sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Crítica: "Verity" fisga pelo talento do elenco, mas se perde na pegada erótica

Imagem de  "Verity"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Uma escritora desconhecida do grande público consegue a chance na carreira literária, mas como ghost writer (escritor-fantasma) de um nome de sucesso estrondoso. No suspense psicológico "Verity" com Anne Hattaway, Josh Harnett e Dakota Johnson, adaptado do livro de mesmo nome da escritora norte-americana Colleen Hoover ("É Assim Que Acaba"),um a profissional da escrita é contratada para seguir na produção de novos livros da queridinha Verity (Anne Hattaway, "Instinto Materno"). Assim, Lowen (Dakota Johnson, de "Madame Teia") ingressa mna trama ao aceitar organizar anotações da grande escritora, sem receber crédito público ou assinatura pela autoria da obra, mas embolsando uma grande bolada.

O longa começa de modo forte e num encontro ao acaso, porém tremendamente medonho entre Jeremy (Josh Harnett, de "Oppenheimer" e "Armadilha") e Lowen. O resultado é uma forte tensão entre os dois quando o destino consegue uni-los novamente, mas tendo como desculpa uma excelente oportunidade de trabalho. Embora considere por minutos recusar, Lowen aceita a proposta ao assinar um contrato de confidencialidade. Assim, vai passar alguns dias na casa da família Crawford.

Neste jogo de contar e recontar histórias, "Verity" garante bons sustos, mas põe a perder o bom do suspense em nome de pesar a mão em sequências de pegadas eróticas, o que acaba ligando a atriz Dakota Johnson novamente ao sexy "50 tons de cinza", longa que catapultou a filha de Melanie Griffith em Hollywood. Aos fãs de Josh Hartnett também cabe a leve desconfiança em torno das revelações de seu personagem -e parte dela pode ser confirmada.

Embora "Verity" traga a talentosa Hattaway na pele de um personagem inconstante, não espere algo estilo o excelente longa "Instinto Materno". Inicialmente, até se aproxima e faz lembrar, mas conforme a trama se desenrola, acaba parecendo uma releitura de "A Empregada", sem o desfecho desejado e plausível. Uma vez que Lowen mergulha de cabeça nas tragédias da família que vive na casa afastada com um lago adiante -cenário de uma morte dolorosa. 

A brincadeira com os nomes das personagens femininas, a dona da verdade (Verity) que tem em seu caminho alguém mais baixo, considerando as três primeiras letras do nome de Lowen, é uma riqueza que mais impacta na escrita. Assim, ordenando apontamentos de Verity, uma mulher acamada, Lowen passa a desejar ser a outra e suas confusões a levam a um final duvidoso. Infelizmente, a adaptação dirigida por Michael Showalter consegue ser bastante previsível.


Trailer de "Verity"

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

.: Crítica: "A Ilha Esquecida" até lembra "Red", mas foca na amizade e encanta

Imagem de  "A Ilha Esquecida"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


A animação que mescla aventura e comédia, "A Ilha Esquecida", entrega colorido de dar inveja nas novas criações Disney, além de estampar os traços artísticos sempre presentes nas produções do mesmo gênero de "Homem-Aranha no Aranhaverso". Da DreamWorks Animation, "A Ilha Esquecida" chega a remeter o também excelente "Red: Crescer é Uma Fera", mas vai além fugindo do realismo, com traços 2D expressivos, dinâmicos e exagerados, inspirados em animes japoneses, o que faz lembrar o sucesso "As Guerreiras do K-Pop", da Netflix.

"A Ilha Esquecida" traz um peso emocional de uma das protagonistas com a avó, como também acontece em "Cara de Um, Focinho de Outro", mas é muito ágil na trama garantino várias reviravoltas. A diferença está no fato de a produção ser focada na amizade e o acerto é em sequência, muito por trazer uma trilha sonora sem defeitos, incluindo "Don't Stop Believin'", "Never Tear Us Apart" e "Nothing's Gonna Stop Us Now", por exemplo. Tanto é que os créditos finais celebra a amizade exibindo fotos reais de amigos e familiares da equipe de produção, em uma homenagem aos temas de memória e amizade do filme.

Sem muita pretensão, a produção de divulgação encabulada, é puro deleite visual e narrativo. Na animação que soma 1 hora e 40 minutos de duração, as melhores amigas Jo e Raissa criam um forte elo desde a primeira topada enquanto aguardavam atendimento da diretora após agirem de modo equivocado em aula. Elas viram adolescentes e quando tudo parecia normal, planos mudam. 

No entanto, as duas se deparam com um portal misterioso que as transporta para a ilha fantástica chamada Nakali. Enquanto vivenciam o que juravam não existir, como por exemplo, criaturas mágicas, Jo e Raissa descobrem a importância da amizade verdadeira de longos anos, uma vez que o preço para voltar para casa são as memórias da relação construída por elas. Por outro lado, juntas elas buscam uma forma de sair do lugar dos sonhos sem que uma esqueça da outra para sempre. Imperdível!


