sábado, 5 de setembro de 2026

.: "As Irmãs de Amarelo" mergulha em escolhas difíceis e na sobrevivência


Novo romance de Mieko Kawakami chega ao Brasil pela Intrínseca e acompanha mulheres que tentam sobreviver à pobreza, à criminalidade e à falta de perspectivas. Foto: Reiko Toyama

Quanto de liberdade existe quando escolher é um privilégio que o dinheiro pode comprar? Em "As Irmãs de Amarelo", novo romance de Mieko Kawakami, autora de "Peitos e Ovos", essa pergunta ganha contornos cada vez mais incômodos ao acompanhar mulheres que encontram na amizade, no trabalho e até na criminalidade maneiras de escapar de uma vida marcada pela precariedade. 

Publicado pela Intrínseca, o livro leva o leitor às noites de Tóquio do fim dos anos 1990 e retoma alguns dos assuntos recorrentes na obra da escritora japonesa, como desigualdade social, trabalho feminino e os limites impostos às mulheres quando faltam dinheiro, proteção e perspectivas. Vencedora do Prêmio Yomiuri de Literatura, Kawakami constrói uma narrativa em que as escolhas pessoais nunca estão completamente separadas das condições sociais que as cercam. A tradução é de Rita Kohl.

A história começa em abril de 2020. Aos 40 anos, Hana se depara por acaso com uma notícia de jornal sobre Kimiko Yoshikawa, uma mulher de 60 anos que está sendo julgada por agredir e manter uma jovem em cárcere privado. O nome faz Hana voltar no tempo, até uma fase da vida que parecia definitivamente arquivada. Em 1998, aos 15 anos, ela morava com a mãe na periferia de Tóquio, enfrentava dificuldades financeiras e trabalhava para juntar algum dinheiro. Em uma casa sem segurança e com poucas possibilidades de decidir o próprio futuro, Hana encontra em Kimiko uma espécie de porta de saída.

As duas abrem o Lemon, pequeno bar no bairro de Sangenjaya que acaba se tornando ponto de encontro e abrigo para Hana e outras duas jovens, Lan e Momoko. As quatro passam a trabalhar juntas e dividir a mesma casa. Por algum tempo, aquela família improvisada oferece algo que parecia impossível: pertencimento. Só que contas não costumam respeitar sonhos. Quando o dinheiro começa a desaparecer, a sensação de liberdade também perde força. Hana acaba envolvida no submundo dos golpes, onde necessidade e ganância passam a dividir uma fronteira cada vez mais estreita. O que parecia uma alternativa para sobreviver começa a cobrar um preço próprio. É nesse terreno desconfortável que Kawakami desenvolve a principal questão do romance: até onde uma escolha pode ser considerada realmente livre quando as outras opções praticamente desapareceram? Compre o livro "As Irmãs de Amarelo", de Mieko Kawakami, neste link.

Sobre a autora
Mieko Kawakami
é autora do best-seller internacional "Peitos e Ovos", escolhido pelo jornal The New York Times entre os livros notáveis do ano e incluído pela revista Time entre os dez melhores livros de 2020. Entre seus outros romances estão "Paraíso", finalista do International Booker Prize de 2022, e "Todos os Amantes da Noite", finalista do National Book Critics Circle Award de 2023 na categoria ficção. Em 2024, "As Irmãs de Amarelo" recebeu o Prêmio Yomiuri de Literatura. Traduzidos para mais de quarenta idiomas, os livros da escritora são conhecidos pelas reflexões sobre gênero, classe e ética na sociedade contemporânea. Nascida em Osaka, Kawakami vive atualmente em Tóquio, no Japão. Compre os livros de Mieko Kawakami neste link.

.: “Nefelibato” retorna a São Paulo e coloca a loucura diante do espelho


Monólogo de Regiana Antonini, estrelado por Luiz Machado, investiga os limites entre lucidez e loucura e volta ao Teatro B32 para temporada de 4 a 27 de setembro.  Foto: Claudia Ribeiro

Um homem, um carrinho e um mundo inteiro para carregar. É assim que Anderson, personagem central de “Nefelibato”, monólogo escrito por Regiana Antonini, chega ao palco na interpretação de Luiz Machado. Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, o espetáculo retorna a São Paulo para uma curta temporada no Teatro B32, até dia 27 de setembro. A montagem, que já passou por temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, chega à sexta temporada carregando uma história que nasceu nos anos 1990, período marcado pelo confisco das reservas financeiras da população pelo governo, mas que encontra ecos incômodos no Brasil de hoje.

A medida econômica mergulhou milhares de brasileiros em desespero e levou muitos à bancarrota. Anderson foi um deles. Perdeu o negócio, uma pessoa querida, um grande amor e, depois de tudo isso, acabou nas ruas. Entre a realidade e a imaginação, passa a perambular carregando consigo aquilo que restou de seu mundo. É nesse território de fronteira que “Nefelibato” encontra sua força. A peça investiga o quanto de loucura pode existir como mecanismo de sobrevivência e até onde alguém consegue ir para continuar vivo. Para Anderson, a rua se transforma numa espécie de refúgio possível diante de uma existência que deixou de caber nos moldes convencionais.

“O público fica muito impactado, pois o espetáculo reflete uma realidade que tentamos fazer invisível, mas que está sempre à disposição de nossos olhos. Então, é muito interessante quando a plateia percebe que a atitude do personagem é consequência de um ato político e se aproxima ainda mais desta verdade social em que vivemos”, afirma Luiz Machado. O ator conta que se encantou pelo personagem desde o primeiro contato com o texto. "A história de Anderson me fascinou completamente, pois é um personagem que vive no limite da vida e do sonho, entre a lucidez e a loucura", conclui.

Fernando Philbert define a montagem como uma mistura de realidade, fantasia, humor e poesia, tendo como centro um personagem que carrega o próprio universo em um carrinho e, ao mesmo tempo, dentro de si. “Um fato real, que se mistura com a nuvem da fantasia, do drama, do épico, do louco, do homem, do ‘Nefelibato’ que mora na praça que cada um possui no meio do peito. O projeto ‘Nefelibato’ é um espetáculo teatral da dimensão humana que se refaz no humor, na poesia, na força, na busca por um lugar no mundo, seja o mundo real ou mundo imaginário. Este personagem que carrega seu próprio mundo em um carrinho, que tem seu próprio mundo dentro de si, vai como Dom Quixote, como Hamlet, como o capitão Ahab de “Moby Dick” à procura de sua baleia branca, em busca de enfrentar seus moinhos e demônios para ser feliz. Sim, ser feliz é o que todos queremos, este singelo momento que justifica a vida, sorrir ao acordar”, assim o diretor Fernando Philbert discorre sobre o tema da peça.

