domingo, 13 de setembro de 2026

.: “Ópera! - Canção para Um Eclipse” leva Orfeu em delírio de música e fantasia


Produção dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore reinventa o mito de Orfeu e Eurídice com Vincent Cassel, Fanny Ardant e Rossy de Palma, misturando grandes árias, música pop, moda e efeitos digitais. Fotos: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um casamento termina em tragédia quando Eurídice é atingida por um tiro e sua alma é levada para o reino dos mortos. Orfeu, devastado pela perda, parte em busca da mulher que ama e encontra no caminho uma versão bastante particular do inferno: o Grand Hades Hotel, conduzido por um Caronte que, em vez de barqueiro, aparece como um taxista interpretado por Vincent Cassel. Essa é a premissa de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”, produção de 2024 dirigida por Paolo Gep Cucco e Davide Livermore, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision.

A dupla parte de uma das histórias de amor mais conhecidas da mitologia grega para criar um musical cinematográfico de vocação grandiosa, recheado de fantasia, referências artísticas e uma coleção de canções que passeia pela tradição da ópera e pela música popular. O resultado reúne no mesmo universo Puccini, Händel, Verdi, Gluck e Vivaldi ao lado de “The Power of Love”, do Frankie Goes to Hollywood.

A proposta chamou atenção desde a passagem pelo Festival de Cinema de Roma, onde “The Opera! - Arie per un’eclissi” foi exibido em sessão especial em 2024. A organização do festival descreveu o filme como uma ópera-musical de linguagem imersiva e transmídia, ambientada entre uma Paris parcialmente submersa e o palco do Teatro Regio de Turim. No filme, Valentino Buzza interpreta Orfeu e Mariam Battistelli vive Eurídice. Vincent Cassel assume Caronte, enquanto Fanny Ardant aparece como Proserpina, Rossy de Palma interpreta Atropos, Caterina Murino vive a concierge do hotel e Erwin Schrott encarna Plutão. Angela Finocchiaro completa o elenco como Calíope, mãe de Orfeu.

Davide Livermore traz para o cinema uma experiência acumulada em mais de duas décadas de trabalho com grandes casas de ópera. Paolo Gep Cucco, por sua vez, tem trajetória ligada ao video design para espetáculos líricos. A parceria, construída nos palcos, migra para o cinema com uma proposta que trata cada ambiente como uma espécie de palco gigantesco.

A fotografia de Gareth Munden e a direção de arte apostam em cenários digitais para construir o universo de Hades. Boa parte da produção foi realizada em ambientes virtuais, recurso que permite colocar os personagens em espaços impossíveis, com água, arquitetura monumental e paisagens que parecem saídas de um sonho febril. A estética ainda dialoga com referências do cinema, da pintura e das artes visuais. Uma das mais evidentes aparece na partida de xadrez entre Orfeu e Mephistopheles, evocando “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman.

A moda também entra em cena. A Dolce & Gabbana participou da produção e assinou os figurinos, ajudando a estabelecer uma identidade visual luxuosa, teatral e deliberadamente extravagante. O filme cruza ópera, cinema, moda e artes visuais com a intenção de atualizar uma história conhecida há séculos. A música ocupa um espaço central nessa aventura. As árias clássicas ganham arranjos contemporâneos e convivem com referências da música pop, criando uma trilha que pode surpreender tanto quem chega ao filme pela ópera quanto quem não costuma frequentar esse universo. “Nessun Dorma”, uma das peças mais reconhecíveis do repertório lírico, tem papel decisivo na narrativa: na versão dos diretores, Orfeu precisa cantá-la sem perder de vista a razão de estar cantando para conseguir salvar Eurídice.

A escolha estética explica boa parte da personalidade de “Ópera! - Canção para Um Eclipse”. O filme não economiza em cenários, figurinos, efeitos visuais e referências. O Grand Hades Hotel parece saído de uma fantasia de luxo decadente, enquanto a presença constante da água cria imagens de beleza e estranhamento. Em vez de esconder sua teatralidade, a produção a coloca no centro da experiência.

O mito de Orfeu e Eurídice ganha, assim, uma roupagem contemporânea sem abandonar sua estrutura essencial: um homem disposto a desafiar o reino dos mortos para recuperar a mulher amada. A diferença está no caminho. Em vez de uma descida convencional ao submundo, Orfeu atravessa um universo pop-operístico em que taxistas são guias do além, hotéis funcionam como passagem para os mortos e grandes clássicos da música lírica dividem espaço com canções populares. 

A produção também pode funcionar como uma porta de entrada para a ópera, já que transforma algumas de suas composições mais conhecidas em parte da aventura de Orfeu. No fundo dessa extravagância toda permanece uma história bastante antiga: um homem perde a pessoa que ama e decide enfrentar o impossível para trazê-la de volta. O resto fica por conta de Livermore, Cucco, Cassel, Buzza, Battistelli e companhia — e de uma quantidade generosa de ópera, fantasia, água, luxo, xadrez e delírio visual.

