra aceitou produzir uma réplica da escultura, que permanece exposta no museu de Madri. 

O desaparecimento passa a provocar questões sobre autoria, identidade, forma, conteúdo, memória e valor artístico. A réplica pode ocupar o lugar do original? As duas obras podem coexistir como se fossem uma só? E se ninguém encontrar a peça desaparecida, ela continua sendo a mesma obra que existia antes? Em ritmo de thriller, "Obra-prima" reúne dezenas de vozes envolvidas no caso. Funcionários do museu, investigadores, autoridades e o próprio Richard Serra aparecem como narradores e testemunhas de um acontecimento que parece crescer a cada depoimento.

A estrutura remete à segunda parte de "Os Detetives Selvagens", de Roberto Bolaño, em que diferentes relatos vão compondo um mosaico narrativo. Tallón utiliza procedimento semelhante para reconstruir um mistério no qual falta justamente aquilo que normalmente encerraria uma investigação: uma prova definitiva. O resultado é uma história em que a investigação avança sem necessariamente aproximar o leitor de uma solução. Quanto mais vozes surgem, mais possibilidades aparecem. A escultura continua desaparecida, e o mistério ganha vida própria. Compre o romance "Obra-prima", de Juan Tallón, neste link.


Sobre o autor
Juan Tallón
nasceu em Vilardevós, na Galícia, em 1975. Formado em Filosofia, atua nas áreas jornalística e ficcional. Ao longo de sua trajetória, escreveu tanto em galego quanto em espanhol. Entre seus trabalhos de destaque estão "Rewind" e "Obra-prima". No Brasil, publicou "Fim de Poema", lançado em 2023. Compre os livros de Juan Tallón neste link.

.: "Elefante" mistura luto e fantasia para falar de infâncias interrompidas


No livro de Josué Souza, a imaginação de um menino de sete anos encontra ancestralidade, afeto e dor para preservar a memória de crianças vítimas da violência. Foto: divulgação


O que acontece quando a imaginação de uma criança encontra uma ausência grande demais para caber em palavras? Em "Elefante", livro infantojuvenil de Josué Souza publicado pela Editora Patuá, fantasia, realismo mágico e ancestralidade se encontram para tratar de pertencimento, luto, esperança e memória - assuntos difíceis, mas apresentados a partir do olhar de uma criança. No livro, Gugu tem sete anos, imaginação de sobra e um companheiro de aventuras bastante particular: POC, um elefantinho que vive naquele território em que realidade e fantasia se misturam. Com o incentivo dos pais, Guilherme e Joshua, o menino percorre uma floresta mágica enquanto o leitor vai percebendo as marcas deixadas por uma ausência dentro da família.

A origem da história está em uma inquietação dolorosa do autor diante de casos reais de crianças e adolescentes mortos em situações de violência. Entre eles estão João Pedro Mattos Pinto e Miguel Otávio Santana da Silva. Josué Souza recorre à literatura para olhar para essas infâncias interrompidas e pensar sobre aquilo que permanece quando uma vida é brutalmente retirada de cena. 

Para crianças, a aventura e a fantasia abrem as portas da história. Para jovens e adultos, surgem outras leituras sobre perda, violência, racismo, memória e a maneira como uma família tenta conviver com aquilo que ficou. "Elefante" surge de um assunto espinhoso, mas encontra na literatura uma maneira de falar sobre vida, afeto e permanência. A fantasia oferece a Gugu um espaço para elaborar aquilo que a realidade tornou difícil de compreender, enquanto a memória impede que determinadas histórias desapareçam junto com quem partiu.

Ao transformar experiências marcadas pela violência em literatura, Josué Souza coloca a imaginação infantil diante de uma realidade incômoda. E talvez esteja justamente aí uma das forças do livro: permitir que a fantasia seja também um lugar de lembrança, acolhimento e resistência. Compre o livro "Elefante", de Josué Souza, neste link.


Sobre o autor
Josué Souza Tourinho Junior
é acadêmico de Letras Português/Inglês na Universidade de São Paulo (USP). Tem quatro livros publicados. Sua produção literária explora temas como memória, infância, imaginação, amor, perda e permanência, construindo narrativas que dialogam com crianças, jovens e adultos.  Compre os livros de Josué Souza neste link.

.: Sem estrear, série "Harry Potter" ganha novos personagens na 2.ª temporada


HBO anuncia Rafe Spall, Molly Hewitt-Richards e Jasper Ambrose no elenco da nova fase da série, que já está em produção. Fotos: divulgação


A magia de Hogwarts vai ganhar novos rostos na segunda temporada de "Harry Potter". A HBO anunciou Rafe Spall como Arthur Weasley, Molly Hewitt-Richards como Murta que Geme e Jasper Ambrose como Colin Creevey. Os três atores passam a integrar o elenco da série original, que já está em produção. Para quem conhece a história, Arthur Weasley dispensa apresentações: pai de Rony, patriarca de uma das famílias mais queridas do universo bruxo e sujeito que nutre uma curiosidade quase infantil pelo mundo dos trouxas. Murta que Geme, por sua vez, segue fiel ao posto de fantasma mais inconveniente — e talvez mais dramático — dos corredores de Hogwarts. Já Colin Creevey chega com sua inseparável máquina fotográfica e aquela empolgação de fã diante do próprio ídolo.