A trajetória de Anderson também coloca em cena uma pergunta incômoda: o que acontece quando a sociedade empurra alguém para fora dela e depois finge que não viu? Ao transformar a rua em escolha de sobrevivência, o personagem expõe as consequências de uma realidade social que costuma ser empurrada para debaixo do tapete. Com uma única pessoa em cena, Luiz Machado sustenta o espetáculo e transforma a instabilidade emocional do personagem em matéria teatral. A atuação foi reconhecida com indicação ao Prêmio Cenym de melhor ator e com o Prêmio Aplauso Brasil, na categoria especial de Destaque do Ano.


Ficha técnica
Espetáculo "Nefelibato"
Texto: Regiana Antonini. Supervisão artística: Amir Haddad. Direção: Fernando Philbert. Interpretação: Luiz Machado. Direção de produção: Gerardo Franco. Cenografia e figurino: Teca Fichinski. Iluminação: Vilmar Olos. Músicas: Maíra Freitas. Direção de movimento: Marina Salomon. Preparação vocal: Edi Montecchi. Design gráfico: Cláucio Sales. Assistente de direção: Alexandre David. Assistente de cenário: Juju Ribeiro. Realização: LM Produções Artísticas. Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro.


Serviço
Espetáculo "Nefelibato"
Teatro B32 | Espaço Experimental | Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3732, Itaim Bibi / São Paulo
Temporada: 4 a 27 de setembro, às 20h00. Domingos, às 18h00. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia-entrada). Classificação: 14 anos. Duração: uma hora. Lotação: 70 lugares. Atenção: não é permitida a entrada após o início do espetáculo.

.: "Nino" torna diagnóstico de câncer em jornada íntima pelas ruas de Paris


Drama de Pauline Loquès acompanha jovem que recebe uma notícia devastadora e ganha dois dias para reorganizar a própria vida antes de iniciar o tratamento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Depois de chegar aos cinemas brasileiros, "Nino" encontra uma nova janela de exibição na plataforma de streaming da Reserva Imovision, onde apresenta ao público brasileiro o primeiro filme de ficção de Pauline Loquès. No centro da história está Nino, interpretado por Théodore Pellerin, um jovem parisiense que descobre ter câncer na garganta quando deveria estar preocupado com assuntos bem menos dramáticos.

A partir do diagnóstico, os médicos dão ao rapaz duas tarefas antes do início do tratamento. O que poderia parecer apenas uma contagem regressiva médica ganha contornos de uma jornada pessoal pelas ruas de Paris, enquanto Nino tenta entender o que fazer com a notícia, como contar para a mãe e os amigos e, principalmente, como continuar vivendo diante de uma realidade que mudou de repente. A própria apresentação oficial do filme resume essas missões como uma oportunidade para o personagem se reconectar com o mundo e consigo mesmo.

A estrutura concentra a narrativa em poucos dias e transforma a capital francesa em parte essencial da experiência de Nino. A cidade aparece como espaço de encontros, lembranças, afetos e pequenas decisões, enquanto o protagonista tenta administrar o medo, a confusão e as relações que havia deixado pelo caminho. A comparação com "Cléo das 5 às 7", clássico de Agnès Varda, surge naturalmente pela maneira como o filme acompanha uma personagem diante da perspectiva de uma doença e usa a cidade como extensão de sua inquietação. A própria recepção ao filme também destacou essa relação entre deslocamento urbano, espera e descoberta pessoal.

Estreante na direção de ficção, Loquès também assina o roteiro, com colaboração de Maud Ameline. Antes de "Nino", a cineasta havia dirigido o documentário "La Vie d'une Jeune Fille", de 2018. O filme nasceu de um processo de desenvolvimento iniciado em 2020 e foi rodado em Paris no segundo semestre de 2024. Théodore Pellerin é o grande trunfo do elenco. A interpretação como Nino rendeu ao ator o Prêmio Fundação Louis Roederer de Revelação na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2025. 

O reconhecimento não parou em Cannes. "Nino" venceu o César de Melhor Primeiro Filme e Pellerin levou o prêmio de Melhor Revelação Masculina na edição de 2026. A produção também passou pelo Festival Internacional de Toronto, na competição Platform, e acumulou prêmios em eventos como Deauville, Roma, Varsóvia e Namur. No elenco, Pellerin divide a cena com William Lebghil, Salomé Dewaels e Jeanne Balibar, além de participações de Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois e Mathieu Amalric.

A produção francesa chegou aos cinemas brasileiros em 7 de maio de 2026 e agora pode ser encontrada na Reserva Imovision. Com 96 minutos, o filme aposta na intimidade, no humor pontual e nos encontros fortuitos para construir uma história sobre juventude, amizade, família e a necessidade quase urgente de reaprender a olhar para a própria vida.


Ficha técnica
"Nino" (título original)
Gênero: drama. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 7 de maio de 2026 no Brasil; 9 de abril de 2026 em Portugal. Idioma: francês. Direção: Pauline Loquès. Roteiro: Pauline Loquès, com colaboração de Maud Ameline. Elenco: Théodore Pellerin, William Lebghil, Salomé Dewaels, Jeanne Balibar, Camille Rutherford, Estelle Meyer, Victoire Du Bois, Balthazar Billaud, Mathieu Amalric, Nahéma Ricci, Alexandre Desrousseaux e outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: Livro "Compêndio..." reúne gigantes e pigmeus na Bienal de São Paulo


Leonardo Menegatto mistura mito, religião, fantasia e ciência em cinco narrativas que percorrem diferentes formas de contar o mundo


Leonardo Menegatto chega à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo com "Compêndio das Grandes e Pequenas Existências", publicado pela Mondru Editora. O escritor participa de autógrafos e bate-papo em 8 de setembro, no Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros, na Travessa 11 (Travessa Literária). O livro reúne cinco textos independentes ligados por uma presença em comum: gigantes e pigmeus. A partir desse fio, cada narrativa assume uma estrutura própria e conduz o leitor por diferentes épocas, gêneros e maneiras de imaginar e registrar a realidade.

