segunda-feira, 18 de maio de 2026

.: Lilia Cabral é a rainha roqueira no monólogo “Rita Lee: Balada da Louca”


Esta é a primeira imagem de Lilia Cabral como Rita Lee para o espetáculo “Rita Lee: Balada da Louca”, que estreia dia 22 de maio no Teatro FAAP. Foto: Miro/ divulgação


O espetáculo “Balada da Louca”, idealizado e escrito por Guilherme Samora, estreia em 22 de maio, no Teatro FAAP, em São Paulo. Baseado na segunda autobiografia de Rita Lee, o espetáculo “Rita Lee: Balada da Louca” traz Lilia Cabral recontando, nos palcos, os últimos anos da rainha do rock brasileiro. Rita faleceu em 2023, após um período de tratamento contra o câncer. “Sempre fui fã da Rita, que, para mim, é uma referência em tudo. Quando recebi esse convite, cheguei a perder um pouco o rumo — nunca havia pensado nessa possibilidade. Curiosamente, quando comentei com algumas pessoas, elas se surpreendiam e diziam que era uma junção de mundos maravilhosa”, conta a atriz.

O texto é de Samora, amigo de Rita e editor de seus livros: “A Rita apresentada neste monólogo assume a forma mais humana possível. Ela fala de finitude, de amor e da doença com uma coragem ímpar, sem dramas e, até mesmo, com humor. Só ela conseguiria algo assim. No instante em que tive a ideia, falei com Roberto (de Carvalho), que deu sua bênção da maneira mais generosa e cheia de luz. Então, pensei imediatamente em Lilia. Liguei para ela, que topou na hora. É uma honra ter essa atriz colossal, tão sensível, conosco.”

Beatriz Barros, que dirigiu a aclamada montagem de “O Avesso da Pele”, do coletivo Ocutá, é a diretora. “É muito especial que seja a Rita, e que ela esteja sendo representada em um espaço de intimidade, onde existe uma reflexão filosófica sobre temas tão importantes como a morte, o envelhecimento e a relação com a espiritualidade”, afirma Beatriz. A produção é da Brancalyone. “Como é difícil explicar a complexidade de fazer um espetáculo sobre Rita Lee. E como é fácil entender por que é possível realizá-lo: amor - por tudo o que Rita deixou como legado!”, diz Edinho Rodrigues, diretor de produção. “Esse projeto nos aproxima ainda mais da Rita. É como se pudéssemos sentir sua energia, sentir-nos mais íntimos dela”, afirma Vanessa Campanari, diretora de produção. 

O projeto conta com a Elo como apresentadora exclusiva e é viabilizado pela Lei Rouanet. “Como marca apoiadora incondicional da cultura brasileira, a Elo acredita no poder das histórias que nos formam, nos emocionam e nos conectam enquanto sociedade. Estar presente em uma peça realizada por um time tão espetacular é, para nós, uma forma de celebrar a arte e reconhecer o legado de uma das maiores artistas da nossa história, uma brasileira extraordinária cuja trajetória continua inspirando gerações pela sua coragem, autenticidade e liberdade criativa”, afirma Jade Chemin, gerente executiva de marketing da Elo.

A data de estreia, 22 de maio, é especial: é o dia que Rita escolheu para celebrar seu aniversário - ela nasceu em 31 de dezembro, véspera de Ano-Novo, e queria uma data mais “normal” para comemorar. Escolheu, então, o dia de Santa Rita de Cássia. Por isso, desde 2024, 22 de maio foi instituído pela Câmara Municipal como o Dia de Rita Lee na cidade de São Paulo.


Sinopse de "Rita Lee: Balada da Louca"
Ao ser diagnosticada com câncer de pulmão, em 2021, Rita Lee decidiu escrever uma espécie de diário, que acabou se tornando o segundo volume de sua autobiografia. O livro, intitulado "Rita Lee: Outra Autobiografia", foi lançado em 2023. A obra agora se transforma em "Rita Lee: Balada da Louca", um monólogo corajoso centrado nos últimos e desafiadores anos do grande ícone da MPB, com Lilia Cabral como a rainha roqueira, em um projeto idealizado e escrito por Guilherme Samora. Assim como no texto original, a peça, dirigida por Beatriz Barros, traz as grandes marcas de Rita: a franqueza crua - ora chocante, ora irônica, ora sutil e amorosa.


Ficha técnica
Espetáculo "Rita Lee: Balada da Louca"
Texto: Guilherme Samora
Direção geral: Beatriz Barros
Elenco: Lilia Cabral
Direção Musical: Dani Nega
Figurinista: Walério Araujo
Visagismo: Leo Pacheco
Iluminação: Ana Luzia Molinari de Simoni
Cenografia: Pedro Levorin
Assistência de direção: Sol Menezzes
Design e social media: Malu Francini
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Direção de produção: Edinho Rodrigues e Vanessa Campanari
Realização: Brancalyone Produções e Pipoca Comunicação
Apresentador exclusivo: Elo


Serviço
"Rita Lee: Balada da Louca"
Temporada: 22 de maio a 9 de agosto 
De sexta a domingo. Sextas e sábados às 20h e domingo às 17h.
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 12 anos
Ingressos geral: R$ 180,00 (inteira) / R$ 90,00 (meia); Ingresso social: R$ 50,00 (inteira) / R$ 25,00 (meia); Cliente cartões Elo + 1  acompanhante: 10% de desconto.

.: Crítica: "Não Fale o Mal" entrega tensão pura com McAvoy demoníaco


Por 
Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do portal Resenhando.com

As aparências enganam e podem até custar a vida de quem nelas acredita, mesmo quando são completamente mentirosas. "Não Fale o Mal", dirigido por James Watkins leva uma família composta de pai, mãe e filha, da movimentada Londres até a exuberante Itália. Contudo, os segredinhos e dificuldades dos três, Ben Dalton (Scoot McNairy), Louise Dalton (Mackenzie Davis) e Agnes (Alix West Lefler) são as pontas soltas que unidas pelo vilão fazem a trama de puro suspense caminhar prendendo a atenção do público gerando total curiosidade quanto ao desfecho. O filme é um dos mais assistidos da plataforma de streaming Reserva Imovision.

Assim, na linda Itália, a família Dalton conhece os alegres e sempre harmoniosos Paddy (James McAvoy) e Ciara (Aisling Franciosi), também pais, mas de um menino, o Ant (Dan Hough) que tem um problema na fala. Envolvidos, os Daltons acreditam estabelecer uma amizade sincera a ponto de visitar por alguns dias o outro casal no sítio em que vivem.

Dependente emocional de um coelhinho de pelúcia, Agnes leva o brinquedo com ela e é justamente por causa dele que a família mergulha profundamente numa história de luta pela sobrevivência, enquanto que lidam com a própria transfiguração do demônio na Terra. Por vezes, a dúvida sobre o que vai acontecer na sequência faz roer as unhas, uma vez que as reviravoltas são chocantes.