Trailer de "A Ilha Esquecida"




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Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo e outros jagunços formam uma galeria de personagens que transforma o sertão de João Guimarães Rosa em território de conflitos, afetos e escolhas

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Se o sertão de João Guimarães Rosa ganhou dimensões que ultrapassam a geografia, os personagens também são bem mais complexos do que parecem. Em “Grande Sertão: Veredas” , publicado em 1956 e relançado em edição especial pela Companhia das Letras, Riobaldo narra as próprias lembranças a partir da velhice e retorna aos anos em que viveu entre jagunços, disputas, perseguições, mortes, amizades e amores. No centro dessa memória está Diadorim, personagem que acompanha Riobaldo durante boa parte da narrativa e cuja presença reorganiza o modo como ele percebe o mundo. 

Ao redor dos dois aparecem chefes de bando, companheiros de armas, inimigos e mulheres que participam de diferentes momentos da trajetória do narrador. A lista é extensa. Alguns personagens permanecem durante longos trechos da narrativa; outros entram em cena para alterar o rumo da história. Juntos, eles ajudam a construir um romance em que a aventura sertaneja convive com questões sobre identidade, desejo, violência, fé, lealdade e destino.


Riobaldo conta a própria história
Riobaldo é protagonista e narrador de “Grande Sertão: Veredas”. Quando começa a contar sua história, já é um ex-jagunço e fazendeiro. O que o leitor acompanha, portanto, não acontece no presente da narrativa, mas retorna à memória de um homem que tenta compreender acontecimentos da juventude. Antes de entrar definitivamente para a jagunçagem, Riobaldo foi professor de Zé Bebelo. Depois, aproximou-se do grupo de Joca Ramiro e passou a viver a rotina de combates e deslocamentos pelo sertão.

Entre os jagunços, recebeu o apelido de Tatarana, associado à habilidade dele com armas. Mais tarde, depois do episódio das Veredas-Mortas e do suposto pacto com o Diabo, assume a liderança do grupo e passa a ser chamado de Urutu-Branco. Essa transformação ajuda a entender uma das características mais interessantes do personagem: Riobaldo está sempre tentando descobrir quem é. Ele narra os acontecimentos, mas também questiona as próprias decisões, as crenças e aquilo que acredita ter vivido. É um personagem que age e, ao mesmo tempo, pensa sobre a própria ação. A aventura, na voz dele, nunca aparece separada da dúvida.


Diadorim guarda o segredo do romance
Diadorim chega à narrativa primeiro como Reinaldo. Para Riobaldo, é o companheiro de jagunçagem por quem desenvolve uma ligação que se torna cada vez mais intensa. A personagem é filha de Joca Ramiro e integra o bando do pai. É também quem aproxima Riobaldo daquele universo. O vínculo entre os dois é uma das grandes forças do romance. Riobaldo sente amizade, admiração, desejo, ciúme e inquietação diante de Diadorim, enquanto a personagem mantém uma postura determinada diante da guerra e da vingança pela morte do pai.

A revelação sobre a identidade dela, depois da morte, reorganiza retrospectivamente muitos dos sentimentos e acontecimentos narrados por Riobaldo. A própria memória do protagonista passa a ser atravessada pela descoberta. A personagem continua provocando interpretações diferentes sete décadas depois da publicação. Um estudo publicado pela PUC Minas em 2025, por exemplo, analisa Diadorim a partir de questões relacionadas à imagem, ao luto, à melancolia e aos estudos de gênero, destacando a força da indeterminação da personagem. É essa abertura que impede Diadorim de ser reduzida a uma única definição. Ela participa da guerra, da amizade e da busca por vingança, mas também concentra as contradições mais profundas da experiência de Riobaldo.


Joca Ramiro representa a liderança
Joca Ramiro é o grande chefe do grupo de jagunços e pai de Diadorim. Na percepção de Riobaldo, aparece como uma figura admirada e respeitada, alguém capaz de exercer autoridade sobre homens acostumados à violência e à vida errante. A morte dele, provocada pela traição de Hermógenes e Ricardão, altera o curso da narrativa. O assassinato dá origem à busca por vingança e reorganiza as alianças entre os jagunços. A partir desse momento, a história ganha uma dimensão ainda mais marcada pela perseguição. A vingança deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a movimentar diferentes personagens e grupos.


Hermógenes encarna a ameaça
Se Joca Ramiro representa uma liderança admirada, Hermógenes ocupa o lado oposto dessa relação de confiança. Subchefe do grupo, ele participa da conspiração que resulta na morte de Joca Ramiro ao lado de Ricardão. A figura de Hermógenes está ligada, ao longo da narrativa, à violência e à suspeita de um pacto com o Diabo. Riobaldo vê nele uma presença especialmente perturbadora, o que contribui para a associação entre o personagem e a discussão central do romance sobre a existência ou não do demônio. Hermógenes não funciona apenas como adversário de Riobaldo. Ele é uma ameaça que permite ao narrador voltar constantemente à pergunta que atravessa o livro: onde termina a vontade humana e começa aquilo que não se consegue explicar?


