sábado, 30 de maio de 2026

.: Crítica musical: Beach Boys, a obra prima de Pet Sounds


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Há 60 anos, a banda americana Beach Boys lançava o álbum apontado como o auge criativo em termos de produção e composição. "Pet Sounds" é um disco que atravessa décadas e ainda continiua sendo relevante no plano artístico,  influenciando várias gerações de músicos. Para entender o contexto da época, é preciso jembrar que os britânicos Beatles predominavam com seus lançamentos. Os integrantes dos Beach Boys ficaram impressionados com o álbum "Rubber Soul" e sua  sonoridade nova.

Brian Wilson se sentiu estimulado a produzir algo tão bom como o disco dos músicos de Liverpool. Aliás, ele estava cansado de fazer turnês e preferia trabalhar no estúdio os discos e as canções, arranjando harmonias vocais e apontando para onde a música  deveria seguir. Sua principal fonte de inspiração era o produtor Phil Spector, famoso por criar o recurso conhecido como "Wall of Sound" ("Muro de Som").

Comparado com os outros discos lançados anteriormente, "Pet Sounds" estava um passo a frente. Além da produção de Brian Wilson ser primorosa, as canções mostravam um incrível amadurecimento no som da banda, que na época ficou marcada pelos temas relaxionados ao verão, praia e surf.

Pelo menos três faixas se tornaram hits da banda: "Wouldn't It Be Nice". "God Only Knows" e "Sloop John B". Paul McCartney sempre citou "God Only Knows" como uma das melhores canções gravadas. Mas é fato que mesmo as faixas menos conhecidas são ótimas. Na verdade, o álbum funciona de forma conceitual. "Pet Sounds" se tornaria o clássico absoluto dos Beach Boys. E ironicamente estimularia os Beatles a produzirem trabalhos mais maduros, com uma linha mais conceitual.

 Beach Boys - "God Only Knows"

Beach Boys - "Sloop John B"

Beach Boys - "Wouldn´t It Be Nice"

sexta-feira, 29 de maio de 2026

.: 11 motivos para assistir "Flashdance - O Musical" e se emocionar com clássico

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em novembro de 2023


Um clássico do cinema dos anos 80 está em cartaz no Teatro Claro Mais, em São Paulo numa adaptação cheia de energia coreográfica e muita música. Eis a superprodução brasileira "Flashdance - O Musical", montagem com coreografias que mesclam jazz e ritmos urbanos com movimentos intensos ao apresentar a história da jovem Alex Owens, uma operária que trabalha como soldadora durante o dia e como dançarina em um bar à noite. 

Enfrentando desafios e preconceitos para realizar o sonho de passar em um teste para um prestigiado conservatório de balé quando esbarra numa paixão confusa com um homem poderoso. Para tanto, nós do Resenhando.com listamos 11 motivos para você não perder o espetáculo da produtora 4ACT Entretenimento, com direção geral e idealização de Ricardo Marques!


1. É uma adaptação inédita e oficial do clássico nos palcos brasileiros, com uma roupagem exclusiva feita pela 4Act Entretenimento.

2. Testemunhar tamanha nostalgia no palco, diante dos olhos, é reviver a atmosfera dos anos 80 com uma trilha sonora que marcou gerações.

3. De trilha sonora inesquecível, o espetáculo conta com os maiores sucessos do filme como, "Maniac" e "I Love Rock 'n Roll". E, claro, apresenta uma sequência de tirar o fôlego do público com o hit vencedor do Oscar "Flashdance... What a Feeling".

4. Coreografias intensas e de encher os olhos do público mesclam jazz, dança de rua e balé. Assinadas por Tutu Morasi, as danças combinam a energia contagiante dos anos 80, exigindo uma performance física impressionante do elenco. 

5. A icônica e sensual sequência do banho de água na cadeira é recriada no palco com forte impacto visual, o que emociona muito o público.

6. O elenco talentoso, estrelado por Marisol Marcondes e Rhener Freitas, soma 24 artistas selecionados entre mais de 600 candidatos.

7. O espetáculo com música ao vivo ganha mais peso tendo a banda com seis músicos no fosso, diferente de produções com trilhas gravadas.

8. A trama de inspiração e superação sobre a jornada de Alex Owens, uma jovem operária que luta para realizar o sonho de se tornar bailarina profissional, tem identidade própria, sendo uma releitura autoral brasileira de 4Act Entretenimento. E o que se vê no palco é incrível!

9. A mágica montagem do clássico, com cenário de estrutura metálica industrial, escadas e iluminação azul intensa, emociona demais a ponto de fazer escorrer lágrimas de ver a história do filme clássico acontecer ao vivo, diante dos olhos do público. 

10. As apresentações acontecem no moderno e confortável Teatro Claro MAIS SP, dentro do Shopping Vila Olímpia, com acessibilidade e ingressos a preços democráticos, com diversos benefícios de meia-entrada e combos promocionais.

11. "Flashdance - O Musical"  está encerrando a temporada de apresentações em 31 de maio, sendo a última semana de chance para conferir a obra.


Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: 9 de abril a 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida


* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Twitter:@maryellenfsm 



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quarta-feira, 27 de maio de 2026

.: "Delírio de Loucura" coloca veneno na receita da família perfeita


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema clássico norte-americano sempre encontrou maneiras elegantes de implodir a fachada hipócrita do comercial de margarina que ilustrava o "American Way of Life" na era Eisenhower. Mas poucos diretores ousaram tanto, e de forma tão visceral, quanto Nicholas Ray. Em "Delírio de Loucura", em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carteo cineasta pega a obsessão da classe média suburbana pelo sucesso e pela estabilidade e a injeta com uma dose cavalar de cortisona, transformando o sonho americano em um autêntico filme de terror doméstico.

Baseado no artigo jornalístico "Ten Feet Tall", publicado por Berton Roueché na revista The New Yorker em 1955, o roteiro de Cyril Hume e Richard Maibaum (com colaboração não-creditada do mestre do teatro Clifford Odets) acompanha o drama de Ed Avery. Interpretado com uma intensidade assustadora por James Mason, que também  produziu o longa-metragem, Avery é o epítome do cidadão exemplar: professor primário dedicado que, para fechar as contas do mês e mimar a esposa, trabalha secretamente como despachante de táxi. Quando crises terríveis revelam uma poliarterite nodosa, uma rara e letal inflamação das artérias, a medicina lhe oferece a salvação através de um hormônio experimental. O milagre da cura, contudo, cobra um preço alto demais quando o protagonista passa a abusar das doses e mergulha em uma psicose megalomaníaca.

O que se segue é uma das descrições mais perturbadoras da masculinidade tóxica e do totalitarismo familiar já registradas pelo CinemaScope. Ray sabota os espaços claustrofóbicos da residência dos Avery utilizando as cores e as lentes largas, geralmente reservadas para grandes faroestes, para sufocar o espectador. James Mason entrega uma atuação cirúrgica, transitando do pai amoroso ao tirano bíblico que evoca o sacrifício de Isaac para justificar um plano de homicídio seguido de suicídio. Ao seu lado, Barbara Rush brilha no papel da esposa impotente diante da heresia médica, e Walter Matthau, ainda longe de seus papéis cômicos consagrados, entrega uma performance sóbria como o amigo e a voz da razão que tenta conter a tragédia.

Curiosamente, os bastidores de "Delírio de Loucura" guardam uma pérola da Hollywood clássica. Marilyn Monroe, grande amiga de Nicholas Ray, estava filmando "Nunca Fui Santa" no estúdio vizinho e chegou a gravar uma participação especialíssima como enfermeira. Infelizmente para os cinéfilos, a cena foi totalmente cortada na sala de montagem devido a entraves contratuais rígidos entre a estrela e a Fox.

O filme também enfrentou forte resistência da indústria farmacêutica. Gigantes como a Merck, nos Estados Unidos, e a Glaxo, no Reino Unido, manifestaram séria preocupação de que a fúria psicótica de Ed Avery gerasse pânico na população e boicote ao uso legítimo da cortisona. O temor corporativo, aliado à rejeição do público americano da época, que considerou a obra sombria e melodramática demais, resultou em um retumbante fracasso de bilheteria. O crítico Bosley Crowther, do The New York Times, chegou a rotular o filme como "tedioso".

O tempo, no entanto, é o senhor da razão e o melhor curador da arte. Foram os críticos franceses da Cahiers du Cinéma os primeiros a resgatar o valor da obra. François Truffaut teceu loas à precisão de Mason e à beleza visual da produção, enquanto Jean-Luc Godard colocou o longa na seleta lista dos dez melhores filmes sonoros americanos da história. Décadas mais tarde, a crítica contemporânea reconhece "Delírio de Loucura" não apenas como um alerta médico, mas como uma brilhante e atemporal acusação contra o conformismo, a pressão econômica sobre os professores e as rachaduras ocultas na estrutura da família tradicional. Uma obra-prima violenta, lírica e desesperada que ecoa até os dias de hoje.


Ficha Técnica:
“Delírio de Loucura” | "Bigger Than Life" (título original) | "Atrás do Espelho" (título em Portugal)
Gênero: drama / melodrama / drama psicológico. Duração: 95 minutos (1h 35min). Classificação indicativa: 14 anos (Recomendado/Approved na época). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês. Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Cyril Hume e Richard Maibaum (baseado no artigo "Ten Feet Tall" de Berton Roueché). Elenco: James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau, Christopher Olsen, Robert F. Simon, Roland Winters, Rusty Lane. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox (20th Century Studios). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Crítica: "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" é terror com mocinho desagradável



Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O terror psicológico "Hokum: O Pesadelo da Bruxa", dirigido e roteirizado por Damian McCarthy ("Oddity - Objetos Obscuros", "Madame Teia"), mergulha no folclore irlandês para entregar uma história de perdão entre mãe e filho. Contudo, um alerta precisa ser dado logo a princípio, uma vez que o protagonista, o romancista Ohm Bauman (Adam Scott, "Big Little Lies") de postura constantemente grosseira, age sempre de modo desagradável. Ainda que esteja sozinho e em outro país para espalhar as cinzas de seus pais, impede o público de torcer por sua sobrevivência numa pousada mal-assombrada por uma bruxa que arrasta correntes.