Não há como negar, James McAvoy é incrivelmente talentoso de tão versátil que é. Num show de atuação como o insano Paddy, no remake do longa dinamarquês de 2022, é quem dita o ritmo da trama, dando destaque também para Mackenzie Davis brilhar em cena. Ela que se mostra muito mais valente e necessária na história do que seu marido, interpretado por Scoot McNairy.

As crianças também foram sabiamente escaladas, não deixando uma cena que seja soar falsa. A dupla, Alix West Lefler e Dan Hough complementam à altura cada momento de tensão, mesmo quando Ant tenta fazer revelações e Agnes não as entende por completo. 

Tendo a Blumhouse envolvida, "Não Fale o Mal" é certamente uma recente produção de qualidade no patamar do fabuloso "O Telefone Preto", embora no novo filme haja força maior de um terror social, longe de espíritos. E ainda tem a música "Eternal Flame", da banda The Bangles para tornar tudo ainda mais sinistro e um pouquinho romântico. Filmaço imperdível! 

Ficha técnica
"Não Fale o Mal"
| "
Speak No Evil" (título original)
Gênero: terror. Classificação: 18 anos. Duração: 1h50. Ano: 2024. Distribuidora: Universal Pictures.
Direção: James Watkins. Roteiro: James Watkins. Elenco: James McAvoy (Paddy Field), Mackenzie Davis (Louise Dalton), Aisling Franciosi (Ciara Field). Sinopse: Uma família anseia em passar suas férias no campo. Contudo, o que era pra ser um sonho em família para relaxarem e descontraírem, acaba virando um terrível pesadelo. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Clássico, "Trapézio" transforma o amor em risco mortal no alto do picadeiro


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o drama “Trapézio” é um clássico de apelo popular que equilibra espetáculo e melodrama sob o risco constante da queda. Dirigido por Carol Reed, cineasta consagrado por “O Terceiro Homem”, o longa-metragem é baseado no romance “The Killing Frost”, de Max Catto, com roteiro assinado por James R. Webb e adaptação de Liam O’Brien. No centro da narrativa, Burt Lancaster interpreta Mike Ribble, um trapezista marcado por um acidente que interrompeu sua carreira no auge. A entrada de Tino Orsini (Tony Curtis), jovem ambicioso disposto a aprender o perigoso triplo mortal, reativa não só o talento, mas também as feridas do veterano. A equação se complica com a chegada de Lola (Gina Lollobrigida).

No romance original, as relações entre os personagens sugerem camadas de desejo e conflito que o cinema dos anos 1950 não poderia explicitar. O filme suaviza essas tensões, mas não as elimina por completo. Elas permanecem ali, insinuadas, como um movimento interrompido no ar. O filme se ancora em uma estrutura aparentemente simples - o triângulo amoroso - para tensionar temas mais espinhosos, como ambição, vaidade e traição. Para além da superfície romântica, há uma disputa silenciosa por protagonismo, reconhecimento e sobrevivência em um ambiente onde o erro custa caro. 

A produção foi filmada majoritariamente no Cirque d’Hiver, em Paris, o que confere autenticidade às sequências circenses. Lancaster, que antes da carreira no cinema havia sido acrobata, realizou boa parte das próprias cenas, insistência que resultou, inclusive, em uma lesão nas costas durante as filmagens, atrasando a produção. Ainda assim, o ator manteve-se envolvido nas sequências mais exigentes, reforçando a dimensão quase obsessiva de seu personagem.

Visualmente, “Trapézio” explora o contraste entre o brilho do espetáculo e a precariedade dos bastidores. A fotografia de Robert Krasker - colaborador de Reed em “O Terceiro Homem” - aposta em enquadramentos vertiginosos que simulam a perspectiva do próprio trapezista: olhar para baixo nunca foi tão desconfortável. O uso do Technicolor intensifica esse jogo entre fascínio e perigo, transformando o picadeiro em palco de ilusões e conflitos.

Recebido com entusiasmo pelo público da época, o filme figurou entre as maiores bilheterias de 1956 nos Estados Unidos e teve desempenho expressivo também no Reino Unido. A crítica, por outro lado, dividiu-se. Enquanto vozes como a da revista The New Yorker destacaram a energia da direção e o magnetismo de Lancaster e Lollobrigida, o The New York Times, em texto de Bosley Crowther, considerou a trama previsível e os diálogos pouco inspirados. 


Ficha técnica
“Trapézio” | "Trapeze" (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 1h45. Classificação indicativa: livre (à época, equivalente ao selo Approved). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês, italiano. Direção: Carol Reed. Roteiro: James R. Webb, Liam O’Brien (baseado em obra de Max Catto). Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gina Lollobrigida, Katy Jurado, Thomas Gomez. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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domingo, 17 de maio de 2026

.: Rei Lear no teatro, Alexia Twister leva Shakespeare ao risco e quebra tradição


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Não é exatamente um gesto discreto escalar uma drag queen para viver "Rei Lear" como centro de gravidade de uma tragédia que ainda costuma ser tratada com luvas no teatro brasileiro. A escolha desloca mais do que a encenação: mexe na ideia de autoridade, na forma como o poder se apresenta em cena e no tipo de corpo que se autoriza a desbravar esse repertório.

Em “Rei Lear”, montagem dirigida por Inês Bushatsky a partir da adaptação de João Mostazo, Alexia Twister assume o papel-título sem buscar neutralidade. O que aparece é outra camada de leitura: mais exposta, mais direta, sem a blindagem que costuma acompanhar o clássico. A tragédia permanece, mas ganha novas tensões quando passa por uma linguagem que surgiu fora das instituições e aprendeu a operar no confronto. O que se vê é um reposicionamento: trazer o texto de volta ao risco, ao contato com o público, à instabilidade que sempre esteve ali. 

Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, Alexia Twister fala de técnica, de trajetória e do que acontece quando o reconhecimento institucional cruza com uma linguagem que nunca se acomodou totalmente dentro dele.


Resenhando.com - "Ao assumir o papel-título de Rei Lear, você não apenas interpreta um rei - você implode uma tradição. Em que momento você percebeu que não estava “ocupando” o personagem, mas reescrevendo o próprio imaginário de poder no teatro?

Alexia Twister - Muito boa a pergunta. Implodir tradições, é o trabalho da drag. Reescrever o imaginário social, a binariedade já é o que a drag faz em si. Subverte o que é dito "de homem" e o que é " de mulher", e ainda questiona com humor: - Quem foi que te disse que não pode? A drag já contém esta linguagem transgressora e popular. Então... penso que já estava posto, era esta a proposta. E se o fiz de maneira a humanizar esta personagem de quatrocentos anos, devo a Inês Bushatsky, nossa diretora, João Mostazo quem adaptou o texto do Shakespeare, e claro ao elenco todo. Tive muita troca com artistas como eu e isso faz toda a diferença.


Resenhando.com - Existe algo de perigosamente arriscado em colocar uma drag queen para viver a ruína de um patriarca. O que em William Shakespeare ainda resiste - e o que já não sobrevive - quando é atravessado pelo seu corpo em cena?

