sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Depois de sete anos, Pitty lança disco com inéditas


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Pitty  está divulgando o seu sexto álbum de inéditas, que chega às plataformas pela ggravadora Deck e também nos formatos CD físico e vinil. Sete anos depois de "Matriz" (2019), a artista apresenta um trabalho homônimo de 13 faixas que reúne diferentes perspectivas, experiências e sonoridades. O álbum nasceu depois de um período de pausa, escuta e reorganização. A partir de uma inspiração que, segundo Pitty, não foi racionalizada, as ideias foram surgindo e ela voltou a criar sozinha com o violão, como nos primeiros anos, quando compunha no quarto de sua casa, em Salvador.

Desta vez, porém, o processo avançou para além das letras e melodias. Em seu próprio estúdio, a artista experimentou arranjos, criou riffs e pré-produziu demos, construindo a identidade musical das canções antes mesmo de entrar em estúdio para gravá-las. Em menos de dois meses, Pitty compôs todas as músicas do álbum, em um processo de criação intenso. Em "Pitty", o rock permanece no centro da linguagem musical da artista, mas não funciona como fronteira. Ao longo das 13 faixas, guitarras, riffs e baterias convivem com diferentes ritmos, texturas e possibilidades de movimento. O resultado é um disco que preserva a identidade musical de Pitty enquanto amplia as formas de expressá-la.

Mais de duas décadas depois de surgir como uma das vozes que transformaram o rock brasileiro, Pitty ocupa hoje um lugar raro na música brasileira: uma mulher que atravessa gerações com um repertório que segue vivo e cada vez mais relevante, sem perder a inquietação de quem ainda quer criar, experimentar e se mover.

"Pitty" reúne, assim, diferentes dimensões da artista: a compositora que começou sozinha com o violão, a roqueira que mantém as guitarras no centro de sua linguagem e a mulher que segue experimentando novas possibilidades. Um disco que carrega sua trajetória, mas encontra sua identidade na artista que Pitty é hoje.

"Sobremesa"

"Madame"

"Desobediente"


.: Livro "Os Porcos" recupera a escrita provocadora de Júlia Lopes de Almeida


Edição especial do livro publicado originalmente em 1903 pela escritora carioca revisita uma obra marcada por ganância, decadência e tensões sociais no ambiente rural


Júlia Lopes de Almeida escreveu "Os Porcos" em 1903, quando o Brasil ainda atravessava uma série de transformações sociais e culturais que deixariam marcas profundas no século XX. Mais de 120 anos depois, o livro ganha uma nova edição pela Degustadora Editora e retorna às livrarias em capa dura, como o terceiro volume da Coleção Pingente, do Selo Jocalis. Uma das principais escritoras brasileiras da passagem do século XIX para o XX, elaconstruiu uma obra extensa, atenta aos conflitos sociais, às desigualdades e às contradições das relações humanas. Em "Os Porcos", esse olhar encontra um ambiente rural marcado por interesses, decadência e disputas, em uma narrativa que combina elementos do Realismo e do Naturalismo.

A nova edição reúne textos críticos de Melissa Velludo, escritora e editora da Degustadora, e Daniela Lobo. Os ensaios ampliam as possibilidades de leitura da obra e aproximam o texto publicado no início do século XX das questões observadas pelo leitor contemporâneo. A história coloca em primeiro plano aspectos pouco confortáveis da condição humana. Ganância, relações de poder e tensões sociais aparecem em uma narrativa que investiga tanto o comportamento dos personagens quanto a influência do ambiente sobre suas escolhas. Júlia Lopes de Almeida observa esse universo com atenção aos conflitos psicológicos e à crítica dos costumes, características que ajudam a explicar a permanência de sua obra.

Nascida em 1862, no Rio de Janeiro, Júlia Lopes de Almeida teve uma produção literária marcada pela diversidade e pela intensa atividade intelectual. Durante a Belle Époque brasileira, tornou-se uma das vozes femininas de maior destaque na literatura nacional, escrevendo romances, contos, crônicas e textos voltados a questões sociais e culturais. A trajetória dela, porém, também expõe uma das contradições do ambiente intelectual brasileiro daquele período. Júlia participou das articulações que resultaram na criação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, mas não pôde integrar a instituição como membro fundadora porque a Academia admitia apenas homens.