Zé Bebelo coloca o sertão em disputa
Zé Bebelo apresenta outra espécie de liderança. Ele pretende combater a jagunçagem e pacificar o sertão, além de alimentar ambições políticas. A relação dele com Riobaldo começa antes da entrada definitiva do narrador na vida dos jagunços: Riobaldo chega a ser professor dele, ensinando-lhe “letras e números”. A relação entre os dois, porém, não permanece restrita à sala de aula. Zé Bebelo também se torna uma espécie de mestre de Riobaldo na experiência concreta do sertão.

Mais tarde, depois da morte de Joca Ramiro e da atuação de Medeiro Vaz na busca pelos responsáveis, Zé Bebelo volta a ocupar posição central na organização dos jagunços. O personagem amplia a discussão sobre poder no romance. Ele transita entre o discurso de combate à jagunçagem e a própria lógica dos grupos armados, aproximando mundos que, à primeira vista, poderiam parecer separados.


Medeiro Vaz, Otacília e Nhorinhá ampliam o caminho de Riobaldo
Medeiro Vaz assume a liderança dos jagunços depois da morte de Joca Ramiro e conduz a perseguição a Hermógenes e Ricardão. É lembrado pelo respeito que desperta entre os homens do bando. Depois da morte dele, Zé Bebelo assume a chefia. As mulheres também ocupam lugares diferentes na trajetória de Riobaldo. Otacília é uma das pessoas por quem ele se apaixona e, posteriormente, torna-se sua esposa. Nhorinhá aparece ligada ao desejo e a outra dimensão da experiência amorosa do protagonista.

Essa multiplicidade importa porque Diadorim não existe isoladamente na vida afetiva de Riobaldo. O narrador experimenta diferentes formas de relação e, ao compará-las, revela as próprias contradições. As mulheres, os amigos, os chefes e os inimigos ajudam a formar um retrato fragmentado de um homem que passa a vida tentando compreender as próprias escolhas.


Quelemém escuta o homem que ficou
Quando Riobaldo conta sua história, existe um interlocutor atento do outro lado. É o compadre Quelemém de Góis, amigo e confidente do narrador. A presença de Quelemém é fundamental porque “Grande Sertão: Veredas”  não apresenta simplesmente uma sequência de aventuras. Riobaldo está contando, refletindo, voltando atrás, levantando dúvidas e procurando algum sentido para aquilo que viveu.

A narrativa, assim, transforma os personagens do passado em parte de uma investigação feita muitos anos depois. Riobaldo fala de Diadorim, Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebelo e dos outros jagunços, mas está falando também de si mesmo. Pedro Süssekind, que colocou Guimarães Rosa em diálogo com Homero e Shakespeare no livro “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, chama atenção para essa dimensão filosófica de Riobaldo. Para o pesquisador, o personagem está “à altura de Hamlet” quando se considera a capacidade dele em pensar e questionar a própria experiência.

É uma das razões pelas quais os personagens de “Grande Sertão: Veredas” continuam provocando leitores. Eles participam de uma história de jagunços, mas as perguntas não ficaram presas ao sertão de 1956. Riobaldo continua tentando entender Diadorim. Diadorim continua desafiando as certezas de Riobaldo. Hermógenes continua associado à dúvida sobre o mal. Joca Ramiro permanece como referência de autoridade. Zé Bebelo mistura guerra, política e ambição. E, ao redor deles, uma multidão de personagens ajuda a fazer do romance de João Guimarães Rosa uma narrativa tão vasta quanto o território em que foi ambientada.


Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos

terça-feira, 29 de setembro de 2026

.: João Guimarães Rosa, o escritor que inventou um sertão universal


Da infância em Cordisburgo à medicina, da diplomacia na Europa às viagens pelo interior de Minas, a trajetória de Guimarães Rosa reúne experiências que alimentaram uma das obras mais singulares da literatura brasileira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser o autor de “Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa foi muitas coisas. Nasceu em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, estudou medicina, trabalhou como médico em cidades pequenas, tornou-se diplomata, aprendeu diferentes idiomas, viveu na Europa e acompanhou de perto acontecimentos políticos que atravessaram o século XX. No meio desse percurso, continuou recolhendo histórias, palavras, costumes e modos de falar.

Setenta anos depois da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, romance mais conhecido dele que volta em edição especial pela Companhia das Letras, olhar para essa trajetória ajuda a compreender por que o sertão de Guimarães Rosa não cabe somente em um mapa de Minas Gerais. A paisagem concreta está lá, com rios, veredas, animais, vaqueiros, jagunços e pequenas comunidades. Ao mesmo tempo, o escritor encontrou naquele universo matéria para falar sobre escolhas, medo, desejo, amizade, violência, fé, coragem e dúvidas que acompanham Riobaldo durante toda a narrativa.


