segunda-feira, 2 de novembro de 2026

.: Taylor Swift, Michelangelo e eleições mostram matemática por outro ângulo


Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, diretor-geral do Impa reúne crônicas publicadas na “Folha de S.Paulo” e revela como números, lógica e pensamento matemático aparecem em situações que vão da cultura pop à política.

O que Taylor Swift, Michelangelo, Platão, inteligência artificial e eleições podem ter em comum? Para o matemático Marcelo Viana, a resposta está muito mais próxima do cotidiano do que muita gente imagina. Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, lançamento da Tinta-da-China Brasil, o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) mostra que essa ciência aparece em lugares pouco convencionais, inclusive onde o leitor talvez jamais pensasse em procurá-la.

Autor de “Histórias da Matemática”, que conquistou leitores interessados em conhecer a trajetória dessa ciência, e de “A Descoberta dos Números”, Viana reúne no novo volume textos publicados em sua coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo. Com uma combinação de precisão científica, curiosidade e leveza narrativa, o escritor aproxima conceitos complexos de situações reconhecíveis, recorrendo a episódios históricos, anedotas e referências culturais. O resultado é um convite para observar o mundo com um pouco mais de atenção aos padrões, às relações e às perguntas que os números ajudam a formular.

Nas crônicas, a matemática encontra espaço na arte, na literatura, na política e até nas disputas da indústria musical. As esculturas inacabadas de Michelangelo, por exemplo, ajudam a apresentar uma questão antiga da filosofia: os conceitos matemáticos são descobertos ou inventados? A trajetória de James McCune Smith, médico e abolicionista, conduz a uma discussão sobre o uso da estatística para desmontar argumentos racistas sustentados por falsas justificativas científicas.

Taylor Swift e Selena Gomez também entram na conversa. A comparação entre as duas artistas serve para explicar o paradoxo de Simpson, fenômeno estatístico que demonstra como a interpretação equivocada de dados pode produzir conclusões enganosas. Já a história de Kurt Gödel aproxima lógica, filosofia e democracia, mostrando como ideias aparentemente distantes podem compartilhar questões fundamentais.

O repertório de Marcelo Viana também passa por situações bastante práticas. O funcionamento dos códigos de barras e dos QR codes, os modelos matemáticos utilizados em sistemas eleitorais e as ferramentas que ajudam atletas olímpicos a aperfeiçoar seus movimentos aparecem entre os assuntos abordados. O autor ainda apresenta o problema do caixeiro-viajante, desafio matemático com aplicações relevantes em áreas como logística e computação.

Ao aproximar matemática e literatura, Viana aproveita para questionar a divisão rígida entre as chamadas ciências humanas e exatas. Criatividade, imaginação e raciocínio lógico aparecem como elementos que podem conviver e se complementar. Afinal, a construção de uma boa história também depende de escolhas, estruturas e relações, enquanto a matemática exige inventividade para formular perguntas e encontrar caminhos.

Organizado em sete blocos temáticos - “Pioneiros e Pioneiras”; “Símbolos, Falácias e Paradoxos”; “Muito Mais do que Uma Linguagem”; “A Matemática e as Máquinas”; “Querelas e Descobertas”; “Números e Mais Números”; e “Todo Poder à Matemática” -, o livro percorre descobertas, controvérsias e personagens que ajudaram a construir o pensamento matemático. Há também atenção especial às mulheres que abriram caminhos nessa área, no Brasil e em outros países. Para quem gosta de colocar a cabeça para funcionar, uma seção final de desafios permite testar o próprio raciocínio.

Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, Marcelo Viana demonstra que compreender números pode ser uma aventura intelectual bastante divertida. Entre referências à música pop, episódios históricos e problemas que interferem na vida cotidiana, o matemático apresenta uma ciência que continua em movimento e que tem muito a dizer sobre as escolhas, os acontecimentos e as contradições do mundo contemporâneo.


Sobre o autor
Carioca, Marcelo Viana é doutor em matemática, pesquisador titular e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas em sistemas dinâmicos, integra a Academia Brasileira de Ciências e recebeu diferentes prêmios e distinções acadêmicas. Também foi condecorado pela Presidência da República com as Ordens Nacionais do Mérito Científico e do Mérito Educacional.

Colunista da “Folha de S.Paulo”, publicou pela Tinta-da-China Brasil “Histórias da matemática: da contagem nos dedos à inteligência artificial” (2024) e “A descoberta dos números: uma aventura matemática” (2025), títulos que ajudam a aproximar o conhecimento científico de leitores com diferentes formações.


Sobre a editora
Fundada em 2012, no Rio de Janeiro, por Bárbara Bulhosa, a Tinta-da-China Brasil nasceu com a proposta de trazer ao país a excelência editorial da casa portuguesa, criada em Lisboa em 2005. Desde 2022, a editora brasileira está sob os cuidados da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos sediada em São Paulo e dedicada à difusão do livro no Brasil. O catálogo reúne publicações de literatura, história e ciência, além de títulos de humor, jornalismo, quadrinhos e crítica literária.

.: Nobel Isaac Bashevis Singer apresenta histórias cheias de humor e sabedoria


Em “Porque Noé Escolheu a Pomba e Outras Histórias para Crianças”, escritor polonês vencedor do Nobel de Literatura ganha edição brasileira pela Nova Fronteira, com tradução de Christine Ajuz, ilustrações de Ionit Zilberman e prefácio de Ana Maria Machado


A Editora Nova Fronteira apresenta aos leitores brasileiros uma coletânea infantil assinada por um dos grandes nomes da literatura mundial. “Porque Noé Escolheu a Pomba e Outras Histórias para Crianças” reúne narrativas de Isaac Bashevis Singer, escritor polonês que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1978 e construiu uma obra reconhecida pela riqueza de personagens, pelo humor e pela maneira particular de observar o comportamento humano.