Alexia Twister - Eu penso que Shakespeare é popular e a drag também. A comédia e a tragédia estão na drag e em Shakespeare.

O patriarca ser representado pela drag é propor amplamente questões ligadas a sociedade. Propor novas, outras representações. Não somente de poder e patriarcado, mas de masculinidade também. Eu acredito que a ideia de teatro burguês colocou Shakespeare e outros autores clássicos em um lugar elitista, quando a verde é que Shakespeare é a inspiração para outras histórias populares até hoje. E com a linguagem drag, aproximamos as pessoas dos textos clássicos. Tem muita tragédia no glamour. E é aí que eu me encontro. Em uma história tão humana, que nos identifica e atravessa o tempo e a linguagem. Nos tempos de Shakespeare, ir ao teatro era um grande evento, que durava o dia todo e as vezes chegava até a noite. A locomoção das pessoas era longa e complicada, então tinha que ser longo. Hoje, com tantas mídias, o entretenimento e a arte precisaram atualizar suas diretrizes. Mas ainda há espaço para contar boas histórias clássicas, sem perder a essência real da ideia inicial.


Resenhando.com - Você insiste que a drag não é ornamento, mas linguagem. O que ainda falta para que o teatro brasileiro pare de tratar corpos dissidentes como estética e passe a respeitá-los?

Alexia Twister - Existem muitos fatores que colaboram para um pensamento, digamos, mais conservador no teatro. Podemos falar sobre uma hierarquia teatral, onde a comédia me parece considerada menor que a tragédia. E há um pensamento "cômico " que envolve a drag. Outro ponto fala sobre a nascente da arte transformista. Hoje temos mulheres cisgênero, que são drag queens, mas sabemos que antes era uma arte inteiramente ligada a homens gays e mulheres trans e travestis. E infelizmente há este preconceito dentro do teatro mais tradicional. Penso que a lingua é um organismo vivo, que expressa a nossa necessidade de comunicação. Por tanto, ela se transforma moldada a imagem e necessidades da nossa sociedade.


Resenhando.com - Sua trajetória começa quando “drag queen” ainda era chamada de "transformista". O que se perdeu - e o que se sofisticou - nesse deslocamento de nome e de percepção?

Alexia Twister - Eu gosto muito do termo transformista, porquê é um termo latino, nosso. O termo "drag queen" vem da gringa, ainda nos anos 80, no final desta era. Mas vem com uma nova roupagem acerca da arte transformista. Eu costumo dizer que são termos diferentes para a mesma arte, mais uma maneira diferente de "contar a mesma história". Alguns dirão que a drag é o exagero e a transformista não. Outros dirão que drags são mais coloridas, transformistas tem a maquiagem mais baixa. Mas nem sempre esses conceitos são seguidos... Por isso eu acho ótimo. Porquê tudo se torna mais subjetivo ainda. Algo como a arte, que fala da verdade de um artista. Com sua assinatura e conceito próprios. De verdade.


Resenhando.com - Há um momento em "Rei Lear" em que tudo desaba: poder, sanidade, afeto. Como Alexia Twister negocia, em cena, a linha tênue entre performance e colapso real?

Alexia Twister - Lear, sem dúvida é a personagem mais complexa que já tive a oportunidade de viver, pelo menos até aqui. São nuances, quebras e tudo isso a gente sustenta através da técnica. De um pensamento interno, a parte do artista, mas criado a partir dele, que pensa e age como Lear. Criado com base nos meus estudos e meu arcabouço particular de experiências. Que tem fonte interna, mas que quer chegar ao público com verdade.


Resenhando.com - Ao ganhar o Prêmio Shell, você entra para uma história que sempre pareceu não ter espaço para corpos como o seu. O reconhecimento institucional domestica a radicalidade da sua arte ou a amplia?

Alexia Twister - Não creio que domestique a minha arte. Acredito que crie uma nova realidade a partir desta conquista. Que não é só minha, mas de toda uma ancestralidade que me trouxe até aqui. E a partir disso, eu construo um novo lugar, de onde será possível chegar pelas gerações futuras. Claro, o caminho nem sempre é dentro de um pensamento constante. Mas ter ganho um prêmio tão importante, torna-se um marco de possibilidades, ampliando o leque de manifestações artísticas que utilizam a arte drag como expressão. 


Resenhando.com - Existe um risco de a arte drag, ao ganhar visibilidade e aplauso, ser absorvida pelo mesmo sistema que antes a marginalizava. Em que medida o sucesso de Alexia Twister ainda consegue ser subversivo e quando ele começa a ser conveniente demais?

Alexia Twister - Ótima pergunta. Eu vejo que isso já acontece. E claro a drag torna-se um produto interessante e consumível. Mas como costumo dizer. Quem viu uma drag, definitivamente não viu todas as drags. E ao mesmo tempo que ela ocupa o streaming, ocupa o bar, a boate, a escola, o teatro, a cozinha. O encanto da subjetividade da drag , em si, reconstrói em esfera totalmente diferentes a subversividade da nascente drag.


Resenhando.com - Entre a boate, o streaming e o teatro, sua carreira atravessa espaços que operam com lógicas muito distintas de público e validação. Em qual área sua arte corre mais risco?

Alexia Twister - É interessante, mas não vejo risco na arte drag. Digo na área de atuação. Porque na vida, o risco a violência é constante e real. Boate, streaming, teatro são áreas distintas de ação. Para cada uma um caminho diferente. Talvez por ser uma arte com apelo visual tão forte, no realismo a drag pode sofrer mais alterações, para caber dentro desta estética. Mas mesmo assim, a drag ainda cabe.


Resenhando.com - Ao levar "Rei Lear" para um elenco inteiramente drag, há um jogo entre excesso e contenção. Como você equilibra o gesto grandioso da drag com a densidade trágica de Shakespeare sem cair na caricatura?

Alexia Twister - Eu tenho a boa sorte de uma boa direção. A Inês Bushatsky, nossa diretora compreende e sabe como mesclar muito bem o exagero da drag com a densidade da tragédia. Outro ponto é o texto. Para além do texto do Shakespeare, a adaptação de João Mostazo, se mantém fial ao texto original, mas nos dá indicações de onde propor a drag. E justamente por ser popular, que a drag tem oportunidade de brilhar em textos clássicos.


Resenhando.com - Depois de 30 anos de drag e mais de três décadas de palco, o que ainda assusta você, e o que você faz com esse medo quando as luzes acendem?

