terça-feira, 21 de julho de 2026

.: Rafael Caneca transforma episódio da história brasileira em romance


Em entrevista, autor de "Não Volte Sem Ele" fala sobre construção narrativa, influências literárias e as escolhas que moldam sua estreia no romance; Foto: arquivo pessoal


Em “Não Volte Sem Ele”, o escritor cearense Rafael Caneca estreia no romance ao transformar um episódio pouco conhecido da história brasileira em matéria literária. Ambientada no Ceará da década de 1930, a obra parte da existência dos chamados campos de concentração criados durante a seca de 1932 para construir uma narrativa que investiga não apenas a violência histórica, mas também os modos como a literatura pode representar o trauma, o silêncio e a experiência humana em situações extremas.

A obra acompanha Tomás, jovem sertanejo enviado pelo pai em busca do irmão desaparecido, em uma travessia marcada por fome, deslocamento forçado e confinamento. Ao longo do percurso, o romance revela como essas estruturas funcionavam como mecanismo de contenção e segregação, transformando a experiência individual do personagem em expressão de uma lógica mais ampla de exclusão social.

Os temas centrais do livro atravessam tanto o plano histórico quanto o simbólico: memória e apagamento, violência de Estado, política de exclusão, seca e deslocamento, além da relação entre fé, esperança e sobrevivência em contextos extremos. Ao tensionar esses elementos, o romance questiona a ideia de que a esperança sustenta a travessia.

Nascido e residente em Fortaleza, Rafael Caneca é escritor, assessor jurídico e integrante do Coletivo Delirantes. Influenciado por autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Saramago, desenvolve uma escrita interessada em aproximar conflitos sociais de experiências íntimas, investigando como as estruturas históricas e políticas atravessam a vida cotidiana de seus personagens. “Não Volte Sem Ele” marca sua estreia na narrativa longa e sinaliza um projeto literário voltado à ficção histórica e às formas contemporâneas de exclusão e violência.

Nesta entrevista, Rafael Caneca comenta o processo de transformação da pesquisa histórica em romance, discute suas escolhas narrativas e analisa como literatura, memória e imaginação podem dialogar para lançar novos olhares sobre histórias que permanecem à margem da memória oficial. Compre o livro "Não Volte Sem Ele", de Rafael Caneca, neste link.


Em “Não Volte Sem Ele”, você parte de um episódio histórico para construir uma narrativa ficcional. Em que momento essa investigação deixou de ser apenas pesquisa e se transformou em literatura?
Rafael Caneca A história já nasceu como ficção. Ela surgiu a partir de um projeto de livro de contos do Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores de Fortaleza de que faço parte desde a sua criação. Durante um tempo, tive que me afastar do grupo; ao retornar, eles estavam produzindo uma coletânea de contos - ficcionais - sobre eventos históricos e ferrovias que ligavam o estado do Ceará de norte a sul. Como o livro estava em andamento, muitos dos temas que eles mesmos pensaram já haviam sido escolhidos, e um dos que ainda estava livre relacionava a ferrovia de Senador Pompeu, a seca de 1932 e os campos de concentração - de que eu tinha bem pouco conhecimento na época. Como eu sempre gostei de ler ficções históricas, de preferência sobre lugares não tão conhecidos, nem li as outras opções: essa chamou a minha atenção logo de cara. O conto foi escrito, mas eu achei que a história pedia mais: foi então que decidi transformá-lo em uma narrativa mais longa – foi aí que o romance nasceu.


O romance acompanha a travessia de Tomás em busca do irmão desaparecido. Como você construiu esse eixo narrativo sem recorrer à estrutura clássica da jornada de superação?
Rafael Caneca Eu comecei a escrever a história com algumas ideias já em mente. Claro que não tinha tudo escrito na cabeça – a história vai se desenvolvendo à medida que você senta e escreve, e muita coisa acaba mudando –, mas um dos aspectos que eu tinha decidido, antes mesmo de começar, era que eu não iria escrever uma jornada do herói. Nada contra quem goste, mas não é meu estilo – de escrita nem de leitura. Além disso, essa resolução tem tudo a ver com o espírito da obra que eu queria escrever, com a ideia que eu queria transpor para o papel.


Sua escrita aposta em um estilo direto, com poucas digressões, mesmo ao lidar com temas densos. Como essa escolha formal dialoga com a experiência de violência e escassez vivida pelo protagonista?
Rafael Caneca Procurei usar uma linguagem que refletisse o cenário: aridez e escassez no ambiente, aridez e escassez na escrita. A luta fundamental era pela sobrevivência na busca pelo irmão desaparecido, e no sertão, muitas vezes, a resistência era sinônimo de calar. Falar pouco para economizar até mesmo as palavras.


A narrativa é majoritariamente linear, mas atravessada por memórias e momentos de delírio. Como você trabalhou esses deslocamentos para aprofundar a interioridade do personagem?
Rafael Caneca Meu desejo, como escritor, sempre foi contar uma história. Sem maiores complicações, sem grandes rebuscamentos, apenas contar uma história. Isso resultou na minha escolha pela linearidade. Acontece que ninguém é 100% linear ao contar uma história, e por conta disso eu achei por bem inserir algumas digressões ao longo da narrativa – em momentos que considerei chave durante a escrita (e, consequentemente, durante a leitura). Os momentos de delírio estão demarcados no livro, e também trazem pontos importantes na narrativa.


A relação entre fé, esperança e sobrevivência aparece tensionada ao longo do livro. Como você traduziu narrativamente essa insuficiência da esperança diante da tragédia?
Rafael Caneca Eu busquei mostrar a esperança mais como mecanismo de sobrevivência do que como solução real. As personagens (principalmente o protagonista) rezam, fazem promessas e se agarram à ideia de que as coisas vão melhorar, mas a violência, a fome, o abandono e o descaso continuam avançando. A narrativa busca a todo momento ressaltar um choque constante entre a fé e a realidade material. Também me interessava trabalhar a ambiguidade da religião nesses contextos: ela consola e dá força, mas às vezes também produz resignação. Ou seja: em certos momentos, a esperança impede o desespero; em outros, impede a reação. Eu quis então mostrar justamente essa insuficiência da esperança diante de uma tragédia concreta e estrutural.


O romance lida com o silêncio e o apagamento histórico, mas também com silêncios íntimos dos personagens. Como você equilibrou essas duas dimensões na construção narrativa?
Rafael Caneca Quis aproximar o silêncio histórico do silêncio íntimo das personagens. O apagamento dos campos pelo Estado acaba se refletindo na dificuldade que os personagens têm de falar sobre o trauma, a violência e a culpa. Narrativamente, optei por fazer isso aparecer em memórias fragmentadas, diálogos interrompidos e palavras que permanecem não ditas. O silêncio funciona tanto como marca do trauma individual quanto como consequência de um apagamento coletivo.