A série acompanha Harry Potter desde o aniversário de 11 anos, quando uma carta de admissão para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts muda completamente sua vida. Até então, ele vive sob os cuidados dos tios, Petúnia e Válter Dursley, acreditando que sua existência pouco tem de extraordinária. A descoberta do universo mágico abre espaço para amizades, aventuras e, claro, perigos cada vez maiores ligados ao passado do garoto. Dominic McLaughlin interpreta Harry Potter, enquanto Arabella Stanton vive Hermione Granger e Alastair Stout dá vida a Ron Weasley. O elenco conta ainda com John Lithgow como Alvo Dumbledore, Janet McTeer como Minerva McGonagall, Paapa Essiedu como Severo Snape e Nick Frost como Rúbeo Hagrid.

A segunda temporada também terá Kit Harington como Gilderoy Lockhart, Bonnie Hill como Gina Weasley, Lenny Rush como Dobby e Billy Barratt como Tom Riddle. Baseada na série de livros de J.K. Rowling, "Harry Potter" tem roteiro e produção executiva de Francesca Gardiner. Mark Mylod é produtor executivo e também dirige diversos episódios da série. A produção executiva reúne ainda J.K. Rowling, Neil Blair e Ruth Kenley-Letts, da Brontë Film and TV, além de David Heyman, da Heyday Films. A série é produzida pela HBO em associação com a Brontë Film and TV e a Warner Bros. Television. Compre os produtos de Harry Potter neste link.

.: “Um Sonho de Domingo” traz família e arte sob o sol de Bertrand Tavernier


Filme de Bertrand Tavernier acompanha um domingo de verão de 1912 e transforma uma reunião familiar aparentemente tranquila em um delicado acerto de contas com o tempo, as escolhas e aquilo que ficou pelo caminho


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um domingo de verão pode parecer o cenário perfeito para uma reunião familiar: comida, conversa, crianças correndo pelo jardim e aquela coleção de pequenas implicâncias que só parentes sabem produzir com tanta eficiência. Em “Um Sonho de Domingo”, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o diretor Bertrand Tavernier pega esse material aparentemente banal e encontra nele uma história sobre envelhecimento, arte, frustrações e escolhas que continuam incomodando mesmo quando já não há muito tempo para corrigi-las.

O filme francês de 1984 acompanha Monsieur Ladmiral (Louis Ducreux), um pintor aposentado que vive no campo desde a morte da esposa. Como acontece praticamente todos os domingos, ele recebe o filho Gonzague (Michel Aumont), a nora Marie-Thérèse (Geneviève Mnich) e os três netos. A rotina, cuidadosamente conhecida por todos, ganha outra temperatura quando chega Irène (Sabine Azéma), filha do pintor e mulher independente, inquieta e pouco afeita às convenções familiares.

A presença de Irène mexe com o pai porque ela representa uma possibilidade de vida que ele próprio deixou escapar. Ladmiral alcançou reconhecimento como artista, mas começa a olhar para a própria trajetória com certa desconfiança. Enquanto conversa com a filha sobre pintura, percebe que talvez tenha sido conservador demais justamente no campo em que poderia ter arriscado mais. Tavernier constrói o filme a partir desses pequenos deslocamentos. Não há necessidade de grandes acontecimentos para que as relações familiares revelem suas rachaduras. Um comentário, uma lembrança, uma caminhada ou uma conversa aparentemente despretensiosa carregam aquilo que os personagens nem sempre conseguem dizer diretamente.

A história se passa em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mas o filme não se entrega ao peso histórico do período. A atenção está concentrada naquela casa, no jardim, nos personagens e na passagem das horas. A câmera de Bruno de Keyzer explora a luminosidade do interior francês e cria imagens que remetem à pintura impressionista, reforçando a ligação entre a forma do filme e o universo artístico de Ladmiral. A trilha sonora segue o mesmo caminho de delicadeza. A produção utiliza peças de música de câmara de Gabriel Fauré, ao lado de trabalhos associados a Louis Ducreux e Marc Perrone, criando uma atmosfera íntima para aquela reunião familiar.

“Um Sonho de Domingo” adapta o romance “Monsieur Ladmiral va Bientôt Mourir”, publicado por Pierre Bost em 1945. O roteiro foi escrito por Bertrand Tavernier e a filha dele, Colo Tavernier. A adaptação preserva a estrutura concentrada da obra literária e acompanha os personagens durante poucas horas, deixando que passado e presente se encontrem nas conversas e nas lembranças. Louis Ducreux, conhecido também pela atuação no teatro e pelo trabalho como compositor e dramaturgo, encontra em Monsieur Ladmiral um personagem de poucas explosões e muitas contradições. Sabine Azéma, por sua vez, injeta energia na produção como Irène, personagem que chega carregando uma liberdade que incomoda o irmão e fascina o pai.

A recepção crítica ajudou a transformar “Um Sonho de Domingo” em uma das obras mais lembradas da filmografia de Tavernier. O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984 e o diretor recebeu o prêmio de Melhor Direção. No César, a produção levou os prêmios de Melhor Atriz, para Sabine Azéma, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia, de Bruno de Keyzer.

A própria estrutura do filme pode dividir opiniões. Para alguns espectadores, o ritmo contemplativo e a ausência de grandes reviravoltas fazem parte de seu encanto; para outros, a mesma característica pode exigir uma dose extra de paciência.  Esse contraste combina com a proposta de Tavernier. “Um Sonho de Domingo” observa uma família durante um único dia e deixa que as pequenas tensões façam o trabalho pesado. O pai olha para os filhos e, ao mesmo tempo, parece enxergar versões diferentes de si próprio. Gonzague representa a vida organizada, previsível e socialmente aprovada. Irène chega com independência, desejo e uma certa desordem atributos que o pai admira e talvez inveje um pouco.