Um menino entre histórias e palavras
Nascido em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, João Guimarães Rosa era o primeiro dos sete filhos de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. O pai mantinha uma venda próxima à estação ferroviária, ponto de passagem de tropeiros, viajantes, comerciantes e moradores da região. O menino cresceu cercado por histórias que chegavam com essas pessoas. O contato com vaqueiros, tropeiros, caçadores e viajantes alimentou uma atenção especial para a fala e para as narrativas populares, algo que décadas depois apareceria de maneira radicalmente elaborada na literatura dele.

A relação com os idiomas também começou cedo. Guimarães Rosa aprendeu francês de forma autodidata antes dos sete anos e posteriormente estudou holandês e alemão. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para morar com o avô materno. A facilidade com línguas se tornaria uma das marcas da trajetória dele, que não tratava o idioma apenas como instrumento de comunicação. Na literatura escrita por ele, palavras regionais, arcaísmos, neologismos e diferentes registros da fala convivem em uma escrita que exige do leitor atenção para o som, o ritmo e o significado.


O médico que conheceu o interior
Entre 1925 e 1930, João Guimarães Rosa estudou medicina na Universidade de Minas Gerais. Entre seus contemporâneos estavam Pedro Nava e Juscelino Kubitschek. Formado, começou a trabalhar como médico em Itaguara, onde atendia moradores da região e fazia visitas pelo interior a cavalo. A experiência foi decisiva para o contato direto com um universo rural que mais tarde seria reelaborado em sua ficção. O médico precisava conhecer pessoas, ouvir relatos, observar doenças, costumes, crenças e maneiras de viver. O escritor, anos depois, faria algo parecido com a linguagem.

Em 1930, Rosa casou-se com Lygia Cabral Penna, com quem teve duas filhas, Vilma e Agnes. A medicina, porém, não permaneceu como profissão principal. Depois de experiências durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e de um período como médico da Força Pública, Rosa decidiu prestar o concurso para a carreira diplomática. A mudança de rumo levaria o futuro autor de “Grande Sertão: Veredas” para longe de Minas Gerais.


Entre o sertão e o mundo
A diplomacia ampliou o território de João Guimarães Rosa. Em 1938, já separado de Lygia, Rosa seguiu para Hamburgo como cônsul-adjunto do Brasil. Foi na Alemanha que conheceu Aracy Moebius de Carvalho, conhecida como o Anjo de Hamburgo, funcionária do consulado que se tornaria sua segunda esposa. A relação dos dois atravessaria as décadas seguintes e acompanharia uma das fases mais importantes da trajetória literária do escritor.

Durante a permanência na Alemanha, os dois participaram da emissão de vistos para pessoas perseguidas pelo regime nazista, contrariando restrições impostas pelo governo brasileiro da época. A experiência europeia colocou o escritor em contato com outra realidade histórica, distante geograficamente do sertão mineiro, mas igualmente marcada por conflitos humanos e políticos.

A carreira diplomática ainda o levaria a outros países e ampliaria o contato dele com culturas, línguas e tradições literárias. Essa circulação ajuda a entender uma característica importante da obra roseana: embora profundamente ligada ao interior brasileiro, a literatura de Rosa nunca se limita a uma representação regional. Em entrevista ao portal Resenhando.com, o professor e pesquisador Pedro Süssekind chamou atenção para essa dimensão. Ao comentar “Grande Sertão: Veredas”, afirmou que considerar Rosa simplesmente um “homem do sertão” poderia reduzir a obra dele. Para ele, o próprio escritor reconhecia essa ligação, mas acrescentava que ela era essencial, e não apenas biográfica.


“O sertão é do tamanho do mundo”
A frase, dita por Riobaldo no romance “Grande Sertão: Veredas”, acabou se tornando uma das chaves possíveis para compreender a dimensão da obra. Em 1952, Rosa fez uma das viagens mais importantes para a construção do livro. Durante dez dias, acompanhou oito vaqueiros em uma travessia pelo sertão de Minas Gerais, conduzindo cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. A viagem foi registrada em cadernos que posteriormente serviriam de material para “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”. O escritor anotava palavras, expressões, nomes de lugares, comportamentos, histórias e detalhes do cotidiano. 

A experiência reforçou uma relação que já vinha desde a infância: observar o sertão diretamente para depois reinventá-lo pela literatura não era um simples registro documental. Guimarães Rosa recolhia elementos concretos e os transformava por meio da linguagem, misturando experiência, memória, invenção e reflexão. O sertão reconhecível permanece no texto, mas passa a carregar outras dimensões. É por isso que Riobaldo pode falar de jagunçagem, batalhas, rios, fazendas e veredas enquanto pensa sobre Deus, o amor, a morte, o destino e a possibilidade de fazer escolhas.


1956: o ano de “Grande Sertão: Veredas”
O ano de 1956 foi particularmente movimentado para Rosa. “Corpo de Baile” começou a ser vendido em fevereiro. Meses depois, o escritor entregou à Editora José Olympio os manuscritos de “Grande Sertão: Veredas”. O romance chegou às livrarias em julho e rapidamente provocou forte repercussão crítica. A obra permaneceu durante meses entre os livros mais vendidos, ao mesmo tempo em que despertava debates sobre a estrutura, a linguagem e a maneira como o livro reinventava a tradição do romance brasileiro.