Sua obra dialoga com tradições do romance social brasileiro, especialmente com autores como Graciliano Ramos. Em que medida essa influência se manifesta na sua escrita?
Rafael Caneca Ela aparece principalmente na tentativa de construir uma escrita mais seca, direta e humana, sem romantizar a miséria ou transformar o sofrimento em espetáculo. Graciliano Ramos me interessa muito pela forma como ele expõe a violência social a partir da vida cotidiana e dos conflitos internos dos personagens. Também existe uma preocupação em mostrar como estruturas de poder moldam subjetividades e relações humanas (no caso do meu romance, essas estruturas envolvem fome, Estado e desigualdade). “Vidas secas” foi uma grande referência não só para a escrita desse livro, mas na minha vida.


Ao mesmo tempo, há uma dimensão mais alegórica e reflexiva que remete a José Saramago. Como essas referências distintas convivem no seu processo criativo?
Rafael Caneca Acho que quando a gente tem referências dessa qualidade (Graciliano e Saramago, mas também Machado e Rachel), não custa nada usá-las, né? Aliás, é até feio fugir delas! Claro que não se trata de mera cópia, mas de inspiração. Utilizá-las é mais do que um tributo, mas se trata de aproveitar aquilo que convém à história que você quer contar.


O livro evita oferecer consolo ou resolução clara para o leitor. Essa recusa de fechamento foi uma escolha consciente desde o início?
Rafael Caneca Sim! Essa foi uma das ideias que já estava na minha mente quando comecei a escrever a história. Claro que outras opções de finais apareceram ao longo da escrita, mas, na essência, a ideia sempre foi essa.


O personagem Tomás atravessa um espaço físico hostil, mas também um território simbólico marcado pela perda e pela ausência. Como você construiu essa relação entre espaço e subjetividade?
Rafael Caneca Meu objetivo foi fazer com que o espaço não funcionasse apenas como cenário, mas como extensão emocional do próprio Tomás. A seca, os deslocamentos, os campos e as paisagens degradadas refletem o estado interno dele: a sensação constante de perda, desenraizamento e vazio.


Como romance de estreia, o que “Não volte sem ele” revela sobre o seu projeto literário daqui para frente?
Rafael Caneca Acho que o romance revela o que comentei na primeira resposta: meu interesse por ficções históricas. Mas, para mim, essas ficções devem guardar uma característica fundamental, que é a de dialogar com problemas ainda presentes. Me interessa olhar para episódios do passado não como algo encerrado, mas como estruturas que continuam se repetindo de outras formas. Além disso, acredito que meu projeto literário passa por explorar a relação, muitas vezes violenta e injusta, entre o Estado e as populações mais vulneráveis, as desigualdades sociais, a violência, os apagamentos históricos e a forma como tudo isso se relaciona com a vida íntima das pessoas. A mim, não me interessa uma literatura meramente de tese, mas uma em que os conflitos sociais tenham peso real sobre os personagens.

.: "Compactos", coleção de bolso com curadoria, será lançada na Flip


Em edições leves e integrais, nova linha reúne títulos de ficção e não ficção, clássicos e contemporâneos que atravessam o tempo, com previsão de lançamento de obras inéditas 

O Grupo Editorial Record anuncia o lançamento de "Compactos", a sua mais nova coleção de livros de bolso desenhada para acompanhar os leitores em qualquer lugar. A partir de uma curadoria atenta, a linha reúne romances marcantes e ensaios fundamentais de grandes autores nacionais e internacionais. A proposta é oferecer edições leves, integrais e de alta qualidade, feitas para quem busca livros especiais, profundos e perenes. 

A coleção, que será apresentada em primeira mão na Flip - Festa Literária Internacional de Paraty, traz de volta ao público títulos de ficção e não ficção que já faziam parte do catálogo da Record, agora repaginados em um formato prático, ideal para a leitura em movimento - seja no metrô, no parque ou em viagens. São obras clássicas e contemporâneas selecionadas justamente por sua capacidade de fazer perguntas que continuam atuais e de permanecer vivas na mente dos leitores por muito tempo. Os primeiros livros são: "Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski, "Não Contem com o Fim do Livro",  de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, "A Peste", de Albert Camus, e "A Família Medeiros", de Júlia Lopes de Almeida.

Livros que merecem replay: essa é a essência da coleção "Compactos"
Além de revisitar títulos essenciais, o projeto está em contínua expansão, com a previsão de lançamentos inéditos no país para os próximos volumes.  O cuidado com a coleção se estende também à identidade visual. Cada volume dos Compactos conta com um projeto gráfico exclusivo e capas assinadas por diferentes ilustradores. O conceito une a personalidade própria de cada obra a uma harmonia estética que valoriza a estante, despertando o desejo de colecionar histórias. 


Os primeiros títulos da coleção
"Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski: o romance clássico que inaugurou uma nova forma de explorar as contradições da mente humana e apresentou ao mundo um dos mais marcantes e complexos anti-heróis da literatura mundial. Ilustração de capa de Hana Luzia. Compre o livro neste link.

"Não Contem com o Fim do Livro", de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière: uma conversa brilhante, espirituosa e divertida entre dois grandes intelectuais sobre a história dos livros, a importância da leitura e as razões pelas quais o objeto impresso permanece indispensável. Ilustração de capa de Dedé Laurentino. Compre o livro neste link.

"A Peste", de Albert Camus: muito além do relato sobre uma epidemia isolada, a obra-prima de Camus oferece uma reflexão poderosa sobre a coragem, a responsabilidade coletiva e a solidariedade humana diante das maiores crises. Ilustração de capa de Deco Farkas. Compre o livro neste link.

"A Família Medeiros", de Júlia Lopes de Almeida: Um clássico indispensável da literatura brasileira que retrata com precisão a sociedade às vésperas da abolição da escravatura, revelando toda a força narrativa e a atualidade de Júlia Lopes de Almeida. Ilustração de capa de Belisa Bagiani. Compre o livro neste link. Os primeiros volumes da coleção Compactos poderão ser encontrados em breve nas principais livrarias de todo o país e nas lojas online.

.: Rafael Mininel mostra como a fantasia pode revelar os perigos do controle


Em "Crônicas das Brumas Densas" o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria para refletir sobre temas como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Foto: divulgação

"Controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos", analisa escritor Rafael Mininel. Autor de "Crônicas das Brumas Densas" explica como construiu um universo que dialoga com a realidade e reflete sobre como a fantasia sombria pode revelar o autoritarismo. Inspirado por acontecimentos históricos, o escritor Rafael Mininel utiliza a fantasia sombria na obra "Crônicas das Brumas Densas" para discutir temas que ultrapassam a ficção, como autoritarismo, violência de Estado, manipulação da memória e responsabilidade moral. Na entrevista abaixo, o autor explica como construiu uma narrativa épica que convida o leitor a refletir sobre os limites da obediência, o poder das escolhas individuais e os mecanismos que sustentam regimes de opressão. Compre o livro "Crônicas das Brumas Densas" neste link.