Alexia Twister - Eu penso que o próprio medo de quando as luzes se acendem é o que me sustenta. O questionamento a cerca de uma personagem que nasce a partir do texto e do olhar da direção e de elementos da minha experiência e técnica. Como dizem grandes veteranos, quando achar que sabe tudo é porquê ainda há muito o que aprender. Poucas coisas assustam quem faz da arte drag o seu "como". A mentira escolhida para a sua expressão artística. Porque antes de tudo, ser drag queen, já é um ato de resistência. E para resistir é preciso coragem e amor.

sábado, 16 de maio de 2026

.: As revelações de Marisol Marcondes, estrela do musical “Flashdance”


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Há uma geração inteira de atrizes do teatro musical brasileiro que cresceu sendo treinada para a perfeição técnica. Marisol Marcondes parece interessada em outra camada: profundidade. Ela fala de palco como quem conhece as dores e as delícias de permanecer em cena, não existe verniz nessa relação. Aos 14 anos de teatro musical, depois de passar por montagens que vão de “Cabaret” a “Billy Elliot”, de “A Família Addams” a “Se Essa Lua Fosse Minha”, ela chega ao centro de “Flashdance” sem ansiedade. Nascida exatos 29 anos da estreia de "Nasce Uma Estrela" com Lady Gaga no cinema, ela é uma artista em ascensão e sabe brilhar.

No Teatro Claro Mais SP, diante de uma personagem que atravessa jornadas duplas, contas, desejo e exaustão, Marisol apresenta menos uma heroína pop dos anos 1980 do que uma mulher acostumada a negociar sonhos com boletos vencidos. A Alex Owens dela dança e sobrevive, é uma protagonista real. Talvez venha daí a impressão de perigo que ela carrega no palco, mesmo nos momentos de maior controle vocal. Nada soa excessivamente calculado diante da inteligência de cena, escuta, senso de conjunto que ela oferece. 

Não por acaso, ela passou por produções dirigidas por nomes como Miguel Falabella, dividiu montagens com Vanessa da Mata, Marisa Orth, Daniel Boaventura, Ícaro Silva e Dan Stulbach, sem perder uma característica rara em artistas acostumados a grandes produções: a própria identidade. Fora do palco, a conversa muda de ritmo sem perder densidade. Marisol cita Conceição Evaristo, Whitney Houston, Clarissa Pinkola Estés, Lin-Manuel Miranda e Chiquinha Gonzaga com a mesma naturalidade de quem fala sobre soltar pipa, praia, café com leite ou jogar videogame. 

Entre uma resposta e outra, aparecem política, espiritualidade, precarização da arte, democracia, afeto e a recusa em transformar cinismo em maturidade. No retorno da coluna #ResenhaRápida, com exclusividade ao portal Resenhando.com, a atriz fala sobre corpo em exposição, musical popular sem superficialidade, mulheres que ocupam espaços e o tipo de paixão que ainda faz alguém escolher o teatro todos os dias, mesmo sabendo exatamente o preço disso.

#ResenhaRápida com Marisol Marcondes

Nome completo: Marisol Marcondes Ferraz Prado. 
Apelidos: Sol, Solzinha, Sea&Sun e muitos outros.
Data de nascimento: exatos 29 anos antes do filme "Nasce Uma Estrela" (com a Lady Gaga) estrear aqui no Brasil (risos).
Altura: 1,61m.
Número do sapato: 35.
Qualidade: lealdade.
Defeito: vários.
Signo: Libra.
Ascendente: Aquário.
Uma mania: me hidratar de todo jeito o tempo todo.
Religião: bom pra quem sabe usar. A minha se chama Amor.
Time: seleções brasileiras de vôlei.
Amor: o que eu mais amo dar.
Sexo: conexão .
Mulher bonita: a que se ama.
Homem bonito: o que respeita.
Família é: quem pode contar comigo e que eu também posso contar.
Ídolo: tenho não.
Inspiração: a Babynha, vulgo minha mãe.
Arte é: pra incomodar os acomodados e acalentar os inconformados.
Brasil: é onde eu pretendo permanecer.
Fé: é o que nos move 24 horas por dia.
Deus é: um mistério, mas o encontrei duas vezes no mar.
Política é: perigosa se manipulada por egoístas sobre um povo ingenuamente apaixonado.
Personalidade histórica favorita: Chiquinha Gonzaga.
Hobby: jogar joguinhos, soltar pipa, ir a parques, rir com quem eu amo...
Lugar: praia. Mas não é onde, é com quem...
O que não pode faltar na geladeira: energia elétrica.
Prato predileto: cheio de comida.
Sobremesa: papo de anjo, ambrosia e brigadeiro.
Fruta: manga.
Bebida favorita: café com leite.
Cor favorita: magenta.
Medo de: tanta coisa.
Uma peça de teatro: "Se Essa Lua Fosse Minha".
Um show: que me faça dançar e esquecer um pouquinho do mundo.
Uma atriz: Viola Davis.
Um ator: Aílton Graça.
Uma cantora: Whitney Houston.
Um cantor: Michael Jackson.
Uma escritora: Conceição Evaristo.
Um escritor: Vitor Rocha.
Um filme: "Pecadores". 
Um livro: "Ciranda das Mulheres Sábias", de Clarissa Pinkola Estés.
Uma música: "Caçador de Mim", de Milton Nascimento.
Um disco: "Holy Land", Angra.
Um personagem: Bella Baxter ("Pobres Criaturas").
Uma novela: "Hoje É Dia de Maria" era série, né? 
Uma série: "This Is Us".
Um programa de TV: "Altas Horas".
Uma saudade: infelizmente sei que vai apertar.
Algo que me irrita: ver alguém mentindo na minha frente.
Algo que me deixa feliz é: ver quem eu amo se realizando.
Uma lembrança querida: de uma festinha surpresa que fizeram pra mim no quarto de uma amiga, na minha adolescência.
Um arrependimento: grazadeusa nenhum.
Quem levaria para uma ilha deserta? A Tempestade (Marvel) pra gente trocar ideia, tomar um sol, e eu me segurar nela e a gente sair de lá e ir pra onde quiser em segundos.
Se pudesse ressuscitar qualquer pessoa do mundo, seria... Ella Fitzgerald pra conversar com ela e ouvi-la cantar ao vivo.
Se pudesse fazer uma pergunta a qualquer pessoa do mundo, seria Perguntaria pro Lin Manuel Miranda como é que faz pra ser um gênio. 
Não abro mão de: compartilhar coisas que gosto.
Um talento oculto (aquilo que poucas pessoas sabem que você faz bem): ah, acho que só elas saberão dizer...
Você tem fome de quê? Atrações e aulas artísticas acessíveis.
Você tem nojo de quê? De quem ganha dinheiro em cima da miséria e da fé alheia.
Se tivesse que ser um bicho, seria: uma águia.
Um sonho: ter uma vida confortável e dar conforto pra quem eu amo trabalhando em várias frentes artísticas.
O que me tira do sério: injustiça.
Democracia é: uma luta constante.
Ser mulher, hoje, é: uma honra.
O que seria se não fosse atriz: psicanalista.
Ser atriz é: uma responsabilidade deliciosamente agridoce.
Cinema em uma palavra: transcendental.
Teatro em uma palavra: coliseu.
Televisão em uma palavra: espelho.
Alex Owens em uma palavra: paixão.
"Flashdance" em uma palavra: entrega.
Frase favorita: "Quando uma pessoa vive de verdade, todas as outras também vivem" (Clarissa Pinkola Estés).
Palavra favorita: oxe.
Marisol Marcondes por Marisol Marcondes: uma alma paciente que ri dos capotes da vida e não sabe desistir.


Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: até dia 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h00; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: "Romeu e Julieta" moderno, "Salem" estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Cinco anos depois de incendiar a Croisette com "Shéhérazade", o diretor francês de origem armênia Jean-Bernard Marlin retornou ao Festival de Cannes com "Salem", exibido na mostra Un Certain Regard, ampliando o seu território estético e temático, filme que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Se antes o cineasta mergulhava no naturalismo quase documental das periferias de Marselha, agora ele tensiona essa mesma realidade com uma camada de misticismo que desloca o filme para uma zona híbrida entre o real e o sobrenatural.

A trama acompanha Djibril, um jovem ligado a uma gangue que tenta sobreviver às rivalidades históricas entre bairros marginalizados da cidade. A narrativa se estrutura, inicialmente, como uma tragédia amorosa de contornos shakespearianos - uma evocação direta de "Romeu e Julieta" - ao colocar em cena o romance entre o protagonista, de origem comoriana, e Camilla, uma jovem cigana. O conflito entre comunidades organiza o destino dos personagens com a inevitabilidade típica das grandes tragédias. Marlin, assumidamente fascinado por Shakespeare, constrói esse primeiro ato com precisão clássica, ainda que inserido em um ambiente urbano degradado, de terrenos baldios e edifícios semiabandonados, que funcionam como extensão simbólica do abandono social e afetivo.

O que distingue "Salem" de seu antecessor, no entanto, é a virada narrativa que transforma o filme em uma experiência sensorial e espiritual. Após um evento traumático e uma passagem pela prisão - elemento recorrente na filmografia do diretor - Djibril passa a acreditar que é capaz de ouvir espíritos e interpretar sinais divinos, assumindo uma dimensão quase messiânica. A ideia de uma maldição, proferida por um rival em seus últimos suspiros, atravessa o enredo e reorganiza a lógica do filme, que passa a operar sob o signo da dúvida: trata-se de delírio, fé ou herança invisível transmitida entre gerações?

Marlin, que coassina o roteiro com Jeanne Aptekman e Agnès Feuvre, trabalha com um elenco majoritariamente composto por atores não-profissionais - Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim e Wallenn El Gharbaoui - escolhidos após um processo de casting que durou cerca de dez meses. A aposta no frescor e na vivência desses intérpretes reforça a dimensão orgânica da narrativa, ainda que, em alguns momentos, o filme opte por uma estilização que suaviza a brutalidade vista em "Shéhérazade". Há, aqui, uma ambição estética mais evidente: a câmera frequentemente estática, os momentos oníricos e a trilha que flerta com o hipnótico indicam um diretor interessado em expandir sua linguagem.

Curiosamente, o próprio título "Salem" carrega ambiguidades que dialogam com o filme: em árabe, pode significar “paz”, mas também funciona como saudação cotidiana, algo entre o “olá” e o “bom-dia”. Essa polissemia ecoa na narrativa, que oscila entre o desejo de reconciliação e a permanência do conflito. A Marselha retratada por Marlin segue sendo um território de fronteiras invisíveis, onde identidades se chocam e se reinventam, e onde a herança cultural - seja ela religiosa, étnica ou simbólica - molda destinos.


Ficha técnica
“Salem”
Gênero: drama / fantasia.Duração: 103 minutos (aprox.). Classificação indicativa: 16 anos (estimada)
Ano de produção: 2023. Idioma: francês. Direção: Jean-Bernard Marlin. Roteiro: Jean-Bernard Marlin, Jeanne Aptekman, Agnès Feuvre. Elenco: Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim, Wallenn El Gharbaoui Distribuição no Brasil: Circuito de arte / independente. Cenas pós-créditos: não.


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.: Crítica musical: Luis Sérgio Carlini, a essência do rock nacional


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Se havia alguém que pudesse ser representatiuvo para a essência do nosso rock nacional, creio que o nome de Luis Sérgio Carlini deveria sempre ser lembrado como um dos arquitetos desse estilo musical. Foi mesclando elementos de blues com rock ´n roll e de psicodelia dos anos 60 que ele moldou seu inigualável timbre  na guitarra, reconhecido logo no primeiro acorde. A notícia de seu falecimento me pegou de surptesa. Sabia que ele vinha sendo o guitarrista da banda de Guilherme Arantes, com quem já vinha trabalhando desde os anos 80 (vide o disco "Coração Paulista"). Ao que parece, ele vinha enfrentando problemas de saúde há algum tempo.

Minha lembrança afetiva com o som da guitarra de Carlini veio do álbum "Fruto Proibido". Nele, Carlini está simplesmente impecável em todas as faixas, além de assinar a autoria de algumas delas. "Agora Só Falta Você", por exemplo.. Sim eu sei que o disco é da Rita Lee. Mas sem a guitarra de Carlini tudo desmoronaria, sem sombra de súvida. Sobre o solo antológico de "Ovelha Negra", há depoimento de Carlini que conta ter sonhado com a sequência de notas. Gravou um único take e quando se preparava para gravar novamente foi impedido pelo produtor do disco, Andy Mills, que disse - "Não vai mexer em mais nada. O solo é esse mesmo".

Além de Rita Lee e Guilherme Arantes, Carlini teve trabalhos com vários outros nomes conhecidos, como Erasmo Carlos e Barão Vermelho, só pra citar dois exemplos. Carlini, juntamente com os irmãos Baptista (dos Mutantes) e Vecchione (da banda Made In Brazil) foi um digno representante do nosso rock nacional. Em um tempo em que roqueiro brasileiro tinha cara de bandido. Através do seu inconfundível timbre, ele ajudou a abrir caminhos e influenciou uma nova geração de músicos que viria logo a seguir, invadindo as rádios nos anos 80.

"Ovelha Negra"

"Agora Só Falta Você"

.: Crítica musical: Giovani Cidreira lança album ao vivo


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O cantor e compositor baiano Giovani Cidreira celebra uma década de trajetória com o lançamento de “Coração Disparado (Ao Vivo)”, álbum gravado integralmente ao vivo na Casa de Francisca, em São Paulo, e disponibilizado nas plataformas digitais. O projeto foi antecipado pelo single “Denga”,que foi lançado ainda em março. Também no último dia 10 de março, Giovani Cidreira participou do Tiny Desk Brasil, reafirmando sua presença entre os nomes mais relevantes da nova geração da música brasileira e ampliando o alcance de sua obra para novos públicos.

Mais do que registrar um espetáculo, o disco nasce diretamente do palco. Em vez de tratar a performance como extensão do álbum, Cidreira faz o caminho inverso: o encontro com o público é o ponto de partida da criação. No centro da cena estão voz e violão, em arranjos que valorizam a proximidade sonora, a respiração da interpretação e a escuta compartilhada. 

 Cada apresentação funciona como uma experiência singular, em que silêncio, presença e participação da plateia moldam o acontecimento musical. Essa dimensão coletiva também atravessa o registro audiovisual do projeto: parte das imagens utilizadas nos vídeos e conteúdos visuais foi produzida pelos próprios espectadores, incorporando o público como personagem e também como criador.