Com tradução de Christine Ajuz, ilustrações de Ionit Zilberman e prefácio da escritora e acadêmica Ana Maria Machado, o volume chega ao Brasil com 144 páginas. A publicação corresponde ao segundo volume da coletânea originalmente intitulada “Histórias para crianças”, cuja continuação tem lançamento previsto para o primeiro semestre de 2027.

No texto de apresentação, Ana Maria Machado chama atenção para a variedade de recursos narrativos encontrados nas histórias, que passeiam entre fantasia, realismo, elementos sobrenaturais e lembranças afetivas. “As diferentes histórias aqui reunidas alternam sonhos e literatura, realismo e intromissões do sobrenatural, tom didático e evocações saudosas. Podem não ser uma leitura fácil. Mas, seguramente, deixarão marcas na lembrança. O que também é uma riqueza que os livros nos trazem”, afirma.

Singer tinha uma opinião bastante particular sobre a literatura destinada aos pequenos leitores. No ensaio “São as crianças os críticos literários definitivos?”, também incluído no livro e originalmente publicado no jornal Chicago Sun-Times, o escritor defende que o público infantil merece narrativas bem construídas, capazes de respeitar sua inteligência e seu interesse por boas histórias.

"As crianças são os melhores leitores da autêntica literatura. Os adultos se deixam hipnotizar por grandes nomes, elogios exagerados, publicidade persuasiva [...] As crianças, porém, não aceitam facilmente esse tipo de crença. Elas ainda preferem clareza, lógica e até mesmo uma coisa tão obsoleta como pontuação. Mais ainda, o jovem leitor exige uma história real, com começo, meio e fim, da maneira como os contos são narrados há milhares de anos", afirma Singer.

A história que dá nome à coletânea recupera uma das passagens mais conhecidas da tradição bíblica: o Dilúvio e a construção da arca de Noé. Enquanto os animais disputam a atenção do patriarca, exibindo força, beleza e esperteza para conquistar um lugar de destaque, a pomba chama atenção por sua modéstia. Noé percebe que todos possuem valor aos olhos de Deus e escolhe a ave para desempenhar uma missão especial como mensageira.

O humor também tem lugar garantido na seleção. Em “Os anciãos de Chelm e a chave de Genendel”, por exemplo, Singer recupera o universo das histórias populares judaicas, explorando situações engraçadas e personagens envolvidos em confusões que desafiam a lógica. A comicidade ajuda a afastar qualquer leitura excessivamente moralizante, preservando a espontaneidade e a graça das narrativas.

Entre alegorias, episódios divertidos e reflexões sobre a convivência humana, a coletânea apresenta às novas gerações um escritor que dedicou atenção especial à literatura infantil, tratando seus leitores com a mesma exigência narrativa que marcou seus contos e romances destinados aos adultos.


Um Nobel que também escreveu para crianças
Nascido em 1902, na Polônia, Isaac Bashevis Singer imigrou para Nova York em 1935, onde desenvolveu grande parte de sua trajetória literária. Filho e neto de rabinos, construiu uma obra predominantemente em língua ídiche, recuperando em contos e romances aspectos da memória, da religiosidade e do cotidiano dos shtetls, comunidades judaicas da Europa Oriental.

Consagrado internacionalmente com o Nobel de Literatura de 1978, Singer tornou-se uma referência da literatura universal. Sua produção reúne histórias marcadas pela observação psicológica, pela presença do fantástico e por personagens que transitam entre dilemas morais, crenças e contradições humanas.

Com a nova publicação, a Nova Fronteira recupera uma faceta especialmente interessante desse escritor: a de alguém que reconhecia nas crianças leitores exigentes, atentos e pouco dispostos a aceitar histórias contadas de qualquer maneira.

.: Vanessa Yetu estreia no Brasil com contos que exploram as contradições


Em “Velório de Moscas Sobre a Carne”, escritora cabo-verdiana inaugura coleção da Pallas dedicada à literatura africana contemporânea, com curadoria do angolano Ondjaki, e participa de encontros com leitores no Rio de Janeiro


A literatura africana contemporânea ganha um novo espaço nas prateleiras brasileiras com a chegada de Vanessa Yetu. Escritora cabo-verdiana, ela estreia no mercado editorial brasileiro com “Velório de Moscas Sobre a Carne”, publicação da Pallas Editora que inaugura a Coleção Múcua, projeto dedicado à produção literária atual de países africanos, sob curadoria do escritor angolano Ondjaki.

Com 144 páginas, o livro reúne quatro narrativas que investigam as contradições da experiência humana, passando por temas como identidade, pertencimento e memória. A escrita de Vanessa combina imagens intensas, humor e melancolia para apresentar personagens envolvidos em conflitos pessoais, enquanto convivem com mudanças sociais e culturais. As histórias percorrem diferentes geografias e aproximam vivências de Cabo Verde, Angola, Moçambique e Portugal, países que também integram a trajetória da autora.

Para marcar o lançamento, Vanessa estará no Brasil entre os dias 5 e 9 de novembro, com uma programação de encontros literários no Rio de Janeiro e em cidades da região metropolitana. A primeira parada será na FLIM – Língua ao Mar, em Maricá, na quinta-feira, dia 5, às 19h00. A escritora participa de uma conversa com Énia Lipanga e Kalaf Epalanga, sob mediação de Aza Njeri.

Na sexta-feira, 6 de novembro, às 11h00, o encontro será na Universidade Federal Fluminense (UFF). No sábado, dia 7, às 13h30, Vanessa estará na Primavera dos Livros, no Museu de Arte do Rio (MAR), para uma conversa com Bianca Ramoneda e Felipe Charbel. A agenda termina na segunda-feira, dia 9, às 11h, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão, em atividade com Carmen Lucia Tindó, Norma Lino e Vera Duarte.