Valek inicia a história como um soldado moldado para obedecer cegamente ao Império, até que um único episódio transforma completamente sua visão de mundo. O que despertou em você o desejo de contar uma história sobre o momento em que alguém decide romper com um sistema do qual sempre fez parte?
Rafael Mininel - A origem de Valek está em um episódio real da Guerra da Iugoslávia. Ao estudar o massacre de Srebrenica, fiquei inquieto com uma pergunta: o que acontece quando um soldado percebe que a ordem recebida destrói a própria humanidade? Quis explorar esse instante em que obedecer deixa de ser uma virtude e passa a exigir uma escolha moral. A fantasia me permitiu ampliar essa reflexão sem perder sua dimensão humana.


Embora seja uma fantasia sombria, o livro aborda temas muito atuais, como autoritarismo, violência de Estado, perseguição e apagamento da memória. De que forma você equilibrou a criação de um universo fantástico com reflexões sobre questões tão presentes na realidade?
Rafael Mininel - Nunca enxerguei a fantasia como fuga da realidade, mas como outra maneira de observá-la. O universo de Crônicas das Brumas Densas nasceu para discutir mecanismos de poder que atravessam diferentes épocas. Quando retiramos nomes e datas, permanecem as perguntas essenciais: como o autoritarismo se instala, por que pessoas comuns participam dele e qual é o preço de resistir?

O universo de Crônicas das Brumas Densas é marcado por figuras como o Arquivista Sombrio e a Primeira Voz, que tornam a memória e a linguagem elementos centrais da narrativa. Como surgiu essa mitologia própria e qual é o papel simbólico dessas entidades na história?
Rafael Mininel - Sempre me fascinou a ideia de que controlar narrativas pode ser tão poderoso quanto controlar exércitos. O Arquivista Sombrio representa esse perigo: ele se alimenta de versões conflitantes da realidade, dialogando inclusive com fenômenos contemporâneos, como a desinformação e as fakes news. Já a Primeira Voz simboliza a linguagem em seu estado original, anterior à manipulação, lembrando que preservar a memória também é preservar a verdade.


Com cerca de mil páginas, capítulos curtos e um grande número de personagens, o romance apresenta uma construção bastante ambiciosa. Como foi o processo de desenvolvimento desse mundo e quais foram os maiores desafios para manter a narrativa envolvente do início ao fim?
Rafael Mininel - O maior desafio foi equilibrar a escala épica com a experiência humana de cada personagem. Optei por capítulos curtos para manter o ritmo e permitir que diferentes histórias se cruzassem sem perder fluidez. Sempre procurei lembrar que, por maior que fosse o universo, o leitor continuaria acompanhando pessoas, não mapas ou cronologias.


Você transita por gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, sempre explorando conflitos existenciais. O que espera que os leitores levem consigo após acompanhar a jornada de Valek e mergulhar nas brumas desse universo?
Rafael Mininel - Espero que o leitor termine o livro refletindo sobre a responsabilidade das próprias escolhas. O sacrifício de Led resume essa ideia: ele salva o mundo ao custo de ser completamente apagado da existência. Ninguém naquele universo lembra que ele viveu, mas o leitor lembra. Se essa memória permanecer depois da última página, então sua história continua existindo justamente onde ela mais importa.

Sobre o autor
Rafael Mininel é autor de narrativas intensas, existenciais e psicológicas que desafiam as categorias literárias tradicionais. Atravessando gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, ele já publicou as obras “Crônicas das Brumas Densas”, “Geografia do Não”, “Exemplar de Segunda Mão” e “Quase Tudo que Eu Imaginei”. Além disso, tem contos em diferentes coletâneas e lançará os livros “Depois do Silêncio”, “A Torre que Sangra” e “Memórias Ressurgem”. Formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, graduado em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário Moura Lacerda e com MBA em Finanças pela Edgard Abreu, o autor também trabalha como bancário. Compre os livros de Rafael Mininel neste link.

.: Atriz Helena Ignez é homenageada por mostra da série Ocupação Itaú Cultural


Exposição celebra a artista em primeira pessoa e destaca sua trajetória no teatro e no cinema com materiais raros, filmes restaurados e programação especial. Aos 87 anos, Helena Ignez segue em plena efervescência, produzindo e atuando nos palcos e sets de filmagens. 
Foto: Fabrício Tadeu / Acervo Andre Sampaio

 
Era o ano 1956 quando Helena Ignez ingressou na Escola de Teatro da Bahia, em Salvador, cidade onde havia nascido em 1939. Começava ali a trajetória de uma das mais importantes atrizes e diretoras do cinema e do teatro brasileiros, cuja vida e obra são marcadas pela liberdade comportamental e artística. Nesta quarta-feira, dia 22 de julho, o Itaú Cultural inaugura mostra da série Ocupação dedicada a ela. Primeira cineasta mulher a receber esta homenagem, a exposição privilegia a voz de Helena, sua liberdade criativa e sua potência em cena, sempre em intensa atividade artística. A mostra permanece em cartaz até 18 de outubro

 Ocupação Helena Ignez rompe o modelo cronológico-biográfico tradicional para construir uma narrativa em primeira pessoa, guiada pela voz da artista e diretora, seu corpo em ação e sua prática artística radicalmente livre. No período em que estiver em cartaz, o público ainda poderá acompanhar uma retrospectiva com 23 filmes na plataforma Itaú Cultural Play, de obras dirigidas, estreladas ou relacionadas a Helena. Com produção da Itaú Cultural Play e direção de Helena e Guerreiro Lopes, está sendo finalizado o curta-metragem Des-criação – a mulher cabeça, para disponibilização na plataforma e no espaço expositivo.

Ainda, o teatro do IC apresentará a peça "Savannah Bay", montada sobre o texto homônimo de Marguerite Duras em 1999 e em 2001, com direção de Rogério Sganzerla, Helena no papel de Madeleine, uma atriz que perdeu a filha afogada na baía de Savannah e enfrenta problemas de memória, e Djin Sganzerla como sua neta. Ocupação Helena Ignez também conta com uma publicação digital e um site com conteúdos exclusivos (itaucultural.org.br/ocupação).

“Helena atravessa a história do cinema e do teatro modernos no Brasil, passando pelos períodos centrais do Cinema Novo, da Belair e da experimentação radical”, observa Galiana Brasil, gerente de Curadorias e Programação Artística. “Ela é uma pessoa em constante reinvenção e, aos 87 anos, segue nessa trilha, firme e altamente criativa”, completa. O núcleo que Galiana gerencia assina a concepção, realização e curadoria da mostra, com consultoria da atriz Djin Sganzerla, e projeto expográfico de Renata Mota.

