segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: Psicanálise involuntária, livro "O Mago" volta em nova edição com texto extra


Biografia que ultrapassou 1 milhão de exemplares ganha posfácio inédito e será relançada pela Realejo Edições com bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, em São Paulo


Fernando Morais volta a "O Mago", livro em que mergulhou na vida de Paulo Coelho e que se tornou um dos grandes sucessos editoriais da trajetória dele. Lançada originalmente em 2008, a biografia ganha nova edição pela Realejo Edições, agora acompanhada de um posfácio inédito escrito pelo autor. O relançamento será no dia 14 de outubro, às 19h00, com bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, em Pinheiros, São Paulo. A mediação ficará a cargo de José Luiz Tahan, sócio da livraria e da editora.

A nova edição de "O Mago" já está em pré-venda, com entregas e retiradas previstas a partir de 26 de setembro. O livro chega novamente às prateleiras depois de ter sido traduzido e publicado em 20 países e ultrapassado a marca de um milhão de exemplares vendidos. Morais costuma apontar "O Mago" como um de seus livros favoritos e relaciona parte do resultado à personalidade pouco previsível do personagem central. "Eu tive sorte de um personagem tão espantoso e surpreendente como o Paulo Coelho cair no meu colo. O livro é o oposto da obra dele: enquanto a obra é plácida e toca a alma, a biografia é uma sucessão de polêmicas e tragédias. Paulo é um antipersonagem que te surpreende a cada página”, revela Morais.

A pesquisa conduzida pelo jornalista percorre diferentes fases da vida de Paulo Coelho, desde a infância e as internações em hospitais psiquiátricos até a aproximação com o ocultismo, a parceria musical com Raul Seixas nos anos 1970, a prisão e a tortura durante a ditadura militar e a posterior transformação espiritual que contribuiu para sua projeção internacional. No centro dessa trajetória está uma ambição que acompanha o escritor desde a juventude: tornar-se um dos autores mais importantes e lidos do mundo. A biografia acompanha as mudanças de rumo, os conflitos e as escolhas que fizeram parte desse percurso.

Para escrever as mais de 600 páginas de "O Mago", Fernando Morais teve acesso a um material particular guardado por Paulo Coelho: diários íntimos e confessionais mantidos pelo escritor desde a juventude, além de dezenas de fitas gravadas ao longo dos anos. "Quando abri aquele ‘baú’ em Copacabana, encontrei ouro puro: quase 200 diários e dezenas de fitas gravadas desde a juventude dele. Ao ver aquilo, joguei fora as 300 páginas que já tinha escrito e recomecei o livro do zero. Os diários puseram a biografia num patamar completamente diferente”, relembra Fernando Morais.

O trabalho também seguiu o compromisso ético adotado pelo biógrafo nas obras dele. Morais teve acesso ao conteúdo sem censura prévia e entregou o exemplar a Paulo Coelho somente depois da publicação comercial. A leitura da biografia pelo próprio escritor teria provocado um efeito curioso. Ao se deparar com memórias e episódios que estavam guardados no passado, Paulo Coelho contou ao biógrafo ter se assustado com a força do relato e comparou a experiência a uma espécie de "psicanálise involuntária".

O sucesso da primeira edição levou "O Mago" para diferentes mercados internacionais. A obra foi publicada em países como Espanha, Estados Unidos, Itália, França, Rússia, Polônia e Alemanha, entre outros, alcançando mais de um milhão de exemplares vendidos. Para José Luiz Tahan, da Realejo Edições, o relançamento aproxima uma nova geração da história de um escritor brasileiro com enorme alcance internacional. “Estamos diante de uma obra relevante por seu conteúdo, por seu autor e por apresentar às novas gerações uma história que envolve um dos maiores vendedores de livros em todo o mundo, o escritor Paulo Coelho. É uma obra que fala de música, política, literatura, família, rompimentos e recomeços”, comenta.

A nova edição preserva, assim, uma biografia construída a partir de uma quantidade incomum de documentos pessoais e chega ao público com material inédito, recolocando nas livrarias a trajetória de um dos escritores brasileiros de maior circulação internacional. Compre o livro "O Mago", de Fernando Morais, neste link.

Serviço
Lançamento do livro "O Mago", com bate-papo e sessão de autógrafos com Fernando Morais
Dia 14 de outubro, a partir das 19h00
Livraria da Travessa - Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros / São Paulo
À venda pelo site da Realejo Edições

.: "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos e abre novos horizontes


Edição especial da Companhia das Letras revisita o romance de João Guimarães Rosa com material inédito e reafirma a vitalidade de um livro que atravessou gerações, leitores, linguagens e diferentes formas de interpretação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Setenta anos depois de chegar às livrarias, “Grande Sertão: Veredas” continua encontrando novos caminhos para chegar aos leitores. O romance de João Guimarães Rosa, publicado originalmente em 1956, ganhou em 2026 uma edição especial pela Companhia das Letras, que recupera parte da história editorial do livro e acrescenta novos olhares a uma obra que permanece aberta a interpretações, releituras e descobertas. A comemoração vem acompanhada de um novo projeto gráfico, capa criada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes e um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre o percurso dos rascunhos até a forma final do romance. 

O volume também reúne depoimentos de escritores, artistas, críticos e leitores contemporâneos influenciados pela literatura de Rosa, entre eles Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. A escolha dos nomes já indica uma das características mais interessantes da permanência de “Grande Sertão: Veredas”: o livro não pertence a uma única geração, escola literária ou maneira de ler, já que continua provocando escritores com experiências muito diferentes, pesquisadores, artistas e leitores que chegam ao romance décadas depois da primeira edição.

Pedro Süssekind, professor titular da Universidade Federal Fluminense e autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, resume uma das razões dessa permanência ao lembrar uma formulação de Italo Calvino: um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Süssekind também rejeitou a ideia de que “Grande Sertão: Veredas” deva ser tratado como peça de museu ou como um livro reservado aos especialistas. Para ele, cada nova leitura tira o romance do pedestal e o coloca novamente em movimento. “Um livro fechado não tem vida, um livro já entendido não precisa ser relido”, afirmou. É uma chave interessante para entrar nos 70 anos do romance. Afinal, “Grande Sertão: Veredas” atravessou sete décadas porque nunca se deixou encerrar por uma única explicação.


Um mundo que cabe no sertão
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Médico, diplomata e escritor, teve uma trajetória que passou por diferentes territórios antes de desembocar na literatura que o consagraria. Publicou “Sagarana” em 1946, depois de uma primeira experiência literária com “Magma”, e nos anos seguintes construiu uma obra marcada pela invenção linguística, pela oralidade, pela observação do sertão e por uma relação muito particular entre realidade e imaginação.

Em 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, Rosa percorreu durante dez dias o sertão mineiro acompanhando uma comitiva de vaqueiros. A viagem começou em Cordisburgo e atravessou parte da região do rio São Francisco. Ele registrou a experiência em cadernetas, anotando palavras, paisagens, histórias, nomes, costumes e situações que mais tarde alimentariam a produção literária dele.

O sertão que aparece no romance, portanto, não é apenas uma imaginação distante diante de um mapa. Há nesse lugar uma atmostera que carrega uma experiência concreta de deslocamento, escuta e observação. Ao mesmo tempo, a literatura de Guimarães faz esse território ultrapassar os próprios limites geográficos, o sertão dele é o mundo inteiro. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Pedro Süssekind lembra uma das frases mais conhecidas de Riobaldo: “o sertão é do tamanho do mundo”. Para o pesquisador, o sertão roseano não deve ser compreendido apenas como uma região determinada, mas como uma dimensão existencial.

Essa perspectiva ajuda a explicar porque o romance continua encontrando leitores muito além de Minas Gerais. O sertão do autor tem jagunços, rios, veredas, fazendas, guerras e travessias, mas também carrega questões que não ficam presas à geografia: amor, amizade, violência, medo, desejo, morte, fé, culpa, escolhas e a tentativa de compreender o próprio lugar no mundo. Riobaldo narra a trajetória dele como quem tenta reorganizar a própria memória enquanto conta. Diadorim ocupa o centro de uma relação que desafia as certezas do narrador. Os jagunços formam uma espécie de sociedade em movimento, marcada por alianças, conflitos, códigos de honra e disputas. E o sertão, longe de funcionar apenas como cenário, participa da construção dessa experiência.


Uma língua que inventa caminhos
Parte da força de “Grande Sertão: Veredas” está na linguagem. Rosa recolhe expressões populares, regionalismos, palavras arcaicas, construções inesperadas e invenções próprias para produzir uma narrativa que parece nascer da fala de Riobaldo e, ao mesmo tempo, ultrapassá-la. É nesse ponto que o romance pode intimidar quem ainda não o leu. O livro ganhou uma reputação de obra difícil, erudita e até mesmo inacessível. Pedro Süssekind contesta essa distância entre o clássico e o leitor comum. Para ele, a crítica e a pesquisa podem oferecer caminhos de aproximação, desde que não substituam a experiência da leitura.

A questão também aparece no projeto comemorativo de 70 anos. Ao lado da nova edição da Companhia das Letras, a celebração inclui o audiolivro narrado por Caio Blat, com trilha sonora e participações de viola de Ivan Vilela. Em agosto, a editora programou um ciclo de debates em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, além de outras ações relacionadas ao aniversário da publicação. A literatura, nesse caso, ganha novas vozes e formatos sem deixar de ser o que é.