Na apresentação de “Velório de Moscas Sobre a Carne”, Ondjaki chama atenção para a força literária da autora e sua maneira particular de observar as relações humanas. “O olhar de Vanessa Yetu funciona como uma lente de precisão que habita paisagens humanas complexas e valoriza o silêncio de cada gesto", escreve. O escritor identifica nos contos uma combinação de beleza imperfeita e aspectos sombrios da existência, com personagens expostos às fragilidades e às contradições das relações. A obra, segundo ele, “mergulha naquilo que nos torna trágicos, frágeis e reais".

Uma coleção com raízes africanas e diálogos atlânticos
O nome Múcua faz referência ao fruto do baobá, árvore associada à ancestralidade e à vida em diferentes culturas africanas. A escolha traduz a proposta da Pallas de aproximar escritores e leitores das duas margens do Atlântico, apresentando ao público brasileiro diferentes vozes da literatura africana contemporânea.

Nascida em 1974, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, Vanessa Yetu passou parte da infância em seu país natal e concluiu o ensino secundário em Moçambique. Formou-se em Economia em Portugal e vive em Angola desde 2004. Durante anos, conciliou a carreira profissional com a escrita e colaborou com suplementos literários. Em 2014, publicou “Não nos impõem as memórias, que nos permitem pertencer”.

O nome literário Yetu significa “nosso” ou “nossa” nas línguas bantas umbundu e kimbundu. A escolha carrega uma ideia de coletividade que acompanha a visão da escritora sobre a literatura: para ela, a escrita não se encerra na experiência individual, pois também se constrói a partir das vivências compartilhadas.

Com a chegada de Vanessa Yetu ao Brasil, a Coleção Múcua começa a apresentar ao público uma produção literária que merece circular com mais frequência por aqui. Afinal, conhecer outras geografias também passa pelas histórias que seus escritores escolhem contar.


Agenda de Vanessa Yetu no Rio de Janeiro
Dia 5 de novembro, quinta-feira, às 19h00:
FLIM – Língua ao Mar, em Maricá. Encontro com Énia Lipanga e Kalaf Epalanga, mediação de Aza Njeri.

Dia 6 de novembro, sexta-feira, às 11h00: Universidade Federal Fluminense (UFF).

Dia 7 de novembro, sábado, às 13h30: Primavera dos Livros, no Museu de Arte do Rio (MAR). Conversa com Bianca Ramoneda e Felipe Charbel.

Dia 9 de novembro, segunda-feira, às 11h00: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundão. Encontro com Carmen Lucia Tindó, Norma Lino e Vera Duarte.

domingo, 1 de novembro de 2026

.: Isabel Clemente lança “Toda Escrita É Criativa” em São Paulo, Rio e Brasília


Em “Toda Escrita É Criativa”, jornalista e escritora reúne crônicas e ensaios sobre o ofício de escrever e provoca o leitor a encontrar a própria voz

Todo texto pode melhorar. Até aquele que parece pronto, redondo, definitivo. Para quem se dedica à escrita criativa, a busca passa pelo tom de voz, pela escolha da palavra e pela capacidade de encontrar a forma mais precisa de dizer o que se pretende. É nesse território que Isabel Clemente mergulha em “Toda Escrita É Criativa - Quase Um Guia para Inspirar Você a Escrever Melhor”, publicado pela Editora Giacombelo, primeira antologia dela de crônicas e ensaios dedicada ao ofício da escrita. 

Para apresentar “Toda Escrita É Criativa”, Isabel Clemente participa de três sessões de autógrafos em novembro. Os encontros acontecem nas lojas da Livraria da Travessa em São Paulo, no dia 9, na Livraria Travessa do Shopping Villa Lobos; no Rio de Janeiro, no dia 11, na Livraria da Travessa de Botafogo; e em Brasília, no dia 17, na Livraria da Travessa do CasaPark. As sessões serão realizadas sempre das 19h00 às 21h00.

Jornalista e escritora, Isabel reúne reflexões práticas, bem-humoradas e profundas sobre a capacidade de defender ideias e contar histórias por escrito. O livro parte de uma constatação bastante democrática: escrever bem não deveria ser um privilégio reservado a escritores ou profissionais que vivem de palavras. Afinal, todo mundo escreve — nem que seja uma mensagem no celular, um texto de trabalho ou aquela justificativa que precisava caber em três linhas e acaba virando um tratado.

A autora propõe pensar a escrita como uma extensão da personalidade e como uma ferramenta capaz de revelar uma voz própria. “Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo”, diz Isabel. Com textos curtos e densos, que assumem o formato de pequenas aulas sem a sisudez típica das aulas, o livro está organizado em três grandes capítulos: “Histórias Importam”, “Pesquisas Apoiam” e “Memórias Emocionam”. Ao circular por essas três frentes, Isabel combina repertório de vida, ciência e reflexão para mostrar como histórias, informação e memória podem ajudar qualquer pessoa a desenvolver um modo próprio de escrever.

O subtítulo “quase um guia” carrega uma dose de brincadeira. O livro passa longe dos manuais de redação corporativa e das receitas para produzir e-mails, relatórios ou documentos impecavelmente burocráticos. A proposta está em outro lugar: estimular o cuidado com clareza, expressão e personalidade em qualquer texto. A autora também questiona critérios rígidos que costumam cercar o ensino da escrita, incluindo os famosos “penduricalhos” associados à redação do Enem. Em vez de oferecer uma fórmula pronta, Isabel prefere provocar o leitor a pensar sobre as escolhas que faz quando coloca uma ideia no papel.

Como resume o escritor e professor Flávio Carneiro na orelha do livro, a escrita de Isabel “vai caminhando na corda-bamba, sabendo do risco da queda e buscando o difícil equilíbrio” e se destaca por ser “clara e profunda, boa ouvinte e boa perguntadora, e ainda muito engraçada”. Formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London, Isabel é colunista do Valor Econômico. Ao longo de mais de 30 anos, passou pelas principais redações do país como repórter, editora, colunista e correspondente internacional.

