Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Entre os filmes mais vistos da plataforma de streaming Reserva Imovision, o drama erótico “O Império dos Sentidos” ainda testa os limites do olhar. Lançado originalmente em 1976, o filme dirigido por Nagisa Ôshima volta vem sendo redescoberto pela nova geração e confirma a vocação de colocar os espectadores em um lugar incômodo. Ambientado no Japão de 1936, o longa-metragem acompanha Sada Abe (Eiko Matsuda), ex-prostituta que passa a trabalhar como empregada na hospedaria de Kichizō Ishida (Tatsuya Fuji). A relação entre os dois cresce rápido, alimentada por desejo, posse e um impulso que não encontra freio. O que poderia ser apenas mais uma história de paixão se transforma em um mergulho radical na obsessão, conduzido até um desfecho que a própria história real já havia tornado célebre.
Ôshima, figura central da nouvelle vague japonesa, concebeu o projeto em parceria com o produtor francês Anatole Dauman, conhecido por trabalhos com Alain Resnais e Jean-Luc Godard. A coprodução entre Japão e França foi a saída encontrada para contornar a censura japonesa, que à época impunha cortes severos à representação do corpo e da sexualidade. Filmado no Japão e finalizado na França, o longa chegou ao público sem fazer nenhum tipo de concessão, o que explica tanto a notoriedade do filme quanto a série de proibições que a produção enfrentou ao redor do mundo.
A repercussão em Cannes, em 1976, dá a medida do impacto. A procura foi tamanha que o festival organizou sessões extras para dar conta do público. A curiosidade vinha acompanhada de escândalo: tratava-se de um filme com cenas de sexo explícito integradas à narrativa, algo raro no circuito de prestígio. Nos anos seguintes, “O Império dos Sentidos” seria banido em diversos países, enquanto outros o liberariam pouco depois, já sem cortes. No Japão, o próprio Ôshima enfrentou um processo judicial, encerrado apenas em 1982, com a absolvição dele.
O roteiro, também assinado por Ôshima, parte de depoimentos reais de Sada Abe, registrados pela polícia, e de relatos que circularam após o crime. A escolha dá ao filme uma base documental que contrasta com a encenação rigorosa. Cada gesto, cada repetição, cada deslocamento entre os corpos é pensado como parte de uma construção dramática que dispensa ornamentos. O diretor elimina distrações e concentra a ação em poucos espaços, criando um clima de confinamento que acompanha a escalada da relação.
Eiko Matsuda, vinda do teatro experimental, sustenta o filme com uma presença que oscila entre fragilidade e domínio. A personagem dela conduz o ritmo da relação, deslocando o eixo tradicional do olhar no cinema erótico. Tatsuya Fuji, por sua vez, compõe um parceiro que se entrega por completo, num jogo que se intensifica a cada cena. O que se vê é a insistência de um desejo levado até as últimas consequências.
A fotografia e o uso das cores dialogam com tradições visuais japonesas, especialmente o teatro kabuki. Tons de vermelho atravessam figurinos e objetos, marcando o ambiente e sugerindo uma tensão constante. Cada elemento parece colocado para amplificar o que está em cena. Reduzir “O Império dos Sentidos” a rótulos simplistas empobrece a experiência. O filme se constrói como um estudo sobre controle, entrega e destruição, articulando corpo e poder de maneira direta e que ainda desafia convenções e incomoda expectativas.
Quase cinquenta anos depois, a obra mantém sua capacidade de dividir plateias. Há quem veja ali um marco do cinema moderno; há quem rejeite o filme pela forma como expõe seus personagens. Entre uma reação e outra, permanece um trabalho que insiste em ser visto, discutido e reavaliado — e que, ao reaparecer em circuito, reafirma a força de um cinema que não se acomoda.
“O Império dos Sentidos” | “Ai no Korîda” (título original)
Gênero: drama erótico. Duração: 109 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1976. Idioma: Japonês. Direção: Nagisa Ôshima. Roteiro: Nagisa Ôshima. Elenco: Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima, Yasuko Matsui, Meika Seri, Taiji Tonoyama. Distribuição no Brasil: Imovision (catálogo e relançamentos). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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