O filme sabe encontrar drama onde a vida costuma escondê-lo: nas visitas que se repetem, nas escolhas que parecem definitivas, nas conversas que chegam tarde e naquela incômoda sensação de que algumas possibilidades ficaram para trás. Tavernier filma tudo isso com elegância, humor discreto e uma melancolia que nunca precisa levantar a voz.


Ficha técnica
“Um Sonho de Domingo” | “Un Dimanche à la Campagne” (título original) | “Um Domingo no Campo” (título em Portugal) | “A Sunday in the Country” (título internacional).
Gênero: drama. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 11 de abril de 1984, na França. Idioma: francês. Direção: Bertrand Tavernier. Roteiro: Bertrand Tavernier e Colo Tavernier, baseado no romance “Monsieur Ladmiral va bientôt mourir”, de Pierre Bost. Elenco: Louis Ducreux, Michel Aumont, Sabine Azéma, Geneviève Mnich, Monique Chaumette, Thomas Duval, Quentin Ogier e Katia Wostrikoff. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 15 de setembro de 2026

.: "Viva, Vida!" retorna a São Paulo: afinal, que horas ela volta?


Por Eduardo Caetano, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Airó Nascimento e Identidade Visual

Regina Casé, musa de Caetano Veloso, para quem ele compôs a música “Rapte-me, Camaleoa” está novamente em cartaz com o espetáculo “Viva! Vida!”, em São Paulo. O solo escrito por Estêvão Ciavatta e dirigido por Daniela Thomas  traz Regina transbordando todo o seu talento enquanto apresenta a biografia da Terra. O DNA do Planeta é surpreendente, mas não tanto quanto a capacidade camaleônica de Regina em nos contar esta trajetória fascinante. O sucesso da primeira temporada, entre julho e agosto, foi tão estrondoso que o público repetia em coro: “Que horas ela volta?”.

Não demorou muito. Novas plateias paulistas poderão apreciar o espetáculo de quinta a domingo, até dia 20 de setembro, no Teatro Sérgio Cardoso. De quinta-feira a sábado, Regina sobe aos palcos às 20h00. Já aos domingos, o “Vida, Vida!” começa mais cedo, às 17h00. Recentemente, fui a São Paulo assistir ao espetáculo. Confesso que foi um "Programa Legal". Havia uma "Muvuca" na entrada do Teatro Sérgio Cardoso, todos ansiosos, mas talvez não tanto quanto eu. Fã da Regina desde muito criança, dos tempos de "TV Pirata", confesso que não estou nada seguro para escrever sobre este solo, mas vou atender ao pedido (e apelo) do meu grande amigo Helder Moraes Miranda para o Portal Resenhando.com.

Na plateia imensa e lotada, eu era pequenininho. Tipo um Plutão. E ela, no palco, gigante diante da Terra, brincava com aquela bolinha azul como se fosse Michael Jordan. Regina, que no latim significa rainha, reina diante do público e faz toda a galáxia gravitar ao seu redor. Poeira de estrelas que somos, Regina resgata a nossa condição galáctica ao mesmo que nos lembra do nosso parentesco com o outro, as samambaias e as baratas.

A jornada da vida na Terra tem milhões de anos e o Planeta outros tantos bilhões de existência. Atravessa do Sagrado ao científico. Vai da imensidão da floresta ao pé de boldo no quintal. Do cosmos ao toque do celular. Da teia de aranha ao colo de Nossa Senhora protegendo o Menino Jesus na fuga para o Egito. E cabe numa única célula. Literalmente, Regina tem o Mundo em suas mãos e nos faz repensar sobre as mãos que governam o mundo.

Atriz, diretora, mulher, mãe, apresentadora, avó, esposa, roteirista e onça, a camaleoa interage com a plateia emprestando às árvores o seu protagonismo. Da genealogia de Adevic, Ademar e Adejar, carioca da gema, soteropolitana por mérito e pernambucana legitimada pela lei, Regina é múltipla. Emociona e arranca gargalhadas com a mesma intensidade. Aborda a rotina, o algoritmo, o tomate do nhoque, o candomblé, os yanomamis e as cianobactérias. Vai do profano e ao Sagrado num piscar de olhos, costurando os temas, que nem vagonite.

Regina faz das notificações do WhatasApp e do toque do celular seus aliados, enquanto nos alerta sobre a urgência de uma sociedade sustentável. Com o aquecimento global, o Planeta Esquenta! Mas não do jeito que a gente gosta e merece. Mudança climática não é praia. É enchente. É deserto! Por isso, a importância de tratarmos a Terra com Amor de Mãe.

Enquanto a Terra é gerada no ventre da sobrinha da Tia Julinha, refletimos sobre a potência da vida. Camaleoa, diante de nós Regina é o Sol. E para relembrar a capacidade de reinvenção da Mãe Natureza, a onça nos dá uma aula sobre fotossíntese utilizando o seu farol em verso, caetaneando: “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”. Caetano que também sou, fui raptado.

Ficha técnica e serviço
Espetáculo “Viva! Vida!”

Elenco: Regina Casé
Roteiro: Estêvão Ciavatta
Direção: Daniela Thomas
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo – SP)
Até dia 20 de setembro
Quinta-feira a sábado, às 20h00. Domingos, às 17h00.

.: “Avenida Brasil 2” ressuscita Carminha e reacende as intrigas no Divino


Nina (Debora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves) prometem fortes emoções a reviver parceria de sucesso. Foto: Rede Globo / Estevam Avellar

Quatorze anos depois da primeira novela, "Avenida Brasil 2" tem estreia prevista para janeiro de 2027 na TV Globo. A continuação da novela reúne personagens queridos, apresenta novos rostos e coloca em xeque a redenção de uma das maiores vilãs da televisão brasileira. No Divino, o passado pode até parecer enterrado, mas basta uma velha conhecida aparecer para a história ganhar novos capítulos. Quatorze anos depois dos acontecimentos que movimentaram o bairro, Tufão (Murilo Benício) virou um empresário ainda mais bem-sucedido, a família continua unida e antigas feridas parecem finalmente cicatrizadas. Mas Carminha (Adriana Esteves) está de volta. 