A escritora tem quatro livros publicados no Brasil, entre eles “A Pior Mãe do Mundo: Uma Biografia Não Autorizada de Todos Nós” e “A Mãe da Lua e do Vento”. Finalista do Aesthetica Creative Writing 2022, teve contos publicados na Inglaterra e também ministra oficinas de escrita para jornalistas e profissionais de diferentes áreas. Isabel vive no Rio de Janeiro com o marido e as duas filhas. “Toda Escrita É Criativa” é publicado pela Giacombelo, editora independente da qual Isabel é sócia.


Serviço
São Paulo | Dia 9 de novembro, das 19h00 às 21h00

Local: Livraria da Travessa, Shopping Villa Lobos
Av. Dra. Ruth Cardoso, 4777 – Segundo Piso – Jardim Universidade Pinheiros / São Paulo

Rio de Janeiro | Dia 11 de novembro, das 19h00 às 21h00
Livraria da Travessa de Botafogo
R. Voluntários da Pátria, 97 – Botafogo / Rio de Janeiro

Brasília | Dia 17 de novembro, das 19h00 às 21h00
Livraria da Travessa do CasaPark
SGCV SUL Lote 22 – 4A Casa Park Shopping, St. Park Sul / Brasília

sábado, 31 de outubro de 2026

.: Crítica: "As Ovelhas Detetives" é inteligente e divertido

Cartaz de "As  Ovelhas Detetives"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


A comédia mesclada com mistério e CGI,  "As  Ovelhas Detetives", dirigida por Kyle Balda e roteirizada por Craig Mazin, baseada no romance de Leonie Swann, pode causar estranheza, mas logo no início, a produção cinematográfica faz o público embarcar na trama em que ovelhas após tanto ouvirem romances policiais nas leituras de seu pastor George Hardy (Hugh Jackman), acabam colocando em prática modos para desvendar segredos sombrios.

Facilmente inserido no estilo "cozy mystery" (mistério aconchegante), tal qual "Entre Facas e Segredos". De enredo estilo Agatha Christie, "As  Ovelhas Detetives" trata temas profundos como luto, mortalidade e a forma como os animais lidam com a perda. Sem deixar o brilho da forma de ver a vida, a produção ainda entrega muito bom humor, além de sequências de fofurice. 

Para registrar um caso misterioso surge o repórter Elliot Matthews (Nicholas Galitzine) que acaba tentando desvendar os meandros de um crime que atinge diretamente as ovelhas de George. Há no elenco a ricaça Lydia Harbottle (Emma Thompson), além de Patrick Stewart que dá voz ao carneiro Sir Ritchfield (conhecido na versão brasileira como Sr. Ranheta, um dos carneiros mais velhos, experientes e conservadores do rebanho. 

Inteligente e divertido, o longa apresenta uma figura de encanto e pureza, um rebanho de ovelhas quando algumas vão além de seguir a boiada, sem questionar ordens e carecer de raciocínio próprio. "As  Ovelhas Detetives" marca um momento muito significativo sendo o último filme lançado por Patrick Stewart ainda em vida, poucos meses antes de sua morte aos 86 anos, em 28 de outubro de 2026.

Homenagem da Google para Patrick Stewart

Trailer de "As  Ovelhas Detetives"



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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

.: Música: Leo Jaime revisita seus hits em "As Mais Pedidas"


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Nos anos 80 era impossível ligar o radio sem ouvir alguma canção gravada pelo Leo Jaime. Ele foi seguramente um dos hitmakers daquele período, que além de compor sucessos, ainda ganhou projeção como intérprete ícone do movimento do rock nacional. No início fez parte do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados e compôs canções para outros artistas como Marina Lima e Ney Matogrosso, Mas o sucesso viria com força total em 1985 com seu segundo disco solo ("Seção da Tarde”) e seus viários hits.

Agora Leo Jaime revisita seus sucessos acompanhado de uma banda de apoio, mantendo a essência dos arranjos originais, ao mesmo tempo em que atualiza a sonoridade para  os padrões atuais radiofônicos. Intitulado “As Mais Pedidas”, esse novo trabalho joga luz em hits bem conhecidos como "O Pobre", "A Vida Não Presta", "A Fórmula do Amor", "Nada Mudou" e "As Sete Vampiras", entre outros. Além do YouTube, o trabalho foi disponibilizado nas plataformas de streaming.

Não sei  se as rádios vão tocar novamente esses hits. Mas o ouvinte que ouvir essa coletânea vai se lembrar de um período em que as gravadoras investiam de forma maciça em rock nacional.

"Mensagem de Amor"

"Nada Mudou"

"Rock Estrela"

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Minha pequena árvore


Thiago Sobral é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack. 

Dia desses, me peguei pensando em uma jovem árvore lá da minha escola que tombou por causa de uma ventania, quase um ano atrás. Era magrinha, de baixa estatura arborística e de copa nada frondosa. Poderíamos até dizer que tinha cara de pinto recém-nascido — mas não o faremos. Nem tu, nem eu. É preciso lembrar que, ainda que jovem, era árvore e, portanto, digna de nossas honrosas vênias.

Mas a verdade é que eu nunca a reverenciei. Nunca me acheguei ao seu corpo e o lacei pela cintura com meus braços finos, muito menos tentei sentir sua respiração ou ouvir seu coração. De minha parte, antes de sua queda, nunca houve qualquer gratidão — ou gratiluz. Sua mirrada copa nunca me ofereceu sombra, seu odor nunca me ocupou as narinas, sua seiva nunca me alimentou e seu verde nunca me deu esperança. O que de fato ocorreu é que nunca me dei conta de sua existência até o dia em que o vento a derrubou.