A cadeira de número 3 acabou ocupada por seu marido, o escritor Filinto de Almeida. A história, vista hoje, tem aquela ironia que a literatura de Júlia Lopes de Almeida conhecia tão bem: uma autora que ajudou a construir um espaço destinado à literatura brasileira acabou impedida de ocupar uma cadeira nele. “O reconhecimento de sua contribuição literária e intelectual integra um movimento de redescoberta de escritoras brasileiras que, apesar da relevância de suas obras, tiveram sua presença reduzida na história literária ao longo das décadas”, comenta Melissa Velludo.

"Os Porcos" integra a Coleção Pingente, projeto editorial da Degustadora Editora dedicado à recuperação de textos clássicos em edições que procuram reunir cuidado gráfico, contextualização crítica e valorização do livro como objeto. A coleção começou com "A Escrava", de Maria Firmina dos Reis, uma das pioneiras da literatura afro-brasileira. O segundo volume reuniu "Eleonora", de Edgar Allan Poe, e "A Desejada das Gentes", de Machado de Assis, aproximando dois autores fundamentais da literatura do século XIX.

Com "Os Porcos", a coleção volta o olhar para uma autora cuja produção ainda vem sendo redescoberta por novas gerações de leitores. A escolha também reforça a proposta de recuperar obras que ajudam a ampliar a própria compreensão da literatura brasileira, especialmente quando se trata da presença feminina na formação do nosso cânone. A Coleção Pingente já tem outros títulos, como "Uma Xícara de Chá", da escritora neozelandesa Katherine Mansfield (1888-1923), com tradução de Nara Vidal, que está em pré-venda. O quinto volume será "Sua Majestade o Dinheiro", da escritora carioca Carmen Dolores (1852-1910).

Com a nova edição de "Os Porcos", Júlia Lopes de Almeida volta às estantes com uma obra que preserva sua capacidade de observar as pequenas e grandes crueldades das relações humanas. O livro chega em embalagem nova, mas a matéria-prima continua sendo aquela velha conhecida da literatura: gente, dinheiro, poder, desejo e as escolhas que fazemos quando acreditamos que ninguém está olhando.

.: No Sesc Belenzinho, "Planeta Pelúcia" leva menina a estranho universo


Espetáculo da CASCA – Coletivo de Criação acompanha uma criança de nove anos que deseja crescer e mergulha em questões como solidão infantil, consumo, produtividade e relações entre crianças e adultos. Foto: Camila Riveredo


Uma menina de nove anos quer crescer. Pati acredita que a vida adulta poderá lhe oferecer aquilo que sente faltar na infância: ser vista, ouvida e ter acesso aos lugares que ainda lhe são proibidos. O desejo parece simples, mas ganha contornos bastante peculiares em "Planeta Pelúcia", espetáculo da CASCA – Coletivo de Criação que retorna aos palcos em nova temporada, desta vez no Sesc Belenzinho. Com dramaturgia de Bruno Canabarro e direção de Rodolfo Amorim, a montagem fica em cartaz de 24 de outubro a 29 de novembro, aos sábados e domingos, às 12h00, com sessões também nos feriados de 2 e 20 de novembro. A temporada integra o Projeto Começa 2026.

Depois da estreia em abril deste ano, no Sesc Consolação, a peça retoma uma pesquisa do grupo sobre as infâncias e acompanha Pati em uma aventura que começa quando ela decide entrar no quartinho de bagunça dos adultos, espaço proibido onde estão guardados objetos, documentos, memórias e segredos. Quando finalmente consegue abrir a porta, a menina passa a enxergar um universo que parecia reservado aos crescidos. E, como costuma acontecer quando uma criança ganha acesso a um lugar proibido, a descoberta vem acompanhada de algumas surpresas.