O livro que virou muitas obras
Ao longo das décadas, “Grande Sertão: Veredas” saiu das páginas do romance e encontrou outras linguagens. Teatro, televisão, cinema, ensaios, estudos acadêmicos, livros de memória e releituras literárias ajudaram a construir uma espécie de cartografia paralela da obra. Antes mesmo da atual comemoração dos 70 anos, o romance já havia voltado diversas vezes ao centro da programação cultural brasileira.

Em 1985, a TV Globo exibiu a minissérie “Grande Sertão: Veredas”, com Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi como Diadorim. Décadas depois, Bruna Lombardi recuperaria a experiência em “Diário do Grande Sertão”, livro originalmente publicado a partir dos registros feitos durante as gravações e relançado em 2026 pela Autêntica como parte das comemorações dos 70 anos.

A relação entre literatura e audiovisual ganhou outra versão com “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e roteirizado por Arraes e Jorge Furtado. A adaptação deslocou a narrativa para uma periferia urbana dominada por organizações criminosas, mantendo no centro personagens, conflitos e relações inspirados no romance de Rosa. Também houve o teatro de Bia Lessa, estudos críticos, oficinas, programas especiais de televisão e expedições pelo sertão mineiro. Em 2023, o “Globo Repórter” refez parte dos caminhos percorridos por Rosa e visitou lugares relacionados ao universo que alimentou a criação do livro. Cada uma dessas experiências acrescenta uma camada à história de “Grande Sertão: Veredas”.


Setenta anos de um livro ainda em movimento
A nova edição da Companhia das Letras chega em um momento em que o romance continua sendo lido, estudado, adaptado e discutido. O aniversário redondo oferece a oportunidade de voltar ao livro, mas também de observar tudo aquilo que se construiu ao redor dele. Há uma cronologia de vida e obra, há os cadernos da viagem pelo sertão, há os manuscritos, as diferentes edições, os estudos críticos, as adaptações, os leitores que se tornaram escritores e os escritores que continuam encontrando Rosa pelo caminho.

Em “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo passa boa parte da narrativa tentando compreender aquilo que viveu. Setenta anos depois, o próprio romance continua produzindo esse efeito em quem se aproxima dele: cada leitura reorganiza o que parecia conhecido e abre uma nova passagem. Talvez seja essa uma das melhores maneiras de celebrar o aniversário de uma obra como essa. Não transformá-la em monumento, mas voltar a atravessá-la nos 70 anos de um livro que continua encontrando leitores, personagens, paisagens, intérpretes e novas formas de existir.


Dossiê Resenhando: “Grande Sertão: Veredas” - 70 anos
  • "Grande Sertão: Veredas" completa 70 anos e abre novos horizontes
  • João Guimarães Rosa: o homem, o médico, o diplomata e o escritor que inventou um sertão universal
  • Riobaldo, Diadorim e os jagunços: os personagens que continuam provocando leitores
  • O sertão de Rosa: as paisagens, as viagens e os lugares que entraram para a literatura
  • Da página para a tela: “Grande Sertão” de Guel Arraes e as outras adaptações do romance
  • Diadorim em cena: Bruna Lombardi, Luisa Arraes e as diferentes faces da personagem
  • Setenta anos depois: por que “Grande Sertão: Veredas” continua vivo

domingo, 27 de setembro de 2026

.: Crítica: "Coração Selvagem" é um "Sempre Ao Seu Lado" de aventuras

Imagem de "Coração Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


O longa de aventura "Coração Selvagem" (Heart of the Beast), estrelado por Brad Pitt ("Trem-Bala", "F1 - O Filme") com participação de J.K. Simmons ("Homem-Aranha", 2002) e de Anna Lambe (The Grizzlies) entrega a potência que um cachorro pastor-alemão Odin (Uber) é capaz de imprimir numa história de amor e parceria. A produção dirigida por David Ayer de fotografia impecável trabalha o desenvolvimento da sensibilidade e sintonia entre um homem e um animal. 

O intenso drama de sobrevivência começa quando uma moça na estrada tem seu caminho "pausado" por um cachorro. Dali, em diante o público vivencia a aventura de sobrevivência do ex-agente das forças especiais James Belmont (Brad Pitt) ao lado de seu cão de combate aposentado, o pastor-alemão Odin (interpretado pelo cão Uber). Após esbarrar no andarilho Witkins (J. K. Simmons) e ser avisado sobre a tempestade que estava vindo, James e Odin acabam perdidos no Alasca após um acidente aéreo.

No entanto, Odin sofre de estresse pós-traumático tendo pesadelos de guerra, assim como seu parceiro James. Logo, o sofrimento dos dois vira um. Humanizando o cachorro e colocando-o no posto de um autêntico veterano de combate. Em enquadramentos amplos de uma natureza digna de ser apreciada com alegria, a telona do cinema enche os olhos do público com encontros animais. Seja a tensão pura diante de um urso ou quando lobos atacam de modo coordenado a dupla.

"Coração Selvagem" consegue ser uma nova leitura do clássico "Sempre Ao Seu Lado" (2009), com adrenalina, mas passa longe da cidade e seus deveres agitados, pois é repleto de pesadelos do passado e aventuras em busca de sobrevivência na natureza indomada. É notório que Brad Pitt entrega interpretação intensa e teatral, ainda que por vezes tenha seu brilho roubado pelo carisma e olhar expressivo do cachorro. Vale a pena conferir!


Trailer de "Coração Selvagem"


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sábado, 26 de setembro de 2026

.: Giovanna Gold, sucesso de "A Fazenda", tem personagem esquecida. Saiba qual


De volta aos holofotes no reality da Record, atriz merece ser lembrada por personagem de sucesso na novela de Manoel Carlos, que acabou escondida pelas lembranças de Zefa, Alzira e Carmen

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Acervo/TV Globo

Giovanna Gold está de volta ao centro das atenções. Aos 62 anos, a atriz integra a temporada 18 de “A Fazenda”, tornando-se a protagonista da temporada, e reencontra um público que conhece o rosto dela muito antes de saber quantas personagens importantes ela acumulou na televisão brasileira. Quando o nome da atriz aparece nas listas de personagens mais lembradas, três figuras costumam tomar a frente: Zefa, de “Pantanal”; Alzira, de “Mulheres de Areia”; e Carmen, a vilã de “Chiquititas”. A associação faz sentido. São personagens marcantes, cada uma à sua maneira, e que ajudaram a construir a imagem de Giovanna Gold na televisão.

Existe, porém, uma quarta personagem que merece sair do cantinho esquecido da memória televisiva: Kátia, de “Por Amor”. Exibida pela Globo entre 1997 e 1998, a novela de Manoel Carlos foi um enorme sucesso e reuniu personagens que continuam habitando o imaginário do público. Helena, Maria Eduarda, Branca, Milena, Nando e Orestes ganharam vida própria na memória afetiva de quem acompanhou a trama.

Kátia também estava nessa novela. Interpretada por Giovanna Gold, ela era mãe de Cecília (Alessandra Aguiar) e amiga de Lídia (Regina Braga). A personagem era de destaque e circulava por uma das tramas paralelas da novela, em uma época em que as produções de televisão ainda conseguiam reservar espaço para uma quantidade generosa de personagens secundários com vida, relações e conflitos próprios.

Em 2019, quando “Por Amor” voltou ao “Vale a Pena Ver de Novo”, Giovanna Gold falou sobre a personagem ao Gshow. A atriz explicou que Kátia tinha “uma trama própria” e contou que imaginou a personagem com um jeito meio “mamma”. A reprise também fez com que voltasse a ser reconhecida nas ruas. É curioso como a memória da televisão funciona. Uma novela pode ser um fenômeno, um personagem pode aparecer durante centenas de capítulos e, algumas décadas depois, a lembrança coletiva escolhe alguns rostos para guardar e deixa outros em uma gaveta qualquer.

Kátia acabou nessa gaveta. Talvez porque não tivesse o temperamento peculiar de Alzira, de “Mulheres de Areia”, ou a maldade de Carmen, de “Chiquititas”. Também não carregava a aura de Zefa, personagem de “Pantanal” que marcou uma das primeiras fases de grande popularidade de Giovanna. 

Alzira, aliás, é outro capítulo curioso da carreira de Giovanna Gold. A personagem de “Mulheres de Areia” ficou marcada pela paixão por Tonho da Lua, vivido por Marcos Frota, mas seu destino poderia ter sido bem diferente. O plano original era terminar a novela com Alzira de mãos dadas com Damião, personagem de João Carlos Barroso, numa solução romântica que não convenceu a atriz. Giovanna contou que procurou Wolf Maya, diretor da novela, para reclamar do desfecho. “Quando veio o final da novela e a 'Magrela' (apelido da personagem) terminava de mão dada com outro, e não com o Tonho, foi punk. Não acreditei, como assim? Falei com o Wolf (Maya) e ele concordou, 'final muito careta'”.