O corpinho franzino, que teve a grama como travesseiro para a rala cabeleira, e as raízes expostas aos céus tragaram os meus olhos enfeitiçados. Como no entorno da minha escola há muitas árvores e, naqueles dias, ventou muito, algumas outras árvores também tombaram, mas pouco me importei. Daquele dia em diante, somente a minha pequena tinha a minha atenção. Passaram dias, passaram semanas, passaram meses, e ela continuou ali. Ninguém cuidou de suas feridas, ninguém enfaixou suas fraturas, nenhuma criatura providenciou o seu enterro.

Ao longo do tempo, o verde de suas folhas foi minguando, sorvendo o tom da terra e ganhando meus olhos, que têm cor parecida. Esses meus olhos a olhavam na chegada e na saída do trabalho e dela sentiam falta aos sábados e domingos. E assim foi, até que se encerrou o ano letivo e o nosso enamoramento. No último dia, meu coração pulsou um tantinho a mais ao reparar que as folhas eram agora terra e que aquele verde que nunca me dera esperança vivia então dentro de mim.

Ao retornar ao trabalho, no início do ano, minha árvore deixou apenas o buraco onde antes dormiam suas raízes. Seu magro corpo havia sido recolhido e talvez alimentado alguma fogueira por aí. Lembrei-me do tronco fino, da minguada copa e do verde que de vez em quando me fazia cócegas dentro do peito. Apenas isso e nada mais. Não houve mais lembranças, não houve compaixão, não houve saudade alguma de minha pequena que partiu.

O passar dos meses até agora tem se mostrado tão cruel quanto aquela ventania que deitou a minha árvore. Sinto que quase diariamente sou jogado ao chão e calcado por ventanias e tempestades. Minha copa é tão minguada como a de minha pequena, e minhas parcas folhas se espalham na terra com o temor pelo que há de vir. Tenho medo e sei que todos temos. As tempestades e ventanias que enfrentamos ameaçam as raízes.

Enquanto pensava nisso, entre uma aula e outra, olhei para o chão onde vivia minha árvore. Cadê buraco das raízes? Foi coberto por uma graminha verde rasteira, brilhante e com cara de macia. Desde então, não paro de pensar na minha pequena. Acho que foi por isso que voltei a sentir pequenas cócegas verdes dentro do peito.

Sei que nada está perdido.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

.: “Eterna Promessa” expõe a frustração de um ex-boleiro diante da vida comum


Em romance de Leandro Marçal, João Pedro abandona o sonho dos gramados e encara a rotina de trabalhador enquanto tenta lidar com a carreira que poderia ter tido

Acordar cedo para cumprir o turno de 12 por 36 horas na portaria de um prédio na Ilha Porchat. Nos fins de semana, fazer um “bico” entregando pizzas para um estabelecimento da avenida Presidente Wilson, em São Vicente. No bairro Parque São Vicente, acompanhar as picuinhas entre vizinhos. Levar o filho ao colégio, resolver pendências do dia a dia e seguir a vida como tantos outros trabalhadores. Para João Pedro, o Jotapê, essa rotina aparentemente banal carrega uma dose generosa de frustração.

O personagem é o narrador de “Eterna Promessa”, sexto livro do escritor vicentino Leandro Marçal. Ex-quase jogador profissional, Jotapê viu o sonho de viver do futebol escapar entre uma lesão no joelho e problemas com um empresário. O que restou foi voltar à vida comum e procurar espaço no mercado de trabalho convencional, enquanto convive com a sensação de que poderia ter chegado muito mais longe. A história nasceu, segundo Marçal, da convivência com pessoas que também alimentaram o sonho de jogar futebol profissionalmente e acabaram seguindo outros caminhos. O livro será lançado neste sábado, dia 7 de novembro, das 14h00 às 18h00, na Rua Frei Gaspar, 1731, no Centro de São Vicente, no litoral de São Paulo.

“O João Pedro nasceu do convívio com uma galera que conheci ao longo dos anos. Gente que sonhou em jogar bola, em mudar a vida da família, mas não conseguiu seguir esse caminho por vários motivos. Porque assim como o mercado de trabalho convencional, o mundo da bola não é justo, nunca foi”, comenta Marçal. O romance acompanha esse personagem preso entre aquilo que viveu e aquilo que acredita que poderia ter vivido. Jotapê chegou a ser apontado como promessa nas categorias de base de clubes médios brasileiros, mas a combinação de uma lesão e de uma relação problemática com o empresário encerrou precocemente a possibilidade de uma carreira nos gramados.

A frustração, então, passa a fazer parte da vida adulta. Entre o trabalho, a família e as obrigações cotidianas, João Pedro carrega a memória de um futuro que nunca aconteceu. E, convenhamos, poucos fantasmas são tão insistentes quanto aquele famoso “e se?”. “É mais um livro ambientado na região, com o protagonismo de um cidadão comum, muito mais comum do que a gente imagina. Tem um monte de João Pedro por aí, contando a história de uma vida que não teve, quase incapaz de seguir em frente, sentindo-se superior a quem não tem suas supostas habilidades boleiras, carregando características não muito simpáticas do meio do futebol”, complementa o autor.

Publicado de forma independente, “Eterna Promessa” é o sexto livro de Leandro Marçal e foi viabilizado pelo Edital de Chamamento Público 01/2026 da Secult/SV, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Em 2025, o escritor publicou “Me Vê Dez Médias”, também de forma independente e com recursos de edital de fomento à cultura. Assim como o novo romance, a publicação mantém o olhar voltado para personagens e situações reconhecíveis da Baixada Santista, transformando a vida cotidiana da região em matéria-prima literária.