Depois de cumprir pena na prisão e ficar afastada do convívio dos moradores da mansão, Carmen Lúcia Araújo reaparece com uma nova imagem. O trabalho social desenvolvido junto a famílias em situação de vulnerabilidade após a desativação do lixão fez dela uma figura admirada pela comunidade e celebrada pela mídia. Aos olhos do público, a antiga vilã se tornou símbolo de superação e redenção. Carminha também procura uma maneira de obter o perdão de quem sofreu por suas ações. Entre essas pessoas está a própria filha, Agatha (Karol Lannes), cuja fragilidade favorece uma reaproximação com a família de Tufão. Recebida por parte do clã, Carminha demonstra disposição para reconstruir relações que ajudou a destruir. Só que uma pergunta continua rondando sua volta: até onde vai essa nova versão de Carmen Lúcia?

Essa é a pergunta inicial de “Avenida Brasil 2”, próxima novela das nove da TV Globo. “A trama gira em torno de Carminha, que reaparece anos depois com um discurso de redenção, admirada por todos e tratada como exemplo de superação. O público será instigado a acompanhar como essa volta vai mexer com a vida da família de Tufão e dos demais personagens, sobretudo, de Nina (Débora Falabella). Essa também é uma oportunidade de voltar ao Divino, descobrir novos rostos, rever figuras queridas e saber o que aconteceu com cada uma delas ao longo desse tempo”, adianta o autor, João Emanuel Carneiro.

A nova novela marca ainda a retomada da parceria entre o autor e o diretor artístico Ricardo Waddington, 14 anos depois do primeiro encontro entre os dois em “Avenida Brasil”.  A novela é uma continuação e mantém a marca que sempre definiu a obra: velocidade de trama, acontecimento a cada capítulo, uma história que não para de andar, agora a serviço de novos conflitos. Carminha e Nina juntamente com a família de Tufão seguem no centro, mas em dinâmicas inéditas, provocadas pela chegada de novos personagens ao Divino.

A volta de Carminha não passa despercebida pelos moradores do bairro. Entre os personagens que passam a desconfiar de suas atitudes está Renan Vitória (Thomás Aquino), uma liderança em ascensão no Divino. A aproximação entre os dois estabelece uma relação cheia de disputas por influência e deixa no ar uma questão nada confortável: quem está, de fato, conduzindo o jogo? Ao redor da trama principal, “Avenida Brasil 2” acompanha novamente o cotidiano do subúrbio carioca, agora com uma mistura de rostos conhecidos e personagens que chegam para bagunçar a rotina do bairro.

Salomé (Thalita Carauta) surge como uma das novas figuras de destaque. Carismática e irreverente, ela promete levar uma boa dose de comédia para a história. Jade (Jéssica Ellen), por sua vez, alimenta o sonho de estudar engenharia genética nos Estados Unidos e construir uma vida distante de um relacionamento tóxico. Para chegar lá, inicia uma jornada recheada de desafios, descobertas e emoções. Romances improváveis, ciúmes, fofocas e convivências pouco convencionais completam o cenário. No Divino, a vida cotidiana continua rendendo encontros, desencontros e confusões sentimentais - porque, aparentemente, sossego nunca foi exatamente a especialidade daquele bairro.

Além de Adriana Esteves, Murilo Benício, Débora Falabella, Karol Lannes, Thomás Aquino, Thalita Carauta e Jéssica Ellen, o elenco conta ainda com Cauã Reymond, Eliane Giardini, Marcos Caruso, Karine Teles, Juliano Cazarré, Leticia Isnard, Roberto Bomfim, Ravel Andrade, Cris Vianna, Ernani Moraes, Drico Alves, Thiago Rodrigues, Fábio Scalon, entre outros nomes. "A família do Tufão sempre foi o coração de ‘Avenida Brasil’. Trazer de volta esse núcleo foi uma forma de retomar histórias que ainda tinham muito potencial e, ao mesmo tempo, abrir espaço para novos personagens e novas tramas. É um reencontro com um universo muito querido pelo público, mas com um olhar renovado, sem perder a essência que tornou a novela tão especial”, completa o autor da novela.

Com suspense, comédia e reviravoltas, “Avenida Brasil 2” aposta novamente em personagens capazes de provocar amor e rejeição na mesma medida. Perdão, ambição, família e vingança entram no pacote, enquanto disputas familiares e futebolísticas ajudam a movimentar uma crônica suburbana com espaço para humor e confusão. E a pergunta que deve acompanhar a novela desde o primeiro capítulo está lançada: a nova Carminha (Adriana Esteves) realmente mudou ou o Divino está prestes a cair na mesma armadilha outra vez?