A conversa mudou o rumo da personagem. Em vez de ganhar um novo amor no último capítulo, Alzira terminou sozinha, diante da partida de Tonho da Lua, que deixou Pontal d'Areia para acompanhar um circo. Na cena final da personagem, ela aparece na praia diante de uma escultura de areia com o rosto do homem por quem era apaixonada. Um desfecho melancólico, certamente, mas muito mais afinado com a história que a novela havia contado.

A participação de Giovanna nessa mudança diz bastante sobre a força que ela emprestou à personagem. Alzira não era simplesmente uma mulher apaixonada por Tonho da Lua: tinha uma personalidade própria e uma trajetória que, para a atriz, merecia um encerramento coerente. E foi assim que aquela imagem de Alzira chorando na praia acabou entrando na memória de quem acompanhou “Mulheres de Areia”.

Depois veio “Por Amor” e Kátia ficou pelo caminho da lembrança. Durante a reprise, Giovanna voltou a ser reconhecida nas ruas e falou com carinho sobre o trabalho. A novela trouxe de volta uma personagem que havia ficado escondida atrás de outras três figuras muito mais fáceis de identificar. 
Agora, “A Fazenda 18” produz uma situação diferente. Em vez de aparecer em uma reprise, Giovanna Gold está sendo apresentada a uma nova audiência por meio da própria personalidade. O reality coloca a atriz diante de espectadores que podem conhecê-la pela televisão, pelo nome ou simplesmente pela participante que está na casa. E essa exposição acaba puxando uma série de lembranças da trajetória dela. Giovanna Gold não chegou ao reality carregando somente a lembrança de uma vilã de “Chiquititas” ou da mulher apaixonada por Tonho da Lua. Antes de Carmen, Zefa e Alzira se tornarem as referências mais imediatas, mas houve Kátia, uma personagem de “Por Amor” que integrou uma novela de enorme repercussão e que tinha uma história própria dentro daquela trama.

A televisão brasileira é cheia dessas pequenas injustiças da memória. Alguns personagens viram bordão, fantasia, meme, chamada de retrospectiva. Outros simplesmente desaparecem das listas, mesmo tendo participado de novelas que o público jurava nunca ter esquecido. Kátia está nesse segundo grupo. A entrada de Giovanna Gold em “A Fazenda 18” cria uma boa desculpa para abrir o álbum de fotografias da carreira da atriz e procurar aquela imagem que quase sempre fica atrás das outras.

.: As novas cenas de "Ultimato Encore", filme requentado para "Doutor Destino"


Relançamento de "Vingadores: Ultimato" acrescenta cenas inéditas que conectam Steve Rogers, o colapso do multiverso e o Doutor Destino ao próximo capítulo da Marvel

Atenção: o texto a seguir contém spoilers de "Vingadores: Ultimato Encore"

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sete anos depois de levar a Saga do Infinito a uma conclusão que parecia definitiva, "Vingadores: Ultimato" voltou aos cinemas com uma nova versão. Batizada de "Vingadores: Ultimato Encore", a produção mantém praticamente intacta a aventura lançada originalmente em 2019, mas acrescenta material inédito que muda a maneira como aquele encerramento conversa com o futuro do Universo Cinematográfico Marvel.

O relançamento chegou aos cinemas brasileiros em setembro de 2026 e foi pensado como uma espécie de ponte para "Vingadores: Doutor Destino", próximo grande encontro dos heróis da Marvel. O resultado é curioso: o público revê praticamente o mesmo filme que já conhece, mas descobre que a despedida de Steve Rogers, afinal, ainda tinha uma visita para receber. A primeira novidade aparece quando "Ultimato" parecia ter terminado.

Steve Rogers (Chris Evans) e Peggy Carter (Hayley Atwell) finalmente vivem o momento que o personagem esperou durante décadas. Os dois dançam na casa de Peggy ao som de "It's Been a Long, Long Time", mas, desta vez, a cena não termina ali. Uma batida na porta interrompe a dança.

Peggy atende e encontra Loki (Tom Hiddleston), usando o uniforme da Autoridade de Variância Temporal, a mesma organização apresentada na série "Loki". Steve observa a situação escondido e, quando Loki entra, fica claro que a visita não é casual. A nova versão do longa-metragem deixa os três diante de uma situação que o filme de 2019 jamais apresentou: o Capitão América encontra uma versão de Loki que teve uma trajetória completamente diferente daquela conhecida por ele.

É uma pequena sequência, mas com potencial para alterar a leitura daquele desfecho. O Steve Rogers que decidiu permanecer no passado para viver com Peggy agora parece ter sido alcançado por acontecimentos que envolvem o multiverso. Depois, "Ultimato Encore" começa a olhar para um problema ainda maior.

Na Autoridade de Variância Temporal, Mobius (Owen Wilson), O.B. (Ke Huy Quan) e Miss Minutes acompanham uma situação que foge rapidamente do controle. Duas realidades entram em processo de incursão e, em pouco tempo, o número de universos ameaçados cresce de maneira vertiginosa. Entre eles está o Universo 10005, associado aos X-Men dos filmes da Fox. A situação evolui de algumas colisões para centenas e, depois, milhares de incursões. O.B. percebe a dimensão do desastre enquanto a TVA acompanha a destruição das realidades. A conclusão é direta: o multiverso está entrando em colapso.

A sequência funciona como uma explicação visual para um conceito que deve ganhar peso em "Vingadores: Doutor Destino": as incursões, quando universos diferentes entram em rota de colisão e ameaçam destruir uns aos outros. Se Steve Rogers recebe uma visita inesperada, Bruce Banner ganha uma ainda mais problemática. Após os acontecimentos de "Homem-Aranha: Um Novo Dia", Banner (Mark Ruffalo) aparece isolado em uma instalação militar subterrânea, a quilômetros abaixo da superfície. Ele registra seus experimentos e trabalha numa maneira de controlar a radiação gama para impedir que o Hulk volte a assumir o controle.

O isolamento, porém, dura pouco. A instalação começa a apresentar interferências. As imagens falham, os equipamentos sofrem alterações e uma presença surge no local. É Doutor Destino (Robert Downey Jr.), interpretado pelo próprio Robert Downey Jr., embora o personagem não seja mostrado integralmente nessa sequência. Banner pergunta o que ele está fazendo ali. Destino responde que veio "coletá-lo". O cientista se transforma no Hulk e parte para o confronto. A luta, porém, não chega a ser mostrada de maneira convencional. A câmera cai e, quando a situação volta a ser observada, Banner e Destino desapareceram. No chão e nas paredes, ficam as marcas da magia de Destino, sugerindo que os dois foram transportados para outro lugar.

A quarta novidade trabalha com a presença de Robert Downey Jr. no novo capítulo da Marvel. "Ultimato", em sua versão original, terminava com uma referência sonora ao primeiro "Homem de Ferro", de 2008: as batidas metálicas remetiam à construção da armadura de Tony Stark, criando um círculo simbólico para a Saga do Infinito. Em "Ultimato Encore", essa lembrança ganha outro significado. As batidas acompanham imagens de Doutor Destino trabalhando na própria máscara metálica. A associação é inevitável: Tony Stark e Victor von Doom são interpretados por Robert Downey Jr., mas agora o ator ocupa uma posição completamente diferente dentro do universo Marvel.

"Vingadores: Ultimato Encore" não acrescenta uma nova aventura às três horas de filme que o público conhece. O que muda está concentrado principalmente no material adicional, criado para aproximar a conclusão da Saga do Infinito dos acontecimentos de "Vingadores: Doutor Destino". Além dessas sequências, a nova apresentação conta com materiais especiais antes da sessão, incluindo uma mensagem de Robert Downey Jr. e Chris Evans e um vídeo produzido para o público dos cinemas.

O efeito é quase o de uma pós-produção feita anos depois para reposicionar um final conhecido. Steve e Peggy ganham uma visita inesperada; Banner deixa de ser apenas um personagem distante do próximo grande conflito; a TVA identifica o avanço das incursões; e Doutor Destino passa a ocupar um espaço cada vez maior na história.

Para quem esperava cenas deletadas de "Ultimato" ou uma versão significativamente diferente do filme de 2019, a novidade é mais pontual. Para os fãs interessados na continuidade do MCU, entretanto, poucos minutos bastam para transformar um encerramento conhecido em uma espécie de prólogo para a próxima reunião dos Vingadores. "Vingadores: Ultimato" já havia encerrado uma era. "Ultimato Encore" acrescenta algo que o filme original não precisava ter: uma porta aberta para a próxima.


Serviço
"Vingadores: Ultimato Encore"
Gênero: ação, aventura, ficção científica.
Direção: Anthony Russo e Joe Russo.
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Owen Wilson, Ke Huy Quan, entre outros.
Distribuição: Marvel Studios / Disney.
Estreia nos cinemas brasileiros: setembro de 2026.
Atenção: a disponibilidade de determinados materiais adicionais pode variar de acordo com o formato e a sala de exibição. "Vingadores: Doutor Destino" está previsto para chegar aos cinemas brasileiros em dezembro de 2026.