Serviço
Lançamento de “Eterna Promessa”, de Leandro Marçal

Sábado, dia 7 de novembro, das 14h00 às 18h00
Rua Frei Gaspar, 1731 – Centro – São Vicente/SP
Valor: R$ 30,00
Os pedidos podem ser feitos pelo site tireidagaveta.com.br/eterna-promessa, pelo e-mail marcal_91@hotmail.com ou pelas redes sociais, em @leandromp91.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

.: “Na Hora da Zona Morta” faz de dom paranormal um inquietante dilema


Suspense de David Cronenberg, baseado no romance de Stephen King, chega ao Belas Artes À La Carte com uma das atuações mais marcantes da carreira de Christopher Walken

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Christopher Walken interpreta um homem que acorda depois de cinco anos em coma e descobre que perdeu praticamente tudo o que dava sentido à antiga vida. A carreira de professor ficou para trás, a mulher que amava seguiu adiante e o mundo continuou funcionando durante o longo período em que ele permaneceu inconsciente. Em compensação, o personagem dele, Johnny Smith, ganhou um poder que ninguém em sã consciência pediria de presente: ao tocar em alguém, consegue enxergar acontecimentos do passado e possíveis acontecimentos do futuro. É a premissa de “Na Hora da Zona Morta”, produção de 1983 dirigida por David Cronenberg e baseada no romance homônimo de Stephen King, que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte.

A situação poderia facilmente descambar para uma aventura sobrenatural cheia de truques, sustos e explicações convenientes. Cronenberg prefere outro caminho. O extraordinário aparece integrado à rotina de Johnny, quase como uma extensão incômoda de sua existência. O personagem não ganha uma capa, tampouco passa a posar de salvador da humanidade. Continua sendo um homem abatido, confuso e ressentido, tentando descobrir o que fazer com aquilo que lhe aconteceu.

As premonições têm um efeito físico sobre ele, mas o que realmente pesa é saber coisas que os outros desconhecem e carregar informações que não podem ser simplesmente esquecidas. Uma das características mais interessantes da atuação de Walken está nessa mistura de fragilidade e desconforto, sem transformar Johnny em um herói convencional. A escolha do protagonista quase foi outra. Stephen King queria Bill Murray para interpretar Johnny Smith, mas o papel acabou nas mãos de Walken. Hoje, a escalação parece tão perfeitamente encaixada que é difícil imaginar o filme com outra pessoa. 

A produção ainda reúne Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst e Martin Sheen, este último especialmente memorável como Greg Stillson, um político ambicioso que cruza o caminho de Johnny. A Paramount confirma o elenco principal e credita Jeffrey Boam pelo roteiro, baseado no romance de King. O roteiro de Boam organiza a narrativa em episódios que acompanham diferentes situações provocadas pelo dom de Johnny. Ele ajuda pessoas, interfere em acontecimentos e tenta compreender os limites de sua própria capacidade. Entre esses momentos está a colaboração com o xerife Bannerman, vivido por Tom Skerritt, numa investigação envolvendo um assassino de mulheres. 

A estrutura poderia resultar em um filme fragmentado, mas Cronenberg mantém o fio emocional do protagonista enquanto conduz a história até o encontro decisivo com Stillson. O aspecto político ganha força quando Johnny toca a mão de Stillson e vislumbra um futuro de consequências catastróficas. A partir daí, a pergunta deixa de ser apenas o que fazer com uma capacidade paranormal e passa a envolver uma questão bem mais incômoda: até onde alguém pode interferir no destino de outra pessoa quando conhece aquilo que está por vir?

Cronenberg vinha de filmes como “A Ninhada” e “Videodrome”, obras fortemente associadas ao horror corporal e às deformações físicas. Em “Na Hora da Zona Morta”, o diretor trabalha de maneira mais contida. O próprio filme parece interessado em explorar o medo por dentro da cabeça de Johnny, deixando o fantástico conviver com uma atmosfera cotidiana. A percepção das habilidades paranormais também varia visualmente ao longo da narrativa, em vez de obedecer a um único recurso repetido. Essa escolha ajuda a manter as premonições estranhas sem transformá-las em mero espetáculo.

A paisagem de inverno contribui para a sensação de isolamento. Johnny está cercado por neve, casas, pequenas comunidades e pessoas aparentemente comuns, mas carrega informações que o afastam cada vez mais delas. Uma análise publicada pela Cinemateca Portuguesa sobre a obra de Cronenberg destaca justamente o caráter psicológico do filme e sua ambientação fora dos grandes centros urbanos.

Os bastidores também guardam algumas histórias curiosas. Para conseguir reações involuntárias de Walken durante as premonições, Cronenberg disparava, fora do enquadramento, um revólver Magnum .357 carregado com munição de festim. A ideia teria partido do próprio ator. O recurso ajudava a provocar os pequenos espasmos que o diretor queria registrar diante da câmera. 

Outra situação curiosa envolveu um boneco de “E.T. - O Extraterrestre”. Na primeira versão da cena em que Johnny presencia uma premonição envolvendo o quarto de uma menina, o brinquedo aparecia em uma prateleira. Como o personagem pertencia à Universal, a produção precisou refazer a sequência depois que o estúdio ameaçou tomar medidas legais. O boneco, definitivamente, não tinha poderes paranormais, mas quase conseguiu interferir no futuro do filme.

A relação com a literatura também aparece em uma brincadeira que ganhou uma segunda vida anos depois. Antes do acidente, Johnny orienta os alunos a lerem “The Legend of Sleepy Hollow”, de Washington Irving. Em 1999, Christopher Walken interpretaria o Cavaleiro Sem Cabeça em “A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça”, de Tim Burton. A coincidência transformou uma referência aparentemente casual em uma daquelas pequenas conexões que o cinema gosta de guardar para quem presta atenção.

A história de Johnny também tem uma curiosa ligação com Peter Hurkos, holandês que ficou conhecido por afirmar possuir poderes paranormais depois de sofrer uma queda e bater a cabeça. Hurkos dizia conseguir obter informações sobre outras pessoas por meio do toque, ideia que guarda evidente proximidade com a habilidade apresentada no filme.