“Avenida Brasil 2” é uma produção dos Estúdios Globo, criada e escrita por João Emanuel Carneiro, com colaboração de Marcia Prates, Eliane Garcia, Marta Rangel, Paula Amaral e Vicent Villari. A novela tem direção artística de Ricardo Waddington, direção geral de Henrique Sauer e direção de André Barros, Isabella Teixeira, Mayara Aguiar e Ricardo França. A produção é de Gustavo Rebelo e Bruna Ferreira; a produção executiva, de Lucas Zardo; e a direção de gênero, de José Luiz Villamarim.

domingo, 13 de setembro de 2026

.: “Ópera! - Canção para Um Eclipse” leva Orfeu em delírio de música e fantasia


Produção dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore reinventa o mito de Orfeu e Eurídice com Vincent Cassel, Fanny Ardant e Rossy de Palma, misturando grandes árias, música pop, moda e efeitos digitais. Fotos: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um casamento termina em tragédia quando Eurídice é atingida por um tiro e sua alma é levada para o reino dos mortos. Orfeu, devastado pela perda, parte em busca da mulher que ama e encontra no caminho uma versão bastante particular do inferno: o Grand Hades Hotel, conduzido por um Caronte que, em vez de barqueiro, aparece como um taxista interpretado por Vincent Cassel. Essa é a premissa de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”, produção de 2024 dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision.

A dupla parte de uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega para criar um musical cinematográfico de vocação grandiosa, recheado de fantasia, referências artísticas e uma coleção de canções que passeia pela tradição da ópera e pela música popular. O resultado reúne no mesmo universo Puccini, Händel, Verdi, Gluck e Vivaldi ao lado de “The Power of Love”, do Frankie Goes to Hollywood.

A proposta chamou atenção desde a passagem pelo Festival de Cinema de Roma, onde “The Opera! - Arie per un’eclissi” foi exibido em sessão especial em 2024. A organização do festival descreveu o filme como uma ópera-musical de linguagem imersiva e transmídia, ambientada entre uma Paris parcialmente submersa e o palco do Teatro Regio de Turim. No filme, Valentino Buzza interpreta Orfeu e Mariam Battistelli vive Eurídice. Vincent Cassel assume Caronte, enquanto Fanny Ardant aparece como Proserpina, Rossy de Palma interpreta Atropos, Caterina Murino vive a concierge do hotel e Erwin Schrott encarna Plutão. Angela Finocchiaro completa o elenco como Calíope, mãe de Orfeu.

Davide Livermore traz para o cinema uma experiência acumulada em mais de duas décadas de trabalho com grandes casas de ópera. Paolo Gep Cucco, por sua vez, tem trajetória ligada ao video design para espetáculos líricos. A parceria, construída nos palcos, migra para o cinema com uma proposta que trata cada ambiente como uma espécie de palco gigantesco.

A fotografia de Gareth Munden e a direção de arte apostam em cenários digitais para construir o universo de Hades. Boa parte da produção foi realizada em ambientes virtuais, recurso que permite colocar os personagens em espaços impossíveis, com água, arquitetura monumental e paisagens que parecem saídas de um sonho febril. A estética ainda dialoga com referências do cinema, da pintura e das artes visuais. Uma das mais evidentes aparece na partida de xadrez entre Orfeu e Mephistopheles, evocando “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

A moda também entra em cena. A Dolce & Gabbana participou da produção e assinou os figurinos, ajudando a estabelecer uma identidade visual luxuosa, teatral e deliberadamente extravagante. O filme cruza ópera, cinema, moda e artes visuais com a intenção de atualizar uma história conhecida há séculos. A música ocupa um espaço central nessa aventura. As árias clássicas ganham arranjos contemporâneos e convivem com referências da música pop, criando uma trilha que pode surpreender tanto quem chega ao filme pela ópera quanto quem não costuma frequentar esse universo. “Nessun Dorma”, uma das peças mais reconhecíveis do repertório lírico, tem papel decisivo na narrativa: na versão dos diretores, Orfeu precisa cantá-la sem perder de vista a razão de estar cantando para conseguir salvar Eurídice.

A escolha estética explica boa parte da personalidade de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”. O filme não economiza em cenários, figurinos, efeitos visuais e referências. O Grand Hades Hotel parece saído de uma fantasia de luxo decadente, enquanto a presença constante da água cria imagens de beleza e estranhamento. Em vez de esconder sua teatralidade, a produção a coloca no centro da experiência.

O mito de Orfeu e Eurídice ganha, assim, uma roupagem contemporânea sem abandonar sua estrutura essencial: um homem disposto a desafiar o reino dos mortos para recuperar a mulher amada. A diferença está no caminho. Em vez de uma descida convencional ao submundo, Orfeu atravessa um universo pop-operístico em que taxistas são guias do além, hotéis funcionam como passagem para os mortos e grandes clássicos da música lírica dividem espaço com canções populares. 

A produção também pode funcionar como uma porta de entrada para a ópera, já que transforma algumas de suas composições mais conhecidas em parte da aventura de Orfeu. No fundo dessa extravagância toda permanece uma história bastante antiga: um homem perde a pessoa que ama e decide enfrentar o impossível para trazê-la de volta. O resto fica por conta de Livermore, Cucco, Cassel, Buzza, Battistelli e companhia — e de uma quantidade generosa de ópera, fantasia, água, luxo, xadrez e delírio visual.

Ficha técnica
“Ópera! - Canção Para Um Eclipse” | “The Opera!” (título original)
Gênero: musical, drama, fantasia e romance. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 20 de janeiro de 2025 na Itália; estreia na Reserva Imovision em setembro de 2026. Idiomas: inglês, italiano e francês. Direção: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Roteiro: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Elenco: Valentino Buzza, Mariam Battistelli, Vincent Cassel, Fanny Ardant, Caterina Murino, Erwin Schrott, Rossy de Palma, Angela Finocchiaro, Charlotte Gentile, Linda Gennari, Sergio Bernal e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "O Declínio do Império Americano" expõe desejos e a crise de uma geração


Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.

O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.

Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.

O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.

A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.

Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.

O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.

Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.

A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.

O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.

Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.


Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: Filme “Scooby-Doo: A Origem” encerra gravações e prepara mistério para 2027


Série live-action resgata o primeiro mistério de Daphne, Salsicha, Velma, Fred e Scooby e coloca um cachorro de verdade no papel do famoso detetive de quatro patas. Foto: divulgação

Cadê você, meu filho? A Netflix anunciou neste domingo, dia 13 de setembro, o fim das gravações de “Scooby-Doo: A Origem”, série live-action que volta ao começo da história da turma de investigadores formada por Daphne, Salsicha, Velma, Fred e Scooby-Doo. A produção tem estreia prevista para 2027 e vai mostrar o primeiro mistério resolvido pelo grupo antes de os personagens se tornarem a equipe de detetives mais conhecida e provavelmente mais enrolada do mundo.

Na história, Daphne e Salsicha passam as últimas férias em um acampamento de verão quando encontram um filhote perdido de dogue alemão. O problema é que o cachorro pode ter testemunhado um assassinato sobrenatural. A descoberta coloca os dois no centro de uma investigação que rapidamente ganha proporções bem maiores do que qualquer aventura de férias deveria ter.

Velma, uma jovem cientista, e Fred, o novo garoto descrito como estranho e extremamente charmoso, entram na investigação. A partir daí, o quarteto se une para descobrir o que aconteceu e acaba mergulhando em um caso capaz de colocar seus próprios segredos em risco. Afinal, quando adolescentes começam a investigar um possível assassinato sobrenatural, a chance de o passeio terminar com uma simples fogueira e marshmallows parece bastante reduzida.

A produção também traz uma novidade histórica para a franquia: pela primeira vez, Scooby-Doo será retratado como um cachorro de verdade. O personagem continuará sendo um dogue alemão, mas agora terá uma presença canina real ao lado dos colegas humanos. Mckenna Grace interpreta Daphne Blake, Tanner Hagen vive Salsicha Rogers, Abby Ryder Fortson assume o papel de Velma Dinkley e Maxwell Jenkins interpreta Fred Jones. O elenco ainda reúne Paul Walter Hauser, Rusty Schwimmer, Peter Macon, Jona Xiao, Dani Deetté, Elysée Sanvillé, Alex Isles, Avery Kristen Pohl, Pamela Mitchell, Ross Kimball, Sara Gilbert, Wynn Everett, Sauriyan Sapkota, Bruce McGill, André Benjamin e Cathy Moriarty.

Com mais de 50 anos de história, “Scooby-Doo” segue como um dos nomes mais conhecidos da cultura pop. A franquia já ganhou três filmes para o cinema, mais de uma dúzia de séries animadas e quase 40 filmes de animação. Agora, a Mistério S/A ganha uma nova versão em live-action para contar como tudo começou.

Josh Appelbaum e Scott Rosenberg, da Midnight Radio, são showrunners, roteiristas e produtores executivos da série. A dupla é conhecida por trabalhos como “Alta Fidelidade” e “Everything Sucks!”. Greg Berlanti, Sarah Schechter e Leigh London Redman são produtores executivos pela Berlanti Productions, em parceria com a Warner Bros. Television. André Nemec, Jeff Pinkner e Adrienne Erickson também atuam como produtores executivos pela Midnight Radio, enquanto Toby Haynes dirige o primeiro episódio.

Filmada em Atlanta, na Geórgia, “Scooby-Doo: A Origem” integra o grupo de produções da Netflix realizadas na região, ao lado de títulos como “Stranger Things”, “Dele & Dela”, “’Tis So Sweet”, “All the Sinners Bleed”, “A Different World”, “Where There’s Smoke” e a quinta temporada de “Doces Magnólias”.

A sinopse oficial apresenta a série como uma reimaginação moderna do grupo de jovens detetives e de seu cachorro. Durante o último verão de acampamento, Salsicha e Daphne se envolvem em um mistério relacionado a um filhote solitário de dogue alemão que pode ter testemunhado um assassinato sobrenatural. Ao lado da pragmática e científica Velma e do estranho, porém charmoso, Fred, eles tentam solucionar o caso enquanto são levados a um pesadelo capaz de revelar segredos de todos. “Scooby-Doo: A Origem” estreia em 2027 na Netflix. A série é produzida pela Warner Bros. Television.

.: Crítica: livro “Eu Disse Não!” coloca a democracia no cockpit e revisita a crise


Em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, Carlos Baptista Junior abandona a distância confortável dos livros de história e conta, por dentro da Aeronáutica, como os meses entre 2021 e 2023 colocaram disciplina, hierarquia e democracia numa rota de colisão

Um país pode chegar muito perto de um golpe sem que um tanque precise atravessar a avenida. Às vezes, a crise acontece em salas fechadas, reuniões de comando, telefonemas, conversas reservadas e decisões tomadas por homens acostumados a obedecer até o momento em que obedecer pode significar colocar a própria Constituição em risco. É nesse terreno que Carlos Baptista Junior coloca o leitor em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, publicado pela Editora Autêntica. O título já entrega a posição do autor, mas o livro é mais interessante quando deixa de ser uma declaração de princípios e passa a contar como esse “não” foi construído, sustentado e, sobretudo, quanto custou para mantê-lo.

Tenente-brigadeiro, piloto de caça, com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea Brasileira, Baptista Junior comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023. Portanto, não escreve sobre os acontecimentos olhando para fotografias antigas. Ele estava dentro da foto. E, para alguém acostumado a voar, a expressão “cockpit”, termo em inglês usado para designar a cabine de comando de uma aeronave, ganha aqui uma dimensão curiosa: Baptista Junior estava no cockpit de uma das instituições colocadas sob pressão durante a crise.