.: Novo cinema cruza fronteiras e leva o Brasil de 214 milhões ao mundo


De Berlim a Cannes, de Veneza a Locarno e ao Oscar, filmes brasileiros ampliam sua circulação internacional e mostram como diferentes territórios, personagens e formas de contar o país passaram a integrar a imagem do Brasil no cinema contemporâneo

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para Resenhando.com

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Brasil chegou a 214.211.951 habitantes em 2026. Em um recorte muito específico, Quixadá, no interior do Ceará, pode parecer distante de Berlim, Cannes ou Los Angeles quando se pensa na geografia tradicional do cinema internacional. No entanto, foi justamente de lá que “Feito Pipa” partiu para uma trajetória que resume boa parte do movimento que faz hoje o cinema brasileiro: um filme que evoca memórias do interior cearense, produzido fora do eixo Rio-São Paulo, premiado em um dos grandes festivais do mundo e agora escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.

Dirigido por Allan Deberton, o filme conquistou dois dos principais reconhecimentos da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim: o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme e o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem. A produção também circulou por outros festivais internacionais e chegou a Guadalajara, no México, onde recebeu o Prêmio Maguey de Melhor Filme e outro reconhecimento para sua atuação. Em 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema confirmou “Feito Pipa” como representante brasileiro na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.

A trajetória ajuda a desmontar uma ideia antiga sobre o que precisa acontecer para um filme brasileiro ser visto fora do país. A circulação internacional não começa necessariamente em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem depende de uma história ambientada em grandes capitais. Gugu, personagem de Yuri Gomes, nasce cinematograficamente no sertão cearense e chega a públicos de diferentes países carregando consigo uma experiência muito particular de infância, família, identidade e pertencimento.


O mundo também está olhando para nós
A presença brasileira em festivais internacionais não se resume a um único título. Em 2025, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, levou o cinema brasileiro novamente ao centro do Festival de Cannes. O filme recebeu os prêmios de Melhor Direção, para Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, na competição oficial, além de reconhecimentos paralelos da crítica e de exibidores franceses. A obra foi produzida em coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha.

O resultado também chama atenção pela origem do diretor. Kleber Mendonça Filho construiu uma obra profundamente ligada a Recife, ao cotidiano pernambucano e às contradições sociais e políticas brasileiras. Em Cannes, essa produção deixou de ser uma história exclusivamente local para entrar em uma conversa internacional, sem precisar apagar a cidade onde foi concebida.

Em 2026, outro exemplo veio de Pernambuco. “A Margem do Rio”, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, estreou mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, e foi o único filme brasileiro na disputa pelo Leopardo de Ouro. Poucos dias depois, a produção recebeu o Prêmio Especial do Júri. Ambientado em Recife e centrado no romance entre Izaquiel, auxiliar de serviços gerais, e Jeremias, pescador, o filme levou ao circuito internacional personagens e espaços que também fazem parte de um Brasil distante dos cartões-postais. É uma característica que atravessa boa parte da produção recente: o território deixa de ser simples cenário e passa a participar da identidade do filme. Recife, Quixadá, Marajó, Belo Horizonte, Salvador ou outras cidades e regiões podem estar no centro da narrativa sem que isso seja tratado como uma curiosidade exótica para o público estrangeiro.


“Ainda Estou Aqui” abriu uma porta que continua aberta
Se “Feito Pipa” chega ao Oscar depois de uma passagem internacional construída desde Berlim, o caso de “Ainda Estou Aqui” ajuda a compreender como essa circulação pode se ampliar. O filme de Walter Salles estreou mundialmente no Festival de Veneza de 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Roteiro. Depois, passou por outros festivais, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar 2025 e entrou na shortlist da categoria de Melhor Filme Internacional.

A trajetória terminou com um acontecimento histórico: “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional na cerimônia realizada em 2025. A própria Academia registra o Brasil como vencedor da categoria, com o filme dirigido por Walter Salles. Antes da premiação, porém, houve um percurso que começou muito antes da cerimônia. Veneza, Vancouver, Toronto e outros festivais ajudaram a colocar a produção em circulação, enquanto a distribuição internacional ampliou o acesso ao filme em diferentes territórios.

Esse caminho mostra uma diferença importante entre simplesmente produzir um filme e fazer com que ele encontre espectadores fora do país. A seleção para um festival pode abrir portas, mas depois vêm negociações de distribuição, agentes internacionais, imprensa, mercados, mostras, legendagem, contratos e estratégias para que a obra continue circulando. O festival, portanto, pode ser o começo de uma segunda vida para um filme.

Cannes, Berlim, Veneza: vitrines diferentes para filmes
Os grandes festivais internacionais cumprem funções distintas dentro desse circuito. Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e Sundance possuem programações, públicos e estruturas de mercado próprias. Entrar em uma dessas seleções significa colocar uma produção brasileira diante de curadores, críticos, distribuidores, programadores e compradores de diferentes países.

A própria Ancine mantém iniciativas voltadas à aproximação entre o cinema brasileiro e os grandes festivais. O programa “Encontros com o Cinema Brasileiro”, desenvolvido em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e com o apoio do Cinema do Brasil, foi criado justamente para aproximar curadores internacionais da produção nacional e ampliar sua presença no circuito. Entre os festivais envolvidos ao longo das edições estão Cannes, Berlim, Toronto, Sundance, Veneza, Locarno, San Sebastián e Roterdã.

Esse trabalho de aproximação é menos visível para o público que compra ingresso, mas pode ser decisivo para um filme independente. Antes de uma produção chegar a uma sala francesa, alemã, mexicana ou canadense, existe uma rede profissional responsável por apresentá-la, negociá-la e encontrar o espaço adequado para sua circulação. É nesse ponto que o cinema brasileiro também deixa de ser somente uma questão artística e passa a envolver uma cadeia internacional de negócios.


Coproduzir para atravessar fronteiras
As coproduções internacionais entram nessa equação. Elas podem reunir produtoras, recursos, profissionais e estruturas de diferentes países e facilitar a circulação de uma obra desde sua própria concepção. Em 2026, por exemplo, a Ancine e o Ministério da Cultura lançaram uma chamada de coprodução Brasil-Portugal com aproximadamente R$ 2 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual para longas-metragens de ficção, documentário e animação. A iniciativa brasileira foi acompanhada por uma chamada portuguesa, criando uma estrutura bilateral de financiamento.

Outro edital lançado no mesmo ano destinou aproximadamente R$ 1,5 milhão do FSA à coprodução Brasil-Argentina. A chamada prevê a participação de produtoras brasileiras independentes como coprodutoras minoritárias, enquanto o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, da Argentina, mantém mecanismo correspondente para os projetos em que a participação argentina seja minoritária.

São mecanismos que ajudam a entender uma das questões levantadas na matéria anterior deste dossiê: dinheiro, produção e circulação estão ligados. Um filme pode nascer em uma determinada região brasileira, contar com recursos nacionais, estabelecer uma coprodução internacional e depois encontrar seu público em festivais e salas de outros países.


Um cinema que viaja sem deixar o território para trás
Existe uma questão curiosa na internacionalização do cinema brasileiro. Para ser reconhecido fora do país, um filme nacional não precisa necessariamente parecer menos brasileiro.“Ainda Estou Aqui” levou para Veneza e depois para o Oscar uma história marcada pela ditadura militar e pela experiência de uma família carioca. “O Agente Secreto” levou Recife e a memória política do país a Cannes. “Feito Pipa” saiu do sertão cearense para Berlim e, agora, para o caminho do Oscar. “A Margem do Rio” colocou Recife novamente em uma vitrine internacional a partir de uma história de amor entre dois homens. São filmes muito diferentes entre si, mas existe um ponto de contato: nenhum deles precisou abandonar o lugar de onde veio para encontrar espectadores em outros países.

Essa circulação também altera a própria imagem do Brasil projetada internacionalmente. Em vez de um país representado somente por paisagens reconhecíveis ou por histórias já conhecidas no exterior, aparecem crianças do interior, trabalhadores, famílias, pessoas LGBTQIA+, mulheres, personagens negros, idosos, moradores de grandes cidades e comunidades afastadas dos centros econômicos. O país que viaja nas telas fica maior quando o cinema encontra mais de um Brasil dentro do Brasil.


O Oscar é uma porta, não a chegada
A escolha de “Feito Pipa” para representar o país no Oscar 2027 abre outra discussão. O reconhecimento da Academia Brasileira de Cinema coloca o filme em uma nova etapa de circulação internacional. A candidatura, por si só, não significa que a produção esteja automaticamente entre os indicados finais. A lista de indicados será anunciada posteriormente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Esse cuidado é necessário porque o Oscar costuma concentrar uma atenção enorme, mas o circuito internacional é muito maior do que a premiação de Hollywood. Um filme pode construir uma carreira relevante em Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto, Sundance ou em festivais especializados sem necessariamente chegar à disputa por uma estatueta. O percurso de “Feito Pipa” já demonstra isso. Antes da escolha para representar o Brasil, o filme passou por Berlim e recebeu dois prêmios importantes na Generation Kplus. Depois, encontrou outros festivais e públicos. A indicação ao Oscar, caso venha a acontecer, será mais uma etapa de uma trajetória que começou muito antes.


O Brasil que chega ao mundo
Ao longo de sete matérias, este dossiê passou por personagens, territórios, diretores, políticas públicas, dinheiro e agora circulação internacional. O fio que liga esses assuntos talvez esteja justamente na possibilidade de enxergar o cinema brasileiro como uma produção formada por muitos centros, muitas vozes e diferentes caminhos.