 O repertório reúne canções inéditas e releituras que atravessam a formação afetiva de Giovani, dialogando com ritmos nordestinos e com elementos de seu território de origem, sem recorrer a enquadramentos regionalistas. A proposta é recolocar a canção brasileira em primeiro plano, ressaltando sua força melódica e sua dimensão popular contemporânea.

Giovani Cidreira - "Denga"

.: Manual Crônico: Nome de garçom... Bastião, meu chapa, traz mais uma!


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site 
Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


O universo já esteve em minhas mãos. Como já não sou garçom, ele não está mais. Pois, ser garçom imprime no sujeito uma universalidade rara de alcançar. Em mim, durou cerca de seis meses, e nada mais.

Se o amigo não sabe, o garçom atende por vários nomes, ainda que nenhum conste em sua certidão de batismo. Um bom frequentador de restaurantes, botecos, pizzarias e frege-moscas que se preze tem o dom de olhar para aquele que carrega a bandeja e dar-lhe um nome. Não um nome qualquer, mas aquele que mais convém ao momento. Pode ser João, pode ser Severino, Luiz (mas tem que ser com Z), Manuel (com U), Zé Carlos, Ubaldo etc. Não há regra. Há o instante, a cara do garçom, e a inspiração.

Eu já tive alguns, poucos. Garanto que fui um garçom mais ou menos, e, portanto, recebi certas alcunhas. A única mancha verdadeira em meu currículo é não ter servido num boteco do tipo “copo-sujo”, pois este é o auge da carreira de qualquer garçom. É nele que se alcançam os codinomes mais sublimes, colecionam-se os mais criativos heterônimos, angariam-se os mais perfeitos apelidos, ou, se o leitor tiver alma de artista, pseudônimos.

Digo isso porque os frequentadores dos copo-sujos — ou frege-moscas — são os melhores que há. Geralmente, estão de bem com a vida, ou de coração partido, e isso rende assunto, movimenta pés e mãos, e marca-se a carreira. É comum que tais clientes carreguem sobre o lábio superior farta bigodeira e, ao final, retribuam alguma gorjeta, nem sempre gorda como o bigode, mas, ainda assim, gorjeta. Sem contar os nomes. E que nomes!

O atento leitor deve estar se perguntando como sei de tudo isso, se nunca servi num frege-moscas. Bom, se não servi…

Antes, servi numa requintada e falida pizzaria de minha cidade natal, nos idos anos dois mil. Dois mil e cinco, para ser exato. Lá, os clientes vinham de todas as classes sociais, com todos os gostos (alguns até com belos bigodes), mas não eram bons em dar nomes. Faltava-lhes, penso, ovos coloridos, linguiça acebolada e moela ao molho, junto com um bom rabo de galo, e uma vasta coleção de copos americanos trincados. Havendo isso, certamente se tornariam bons nomeadores.

Da pizzaria restou apenas a pizza portuguesa requentada que comíamos ao final do expediente e que, até hoje, me pinça a memória sempre que como uma pizza portuguesa contemporânea. De nome, ganhei apenas um Luís bem mequetrefe (certeza que era com S) ou um Joaquim qualquer… Nada de um potente Oswaldo, ou um violento Jeremias, muito menos um exótico Nicodemos. Nicodemos é elite, o suprassumo, o auge da carreira garçônica. E se você não concorda é porque não tem um bigode farto.

Mesmo sendo professor, sou um exímio equilibrista de copos (garanto que isso veio da experiência como garçom), só não sei se me tornei um bom cliente. Cultivo o bigode — ainda que grudado à barba —, mas estou em débito com os botequins. Os frege-moscas não me veem há muito tempo, os copo-sujos hoje devem me achar um distinto senhor esnobe, o que me envergonha. A prova disso, conto-a agora:

Era um exemplar boteco copo-sujo, não apenas metafórico: os fundilhos do americano traziam uma camada de poeira fina e acinzentada. Isso talvez não seja mentira, apesar dos dez anos que separam estas linhas da ocorrência do fato. O copo era sujo tanto quanto a minha intenção. Nesta minha última e saudosa vez em um frege-moscas, avistei o garçom, que gabaritava o figurino: calças pretas, sapato social de sola gasta, camisa de botões branca amarelada, um pano de prato encardido sobre o ombro, olhar cansado, mas sorridente e acolhedor, encimado por ampla testa, emendando com a calva.

De início, aproximou-se solicito:

Bom dia, doutor! — esparramou o pano de prato encardido na mesa. — Vai aquela gelada?

Até queria — soltei um sorriso de cachorro pidão —, mas tá cedo, né?

— Passarinho que não deve nada a ninguém tá de pé desde cedo, doutor. — Esboçou um sorriso cúmplice.

Tem razão. Mas só uma, viu. — Assenti, satisfeito com a cumplicidade já esperada.

Sem que eu percebesse o tempo correr, logo a quarta cerveja já estava na mesa. Nem meio-dia ainda. E o meu amigo já suava em bicas, correndo de uma mesa à outra, espantando os mosquitos e enxugando a calva com o pano de prato roto. O frege-moscas fervia.

Na quinta cerveja, já estávamos íntimos. Era doutor pra cá, patrão pra lá. E a família, como está? O menino vai bem na escola? (Eu ainda não tinha menino). Semana quase acabando, meu peixe. Vai trabalhar no sábado? Acho que vai dar praia. Amizade forjada em copo americano é para a vida toda. Mas e o nome? Como eu ainda não havia arriscado um nome? Péssimo cliente, eu…

Bastião, meu chapa, traz mais uma! A sexta, né?

Sétima — respondeu entre dentes.

A sétima, isso! — sorri, já de olhos cruzados.

O Bastião trouxe a sétima, sisudo.

Tá tudo bem, meu patrão? Cansado, né? — expressei minha solidariedade ante a mudança de humor repentina.

Bastião, doutor? Bastião?!

Não gostou? Desculpe. — O impossível parecia acontecer.

Não é que não gostei… É que… é… esse é meu nome mesmo.

Acabou-se a amizade. A oitava não veio…

quinta-feira, 14 de maio de 2026

.: Com direção de Isabel Teixeira, Cia. Mungunzá apresenta "Elã" na Funarte


Por conta da demolição sem comunicado prévio do Teatro de Contêiner, o Complexo Cultural Funarte acolheu os espetáculos que o grupo faria em sua sede nesta mesma época. Foto: Roberto Setton


Depois de ter sido despejada de seu Teatro de Contêiner em janeiro de 2026, a Cia. Mungunzá trabalha para reconstruir o espaço cultural em um terreno cedido pela Prefeitura de São Paulo. Durante esse processo, o Complexo Cultural Funarte acolhe ações que já estavam contratadas para acontecer. Dentro da programação de maio estão apresentações gratuitas de "Elã", em cartaz até  24 de maio, na sexta às 19h30, sábados e domingos, às 16h00 (sessão extra acontece na quinta-feira, dia 21 de maio, às 19h30).