A qualidade da trama e a montagem repleta de sequências de pura tensão tornam a produção perfeita para os fãs do gênero. Muito por priorizar o desconforto psicológico por meio de silêncios e a desconstrução da realidade do protagonista em detrimento de soluções narrativas fáceis. No entanto, "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" segue uma fórmula para assustar o público, o que vira alerta a ponto de permitir que alguns sustos sejam evitados.

Em certos pontos o longa se conecta com outros. Remete ao clássico "O Chamado" pelas figuras usadas, como por exemplo, o círculo nos primeiros minutos da história paralela do longa, embora estabeleça uma maior conexão com o clássico de terror psicológico "O Iluminado", uma vez que o protagonista está isolado e confuso em um hotel assombrado. "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" consegue usar elementos do terror (já conhecidos) a favor. Por fim, consegue ser único.

É inegável que o terror atmosférico de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" fisga a atenção do público ao colocá-lo para embarcar na desordem mental de Ohm e a dificuldade de lidar com um trauma de infância. Vale muito a pena assistir na telona de cinema e garantir uns bons sustos!


"Hokum: O Pesadelo da Bruxa" ("Hokum"). Gênero: Terror. Direção: Damian McCarthy. Roteiro: Damian McCarthy. Duração: 1h 47 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Adam Scott, David Wilmot e Florence Ordesh. Sinopse: O terror psicológico e folclore acompanha um romancista de terror que visita uma pousada na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais, sem saber que o lugar tem fama de ser assombrado.

Trailer de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa"

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.: Hugo Bonemer: Ripley no teatro, ator reflete sobre identidade e obsessão

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

O talentoso Hugo Bonemer poderia ser apenas um jogo de palavras, uma referência ao romance de Patricia Highsmith, mas vira chave de leitura quando o espetáculo "O Talentoso Ripley", em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, até dia 31 de maio, aposta no fascínio ambíguo de personagens que orbitam o desejo de ser outro. Inspirado no universo do clássico literário criado em 1955, a peça teatral dialoga com a tradição do thriller psicológico que consagrou o personagem Tom Ripley - figura que atravessou décadas, adaptações e formatos, do cinema europeu de René Clément ao olhar sofisticado de Anthony Minghella na versão de 1999.

O espetáculo tem como base a adaptação em 1999 da escritora e roteirista Phyllis Nagy. Na nova abordagem, Hugo Bonemer assume o papel que flerta com essa herança e desafia todos os intérpretes que já passaram por ele. O ator, conhecido por transitar entre televisão, teatro musical e dublagem, constrói um protagonista que vive na fronteira entre admiração e apropriação - um território dramático que o próprio Bonemer já descreveu como um espaço de “empatia perigosa”. A atuação sustenta o eixo central de uma história que se organiza a partir do desconforto da inquietação prolongada de reconhecer traços humanos em figuras moralmente instáveis.

Interpretando, dirigindo e produzindo a peça na pele de um dos protagonistas mais fascinantes da literatura do século XX, Hugo Bonemer revisita um clássico e propõe um jogo contemporâneo de máscaras. Ao assumir esse risco, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele transforma o trocadilho inicial em provocação: até onde vai o talento de quem interpreta - e de quem assiste - sem se deixar capturar pelo abismo que observa?

Resenhando.com - Ripley atravessa a fronteira entre admiração e obsessão com rapidez brutal. Hoje, o que o assusta mais: quem se reconhece nele ou quem se encanta por ele?
Hugo Bonemer - Não me assusto com os dois cenários, acho eles naturais e previsíveis, já que um psicopata sedutor consegue o que quer fazendo as pessoas se sentirem exatamente assim: íntimas e familiares. Me assusta que nada disso faça a gente aprender a perceber até que seja tarde demais.


Resenhando.com - Você diz que interpretar Ripley exige visitar lugares desconfortáveis — em que momento esse desconforto deixa de ser ferramenta de criação e começa a ameaçar quem você é fora do palco?
Hugo Bonemer Eu somatizo muito e pra isso tenho feito, além do processo terapêutico de anos, muito cuidado holístico e de massagem com o terapeuta holístico Julius Mac, que tem vindo de Buzios fazer um tratamento físico comigo. É como tenho conseguido manter o corpo e a mente sãos.


Resenhando.com - Ripley é um mestre em desejar a vida do outro. Em algum momento da sua trajetória, você já desejou ser alguém a ponto de quase apagar quem você era?
Hugo Bonemer Muitas vezes! Até chegar num ponto de me amar de verdade eu vivia desejando a vida dos outros. Seja por ser um discípulo intelectual de alguém, seja para ser amado por alguém, ou por conviver com algum daqueles ícones de beleza inalcançável. Não sei se todo mundo passa por isso, mas eu já não me lembro quando foi que deixei de ser assim. Só sei que tem muitos anos que amo existir como eu sou, aperfeiçoar quem eu sou, sem precisar viver na sombra de ninguém.