O percurso passa pelo relato mitológico, pelo texto bíblico, pelo conto de fadas, pelo ensaio científico ficcional e pela correspondência. A variedade de formatos faz parte da própria proposta da obra, que investiga como diferentes sociedades e períodos históricos criam maneiras particulares de explicar o mundo. Menegatto dialoga com referências como a tradição atribuída a Homero, textos gnósticos e apócrifos do cristianismo primitivo, os contos reunidos pelos irmãos Grimm e as obras de Charles Darwin.

Doutor em Genética, o autor também estabelece uma aproximação entre literatura e história da ciência. O conhecimento científico entra na construção ficcional sem ficar confinado ao papel de figurante, enquanto a linguagem ganha diferentes funções conforme cada narrativa muda de época e de gênero. "Compêndio das Grandes e Pequenas Existências" brinca com escalas, formatos e perspectivas. Gigantes e pigmeus acabam funcionando como imagens que mudam de tamanho conforme o olhar de quem conta — porque, na literatura, até uma criatura colossal pode caber em poucas páginas. Compre os livros de Leonardo Menegatto neste link.


Sobre Leonardo Menegatto
Leonardo Menegatto é escritor, engenheiro agrônomo, doutor em Genética pela FMRP-USP e mestre em Agronomia, com ênfase em Genética e Melhoramento de Plantas. É também licenciado em Ciências Agrárias pela ESALQ-USP. Sua produção literária transita pelo realismo fantástico, pela poesia e pela literatura infantojuvenil.

É autor de "A Fantástica Aventura de Ferdinando e Quem Eu Lá Conheci", vencedor do Prêmio Book Brasil nas categorias Melhor Infantojuvenil e Aclamado pelo Público, e de "Na Estranha Imagem Entre Nós". Também possui contos e poemas publicados em diferentes coletâneas. Compre os livros de Leonardo Menegatto neste link.


Serviço
Leonardo Menegatto na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Atividade: Autógrafos e bate-papo
Dia 8 de setembro de 2026, terça-feira, das 9h00 às 13h45
Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros - Travessa 11 (Travessa Literária)

28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: 4 a 13 de setembro de 2026
Distrito Anhembi - Pavilhão de Exposições
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana / São Paulo

.: “Duelo na Riviera Francesa” faz da traição de 40 anos um acerto de contas


Comédia francesa de Ivan Calbérac chega ao Belas Artes À La Carte com André Dussollier, Sabine Azéma e Thierry Lhermitte em uma história na qual o ciúme envelhece, mas aparentemente não prescreve


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Descobrir uma traição quarenta anos depois pode parecer um excelente motivo para deixar o passado quieto. Para o personagem François Marsault, definitivamente não. Em “Duelo na Riviera Francesa”, comédia francesa de Ivan Calbérac que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte., um general aposentado resolve transformar uma velha infidelidade conjugal em assunto de primeira ordem - porque, para ele, certas ofensas têm prazo de validade semelhante ao vinho francês: aparentemente, quanto mais antigas, mais inflamáveis.

Interpretado por André Dussollier, François é casado há cinco décadas com Annie, vivida por Sabine Azéma. O casamento segue firme quando ele encontra, no sótão, cartas apaixonadas que revelam um caso extraconjugal ocorrido quatro décadas antes. Annie admite o romance e tenta argumentar que o episódio pertence a uma época tão distante que já deveria ter prescrito. François, contudo, não está interessado em jurisprudência sentimental. Decide pedir o divórcio e localizar Boris, o antigo amante da mulher, para acertar as contas pessoalmente.

A missão leva o casal até Nice, na Côte d’Azur, onde o passado reaparece na figura de Boris, vivido por Thierry Lhermitte. O sujeito não parece exatamente disposto a colaborar com a paz matrimonial: ainda guarda sentimentos por Annie e volta a cortejá-la. O que poderia ser apenas uma briga de casal ganha proporções familiares quando os três filhos entram na equação, transformando a viagem numa espécie de excursão involuntária pelos problemas, segredos e afetos de uma família que já deveria saber se comportar melhor.

Calbérac escreve e dirige uma comédia apoiada no choque entre a rigidez de François e a capacidade de Annie de enxergar a situação com alguma distância. A premissa tem uma boa dose de absurdo: um homem de 73 anos decide fazer justiça pelas próprias mãos por causa de algo que aconteceu quando ainda era jovem. O curioso é que o filme não trata o personagem simplesmente como um velho ciumento. A crise acaba servindo para colocar em xeque a maneira como ele passou décadas comandando a própria família.

A dupla André Dussollier e Sabine Azéma acrescenta uma camada particularmente saborosa ao projeto. Os dois atores voltam a interpretar um casal depois de inúmeras colaborações, entre elas “Tanguy”, “On Connaît la Chanson”, “Cœurs” e “Les Herbes Folles”, trabalhos associados, em boa parte, ao cineasta Alain Resnais. Para “Duelo na Riviera Francesa”, essa história compartilhada ajuda a vender uma intimidade que o roteiro precisa construir rapidamente. A própria imprensa francesa chamou atenção para a 12ª colaboração cinematográfica entre os dois.

Thierry Lhermitte entra como o ingrediente capaz de incendiar novamente a situação. Boris é o antigo amante que, quatro décadas depois, ainda conserva uma queda por Annie. O encontro entre os três produz a faísca central da comédia: enquanto François está preocupado em defender uma honra conjugal que já atravessou quatro décadas, Boris parece muito mais interessado em descobrir se uma velha paixão pode ganhar uma segunda temporada.

A origem da história também tem um quê de roteiro pronto. Segundo as informações de produção divulgadas sobre o filme, Calbérac teve a ideia depois de ler uma notícia sobre um italiano com mais de 90 anos que pediu o divórcio ao descobrir antigas cartas de amor endereçadas à esposa. A anedota real acabou virando uma comédia sobre memória, casamento, orgulho e aquela velha mania humana de transformar uma questão encerrada há décadas em emergência nacional.

Lançado na França em 24 de abril de 2024, “Duelo na Riviera Francesa” teve uma abertura expressiva: alcançou 34.020 espectadores no primeiro dia, ficando atrás apenas de “Back to Black” entre os lançamentos daquele dia. Na semana de estreia, acumulou 234.009 espectadores e chegou ao fim de sua passagem francesa com cerca de 594 mil entradas. O filme também circulou internacionalmente com o título “Riviera Revenge”, chegando a outros mercados europeus e à Austrália.