Ficha técnica
“Ópera! - Canção Para Um Eclipse” | “The Opera!” (título original)
Gênero: musical, drama, fantasia e romance. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 20 de janeiro de 2025 na Itália; estreia na Reserva Imovision em setembro de 2026. Idiomas: inglês, italiano e francês. Direção: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Roteiro: Paolo Gep Cucco e Davide Livermore. Elenco: Valentino Buzza, Mariam Battistelli, Vincent Cassel, Fanny Ardant, Caterina Murino, Erwin Schrott, Rossy de Palma, Angela Finocchiaro, Charlotte Gentile, Linda Gennari, Sergio Bernal e outros. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: "O Declínio do Império Americano" expõe desejos e a crise de uma geração


Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.

O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.

Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.

O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.

A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.

Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.

O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.

Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.

A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.

O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.

Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.


Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: “Scooby-Doo: A Origem” encerra gravações e prepara mistério sobrenatural para 2027


Série live-action resgata o primeiro mistério de Daphne, Salsicha, Velma, Fred e Scooby e coloca um cachorro de verdade no papel do famoso detetive de quatro patas. Foto: divulgação

Cadê você, meu filho? A Netflix anunciou neste domingo, dia 13 de setembro, o fim das gravações de “Scooby-Doo: A Origem”, série live-action que volta ao começo da história da turma de investigadores formada por Daphne, Salsicha, Velma, Fred e Scooby-Doo. A produção tem estreia prevista para 2027 e vai mostrar o primeiro mistério resolvido pelo grupo antes de os personagens se tornarem a equipe de detetives mais conhecida e provavelmente mais enrolada do mundo.

Na história, Daphne e Salsicha passam as últimas férias em um acampamento de verão quando encontram um filhote perdido de dogue alemão. O problema é que o cachorro pode ter testemunhado um assassinato sobrenatural. A descoberta coloca os dois no centro de uma investigação que rapidamente ganha proporções bem maiores do que qualquer aventura de férias deveria ter.

Velma, uma jovem cientista, e Fred, o novo garoto descrito como estranho e extremamente charmoso, entram na investigação. A partir daí, o quarteto se une para descobrir o que aconteceu e acaba mergulhando em um caso capaz de colocar seus próprios segredos em risco. Afinal, quando adolescentes começam a investigar um possível assassinato sobrenatural, a chance de o passeio terminar com uma simples fogueira e marshmallows parece bastante reduzida.

A produção também traz uma novidade histórica para a franquia: pela primeira vez, Scooby-Doo será retratado como um cachorro de verdade. O personagem continuará sendo um dogue alemão, mas agora terá uma presença canina real ao lado dos colegas humanos. Mckenna Grace interpreta Daphne Blake, Tanner Hagen vive Salsicha Rogers, Abby Ryder Fortson assume o papel de Velma Dinkley e Maxwell Jenkins interpreta Fred Jones. O elenco ainda reúne Paul Walter Hauser, Rusty Schwimmer, Peter Macon, Jona Xiao, Dani Deetté, Elysée Sanvillé, Alex Isles, Avery Kristen Pohl, Pamela Mitchell, Ross Kimball, Sara Gilbert, Wynn Everett, Sauriyan Sapkota, Bruce McGill, André Benjamin e Cathy Moriarty.

Com mais de 50 anos de história, “Scooby-Doo” segue como um dos nomes mais conhecidos da cultura pop. A franquia já ganhou três filmes para o cinema, mais de uma dúzia de séries animadas e quase 40 filmes de animação. Agora, a Mistério S/A ganha uma nova versão em live-action para contar como tudo começou.

Josh Appelbaum e Scott Rosenberg, da Midnight Radio, são showrunners, roteiristas e produtores executivos da série. A dupla é conhecida por trabalhos como “Alta Fidelidade” e “Everything Sucks!”. Greg Berlanti, Sarah Schechter e Leigh London Redman são produtores executivos pela Berlanti Productions, em parceria com a Warner Bros. Television. André Nemec, Jeff Pinkner e Adrienne Erickson também atuam como produtores executivos pela Midnight Radio, enquanto Toby Haynes dirige o primeiro episódio.

Filmada em Atlanta, na Geórgia, “Scooby-Doo: A Origem” integra o grupo de produções da Netflix realizadas na região, ao lado de títulos como “Stranger Things”, “Dele & Dela”, “’Tis So Sweet”, “All the Sinners Bleed”, “A Different World”, “Where There’s Smoke” e a quinta temporada de “Doces Magnólias”.

A sinopse oficial apresenta a série como uma reimaginação moderna do grupo de jovens detetives e de seu cachorro. Durante o último verão de acampamento, Salsicha e Daphne se envolvem em um mistério relacionado a um filhote solitário de dogue alemão que pode ter testemunhado um assassinato sobrenatural. Ao lado da pragmática e científica Velma e do estranho, porém charmoso, Fred, eles tentam solucionar o caso enquanto são levados a um pesadelo capaz de revelar segredos de todos. “Scooby-Doo: A Origem” estreia em 2027 na Netflix. A série é produzida pela Warner Bros. Television.