Escrito por Bruno Canabarro, que também integra o elenco ao lado de Bruna Betito e Paula Spinelli, "Planeta Pelúcia" investiga os desejos, as inquietações e a autonomia das crianças, enquanto coloca em xeque a maneira como os adultos escutam — ou deixam de escutar — aquilo que os pequenos têm a dizer. A montagem também se distancia daquela imagem açucarada da infância que costuma aparecer em determinadas histórias para crianças. Curiosidade, vontade de superar desafios, desejos e conflitos pertencem ao ser humano, independentemente da idade. Afinal, criança também tem opinião, desejo próprio e uma boa dose de teimosia. Às vezes, o adulto chama isso de desobediência. A peça prefere fazer outra pergunta.

Em "Aqui Tem Vida Demais!", primeiro espetáculo do grupo, as crianças lidavam com o luto sem o apoio dos adultos. Agora, o interesse se volta para a convivência entre esses dois universos e para a possibilidade de estabelecer relações menos hierárquicas, em que as crianças tenham espaço para expressar desejos e opiniões. “Embora a adultização seja o grande plano de fundo, durante o processo percebemos que a peça acabou sendo muito mais sobre a solidão dessas crianças da cidade que vivem praticamente fechadas em casa. Nossa protagonista se sente sozinha e usa a imaginação para criar diversos mundos. E assim surgiu a vontade de adentrar o universo dos adultos”, conta Amorim.

Na história, o quartinho de bagunça dos adultos funciona como uma espécie de passagem para um mundo que Pati deseja conhecer. Lá estão objetos e lembranças, mas também uma série de referências ao universo adulto que a menina ainda não consegue compreender completamente. A personagem entra em contato com figuras da mídia, como ídolos do esporte, influenciadores de beleza, coaches e até crianças que alcançaram fama nas redes sociais. Conforme avança por esse novo território, Pati começa a se afastar de seu companheiro inseparável: o urso de pelúcia que a acompanha desde o início da aventura.

A encenação utiliza uma câmera ao vivo para ampliar aquilo que aparece em uma "casa de bonecas", espécie de reflexo do quartinho dos adultos. As projeções de Vic Von Poser ajudam a construir esse universo e fazem referência ao consumo exacerbado, enquanto a música executada ao vivo por Demian Pinto e Gabi Queiroz, vestidos de pelúcia, cria a Banda Telúrica. A iluminação de Daniel Gonzalez completa o ambiente com atmosferas cósmicas e jogos de luz e sombra, acompanhando os conflitos de uma criança fascinada pela possibilidade de crescer.

É nesse universo que surge a "Síndrome da Adultopia", invenção da CASCA para definir o "sonho-sem-graça" que acomete crianças interessadas em crescer antes da hora. O diagnóstico vem de Traça e Cupim, bichinhos-leitores que vivem no quarto dos adultos, devoram livros e palavras e aparecem como dispositivos líricos da montagem, brincando com pontuação, metalinguagem e humor filosófico.

“As sociedades totalmente guiadas por produtividade, estética, autocontrole e consumo também moldam as crianças, o que estimula esse desejo de crescimento acelerado. Nesta peça, é a criança quem deseja. Por isso, o que muito me interessa na pesquisa é o que vemos como desobediência infantil. Os pequenos e as pequenas têm vontades próprias e, como nem sempre compreendemos isso, não abrimos espaço para o diálogo, simplesmente associamos à desobediência e à má educação. Eu gostaria que os adultos pensassem sobre isso enquanto assistem ao trabalho: em como podemos mediar as vontades infantis ao invés de simplesmente se impor”, comenta Bruno Canabarro.

A aventura de Pati também mexe com a comunicação dentro da própria família. Em determinados momentos, a menina e os pais parecem falar idiomas diferentes. A incompreensão ganha forma física e sonora na encenação, enquanto a dança e o brincar acabam encontrando caminhos para reconstruir essa comunicação. Pati se vê diante de um universo novo sem saber muito bem como voltar para aquilo que conhecia. O caminho de retorno passa, portanto, pelo reencontro com a própria infância e com a criança que continuou existindo mesmo durante a tentativa de crescer depressa.