O chamado “novo cinema brasileiro” não cabe em uma geração específica. Também não se limita a uma estética ou a uma cidade. Ele aparece quando um menino de Quixadá ocupa uma tela em Berlim, quando Recife chega a Cannes e Locarno, quando uma família brasileira atravessa Veneza e alcança o Oscar, quando políticas públicas permitem que uma produtora regional coloque um projeto de pé e quando uma história criada em um território específico encontra espectadores do outro lado do oceano. Internacionalizar o cinema brasileiro não significa fazer o país caber na expectativa de quem olha de fora, mas permitir que diferentes Brasis tenham a oportunidade de ser vistos.


Dossiê Resenhando - Novo Cinema Brasileiro

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela quem paga a conta para filme chegar até você


Fundo Setorial do Audiovisual, leis de incentivo, editais estaduais e municipais e políticas de descentralização ajudam a financiar uma produção que movimentou cifras recordes em 2025


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir um filme, existe uma pergunta pouco cinematográfica: quem vai pagar por ele? A questão costuma desaparecer quando começam os festivais. Depois de pronto, o filme ganha cartaz, trailer, entrevistas, sessões e, em alguns casos, prêmios internacionais. O público vê o resultado, enquanto os créditos finais passam rapidamente diante dos olhos. Antes disso, porém, existe um percurso de desenvolvimento, roteiro, contratação de equipe, preparação, filmagem, montagem, finalização, distribuição e divulgação que precisa ser financiado.

O crescimento recente do cinema brasileiro também passa por essa conta. Em 2025, a Agência Nacional do Cinema registrou R$ 1,41 bilhão em recursos efetivamente destinados para o setor, o maior volume da série histórica. No mesmo ano, havia 1.556 projetos audiovisuais em execução com apoio do fomento da Ancine, enquanto outros 3.697 estavam em fase de captação por leis de incentivo ou de contratação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA. O número ajuda a explicar por que falar em novo cinema brasileiro também significa lembrar de política pública, investimento, empresas, editais e mecanismos de financiamento, já que uma boa história ainda precisa encontrar dinheiro para virar imagem.

O dinheiro que volta para o cinema
O principal mecanismo federal de investimento direto no audiovisual é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que recebe, entre outras fontes, recursos da Condecine, contribuição criada para estimular e financiar o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira. Em 2025, o Fundo alcançou números expressivos. Foram R$ 564,3 milhões contratados em investimentos, segundo a Ancine, o maior valor da série histórica, além de R$ 411,1 milhões destinados a operações de crédito para infraestrutura, modernização de estúdios, equipamentos e criação e comercialização de conteúdos. As leis de incentivo liberaram outros R$ 437,8 milhões.

O FSA pode funcionar por meio de investimento em projetos, enquanto suas linhas de crédito financiam empresas e estruturas do setor. Já os mecanismos de incentivo fiscal permitem que projetos habilitados captem recursos junto a empresas e outros investidores dentro das regras estabelecidas pela legislação. A própria Ancine passou a disponibilizar uma ferramenta que permite consultar as fontes de financiamento das obras brasileiras e identificar aquelas que utilizaram recursos públicos administrados pela agência, como o FSA e as leis de incentivo. O mapa financeiro do cinema, portanto, é mais complexo do que uma simples pergunta sobre quem “bancou” determinado filme.


O Fundo que chega antes do filme
Em 2025, o Comitê Gestor do FSA aprovou um Plano Anual de Investimentos de R$ 911 milhões. Desse valor, R$ 330 milhões foram planejados para o Prodecine, voltado ao cinema; R$ 315 milhões para o Prodav, relacionado à televisão; e R$ 266 milhões para operações de crédito do Proinfra. A existência dessas linhas significa que o financiamento pode alcançar diferentes etapas da cadeia. Desenvolvimento de projeto, produção, infraestrutura, circulação e internacionalização fazem parte de um sistema que tenta manter o audiovisual funcionando para além de um filme específico.

Em dezembro de 2025, por exemplo, o Comitê Gestor aprovou novas ações que incluíram R$ 100 milhões para suplementação da produção cinematográfica, R$ 30 milhões para complementação de projetos, R$ 90 milhões relacionados ao desempenho comercial de produtoras, R$ 40 milhões para desempenho artístico e R$ 25 milhões para coproduções internacionais binacionais. O cinema, portanto, pode receber dinheiro em momentos diferentes. Um projeto pode precisar de recursos para ser desenvolvido antes de conseguir filmar. Uma produtora pode precisar complementar o orçamento. Uma coprodução internacional pode abrir outra porta de financiamento. A famosa expressão “tirar um filme do papel” envolve uma papelada considerável.


O dinheiro também precisa sair do eixo
Se o dinheiro se concentrasse nos mesmos lugares onde historicamente estão as maiores produtoras, distribuidoras, equipes e estruturas, a descentralização da produção continuaria sendo apenas uma promessa. Por isso, os chamados "arranjos regionais" ganharam importância dentro do FSA. O mecanismo combina recursos federais e investimentos de estados e municípios para apoiar políticas audiovisuais locais.

Na edição de 2025, o programa teve R$ 300 milhões aprovados pelo FSA como complemento aos recursos dos entes locais. No resultado final, 41 entes locais foram selecionados e, pelas regras da chamada, 70% dos recursos foram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto 30% ficaram para propostas do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. A complementação federal pode chegar a cinco vezes o aporte do ente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e a quatro vezes no segundo grupo. A lógica é simples de entender, embora a operação seja bem mais complicada: o dinheiro federal entra para reforçar estruturas e recursos que já estão sendo organizados localmente.

Em vez de imaginar que uma produtora de Fortaleza, Recife, Belém ou Goiânia precisa disputar exatamente as mesmas condições de uma empresa instalada no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a política tenta criar mecanismos para fortalecer os próprios ecossistemas regionais. É uma mudança importante porque cinema não se faz apenas durante as semanas de filmagem. Para existir produção contínua, uma região precisa de roteiristas, produtores, técnicos, equipamentos, empresas, espaços de formação, festivais, salas e capacidade de distribuição.


Paulo Gustavo deixou dinheiro na ponta
Outro capítulo dessa história foi escrito pela Lei Paulo Gustavo. Criada em 2022, a legislação destinou R$ 3,862 bilhões para ações culturais em todo o território nacional. O dinheiro foi transferido pela União aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, que ficaram responsáveis pela execução de editais, chamamentos públicos, premiações e outras formas de seleção. A diferença em relação a um edital federal tradicional está justamente nessa descentralização. O dinheiro chega aos governos locais, que passam a organizar chamadas de acordo com suas realidades.

Para o audiovisual, isso pode significar recursos para curta-metragem, desenvolvimento de projetos, formação, cineclubismo, manutenção de espaços e outras atividades que dificilmente aparecem quando o público pensa apenas no filme pronto. A Política Nacional Aldir Blanc, por sua vez, foi criada como uma política permanente de financiamento cultural. O modelo prevê um total de R$ 15 bilhões em repasses ao longo de sua implementação, distribuídos de forma descentralizada entre estados, Distrito Federal e municípios. No segundo ciclo, referente a 2025 e 2026, todos os estados e 99,9% dos municípios haviam aderido à política, segundo o Ministério da Cultura.

O resultado dessa descentralização não aparece necessariamente no cartaz de um filme famoso. Pode estar em uma oficina de roteiro, na compra de equipamentos para uma produtora, na formação de uma equipe técnica ou no primeiro curta de alguém que ainda está longe dos festivais internacionais. É assim que uma política cultural começa a produzir efeitos antes mesmo de existir um filme para o público assistir.


O Ceará coloca dinheiro no próprio cinema
O caso do Ceará ajuda a visualizar essa engrenagem. Em 2026, o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual reuniu um conjunto de ações que totaliza R$ 34 milhões sendo R$ 25 milhões provenientes do FSA e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. O pacote inclui modalidades para curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão, produção de longas-metragens para salas de cinema e produção para TV e vídeo sob demanda.

É uma política que tenta alcançar diferentes momentos da cadeia. Um cineasta pode precisar de dinheiro para desenvolver o roteiro muito antes de conseguir captar o orçamento de produção. Uma produtora pode precisar de recursos para filmar. Depois, ainda existe a etapa de levar a obra ao público. O cinema independente depende dessa continuidade. 

“Feito Pipa”, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, portanto, não deve ser entendido apenas pelo valor de um eventual edital ou pela quantidade de instituições que aparecem em seus créditos. O filme é resultado de uma cadeia de produção na qual diferentes mecanismos podem se somar. A própria trajetória da Deberton Filmes, sediada em Fortaleza, mostra como uma produtora regional pode construir projetos ao longo de anos, articulando produção, distribuição e parcerias.

Existe ainda outro caminho: os mecanismos de incentivo fiscal. A Lei do Audiovisual permite que projetos habilitados captem recursos dentro de determinados mecanismos de incentivo. Em 2025, a Ancine liberou R$ 437,8 milhões por meio das leis de incentivo, mantendo esse mecanismo como uma das fontes importantes de financiamento da produção brasileira.