Partindo dessa premissa, a linha curatorial abraça a ideia de Helena ser uma atriz antimusa para jogar foco em sua produção, vitalidade e potência criativas. De forma transversal, a mostra reúne materiais históricos, registros inéditos, fotos, vídeos, documentos, instalações e trabalhos recentes da artista. Assim, o caminho percorrido vai do cinema, teatro e direção à formação, encontros e experiências políticas, espirituais e humanas da artista.

A sua trajetória como cineasta e no teatro ganham destaque, revelando um percurso menos conhecido do grande público. Como ela mesma diz, a importância do teatro é absoluta, porém sua trajetória como atriz e mais tarde como diretora ainda é pouco conhecida. Fotos, programas, matérias de jornais – o eu inclui uma crítica do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, e documentos de processo de trabalho de Helena, compõem esse espaço.

Vale lembrar que, recentemente, em São Paulo, a atriz integrou o elenco de Fim de Partida, clássico de Samuel Beckett, dirigido por Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A temporada segue para Fortaleza em julho. Como diretora, seu mais recente longa-metragem é A Alegria é a Prova dos Nove, de 2023.

A exposição
O percurso pela Ocupação começa com uma experiência imersiva, com áudio da própria Helena conduzindo o público e uma projeção central de trechos marcantes de suas atuações, evidenciando o corpo como linguagem e a ação como gesto político.

A mostra dedica um eixo especial à perspectiva da antimusa, com um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos. A Mulher de Todos ocupa lugar central na exposição, com a exibição do filme em cópia restaurada, o seu cartaz histórico e registros da personagem que ela encarnou: a irreverente Ângela Carne e Osso, ninfomaníaca que faz dos homens de gato-e-sapato, considerada uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro por subverter papéis de gênero em plena ditadura.

O espaço dedicado à Belair reúne filmes, fotos, frames, vídeos, materiais de bastidores, trilhas sonoras e textos da época, incluindo documentos em que Helena se posiciona contra a censura. São registros que retratam o período de intensa criação vivido por Helena Ignez ao lado de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, em 1970. Para se ter uma ideia, o grupo realizou seis longas-metragens em poucos meses. A produção foi logo interrompida pela repressão e eles tiveram de partir para o exílio.

Integram esse conjunto materiais de filmes como "Carnaval na Lama", "Copacabana Mon Amour", "Sem Essa Aranha", "Cuidado Madame", "Barão Olavo, o Horrível" e "A Família do Barulho". Este núcleo também incorpora iniciativas de preservação associadas ao projeto, como apoio da Cinemateca Brasileira que contribuiu para a captura fotográfica digital das películas desses títulos, além de "O Bandido da Luz Vermelha", "O Padre e a Moça", "O Grito da Terra" e "A Grande Feira".

 A Ocupação evidencia ainda o trabalho de Helena como diretora, apresentando roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como "A Alegria é a Prova dos Nove" (2023), além de títulos anteriores. Como atriz, a mostra dialoga com sua produção recente, como o longa "Ensaio Sobre o Fracasso" (2020) e sua atuação no teatro em "Fim de Partida", de Samuel Beckett, com direção de Rodrigo Portella, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França.

Um mural com fotos mostra imagens de parcerias de trabalho longevas, como Rogério Sganzerla (1946–2004), Júlio Bressane, Antônio Pitanga, Paulo Vilaça (1939–1991), Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet (1936–2024); e outros icônicos, como Jô Soares (1938–2022), Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa (1937–2023) e Ney Matogrosso.

 

.: "Nascer É Uma Catástrofe" transforma dores invisíveis em reflexão social


Em “Nascer É Uma Catástrofe”, o escritor Vinicius Damasceno coloca o leitor diante de uma pergunta incômoda: quanto de uma trajetória é escolha - e quanto já estava determinado pelas condições de nascimento? Protagonizada por Igor, a narrativa percorre perdas, afetos, conflitos e decisões difíceis em uma realidade urbana na qual oportunidades não são distribuídas de forma igual. Pobreza, abandono, violência e sistema prisional aparecem não como cenário decorativo, mas como forças que atravessam a formação do personagem.

Com linguagem direta e acessível, o romance preserva a identidade cultural dos personagens e evita tanto o julgamento fácil quanto a romantização da miséria. A obra não pretende absolver escolhas, mas ampliar o campo de visão do leitor sobre as circunstâncias que antecedem cada decisão. A história acompanha Igor desde uma infância marcada por escassez e medo até as consequências adultas de escolhas feitas em um território de possibilidades estreitas. O cárcere integra a narrativa como ponto de chegada e também como lugar de revisão: é ali que o personagem tenta compreender o que viveu, o que escolheu e o que lhe foi imposto.

Questões estruturais presentes na sociedade brasileira - pobreza, abandono, ausência de oportunidades, violência cotidiana e encarceramento - aparecem pela experiência humana, sem transformar os personagens em estatísticas. “Durante 20 anos de trabalho voluntário em uma ONG, convivi de perto com realidades sociais duras, muitas vezes invisíveis para grande parte da sociedade. A obra traz uma ficção sobre desigualdade, identidade, pertencimento e o preço humano de nascer à margem”, afirma Vinicius Damasceno.

O romance se interessa pelas contradições: culpa e contexto, responsabilidade e abandono, afeto e brutalidade. Em vez de oferecer respostas simples, provoca questionamentos sobre empatia, responsabilidade social e as consequências de um sistema que frequentemente deixa parte da população fora do quadro. 

Segundo o autor, a ideia surgiu em um dia de terapia, ao revisitar sentimentos, dúvidas, desilusões e inquietações acumuladas ao longo da vida. A criação também foi atravessada por duas décadas de trabalho voluntário e contato direto com realidades sociais frequentemente ignoradas. “Eu não busco explicar a dor dos personagens: eu quero aproximá-la do leitor. Como quem acende uma luz pequena num corredor escuro e pergunta, em silêncio: até quando passarei reto? Até quando a sociedade vai passar reto?”, questiona Vinicius Damasceno. Compre o livro "Nascer É Uma Catástrofe" neste link.