“Pati é jogada para esse mundo novo sem nenhum suporte e, quando ela tenta voltar à sua infância, já não consegue mais. Por esse motivo, acreditamos que o tal Planeta Pelúcia é um lugar de segurança e proteção, onde as crianças podem crescer asseguradas. E é justamente essa a nossa responsabilidade enquanto adultos. Paulo Freire já dizia, baseado num provérbio africano, que é preciso de uma comunidade inteira para educar uma criança. Então, estamos convidando os adultos a realmente olharem para as crianças ao invés de invalidá-las”, reflete o dramaturgo.

Com uma aventura que parte do imaginário infantil para chegar a questões bastante concretas da vida contemporânea, "Planeta Pelúcia" coloca adultos e crianças no mesmo espaço de investigação. Pati quer crescer. O problema é descobrir o que existe do outro lado da porta — e se, depois de entrar, ainda será possível voltar.


Ficha técnica | Espetáculo "Planeta Pelúcia"
Dramaturgia: Bruno Canabarro
Direção e cenografia: Rodolfo Amorim
Elenco: Bruna Betito, Bruno Canabarro e Paula Spinelli
Direção musical e música ao vivo: Demian Pinto e Gabi Queiroz
Música original: Demian Pinto e Gabi Queiroz
Letras: Bruno Canabarro
Atores-contrarregras: Lucas Asseituno e Rafael Costa
Iluminação: Daniel Gonzalez
Videografia: Vic Von Poser
Figurinos e adereços: Felipe Cruz
Assistentes de figurinos: Asroba e Marcel Marques
Cenotecnia e objetos cênicos: Zé Valdir
Maquete cenográfica: Doideca no Papel – Marcela Falci
Bonecos e cabeção: Edson Gon
Identidade visual: Fernanda Zotovici e Gabriela Meyer
Preparação corporal e coreografias: Jhennifer Peguim
Voz em off: Alice Asseituno
Técnico de som: Maurício Caetano
Técnico de segurança: Sérgio de Souza (Boca)
Montador: Roberto Oliveira
Direção de produção: CASCA – Coletivo de Criação e Plataforma – Estúdio de Produção Cultural
Coordenação de produção: Fernando Gimenes
Produção executiva: Bruno Ribeiro
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli
Administração: Victor Bittow
Fotografia: Camila Rivereto
Realização: SESC SP
Apoio: IBT – Instituto Brasileiro de Teatro, Teatro Estúdio e Armazém Grupo XIX de Teatro.


Serviço | "Planeta Pelúcia"
Dramaturgia: Bruno Canabarro
CASCA – Coletivo de Criação
Projeto Começa 2026
Datas e horários: de 24 de outubro a 29 de novembro de 2026, sábados e domingos, às 12h00.
Sessões nos feriados de 2 e 20 de novembro, às 12h00.
Classificação: livre
Duração: 60 minutos
Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia-entrada), R$ 12,00 (Credencial plena).
Entrada gratuita: para crianças até 12 anos.
Vendas: sescsp.org.br/programacao/planeta-pelucia-5


Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000
Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700
sescsp.org/Belenzinho
Estacionamento: de terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h.
Valores: credenciados plenos do Sesc: R$ 10 a primeira hora e R$ 4 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$ 20 a primeira hora e R$ 5 por hora adicional.
Transporte público: Metrô Belém (550 m) | Estação Tatuapé (1.400 m).
Sesc Belenzinho nas redes: Facebook, Instagram e YouTube: @sescbelenzinho

.: Confusões familiares e aposentadoria dão o tom de “Querendo ou Não"


Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.

A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto. 

A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.

A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.

Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.

O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.


Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Tiros, teatro e humor à moda Corbucci: “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”


A comédia de Sergio Corbucci mistura western, aventura e sátira política ao acompanhar dois italianos que caem, contra a vontade, no meio da Revolução Mexicana

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sergio Corbucci levou Vittorio Gassman e Paolo Villaggio para o México revolucionário em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, comédia de 1972 que chega ao streaming pelo streaming Belas Artes À La Carte. O filme coloca lado a lado um ator de teatro cheio de artimanhas e um padre pouco disposto a aventuras, dupla que passa a sobreviver entre revolucionários, tropas federais, fuzilamentos, fugas e disfarces. O resultado é uma mistura deliberadamente amalucada de western, aventura e humor.