Outro dado interessante está na própria trajetória de Cronenberg. “Na Hora da Zona Morta” foi seu primeiro grande sucesso de público, segundo a Cinemateca Portuguesa, e recebeu reconhecimento em festivais e premiações. O filme ganhou o Saturn Award de Melhor Filme de Terror em 1984, enquanto Walken, Cronenberg e Jeffrey Boam foram indicados nas categorias de atuação, direção e roteiro. Cronenberg também recebeu prêmios no Festival de Cinema Fantástico de Avoriaz, e a fotografia de Mark Irwin foi premiada pela Canadian Society of Cinematographers.

O longa-metragem tem ainda uma característica que ajuda a explicar sua permanência: o poder de Johnny nunca elimina sua condição humana. Ele continua sofrendo, hesitando, perdendo e fazendo escolhas cujas consequências não consegue controlar completamente. O sobrenatural serve, portanto, para apertar ainda mais o parafuso de uma história sobre culpa, destino, perda e responsabilidade. Com “Na Hora da Zona Morta”, Cronenberg encontrou uma maneira particularmente eficiente de adaptar Stephen King sem depender do excesso. O horror está naquilo que Johnny descobre quando toca alguém, mas também naquilo que ele gostaria de nunca ter visto.


Ficha técnica
“Na Hora da Zona Morta” | “The Dead Zone” (título original) | “Zona de Perigo” (título em Portugal).
Gênero: suspense, terror, ficção científica e drama psicológico. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 14 anos no Brasil; M/16 em Portugal. Ano de produção: 1983. Data de lançamento: 21 de outubro de 1983 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: David Cronenberg. Roteiro: Jeffrey Boam, baseado no romance de Stephen King. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Martin Sheen, Tom Skerritt, Herbert Lom, Anthony Zerbe, Colleen Dewhurst, Nicholas Campbell, Sean Sullivan e Jackie Burroughs. Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: “Prazeres Desconhecidos”: a juventude perdida na China em transformação


Longa-metragem de Jia Zhangke acompanha dois jovens desempregados em Datong e registra, com humor seco e olhar documental, os desejos, frustrações e contradições de uma geração diante da modernização chinesa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dois jovens desempregados passam os dias andando de moto, jogando conversa fora, assistindo televisão e tentando descobrir o que fazer da própria vida. Em meio a uma China que acelera rumo à modernização, Xiao Ji (Wu Qiong) e Bin Bin (Zhao Weiwei) parecem ter ficado para trás. É desse aparente vazio que Jia Zhangke constrói “Prazeres Desconhecidos”, longa-metragem que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision.

Terceiro longa dirigido pelo cineasta chinês, o filme acompanha os dois amigos em Datong, cidade industrial da província de Shanxi, durante 2001. O cenário ajuda a contar a história tanto quanto os personagens: prédios degradados, ruas em obras, fábricas, motocicletas, bares, karaokês e televisores ligados registram uma sociedade que começa a experimentar novas possibilidades econômicas e culturais. 

Xiao Ji se interessa por Qiao Qiao (Zhao Tao), cantora e dançarina que trabalha como garota-propaganda de uma empresa de bebidas alcoólicas. O problema atende pelo nome de Qiao San (Li Zhubin), namorado da moça, um sujeito envolvido com atividades criminosas e pouco disposto a aceitar a aproximação do rapaz. Bin Bin, por sua vez, vive uma relação cada vez mais distante com Yuan Yuan (Zhou Qingfeng), jovem que pretende deixar Datong para estudar comércio internacional em Pequim.

Enquanto os dois amigos perambulam pela cidade, a televisão anuncia acontecimentos que parecem pertencer a outro universo: a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, a candidatura de Pequim aos Jogos Olímpicos de 2008, acontecimentos políticos e episódios de violência. A vida particular dos personagens segue em outra velocidade, quase como se eles assistissem ao próprio país avançar pela tela sem saber muito bem onde se encaixar. O filme registra uma geração influenciada pela televisão, pela cultura pop ocidental e pelo desejo de consumo, mas que ainda vive cercada por estruturas sociais e econômicas bastante precárias. 

O título original, “Ren Xiao Yao”, remete a um conceito associado ao filósofo taoista Zhuangzi e pode ser compreendido como uma ideia de liberdade diante das restrições. A expressão também aparece ligada a uma canção pop bastante conhecida entre os jovens chineses naquele período. O curioso é que a busca por liberdade dos personagens frequentemente esbarra em dívidas, desemprego, relacionamentos complicados, violência e falta de perspectivas. O prazer anunciado pelo título está sempre por perto, mas raramente ao alcance deles.

A relação com a cultura norte-americana aparece de maneira divertida e, ao mesmo tempo, reveladora. “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, é citado pelos personagens, enquanto filmes, músicas, televisão e produtos estrangeiros compõem o imaginário de Xiao Ji e Bin Bin. Jia não trata essas referências como simples decoração: elas ajudam a mostrar como uma juventude de uma cidade provincial passa a construir seus desejos a partir de imagens vindas de um mundo muito maior.

A produção também guarda uma particularidade importante. “Prazeres Desconhecidos” foi o primeiro longa de Jia Zhangke filmado em vídeo digital. Segundo informações de produção reunidas pelo próprio diretor, a opção estava ligada às limitações de orçamento e tempo. O filme foi rodado em apenas 19 dias, e a câmera digital permitiu maior mobilidade para acompanhar as ruas de Datong.

A escolha estética combina com a história. Jia observa os personagens a uma certa distância, deixa as situações se desenvolverem e evita conduzir o espectador pela mão. Em vez de transformar cada conflito em grande acontecimento dramático, acompanha o cotidiano de pessoas que parecem não saber muito bem para onde ir. “Prazeres Desconhecidos” também encerra uma fase da carreira de Jia Zhangke. O longa é frequentemente associado a uma trilogia informal formada por “Xiao Wu”, “Plataforma” e este filme, dedicada a observar diferentes momentos de uma China em processo acelerado de mudança. A partir de “The World”, de 2004, o diretor passou a trabalhar dentro do sistema oficial de produção cinematográfica chinês.