Sobre o autor
Vinicius Damasceno  nasceu em São Paulo, é pai de Clara e do Benício, casado com Vanessa e construiu sua trajetória profissional na tecnologia até ocupar cargos de liderança em gestão de TI. Hoje atua como CIO, prestando consultoria e gestão por meio de sua empresa, a Dunker IT. Mas foi longe das telas - levando comida a pessoas em situação de rua nas madrugadas do centro de São Paulo e como voluntário em visitas a famílias da Vila Brasilândia - que ele aprendeu outra linguagem: a da urgência humana. “Nascer É Uma Catástrofe”, seu primeiro livro, é uma ficção atravessada por memórias e sentimentos. Nasce do atrito entre dois mundos: o da ordem e o do abandono; o da eficiência e o da fome; o das métricas e o das pessoas invisíveis. Na trajetória de Igor, o autor reúne dores, escolhas e destinos muitas vezes decididos antes mesmo do primeiro passo. Mais do que narrar uma história, Vinicius escreve como quem faz um pedido: que o leitor enxergue o que costuma ficar fora do quadro - e saia diferente de como entrou. Compre o livro "Nascer É Uma Catástrofe", de Vinicius Damasceno, neste link. 

.: Thunderbird homenageia Júpiter Maçã em shows gratuitos nos dias 25 e 26


Paulo Zinner e Lee Marcucci participam do show de domingo. Foto: divulgação

Neste mês do rock, o músico e cantor Luiz Thunderbird está numa residência artística no CCSP com “Noites do Thunder”, uma série de shows gratuitos. No próximo final de semana ele sobre ao tradicional palco paulistano tanto sábado, dia 25 de julho, como domingo, dia 26. No sábado, ele apresenta Orchestra Jupiteriana, um tributo psicodélico à genialidade de Flavio Basso, conhecido como Júpiter Maçã (1968/2015), um dos artistas mais inventivos e cultuados da música brasileira. Idealizado por Luiz Thunderbird, que foi parceiro de Júpiter entre 2005 e 2010, o espetáculo recria ao vivo as sonoridades lisérgicas e as paisagens sonoras do universo jupiteriano, com arranjos que mesclam delicadeza, experimentação e intensidade.

O repertório revisita canções como “Miss Lexotan 6mg Garota”, “Querida Superhist X Mr Frog”, “Um Lugar do Caralho”, “Beatle George”, “Síndrome de Pânico” e “Mademoiselle Marchand”, entre outras. O resultado é uma experiência imersiva, que celebra o legado de Júpiter Maçã e reafirma sua influência sobre novas gerações. A banda formada por músicos que conviveram com Júpiter: Luiz Thunderbird (baixo/vocais), Tatá Aeroplano (vocais e efeitos), Daniel Nakamura (guitarra/vocais), Clayton Martin (bateria/efeitos) e Jimmy Pappon (teclados).

O dia 26 o convite é um passeio pelo pelos anos 70 com “História Ilustrada do Rock Br anos 70”. Thunder (voz/guitarra) é acompanhado por Daniel Nakamura (guitarra), Jimmy Pappon (teclado) e nesse show tem como convidados especiais Paulo Zinner (bateria), um dos fundadores da banda Golpe de Estado e Lee Marcucci (baixo), do fundamental Tutti Frutti, que acompanhou Rita Lee, entre outros, nos anos 70. No repertório, “Sangue Latino”, “Metamorfose Ambulante” e outros clássicos do período. O festival “Noite do Thunder” se encerra no dia 1 de agosto com o show da banda Devotos de Nossa Senhora Aparecida, que está completando 40 anos.


Programação
Dia 25 de julho - Orchestra Jupiteriana
Dia 26 de julho - História Ilustrada do Rock Br anos 70
Dia 1° de agosto - Devotos de Nossa Senhora Aparecida 40 anos

 
Serviço
"Noites do Thunder - Orchestra Jupiteriana"
CCSP (rua Vergueiro, 1000)
Dias 24 de julho, sábado, e 25 de julho, domingo
Horário: sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00
Entrada gratuita

segunda-feira, 20 de julho de 2026

.: Ana Paula Tavares vem à Flip para lançar "O Sangue da Buganvília"


Atração oficial da Flip 2026, escritora angolana conquistou o Prêmio Camões de Literatura em 2025 e publica novo livro no Brasil. Foto: divulgação

Nem tudo o que um povo sabe cabe nos livros. Parte desse conhecimento vive nas histórias contadas pelos mais velhos, nas palavras da língua materna, nos provérbios, nas receitas, nos gestos e na maneira de olhar o mundo. É desse saber coletivo que nasce "O Sangue da Buganvília", lançado pela Pallas Editora, novo livro da escritora angolana Ana Paula Tavares, 73 anos. Reunindo mais de 70 crônicas, a vencedora do Prêmio Camões de Literatura 2025 aproxima poesia, história e tradição oral para mostrar como uma cultura continua sendo transmitida entre gerações.

Publicados originalmente na década de 1990 para a RDP África e agora reunidos em livro, os textos percorrem assuntos como língua, patrimônio, tradição oral, guerra, infância, culinária e literatura. Mas o que une essas crônicas é, sobretudo, o olhar da Ana Paula. Historiadora e antropóloga de formação, ela encontra nas pequenas experiências do cotidiano um caminho para entender Angola de um modo abrangente, sem separar o íntimo do coletivo nem a poesia da História.

Ana Paula virá ao Brasil na próxima semana para se juntar à constelação de escritores na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2026. No sábado, 25 de julho, às 15h00, a escritora vai brilhar na mesa 'O boi é só. O boi é só. O boi', na qual conversará com o público presente sobre a sua carreira na literatura e a sua poesia, ambas marcadas pela história de Angola e da luta pela emancipação feminina. Falará também a respeito da sua ligação com o Brasil, a partir dos laços que unem os dois países. 

Nas crônicas deste livro, um provérbio pode dialogar com Virginia Woolf (1882-1941), uma receita tem o poder de revelar tanto sobre um povo quanto um documento de arquivo e uma buganvília é capaz de explicar melhor um país do que qualquer estatística. Em suas páginas, a tradição oral e as vozes dos que chegaram antes deixam de ocupar um lugar periférico para assumir o centro da narrativa. É ali que a autora encontra aquilo que mais a interessa: as formas pelas quais uma cultura continua viva.

Para além de recordar o passado, Ana Paula escreve como quem recebe uma história para passar adiante. A sua literatura recusa a ideia de que a história de um país possa ser contada apenas pelos grandes acontecimentos, aqueles que saem no jornal. Ela também está na língua materna, nos mercados, nas árvores, nos objetos cotidianos, nas mulheres que preservam saberes ancestrais e nas histórias que circulam de uma geração à outra. 

Não por acaso, a planta dá nome ao livro. Na crônica que inspira o título, a buganvília floresce apesar do vento, da seca e do tempo. A imagem costura silenciosamente toda a obra e acaba se confundindo com a própria escrita de Ana Paula Tavares, que insiste em florescer onde muitos enxergariam apenas ruínas. Pela Pallas, Ana Paula já publicou "Amargo como os Frutos - Poesia Reunida" (2010) e participou de "Verbetes para Um Dicionário Afetivo" (2021), ao lado de Manuel Jorge Marmelo, Ondjaki e Paulinho Assunção. Agora é a vez de "O Sangue da Buganvília", que confirma algo que a autora vem construindo há décadas: escrever também pode ser uma forma de cuidar. Cuidar das palavras, da memória e das pessoas que fazem a História existir antes mesmo de chegar aos livros. Compre o livro "O Sangue da Buganvília" neste link.

