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quinta-feira, 22 de outubro de 2026
.: Manual Crônico: A praça, o homem de bronze e o outro homem
.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro
Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com
Em outubro de 2026
O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").
A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.
Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro.
Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?
No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!
"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.
Trailer de "Digger"
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quarta-feira, 21 de outubro de 2026
.: Resenha: "Cara-de-Barro" é excelente tormenta psicológica da nova fase DCU
Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com
Em outubro de 2026
Um ator de Hollywood no ápice do sucesso, com indicação ao Oscar, no auge do egocentrismo, corresponde às investidas de Mia Torrez (Joana Ribeiro), namorada de um poderoso chefão do crime de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik, "O Homem das Castanhas"), e tem como resultado, após uma noite de amor, um ataque sanguinolento que lhe dá um rosto talhado. Assim, Matt Hagen (Tom Rhys Harries, de "O Retorno") sai do homem comum, passa pelo anti-herói, vingando-se daqueles que lhe fizeram mal, até se tornar, de fato, o vilão “Cara-de-Barro” (Clayface), que dá nome ao longa de terror da DC, antagonista de Batman (promessa de confronto num filme futuro).
Assim que o ator de Hollywood perde sua identidade, sem se reconhecer no espelho ou por aqueles que o cercam, Matt busca um tratamento experimental, esbarrando na Doutora Caitlyn Bates (Naomi Ackie, "I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston" e "Mickey 17") que consegue reverter o aspecto monstruoso, porém nele também passa a habitar uma criatura de barro. Desta forma, acaba sendo estabelecida uma relação criador e criatura que costura uma história assustadora com bons sustos para o público.
A adaptação do ser desfigurado a mando do gângster local, surgiu originalmente nos quadrinhos em 1940, sendo historicamente um dos vilões mais clássicos e perigosos do Cavaleiro das Trevas, com direção de James Watkins ("Não Fale o Mal" e "A Mulher de Preto") e roteirizado por Mike Flanagan ("A Maldição da Mansão Bly" e "A Maldição da Residência Hill"), entrega terror, no estilo gore que consegue flertar, em partes, com o estilo de Sam Raimi ("Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio" e "Homem-Aranha"), porém mesmo expondo detalhes incômodos, acaba sendo um pouco mais recatado. Tal qual o próprio Raimi fez em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", por exemplo.
Tendo uma excelente trilha sonora, incluindo a clássica "If You Leave Me Now", da banda Chicago, na voz de Jasmine Jethwa, uma nova e mais sombria Gotham City é desenhada, seguindo o oposto das já vistas nas tramas do herói Batman (ou Bruce Wayne) quem nem mesmo se faz presente. Paralelamente, a ausência de luz e o peso dramático na vida de Matt transmitem a tormenta psicológica, dividindo a agonia com quem assiste a tudo. Vale destacar a atuação marcante do ator galês Tom Rhys Harries.
O longa que integra o novo DC Studios (DCU) soma 1 hora e 48 minutos de duração de horror visceral, sem cenas pós-créditos. Com elementos de terror corporal tal qual o grande sucesso recente de cinema "A Substância", a produção exibe a transformação de Matt diante dos olhos do público, regada no terror sanguinolento capaz de incomodar quem está diante de tais sequências. Contudo, é numa grande festa que a grande sacada do poder de Cara-de-Barro se faz gerando grande envolvimento, além de surpreender por vezes. Vale muito a ida ao cinema!
Cara-de-Barro (Clayface, 2026). Gênero: Terror corporal, suspense. Direção: James Watkins. Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini. Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie e Max Minghella. Sinopse: acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um chefe do crime de Gotham. Desesperado, ele usa um tratamento experimental clandestino que restaura sua aparência, mas o transforma em um monstro de argila e corrói sua sanidade. Estreia no Brasil: 22 de outubro de 2026
Trailer de "Cara-de-Barro"
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terça-feira, 20 de outubro de 2026
.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Greene e da Guerra Fria
Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros
Ficha técnica
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
.: Benito de Paula, o adeus do amigo do Charlie Brown
A Música Brasileira perdeu um de seus talentos mais originais. Benito di Paula, cantor e compositor de vários sucessos faleceu no ílnal de semana. Tinha 85 anos e tratava de um câncer de próstata. Foto: Murilo Alvesso
A partir daí, Benito emplacou uma sequência de sucessos que consolidaram sua presença no imaginário popular. “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Se Não For Amor”, “Vai Ficar na Saudade”, “Tudo Está no Seu Lugar”, "Ah, como eu Amei" e “Proteção às Borboletas” estão entre as canções que ajudaram a definir sua obra. Suas composições combinavam romantismo, cotidiano, humor, sentimento e observação da vida brasileira, sempre com uma assinatura musical facilmente reconhecível.
domingo, 18 de outubro de 2026
.: “Gol de Quem?”: Pato Fu lança disco ao vivo
.: "Hotel California": 50 anos de um clássico do rock
Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.