Guimarães Rosa já havia publicado “Sagarana”, em 1946, livro que recebera elogios de nomes como Paulo Rónai, Sérgio Milliet, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Antonio Candido. Com “Grande Sertão: Veredas”, porém, alcançaria uma dimensão ainda maior. A trajetória posterior também ganhou um capítulo importante quando foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira de Letras em 1963. Ele adiou a posse durante anos e só assumiu a cadeira em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, morreu, aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco.


Um escritor que deixou o livro aberto
A morte de João Guimarães Rosa ocorreu pouco depois da entrada dele na Academia, mas “Grande Sertão: Veredas” continuou a produzir novas leituras, adaptações e interpretações. Setenta anos depois da publicação, a obra permanece cercada por pesquisadores, escritores, artistas e leitores que encontram nela questões diferentes.

Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende que um clássico precisa continuar sendo lido como literatura viva, e não tratado como peça de museu. Para ele, cada nova leitura pode recolocar o romance em circulação e permitir que leitores de diferentes épocas encontrem outras possibilidades na narrativa.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a biografia de Guimarães Rosa interessa tanto quando se fala de “Grande Sertão: Veredas”. O livro reúne o menino que escutava histórias em Cordisburgo, o médico que percorreu o interior, o diplomata que viveu na Europa, o estudioso de idiomas e o escritor que voltou ao sertão para registrar em cadernos aquilo que depois seria transformado pela ficção.

Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: Crítica: "Coração Selvagem" é um "Sempre Ao Seu Lado" de aventuras

Imagem de "Coração Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


O longa de aventura "Coração Selvagem" (Heart of the Beast), estrelado por Brad Pitt ("Trem-Bala", "F1 - O Filme") com participação de J.K. Simmons ("Homem-Aranha", 2002) e de Anna Lambe (The Grizzlies) entrega a potência que um cachorro pastor-alemão Odin (Uber) é capaz de imprimir numa história de amor e parceria. A produção dirigida por David Ayer de fotografia impecável trabalha o desenvolvimento da sensibilidade e sintonia entre um homem e um animal. 

O intenso drama de sobrevivência começa quando uma moça na estrada tem seu caminho "pausado" por um cachorro. Dali, em diante o público vivencia a aventura de sobrevivência do ex-agente das forças especiais James Belmont (Brad Pitt) ao lado de seu cão de combate aposentado, o pastor-alemão Odin (interpretado pelo cão Uber). Após esbarrar no andarilho Witkins (J. K. Simmons) e ser avisado sobre a tempestade que estava vindo, James e Odin acabam perdidos no Alasca após um acidente aéreo.

No entanto, Odin sofre de estresse pós-traumático tendo pesadelos de guerra, assim como seu parceiro James. Logo, o sofrimento dos dois vira um. Humanizando o cachorro e colocando-o no posto de um autêntico veterano de combate. Em enquadramentos amplos de uma natureza digna de ser apreciada com alegria, a telona do cinema enche os olhos do público com encontros animais. Seja a tensão pura diante de um urso ou quando lobos atacam de modo coordenado a dupla.

"Coração Selvagem" consegue ser uma nova leitura do clássico "Sempre Ao Seu Lado" (2009), com adrenalina, mas passa longe da cidade e seus deveres agitados, pois é repleto de pesadelos do passado e aventuras em busca de sobrevivência na natureza indomada. É notório que Brad Pitt entrega interpretação intensa e teatral, ainda que por vezes tenha seu brilho roubado pelo carisma e olhar expressivo do cachorro. Vale a pena conferir!


Trailer de "Coração Selvagem"


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Edição especial da Companhia das Letras revisita o romance de João Guimarães Rosa com material inédito e reafirma a vitalidade de um livro que atravessou gerações, leitores, linguagens e diferentes formas de interpretação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Setenta anos depois de chegar às livrarias, “Grande Sertão: Veredas” continua encontrando novos caminhos para chegar aos leitores. O romance de João Guimarães Rosa, publicado originalmente em 1956, ganhou em 2026 uma edição especial pela Companhia das Letras, que recupera parte da história editorial do livro e acrescenta novos olhares a uma obra que permanece aberta a interpretações, releituras e descobertas. A comemoração vem acompanhada de um novo projeto gráfico, capa criada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes e um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre o percurso dos rascunhos até a forma final do romance. 

O volume também reúne depoimentos de escritores, artistas, críticos e leitores contemporâneos influenciados pela literatura de Rosa, entre eles Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. A escolha dos nomes já indica uma das características mais interessantes da permanência de “Grande Sertão: Veredas”: o livro não pertence a uma única geração, escola literária ou maneira de ler, já que continua provocando escritores com experiências muito diferentes, pesquisadores, artistas e leitores que chegam ao romance décadas depois da primeira edição.