.: Crítica: livro “Eu Disse Não!” coloca a democracia no cockpit e revisita a crise


Em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, Carlos Baptista Junior abandona a distância confortável dos livros de história e conta, por dentro da Aeronáutica, como os meses entre 2021 e 2023 colocaram disciplina, hierarquia e democracia numa rota de colisão

Um país pode chegar muito perto de um golpe sem que um tanque precise atravessar a avenida. Às vezes, a crise acontece em salas fechadas, reuniões de comando, telefonemas, conversas reservadas e decisões tomadas por homens acostumados a obedecer até o momento em que obedecer pode significar colocar a própria Constituição em risco. É nesse terreno que Carlos Baptista Junior coloca o leitor em “Eu Disse Não! - Uma Trincheira Antigolpista”, publicado pela Editora Autêntica. O título já entrega a posição do autor, mas o livro é mais interessante quando deixa de ser uma declaração de princípios e passa a contar como esse “não” foi construído, sustentado e, sobretudo, quanto custou para mantê-lo.

Tenente-brigadeiro, piloto de caça, com mais de 4.500 horas de voo e quase cinco décadas de carreira na Força Aérea Brasileira, Baptista Junior comandou a Aeronáutica entre abril de 2021 e janeiro de 2023. Portanto, não escreve sobre os acontecimentos olhando para fotografias antigas. Ele estava dentro da foto. E, para alguém acostumado a voar, a expressão “cockpit”, termo em inglês usado para designar a cabine de comando de uma aeronave, ganha aqui uma dimensão curiosa: Baptista Junior estava no cockpit de uma das instituições colocadas sob pressão durante a crise.

O primeiro capítulo, “Doze Horas na Polícia Federal”, por exemplo, começa longe da solenidade dos grandes acontecimentos nacionais. O autor está com o neto, fala da rotina familiar, passa por situações corriqueiras e, de repente, a narrativa o leva para um episódio que ajuda a explicar como aquele homem chegou ao centro de uma das maiores crises institucionais da história recente do país. A estratégia aproxima o leitor do personagem antes de colocá-lo novamente diante do uniforme.

Baptista Junior escreve a partir de uma formação em que palavras como “disciplina” e “hierarquia” têm peso concreto. Só que existe uma terceira palavra que se torna decisiva: Constituição. O livro ganha densidade quando essas três ideias deixam de caber confortavelmente na mesma frase. A crise de 2021 aparece como um ponto de inflexão. A troca do ministro da Defesa, a substituição dos comandantes das Forças Armadas e a reorganização do alto comando militar revelam um ambiente em que a política já não podia ser tratada como assunto externo aos quartéis. 

Jair Messias Bolsonaro havia chegado ao poder com uma relação particular com os militares, e o livro acompanha a deterioração dessa convivência até o momento em que o papel institucional das Forças Armadas passa a ser testado de maneira brutal. O autor não precisa inventar um thriller, já que a realidade brasileira daquele período já havia feito esse trabalho com competência assustadora. A eleição de 2022 ocupa boa parte do relato e mostra uma engrenagem em movimento: questionamentos sobre as urnas, pressão política, reuniões, manifestações, expectativas dentro e fora dos quartéis e o comportamento das cúpulas militares diante da derrota de Bolsonaro. 

A narrativa acompanha os acontecimentos até a posse de Luiz Inácio Lula da Silva e chega ao ponto em que a democracia brasileira parecia estar sustentada por uma quantidade desconfortavelmente pequena de bom senso. O livro desmonta, com detalhes, aquela impressão posterior de que a tentativa de ruptura teria sido uma maluquice improvisada por meia dúzia de exaltados. O autor descreve um ambiente em que a possibilidade de golpe foi discutida, estimulada e considerada por setores que tinham acesso real às estruturas de poder. 

“Eu Disse Não!” é um livro sobre o limite da obediência, questão capaz de incomodar quem enxerga as Forças Armadas como guardiãs naturais da política. Baptista Junior apresenta uma instituição composta por pessoas, disputas, interesses, avaliações e diferentes compreensões sobre até onde poderia ir a atuação militar. A democracia, no livro, não aparece protegida por uma entidade abstrata chamada “instituições”, mas depende de indivíduos tomando decisões.

O mérito da obra está em mostrar que uma ruptura institucional exige mais do que discursos sobre democracia. Em determinados momentos, alguém precisa estabelecer um limite e aceitar as consequências de fazê-lo. O relato ganha interesse quando o autor também se permite olhar para a própria trajetória. Piloto de caça, comandante e homem formado dentro da FAB, ele conhece profundamente o universo que descreve. O leitor percebe a linguagem, os códigos e a lógica de funcionamento de uma organização em que a cadeia de comando pode determinar o destino de uma instituição inteira.

O livro acerta ao não transformar esse gesto em fantasia heroica de história em quadrinhos. Mesmo quando o autor assume claramente um lado, permanece a sensação de que está reconstruindo um período complicado, cheio de zonas de tensão e escolhas difíceis. O leitor acompanha os bastidores e percebe que o país esteve perto de uma situação cuja dimensão fica mais nítida quando os episódios são colocados em sequência.