Resenhando.com - A peça aposta em suspense e terror, gêneros pouco explorados no teatro brasileiro. O que mais o interessa: provocar medo no público ou fazer com que ele reconheça a si mesmo nesse medo?
Hugo Bonemer O terror que se dispõe a provocar medo não causa medo em ninguém. É pelo reconhecimento de si mesmo na trama que a vulnerabilidade aparece. A partir daí, é só uma brincadeira em conjunto. Um susto aqui, um outro ali… tudo nesse acordo silencioso entre artista e espectador.


Resenhando.com - Você acumula funções de ator, diretor, produtor e cenógrafo. Esse controle todo é uma necessidade artística ou uma forma de garantir que nada escape da sua própria narrativa?
Hugo Bonemer Começou como necessidade de produção. Eu tinha um orçamento. Aos poucos fui gostando, confesso, e faria novamente. Exceto as redes sociais, essa parte eu faço, mas detesto.


Resenhando.com - Há uma tradição de “humanizar monstros” na arte contemporânea. Até que ponto compreender Ripley não corre o risco de absolvê-lo e, por tabela, absolver violências muito reais?
Hugo Bonemer Monstros não são humanizados para serem entendidos e acolhidos, mas para serem identificados em nós mesmos. Quando ele é só monstro, ele é externo, vive fora, não é problema nosso. Mas quando você vê uma relação familiar conturbada, um trauma, você se pergunta onde que você não decidiu seguir aquele caminho amoral, e onde o personagem se perdeu na curva. E é aí que a maturidade acontece. O risco que eu às vezes me questiono é o de dar palco para figuras reais, que cometem crimes e ganham dramaturgia e holofotes. Não sei se é um problema, mas li que os psicopatas adoram isso. O Tom Ripley não é uma pessoa real que vai se envaidecer por ter sua história contada.


Resenhando.com - Você fala em “empatia perigosa”. Já houve algum momento em que essa empatia te fez justificar algo que, racionalmente, você condena?
Hugo Bonemer Muitas vezes, a empatia perigosa no caso do Ripley vem quando você percebe que ele está quebrado e tenta gostar dele mesmo ele dizendo na sua cara que vai te fazer mal. Como aquela história do escorpião que pede para o coelho uma carona no barco jurando que não vai avançar, avança e pede desculpas dizendo “é a minha natureza”. O psicopata é assim, e quando ele aparece na nossa vida, faz de tudo para você achar que é um brinquedo quebrado, e que só você é capaz de consertar.


Resenhando.com - A montagem parte de um texto que nunca havia sido encenado em português. O que se ganha e o que se perde quando uma história tão marcada por outros contextos culturais ganha sotaque brasileiro?
Hugo Bonemer Só se ganha. Tirei todos os anglicismos e cortei quase uma hora de peça transformando texto em símbolo. Acredito que quando temos uma dramaturgia mais perto da gente conseguimos dialogar mais a fundo com o que acontece agora.


Resenhando.com - O sucesso da peça foi, nas suas palavras, inesperado. Existe algo de Ripley nesse espanto — alguém que, no fundo, não acredita que merece o lugar que ocupa?
Hugo Bonemer Tem algo voltado mais sobre planilha de custos mesmo haha. Eu não investi em marketing e a peça lotou. Eu faço com tanto amor que acredito que nós merecemos a casa lotada, mas já acreditei em outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso. Por isso inesperado.


Resenhando.com - Curiosamente, você chega a esse momento da carreira aos 37 anos interpretando um personagem criado em 1955. Se a arte é uma forma de driblar o tempo, que tipo de permanência você busca: ser lembrado ou ser compreendido?
Hugo Bonemer Obrigado pelos 37, eu faço 39 em junho. Eu não busco permanência, mas sim sentido. Crio sentido pra mim todo dia, toda hora, por meio da criatividade. Como, e se eu for lembrado com permanência, vai ser uma decisão nem de quem convive comigo, mas de quem está provavelmente nascendo agora. É impossível de controlar.


Serviço
Espetáculo "O Talentoso Ripley"
Teatro Laura Alvim -Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema, Rio de Janeiro - RJ
Temporada: até dia 31 de maio
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00
Lotação: 190 lugares
Classificação: 18 anos
Duração: 1h50min
Direção: Hugo Bonemer
Co-direção: Kamilla Rufino
Elenco: Francisco Paz (Richard Greenleaf), João Fernandes (Marc e Freddie), Cassio Pandolfh (Herbert Greenleaf e Tenente Roverini), Laura Gabriela (Emily Greenleaf e Tia Dottie) e Tom Nader (Red, Fausto e Silvio).
Gênero: suspense/terror
Ingressos: a partir de R$ 35,00

.: "Antes que Apague", novo romance de Natalia Timerman, resgata memórias


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A literatura brasileira contemporânea tem encontrado na escrita de Natalia Timerman um porto seguro para as investigações mais profundas da alma humana. Psiquiatra de formação, a paulistana sabe, como poucos da geração dela, operar a palavra como uma escuta radical da dor e do afeto. Depois de perscrutar o abandono amoroso no incensado "Copo Vazio" e de tatear as cicatrizes do luto paterno em "As Pequenas Chances", a autora retorna ao território da memória com o poderoso romance "Antes que Apague", lançado pela Companhia das Letras. A obra consolida uma trajetória marcada pela coragem de se aproximar das fraturas da existência, transformando o declínio biológico em matéria de altíssima voltagem literária.