Alguns álbuns permanecem com a mesma relevância da época em que foram lançados. Um desses casos é o excelente "Hotel California" da banda americana Eagles, que de uma certa forma acabou elevando o patamar do grupo dentro do mainstream. "Hotel California" foi o quinto álbum de estúdio da banda e também o nome da música de maior sucesso do grupo. Ate ali o Eagles já havia conquistado um espaço com uma sonoridade próxima do folk rock.
A banda tinha como líderes o baterista Don Henley e Glenn Frey, além dos guitarristas Don Felder e Joe Walsh. Ambos responsáveis pelo antológico solo da faixa. O disco demorou oito meses para ser gravado, entre Março e Outubro de 1976. O disco traz a música de maior sucesso do grupo: a faixa-título "Hotel California", além de outros sucessos como "New Kid In Town" e "Life In The Fast Lane". Teve participação do guitarrista Joe Walsh já como um membro fixo da banda, ele que tinha se juntado ao grupo no ano anterior, ocupando o lugar de Bernie Leadon.
Se você ouvir novamente o disco, perceberá que tem uma sequencia de canções que se complementam. "Victim of Love" é a sequencia de baladas que encerra o album são outros destaques . A banda recebeu dois Grammy Awards, um pela música "Hotel California" na categoria "Record Of The Year" e outro pela música "New Kid in Town" na categoria "Best Arrangement For Voices".
"Hotel California"
"New Kid in Town"
quinta-feira, 15 de outubro de 2026
.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Palavras desenhadas no ar
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Chave no contato. Giro. Partida. Dedo no botão: a Partida. Quinze, dezesseis minutos em que sou forçado a recriar na mente quatro linhas, círculo e semicírculos, traves, bola, toques, dribles, cabeçadas e chutes, que são desenhados no ar por alguém que não sei exatamente quem é. Tudo bem que os dribles não estão mais tão na moda assim, mas desejo muito imaginá-los. Caso contrário, qual seria a graça?
Há muito larguei as discussões acaloradas sobre o futebol. Há muito abandonei os gramados e talvez seja por isso que o hexa nunca vem. E há muito não ouvia uma partida pelo rádio. Ao colocar o dedo no botão, o jogo estava um a zero para nós. E os míseros quinze, dezesseis minutos de trajeto entre a escola, no fim do expediente noturno, e minha casa alojaram em meus ouvidos a nostalgia dos anos noventa.
Enquanto dirigia, o time adversário empatou. Diz o homem que desenhava as palavras no ar que Dairon Asprilla havia feito um golaço. Acreditei, incrédulo de meu pé-frio. Digo pé-frio porque me bailou na mente a última transmissão futebolística de rádio de que tenho memória. Não informo o time pelo qual torço por questão de privacidade. Mas o amigo vai entender.
O ano era 1998. E quem conheceu 98 sabe que a coisa não foi lá muita coisa para nós… Não só nós, mas todos nós (Zidane que o diga). Por pouco, não nos igualamos ao futuro, quando os alemães se fizeram em todos nós — não apenas em nós. Minha criança de dez anos ouviu aquela partida com olhos empoçados, imaginando cada um dos sete tentos lusitanos como marteladas no meu pequeno coração torcedor. No dia seguinte, o Globo Esporte calcificou minha imaginação para sempre.
Eis o ponto! A partida do presente levou-me à partida do passado, e as emoções se tornaram uma só. O coração acelerado ouviu o apito estridente e o desenhista das palavras no ar anunciar o pênalti. Foi? Não foi? A mão no câmbio do carro e a segunda entrou rasgando. Jonathan Calleri bateu no alto. Grito! Mão no câmbio novamente: a terceira deslizou. A imaginação cumpriu seu trabalho.
Melancolia do passado. Euforia do presente. Tudo construído através das palavras desenhadas pelas ondas sonoras, sentimento no ar. Não sei se bom ou ruim. Sei apenas que os meninos de dez anos de hoje talvez não terão essa chance, lá na frente. Porque o que há são imagens e cortes, canais e streamings. O palco é das telas. E o serviço está feito.
Só resta torcer.
Torcer como torceu o garotinho na final de 98, na França. Torcer e chorar como o menino que viu os lusos Émerson, César, Leandro, Carlinhos, Evandro, Ricardo Lopes e Da Silva alcançarem o número perfeito, ainda que enganado pelos tricolores Serginho e Marcelinho. Ou mesmo, como torceu o homem de hoje, ao ouvir novamente as palavras desenhadas no ar pelo locutor.