Pedro Süssekind, professor titular da Universidade Federal Fluminense e autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, resume uma das razões dessa permanência ao lembrar uma formulação de Italo Calvino: um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Süssekind também rejeitou a ideia de que “Grande Sertão: Veredas” deva ser tratado como peça de museu ou como um livro reservado aos especialistas. Para ele, cada nova leitura tira o romance do pedestal e o coloca novamente em movimento. “Um livro fechado não tem vida, um livro já entendido não precisa ser relido”, afirmou. É uma chave interessante para entrar nos 70 anos do romance. Afinal, “Grande Sertão: Veredas” atravessou sete décadas porque nunca se deixou encerrar por uma única explicação.


Um mundo que cabe no sertão
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Médico, diplomata e escritor, teve uma trajetória que passou por diferentes territórios antes de desembocar na literatura que o consagraria. Publicou “Sagarana” em 1946, depois de uma primeira experiência literária com “Magma”, e nos anos seguintes construiu uma obra marcada pela invenção linguística, pela oralidade, pela observação do sertão e por uma relação muito particular entre realidade e imaginação.

Em 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, Rosa percorreu durante dez dias o sertão mineiro acompanhando uma comitiva de vaqueiros. A viagem começou em Cordisburgo e atravessou parte da região do rio São Francisco. Ele registrou a experiência em cadernetas, anotando palavras, paisagens, histórias, nomes, costumes e situações que mais tarde alimentariam a produção literária dele.

O sertão que aparece no romance, portanto, não é apenas uma imaginação distante diante de um mapa. Há nesse lugar uma atmostera que carrega uma experiência concreta de deslocamento, escuta e observação. Ao mesmo tempo, a literatura de Guimarães faz esse território ultrapassar os próprios limites geográficos, o sertão dele é o mundo inteiro. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Pedro Süssekind lembra uma das frases mais conhecidas de Riobaldo: “o sertão é do tamanho do mundo”. Para o pesquisador, o sertão roseano não deve ser compreendido apenas como uma região determinada, mas como uma dimensão existencial.

Essa perspectiva ajuda a explicar porque o romance continua encontrando leitores muito além de Minas Gerais. O sertão do autor tem jagunços, rios, veredas, fazendas, guerras e travessias, mas também carrega questões que não ficam presas à geografia: amor, amizade, violência, medo, desejo, morte, fé, culpa, escolhas e a tentativa de compreender o próprio lugar no mundo. Riobaldo narra a trajetória dele como quem tenta reorganizar a própria memória enquanto conta. Diadorim ocupa o centro de uma relação que desafia as certezas do narrador. Os jagunços formam uma espécie de sociedade em movimento, marcada por alianças, conflitos, códigos de honra e disputas. E o sertão, longe de funcionar apenas como cenário, participa da construção dessa experiência.


Uma língua que inventa caminhos
Parte da força de “Grande Sertão: Veredas” está na linguagem. Rosa recolhe expressões populares, regionalismos, palavras arcaicas, construções inesperadas e invenções próprias para produzir uma narrativa que parece nascer da fala de Riobaldo e, ao mesmo tempo, ultrapassá-la. É nesse ponto que o romance pode intimidar quem ainda não o leu. O livro ganhou uma reputação de obra difícil, erudita e até mesmo inacessível. Pedro Süssekind contesta essa distância entre o clássico e o leitor comum. Para ele, a crítica e a pesquisa podem oferecer caminhos de aproximação, desde que não substituam a experiência da leitura.

A questão também aparece no projeto comemorativo de 70 anos. Ao lado da nova edição da Companhia das Letras, a celebração inclui o audiolivro narrado por Caio Blat, com trilha sonora e participações de viola de Ivan Vilela. Em agosto, a editora programou um ciclo de debates em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, além de outras ações relacionadas ao aniversário da publicação. A literatura, nesse caso, ganha novas vozes e formatos sem deixar de ser o que é.


O livro que virou muitas obras
Ao longo das décadas, “Grande Sertão: Veredas” saiu das páginas do romance e encontrou outras linguagens. Teatro, televisão, cinema, ensaios, estudos acadêmicos, livros de memória e releituras literárias ajudaram a construir uma espécie de cartografia paralela da obra. Antes mesmo da atual comemoração dos 70 anos, o romance já havia voltado diversas vezes ao centro da programação cultural brasileira.

Em 1985, a TV Globo exibiu a minissérie “Grande Sertão: Veredas”, com Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi como Diadorim. Décadas depois, Bruna Lombardi recuperaria a experiência em “Diário do Grande Sertão”, livro originalmente publicado a partir dos registros feitos durante as gravações e relançado em 2026 pela Autêntica como parte das comemorações dos 70 anos.

A relação entre literatura e audiovisual ganhou outra versão com “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e roteirizado por Arraes e Jorge Furtado. A adaptação deslocou a narrativa para uma periferia urbana dominada por organizações criminosas, mantendo no centro personagens, conflitos e relações inspirados no romance de Rosa. Também houve o teatro de Bia Lessa, estudos críticos, oficinas, programas especiais de televisão e expedições pelo sertão mineiro. Em 2023, o “Globo Repórter” refez parte dos caminhos percorridos por Rosa e visitou lugares relacionados ao universo que alimentou a criação do livro. Cada uma dessas experiências acrescenta uma camada à história de “Grande Sertão: Veredas”.