“Duelo na Riviera Francesa” parece interessado em observar o ridículo de homens que levam a própria honra a sério demais e mulheres que já descobriram que determinadas guerras conjugais simplesmente não merecem munição. No fim, a viagem para a Riviera deixa de ser apenas uma perseguição ao amante do passado. François precisa encarar a mulher com quem passou 50 anos, os filhos que conhece menos do que imagina e, sobretudo, a possibilidade incômoda de que uma vida inteira não cabe nas versões que cada integrante da família construiu dela. É uma comédia sobre casamento, velhice e ciúme em que ninguém parece exatamente inocente.


Ficha técnica
“Duelo na Riviera Francesa” | “N’avoue Jamais” (título original) | “Nunca Confesses” (título em Portugal) | “Riviera Revenge” (título internacional)
Gênero: comédia. Duração: 94 minutos. Classificação indicativa: não localizada em fonte oficial brasileira até o momento; na França, o filme recebeu classificação “Tous publics” (livre para todos os públicos). Ano de produção: 2024. Data de lançamento: setembro de 2026 no Belas Artes À La Carte; estreia original na França em 24 de abril de 2024. Idioma: francês. Direção: Ivan Calbérac. Roteiro: Ivan Calbérac. Elenco: André Dussollier (François Marsault), Sabine Azéma (Annie Marsault), Thierry Lhermitte (Boris Pelleray), Joséphine de Meaux (Capucine Marsault), Sébastien Chassagne (Adrien Marsault), Gaël Giraudeau (Amaury Marsault), Eva Rami (Mika), Michel Boujenah (Clément Fontaine), Solal Bouloudnine (Mourad), Frédéric Deleersnyder (tenente Théo), Christiane Conil (Sophie Désenclos), Jacques Brunet (almirante) e Marie Fabre (Marjorie Marsault). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

.: Música: Barbara Rocha apresenta material autoral em turnê intimista


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

A cantora e compositora mineira Barbara Rocha apresenta, em seu canal oficial no YouTube, um vídeo especial com os bastidores da turnê “Me and My Old Guitar” - projeto que nasceu de uma relação essencial entre artista, música e violão e ganhou as estradas de Minas Gerais em uma circulação marcada pela proximidade com o público, pela música autoral e pela troca de experiências.

O registro revela momentos que aconteceram antes, durante e depois das apresentações, mostrando um pouco da rotina da artista, os encontros com diferentes públicos e a construção de um projeto que resgata a essência de Barbara: voz, violão e canções que carregam histórias pessoais e sentimentos universais. E como dizia aquela canção de Milton Nascimento e Fernando Brandt, todo artista tem que ir aonde o povo está.

A proposta de “Me and My Old Guitar” surgiu a partir de uma lembrança afetiva. Antes dos palcos, das bandas e de toda a estrutura de um show, havia apenas Barbara, seu violão e o sonho de fazer música. O formato intimista representa justamente esse retorno às origens, aproximando a artista do público de maneira espontânea e permitindo que as canções sejam apresentadas em sua forma mais essencial.

Durante a turnê, Barbara realizou cinco apresentações em diferentes espaços e cidades mineiras: Associação Cultural Boi da Manta, em Sete Lagoas; CEU das Artes, em Sete Lagoas; Praça da Liberdade, em Belo Horizonte; Passarela do Empreendedor, em Corinto; e o encerramento na Serra de Santa Helena, em Sete Lagoas.

O público teve a oportunidade de conhecer melhor o processo criativo da cantora, ouvir suas histórias e compreender as experiências que deram origem às músicas. O projeto também promoveu atividades formativas, com oficinas como “Primeiros Passos na Composição” e “Produção Musical: tudo o que ocê precisa saber antes de começar”, realizadas no CEU das Artes, em Sete Lagoas, além de ações em Corinto e Belo Horizonte.

Com um repertório autoral de pop rock internacional cantado em inglês, Barbara Rocha também utiliza sua música como instrumento de conexão entre culturas. Além de cantora e compositora, ela é professora de inglês e acredita que o idioma pode ser uma ponte - e não uma barreira - para quem deseja conhecer novas culturas, ampliar horizontes e se comunicar com o mundo.

Essa característica faz parte da identidade artística de Barbara, que transita por referências internacionais sem abrir mão de sua origem brasileira. O resultado é um trabalho que dialoga com diferentes gerações e aproxima o público de sonoridades do pop rock internacional por meio de uma perspectiva autoral.

Suas músicas abordam temas como amor, perda, luto, esperança e relações humanas, criando uma identificação direta com quem acompanha seu trabalho. No formato voz e violão, essas histórias ganham ainda mais força e intimidade.

A experiência também reforçou a importância da Economia Criativa, movimentando profissionais ligados à produção cultural e criando oportunidades para novos encontros, parcerias e projetos.Ela pretende dar sequência a turnê acústica em paralelo ao projeto com acompanhamento de banda;

Bastidores da turnê

"Get Loud"

.: Com “World Ablaze”, Luiza Girardello estreia em disco autoral


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

A cantora e compositora Luiza Girardello apresenta seu primeiro álbum, “World Ablaze”, já disponível em todas as principais plataformas digitais. O trabalho reúne nove faixas autorais que transitam por MPB, jazz, bossa nova, baião, rock e referências ao metal progressivo, refletindo a liberdade artística e as diferentes experiências vividas ao longo de sua trajetória.

Lançado pela ZA Music, com distribuição da Musikorama, o álbum tem produção de Luiza Girardello em parceria com o baterista, arranjador e coprodutor João Vitor Costa Dias. A gravação valoriza a sonoridade orgânica e espontânea, com os músicos tocando juntos em estúdio.

Como parte desse novo momento, Luiza também lançou o videoclipe de “Drunk On You”, disponível em seu canal no YouTube. Dirigido pelo cineasta Felipe Brêtas, com direção artística de Zabelê Gomes, o clipe utiliza a metáfora da bebida e da ressaca para abordar a dependência emocional e relacionamentos que ultrapassam os limites do saudável.

Se você puvir o trabalho de Luiza, encontrará dificuldade para classificá-lo em tipo de segmento musical. Podemos dizer que ela está próxima do jazz, porém também mostra elementos da nossa MPB. E aparenta não estar preocupada em seguir um estilo musical específico. Mas sim em mostrar a sua identidade musical moldada pelas suas influencias musicais. Trata-se de um trabalho interessante que merece ser conferido.