.: Plácido Berci aborda saúde mental, relações familiares e envelhecimento


"Louca Normalidade" mescla suspense psicológico e drama familiar, inspirada na figura do pai do autor, e chega às livrarias pela Editora Mondru


O jornalista e escritor Plácido Berci lança seu primeiro romance ficcional, “Louca Normalidade”, pela editora Mondru. A obra mergulha em temas profundos como saúde mental, laços familiares e a passagem do tempo, narrando a história de Francisco Solano, um jornalista investigativo aposentado com um quadro psiquiátrico misterioso que, após sofrer um AVC, passa a registrar tudo em blocos de notas para preservar sua memória.

A trama ganha contornos de mistério quando Francisco acorda com uma anotação enigmática sobre uma mulher, uma praia e uma sequência de letras e números. Entre flashbacks, sonhos e investigações solitárias, o protagonista tenta decifrar se testemunhou um crime ou se sua mente fragilizada criou realidades paralelas. A narrativa alterna entre a terceira pessoa e as anotações íntimas de Francisco, recurso que aproxima o leitor do confuso universo mental do personagem. “Meu objetivo foi gerar reflexão sobre o preconceito em relação a quem é visto como fora dos padrões por questões ligadas à saúde mental”, comenta Plácido.

Inspirado na figura de seu pai, Pedro Berci Filho, o autor começou a escrever o livro em 2018, observando o hábito paterno de anotar tudo após um AVC. “O personagem principal, Francisco Solano, é praticamente todo inspirado no meu pai, fisicamente e, principalmente, em termos de comportamento e personalidade”, revela. A morte do pai durante o processo de escrita acrescentou novas camadas emocionais à obra, tornando-a também um exercício de luto e elaboração.

“É uma história sobre reflexão, aceitação e libertação; para o personagem, para o autor e, porque não, para o meu pai também”, define. Com cinco anos de escrita e mais dois até a publicação, “Louca Normalidade” dialoga com referências cinematográficas de diretores como Alfred Hitchcock e Martin Scorsese, e literárias de autores como Daniel Galera e Raphael Montes.

Além do suspense, o romance aborda com sensibilidade dinâmicas familiares complexas, especialmente a relação entre avô, filho e neto. “O livro também filosofa sobre outros temas como a brevidade da vida, luto, solidão, amor e saudade”, completa o autor. A obra chega com projeto gráfico cuidadoso e já desperta interesse para adaptações audiovisuais. “Acho que o livro tem potencial para um filme ou uma minissérie. Procurei escrever cenas detalhadas e visualmente ricas com a intenção de transportar o leitor para o Rio de Janeiro colapsado de Francisco Solano”, adianta Plácido, que atua como repórter e apresentador esportivo da TV Globo em São Paulo. Compre o livro "Louca Normalidade", de Plácido Berci, neste link.

Sobre o autor
Plácido Berci
, 36 anos, é jornalista formado pela PUC-Campinas e atua como repórter e apresentador da editoria de esporte da TV Globo desde 2015. Natural de Araraquara e criado em São Carlos, já morou em cidades como Campinas, Rio de Janeiro, Manchester (Inglaterra) e Nairóbi (Quênia), onde foi o primeiro correspondente esportivo brasileiro. É autor dos livros “Paixão: uma viagem pelo futebol inglês” e “Nuvem de terra: relatos do primeiro correspondente esportivo brasileiro no Quênia”. “Louca normalidade” marca sua estreia na ficção e é publicado pela editora Mondru. Compre os livros de Plácido Berci neste link.

.: Falta de humanidade nas cidades vira pintura em mostra gratuita em SP


"Tudo Sobre Mim", estreia no dia 23 de julho no Espaço República, e marca a volta de Maazo Heck às exposições individuais após 7 anos, com 25 pinturas inéditas. Foto: divulgação 

Uma exposição gratuita no centro de São Paulo parte de uma inquietação bem atual: a sensação de impotência diante da falta de humanidade nas grandes cidades. "Tudo Sobre Mim", do artista visual Maazo Heck, ocupa o Espaço República entre 23 de julho e 3 de agosto, com 25 pinturas inéditas produzidas ao longo de cinco anos de pesquisa. A exposição marca a primeira mostra individual do artista na capital paulista.

Como parte da programação especial da mostra, o público poderá participar de duas atividades gratuitas conduzidas pelo artista Maazo Heck e pela curadora Michaela A F. No dia 25 de julho, das 15h00 às 16h00, será realizada uma demonstração prática de pintura ao vivo, seguida de um bate-papo sobre o processo criativo, a pesquisa artística e os conceitos que permeiam a exposição. 

Já no dia 1º de agosto, também das 15h00 às 16h00, os visitantes poderão acompanhar uma visita guiada com o artista e a curadora, que apresentarão detalhes sobre as obras, os símbolos presentes na série e os caminhos que deram origem à mostra “Tudo Sobre Mim”. 

Ao entrar na mostra, o visitante encontra pinturas que transitam entre a figuração e a abstração. Corpos parcialmente ocultos por tecidos dividem espaço com imagens que se aproximam do símbolo, criando composições de forte impacto visual em que as dobras, os volumes e as formas assumem protagonismo.

O título "Tudo Sobre Mim" carrega uma ironia. Embora a série tenha origem nas inquietações pessoais do artista, as pinturas não propõem uma narrativa autobiográfica. A partir de experiências íntimas para construir imagens abertas a diferentes interpretações, Maazo transforma questões individuais em uma reflexão sobre a condição humana. A série nasceu da inquietação que acompanha o artista há anos. O contato cotidiano com a realidade das pessoas em situação de rua e a sensação de impotência diante da crescente falta de humanidade nas grandes cidades tornaram-se o ponto de partida para a pesquisa desenvolvida desde 2020.

"Minha angústia é a falta de humanidade. Convivo diariamente com cenas que me atravessam e permanecem comigo. A pintura foi a forma que encontrei de transformar esse incômodo em reflexão", afirma Maazo. Segundo a curadora Michaela A F, os tecidos ocupam um papel central na construção da série, revelando e ocultando simultaneamente figuras, formas e significados. "Em alguns momentos, deixam de remeter a um corpo específico e passam a operar como símbolos abertos, evocando vestígios cuja significação permanece em suspensão".