Em "Antes que Apague", Timerman debruça-se sobre a complexa e por vezes dolorosa relação entre uma filha e sua mãe idosa, recentemente diagnosticada com a doença de Alzheimer. O enredo acompanha o ritmo assombroso com que a mãe perde os traços fundamentais da própria identidade, mergulhando a narradora em um doloroso processo de luto antecipado. Contudo, longe de se resumir a uma crônica sobre a finitude, o livro ganha fôlego de investigação quando esse apagamento iminente faz brotar, paradoxalmente, revelações inesperadas sobre o passado materno. 

À medida que a mente da matriarca se esvai, a urgência da filha em resgatar o que resta transforma o texto em um verdadeiro testemunho contra o esquecimento, onde humanizar a figura materna torna-se um exercício de maturidade suprema e, inevitavelmente, de sofrimento. A força da narrativa reside na exata medida que estabelece entre a crueza da vida e o lirismo da prosa poética. Ao evocar as memórias que ameaçam sumir no horizonte da demência, Natalia Timerman constrói uma cartografia dos vínculos afetivos que desafia o tempo. A escrita se faz comovente e terna, capaz de flagrar o instante exato em que uma lembrança se transforma e se apazigua na mente de quem fica. Compre o romance "Antes que Apague", de Natalia Timerman, neste link.

.: Sesc 24 de Maio recebe as últimas apresentações da peça "Meninos"


Espetáculo do Grupo II aborda as relações masculinas no contexto familiar contemporâneo. Foto: Douglas Fontes


O Sesc 24 de Maio recebe o espetáculo "Meninos", do Grupo II, até dia 30 de maio, em curta temporada. A montagem lança um olhar sensível sobre a masculinidade contemporânea, investigando fraturas, afetos e possibilidades de reinvenção a partir das relações familiares. Dividida em três atos, a peça apresenta histórias marcadas pela ausência e pelo silêncio, traçando caminhos de afetividade entre tios e sobrinhos, irmãos, filhos e pais. A dramaturgia constrói um mosaico de vínculos masculinos, revelando tensões, heranças emocionais e formas possíveis de cuidado. 

A programação integra o projeto Cena Jovem, realizado pela unidade 24 de Maio desde 2019, com o objetivo de aproximar as juventudes da linguagem teatral. A iniciativa aposta em espetáculos que dialogam com temas de interesse dos jovens e valorizam diretores, dramaturgos e artistas emergentes, incentivando tanto a formação de público quanto o reconhecimento de novas vozes da cena contemporânea. Assinada por Lucas Mayor, Marcos Gomes e Rafael Cristiano, a dramaturgia dialoga com a obra Sendo um menino, de bell hooks, ao abordar a infância e a adolescência masculina sob a perspectiva do crescimento, da formação da identidade e das pressões sociais impostas aos homens desde cedo. 

Ficha técnica
Espetáculo "Meninos"
Direção: Lucas Mayor e Marcos Gomes
Dramaturgia: Lucas Mayor, Marcos Gomes e Rafael Cristiano
Atuação: Eduardo Guimarães, João Bourbonnais, João Filho, Lucas Laureno, Rafael Cristiano e Ricardo Teodoro
Iluminação: Matheus Brant
Cenografia e Figurino: Grupo II
Produção: Maísa Sousa De Castro
Fotografia: Douglas Fontes


Serviço
Espetáculo "Meninos"

Até dia 30 de maio, de quarta a sábado, às 18h00
Sesc 24 de Maio, Rua 24 de Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Classificação: 14 anos
Ingressos: sescsp.org.br/24demaio ou através do aplicativo Credencial Sesc SP e nas bilheterias das unidades Sesc SP - R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia) e R$ 15,00 (Credencial Sesc).
Acessibilidade: Tradução em Libras nos dia 29 de maio.
Duração do show: 60 minutos
Serviço de van: Transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h00 às 21h00.

.: Porque "Todas as Manhãs do Mundo" desbancou Michael Jackson e Madonna


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A reconstituição histórica no cinema frequentemente se perde em excessos visuais, mas há obras que abraçam a grandiosidade no recolhimento e na precisão. É esse o triunfo que o público testemunha com a estreia de "Todas as Manhãs do Mundo" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, uma obra-prima de 1991 dirigida por Alain Corneau. É um drama de época refinado, focado na música, na perda e na complexa transmissão de conhecimento entre duas gerações de artistas no século XVII, sob o reinado de Luís XIV.

O roteiro, escrito a quatro mãos pelo próprio diretor e pelo autor Pascal Quignard - adaptando o romance homônimo lançado no mesmo ano -, acompanha a trajetória do renomado músico Marin Marais. Na maturidade, o personagem é interpretado com o vigor habitual de Gérard Depardieu, que acumula a função de narrador da própria juventude. Filho do ator na vida real, Guillaume Depardieu, assume o papel do jovem Marais com uma entrega impressionante. 