"Drunk On You"

"Heart Shaped Box"

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

.: Resenha crítica: "O Sorveteiro" é trash colorido com muito sangue jorrando

Cartaz de "O Sorveteiro"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


O terror slasher "O Sorveteiro" é o tipo de filme com baixo orçamento que até tem uma boa premissa e tenta apresentar uma história assustadora (dentro das possibilidades). Assim, a aposta no elenco infanto-juvenil para protagonizar uma trama que tinha grande chance de se tornar um clássico do gênero, cai com facilidade, diretamente, no trash de colorido encantador na telona de cinema com muito sangue jorrando.

Sem querer agradar, a produção do diretor Eli Roth ("Cabana do Inferno" e "O Albergue") foca no diálogo com quem aceita a sua proposta despojada e o ritmo de diversão violenta. Numa história de vingança da figura pavorosa de um sorveteiro, o longa que soma 1 hora e 27 minutos de duração, o público que admira o terror tradicional ou busca diversão é levado a Bayleen Bay.

Calma! Não se trata de um flerte com o clássico "Os Pássaros", embora tudo aconteça numa baía e tenha nos seus primeiros minutos um campo aberto com crianças, como acontece em "A Bolha Assassina". A nova produção sanguinolenta traça um caminho próprio entregando um toque do seriado "The Walking Dead" e de filme para TV.

A película que poderia ser apenas um episódio do seriado "American Horror Stories", devidamente aproveitado (considerando a premissa) ou daqueles que só servem para retomar o hiato e que ninguém sabe a motivação de ter sido produzido (considerando o filme entregue), apresenta três jovens que não comeram o sorvete amaldiçoado distribuído pelo misterioso sorveteiro e tentam impedir que a carnificina acabe com o local idílico.

"O Sorveteiro" é uma super opção quando se considera o longa pelo lado do terrir e trash como um resgate do cinema B raiz dos anos 1980 pelo uso de efeitos práticos e humor macabro. Vale destacar que o longa apresenta uma cena pós-créditos. Assista por sua conta e risco!


"O Sorveteiro" (Ice Cream Man). Gênero: TerrorEli Roth. Roteiro: Noah Belson e Eli Roth. Duração: 1h 26 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Elenco: Eli Roth, Ari Millen, Charlie Zeltzer e Snoop Dogg. Sinopse: Tudo acontece em torno de um misterioso e simpático sorveteiro ambulante. Ele passa a distribuir sorvetes e picolés amaldiçoados para as crianças locais.

Trailer de "O Sorveteiro"



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.: “Leia Perigosamente” desafia o medo e devolve à literatura poder de resistência


Novo livro de Azar Nafisi, autora de “Lendo Lolita em Teerã”, investiga por que regimes autoritários temem tanto os livros e aposta na imaginação como ferramenta de liberdade


Livros podem parecer objetos inofensivos. Cabem numa mochila, numa estante e até debaixo do braço de quem atravessa uma fronteira. Para governos autoritários, porém, algumas páginas podem ser bem mais perigosas do que parecem. É justamente nesse território que a iraniana Azar Nafisi mergulha em “Leia Perigosamente - O Poder Subversivo da Literatura em Tempos Conturbados”, lançamento da Editora Record. A tradução é de Marina Vargas.

Conhecida mundialmente pelo livro “Lendo Lolita em Teerã”, Nafisi retoma a literatura como instrumento de resistência e examina a relação incômoda entre livros, imaginação e poder. O ponto de partida são cartas escritas entre 2019 e 2020 para o pai, morto 12 anos antes. Ao escrever para alguém que já não poderia responder, a autora tenta organizar um mundo que parecia perder o juízo: o primeiro governo de Donald Trump, a pandemia, guerras e transformações políticas.

A experiência pessoal se mistura à trajetória de professora de literatura e cidadã do Irã e dos Estados Unidos, país para onde imigrou. O resultado é uma reflexão que passa pelos livros que Nafisi lecionou e pelos autores que ajudam a compreender os mecanismos de controle, intolerância e desumanização. Para explicar por que ditaduras e regimes fascistas enxergam a literatura como ameaça, a autora convoca nomes como James Baldwin, Zora Neale Hurston, Margaret Atwood e Toni Morrison. São escritores que ajudam a iluminar questões do presente e a lembrar uma ideia que regimes autoritários conhecem muito bem: imaginar outras possibilidades pode ser o primeiro passo para deixar de aceitar a realidade imposta.

De Ray Bradbury, com seus livros queimados em “Fahrenheit 451”, ao fatwa contra Salman Rushdie, Nafisi aproxima ficção e realidade para mostrar como o controle da palavra costuma andar de mãos dadas com o controle das pessoas. Quando se tenta impedir alguém de ler, imaginar e questionar, a censura deixa de mirar apenas páginas. Ela passa a mirar a própria capacidade humana de pensar.

A autora defende a literatura como espaço de diálogo, empatia e humanização até daqueles que enxergamos como inimigos. Para isso, a democracia é fundamental. Afinal, uma sociedade em que todos precisam pensar igual pode até parecer organizada - mas literatura costuma ter alergia a esse tipo de ordem. Com “Leia Perigosamente”, Azar Nafisi recupera a dimensão política da leitura sem transformar o livro em um manual de palavras de ordem. Sua aposta está na imaginação, na memória e na capacidade que grandes obras literárias têm de oferecer companhia quando o mundo parece cada vez menos razoável. É uma defesa apaixonada dos livros em uma época que continua produzindo motivos para desconfiar de quem prefere leitores obedientes. Compre o livro "Leia Perigosamente", de Azar Nasifi, neste link.


O que disseram sobre o livro
“A escrita para seu falecido pai reforça o tom do livro de Nafisi, que se volta para o exemplo do passado corajoso frente ao poder e também para uma tradição de grandes obras da literatura como consolo e guia. Com sensibilidade e inteligência, oferece um novo cânone para as tiranias do presente e as possibilidades distópicas do futuro." – Washington Post

“Uma defesa apaixonada da literatura como caminho para liberdade.” – Boston Globe


Sobre a autora
Azar Nafisi nasceu no Irã e, aos 13 anos, foi estudar na Inglaterra. Nos Estados Unidos, concluiu o doutorado em literatura inglesa pela Universidade de Oklahoma. Em 1979, após a derrubada da ditadura e a criação da República Islâmica do Irã, retornou ao país esperando encontrar um cenário de mudanças políticas. O que encontrou, porém, foi um regime de terror comandado pelos aiatolás. Nafisi permaneceu em Teerã por 18 anos. Entre 1979 e 1981, lecionou literatura inglesa na Universidade de Teerã, de onde foi expulsa por se recusar a usar o véu. Depois, passou pela Universidade Livre Islâmica e pela Universidade Allameh Tabataba'i. 