O jogo de agora teve um desfecho melhor: três a um e a nossa classificação para a próxima fase. Dessa vez, não recorri ao Globo Esporte para calcificar a imaginação. Preferi ficar com as palavras desenhadas no ar por alguém que não sei exatamente quem é.
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
.: Fama e Hollywood são matéria-prima para novo romance de John Green
Após quase uma década longe da ficção, autor de “A Culpa É das Estrelas” acompanha dois jovens atores diante das delícias e dos estragos provocados pela fama
John Green está de volta à ficção. Depois de quase uma década, o escritor norte-americano retorna às livrarias com “Um Final de Cinema”, romance que mergulha no universo do cinema para discutir fama, exposição, ambição profissional e as marcas que certas experiências deixam pelo caminho. O livro, publicado pela Intrínseca, chega às livrarias em outubro, com tradução de Alda Lima. A arte de Andy Warhol, figura controversa e fundamental da Pop Art, serve como uma das referências para a história. A célebre relação entre celebridade, consumo e transformação de pessoas em produtos ganha novas camadas nas mãos de Green, autor de livros que conquistaram gerações de leitores, como “A culpa é das estrelas” e “Cidades de papel”.
A trama acompanha dois atores em ascensão durante as filmagens de uma cinebiografia sobre o último ano de vida de Warhol. Kai é um estreante em Hollywood que tenta descobrir se finalmente encontrou a oportunidade capaz de mudar sua trajetória ou se aquela será sua primeira e última grande chance. Juniper, por sua vez, foi atriz mirim e está determinada a mostrar que cresceu, amadureceu e está pronta para ocupar novos espaços na indústria. A proximidade entre os dois rapidamente desperta a atenção do público. O talento chama a atenção, mas os rumores de um possível romance também fazem sua parte, especialmente nas redes sociais. Enquanto o filme ganha forma, Kai e Juniper percebem que estão envolvidos em uma produção capaz de alterar suas vidas profissionais.
A expectativa aumenta quando, perto da estreia, a produção conquista atenção suficiente para elevar as projeções de arrecadação. O sucesso finalmente parece ao alcance dos dois. Juniper e Kai chegam ao lugar que tanto desejavam, enquanto uma possível história de amor surge no horizonte, justamente quando suas carreiras começam a ganhar velocidade. A fama, porém, costuma cobrar a conta com juros. Conforme os dois passam a ocupar mais espaço na mídia, lembranças que preferiam manter no passado reaparecem. A exposição transforma questões pessoais em assunto público e obriga os protagonistas a descobrir como sobreviver a uma realidade na qual cada detalhe pode virar notícia, comentário ou especulação.
É nesse jogo entre celebridade e intimidade que John Green encontra o coração de “Um Final de Cinema”. Seus personagens sabem o que querem profissionalmente, mas precisam enfrentar a possibilidade de se transformarem em mercadorias da própria indústria que desejam conquistar. A referência a Warhol, portanto, ganha uma dimensão particularmente saborosa dentro da narrativa. A fama pode durar quinze minutos. O problema começa quando esses quinze minutos resolvem ocupar uma vida inteira.
Sobre o autor
John Green é autor premiado e best-seller do New York Times. Formado em língua inglesa e estudos religiosos pelo Kenyon College, em Ohio, nasceu em 1977, no estado de Indiana, onde vive com a mulher e os filhos. Ao longo da vida, também morou em Nova York, Illinois, Michigan, Flórida e Alabama. Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da literatura contemporânea para jovens adultos, trabalhou como redator na National Public Radio, em Chicago, e como editor-assistente e de produção da revista de resenhas literárias Booklist. Também assinou críticas de livros para o New York Times. Pela Intrínseca, publicou “A Culpa É das Estrelas”, “Quem É Você, Alasca?”, “Cidades de Papel”, “O Teorema Katherine”, “Tartarugas Até Lá Embaixo”, “Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra” e “Tudo É Tuberculose”.
domingo, 11 de outubro de 2026
.: “Grande Sertão: Veredas” em novas leituras para uma história sem fim
Sete décadas depois da publicação, o romance de João Guimarães Rosa permanece aberto a novas leituras, adaptações, pesquisas e interpretações que mantêm linguagem e personagens em movimento
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Em julho de 1956, “Grande Sertão: Veredas” chegou às livrarias brasileiras. Setenta anos depois, o romance continua sendo lido, estudado, adaptado, encenado, desenhado, filmado e discutido. A distância entre essas duas datas ajuda a dimensionar a permanência de uma obra que nunca se acomodou dentro da própria importância. O livro de João Guimarães Rosa atravessou gerações sem perder a capacidade de provocar estranhamento.