Nesse mesmo ano, os limites de aporte dos mecanismos previstos nos artigos 1º e 1º-A da Lei do Audiovisual foram atualizados para até R$ 12 milhões na soma desses dispositivos, enquanto os artigos 3º e 3º-A passaram a ter limite de R$ 9 milhões na soma. A legislação também teve sua vigência prorrogada até 2029. Na prática, o produtor não recebe simplesmente um cheque do governo para fazer o filme. Existem regras, aprovação do projeto, captação, prestação de contas e acompanhamento da execução. É uma engrenagem que mistura dinheiro público, participação privada e mecanismos de incentivo.


Coproduzir também é uma maneira de produzir
Quando o orçamento brasileiro não é suficiente para determinado projeto, a coprodução internacional pode abrir outra possibilidade. Em 2026, o FSA lançou chamadas específicas para coproduções com Portugal e Argentina. A chamada com Portugal prevê aproximadamente R$ 2 milhões em recursos do FSA para longas-metragens brasileiros realizados em coprodução com o país europeu. A chamada com a Argentina prevê aproximadamente R$ 1,5 milhão do Fundo para longas brasileiros realizados em coprodução com produtoras argentinas.

Coprodução não significa simplesmente conseguir dinheiro estrangeiro. Ela envolve regras, empresas dos países envolvidos, divisão de responsabilidades e reconhecimento formal da parceria. Também pode ampliar o caminho internacional de um filme. Uma obra que nasce no Brasil pode encontrar parceiros, financiamento, profissionais e circuitos de circulação em outros países. O cinema contemporâneo, nesse sentido, pode ser local na história e internacional na estrutura de produção.


O filme começa muito antes da câmera
Existe uma imagem romântica do cinema que começa quando a câmera é ligada. Na prática, o filme já começou muito antes. Começa quando alguém escreve um argumento, procura uma produtora, desenvolve um roteiro, apresenta um projeto, participa de um laboratório, procura financiamento, entra em um edital, negocia uma coprodução, monta um plano de produção e tenta convencer outras pessoas de que aquela história merece existir.

Depois vêm contratação de equipe, locações, elenco, equipamentos, transporte, alimentação, seguros, montagem, correção de cor, desenho de som, acessibilidade, cópias, materiais de divulgação, distribuição e tudo aquilo que aparece nos créditos quando a sessão termina. É por isso que o número de 3.981 obras audiovisuais brasileiras registradas em 2025, recorde histórico, precisa ser lido ao lado dos dados de financiamento. A Ancine registrou ainda 2.500 obras brasileiras independentes naquele ano, crescimento de 6,7% em relação a 2024, e 810 registros de produtoras sediadas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, alta de 9%.

No entanto, o aumento dos recursos não elimina os problemas: um edital não garante que um filme encontrará público. Um prêmio não paga sozinho a próxima produção. Um projeto aprovado pode enfrentar dificuldades de captação. Uma produtora pode conseguir realizar um filme e ainda ter problemas para distribuí-lo. Além disso, o dinheiro destinado à produção precisa chegar em tempo suficiente para que o setor consiga transformar orçamento em trabalho.

A própria Ancine registrou, ao lado dos recordes de 2025, milhares de projetos ainda em fase de captação ou contratação. O número mostra que existe dinheiro disponível e uma demanda enorme por recursos. Também existe uma questão que os números não resolvem sozinhos: quem consegue acessar os mecanismos de financiamento? Para um produtor experiente, entender um edital pode fazer parte da rotina. Para quem está começando, as exigências técnicas, jurídicas e administrativas podem ser uma barreira tão grande quanto encontrar dinheiro.


O cinema que aparece na tela tem muitos investidores invisíveis
Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, em 5 de novembro, o espectador poderá acompanhar Gugu, Dilma e aquela história familiar ambientada no Ceará. Poderá gostar ou não do filme, emocionar-se, discordar, encontrar referências próprias ou simplesmente seguir para a próxima sessão. Por trás dessa experiência estarão produtoras, profissionais, equipamentos, editais, fundos, leis de incentivo, investimentos, coproduções e anos de trabalho. Alguns desses nomes aparecem nos créditos. Outros ficam escondidos nos documentos de financiamento.

Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu o maior volume de recursos efetivamente desembolsados pela Ancine em sua série histórica. Ao mesmo tempo, a produção independente bateu recorde e regiões fora do eixo tradicional aumentaram sua participação. Ainda existe uma longa estrada entre conseguir dinheiro e atrair público. Saber disso é uma boa maneira de olhar para o chamado novo cinema brasileiro: os filmes que fazem parte dele são resultado de uma infraestrutura que tornou possível filmá-los.

.: "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

Ex-baixista da banda Barão Vermelho, Rodrigo Santos tem desenvolvido vários projetos interessantes em sua carreira solo; Agora ele apresenta um disco com releituras de canções de Nelson Motta. com várias participações especiais de convidados. Jogar luz sobre a obra de Nelson Motta foi uma ideia muito feliz, porque apesar de ser um compositor de várias parcerias de sucesso. Nelson Motta sempre foi pouco citado por essa sua contribuição na música. 

Em que pese o fato dos vários hits nas rádios, o repertorio se concentra mais nos férteis anos 80, tem parcerias com Lulu Santos ("Tudo Azul", "Como Uma Onda", "Certas Coisas"). e Guilherme Arantes ("Coisas do Brasil"), passandos por outras canções tipo lado B que mereciam ser resgatadas. Com espírito agregador, Rodriho reuniu um seleto elenco de nomes conhecidos como Leila Pinheiro, Sandra Sá, Fernanda Abreu. Ivo Meirelles, Luiz Caldas, Lobão, Sergio Britto (Titãs), Frejat entre outros.

Difícil destacar uma única faixa ou participação especial. Paula Toller está em "Como Uma Onda". Leo Jaime canta "Sereia". E até Chico Chico, filho da Cassia Eller, canta o rock "Perigosa" (o antológico hit das Frenéticas). Mas eu estaria sendo leviano citando apenas essas faixas. O disco merece ser ouvido na integra. "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração. Ele mostra bem a importância de Nelson Motta na nossa música popular. Vale a pena ser conferido.

 "Coisas do Brasil" (Fernanda Takai)


"Como Una Onda" (Paula Toller)


"De Repente Califórnia" (Rogério Flausino)

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Quem lê, entende: no meu caso, o jornal era um caça-palavras


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Encerro as duas primeiras aulas da manhã e encaro uma “janela” de quase duas horas sem atividades. Primeiro, um respiro de alívio — ou tomada de fôlego — pelos desafios que hão de vir. Com a garrafa térmica em mãos, a fumaça aguça os sentidos que precisam estar despertos. Sento-me calmamente e vou sorvendo cada gole junto com as ideias que ainda não estão aqui. Seria um ótimo momento para escrever, mas estou adiando, pois… você sabe… Forço-me, então, a buscar pelas notícias. Abro portais jornalísticos em busca de assuntos, que não dão conta de uma crônica. Do nacional ao estadual; do regional ao municipal — nada diz o que diria a crônica.

Um deles, porém, apresenta como slogan a frase: “Quem lê, entende”. Pois bem, pus-me a ler.

Havia notícias, claro. Havia reportagens, óbvio. Havia crônicas, por certo. Havia, enfim, um amontoado de palavras (como já disseram por aí) que — juro — li, reli, li novamente e não entendi. “Jornalistas patranheiros!”, bradei baixinho. Como podem afirmar que “quem lê, entende”, se eu, que li e tresli, não entendi patavinas?

Estava prestes a amassar o jornal (se cheiro de jornal sentisse), mas não podia danificar a tela, quando uma matéria me tragou os olhos. O sangue que se espreme sempre de tais folhas não estava ali. Um casal estadunidense do passado comprou um terreno em meio a lagos e florestas para passar o verão. Aquele verão, na verdade, durou a vida inteira que vinha pela frente por culpa de uma coruja-de-chifres. A pobrezinha, ferida, foi levada ao casal, que acabou lhe devolvendo as asas.

Mudança de rota. A temporada de verão tornou-se missão de uma vida toda.

Já eu, não mudo de rota, mas volto ao início. Quem lê, entende. “Jornalistas fidedignos”, sussurrei em alta voz.

O pior cego é aquele que não quer ver, diz a sabedoria popular. A terça-feira modorrenta torrava-me a vista, e as notícias eram nulas ao meu querer. O amargo do café demorou, mas fez efeito. Porque a leitura só faz sentido quando ressoa. Não é à toa que, muitas vezes, um romance seja preterido por um caça-palavras ou deslizar a tela seja mais atrativo que Drummond. Nesse caso, quem lê, não entende mesmo. No meu caso, o jornal era um caça-palavras.

As notícias daquela manhã não bastavam. Eram aquilo mesmo: um amontoado de palavras que precisavam ser buscadas. Mas não seria esse o ofício do cronista: o dever de desentranhar do cotidiano as palavras mais recônditas? Pois pronto! A coruja-de-chifres foi a minha palavra. Ei-la, bela e esvoaçante, cruzando o céu em plena saúde, depois de passar por aquele reduto, ex-rancho de veraneio. E também passar por mim, ex-reduto obscuro aos fatos que merecem ser escritos.

A minha coruja me fez perceber que não se pode apenas caminhar sobre as palavras. Para entendê-las, é preciso mergulhar. Foi assim que pincei, daquele emaranhado de vocábulos, o sentido necessário. Por isso, sou grato à minha coruja. E sou grato também ao jornal, com o qual brado aos quatro ventos: quem lê, entende.