Setenta anos de um livro ainda em movimento
A nova edição da Companhia das Letras chega em um momento em que o romance continua sendo lido, estudado, adaptado e discutido. O aniversário redondo oferece a oportunidade de voltar ao livro, mas também de observar tudo aquilo que se construiu ao redor dele. Há uma cronologia de vida e obra, há os cadernos da viagem pelo sertão, há os manuscritos, as diferentes edições, os estudos críticos, as adaptações, os leitores que se tornaram escritores e os escritores que continuam encontrando Rosa pelo caminho.

Em “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo passa boa parte da narrativa tentando compreender aquilo que viveu. Setenta anos depois, o próprio romance continua produzindo esse efeito em quem se aproxima dele: cada leitura reorganiza o que parecia conhecido e abre uma nova passagem. Talvez seja essa uma das melhores maneiras de celebrar o aniversário de uma obra como essa. Não transformá-la em monumento, mas voltar a atravessá-la nos 70 anos de um livro que continua encontrando leitores, personagens, paisagens, intérpretes e novas formas de existir.


Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos

.: Johnny Massaro leva “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” ao palco


Espetáculo inspirado no best-seller de Ana Suy conduz o público por uma visita bem-humorada ao coração humano, entre desejos amorosos, términos e a solidão que acompanha a vida. 
Foto: Hudson Rennan

Com mais de 500 mil exemplares vendidos, o livro “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, da psicanalista e escritora Ana Suy, chega ao teatro pelas mãos de Johnny Massaro, que idealiza e protagoniza a montagem. O espetáculo estreia no Auditório do Sesc Pinheiros, onde permanece em cartaz até dia 31 de outubro, com produção artística de Pablo Sanábio, dramaturgia de Júlia Portes e direção de Helena Varvaki.

A adaptação parte de uma obra psicanalítica que não nasceu com personagens ou uma narrativa dramática convencional. No palco, esse material ganha corpo por meio de um guia turístico que conduz o público por uma espécie de passeio pelo coração humano. Entre a expectativa pelo encontro com a pessoa amada e os sentimentos que aparecem quando uma relação chega ao fim, o personagem transforma a visita em uma experiência existencial, afetiva e bem-humorada.

A ideia surgiu para Johnny Massaro há cerca de três anos, quando ele encontrou o livro em meio a um período complicado de um relacionamento. “Exigem de nós, e a gente exige de nós mesmos, que saibamos agir no exercício do amor, quando, na verdade, não é algo para o qual fomos educados. É como Ana diz: ‘É porque alguém, em algum momento, nos amou, mesmo que tenha nos amado mal, que a gente aprende a amar’. Eu me via falhando e repetindo os mesmos erros de relação em relação, geralmente culpando o outro pela falta de consciência dos meus próprios padrões e desejos. Estava cansado e curioso. A consciência de que eu precisava aprender de alguma forma aquelas informações do livro foi muito intensa e pareceu inevitável levá-lo ao palco”, revela.

A própria autora acompanhou o processo com entusiasmo. Para Ana Suy, a adaptação provocou uma sensação curiosa de reconhecimento diante de algo que, ao mesmo tempo, se apresentava de maneira nova. “Foi um susto delicioso ver a interpretação do Johnny na adaptação do meu livro! Senti um misto de estranheza e de reconhecimento, se aproximando muito do que Freud chamou de ‘infamiliar'. Para ele, o infamiliar contempla o familiar e foi isso que vivi. Trata-se de um texto emocionante, bastante original... ao mesmo tempo em que reconheço minhas ideias, palavras e a centralidade da minha tese em "a gente mira no amor e acerta na solidão". Só uma equipe muito talentosa e com muito cuidado (que talvez seja um bom nome para o que surge quando somamos amor e solidão) poderia construir uma peça tão bonita!”

Para Pablo Sanábio, o projeto também nasceu de uma coincidência feliz. Quando recebeu a mensagem de Johnny propondo a montagem, estava justamente lendo o livro de Ana Suy. “Acho muito bonita essa coisa da sincronicidade da vida. Quando o Johnny me escreveu falando da ideia de montar a peça, eu estava justamente lendo o livro. Esse projeto tem ainda um significado especial para mim, porque ele nasce também da nossa amizade. Eu e Johnny temos uma relação de muito afeto, troca e admiração. E falar de amor, para mim, é falar também sobre o amor entre amigos. Sobre essas pessoas que a vida coloca no nosso caminho e que acabam se tornando parte da nossa história”.


Da psicanálise ao teatro
Adaptar um livro de psicanálise para o palco exigiu encontrar uma estrutura dramática capaz de transformar ideias e reflexões em ação teatral. Johnny conta que chegou a apresentar o projeto a diversos dramaturgos e dramaturgas, recebendo respostas semelhantes sobre a dificuldade da empreitada. A solução apareceu durante um trabalho para uma série da Netflix, quando o ator conheceu Júlia Portes, que interpretaria sua esposa em “Emergência Radioativa”. A relação profissional acabou levando a outro encontro: o livro “O céu no meio da cara”, escrito por Júlia e finalista do Prêmio Jabuti.