Autora de seis livros, tornou-se conhecida internacionalmente com “Lendo Lolita em Teerã”, memórias sobre o curso secreto de literatura que ministrou para sete mulheres em Teerã. A obra foi traduzida para 32 idiomas e recebeu, entre outros prêmios, o Prix du Meilleur Livre Étranger. Atualmente, Nafisi vive em Washington, nos Estados Unidos, e já colaborou com veículos como The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal. Compre os livros de Azar Nafisi neste link.


Conheça também
“Lendo Lolita em Teerã: Memórias de Uma Resistência Literária”
, publicado pela Editora Record, recupera as memórias de Azar Nafisi durante o período em que ministrou secretamente um curso sobre clássicos da literatura para sete mulheres na capital iraniana. No final de 2024, o livro ganhou uma adaptação cinematográfica dirigida por Eran Riklis, disponível em streaming. A obra também foi escolhida para a 7ª edição do Clube do Livro Prioli Karnal, comandado por Gabriela Prioli e Leandro Karnal. A tradução é de Marina Vargas. Compre o livro neste link.

.: Manual Crônico, a volta de Thiago Sobral: Luz balão da noite


Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira.

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Há gravetos e retalhos de madeira jogados ao chão. Há galhos e troncos cortados, fragmentos de uma vida que se esvaiu. E há olhos vivos que contemplam as chamas bruxuleando: fogueira doce, luz balão. Junho e julho já passaram e agora já podemos dizer "que saudade!". Não que o tempo tenha sido assim tão longo, mas ninguém aguenta ficar tanto sem festa. Um vinhozinho quente não faz mal a ninguém, muito menos um bolinho de fubá. E a fogueira?

Ela estava lá, no meio da rua. Troncos grossos, gravetos, madeira, tudo sendo consumido. Poucos olhos a alcançavam, ainda que o calor nos aquecesse a todos. Mas havia olhos que não desgrudavam das chamas. De tempos em tempos, mais lenha era colocada. Sem notar os olhos que a acompanhavam, titia sujava as mãos de cinzas e sentava diante das labaredas, como se buscasse o passado.

Porque o nosso passado se liga diretamente às chamas de uma fogueira. Meu avô nasceu em vinte e três de junho. Chamava-se João por gratidão ao santo homônimo que nasceu um dia depois. Ao longo da vida, ele uniu devoção à comemoração, e construiu fogueiras. A cada ano completado, uns centímetros a mais de labareda. A cada festa celebrada, mais a tradição se firmava. Por isso, titia contemplava a fogueira com olhos d’água.

Por isso, também, comemoramos o São João todos os anos. Dessa vez, foram duas festas. A primeira, de mamãe. Povo reunido, altar, flores, Ave-Marias e boca pra que te quero. O cantochão sanfonado, triangulado e zabumbado se arrastou por toda a noite. Em certo momento, o padre, no meio do salão, convocou os noivos. O casamento mais importante da História se deu, e a frase “se alguém é contra esse casamento, que fale agora ou se cale para sempre” foi dita novamente. E “caminho da roça”. Uma quadrilha improvisada arrebanhou os convidados que, persistentes, se arrastaram no “cestinho de flor / cadeirinha do amor” mais saboroso de todos.

Semanas depois, foi a festa de titia. Rua fechada, mesas e cadeiras no lugar dos carros, e olhos atentos ao vagar do tempo. Mesa repleta, caixa de som ecoando, quadrilha de improviso. As bocas não pararam, ora levando para dentro gostos e texturas, ora exalando vocábulos de um tempo que parece não mais existir. Mamãe e titia juntas se instalaram na infância distante. E, dessa vez, havia o fogo.

Um fogo primordial, que empresta à festa todo o seu colorido e o seu calor. Numa noite fria, as chamas nos lembraram que ainda é possível aquecer e aconchegar. Um fogo de origem, que forja no espírito o gosto pela festa e pela memória. A memória de vovô, que era evocada por titia sentada em sua cadeira, imersa no silêncio contemplativo das chamas que acabara de incitar.

Herança nossa, coletiva, espalhada entre os adultos e as crianças ali presentes. Lembrança de São João, e de vovô João, que nos ensinou o amor pela luz balão, agora, não a do sol, mas a da noite, que foi tecida sob nossos olhos, palavra por palavra, centelha da nossa doce fogueira.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

.: Crítica de teatro: "Adulto" faz da culpa o melhor espetáculo de todos os tempos


Com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Lavínia Pannunzio, espetáculo transforma traição, saúde mental, dinheiro e relações afetivas em uma experiência teatral afiada, divertida e incômoda. Foto: Julieta Bacchin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Fran Ferraretto já contou em entrevista que uma das personagens dos sonhos dela é Blanche DuBois, de "Um Bonde Chamado Desejo". Em "Adulto" - espetáculo que volta para quatro apresentações gratuitas no Itaú Cultural, em São Paulo, dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00 - ela parece ter criado e escrito para ela mesma a própria Blanche, em uma personagem que lhe caiu como uma luva. 

Em comum com a personagem do clássico de Tennessee Williams está Sara, uma mulher cheia de contradições, desejos, fragilidades, força, culpa e uma capacidade desconcertante de continuar funcionando quando tudo ao redor já deveria ter desabado. Foi no Sesc Santos que assistimos à montagem, e fica difícil sair dela sem pensar nas próprias escolhas - inclusive naquelas em que grande parte do público prefere esquecer.

"Adulto" é daqueles espetáculos em que o espectador ri para, logo depois, perceber que está vendo graça em alguma coisa dolorosamente familiar. O texto de Fran Ferraretto tem essa habilidade, já que ela trata de assuntos espinhosos com leveza, inteligência e uma acidez que chega na hora certa. Não há necessidade de transformar os personagens em exemplos de comportamento ou em vilões de ocasião. Eles erram, mentem, desejam e se arrependem, mas também tentam justificar o injustificável. 

A história acompanha dois casais de amigos envolvidos em uma crise que começa a revelar problemas antigos. João (Iuri Saraiva) e Sara (Fran Ferraretto) enfrentam uma crise conjugal, enquanto a chegada de Vitor (Sidney Santiago Kuanza) e Paula (Jennifer Souza) provoca novas discussões sobre amor, fidelidade, monogamia, maternidade, machismo, dinheiro e saúde mental. A dramaturgia ainda brinca com a própria construção da peça teatral, criando, de maneira mais do que genial, uma segunda camada em que uma das personagens escreve a ficção que o público está assistindo.