.: Novo cinema brasileiro revela diretores que ampliam a ideia de autoria


De Allan Deberton a Grace Passô, cineastas com trajetórias, idades e formações diferentes constroem filmes autorais a partir de territórios, experiências pessoais e maneiras diversas de olhar para o Brasil

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Se existe uma palavra que costuma aparecer quando se fala em cinema brasileiro contemporâneo, é “novo”. O problema começa quando ela precisa ser definida. Novo em relação a quê? À idade dos diretores? À linguagem? Aos temas? À maneira de produzir? À presença em festivais internacionais? A lista brasileira que disputou a indicação ao Oscar 2027 ajuda a complicar a resposta.

Entre os seis finalistas estavam Allan Deberton, Carlos Saldanha, Eliza Capai, Gabriel Martins, Grace Passô e Rafaela Camelo. São profissionais com trajetórias bastante diferentes, vindos de experiências distintas e que chegaram ao cinema por caminhos que não cabem em uma mesma biografia. “Feito Pipa”, de Deberton, acabou escolhido pela Academia Brasileira de Cinema, mas os outros cinco filmes ajudam a entender a diversidade de autoria existente no país.


Allan Deberton levou o Ceará para o centro da conversa
A trajetória de Allan Deberton começa em Russas, no interior do Ceará, passa pela Universidade Federal Fluminense e retorna ao estado de origem por meio das próprias histórias. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve curtas exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios antes de chegar a “Feito Pipa”. O caminho também passa por “Pacarrete”, filme de 2019 que conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado, e por uma produtora que Deberton mantém em Fortaleza ao lado do produtor Marcelo Pinheiro.

A Deberton Filmes foi criada em 2001 e trabalha com desenvolvimento, produção e distribuição. Além de “Pacarrete”, produziu “Transversais” e “O Melhor Amigo”, lançado em 2025, antes de chegar à coprodução de “Feito Pipa” com a Biônica Filmes e a Warner Bros. Pictures Brasil. O percurso é significativo porque Deberton não precisou transformar o Ceará em uma paisagem exótica para fazer um filme reconhecível fora do Brasil. 

“Feito Pipa” surgiu de memórias de infância, foi filmado em Quixadá e chegou à Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da Generation Kplus. Depois, acumulou outros reconhecimentos até ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. O próximo projeto do diretor, “A Adoção”, também já vem conectado a uma rede internacional de produção, com participação de Deberton Filmes, Paramount Pictures, Iwaso Films e Arthood Films. 


Gabriel Martins transforma a experiência coletiva em cinema
Gabriel Martins chegou ao cinema por uma trajetória ligada à Filmes de Plástico, produtora criada em Belo Horizonte por ele, André Novais Oliveira, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia. O grupo se tornou um dos exemplos mais conhecidos de produção independente brasileira surgida fora do eixo tradicional. “Marte Um”, lançado em 2022, ampliou essa trajetória para um público internacional e foi escolhido pelo Brasil para disputar uma vaga no Oscar 2023. Quatro anos depois, Martins retorna com “Vicentina Pede Desculpas”, filme protagonizado por uma professora aposentada de 75 anos que tenta lidar com as consequências de um acidente provocado pelo próprio filho. 

A mudança de idade da protagonista já diz alguma coisa sobre o caminho percorrido pelo diretor. Depois de acompanhar uma família negra de classe média baixa em “Marte Um”, Martins volta sua atenção para uma mulher idosa diante de uma tragédia que a obriga a percorrer a cidade em busca das famílias das vítimas. “Vicentina Pede Desculpas” também amplia a circulação internacional do diretor. Em 2026, o filme foi selecionado para a competição oficial do Festival de San Sebastián e para a seção Plataforma do Festival Internacional de Cinema de Toronto.


Grace Passô chegou ao cinema por outro caminho
Grace Passô representa outra espécie de percurso. Atriz, dramaturga e diretora, ela construiu uma carreira de destaque principalmente no teatro antes de chegar à direção de um longa-metragem. “Nosso Segredo” marca sua estreia na direção de longas e nasceu de uma peça escrita por ela duas décadas antes, “Amores Surdos”. A adaptação leva para o cinema uma família negra que tenta reconstruir a rotina depois da morte do pai, misturando drama familiar, elementos fantásticos e uma linguagem que mantém relação com a experiência teatral da diretora.

O filme também chegou ao Festival de Gramado cercado de atenção e venceu o Kikito de Melhor Longa-Metragem Brasileiro, além de outros prêmios. Existe uma ironia interessante nessa estreia: Grace Passô não aparece como uma desconhecida que descobriu o cinema de repente, já que chega ao primeiro longa-metragem carregando anos de experiência com dramaturgia, atuação e direção. O primeiro filme, nesse caso, é apenas o primeiro longa-metragem, não o primeiro capítulo da carreira. 


Rafaela Camelo estreia no longa-metrag
em depois de rodar o mundo
Rafaela Camelo oferece outro exemplo. “A Natureza das Coisas Invisíveis” é o primeiro longa-metragem dela, mas a diretora e roteirista já vinha acumulando experiências em curtas, laboratórios e festivais internacionais. Formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília e pós-graduada em roteiro pela FAAP, Camelo dirigiu “O Mistério da Carne”, selecionado para o Sundance Film Festival em 2019. Com “As Miçangas”, codirigido com Emanuel Lavor, voltou à Berlinale em 2023. Em 2025, estreou “A Natureza das Coisas Invisíveis” na Berlinale.

O filme acompanha Glória e Sofia, duas meninas de dez anos que se conhecem em um hospital durante as férias. A partir da amizade entre elas, a narrativa passa por doença, ausência, memória e mudanças familiares. Camelo também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Primeira Direção de Longa-Metragem. A carreira dela mostra como funciona uma parte menos visível do cinema contemporâneo: antes de um longa chegar ao público, existe uma longa caminhada por oficinas, laboratórios, programas de desenvolvimento, curtas e festivais. 


Eliza Capai leva o documentário para dentro da brincadeira
Eliza Capai também chegou à disputa do Oscar 2027 por uma via diferente. “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário construído a partir do encontro com meninas do sertão do Piauí, que inventam uma máquina do tempo para imaginar o passado de suas mães e avós e projetar os próprios futuros. A diretora já havia trabalhado com temas sociais e políticos em “Espero tua (Re)volta”. No novo filme, porém, encontra outra maneira de construir a narrativa: a brincadeira vira ferramenta de investigação.

Meninas de dez anos falam sobre religião, gênero, casamento, alcoolismo, pobreza e desigualdade enquanto inventam regras, personagens e futuros. O documentário se aproxima da infância sem retirar das personagens a capacidade de interpretar a própria realidade. A escolha formal também diz respeito à autoria. Sem transformar as meninas em fontes de depoimentos previsíveis para falar sobre desigualdade, ela deixa que a imaginação delas participe da construção do filme. A máquina do tempo existe porque o cinema permite inventá-la.


Carlos Saldanha chega de Hollywood sem abandonar o Brasil
Carlos Saldanha é o nome que mais desmonta a ideia de que o “novo cinema brasileiro” precisa ser feito exclusivamente por profissionais que começaram recentemente. Diretor de animações como “A Era do Gelo”, “Rio” e “O Touro Ferdinando”, Saldanha construiu durante décadas uma carreira internacional ligada à indústria norte-americana. Em “100 Dias”, porém, retorna a uma história brasileira inspirada na travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul.

O filme acompanha o navegador durante a viagem solitária entre a África e o Brasil e transforma uma experiência real em uma narrativa sobre resistência física, memória e relações familiares. A produção teve première brasileira no Festival do Rio, onde foi escolhida para a Gala de Encerramento. O movimento é curioso porque Saldanha poderia ser apresentado apenas como um brasileiro que fez carreira fora do país. 


Marianna Brennand filma uma infância que já tinha história
Marianna Brennand também construiu sua relação com o cinema a partir do documentário. Em “Manas”, porém, leva para a ficção uma personagem adolescente que vive na Ilha do Marajó. O filme acompanha Marcielle (Jamilli Corrêa), de 13 anos, enquanto ela percebe as limitações impostas às mulheres de sua família e começa a imaginar uma maneira diferente de conduzir a própria vida.

A produção tem uma trajetória internacional expressiva e também aparece entre os finalistas do Grande Otelo 2026 na categoria de Melhor Direção. Brennand também assina a produção do filme pela Inquietude, em parceria com outras empresas brasileiras e portuguesas. A ficha técnica reúne ainda nomes como os produtores associados Jean-Pierre e Luc Dardenne, o que mostra como uma produção brasileira pode estabelecer pontes com outros circuitos de cinema sem deixar de partir de uma história profundamente localizada.

O “novo cinema brasileiro” pode ter sotaques, idades, métodos e até modelos de produção diferentes. O que aproxima esses cineastas não é uma cartilha, mas a disposição de encontrar uma forma própria de olhar para um país que continua oferecendo histórias demais para caber em um único cinema.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro reúne 15 filmes e desenha muitos Brasis


De Amyr Klink à Revolta dos Malês, de uma família negra em luto a profissionais do sexo da Vila Mimosa, lista brasileira para o Oscar 2027 apresentou histórias, gêneros, territórios e personagens muito diferentes antes de “Feito Pipa” ser escolhido

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.