Gassman interpreta Guido Guidi, líder de uma companhia teatral em turnê pelo México. Villaggio é don Albino Moncalieri, religioso que acaba envolvido na mesma confusão. A dupla circula por um país em ebulição e, a cada tentativa de escapar da encrenca, parece encontrar outra situação ainda mais complicada. O filme acompanha os dois italianos enquanto são jogados de um lado para outro entre grupos revolucionários e forças federais, sempre com a ameaça de uma execução por perto.

Corbucci já havia mergulhado no México revolucionário em “O Mercenário” (1968) e “Vamos a Matar, Companheiros” (1970). Em “Que Faço no Meio de Uma Revolução?”, porém, o cineasta leva o seu western para um terreno muito mais próximo da farsa. A produção integra o ciclo dos chamados Zapata Westerns, subgênero do western italiano ambientado na Revolução Mexicana e frequentemente marcado por conflitos sociais e políticos.

O elenco reúne ainda Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, José Canalejas, Simón Arriaga, Rosanna Yanni, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. O roteiro foi escrito por Corbucci ao lado de Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini, enquanto Alejandro Ulloa cuidou da fotografia e Eugenio Alabiso da montagem. A trilha sonora ficou a cargo de Ennio Morricone, colaborador frequente do cinema de gênero italiano.

Existe ainda uma história de bastidores digna de uma comédia de Corbucci. Segundo Paolo Villaggio, depois de cerca de três meses de filmagens, a equipe descobriu que um problema técnico havia impedido o registro das cenas. Praticamente tudo precisou ser refilmado. A façanha foi realizada em apenas 22 dias, numa espécie de corrida contra o prejuízo que combina bastante com a reputação caótica do projeto.

O título original, “Che c'entriamo Noi con la Rivoluzione?”, pode ser entendido literalmente como “O que Nós Temos a Ver com a Revolução?”. A pergunta resume a situação dos protagonistas, dois italianos que vão parar no centro de uma guerra que, inicialmente, pouco lhes dizia respeito. O próprio conceito também brinca com a tradição do western revolucionário italiano, gênero que Corbucci ajudou a consolidar durante os anos 1960 e 1970.

Ficha técnica
“Que Faço no Meio de Uma Revolução?” | “Che c'entriamo noi con la rivoluzione?” (título original) | “What Am I Doing in the Middle of the Revolution?” (título internacional).
Gênero: comédia, aventura, western. Duração: 103 minutos. Classificação indicativa: 10 anos (classificação registrada no lançamento brasileiro). Ano de produção: 1972. Data de lançamento: 19 de dezembro de 1972 (Itália). Idioma: italiano. Direção: Sergio Corbucci. Roteiro: Sergio Corbucci, Massimo Franciosa e Sabatino Ciuffini. Elenco: Vittorio Gassman, Paolo Villaggio, Riccardo Garrone, Eduardo Fajardo, Leo Anchóriz, Rosanna Yanni, José Canalejas, Simón Arriaga, Carmen Pericolo, Víctor Israel e Lorenzo Robledo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia no streaming. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Minha Melhor Amiga" é longa nacional divertido de fotografia impecável


Cartaz de "Minha Melhor Amiga"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O longa nacional de comédia, "Minha Melhor Amiga", estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, entrega uma história empolgante e divertida sobre uma amizade real. Logo, a química entre Ingrid e Mônica na telona transborda a ponto de pegar o público pela mão e trazer para a trama sobre os dilemas das mulheres que já passaram dos 50 anos, desde o envelhecimento feminino, a síndrome do "ninho vazio", a autonomia feminina e a quebra da ideia de que a felicidade está ligada a um romance.

A intimidade genuína entre as atrizes reflete em Clara (Ingrid Guimarães, de "Perrengue Fashion", "Minha Irmã & Eu") e Julia (Mônica Martelli), o que contribui na aceitação do enredo simples da comédia carismática. Ainda que a trama não se aprofunde, é pertinente a abordagem de dilemas das mulheres quinquagenárias. Assim, a comédia leve, caótica e reconfortante, acontece em meio a uma fotografia solar e impecável. 