Riobaldo continua contando a história dele, Diadorim permanece escondendo segredos, os jagunços seguem atravessando o sertão e as perguntas sobre amor, violência, fé, destino, coragem, medo e escolha ainda estão abertas. A explicação para a vitalidade do romance é uma: “Grande Sertão: Veredas” não oferece uma leitura única de si mesmo. A publicação de 1956 representou um momento decisivo na trajetória de Guimarães Rosa. O escritor já havia chamado atenção com “Sagarana”, publicado dez anos antes, mas o novo romance ampliou de maneira radical as possibilidades de sua literatura.
A história acompanha Riobaldo em um longo relato sobre a vida entre jagunços, as guerras, as alianças, as perdas e a relação com Diadorim. Só que a aventura nunca aparece separada das grandes questões que ocupam o narrador. Enquanto conta o que viveu, Riobaldo tenta compreender o que fez, o que desejou, aquilo em que acreditou e até onde suas escolhas foram realmente suas. Essa combinação dá ao livro uma característica incomum. Há uma história para acompanhar, mas também há uma linguagem que exige atenção. Há personagens e acontecimentos, mas existe ainda uma voz que pensa sobre tudo isso enquanto narra. O resultado é um romance que permite diferentes portas de entrada.
Um leitor pode chegar pela história de Riobaldo e Diadorim. Outro pode se interessar pelo sertão. Há quem entre pela linguagem, pela filosofia, pela religiosidade, pela violência ou pela própria construção do narrador. Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende essa condição viva do clássico. Para ele, uma obra dessa dimensão não deve ser tratada como peça de museu: cada nova leitura pode recolocar o livro em circulação e fazer com que leitores de épocas diferentes encontrem outras possibilidades na narrativa.
O sertão ficou maior que o mapa
A frase de Riobaldo - “o sertão é do tamanho do mundo” - ganhou uma espécie de vida própria ao longo das décadas. Guimarães Rosa conhecia o sertão mineiro desde a infância, mas também voltou a ele como observador e escritor. Em 1952, acompanhou durante dez dias uma comitiva de oito vaqueiros que conduzia cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. Durante a viagem, registrou palavras, expressões, nomes de lugares, histórias, comportamentos e detalhes do cotidiano, um material que foi transformado pela literatura. No livro aparecem rios, veredas, fazendas, chapadas, animais, vaqueiros e jagunços reconhecíveis. mas também existe também um território interior, feito de dúvidas e decisões, no qual qualquer pessoa pode se reconhecer.
Riobaldo ainda tem perguntas está o tempo todo tentando interpretar os acontecimentos. O homem mais velho que ele se tornou olha para o jagunço do passado e procura compreender o jovem que tomou determinadas decisões. A distância entre experiência e memória produz uma narrativa cheia de dúvidas. Ele acredita que fez um pacto com o Diabo? O destino existe ou é uma explicação que inventamos depois dos acontecimentos? As pessoas escolhem seus caminhos ou apenas descobrem tarde demais aquilo que já fizeram?
Süssekind aproxima Riobaldo de personagens de tradições muito diferentes, como Hamlet, de Shakespeare. A comparação pode parecer inesperada, mas parte de uma ideia simples: a dimensão de um personagem não depende do lugar onde ele vive. Riobaldo pensa sobre a existência com uma intensidade que ultrapassa a classificação de “personagem regional”.
Diadorim continua mudando de rosto
Sônia Clara viveu Diadorim no filme de 1965. Bruna Lombardi assumiu a personagem na minissérie da TV Globo de 1985. Luiza Lemmertz levou a personagem para a montagem teatral de Bia Lessa e depois voltou a interpretá-la no cinema. Luisa Arraes, que também participou da montagem teatral, assumiu Diadorim no “Grande Sertão” de Guel Arraes. A cada versão, a personagem muda de corpo, de ambiente e de linguagem.
A televisão dos anos 1980 encontrou uma Diadorim inserida em uma produção de grandes dimensões, filmada no sertão mineiro. O teatro de Bia Lessa transformou o romance em uma experiência espacial. O cinema de Guel Arraes transferiu os conflitos dos jagunços para uma periferia urbana. As adaptações de “Grande Sertão: Veredas” mostram isso com clareza. O filme de 1965 precisou condensar uma narrativa monumental. A minissérie de 1985 ampliou o tempo e a dimensão da história. Bia Lessa transformou a obra em teatro e instalação. Guel Arraes levou os conflitos do livro para outro território. Também houve quadrinhos, música e videoinstalação. Mas nenhuma dessas versões substitui o romance, já que ajudaram a mantê-lo em circulação.