Ficha técnica
“Prazeres Desconhecidos” | “Ren Xiao Vao” (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 113 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2002. Data de lançamento no Brasil: 23 de outubro de 2026. Idioma: mandarim. Direção: Jia Zhangke. Roteiro: Jia Zhangke. Elenco: Zhao Weiwei, Wu Qiong, Zhao Tao, Zhou Qingfeng, Wang Hongwei, Bai Ru, Liu Xi'an e Li Zhubin. Distribuição no Brasil: Imovision, pela plataforma Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 25 de outubro de 2026

.: "Perfume: A História de Um Assassino" trata solidão e desejo de ser amado

 

Cartaz de "Perfume: A História de Um Assassino"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


A alegoria sobre a solidão humana é a tônica de "Perfume: A História de Um Assassino", longa dirigido por Tom Tykwer ("A Luz"), sobrea vida de Jean-Baptiste Grenouille, personagem fictício que de tão bem estruturado convence a ponto de nas pesquisas na internet, o primeiro complemento para seu nome ser o verbo conjugado no passado: "existiu". O protagonista que nasceu no romance homônimo de Patrick Süskind, nasce na cidade de Grasse, em Paris, numa França suja e abandonada no século XVIII. 

Teimosamente, apesar de falta de higiene, ele resiste e sobrevive ali, num mercado de peixes. Rejeitado pela mãe, Jean-Baptiste cresce e apura o dom de um olfato sobre-humano, embora não tenha cheiro corporal próprio. Até que consegue emprego como aprendiz do perfumista Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman) aprende técnicas a ponto de superar o mestre na criação de essências. 

Obcecado por capturar o aroma perfeito da juventude feminina, por meio da maceração para extrair a gordura e o cheiro de suas peles, o impetuoso Jean-Baptiste assassina 13 jovens mulheres, incluindo o alvo principal, Laura Richis. Contudo, ele é capturado, julgado e condenado à morte. No entanto, antes da execução, desepeja em si o perfume supremo que elaborou. A poderosa fragrância automaticamente causa histeria coletiva de adoração e êxtase na multidão.

"Perfume: A História de Um Assassino" reflete a necessidade visceral de conexão por conta da solidão e a ausência dos limites do desejo. Reforçado justamente quando Jean-Baptiste percebe que o perfume supremo apenas faz as pessoas amarem a essência e não a ele, que segue sem um aroma próprio, sem identidade. Excelente filme que faz refletir quando alguém aparentemente diz gostar de você a ponto de guardar num potinho. Imperdível!


Filme: Perfume - A História de um Assassino. Diretor: Tom Tykwer. Roteiro: Andrew Birkin, Bernd Eichinger e Tom Tykwer, com base no romance homônimo de Patrick Süskind. Gênero: Thriller/Fantasia. Duração: 2h 27m. Classificação etária: 16. Estreia no Brasil: 26 de janeiro de 2007. Estreia na Alemanha: 14 de setembro de 2006. Sinopse: A adaptação cinematográfica do romance de Patrick Süskind de 1985 acompanha a vida de Jean-Baptiste, do nascimento, a apuração de seu dom até seu último suspiro.

Trailer de "Perfume: A História de Um Assassino"


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sábado, 24 de outubro de 2026

.: "As Filhas de Marvin" é emocionante clássico de sacrifício familiar; crítica

Cartaz de "As Filhas de Marvin"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O drama emocionante "As Filhas de Marvin" é pura sensibilidade que faz brilhar em cena um elenco de primeira com Meryl Streep ("Não Olhe Para Cima"), Diane Keaton (indicada ao Oscar de Melhor Atriz por este papel, "Do Jeito Que Elas Querem: O Próximo Capítulo"), Leonardo DiCaprio ("Assassinos da Lua das Flores") e Robert De Niro ("Coração Satânico"). O clássico que completa 30 anos, reúne duas irmãs afastadas. Enquanto Bessie (Diane Keaton) tem paciência no trato com o pai acamado e a tia (Gwen Verdon), e assume o posto de abnegada, Lee (Meryl Streep, indicada ao Globo de Ouro) é uma mulher desinteressada em apegos, uma vez que cria os filhos sozinha, tendo que lidar com o adolescente rebelde problemático.

No entanto, Bessie, a irmã cuidadora descobre estar com leucemia e procura Lee. Assim, a junção de doçuras doloridas se faz a cada dia de convivência, mesmo que deva ser por alguns dias. Afinal, a mãe e os filhos já tem a vida acertada longe dali. Contudo, o sobrinho adolescente, Hank (Leonardo Di Caprio), anteriormente internado após um incidente com fogo acaba deixando mais os nervos à flor da pele na família unida com o diagnóstico do doutor Wally (Robert De Niro).

Ao reunir uma família separada, "As Filhas de Marvin" trata o perdão após 20 anos de distanciamento, as dificuldades do envelhecimento, o sacrifício familiar e a leucemia. De texto marcante e um elenco que se entrega. Há ainda no filme dirigido por Jerry Zaks uma história de afeto que passa longe de ser um melodrama deprimente. Imperdível!


As Filhas de Marvin (Marvin's Room). Gênero: Drama, comédia dramática. Direção: Jerry Zaks. Elenco principal: Meryl Streep, Diane Keaton, Leonardo DiCaprio e Robert De Niro. Lançamento comercial amplo em 18 de dezembro de 1996 / 28 de fevereiro de 1997 nos EUA, chegando no Brasil em novembro de 1997. Sinopse: Acompanha a reunião de uma família distante após uma crise de saúde.

Trailer de "As Filhas de Marvin"



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