Enquanto faz o público rir, em "Minha Melhor Amiga" há espaço para uma delicada, mas emocionante homenagem ao ator Paulo Gustavo que faz referência a cena hilária de falar "sorry". A trama que coloca duas amigas viajando entre Portugal e Espanha reforça a importância da amizade feminina, reavalia o peso e desafios do envelhecimento, o mode de ver a liberdade, assim como o rumo de suas próprias vidas. Vale a pena conferir a produção que transborda o carisma da dupla de protagonistas!

Trailer


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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Manual Crônico: A praça, o homem de bronze e o outro homem


Thiago Sobral é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack.


Em minha aldeia, há uma praça. Muitos nem percebem, mas, em minha aldeia, há uma praça e nela, há uma estátua. E como muitos mal ou nem percebem, em minha aldeia, há uma estátua que fica numa praça.

Essa praça serve de passagem para aqueles que cruzam a avenida, depois de ladear a Matriz, para alcançarem a Prefeitura na rua de trás. E muitos que chegam à Prefeitura na rua de trás nem percebem que, no meio do caminho, há uma praça e que nela mora uma estátua.

Essa estátua que mora na praça é de um homem. Talvez essa estátua de um homem seja — ou tenha sido — de bronze, embora o homem, quando era de carne, tenha sentido dor, mas não se deixou desatinar por ela.

Esse homem, antes de ser estátua, foi poeta, foi soldado, foi amante, foi menino. Esse menino recebeu nos lábios o seio de sua mãe, que o alimentou e fez dele um ser de carne, amante, soldado, poeta e, por fim, estátua talvez de bronze — que foi parar numa praça de minha aldeia.

Os homens e mulheres e meninos de minha aldeia são de carne. Seus olhos embaçados de fuligem e fumaça correm pelas ruas e não chegam a alcançar o homem de bronze. E, por não o alcançarem, não sabem como se chama.

Do mesmo modo, é provável que não saibam como se chama a praça pela qual passam diariamente. Por certo, o tal homem, que emprestou as formas à estátua de bronze fincada na praça, tem alguma relação com o nome da praça. Os homens de carne da minha aldeiam não desconfiam disso. Mas sei que ambos se referem à Lusitânia, pois um dia passaram por mares nunca dantes navegados e por cá aportaram.

Também nós aportamos por estas terras há algum tempo. Espremidos entre a serra e o mar, disputamos espaço com as fábricas e chaminés. E, ainda que haja, no centro da cidade, uma praça e um homem que vieram de sotaques distantes, o cantar das falas que por aqui se ouve traz outro tom. O tom das terras do nordeste, quentes e fervorosas, que sempre salvam a nação.

O homem de bronze que está na praça e que um dia foi de carne lutou e foi prisioneiro, nadou e escreveu versos. Os homens que aqui vivem, um dia migraram e ergueram estradas, trabalharam e construíram fábricas. E um desses homens, ébrio de paixão e talvez cachaça, caminheiro numa noite abafada, reparou no homem de bronze da praça. Diante dele, calou-se, de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que tiveram, pois o homem daqui queria falar. E falou ao homem que um dia fora de carne e que agora está na praça:

— Caraio, um gigante de ouro! — Os olhos arregalados, lançados para cima, fitaram a estátua da praça.

Alguns segundos de silêncio. Uma genuflexão, mãos no peito e depois postas. Dedo na testa, no peito, ombro esquerdo, direito, beijinho na lateral do indicador dobrado. Os homens, agora, ficaram de pé.

— Ela vai voltar, não vai? Traz ela pra mim, meu santinho! — O homem de baixo suplicou.

Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da estátua. Depois, virou-se para o lado da Prefeitura e seguiu seu caminho. Por certo sentia que a vida é um andar solitário entre a gente, pois, distante de sua amada, transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E imaginou. E imaginamos.

Pois aqui, ainda que nossas armas e barões não sejam assinalados, somos terra onde canta o coração, onde vivem as paixões, ainda que não reconheçamos o poeta.