O centro da narrativa está na busca do rapaz pelo aprendizado com o recluso e jansenista Monsieur de Sainte-Colombe, vivido magistralmente por Jean-Pierre Marielle, um mestre que se isolou do mundo e da corte após a morte da esposa para se dedicar apenas às filhas e à arte. O elenco principal se completa com Anne Brochet na pele de Madeleine, a filha mais velha do tutor, que se apaixona por Marais. Curiosamente, a crítica internacional destacou na época que esta foi a segunda vez consecutiva que Brochet e Gérard Depardieu viveram um par romântico nas telas, repetindo a química já testada no aclamado "Cyrano de Bergerac".

Além das intrigas amorosas e as desilusões que culminam em tragédia, o verdadeiro coração do longa-metragem reside na música barroca, executada na emblemática viola da gamba pelas mãos virtuosas de Jordi Savall. A trilha sonora não apenas dita o tom melancólico e poético da produção, mas também estabeleceu um fenômeno comercial sem precedentes no mercado fonográfico global. Em uma das maiores surpresas da indústria cultural da década de 1990, o álbum com as composições barrocas do filme superou as vendas de "Dangerous", de Michael Jackson, na França, e ultrapassou os números da popstar Madonna, que lançava o álbum "Erotica". Um feito histórico para a música erudita.

A consagração do filme não se limitou ao sucesso comercial da trilha sonora. "Todas as Manhãs do Mundo" foi o grande vencedor da 17ª edição do Prêmio César em 1992, faturando sete estatuetas, incluindo as de Melhor Filme, Melhor Diretor para Alain Corneau, Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Brochet e Melhor Música para Jordi Savall. Além disso, o diretor conquistou o prestigiado Urso de Prata no Festival Internacional de Cinema de Berlim e a obra garantiu uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 1993. O título poético faz referência a uma das falas mais dolorosas de Marais ao constatar a finitude da vida e o peso dos erros passados: todas as manhãs do mundo nunca mais voltam. É um cinema rigoroso, esteticamente impecável e que merece ser absorvido por quem o assiste.


Ficha técnica
“Todas as Manhãs do Mundo” | “Tous les Matins du Monde” (título original)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Alain Corneau. Roteiro: Pascal Quignard e Alain Corneau. Elenco: Jean-Pierre Marielle, Gérard Depardieu, Anne Brochet, Guillaume Depardieu, Carole Richert, Michel Bouquet, Jean-Claude Dreyfus, Yves Gasc, Yves Lambrecht, Jean-Marie Poirier e Myriam Boyer.
Distribuição no Brasil: BAC Films. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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.: Warner Bros. Pictures inicia venda de ingressos antecipada para "Supergirl"


Estrelado por Milly Alcock e dirigido por Craig Gillespie, o segundo filme do novo universo da DC Studios chega aos cinemas no dia 25 de junho

A Warner Bros. Pictures acaba de anunciar que o início da pré-venda de ingressos para Supergirl na próxima quarta-feira, dia 3 de junho. O longa-metragem chega às telonas no dia 25 de junho, e os ingressos já poderão ser garantidos tanto para sessões após a estreia oficial, quanto para as sessões antecipadas, que acontecerão exclusivamente no dia 23 de junho. "Supergirl" acompanha Kara Zor-el (Milly Alcock), uma jovem kryptoniana que não deseja assumir seu papel como a heroína Supergirl. No entanto, uma aliada inesperada e um vilão que pode ameaçar toda a galáxia podem não lhe deixar opção além de encarar seu destino em uma grande aventura. 

"Supergirl" estreia nos cinemas brasileiros no dia 25 de junho de 2026, também disponível em sessões em IMAX e com acessibilidade. Para mais detalhes sobre sessões e horários, confira a rede de cinema mais próxima.  O novo longa-metragem da DC Studios chega às telonas com distribuição da Warner Bros. Pictures, vai estar em exibição nos cinemas do mundo todo nas férias de junho e julho de 2026, estrelado por Milly Alcock no duplo papel de Supergirl e Kara Zor-El. Craig Gillespie dirige o filme a partir do roteiro de Ana Nogueira. 

Quando um adversário tão inesperado quanto implacável parece muito próximo de ganhar a batalha, Kara Zor-El, também conhecida como Supergirl, não sem muita relutância, faz uma parceria improvável em uma épica jornada interestelar de vingança e justiça. Coestrelam "Supergirl", ao lado de Milly Alcock, Matthias Schoenaerts, Eve Ridley, David Krumholtz, Emily Beecham e Jason Momoa. 

Os líderes do DC Studios, Peter Safran e James Gunn, assinam a produção de "Supergirl", baseado em personagens da DC criados por Jerry Siegel e Joe Shuster. O filme tem produção executiva de Nigel Gostelow, Chantal Nong Vo e Lars P. Winther. A equipe de produção criativa do cineasta Craig Gillespie atrás das câmeras inclui o diretor de fotografia Rob Hardy; o designer de produção Neil Lamont; a editora Tatiana S. Riegel; a figurinista Anna B. Sheppard; o supervisor de efeitos visuais Geoffrey Baumann; e a trilha sonora foi composta por Ramin Djawadi.