Fran sabe escrever personagens que estão longe de qualquer perfeição. Por isso é impossível não reconhecer alguma coisa de si em pelo menos algum desses personagens. O elenco está muito afiado e os atores conseguem ir do humor à intensidade em questão de segundos, sem que nenhuma mudança pareça calculada. Cada personagem possui uma personalidade muito própria, e o quarteto de atores encontra diferentes caminhos para mostrar força, fragilidade, arrogância, medo, culpa e revanchismo.

Iuri Saraiva, o nosso Johnny Deep brasileiro devido à versatilidade com que encara cada papel, começa com uma leveza despretensiosa e vai ganhando contornos cada vez mais complexos. É uma atuação que cresce diante do público e chega a um estado de perturbação bastante palatável, porque reconhecível. É aquele sujeito que poderia estar sentado ao lado de qualquer um, tomando uma cerveja e contando uma história que certamente teria outra versão se fosse narrada pela pessoa envolvida.

Sidney Santiago Kuanza tem uma presença que eleva qualquer montagem. Aqui, encontra um material à altura do próprio talento e constrói um personagem que sabe incomodar sem precisar forçar a mão. Jennifer Souza, por sua vez, é uma força da natureza. Pequena fisicamente, fica gigantesca quando entra em cena. O carisma é imediato, mas ela não depende dele: existe domínio de ritmo, precisão e uma capacidade impressionante de sustentar as mudanças da personagem.

Fran Ferraretto completa esse quarteto com uma atuação que confirma uma coisa que já se percebia em trabalhos anteriores: ela entende profundamente as mulheres que escreve. Depois de abordar o relacionamento abusivo para crianças em "A Minicostureira" e discutir desigualdade social no espetáculo infantil "Rua", a dramaturga encontra em "Adulto" um terreno mais complexo para falar sobre relações entre pessoas que deveriam saber melhor o que estão fazendo.

Além disso, Fran merece ser cada vez mais reconhecida como dramaturga. Existe uma inteligência rara no modo dela abordar temas delicados sem tratar o público como criança. Ela sabe onde colocar o dedo na ferida e, principalmente, quando tirá-lo. O resultado é um texto ácido, divertido e emocionalmente desconfortável na medida certa. A direção de Lavínia Pannunzio mantém o espetáculo em movimento e impede que a discussão sobre relacionamentos vire uma sucessão de discursos. A montagem lembra, em alguns momentos, a tensão do cinema em "Closer: Perto Demais", a atmosfera do recente drama "O Convite" e até a maneira como "Flores de Aço" transforma relações pessoais em matéria dramática. São referências que ajudam a localizar a peça, mas "Adulto" tem a própria mensagem.

No fundo, é um espetáculo sobre culpa, seja essa a de trair, a de permanecer, a de desejar, a de mentir, a de não saber amar e a de não conseguir fazer diferente. Também é sobre a tentativa de reparar aquilo que foi quebrado. Porque crescer, em qualquer idade, dói, já que continuar crescendo é uma das poucas obrigações que ninguém consegue terceirizar. A imagem do casaco amarelo, presente do início ao fim do espetáculo, resume isso de maneira especialmente bonita. Depois de ser lavado, ele passa a carregar o cheiro dela. É um detalhe simples, mas poderoso: aquilo que carregava a marca de outra pessoa volta a pertencer a quem o veste. "Adulto" afirma e reafirma que algumas coisas se consertam depois de quebradas. Outras mudam de forma. E algumas, depois de lavadas, finalmente voltam a ter o nosso próprio perfume.


Ficha técnica
Espetáculo "Adulto"
Texto e idealização: Fran Ferraretto. Direção: Lavínia Pannunzio. Elenco: Fran Ferraretto, Iuri Saraiva, Sidney Santiago Kuanza e Jennifer Souza. Desenho de luz: Gabriele Souza. Trilha sonora e operação de som: Rafael Thomazini. Cenário: Mira Andrade. Figurino: Anne Cerutti. Design gráfico: Murilo Thaveira. Fotos: Julieta Bacchin. Visagismo: Louise Helène. Operação de luz: Carol Dourado. Técnico de montagem: Diego França. Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo. Estratégia digital e social media: Fernanda Pilotto. Direção de produção: Paula Malfatti. Coordenação de produção: FATTO Realizações. Gestão administrativa: Mava Produções. Assessoria jurídica: José Otávio V. de S. Ferreira S.I. Advocacia. Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso e Salão Pier A.


Serviço
Espetáculo "Adulto" no Itaú Cultural
Dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00.
Avenida Paulista, 149 - São Paulo.
Apresentações gratuitas.

.: Dez motivos para ler "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral


Romance de estreia de Thiago Sobral mergulha em violência familiar, desejo, fé, racismo, homofobia e culpa para construir uma história em que ninguém é completamente inocente

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Poucas coisas são tão literárias quanto descobrir que o monstro da história pode ter sido vítima antes de virar monstro e que isso, definitivamente, não resolve o problema. Nessa história, há um pai morto, um filho tentando justificar o injustificável, um amor que poderia ter sido e uma cidade pequena onde todo mundo parece saber da vida alheia antes mesmo de a própria pessoa descobrir. É desse material inflamável que Thiago Sobral constrói "O Pai, a Faca e o Beijo", romance de estreia publicado pela Editora Patuá, que será lançado neste sábado, dia 5 de setembro, às 16h00, na Casa das Culturas de Santos. Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00, o lançamento será na Bienal Internacional do Livro, no Estande K45 da Editora Pauá.

Ambientado em Cubatão, no litoral de São Paulo, o livro acompanha Santiago e Davi, o Pirueta, em uma relação marcada por desejo, rejeição, violência e uma quantidade considerável de coisas que poderiam ter sido resolvidas com uma conversa. Ex-seminarista franciscano e professor de Língua Portuguesa, Thiago Sobral leva para a ficção questões ligadas à fé, à moral, à família e às contradições humanas. O resultado é um romance seco, provocador e pouco interessado em oferecer ao leitor aquela sobremesa reconfortante chamada redenção.