Formado em Belas Artes, Maazo desenvolveu grande parte de sua trajetória artística em Salvador, onde realizou sua última exposição individual, no Palacete das Artes, atual Museu Rodin Bahia. Desde então, participou de exposições coletivas e salões de arte, mantendo ativa sua pesquisa artística e integrando um grupo permanente de cinco artistas que se reúne para discutir processos criativos e arte contemporânea.

Hoje, mantém seu ateliê no Espaço República, ambiente que considera fundamental para o desenvolvimento de seu trabalho. A convivência diária com outros artistas e o incentivo promovido pelo gestor do espaço, o artista plástico Philip Haji-Touma, ampliam as oportunidades de diálogo, intercâmbio e circulação de sua produção. 

"Uma exposição sempre muda quando sai do ateliê e encontra o público. É nesse momento que o trabalho ganha outra dimensão. Minha expectativa é que as pessoas percorram esse caminho comigo e construam suas próprias interpretações", conclui Maazo. 


Serviço
Exposição "Tudo Sobre Mim"
Entrada gratuita
Artista: Maazo Heck
Curadoria: Michaela A F
Período: 23 de julho a 3 de agosto
Horário de visitação: das 13h00 às 19h00
Espaço República | Avenida São Luís, 86, 5º andar - São Paulo
Programação especial: 25 de julho | 15h00 às 16h00: pintura ao vivo e bate-papo com o artista Maazo Heck e a curadora Michaela A F
1º de agosto | 15h00 às 16h00: visita guiada com o artista Maazo Heck e a curadora Michaela A F

.: “Preta Gil nunca teve medo”, destaca Mini Kerti em "Meu Nome É Preta"


Produzida pela Conspiração, série de quatro episódios se aprofunda em momentos íntimos da trajetória da artista, com depoimentos inéditos de familiares e amigos. Imagem: divulgação


Conhecida pela irreverência, amor escancarado pelos amigos e a coragem de viver sem filtros, a cantora Preta Gil fez da vida uma celebração de afeto e liberdade. Um ano após o falecimento dela, o público poderá revisitar sua trajetória a partir desta segunda-feira, dia 20 de julho, com a estreia da série "Meu Nome É Preta", original do Globoplay. Dividida em quatro episódios, a produção reconstrói a história da artista a partir do olhar daqueles que compartilharam sua vida, compondo um mosaico afetivo sobre seu legado. Produzida pela Conspiração e dirigida por Mini Kerti, a obra terá o primeiro episódio disponível e aberto para todo o público, incluindo não assinantes do streaming

Para dar forma a essa narrativa, a produção resgata registros históricos e familiares raros, incluindo filmes inéditos em Super 8 de sua infância na Bahia, a vivência de Gilberto Gil e Sandra Gadelha, e imagens comoventes do seu irmão Pedro Gil, falecido em 1990. Em contraste com essa atmosfera íntima, os arquivos de mídia dos anos 2000 relembram os embates públicos enfrentados pela cantora, evidenciando seu pioneirismo ao pautar discussões sobre corpo, orientação sexual e diversidade quando esses temas ainda eram tabus. “Fizemos um recorte que narra sua vida a partir dos acontecimentos marcantes que mudaram seu rumo: a morte do irmão mais velho ainda na adolescência, o primeiro disco em que posou nua na capa, a criação da Noite Preta, depois o Bloco da Preta”, descreve a diretora Mini Kerti. 

Com depoimentos inéditos que se transformam em verdadeiras cartas de amor, a obra conta com a participação especial de amigos, como Carolina Dieckmmann, Regina Casé, Duh Marinho, Gominho, Ivete Sangalo, Hugo Gloss, Alice Carvalho e Ana Carolina, bem como de familiares, entre eles, Gilberto Gil, Sandra Gadelha, Fran Gil, Flora Gil, Bela Gil, Otávio Muller e Davi Moraes, que revelam momentos importantes da jornada de Preta. A presença marcante da artista se reflete na própria estrutura da série, que coloca Preta Gil como narradora de sua história, num “diálogo” com os amigos e parentes, guiando o público por meio de um extenso trabalho de pesquisa que recupera entrevistas concedidas por ela ao longo de toda a vida. O vasto material de arquivo aborda desde o seu nascimento, passando pela maternidade, sua atuação pioneira como empresária, até sua forte ligação com o Carnaval.

 Segundo a diretora Mini Kerti, a produção evidencia a personalidade monumental de Preta, mas sem perder a sensibilidade dos bastidores. “A série mostra que Preta Gil nunca teve medo de revelar a sua essência para o mundo. Ela se conectava de forma generosa com as pessoas e se expunha impiedosamente. Ela não criava pautas, ela era a própria pauta”, pontua.

 A produtora Luísa Barbosa complementa: “O que mais surpreende ao mergulhar na história de Preta Gil é a coerência radical entre a pessoa pública e a privada. Fica claro que aquela personalidade expansiva, generosa e sem filtros que o público via era exatamente quem ela era na intimidade. Contar sua história é reconhecer a força de quem escolheu viver com autenticidade, mesmo sob julgamento constante, e evidenciar o impacto real que isso teve na cultura e no imaginário coletivo”.

A preservação dessa memória e legado estende-se para além do streaming, integrando o projeto "Quanto Mais Preta Melhor" uma homenagem da Globo à trajetória e à força da artista. No dia 20 de julho, mesma data de estreia da série do Globoplay, a TV Globo exibe o filme documental "Preta - Eu Não Ando Só". O projeto nasceu de um pedido da própria Preta Gil e é focado em sua luta contra o câncer, construído com imagens de celular gravadas por ela mesma e por sua rede de apoio durante o tratamento. O filme tem direção artística de Monica Almeida, direção de Sandra Kogut, roteiro de Renato Terra, produção executiva de Fernanda Neves e produção de Elaine Sá. 

No Globoplay, os episódios de "Meu Nome É Preta" terão publicação semanal, chegando ao streaming às segundas-feiras. O quarto e último episódio será lançado em uma data especial: no sábado, dia 8 de agosto, celebrando a efeméride de aniversário de Preta Gil. A série Original tem direção de Mini Kerti, produção de Carolina Jabor, Luísa Barbosa e Renata Brandão, roteiro de Victor Nascimento e produção associada de Flora Gil. O primeiro episódio estará disponível também para não assinantes. Confira a entrevista com a diretora Mini Kerti e com a produtora Luísa Barbosa.

 
Que significado tem, para você, contar a história de uma mulher como a Preta Gil?
Mini Kerti -
Eu chorei vários dias, nas filmagens e na ilha de edição. Preta foi muito ela mesma, sob milhares de holofotes e, muitas vezes, incompreendida, o que não é nada simples. Mas mesmo assim foi construindo uma rede enorme de afetos. Pra mim, contar a história dela é um grande desafio e uma enorme alegria. 