Setenta anos também cabem em novas leituras
A permanência de “Grande Sertão: Veredas” aparece ainda na quantidade de maneiras encontradas para voltar a ele. Em 2026, a edição especial de 70 anos publicada pela Companhia das Letras ganhou novo projeto gráfico, capa inspirada em trabalho da artista mineira Sonia Gomes, ensaio de Érico Melo sobre o processo de construção do romance e depoimentos de escritores, pesquisadores e leitores. O aniversário também movimenta outras iniciativas, entre elas uma nova edição de “Diário do Grande Sertão”, de Bruna Lombardi, debates e uma versão em audiolivro narrada por Caio Blat.
Na Flip de 2026, mais de 300 pessoas acompanharam a conferência “70 Anos de Grande Sertão: Veredas”, com Itamar Vieira Junior, dedicada à permanência e à força do romance no presente. A quantidade de atividades em torno da obra revela uma coisa curiosa: comemorar 70 anos não significa olhar para trás durante sete dias, pelo contrário, evidencia encontrar novos motivos para voltar ao livro. Existe ainda uma razão menos evidente para a permanência de “Grande Sertão: Veredas”: Guimarães Rosa continua sendo descoberto.
A biografia dele ajuda a entender parte dessa obra. O menino de Cordisburgo que cresceu ouvindo histórias, o médico que percorreu pequenas cidades do interior, o diplomata que viveu na Europa e ajudou a salvar muitas vidas, o homem interessado por idiomas e culturas diferentes e o escritor que voltou ao sertão para recolher palavras e histórias não cabem numa imagem única.
Chamar Guimarães Rosa apenas de escritor regional seria pequeno demais. Colocá-lo exclusivamente entre os autores do modernismo também não dá conta do que ele fez com a linguagem. Transformar “Grande Sertão: Veredas” em monumento literário pode até reconhecer sua importância, mas cria uma distância desnecessária entre o livro e quem ainda não o leu. A literatura brasileira mudou muito desde 1956. Mudaram os leitores, os costumes, as formas de publicação, os meios de comunicação e as maneiras de contar histórias.
O livro hoje pode ser encontrado numa edição comemorativa, discutido em uma universidade, transformado em filme, levado ao teatro, convertido em quadrinhos, ouvido em audiolivro ou apresentado em uma conversa com escritores. Pode chegar ao leitor que conhece Guimarães Rosa desde a escola e também àquele que abre o livro pela primeira vez. A obra sobrevive porque permite essas aproximações sem perder a ´própria estranheza e não precisa ser simplificada para continuar atual. Ele permanece disponível para novas perguntas sem entregar uma interpretação definitiva de si mesmo.
- "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos e abre novos horizontes
- João Guimarães Rosa, o escritor que inventou um sertão universal
- “Grande Sertão” mobiliza personagens que atravessam amor, guerra e destino
- Guimarães Rosa: as paisagens, viagens e lugares que entraram para a literatura
- “Grande Sertão” é teatro, cinema e TV em diferentes versões de Rosa
- “Grande Sertão: Veredas” revela as faces de Diadorim nas telas e no palco
- Setenta anos depois: por que “Grande Sertão: Veredas” continua vivo
sábado, 10 de outubro de 2026
.: Clara Ribeiro lança "Outras Ondas, Mesmas Cores"
Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.
Clara Ribeiro lança seu novo projeto musical, "Outras Ondas, Mesmas Cores", em colaboração com os produtores musicais Taleko e Warmando. Assinam também os beatmakers Holandês, Drei, GregoOnDeBeat, flowerthings, Jovelli, Crosstalk, CL Fez O Beat, Jacquelone e DJ Carlosz – que já produziu Anitta, Marina Sena e Bia Soull.
Primeiro álbum da artista, a iniciativa marca um momento de expansão em sua carreira. Depois de alcançar mais de 100 mil streams com o EP "Desabafos" (2025), em parceria com Chediak, Clara dá continuidade a uma pesquisa artística entre música eletrônica, R&B e experimentos sonoros.
Em "Outras Ondas, Mesmas Cores", Clara reúne diferentes artistas e produtores para atravessar gêneros como house, city pop, UK garage e grime. As faixas nasceram há alguns anos como composições e beats independentes. "Outras Ondas, Mesmas Cores" já está disponível em todas as plataformas.
"Porto Seguro"
"Mantra"
"Vital"
















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