Em retrospectiva a esse difícil processo de mudança, Léo Akio e Marcos Felipe, artistas do grupo, comentam: “2025 foi um ano caótico. De um lado, enfrentamos pressão e violência para a saída do Teatro de Contêiner; de outro, celebramos a criação e a estreia de um novo espetáculo. Encerramos o ano esgotados, mas íntegros: nosso novo trabalho foi um sucesso e fizemos de tudo para que a mudança do Teatro de Contêiner acontecesse de forma digna e justa, respeitando nossos compromisso, nossa história e reafirmando um projeto de cidade mais humana e inclusiva”

Ainda sobre a nova sede, Léo acrescenta: “Estamos buscando diálogo e uma posição formal da Prefeitura sobre o terreno ofertado na Rua Helvetia 807, mas ainda sem sucesso”. Marcos completa: “Não temos a opção de parar. Até que a transferência do Teatro de Contêiner seja concluída, vamos transferir a programação contratada para outros espaços”


Sobre Elã
Com direção de Isabel Teixeira, "Elã" é o trabalho mais recente da companhia. A partir do “Livro de Linhas”, o espetáculo é uma trama permeada por oito histórias criadas por atores-escritores que se passam em diferentes tempos e espaços. Todas as histórias se cruzam de maneira sobreposta e cabe ao público escolher seu ângulo e montar a sua teia narrativa.

Entre essas histórias, estão: um andarilho, dentro de um jogo de videogame, através dos diferentes tempos da linha da sua vida, tenta se livrar de uma herança ancestral deixada pelo seu pai // Um ator - vendedor de morangos - que tenta convencer uma renomada diretora a dirigir seu próximo espetáculo, incluindo sua mãe no elenco // A mãe que entra no espetáculo dirigido pelo filho e, cena após cena, vai se libertando do papel que lhe foi imposto // Uma mulher, após construir uma família de alta performance, decide matar a  família para realizar seu sonho de ser cantora de boate, honrando sua avó, vítima da Guerra Civil Espanhola // Uma mãe, enquanto enfrenta o luto e cria os filhos, reacende a sexualidade reprimida em suas ancestrais, através de uma retomada do poder feminino // Um homem descobre, na morte, o maior empreendimento capitalista de todos os tempos: a empresa “Animador de Velórios” // Uma mulher, convencida de ser uma aranha tecendo o destino do mundo, tenta impedir uma explosão, voltando no tempo e manipulando cada passo dos envolvidos // Um homem-bomba, ao se explodir, deixa pistas para sua filha, guiando-a por um outro olhar sobre o mundo.


Sobre a Cia Mungunzá
A Cia. Mungunzá é uma das companhias mais inovadoras do cenário teatral brasileiro. Criada em 2008, o grupo desenvolve uma pesquisa cênica continuada, alinhando arte, cultura e vida, construindo uma narrativa e uma linguagem autoral, com montagens de peças com grande poder de comunicação com o público.

A Mungunzá firmou-se como grupo que trabalha com diretoras e diretores convidados, fator que ajuda a manter os processos cênicos vívidos. Na sua pesquisa busca a polifonia e o hibridismo das linguagens artísticas, propondo a encenação como dramaturgia e o ato performático como atuação. Fomenta o fazer artístico como prática política e social.

O grupo expande suas fronteiras ao criar, em 2017, o Teatro de Contêiner Mungunzá, uma ocupação artística que se tornou sede da companhia e um dos espaços culturais independentes mais importantes do país. Reconhecido por sua programação e por uma gestão cultural de forte impacto em contextos de extrema vulnerabilidade social, o espaço também se destaca por sua arquitetura sustentável, transformadora e comunitária. Em 2025, o teatro sofreu um despejo e, atualmente, sua reconstrução segue em meio a um processo de disputa política.

Ficha Técnica
Direção geral: Isabel Teixeira | Assistência de direção e preparação de elenco: Lucas Brandão | Elenco criador: Dilma Correa (convidada), Léo Akio, Lucas Bêda, Marcos Felipe, Pedro das Oliveiras, Sandra Modesto, Verônica Gentilin, Virginia Iglesias | Participação especial: Miranda Caltabiano Bannai e Gregório Modesto de Oliveira | Dramaturgia a partir da Escrita na Cena®: elenco criador e direção | Direção de movimento: Castilho | Direção musical: Dani Nega e Isabel Teixeira | Produção musical: Dani Nega | Arranjos, colaboração e preparação musical: Flávio Rubens e Renato Spinosa |  Gravação sax, guitarra, harpa e violão: Gabriel Moreira | Composições originais: Jonathan Silva | Música de saída “O romance, o sorriso e a flor”: Renato Teixeira | Operadora e técnica de som: Paloma Dantas | Operador de microfones: Samuel Gambini | Desenho de Som: Bruno Castro e Paloma Dantas | Desenho de Luz: Wagner Freire | Adaptação de Luz: Eduardo Estefano, Pedro das Oliveiras e Wagner Freire | Operação de Luz e Vídeo: Eduardo Estefano e Lucas Brandão | Cenografia: Isabel Teixeira, Lucas Bêda e elenco criador | Cenotécnicos: Fábio Lima e Zé Valdir Albuquerque | Vídeos: Pedro das Oliveiras | Figurinos: Joana Porto e Rogério Romualdo | Costura ciclorama: Coletivo Tem Sentimento | Visagismo: Fabia Mirassos | Auxiliar de visagismo e contrarregra: Isabelle Iglesias | Instrutor de escalada: Luciano Iglesias | Fotos divulgação: Roberto Setton | Registro audiovisual: Bruno Rico | Assessoria de imprensa: Pombo Correio | Identidade visual: Isabel Teixeira e Léo Akio | Design gráfico: Léo Akio | Produção: Tati Caltabiano | Produtor associado: Gustavo Sanna - Complementar Produções | Apoio: Funarte.


Funarte acolhe programação do Teatro de Contêiner - Ocupação Mungunzá
Até dia 24 de maio
Ingressos: grátis, devem ser reservados em https://www.sympla.com.br/produtor/teatrodeconteiner
Sextas-feiras, às 19h30, sábados e domingos, às 16h00. Sessão extra acontece na quinta-feira, dia 21/05 às 19h30. Duração: 120 minutos . Classificação: 16 anos.

.:"Você É Mais Que Seu Trabalho" desafia a cultura da performance


O autor e coach Vicente Ferrio apresenta um guia para reconstruir a relação com a carreira sem abrir mão da identidade e do bem-estar. 

Sem perceber, muita gente passou a medir o próprio valor a partir do trabalho. Esse comportamento, que alimenta a crescente onda de esgotamento profissional e de pressão por desempenho, é o ponto de partida de "Você É Mais Que Seu Trabalho", lançamento da Editora Agir, assinado pelo autor, mentor e coach Vicente Ferrio. Na obra, ele analisa como a produtividade, o sucesso e a performance deixaram de ser apenas metas profissionais para se tornarem critérios de identidade. 