Antes de “Feito Pipa” ganhar o direito de representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, outros 14 filmes dividiram com a produção de Allan Deberton a atenção da Academia Brasileira de Cinema. A lista de 15 títulos habilitados à disputa reuniu ficções, documentários, histórias contemporâneas, personagens históricos, crianças, idosos, artistas, criminosos, profissionais do sexo, famílias, políticos, aventureiros e personagens que poderiam facilmente habitar universos cinematográficos completamente diferentes. A escolha final aconteceu em 16 de setembro, depois de uma primeira triagem que reduziu os 15 títulos para seis.  

Além de “Feito Pipa”, chegaram à segunda etapa “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”. A comissão formada pela Academia Brasileira de Cinema acabou escolhendo o filme de Allan Deberton, que agora segue no processo internacional do Oscar. O interessante está, também, no que aconteceu antes da escolha. Olhar para os 15 filmes permite enxergar uma espécie de fotografia do cinema brasileiro contemporâneo, ainda que uma lista de premiação nunca consiga representar sozinha toda a produção de um país.


"A Fabulosa Máquina do Tempo": no sertão do Piauí, meninas de dez anos navegam entre TikTok, cultos evangélicos e sonhos de futuro

Um barco, uma máquina do tempo e um menino do Ceará
“100 Dias”, de Carlos Saldanha, acompanha uma experiência real que parece ter sido escrita para o cinema: a travessia do Atlântico Sul feita por Amyr Klink a remo, entre a África e o Brasil. Sozinho em um pequeno barco, o navegador enfrenta o oceano enquanto a narrativa também mergulha em memórias, conflitos familiares e nos limites físicos e emocionais de quem decidiu encarar uma viagem dessa dimensão.

Já “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, parte do sertão do Piauí para acompanhar meninas que circulam entre religião, redes sociais, histórias familiares e sonhos de futuro. A invenção de uma máquina do tempo permite que elas revisitem as experiências de mães e avós e imaginem outras possibilidades para suas próprias vidas.

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, também olha para a infância. Glória, de dez anos, conhece Sofia durante uma temporada no hospital onde a mãe trabalha. A amizade entre as duas nasce em meio à doença da bisavó de Sofia e continua quando as meninas e suas mães seguem para o interior de Goiás.

Em “Feito Pipa”, Allan Deberton leva o espectador para Quixadá, no Ceará, onde um menino de 12 anos, interpretado por Yuri Gomes, vive com a avó Dilma (Teca Pereira) e enfrenta a possibilidade de precisar morar com o pai, vivido por Lázaro Ramos. Futebol, família, infância, afeto e pertencimento se encontram na história que acabou escolhida pela Academia Brasileira de Cinema.


Quando o desejo vira assunto
“Ato Noturno”, dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, leva a lista de candidatos a representante do Brasil no Oscar para um território completamente diferente. O filme acompanha um ator ambicioso (interpretado por Gabriel Faryas) e um político em ascensão (Cirillo Luna) que mantêm um relacionamento secreto e compartilham o desejo por encontros sexuais em locais públicos. Conforme os dois se aproximam da fama, o risco também aumenta. O filme coloca sexualidade, desejo, exposição e poder dentro de uma mesma história. A relação entre os personagens também introduz uma questão recorrente no cinema contemporâneo: aquilo que uma pessoa faz quando a vida pública começa a entrar em conflito com aquilo que deseja viver longe dos olhos dos outros.

“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, parte de outro tipo de tensão. Murilo (João Vitor Silva) é um jovem músico em luto que se envolve com Marlene (Bella Campos), uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo com um traficante. As histórias deles se cruzam com as de Luciana (Bárbara Colen), uma policial movida por vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado com segundas intenções. O filme é inspirado em histórias reais e organiza os personagens em uma trama de vidas que se aproximam até o ponto de não haver mais caminho de volta.


Três mulheres apostam tudo
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, foca em três gerações de mulheres. Aos 65 anos, Dolores (Carla Ribas) tem uma premonição de que a vida dela vai mudar e imagina um futuro como dona de um cassino de sucesso. O problema é que o passado de vício em jogo continua por perto. A filha, Deborah (Naruna Costa), espera a saída do namorado da prisão para começar uma nova vida. Duda (Ariana Aparecida), neta de Dolores, vê uma oportunidade de trabalhar nos Estados Unidos. As três projetam futuros diferentes e apostam em mudanças que podem alterar a trajetória da família.

Em “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias, a relação familiar também conduz a história. Ana (Paolla Oliveira) quer vender a casa onde passou a infância depois da morte da mãe, uma grande vedete chamada Narcisa (Rosamaria Murtinho), e dividir o dinheiro com o irmão Diego (Pedro Henrique Müller). O problema surge quando sinais da presença do espírito da mãe começam a aparecer.

“Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, apresenta outra mulher mais velha como protagonista. Vicentina (Rejane Farias) é uma professora aposentada de 75 anos e mãe de Wesley (Renato Novaes), motorista de um ônibus envolvido em um acidente que mata praticamente todos os passageiros. Depois da tragédia, ela procura as famílias das vítimas para pedir desculpas.


O Brasil que aparece quando a câmera muda de lugar
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, acompanha uma família negra tentando reconstruir a rotina depois de uma perda. Cada integrante lida com o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula guarda um segredo que pode levar a família a encarar as raízes de suas dores. Eles são uma família, com problemas, afetos, conflitos e segredos. O fato de serem negros integra essa experiência, mas não esgota seus personagens.

“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, olha para outro momento da história brasileira. Ambientado em Salvador, em 1835, o filme acompanha dois jovens muçulmanos que são separados depois de serem escravizados no Brasil. A trajetória dos dois se cruza com a Revolta dos Malês, uma das maiores insurreições de pessoas escravizadas da história brasileira. Entre um drama familiar contemporâneo e uma produção histórica ambientada no século XIX existe uma distância enorme. Ainda assim, os dois filmes colocam personagens negros no centro da narrativa e trabalham com experiências que durante muito tempo foram representadas de maneira limitada pelo audiovisual brasileiro.

A fama como destino
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, acompanha Daniel Nascimento (João Guilherme), personagem inspirado em uma história real. Ele ganhou fama como um dos melhores hackers do Brasil, entrou para uma organização criminosa que movimentava milhões de reais, viveu cercado por luxo e acabou preso em uma operação da Polícia Federal. A internet aparece aqui como território de ascensão, dinheiro e crime. A fama, que em outras histórias pode significar reconhecimento artístico ou sucesso profissional, assume outro formato.

Em “Papagaios”, de Douglas Soares, a obsessão por aparecer também está no centro da narrativa. Tunico (Gero Camilo) é conhecido no Rio de Janeiro como “Papagaio de Pirata”, aquele personagem que persegue repórteres para tentar aparecer nas transmissões de televisão. Depois de sofrer um acidente, ele conhece Beto (Ruan Aguiar), um jovem misterioso que se torna seu aprendiz. A história usa a televisão e a busca pela fama para falar de um Brasil com milhões de aparelhos ligados diariamente, onde aparecer pode se tornar uma espécie de profissão informal. São dois filmes interessados em personagens que querem ser vistos. Um encontra a fama na internet; o outro, na televisão.


Quando a história recente volta a bater à porta
“A Conspiração Condor”, de André Sturm, parte de uma investigação jornalística. Depois da morte de Juscelino Kubitschek em um acidente de carro, um jornalista interpretada por Mel Lisboa começa a investigar o caso. A morte de João Goulart meses depois aumenta suas suspeitas sobre uma possível conspiração relacionada à ditadura militar. O filme entra em uma zona conhecida do cinema brasileiro: a tentativa de revisitar acontecimentos históricos ainda cercados de dúvidas e interpretações. A proposta se aproxima do thriller político e utiliza uma investigação para retornar a um período que continua presente no debate histórico brasileiro.

A variedade da lista também aparece no modo como o passado é abordado. Em “Malês”, o cinema retorna ao século XIX. Em “A Conspiração Condor”, olha para a ditadura militar. Em “Herança de Narcisa”, o passado aparece dentro de uma casa e de uma família. Em “Feito Pipa”, surge nas memórias de infância de seus criadores. O passado brasileiro, portanto, não chega ao cinema de uma única maneira.

O que fica escondido
“Quando Vira a Esquina”, documentário dirigido por Chris Alcazar, leva a câmera para a Vila Mimosa, no Rio de Janeiro, um dos mais conhecidos territórios de prostituição do país. O filme escuta profissionais do sexo que trabalham no local e constrói sua narrativa a partir da relação de confiança estabelecida entre realizadora e personagens. É outro tipo de movimento dentro da lista. Em vez de criar personagens ficcionais, o documentário abre espaço para pessoas que raramente controlam a maneira como suas vidas são representadas.

Essa mesma vontade de olhar para personagens e ambientes pouco convencionais aparece, de maneira diferente, nos demais títulos. A lista não se limita a histórias de famílias de classe média, grandes centros urbanos ou personagens já conhecidos do público. Ela passa por comunidades, profissões, cidades, períodos históricos e experiências que ampliam o repertório do cinema brasileiro.

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