Existe ainda uma ironia involuntária e bastante brasileira em tudo isso. Um país que passou décadas discutindo o papel dos militares na política chegou ao século XXI diante de uma pergunta quase primitiva: o que faz um militar quando recebe ou percebe uma ordem que entra em choque com a Constituição?

“Eu Disse Não!” ganha força quando deixa de lado a caricatura do herói solitário e permite que apareçam o homem dentro da farda, o comandante dentro da instituição e a instituição dentro de uma crise política que extrapolou os muros dos quartéis. É uma leitura especialmente interessante para quem acompanhou os acontecimentos de 2021 e 2022 e ficou com a impressão de que faltavam algumas peças do quebra-cabeça. Compre o livro "Eu Disse Não", de Carlos Baptista Junior, neste link.

sábado, 12 de setembro de 2026

.: Vladimir Brichta em “O Menor Palco do Mundo” leva a paternidade ao teatro


“O Menor Palco do Mundo”, primeiro solo de Vladimir Brichta, transforma cartas, histórias e imaginação em uma reflexão sobre paternidade, distância, afeto e reconstrução dos vínculos. Foto: Julia Mataruna

Histórias carregam valores, aproximam pessoas e podem servir de abrigo quando a vida aperta. Em “O Menor Palco do Mundo”, primeiro espetáculo solo de Vladimir Brichta, contar histórias ganha outro peso: torna-se uma maneira de enfrentar a distância e manter vivos os vínculos entre um pai e seus filhos. A temporada de estreia acontece no Teatro Vivo, em São Paulo, de 10 a 31 de outubro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h00, e aos domingos, às 18h00. Inspirado na história real do premiado autor australiano Kim Crotty, o espetáculo tem dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, direção de Luiz Felipe Reis e idealização de Aura Cunha e Paula Picarelli.

A história acompanha Crotty, um pai que, depois de cometer um erro e ser preso, procura uma maneira de continuar presente na vida dos filhos. Dentro da prisão, começa a inventar histórias e enviá-las às crianças por cartas. O gesto, nascido de uma situação limite, encontra na imaginação uma possibilidade de aproximação. Entre palavras, personagens e fantasia, ele tenta diminuir a distância e reconstruir a relação com os filhos. As idealizadoras Aura Cunha e Paula Picarelli contam que há algum tempo estava procurando um texto que tivessem vontade de montar, até que a Paula leu uma matéria sobre a obra de Kim Crotty. 

Para Vladimir Brichta, a montagem também encontrou ecos em experiências pessoais e familiares. Primeiro espetáculo solo do ator, “O Menor Palco do Mundo” chega ao Brasil carregado de uma história australiana, mas encontra uma ponte em sentimentos que não precisam de tradução. “Tem coisas que só arte é capaz, como encurtar os espaços via afetos. Estive minha vida toda do outro lado do mundo dos australianos, imaginando, assistindo, vendo de sua cultura. Tive uma filha que visitou o país e sonhei em ter a mesma sorte um dia. Fui aconselhado pela minha agente a não estimular os filhos a irem viver na Austrália. Os filhos dela viveram lá e um deles casou e morou durante anos, para sofrimento dela por conta da saudade e da distância. Eis que já reverberava aí a peça de Kim Crotty, a nossa peça”.

“Fui tocado de imediato pela premissa do espetáculo, um homem, um pai, que comete um erro e precisa pagar por ele. Mas o preço não contabilizado é a distância dos filhos que tanto ama e também uma reflexão profunda sobre paternidade e amor, sob o signo da dor da distância, mas também do lúdico do diálogo e da conexão com nossos filhos quando pequenos”, completa o ator. “Um relato tão pessoal e comovente como o de Kim só faria sentido aqui, do outro lado do mundo, se também permeado por alguma pessoalidade de quem a conta, com as particularidades de se viver no Brasil. Estou muito feliz de trazer aos palcos um relato tão afetivo de Kim Crotty e igualmente feliz de diminuir a distância geográfica em nome de algo universal como amor e paternidade”, finaliza ele.

Luiz Felipe Reis, responsável pela direção e pela dramaturgia ao lado de Paula Picarelli, vê no título da peça uma imagem ligada ao espaço íntimo onde cada pessoa guarda suas experiências, lembranças e conflitos. O diretor conta que “O Menor Palco do Mundo” é, para mim, aquilo que todo humano carrega em si, em seu corpo e subjetividade, desde tempos imemoriais: este nosso pequeno palco-teatro interior, repleto de vísceras, pensamentos e emoções, em que buscamos metabolizar e elaborar o que vivemos nesse imensurável teatro da vida em que estamos imersos, com todos os seus mistérios e revelações, assombro e encantamento”.