“O desafio de transpor qualquer livro para o teatro já é imenso. Tratando-se de um livro de psicanálise, a coisa se intensifica. Levamos essa ideia a muitos dramaturgos e dramaturgas, que foram unânimes em dizer que seria impossível. Quando parecia que havíamos esgotado todas as nossas possibilidades, fui fazer uma série na Netflix, ‘Emergência Radioativa’, e fui apresentado à Júlia Portes, que faria minha esposa. Nos demos superbem e, em dado momento, ela me presenteou com seu livro, ‘O Céu no Meio da Cara’, que havia sido finalista no Prêmio Jabuti. Li, amei e, meses depois, fui ver a adaptação do livro para o teatro. Foi quando pensei em convidá-la. É um felicíssimo encontro da Julia com a Ana, da Julia comigo, da gente com a Helena, nossa diretora, e de todas as pessoas que, organicamente, foram se juntando ao processo”, conta Massaro.

Na dramaturgia, Júlia encontrou no ofício do personagem a chave para organizar a adaptação. O guia turístico conhece bem a função que desempenha, mas não necessariamente domina o território que apresenta aos visitantes. A contradição serve como ponto de partida para falar sobre as relações amorosas. “Gosto de pensar a partir de uma personagem e acredito que os hábitos dos personagens guardam segredos sobre eles. Por isso, a profissão exercida pode ser uma boa pista para esse enigma que é escrever uma dramaturgia. Foi assim que surgiu o Guia Turístico. Um guia que não conhece muito bem o lugar que está apresentando, no entanto quer que as pessoas acreditem que ele domina o que está falando. No amor, também é assim: a gente se apaixona e tenta parecer no controle, mas, na verdade, não estamos”.

A personagem também permite ampliar o alcance das ideias presentes no livro. “Faço essa analogia e muitas outras se abrem através da figura do Guia Turístico. O livro, para falar das parcerias amorosas, do amor e da nossa solidão, indissociáveis, fala de várias outras parcerias, também amorosas, mas não necessariamente românticas. A dramaturgia está na intersecção entre o percurso íntimo do Guia Turístico e a descoberta do recorte do livro que nos interessava”, acrescenta.


Um coração no palco
Na encenação de Helena Varvaki, a relação entre experiência pessoal e construção teatral ocupa um lugar central. O personagem conta histórias enquanto também se modifica pela própria experiência de contá-las. A diretora explica que a montagem “investe no processo de escuta de nós mesmos, que fazemos ao narrar algo pessoal. É no processo de contar o vivido que repensamos o viver. Ao escorregar no que se propôs, fazer uma visita guiada ao coração, nosso guia reinventa a si mesmo. Fazemos a passagem entre teoria e criação ficcional”.

Essa visita terá um elemento bastante concreto em cena: o coração. O órgão aparece como instrumento para compreender a anatomia, com suas câmaras e passagens, e também como objeto plástico nas mãos do ator, aproximando a dimensão biológica de uma leitura poética. A direção aposta ainda na proximidade entre ator e plateia. “A atuação parte de um lugar de vulnerabilidade - aquele que todos reconhecemos quando imersos em nosso desejo de amor. Um personagem que guia e é, ao mesmo tempo, guiado pelos espectadores numa troca sensível e atenta, usufruindo e manejando a química particular que, na arte teatral, se estabelece e se renova a cada novo encontro com o público”, adiciona Helena.

Para Johnny Massaro, a montagem marca ainda sua estreia em um monólogo depois de 22 anos de carreira. Ao falar sobre a experiência, ele recupera outra passagem do livro de Ana Suy: "É fato que nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra a nossa vida se dá em relação, com várias pessoas. Nada nos livra da solidão, mas certas coisas, como os amigos e o teatro, nos lembram que não estamos, sempre, tão sozinhos”, conclui.


Ficha técnica
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Baseado no best-seller de Ana Suy
Idealização e Atuação: Johnny Massaro
Produtor Artístico: Pablo Sanábio
Dramaturgia: Júlia Portes
Direção: Helena Varvaki
Figurino: Sasha Meneghel
Direção de Produção: Roberta Dias
Uma produção: Johnny Massaro e Pablo Sanábio
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Nina Balbi
Trilha Sonora: Pedro Sodré e Frederico Santiago
Programação visual: Ton Zaransa
Preparação Corporal: Esther Weitsman
Produção Executiva: Camila Sequeira
Fotos: Hudson Rennan
Assistente de direção: Lucas Garbois
Assistente de Cenografia: Rachel Merlino
Controller Financeira: Natália Simonete - Estufa de Ideias


Serviço
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Temporada: 24 de setembro a 31 de outubro de 2026
Sesc Pinheiros - Rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena)
Vendas on-line pelo Sesc São Paulo ou presencialmente na bilheteria de qualquer unidade do Sesc São Paulo
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos
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