.: Pinacoteca de SP inaugura exposição "Para Crianças: Experiências na Arte..."


Mega Please Draw Freely [Mega por favor, desenhe livremente] (2025), Ei Arakawa-Nash.
Haus der Kunst München, 2025. Imagem: Agostino Osio

No próximo sábado, dia 30 de maio, a Pinacoteca de São Paulo inaugura a exposição "Para Crianças: Experiências na Arte desde 1968", na Grande Galeria do edifício Pina Contemporânea. A mostra reúne 11 obras interativas de artistas brasileiros e estrangeiros que propõem reflexões sobre a infância a partir de experiências voltadas ao público infantil.

Entre os artistas estão Agus Nur Amal PMTOH (1969, Indonésia), Ólafur Elíasson (1967, Dinamarca) e, em comissionamento especialmente para a Pinacoteca, Graziela Kunsch (1979, Brasil), com trabalho voltado para a primeiríssima infância. A curadoria da mostra é de Andrea Lissoni, Emma Enderby, Lydia Korndoerfer, Xue Tan (Haus der Kunst), Ana Maria Maia e Lorraine Mendes (Pinacoteca de São Paulo). "Para Crianças: Experiências na Arte desde 1968", é uma exposição realizada pela Pinacoteca e Haus der Kunst – München, da Alemanha. A mostra pode ser visitada até dia 18 de outubro.

A exposição propõe uma reflexão sobre infância e convivência no espaço museológico contemporâneo, com obras que convidam o público a desenhar, brincar e ocupar o espaço expositivo de forma livre. “Desde 1911 a Pinacoteca, consta no estatuto da Pinacoteca sua função educativa. Na década de 1970, esse perfil ganhou mais evidência com a estruturação de programas e projetos experimentais para crianças. Ao refletir sobre os saberes e o protagonismo das infâncias, essa exposição inevitavelmente celebra uma longa trajetória da Pinacoteca”, conta a curadora Ana Maria Maia.

 A mostra "Para Crianças: Experiências na Arte desde 1968", reflete sobre o que é a infância hoje e o que significa para um artista criar obras de arte para o público infantil, e muitas vezes em colaboração com crianças. A atitude criativa sem hesitação e filtros tão característicos dos adultos, torna a infância uma fase da vida inspiradora para a arte e para diversas outras instâncias da sociedade. Nos anos 1960, década que marca o início da história contada pela exposição, com a ação Divisor (1967/8), de Lygia Pape, as crianças foram tomadas como uma grande referência dos movimentos da contracultura.

Mega Please Draw Freely [Mega por favor, desenhe livremente] (2025), do artista Ei Arakawa-Nash (Japão, 1977) – atualmente com um trabalho na Bienal de Veneza – recebe o público na exposição com um convite para desenhar livremente no chão do museu, desafiando a lógica inviolável do espaço expositivo. Caixa de areia (2026), da brasileira Graziela Kunsch, propõe um espaço de brincadeira livre para crianças de 15 meses a 5 anos, desenvolvida a partir da pesquisa da artista sobre iniciativas progressistas para crianças no decorrer do século XX, de autoria de nomes como a húngara Emmi Pikler, a alemã Ute Sturb e o holandês Aldo van Eyck.

Como abordar temáticas difíceis com crianças? Uma das formas encontradas pelo artista indonésio Agus Nur Amal PMTOH é tratar de temas sensíveis como tragédias climáticas elaborando histórias com elementos familiares às crianças, como brinquedos, e as convidando para tomar parte de gestos de criação que ocupam o espaço expositivo. Para falar sobre o medo, a brasileira Rivane Neuenschwander mapeou temores de crianças por meio de dinâmicas de compartilhamento em grupo. Em seguida, elas foram convidadas a ilustrar seus medos e, em colaboração com o designer Guto Carvalhoneto, as ilustrações foram transformadas em vestimentas.

A artista franco-marroquina Yto Barrada reescreve o nome do general francês Hubert Lyautey, líder em guerras coloniais, utilizando blocos que podem, e devem, ser desmontados e reconstruídos com outros significados. Vídeos, instalações sensoriais, esculturas participativas e ambientes imersivos completam a mostra, com obras dos artistas Ólafur Elíasson, Harun Farocki, Rachel Rose, Ana Mendieta e Ernesto Neto. "Para Crianças: Experiências na Arte desde 1968", é uma exposição realizada por Pinacoteca e Haus der Kunst - München e tem patrocínio de Mattos Filho, na cota Ouro, Acrilex e Ateliê Quero-Quero, na cota Prata, Goethe Institut e Unicef, apoiadores institucionais.