Queria eu reconhecer o amador que se encaminhou em direção à Prefeitura, saber de sua amada, saber o seu nome. Mas não pude… Restou-me saber os outros nomes: o da praça, Portugal; o da estátua de bronze, Luís de Camões; e o da minha aldeia, Cubatão.

.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro

Cartaz de "Digger"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").

A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.

Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro. 

Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?

No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!


"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.

Trailer de "Digger"


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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

.: Resenha: "Cara-de-Barro" é excelente tormenta psicológica da nova fase DCU


Cartaz de "Cara-de-Barro"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Um ator de Hollywood no ápice do sucesso, com indicação ao Oscar, no auge do egocentrismo, corresponde às investidas de Mia Torrez (Joana Ribeiro), namorada de um poderoso chefão do crime de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik, "O Homem das Castanhas"), e tem como resultado, após uma noite de amor, um ataque sanguinolento que lhe dá um rosto talhado. Assim, Matt Hagen (Tom Rhys Harries, de "O Retorno") sai do homem comum, passa pelo anti-herói, vingando-se daqueles que lhe fizeram mal, até se tornar, de fato, o vilão “Cara-de-Barro” (Clayface), que dá nome ao longa de terror da DC, antagonista de Batman (promessa de confronto num filme futuro). 

Assim que o ator de Hollywood perde sua identidade, sem se reconhecer no espelho ou por aqueles que o cercam, Matt busca um tratamento experimental, esbarrando na Doutora Caitlyn Bates (Naomi Ackie, "I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston" e "Mickey 17") que consegue reverter o aspecto monstruoso, porém nele também passa a habitar uma criatura de barro. Desta forma, acaba sendo estabelecida uma relação criador e criatura que costura uma história assustadora com bons sustos para o público.

A adaptação do ser desfigurado a mando do gângster local, surgiu originalmente nos quadrinhos em 1940, sendo historicamente um dos vilões mais clássicos e perigosos do Cavaleiro das Trevas, com direção de James Watkins ("Não Fale o Mal" e "A Mulher de Preto") e roteirizado por Mike Flanagan ("A Maldição da Mansão Bly" e "A Maldição da Residência Hill"), entrega terror, no estilo gore que consegue flertar, em partes, com o estilo de Sam Raimi ("Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio" e "Homem-Aranha"), porém mesmo expondo detalhes incômodos, acaba sendo um pouco mais recatado. Tal qual o próprio Raimi fez em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", por exemplo.

Tendo uma excelente trilha sonora, incluindo a clássica "If You Leave Me Now", da banda Chicago, na voz de Jasmine Jethwa, uma nova e mais sombria Gotham City é desenhada, seguindo o oposto das já vistas nas tramas do herói Batman (ou Bruce Wayne) quem nem mesmo se faz presente. Paralelamente, a ausência de luz e o peso dramático na vida de Matt transmitem a tormenta psicológica, dividindo a agonia com quem assiste a tudo. Vale destacar a atuação marcante do ator galês Tom Rhys Harries.

O longa que integra o novo DC Studios (DCU) soma 1 hora e 48 minutos de duração de horror visceral, sem cenas pós-créditos. Com elementos de terror corporal tal qual o grande sucesso recente de cinema "A Substância", a produção exibe a transformação de Matt diante dos olhos do público, regada no terror sanguinolento capaz de incomodar quem está diante de tais sequências. Contudo, é numa grande festa que a grande sacada do poder de Cara-de-Barro se faz gerando grande envolvimento, além de surpreender por vezes. Vale muito a ida ao cinema!

Cara-de-Barro (Clayface, 2026). Gênero: Terror corporal, suspense. Direção: James Watkins. Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini. Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie e Max Minghella. Sinopse: acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um chefe do crime de Gotham. Desesperado, ele usa um tratamento experimental clandestino que restaura sua aparência, mas o transforma em um monstro de argila e corrói sua sanidade. Estreia no Brasil: 22 de outubro de 2026 

Trailer de "Cara-de-Barro"


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Greene e da Guerra Fria


Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.

Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.

A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.

A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.

Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.

A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.

A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.

É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.

As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.

A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.

O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.

Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?


Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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