O primeiro capítulo, “Doze Horas na Polícia Federal”, por exemplo, começa longe da solenidade dos grandes acontecimentos nacionais. O autor está com o neto, fala da rotina familiar, passa por situações corriqueiras e, de repente, a narrativa o leva para um episódio que ajuda a explicar como aquele homem chegou ao centro de uma das maiores crises institucionais da história recente do país. A estratégia aproxima o leitor do personagem antes de colocá-lo novamente diante do uniforme.

Baptista Junior escreve a partir de uma formação em que palavras como “disciplina” e “hierarquia” têm peso concreto. Só que existe uma terceira palavra que se torna decisiva: Constituição. O livro ganha densidade quando essas três ideias deixam de caber confortavelmente na mesma frase. A crise de 2021 aparece como um ponto de inflexão. A troca do ministro da Defesa, a substituição dos comandantes das Forças Armadas e a reorganização do alto comando militar revelam um ambiente em que a política já não podia ser tratada como assunto externo aos quartéis. 

Jair Messias Bolsonaro havia chegado ao poder com uma relação particular com os militares, e o livro acompanha a deterioração dessa convivência até o momento em que o papel institucional das Forças Armadas passa a ser testado de maneira brutal. O autor não precisa inventar um thriller, já que a realidade brasileira daquele período já havia feito esse trabalho com competência assustadora. A eleição de 2022 ocupa boa parte do relato e mostra uma engrenagem em movimento: questionamentos sobre as urnas, pressão política, reuniões, manifestações, expectativas dentro e fora dos quartéis e o comportamento das cúpulas militares diante da derrota de Bolsonaro. 

A narrativa acompanha os acontecimentos até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e chega ao ponto em que a democracia brasileira parecia estar sustentada por uma quantidade desconfortavelmente pequena de bom senso. O livro desmonta, com detalhes, aquela impressão posterior de que a tentativa de ruptura teria sido uma maluquice improvisada por meia dúzia de exaltados. O autor descreve um ambiente em que a possibilidade de golpe foi discutida, estimulada e considerada por setores que tinham acesso real às estruturas de poder. 

“Eu Disse Não!” é um livro sobre o limite da obediência, questão capaz de incomodar quem enxerga as Forças Armadas como guardiãs naturais da política. Baptista Junior apresenta uma instituição composta por pessoas, disputas, interesses, avaliações e diferentes compreensões sobre até onde poderia ir a atuação militar. A democracia, no livro, não aparece protegida por uma entidade abstrata chamada “instituições”, mas depende de indivíduos tomando decisões.

O mérito da obra está em mostrar que uma ruptura institucional exige mais do que discursos sobre democracia. Em determinados momentos, alguém precisa estabelecer um limite e aceitar as consequências de fazê-lo. O relato ganha interesse quando o autor também se permite olhar para a própria trajetória. Piloto de caça, comandante e homem formado dentro da FAB, ele conhece profundamente o universo que descreve. O leitor percebe a linguagem, os códigos e a lógica de funcionamento de uma organização em que a cadeia de comando pode determinar o destino de uma instituição inteira.

O livro acerta ao não transformar esse gesto em fantasia heroica de história em quadrinhos. Mesmo quando o autor assume claramente um lado, permanece a sensação de que está reconstruindo um período complicado, cheio de zonas de tensão e escolhas difíceis. O leitor acompanha os bastidores e percebe que o país esteve perto de uma situação cuja dimensão fica mais nítida quando os episódios são colocados em sequência.

Existe ainda uma ironia involuntária e bastante brasileira em tudo isso. Um país que passou décadas discutindo o papel dos militares na política chegou ao século XXI diante de uma pergunta quase primitiva: o que faz um militar quando recebe ou percebe uma ordem que entra em choque com a Constituição?

“Eu Disse Não!” ganha força quando deixa de lado a caricatura do herói solitário e permite que apareçam o homem dentro da farda, o comandante dentro da instituição e a instituição dentro de uma crise política que extrapolou os muros dos quartéis. É uma leitura especialmente interessante para quem acompanhou os acontecimentos de 2021 e 2022 e ficou com a impressão de que faltavam algumas peças do quebra-cabeça. Compre o livro "Eu Disse Não", de Carlos Baptista Junior, neste link.

sábado, 12 de setembro de 2026

.: Vladimir Brichta em “O Menor Palco do Mundo” leva a paternidade ao teatro


“O Menor Palco do Mundo”, primeiro solo de Vladimir Brichta, transforma cartas, histórias e imaginação em uma reflexão sobre paternidade, distância, afeto e reconstrução dos vínculos. Foto: Julia Mataruna

Histórias carregam valores, aproximam pessoas e podem servir de abrigo quando a vida aperta. Em “O Menor Palco do Mundo”, primeiro espetáculo solo de Vladimir Brichta, contar histórias ganha outro peso: torna-se uma maneira de enfrentar a distância e manter vivos os vínculos entre um pai e seus filhos. A temporada de estreia acontece no Teatro Vivo, em São Paulo, de 10 a 31 de outubro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h00, e aos domingos, às 18h00. Inspirado na história real do premiado autor australiano Kim Crotty, o espetáculo tem dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, direção de Luiz Felipe Reis e idealização de Aura Cunha e Paula Picarelli.

A história acompanha Crotty, um pai que, depois de cometer um erro e ser preso, procura uma maneira de continuar presente na vida dos filhos. Dentro da prisão, começa a inventar histórias e enviá-las às crianças por cartas. O gesto, nascido de uma situação limite, encontra na imaginação uma possibilidade de aproximação. Entre palavras, personagens e fantasia, ele tenta diminuir a distância e reconstruir a relação com os filhos. As idealizadoras Aura Cunha e Paula Picarelli contam que há algum tempo estava procurando um texto que tivessem vontade de montar, até que a Paula leu uma matéria sobre a obra de Kim Crotty. 