“A peça é, por tudo isso, um conjunto de elaborações que ocorre a partir de um improvável encontro cênico entre um autor australiano e um ator brasileiro. Pais que precisam lidar, por diferentes razões, com a distância em relação a seus filhos, e a partir daí enfrentam a própria solidão, isolamento, a saudade, o vazio, a fragilidade e a impotência diante de acontecimentos menores ou maiores, até o ponto inevitável, sem escape, em que precisam olhar e adentrar o teatro das suas próprias vidas, olhar sem desvios pras suas próprias histórias, escolhas e crenças em busca, quem sabe, de uma possível transformação”, conclui Luiz Felipe Reis.

A montagem também olha para os modelos de masculinidade transmitidos entre gerações. Histórias de heróis, aventuras e provas de coragem apresentadas aos meninos desde a infância ajudam a construir uma ideia de homem associada à força e à resistência. A peça abre espaço para sentimentos que costumam ficar fora desse repertório, como medo, fragilidade e afeto. O espetáculo original, “The Smallest Stage”, de Kim Crotty, foi produzido pelo BREC, coproduzido pelo Festival de Perth e vencedor da categoria de Melhor Produção de Palco Principal no Performing Arts WA Awards (PAWA Awards), em 2023.


Ficha técnica
Espetáculo "O Menor Palco do Mundo"
Elenco: Vladimir Brichta. Texto: Kim Crotty. Dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli (a partir do texto de Kim Crotty). Direção: Luiz Felipe Reis. Iluminação: Beto Bruel. Cenografia: Marisa Bentivegna. Trilha Sonora: Felipe Habib. Figurino: Theodoro Cochrane. Trabalho Corporal: Toni Rodrigues. Assistente de iluminação: Sarah Salgado. Assistente de direção e de produção (RJ): Julia Lund. Tradução: Aline Filócomo. Identidade visual e projeto gráfico: Guilherme Falcão. Fotos: Julia Mataruna. Assessoria de Imprensa: Pombo Correio. Produção executiva: Vini Silveira e Yumi Ogino. Idealização e diireção de produção: Aura Cunha (Elephante Produções) e Paula Picarelli (Frey Produções). Realização: Cachalote Produções.

Serviço
“O Menor Palco do Mundo”, com Vladimir Brichta
Temporada: 10 a 31 de outubro de 2026. Horários: sextas e sábados, às 20h00; domingos, às 18h00
Teatro Vivo | Av. Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi / São Paulo. Ingressos: R$ 150,00 (inteira), R$ 75,00 (meia-entrada), R$ 50,00 (ingressos populares - inteira) e R$ 25 (ingressos populares - meia-entrada). Vendas on-line: https://bileto.sympla.com.br/event/126035/d/409541/s/2668902. Bilheteria: (11) 3430-1524. Horário de funcionamento da bilheteria: duas horas antes da apresentação. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos. Capacidade: 274 lugares. Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Sessões com interpretação em Libras e Audiodescrição nos dias 10, 11, 16, 17, 18, 23, 24, 30 e 31. Estacionamento no local: entrada pela Av. Roque Petroni Jr, 1464. Valor R$ 30. Funcionamento 2h antes da apresentação e até 30 minutos após a sessão. A temporada de 10 a 31 de outubro será realizada através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e conta com o patrocínio da Vivo.

.: Francisco de Morais Mendes vence o Prêmio Academia Mineira de Letras


Livro de contos da Editora Sinete explora os ruídos da comunicação e os limites da linguagem em um presente saturado de informação. Foto: divulgação

O escritor mineiro Francisco de Morais Mendes venceu o Prêmio Academia Mineira de Letras 2026 com “A Bala dos Desarmados”, livro de contos publicado pela Editora Sinete em 2025. Patrocinada pela Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), a premiação concede R$ 40 mil ao vencedor e está entre os principais reconhecimentos destinados à produção literária em Minas Gerais. A obra foi escolhida entre os livros publicados em primeira edição durante 2025 nas categorias poesia, ficção em prosa, crônicas e ensaios.

Em “A Bala dos Desarmados”, a linguagem ocupa o centro das histórias. A palavra aparece como elemento de ligação entre os contos, mas também como fonte de ruído, ambiguidade e desencontro. Em diferentes situações, aquilo que deveria aproximar personagens acaba escondendo intenções, embaralhando sentidos e dificultando a comunicação.

Francisco de Morais Mendes coloca essas histórias diante de um presente marcado pelo excesso de informação e pela dificuldade cada vez maior de separar fato, invenção e manipulação. Tecnologia, comunicação e linguagem entram em um jogo no qual até o que parece evidente pode ganhar outro significado. O título do livro leva essa ideia ao limite: a palavra pode atingir, ferir e até calar — inclusive quando a “bala” deixa de ser apenas uma imagem.

“Muita satisfação de ter o livro ‘A bala dos desarmados’ reconhecido por uma instituição com o prestígio e o respeito da Academia Mineira de Letras. Esse reconhecimento dá ao livro um lugar de destaque no acervo cultural do Estado, do País. Por isso o sentimento é de gratificação, uma imensa alegria”, afirma Francisco de Morais Mendes sobre a conquista.