 
Como a trilha sonora foi pensada para dialogar com a história de Preta?
Luísa Barbosa -
A trilha sonora segue esse retrato íntimo e histórico, começando nas referências formativas de Preta, como os Doces Bárbaros e o rock anos 80 da sua prima Marina Lima, até chegar na própria carreira de Preta, marcada pela mistura de gêneros como axé, funk, MPB e pop. 

 
O que mais surpreendeu ao mergulhar na história da Preta durante o processo da série?
Mini Kerti -
A liberdade. Preta era livre e profundamente fiel a si mesma, sem medidas.

 
Quais critérios orientaram a escolha dos amigos e pessoas próximas que aparecem na série?
Luísa Barbosa -
Adotamos dois critérios centrais: reunir pessoas que ajudassem a cobrir diferentes momentos da linha do tempo de sua vida e, ao mesmo tempo, que representassem as muitas facetas que ela assumiu: filha, irmã, mãe, avó, amiga, empreendedora, influenciadora, ativista e cantora. 

 
Preta Gil sempre foi uma voz ativa em diferentes temas da atualidade. Como esses pilares foram abordados na narrativa da série?
Mini Kerti -
Esses temas diversos aparecem por meio da própria história de vida da Preta, com suas palavras, atitudes e pensamentos. De maneira clara, pessoal e íntima.

 
Que novas perspectivas a obra traz sobre sua história e legado?
Luísa Barbosa -
Ao colocar a própria Preta como narradora de sua história, a série revela suas contradições, fragilidades e afetos, oferecendo um retrato muito mais humano, profundo e complexo de sua biografia.

.: Cortez Editora: obras semifinalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026


Casa editorial emplacou três títulos nas categorias de Educação e Ensino e Ciências Ambientais na principal premiação de livros acadêmicos no país

A aguardada lista de semifinalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026 foi divulgada e a Cortez Editora consolida mais uma vez seu papel de protagonismo no cenário intelectual e editorial brasileiro. Com três obras selecionadas em categorias altamente competitivas, a editora paulistana reafirma seu compromisso histórico com a produção científica e pedagógica nacional.

Em Ciências Agrárias e Ciências Ambientais, o destaque da editora é a obra "Juventude e Clima: Vozes do Futuro", organizada por Alfredo Pena-Vega e Elimar Pinheiro do Nascimento. O livro joga luz sobre o papel e a percepção das novas gerações diante dos desafios socioambientais, consolidando-se como uma leitura essencial para compreender como a juventude se posiciona e se mobiliza diante do futuro do planeta.

Já em educação e ensino, a Cortez Editora emplacou duas produções de grande relevância teórica. A primeira delas é "Pedagogias Emergentes: Princípios e Práticas", sob a organização de Emerson Augusto de Medeiros, Jefferson da Silva Moreira e Maria Amélia Santoro Franco. A publicação investiga as novas configurações e práticas pedagógicas que desafiam os modelos tradicionais de ensino, oferecendo uma contribuição teórica e prática fundamental para a formação de professores e para a renovação da práxis educativa no Brasil.

A segunda indicação na categoria é o livro "Por Um Currículo Sem Fundamentos", de autoria de Alice Casimiro Lopes. A autora propõe uma profunda reflexão teórica sobre as políticas curriculares ao desafiar visões essencialistas, promovendo um debate instigante e necessário para pesquisadores, gestores e profissionais dedicados a pensar a estrutura da educação contemporânea.

A indicação destas obras reflete o DNA da Cortez Editora, cujas publicações de educação e ciências sociais são historicamente voltadas para a transformação social e para o fortalecimento da formação docente no país. Fundada pelo livreiro e editor José Xavier Cortez, a editora se tornou um dos maiores pilares da bibliografia acadêmica do país, especialmente nas áreas de Ciências Humanas, Serviço Social e Educação.

Com um acervo de quase 1.300 títulos e uma trajetória marcada pelo diálogo constante com pesquisadores e intelectuais brasileiros, a Cortez chega à semifinal do prêmio máximo do livro acadêmico com obras que traduzem debates urgentes da sociedade contemporânea. A lista de semifinalistas do Prêmio Jabuti Acadêmico celebra não apenas o rigor metodológico das pesquisas, mas a capacidade dessas obras de dialogar com os desafios do nosso tempo.

.: Filme “Judas” encara a religião e reabre feridas históricas em Jerusalém


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Judas” estreia plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  e mergulha em debates que passam pela fé, política e desejo sem perder o pulso dramático. Dirigido por Dan Wolman, veterano do cinema israelense, o longa-metragem adapta o romance homônimo de Amos Oz, lançado em mais de 30 países e frequentemente lembrado em apostas para o Prêmio Nobel de Literatura. A narrativa se passa em Jerusalém, no inverno de 1959, quando a cidade ainda carregava as marcas recentes da divisão pós-1948.

No centro da história está Shmuel Ash (Yuval Livni), um estudante que abandona a universidade após o colapso financeiro do pai e aceita trabalhar como acompanhante de Gershom Wald (Doron Tavori), um intelectual idoso, debilitado e ávido por conversa. A rotina da casa gira em torno de longas discussões sobre religião e história, especialmente a figura de Jesus e o papel de Judas Iscariotes - tema da tese inacabada de Shmuel. É nesse ambiente carregado de ideias que surge Atalia (Einav Markel), nora viúva de Wald, presença enigmática que desloca o jovem protagonista para um território afetivo tão instável quanto as convicções dele.

A adaptação de um livro conhecido pela densidade filosófica exigiu escolhas radicais de roteiro. Shoshi Wolman opta por preservar o embate verbal como motor dramático, sustentando a tensão em diálogos que questionam versões consolidadas da história. A hipótese de Shmuel - a de que Judas teria sido o mais fiel dos apóstolos - amplia o olhar ao tocar nas origens do conflito judaico-árabe e nas raízes do antissemitismo, sem transformar o debate em discurso didático.

Dan Wolman realizou “Judas” já octogenário, reafirmando uma carreira de décadas e festivais como Cannes, Veneza e Berlim. O filme foi selecionado para eventos como o Festival Internacional de Cinema de Haifa e o Festival de Cinema Judaico de Paris, consolidando sua circulação internacional. Há também um gesto de retorno: décadas antes, o diretor já havia levado ao cinema outra obra de Amos Oz, “Meu Michael”, reforçando um diálogo persistente com o escritor. O resultado é um drama que prefere o confronto de ideias à ação física, sem abrir mão de intensidade.


Ficha técnica
“Judas” | “Judas” (título original)
Gênero: drama. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2022. Idioma: hebraico. Direção: Dan Wolman. Roteiro: Shoshi Wolman, baseado no romance de Amos Oz. Elenco: Yuval Livni, Doron Tavori, Einav Markel. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.
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