Serviço
Mostra "Para Crianças: Experiências na Arte desde 1968", na Pinacoteca de São Paulo  
Edifício Pina Contemporânea | Grande Galeria
De quarta a segunda, das 10h00 às 18h00 (entrada até 17h00)   
Gratuitos aos sábados - R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios - válido somente para o dia marcado no ingresso 
2º Domingo do mês – gratuidade Mantenedora B3 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

.: Ailton Krenak fala sobre reencontro do homem com a natureza em evento


Escritor vem a São Paulo nessa quinta 28, para o lançamento do inédito "A Inteligência das Águas". Foto: Alexandre Muniz


Primeiro indígena eleito para a Academia de Letras, o escritor Ailton Krenak vem a São Paulo na próxima quinta-feira, dia 28 de maio, para um debate que acontecerá durante o lançamento do inédito "A Inteligência das Águas", primeiro livro do guru do pensamento ecológico Viktor Schauberger no Brasil. Aberto ao público, o encontro acontece a partir das 19h00, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, Bela Vista. 

O objetivo da conversa é apontar caminhos para conectar ciência, meio ambiente e filosofia, no momento em que a Terra sofre severos impactos em decorrência da crise climática. Além de Krenak, o debate terá a participação do tradutor Felipe Figueira e também do editor Bruno Salerno e da ativista Pissielly Sarrlorrer.

A obra de Schauberger é bastante oportuna no atual cenário da agenda ambiental. O austríaco desenvolveu suas ideias a partir da observação contínua de rios e ecossistemas naturais. Em seus escritos, ele questiona práticas industriais de manejo da água e propõe uma leitura sistêmica de seus fluxos, da qual também apresenta soluções de manejo, regulação de rios e armazenamento da água, antecipando tendências consideradas centrais hoje pelos especialistas em sustentabilidade.

Tradutor da obra e idealizador do projeto de sua publicação pela Bambual Editora, Felipe Figueira comenta: “O pensamento de Schauberger não se estrutura apenas em formulação teórica, mas se origina sobretudo em observação cautelosa dos padrões naturais em ecossistemas intocados e equilibrados, onde a inferência indutiva desempenha papel central. Diante da crise atual, talvez essa seja uma forma necessária de reposicionar a ciência, ao lado da tecnologia e dos resultados”, conclui.


Serviço
Lançamento do livro "A Inteligência das Águas", seguido de debate
Quinta-feira, dia 28 de maio, às 19h00
Local: Centro de Pesquisa e Formação do Sesc.
Endereço: Rua Dr Plínio Barreto, 285, 4º andar - Bela Vista/São Paulo
Grátis

.: TV Cultura celebra Milton Santos, um dos maiores intelectuais brasileiros


Foto Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP), cedida pela família - em Madrid, prêmio Doutor Honoris Causa 1994
 

Nesta quarta-feira, dia 27 de maio, às 22h30, a TV Cultura estreia o documentário inédito "Milton Santos - O Gênio da Geografia", produção do jornalismo da emissora que celebra o centenário de nascimento de um dos maiores intelectuais brasileiros do século 20. O filme revisita a trajetória pessoal, acadêmica e política do geógrafo baiano, reconhecido internacionalmente por sua visão crítica sobre a globalização.
 
Milton Santos nasceu em Brotas de Macaúba, na Bahia, em 3 de maio de 1926. Filho de professores primários e neto de pessoas escravizadas, destacou-se ainda jovem como aluno prodígio. Durante o antigo ensino ginasial, ajudava os colegas em Matemática e dava suas primeiras aulas de Geografia - disciplina que o consagraria e o levaria a lotar auditórios em diferentes partes do mundo. Formou-se em Direito, mas nunca exerceu a profissão. Iniciou a carreira como repórter em Ilhéus, na região cacaueira da Bahia, onde conheceu sua primeira esposa, Jandira.

Em Salvador, atuou como secretário de governo e integrou um grupo de estudos que propôs a taxação sobre grandes fortunas. Também visitou Cuba em uma comitiva do presidente Jânio Quadros e, depois, escreveu uma série de artigos sobre a ilha socialista, o que desagradou os militares. Com o golpe militar de 1964, passou a sofrer perseguição política e foi preso por três meses no Batalhão de Cabula, em Salvador. Libertado após sofrer um AVC, graças à intervenção de colegas franceses, foi convidado a lecionar na Europa. Já separado da primeira esposa, viveu 13 anos no exterior.

Milton Santos foi um dos principais críticos dos rumos da globalização, que considerava perversa. Defendeu uma geografia crítica e humanista e formulou reflexões que ganharam repercussão internacional. Em uma de suas obras mais difundidas, Por Uma Outra Globalização, dividiu o fenômeno em três dimensões: “globalização como fábula” (como nos é apresentada), “globalização como perversidade” (como ocorre na prática) e “globalização como possibilidade”.

Milton Santos morreu em 24 de junho de 2001, aos 75 anos. Seus escritos seguem atuais e continuam sendo objeto de estudo de pesquisadores no Brasil e no exterior. Entre eles estão o professor Fernando Conceição, biógrafo autorizado de Milton Santos e autor da obra Milton Santos, uma biografia – Um percurso em construção; o geógrafo e pesquisador do Laboratório de Geografia Política da USP Billy Malachias; e Nina Santos, neta de Milton e doutora em Comunicação.
 
No documentário, os três ajudam o público a compreender a vida e a obra de um dos maiores intelectuais brasileiros. A produção também traz trechos de uma entrevista concedida por Milton Santos ao cineasta Silvio Tendler quatro meses antes de sua morte, material que serviu de base para o filme "Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá".

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