Nascido em Belo Horizonte, em 1956, o autor é jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também publicou os livros de contos “Escreva, Querida”, “A Razão Selvagem”, “Onde Terminam os Dias” e “Sacrifício e Outros Contos”, lançado originalmente em Lisboa, em 2019, e posteriormente no Rio de Janeiro, em 2021. A trajetória literária de Francisco reúne oito prêmios, entre eles o próprio Prêmio Academia Mineira de Letras, o Prêmio Minas de Cultura, do Governo do Estado, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura de Belo Horizonte, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa.

Para o escritor, o reconhecimento alcança quem escreve e também quem lê. “Para o autor o prêmio é um indutor, um estímulo forte para continuar escrevendo. Para a sociedade, o prêmio é um balizador, pois vai assinalar as obras que passaram pelo crivo de um corpo de especialistas. O livro destacado ganha visibilidade e pode chegar a um número maior de leitores”, destaca. Francisco também vê os prêmios literários como uma maneira de acompanhar o que está sendo produzido na literatura contemporânea. “sempre me guio pelos prêmios para ver o que trazem de novo as obras selecionadas. E sempre encontro boas surpresas”.

Criado para reconhecer escritores ligados a Minas Gerais, o Prêmio Academia Mineira de Letras contempla autores naturais do estado ou radicados em território mineiro há mais de cinco anos. A escolha é feita por indicação dos acadêmicos. Na edição de 2026, foram consideradas obras publicadas em primeira edição entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025, nas categorias poesia, ficção em prosa, crônicas e ensaios. A entrega do prêmio será realizada em sessão solene da Academia Mineira de Letras. Vencedor de oito prêmios literários, Francisco de Morais Mendes recebeu, entre outros, o Prêmio Academia Mineira de Letras, o Prêmio Minas de Cultura, do Governo do Estado, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura de Belo Horizonte, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa. Compre o livro “A Bala dos Desarmados”, de Francisco de Morais Mendes, neste link.

.: Crítica: "A Estranha na Cama", romance mais apimentado de Raphael Montes


Novo romance de Raphael Montes mistura sexo, ambição, mentira e vingança numa história em que ninguém permanece inocente por muito tempo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Novo romance de Raphael Montes, “A Estranha na Cama”, começa com uma mulher, Laura, chegando à delegacia com sangue nas roupas. Ela está com um casamento em ruínas e uma história que parece pronta para ser contada. Na sala ao lado, Diego, advogado criminalista e marido dela, também presta depoimento. O problema é que os dois contam histórias diferentes. E, como o autor sabe muito bem, em uma investigação policial a história bem contada pode ser tão perigosa quanto a sentença final.

Publicado pela Companhia das Letras, o romance tem gosto de escândalo de classe média alta: um casal carioca, bonito, rico, socialmente bem relacionado e aparentemente feliz resolve apimentar o casamento com uma terceira pessoa. A experiência termina com a morte de Julia, amante de Diego. A partir daí, entram em cena chantagens, traições, vídeos íntimos, dinheiro, violência e uma quantidade bastante razoável de gente interessada em salvar a própria pele. Raphael Montes  poderia se contentar com esse cardápio. Prefere, porém, preparar outra conversa.

A estrutura em depoimentos é um dos grandes acertos do livro. Laura e Diego apresentam versões dos acontecimentos que se chocam e se corrigem mas, sobretudo, levantam novas suspeitas. A delegada Patrícia Custódio Revoredo funciona como uma espécie de editora implacável da história: pergunta, volta ao ponto anterior, percebe contradições e deixa os personagens se enforcarem com as próprias argumentações. O efeito é eficiente porque o leitor passa a desconfiar até daquilo que acabou de ler.

Laura é a personagem mais interessante do romance. Vinda de uma família pobre, marcada por uma relação familiar violenta e acolhida pelo universo confortável da família Guimarães Prata, ela constrói uma vida que parece saída de uma propaganda de sabonete caro: cobertura em Ipanema, viagens, festas, contatos influentes, marido bem-sucedido e uma floricultura para chamar de sua. Aos poucos, porém, fica evidente o preço daquele cenário. O casamento, afinal, tem seus contratos. Alguns estão no papel, outros são erguidos entre expectativas, dependências e concessões.

O romance também acerta ao colocar a imprensa e a exposição pública dentro da engrenagem do crime. O julgamento se transforma em espetáculo, com jornalistas, fotógrafos, curiosos, fofocas e vídeos íntimos circulando como combustível para uma história que já perdeu qualquer possibilidade de privacidade. O thriller conversa, assim, com uma época em que uma investigação pode acontecer simultaneamente na delegacia, no tribunal e nas redes sociais.

Raphael Montes sabe esconder as cartas. Uma informação aparentemente banal pode ganhar outro significado algumas dezenas de páginas depois,. O leitor acompanha as versões, suspeita de uma, abandona outra e, quando acredita ter entendido o jogo, descobre que talvez tenha prestado atenção à pergunta errada.