O próprio autor explica que escreveu a história a partir da ideia freudiana de “matar o pai”, explorada em "Totem e Tabu", relacionando a morte do patriarca à busca de liberdade de Santiago. Depois do crime, porém, o personagem percebe que eliminar o pai não significa necessariamente eliminar aquilo que o pai deixou dentro dele. O romance também nasceu de uma provocação que Sobral ouviu em uma conversa, em 2022, quando alguém afirmou que, para o Brasil “ir para frente”, seria preciso “matar o seu pai”. A frase ficou rondando a cabeça do escritor até virar literatura. Em 2025, depois de retomar o projeto, ele pesquisou casos reais de parricídio e conceitos da psicanálise para dar corpo à narrativa. A seguir, dez motivos para colocar "O Pai, a Faca e o Beijo" na lista de próximas leituras. Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.


1. Romance transforma o conflito entre pai e filho em uma guerra psicológica
Santiago e Severo não travam apenas uma disputa doméstica. O relacionamento entre os dois concentra violência, medo, desejo de aceitação e uma tentativa desesperada de romper com aquilo que o personagem entende como origem de todos os seus problemas. O resultado é uma relação familiar em que cada gesto parece carregar uma conta antiga. Santiago acredita que matar o pai poderá libertá-lo.


2. Um protagonista difícil de defender
Santiago está longe de ser um "mocinho de estimação". Negro e homossexual, ele carrega o peso do racismo e da homofobia, mas também reproduz contra si e contra os outros parte da violência que sofreu. É homossexual e homofóbico, racista e vítima do racismo, desejante e repressivo, amoroso e cruel. Essa coleção de contradições torna o personagem incômodo e difícil de digerir.


3. O livro pergunta se violência sofrida pode justificar violência cometida
Severo acredita estar protegendo o filho. As agressões são apresentadas por ele como uma forma de educação e de prevenção contra sofrimentos futuros. A mãe relativiza. Os irmãos reproduzem comportamentos. Santiago absorve tudo e, depois, despeja parte dessa brutalidade sobre Davi. Thiago Sobral transforma a violência em uma engrenagem familiar. Quem bate acredita corrigir. Quem se omite acredita evitar problemas. Quem sofre pode acabar repetindo o comportamento que aprendeu. A pergunta fica para o leitor: compreender a origem de uma violência significa perdoá-la?


4. Freud explica e entra na história de maneira indireta
A ideia de “matar o pai” percorre o romance como metáfora de libertação. Thiago Sobral, mesmo que de maneira indireta, mergulhou em "Totem e Tabu", de Sigmund Freud, para construir a relação de Santiago com o pai morto e explorar a ideia de ruptura com a figura paterna. O detalhe mais interessante está na falha dessa libertação. Santiago mata o pai, mas não consegue matar aquilo que carrega dentro de si. A faca resolve uma parte do problema. O restante continua andando pela casa. Como resolver essa situação?


5. Cubatão, que já foi a cidade mais poluída do mundo, deixa de ser cenário e ganha personalidade
Localizada no litoral de São Paulo, Cubatão já foi considerada a cidade mais poluída do mundo pela ONU na década de 1980 e ficou conhecida como "Vale da Morte". Na geografia apertada entre a Serra do Mar, rios, mangues e a área industrial, a atmosfera da narrativa é construída. Thiago Sobral relaciona o espaço físico da cidade ao comportamento dos personagens e à sensação de sufocamento experimentada por Santiago. A própria indústria, com calor e fuligem, reforça essa atmosfera. Cubatão também aparece como território do julgamento. Em lugar pequeno, uma vida privada pode durar pouco tempo antes de virar assunto público.


6. A experiência religiosa do autor aparece sem virar catecismo
Thiago Sobral foi seminarista franciscano, e essa formação inevitavelmente deixa marcas na literatura. O romance trabalha com religião, fé, culpa e moralidade, mas não oferece respostas religiosas mastigadas. O padre Jorge, por exemplo, surge como personagem capaz de apresentar outra possibilidade de relação com a fé, enquanto a instituição religiosa aparece cercada pelas próprias limitações. No contexto do livro, a literatura não substitui a religião, mas pode abrir caminhos e possibilidades para o leitor.

7. Desejo, liberdade e um amor possível, desde que disposto
O personagem Davi, o Pirueta, funciona como contraponto ao protagonista. Ligado à dança, à poesia e à expressão artística, ele carrega uma relação diferente com o próprio corpo, com o desejo e com a liberdade. Enquanto Santiago se debate contra aquilo que sente, Davi parece encontrar na arte uma forma de existir. A relação entre os dois, por isso, ganha uma dimensão que ultrapassa o romance amoroso convencional. O beijo do título não é apenas um gesto de afeto. Ele também representa tudo aquilo que Santiago deseja e, ao mesmo tempo, rejeita.


8. Livro aposta na oralidade e na voz própria dos personagens
Thiago Sobral afirma que buscou reproduzir a oralidade típica de famílias cubatenses formadas por migrantes nordestinos, incluindo referências à própria história familiar. Os diálogos carregam insinuações, ironias, desconfianças e lacunas. Essa escolha aproxima o romance da vida cotidiana e evita personagens que parecem ter saído de um manual de literatura e desembarcado diretamente na página.


9. Machado de Assis aparece como influência sem virar fantasia de imitador
A ironia e a recusa de absolver os personagens aproximam o romance "O Pai, a Faca e o Beijo" da tradição machadiana. A referência está no prazer de observar seres humanos cometendo erros enquanto encontram excelentes justificativas para continuar cometendo os mesmos erros. O resultado é uma narrativa que desconfia das versões oficiais de todos aos fatos que vivem, inclusive daquela contada pelo próprio protagonista.


10. Romance se recusa a entregar a catarse que o leitor espera
"O Pai, a Faca e o Beijo" cria expectativas de reconciliação, redenção e libertação, mas não oferece nenhuma garantia de que isso vá acontecer. Thiago Sobral afirma que a literatura depende da cumplicidade do leitor e afirma que uma mesma narrativa pode produzir histórias diferentes a cada leitura. Diferentes leitores podem querer salvar Santiago, condená-lo, compreendê-lo ou simplesmente mandar todo mundo para terapia, uma alternativa que, infelizmente, não parece estar disponível no universo do livro.

Serviço | Lançamento de "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral

Casa das Culturas de Santos
Sábado, dia 5 de setembro, às 16h00
Rua Sete de Setembro, 49 - Vila Nova / Santos

Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Domingo, dia 6 de setembro, às 14h00
Estande K45 da Editora Pauá

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