Para Vladimir Brichta, a montagem também encontrou ecos em experiências pessoais e familiares. Primeiro espetáculo solo do ator, “O Menor Palco do Mundo” chega ao Brasil carregado de uma história australiana, mas encontra uma ponte em sentimentos que não precisam de tradução. “Tem coisas que só arte é capaz, como encurtar os espaços via afetos. Estive minha vida toda do outro lado do mundo dos australianos, imaginando, assistindo, vendo de sua cultura. Tive uma filha que visitou o país e sonhei em ter a mesma sorte um dia. Fui aconselhado pela minha agente a não estimular os filhos a irem viver na Austrália. Os filhos dela viveram lá e um deles casou e morou durante anos, para sofrimento dela por conta da saudade e da distância. Eis que já reverberava aí a peça de Kim Crotty, a nossa peça”.

“Fui tocado de imediato pela premissa do espetáculo, um homem, um pai, que comete um erro e precisa pagar por ele. Mas o preço não contabilizado é a distância dos filhos que tanto ama e também uma reflexão profunda sobre paternidade e amor, sob o signo da dor da distância, mas também do lúdico do diálogo e da conexão com nossos filhos quando pequenos”, completa o ator. “Um relato tão pessoal e comovente como o de Kim só faria sentido aqui, do outro lado do mundo, se também permeado por alguma pessoalidade de quem a conta, com as particularidades de se viver no Brasil. Estou muito feliz de trazer aos palcos um relato tão afetivo de Kim Crotty e igualmente feliz de diminuir a distância geográfica em nome de algo universal como amor e paternidade”, finaliza ele.

Luiz Felipe Reis, responsável pela direção e pela dramaturgia ao lado de Paula Picarelli, vê no título da peça uma imagem ligada ao espaço íntimo onde cada pessoa guarda suas experiências, lembranças e conflitos. O diretor conta que “O Menor Palco do Mundo” é, para mim, aquilo que todo humano carrega em si, em seu corpo e subjetividade, desde tempos imemoriais: este nosso pequeno palco-teatro interior, repleto de vísceras, pensamentos e emoções, em que buscamos metabolizar e elaborar o que vivemos nesse imensurável teatro da vida em que estamos imersos, com todos os seus mistérios e revelações, assombro e encantamento”.

“A peça é, por tudo isso, um conjunto de elaborações que ocorre a partir de um improvável encontro cênico entre um autor australiano e um ator brasileiro. Pais que precisam lidar, por diferentes razões, com a distância em relação a seus filhos, e a partir daí enfrentam a própria solidão, isolamento, a saudade, o vazio, a fragilidade e a impotência diante de acontecimentos menores ou maiores, até o ponto inevitável, sem escape, em que precisam olhar e adentrar o teatro das suas próprias vidas, olhar sem desvios pras suas próprias histórias, escolhas e crenças em busca, quem sabe, de uma possível transformação”, conclui Luiz Felipe Reis.

A montagem também olha para os modelos de masculinidade transmitidos entre gerações. Histórias de heróis, aventuras e provas de coragem apresentadas aos meninos desde a infância ajudam a construir uma ideia de homem associada à força e à resistência. A peça abre espaço para sentimentos que costumam ficar fora desse repertório, como medo, fragilidade e afeto. O espetáculo original, “The Smallest Stage”, de Kim Crotty, foi produzido pelo BREC, coproduzido pelo Festival de Perth e vencedor da categoria de Melhor Produção de Palco Principal no Performing Arts WA Awards (PAWA Awards), em 2023.


Ficha técnica
Espetáculo "O Menor Palco do Mundo"
Elenco: Vladimir Brichta. Texto: Kim Crotty. Dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli (a partir do texto de Kim Crotty). Direção: Luiz Felipe Reis. Iluminação: Beto Bruel. Cenografia: Marisa Bentivegna. Trilha Sonora: Felipe Habib. Figurino: Theodoro Cochrane. Trabalho Corporal: Toni Rodrigues. Assistente de iluminação: Sarah Salgado. Assistente de direção e de produção (RJ): Julia Lund. Tradução: Aline Filócomo. Identidade visual e projeto gráfico: Guilherme Falcão. Fotos: Julia Mataruna. Assessoria de Imprensa: Pombo Correio. Produção executiva: Vini Silveira e Yumi Ogino. Idealização e diireção de produção: Aura Cunha (Elephante Produções) e Paula Picarelli (Frey Produções). Realização: Cachalote Produções.

Serviço
“O Menor Palco do Mundo”, com Vladimir Brichta
Temporada: 10 a 31 de outubro de 2026. Horários: sextas e sábados, às 20h00; domingos, às 18h00
Teatro Vivo | Av. Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi / São Paulo. Ingressos: R$ 150,00 (inteira), R$ 75,00 (meia-entrada), R$ 50,00 (ingressos populares - inteira) e R$ 25 (ingressos populares - meia-entrada). Vendas on-line: https://bileto.sympla.com.br/event/126035/d/409541/s/2668902. Bilheteria: (11) 3430-1524. Horário de funcionamento da bilheteria: duas horas antes da apresentação. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos. Capacidade: 274 lugares. Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Sessões com interpretação em Libras e Audiodescrição nos dias 10, 11, 16, 17, 18, 23, 24, 30 e 31. Estacionamento no local: entrada pela Av. Roque Petroni Jr, 1464. Valor R$ 30. Funcionamento 2h antes da apresentação e até 30 minutos após a sessão. A temporada de 10 a 31 de outubro será realizada através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e conta com o patrocínio da Vivo.
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