“A Estranha na Cama” também fala sobre pessoas que passam tempo demais tentando representar aquilo que acreditam que os outros esperam delas. Laura representa a esposa perfeita. Diego, o marido bem-sucedido. A família, a respeitabilidade. A imprensa, por sua vez, procura a verdade enquanto devora o escândalo. Raphael Montes escreve com velocidade, mas não confunde rapidez com pressa. O texto avança porque sempre existe alguma coisa esperando nas páginas adiante. 

O livro reafirma Raphael Montes como um escritor que entende muito bem o prazer popular do suspense sem tratar o leitor como alguém que precisa receber tudo mastigado. O livro quer divertir, provocar, chocar e, de quebra, brincar com a vontade quase infantil de descobrir quem está mentindo. Compre “A Estranha na Cama”, novo romance de Raphael Montes, neste link.

.: "Barbarella", ficção científica com Jane Fonda, é um delírio psicodélico e sensual


Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.

Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.

Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.

Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.

A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.

A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.

O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.

A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.


Ficha técnica
"Barbarella" (título original) 
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: “A Margem” chega ao streaming e reencontra um Brasil à beira do Tietê


Filme de Ozualdo Candeias transforma personagens esquecidos pela cidade em figuras de uma história áspera, poética e ainda desconcertante

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema brasileiro volta a olhar para as margens do rio Tietê com “A Margem”, primeiro longa-metragem de Ozualdo Ribeiro Candeias, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 1967, o filme permanece como uma das obras fundamentais para compreender o cinema marginal paulista e uma São Paulo que crescia em ritmo acelerado enquanto empurrava para fora do enquadramento quem não combinava com a fotografia oficial da cidade.

Candeias acompanha quatro personagens que vivem às margens do rio e da própria sociedade: duas prostitutas, um homem com problemas mentais e um cafetão. Entre encontros, desencontros, afetos improváveis e destinos trágicos, o diretor constrói uma narrativa fragmentada, carregada de símbolos e pouco interessada em facilitar a vida de quem assiste.

O resultado tem uma beleza áspera. O Tietê aparece como cenário, mas também como presença constante, cercando personagens que parecem condenados a permanecer naquele pedaço esquecido da cidade. Uma mulher negra vestida de noiva dentro de uma igreja em ruínas, um homem à procura de uma rosa e uma pequena flor que circula entre os personagens estão entre as imagens que ajudam a transformar a precariedade em matéria poética.

A câmera de Candeias acompanha essas figuras com uma liberdade que ainda impressiona. O diretor também assume fotografia e montagem ao lado de Belarmindo Manccini e Máximo Barro, respectivamente, numa produção realizada com recursos escassos. O próprio histórico do filme registra essa economia como parte de sua força estética: Candeias fez de limitações práticas uma linguagem cinematográfica própria.

A estreia de “A Margem” aconteceu em São Paulo em novembro de 1967. No 3º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme recebeu menções honrosas para Valéria Vidal e para a música. Depois vieram outros reconhecimentos, incluindo os prêmios de melhor direção e melhor música do Instituto Nacional de Cinema e o prêmio de melhor diretor concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.

O reconhecimento crítico, porém, não significou uma carreira comercial confortável. Pesquisa acadêmica da USP sobre a recepção do filme registra que “A Margem” chegou a ser exibido em cinemas de arte paulistanos, entre eles o Belas Artes, mas permaneceu pouco tempo em cartaz. Décadas depois, a importância histórica da produção ganhou uma espécie de carimbo da crítica brasileira. “A Margem” entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine e aparece na 51ª posição na relação publicada pela associação.

Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo por ocasião dos 50 anos do filme, Inácio Araujo chamou atenção para a maneira particular como Candeias se aproxima dos personagens pobres retratados na obra. Em vez de transformar aquelas pessoas em meros exemplos de uma tese social, o diretor as observa de perto, encontrando nelas uma poesia estranha, áspera e profundamente brasileira. O filme não precisa explicar seus personagens para fazê-los existir. Eles estão ali, entre o lixo, a água, a igreja deteriorada, os pequenos gestos de afeto e uma cidade que parece avançar sem levar todos consigo.

Também chama atenção o jogo entre o real e o simbólico. A barca que surge no começo e retorna no encerramento dá ao filme uma estrutura quase circular. A imagem remete a uma travessia de mortos, enquanto os personagens parecem permanecer presos entre uma vida que pouco oferece e um destino que nunca se esclarece completamente. 

O curioso é que, quase seis décadas depois, certas imagens perderam o caráter documental e ganharam outra camada. O Tietê de 1967 ainda permitia cenas que hoje parecem pertencer a outro planeta. O filme registra um rio que já carregava as marcas da degradação, mas que ainda fazia parte da paisagem cotidiana daquela população. A própria pesquisa sobre Candeias observa como o diretor confronta a pujança econômica paulista com aquilo que a cidade deixava nas bordas. É uma oportunidade de reencontro com um dos filmes brasileiros que ajudaram a deslocar o centro do cinema para lugares menos confortáveis. 


