De Amyr Klink à Revolta dos Malês, de uma família negra em luto a profissionais do sexo da Vila Mimosa, lista brasileira para o Oscar 2027 apresentou histórias, gêneros, territórios e personagens muito diferentes antes de “Feito Pipa” ser escolhido
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Antes de “Feito Pipa” ganhar o direito de representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, outros 14 filmes dividiram com a produção de Allan Deberton a atenção da Academia Brasileira de Cinema. A lista de 15 títulos habilitados à disputa reuniu ficções, documentários, histórias contemporâneas, personagens históricos, crianças, idosos, artistas, criminosos, profissionais do sexo, famílias, políticos, aventureiros e personagens que poderiam facilmente habitar universos cinematográficos completamente diferentes. A escolha final aconteceu em 16 de setembro, depois de uma primeira triagem que reduziu os 15 títulos para seis.
"A Fabulosa Máquina do Tempo": no sertão do Piauí, meninas de dez anos navegam entre TikTok, cultos evangélicos e sonhos de futuro
Um barco, uma máquina do tempo e um menino do Ceará
“100 Dias”, de Carlos Saldanha, acompanha uma experiência real que parece ter sido escrita para o cinema: a travessia do Atlântico Sul feita por Amyr Klink a remo, entre a África e o Brasil. Sozinho em um pequeno barco, o navegador enfrenta o oceano enquanto a narrativa também mergulha em memórias, conflitos familiares e nos limites físicos e emocionais de quem decidiu encarar uma viagem dessa dimensão.
Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, parte do sertão do Piauí para acompanhar meninas que circulam entre religião, redes sociais, histórias familiares e sonhos de futuro. A invenção de uma máquina do tempo permite que elas revisitem as experiências de mães e avós e imaginem outras possibilidades para suas próprias vidas.
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, também olha para a infância. Glória, de dez anos, conhece Sofia durante uma temporada no hospital onde a mãe trabalha. A amizade entre as duas nasce em meio à doença da bisavó de Sofia e continua quando as meninas e suas mães seguem para o interior de Goiás.
Em “Feito Pipa”, Allan Deberton leva o espectador para Quixadá, no Ceará, onde um menino de 12 anos, interpretado por Yuri Gomes, vive com a avó Dilma (Teca Pereira) e enfrenta a possibilidade de precisar morar com o pai, vivido por Lázaro Ramos. Futebol, família, infância, afeto e pertencimento se encontram na história que acabou escolhida pela Academia Brasileira de Cinema.
Quando o desejo vira assunto
“Ato Noturno”, dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, leva a lista de candidatos a representante do Brasil no Oscar para um território completamente diferente. O filme acompanha um ator ambicioso (interpretado por Gabriel Faryas) e um político em ascensão (Cirillo Luna) que mantêm um relacionamento secreto e compartilham o desejo por encontros sexuais em locais públicos. Conforme os dois se aproximam da fama, o risco também aumenta. O filme coloca sexualidade, desejo, exposição e poder dentro de uma mesma história. A relação entre os personagens também introduz uma questão recorrente no cinema contemporâneo: aquilo que uma pessoa faz quando a vida pública começa a entrar em conflito com aquilo que deseja viver longe dos olhos dos outros.
“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, parte de outro tipo de tensão. Murilo (João Vitor Silva) é um jovem músico em luto que se envolve com Marlene (Bella Campos), uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. As histórias deles se cruzam com as de Luciana (Bárbara Colen), uma policial movida por vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado com segundas intenções. O filme é inspirado em histórias reais e organiza os personagens em uma trama de vidas que se aproximam até o ponto de não haver mais caminho de volta.
Três mulheres apostam tudo
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, foca em três gerações de mulheres. Aos 65 anos, Dolores (Carla Ribas) tem uma premonição de que a vida dela vai mudar e imagina um futuro como dona de um cassino de sucesso. O problema é que o passado de vício em jogo continua por perto. A filha, Deborah (Naruna Costa), espera a saída do namorado da prisão para começar uma nova vida. Duda (Ariana Aparecida), neta de Dolores, vê uma oportunidade de trabalhar nos Estados Unidos. As três projetam futuros diferentes e apostam em mudanças que podem alterar a trajetória da família.
Em “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias, a relação familiar também conduz a história. Ana (Paolla Oliveira) quer vender a casa onde passou a infância depois da morte da mãe, uma grande vedete chamada Narcisa (Rosamaria Murtinho), e dividir o dinheiro com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller). O problema surge quando sinais da presença do espírito da mãe começam a aparecer.
“Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, apresenta outra mulher mais velha como protagonista. Vicentina (Rejane Farias) é uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley (Renato Novaes), motorista de um ônibus envolvido em um acidente que mata praticamente todos os passageiros. Depois da tragédia, ela procura as famílias das vítimas para pedir desculpas.
O Brasil que aparece quando a câmera muda de lugar
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda. Cada integrante lida com o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula guarda um segredo que pode levar a família a encarar as raízes de suas dores. Eles são uma família, com problemas, afetos, conflitos e segredos. O fato de serem negros integra essa experiência, mas não esgota seus personagens.
“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, olha para outro momento da história brasileira. Ambientado em Salvador, em 1835, o filme acompanha dois jovens muçulmanos que são separados depois de serem escravizados no Brasil. A trajetória dos dois se cruza com a Revolta dos Malês, uma das maiores insurreições de pessoas escravizadas da história brasileira. Entre um drama familiar contemporâneo e uma produção histórica ambientada no século XIX existe uma distância enorme. Ainda assim, os dois filmes colocam personagens negros no centro da narrativa e trabalham com experiências que durante muito tempo foram representadas de maneira limitada pelo audiovisual brasileiro.
A fama como destino
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, acompanha Daniel Nascimento (João Guilherme), personagem inspirado em uma história real. Ele ganhou fama como um dos melhores hackers do Brasil, entrou para uma organização criminosa que movimentava milhões de reais, viveu cercado por luxo e acabou preso em uma operação da Polícia Federal. A internet aparece aqui como território de ascensão, dinheiro e crime. A fama, que em outras histórias pode significar reconhecimento artístico ou sucesso profissional, assume outro formato.
Em “Papagaios”, de Douglas Soares, a obsessão por aparecer também está no centro da narrativa. Tunico (Gero Camilo) é conhecido no Rio de Janeiro como “Papagaio de Pirata”, aquele personagem que persegue repórteres para tentar aparecer nas transmissões de televisão. Depois de sofrer um acidente, ele conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que se torna seu aprendiz. A história usa a televisão e a busca pela fama para falar de um Brasil com milhões de aparelhos ligados diariamente, onde aparecer pode se tornar uma espécie de profissão informal. São dois filmes interessados em personagens que querem ser vistos. Um encontra a fama na internet; o outro, na televisão.
Quando a história recente volta a bater à porta
“A Conspiração Condor”, de André Sturm, parte de uma investigação jornalística. Depois da morte de Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, um jornalista interpretada por Mel Lisboa começa a investigar o caso. A morte de João Goulart meses depois aumenta suas suspeitas sobre uma possível conspiração relacionada à ditadura militar. O filme entra em uma zona conhecida do cinema brasileiro: a tentativa de revisitar acontecimentos históricos ainda cercados de dúvidas e interpretações. A proposta se aproxima do thriller político e utiliza uma investigação para retornar a um período que continua presente no debate histórico brasileiro.
A variedade da lista também aparece no modo como o passado é abordado. Em “Malês”, o cinema retorna ao século XIX. Em “A Conspiração Condor”, olha para a ditadura militar. Em “Herança de Narcisa”, o passado aparece dentro de uma casa e de uma família. Em “Feito Pipa”, surge nas memórias de infância de seus criadores. O passado brasileiro, portanto, não chega ao cinema de uma única maneira.
O que fica escondido
“Quando Vira a Esquina”, documentário dirigido por Chris Alcazar, leva a câmera para a Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, um dos mais conhecidos territórios de prostituição do país. O filme escuta profissionais do sexo que trabalham no local e constrói sua narrativa a partir da relação de confiança estabelecida entre realizadora e personagens. É outro tipo de movimento dentro da lista. Em vez de criar personagens ficcionais, o documentário abre espaço para pessoas que raramente controlam a maneira como suas vidas são representadas.
Essa mesma vontade de olhar para personagens e ambientes pouco convencionais aparece, de maneira diferente, nos demais títulos. A lista não se limita a histórias de famílias de classe média, grandes centros urbanos ou personagens já conhecidos do público. Ela passa por comunidades, profissões, cidades, períodos históricos e experiências que ampliam o repertório do cinema brasileiro.