Para o autor, essa lógica cria uma armadilha silenciosa: alimenta a sensação constante de insuficiência e reduz a vida a um único eixo, o trabalho. Longe de pregar o desapego profissional, a obra foca em uma relação mais saudável com a carreira. O autor utiliza exemplos práticos e exercícios para demonstrar que o valor de um indivíduo é composto por múltiplas dimensões, e que o desempenho no trabalho é apenas uma delas. Compre o livro "Você É Mais Que Seu Trabalho", de Vicente Ferrio, neste link.


Sobre o autor
Vicente Ferrio (Espanha, 1974) é engenheiro civil, empreendedor, palestrante, mentor e coach certificado. Especialista em liderança, empreendedorismo consciente e gestão de mudanças pelas escolas de negócios de Columbia e Harvard, é autor de diversos livros sobre carreira profissional e criador do site sincronizatutalento.com, cujo blog mobiliza uma comunidade de milhares de leitores. Garanta o seu exemplar de "Você É Mais Que Seu Trabalho", escrito por Vicente Ferrio, neste link.

.: Biblioteca Carolina Maria de Jesus faz 21 anos como símbolo de memória viva


Espaço reúne cerca de 14 mil itens bibliográficos e preserva parte fundamental da produção intelectual, artística e histórica negra brasileira. 
Na imagem, manuscrito Carolina Maria de Jesus. Foto: MAB

Em um país onde parte significativa da produção intelectual negra permaneceu historicamente fora dos grandes centros de preservação e pesquisa, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus, do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gestão Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura (AMAB) , consolidou-se, ao longo de 21 anos, como um dos principais espaços dedicados à memória afrodiaspórica no Brasil.

Inaugurada em 13 de maio de 2005, um ano após a fundação do Museu, a biblioteca nasceu com a missão de ampliar e complementar os acervos museológico e arquivístico da instituição, oferecendo suporte às pesquisas internas e externas relacionadas à história, à arte e à cultura afro-brasileira e africana. Batizada em homenagem à escritora, poetisa, cantora e intelectual Carolina Maria de Jesus, uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século XX, a biblioteca carrega o compromisso de preservar e difundir produções intelectuais negras historicamente invisibilizadas pela narrativa oficial do país.

Atualmente, o espaço abriga aproximadamente 14 mil itens bibliográficos, entre livros, catálogos, obras raras e publicações especializadas em arte africana, arte afro-brasileira, religiosidade de matriz africana, sociologia, história do Brasil e literatura negro-brasileira. O acervo reúne ainda publicações fundamentais para a compreensão da arte negra brasileira e africana, muitas delas pouco acessíveis em bibliotecas tradicionais.

Grande parte das obras dialogam diretamente com a Exposição de Longa Duração concebida por Emanoel Araujo, refletindo o pensamento curatorial e a visão intelectual do fundador da instituição. Entre os destaques do acervo estão os catálogos das exposições realizadas pelo Museu Afro Brasil Emanoel Araujo, considerados registros fundamentais para a compreensão da produção e da curadoria de arte negra no Brasil.

Mais do que preservar livros e documentos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus ajuda a manter vivo o pensamento de Emanoel Araujo, artista, curador e intelectual responsável por construir um dos mais importantes projetos de valorização da cultura afro-brasileira no mundo. A biblioteca preserva também parte desse legado curatorial, permitindo acompanhar, por meio de livros, catálogos e documentos, a construção intelectual do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao longo de mais de duas décadas, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus consolidou-se como espaço de pesquisa, preservação e valorização da produção intelectual negra. Entre os principais marcos de sua trajetória estão a doação, via comodato, de parte dos manuscritos de Carolina Maria de Jesus; a realização do sarau “Meus Poetas Negros”, idealizado por Oswaldo de Camargo em homenagem póstuma a Emanoel Araujo; e a criação da FLAB – Feira Literária Carolina Maria de Jesus, iniciativa voltada à valorização de editoras independentes e pessoas autoras negras.

A Biblioteca Carolina Maria de Jesus integra ainda a Redarte – Rede de Bibliotecas de Arte do Brasil e recebe pesquisadores, artistas, curadores, estudantes e intelectuais dedicados aos estudos da arte afrodiaspórica no Brasil e no exterior. “A Biblioteca Carolina Maria de Jesus carrega, em sua essência, o legado de Emanoel Araujo e a potência intelectual de Carolina Maria de Jesus. Ao longo de 21 anos, tornou-se um espaço fundamental para pesquisadores, artistas e estudantes interessados em compreender a produção artística, histórica e literária negra no Brasil. Preservar esse acervo é também preservar parte da memória do país”, afirma Jandaraci Araújo, diretora executiva do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Atualmente, o espaço passa por um processo de modernização e conservação do acervo por meio do Edital Fomento CULTSP PNAB nº 29/2024 – Manutenção e Modernização de Bibliotecas. A iniciativa prevê melhorias técnicas, incluindo substituição de estantes e instalação de sistema de segurança do acervo, ampliando as condições de preservação e acesso às obras. “Fazer a gestão deste acervo é mergulhar diariamente na história de diversas áreas do conhecimento que se dedicam a estudar e produzir informações sobre arte afrodiaspórica e sobre a história do nosso país. A criação desta biblioteca reflete toda a genialidade de Emanoel Araujo e carrega seu legado ao ser um espaço democrático de estudo, lazer e reflexão sobre negritudes, artes e literatura”, afirma Janaina França de Melo, bibliotecária do Museu Afro Brasil Emanoel Araujo.

Ao completar 21 anos, a Biblioteca Carolina Maria de Jesus reafirma-se como um espaço onde os legados de Carolina Maria de Jesus e Emanoel Araujo seguem em permanente diálogo, preservando memórias, difundindo conhecimento e ampliando o acesso às narrativas negras no Brasil.

Sobre o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
O Museu Afro Brasil Emanoel Araujo é uma instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo administrada pela Associação Museu Afro Brasil – Organização Social de Cultura. Inaugurado em 2004, a partir da coleção particular do seu fundador, Emanoel Araujo (1940-2022), o museu é um espaço de história, memória e arte. Localizado no Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega, dentro do mais famoso parque de São Paulo, o Parque Ibirapuera, o Museu Afro Brasil Emanoel Araujo conserva, em cerca de 12 mil m², um acervo museológico com mais de 20 mil obras, apresentando diversos aspectos dos universos culturais africanos e afro-brasileiro e abordando temas como religiosidade, arte e história, a partir das contribuições da população negra para a construção da sociedade brasileira e da cultura nacional. O museu exibe parte deste acervo na exposição de longa duração e realiza exposições temporárias.


Serviço
Biblioteca Carolina Maria de Jesus, no Museu Afro Brasil Emanoel Araujo

Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº – Portão 10 – Parque Ibirapuera – São Paulo/SP
Funcionamento da biblioteca: terça a sexta-feira, das 10h00 às 17h00; sábados, das 10h00 às 14h00
Consulta presencial gratuita
Informações: (11) 3320-8900
Catálogo on-line e outras informações: Biblioteca Carolina Maria de Jesus

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