Ficha técnica
“A Margem” (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1967. Data de lançamento: 27 de novembro de 1967. Idioma: português. Direção e roteiro: Ozualdo Ribeiro Candeias. Elenco: Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho e Lucy Rangel. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

.: Álbum “Na Linha do Tempo” celebra os 25 anos do Sururu na Roda


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

O grupo Sururu na Roda celebra 25 anos de trajetória com o lançamento de “Na Linha do Tempo”, seu novo álbum, que chega às plataformas digitais. Com direção musical de Rildo Hora e participação especial de Mart’nália, o disco revisita a história do Sururu a partir de um repertório afetivo, popular e profundamente ligado à memória do samba brasileiro.

O projeto nasce como uma biografia musical. Em vez de apenas olhar para trás, “Na Linha do Tempo” organiza a trajetória do grupo como uma travessia: dos primeiros anos na Lapa carioca ao reconhecimento nacional, das turnês internacionais à maturidade artística da formação atual. O resultado é um disco que celebra o passado, mas aponta para uma nova fase.

O álbum traz Ana Costa, Fabiano Salek e Silvio Carvalho à frente do Sururu na Roda, acompanhados pelos músicos  Alexandre Caldi, Flavio Santos, Guinter Vieira, Luiz Augusto Guimarães, Maurício Massunaga, Ney Conceição, Marcelo Caldi, Dirceu Leite, Léo Ramiro e o próprio Rildo Hora, que também assina a direção musical.

Com 12 faixas, “Na Linha do Tempo” reúne canções que ajudam a contar a história do Sururu e sua relação com diferentes vertentes do samba. O repertório atravessa clássicos, memórias afetivas e escolhas que dialogam com a sonoridade construída pelo grupo ao longo de duas décadas e meia. Entre os destaques do disco está “Mascarada”, faixa que conta com participação especial de Mart’nália. O álbum também traz “Conversa de Botequim”, “Ex-Amor”, “Fogo de Saudade”, “Seja Sambista Também”, “Sambas de Roda”, “Água da Minha Sede”, “Sorriso Aberto”, “É”, “Testamento de Partideiro”, “Pura Semente” e “Mutirão de Amor”. Já “Sambas de Roda” aparece como um pot-pourri com por três músicas: “O Cavalo de São Jorge”, “Milagre” e “Todo Menino É Um Rei”.

Gravado no Estúdio Cia dos Técnicos, no Rio de Janeiro, com gravação e mixagem de William Luna, masterização de Alexandre Rabaço e produção de Alan Rabelo (Panda Produções), o álbum reafirma o Sururu na Roda como um dos nomes mais consistentes do samba contemporâneo. Mais do que um álbum comemorativo, ”Na Linha do Tempo” é uma declaração de permanência. Um brinde ao samba, à amizade musical e à capacidade de seguir reinventando a tradição.

"Sorriso Aberto"

"Mascarada"

"Seja Sambista Também"

.: Claudya lança disco ao vivo com convidados


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

Há vozes que pertencem a uma época. E há vozes que atravessam épocas. Claudya faz parte do segundo grupo. Aos 60 anos de carreira, a cantora celebra sua trajetória com o lançamento de um novo álbum ao vivo, que foi gravado na Casa Natura Musical, em março deste ano, e que chega a todas as plataformas digitais pela gravadora Kuarup.

O registro reúne 12 faixas - algumas apresentadas em medleys - e revisita diferentes momentos de uma carreira construída entre grandes compositores, diferentes gêneros da música brasileira e uma das interpretações vocais mais reconhecíveis de sua geração. O trabalho também promove três encontros especiais que simbolizam a força e a permanência da música brasileira: Alaíde Costa participa de “Dindi”, clássico de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira; Ayrton Montarroyos participa de “Ipanema Leblon”, de Sergio Fayne e Vitor Martins; e Patrícia Marx participa de “Com Mais de Trinta”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

Aos 60 anos de carreira, Claudya poderia simplesmente olhar para trás. Mas escolhe fazer o contrário: revisita sua história para reafirmar sua presença no presente. O registro ao vivo funciona como uma espécie de fotografia artística dessa trajetória. Há espaço para clássicos, canções menos óbvias, composições próprias, repertório popular e momentos de forte experimentação interpretativa.

A abertura já anuncia essa diversidade. Claudya começa com “Deixa Eu Dizer”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, uma das canções mais associadas à sua trajetória, em um medley que inclui “Só Que Deram o Zero Pro Bedeu”, de Luis Wagner, “Agora Quem Ri Sou Eu”, parceria de Claudya e Cristiê, e “Garra”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. 

O repertório segue por diferentes paisagens da música brasileira, passando por “Menina Fulô”, de Luiz Wanderley, e “Ossain”, de Antonio Carlos e Jocafi. A interpretação segura e singular de Claudya é uma qualidade que ela preserva  de forma contundente. É realmente uma das nossas maiores cantoras da MPB e merece mesmo todas as ho.menagens

"Com Mais de 30"

"Deixa Eu Dizer"

"Pois É Seu Zé"

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: Filme "Banho de Sangue" tem herança e carnificina à moda de Mario Bava


Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.

Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".

O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.

O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.

A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.

São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?

Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho. 

O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra. 

O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos. 

O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.


Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.
Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.