domingo, 4 de outubro de 2026

.: “Alien(nada)” mostra autodestruição da humanidade a partir do imaginário ET


Monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado combina teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa em apresentações de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo

O que os extraterrestres têm a nos ensinar sobre a possibilidade de a humanidade desaparecer por conta própria? Essa é uma das perguntas que movem “Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”, monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado, que será apresentado de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo.

Dirigido por Bruna Betito, com dramaturgismo e interlocução cênica de Janaina Leite, o espetáculo parte do Paradoxo de Fermi, questão que confronta a aparente ausência de evidências de vida extraterrestre com a enorme quantidade de possibilidades de existência de vida no universo. A partir daí, Lívia Machado volta a pergunta para a própria espécie humana e investiga os caminhos que poderiam levar à sua extinção.

Em formato de palestra-performance-sampler-audiovisual, “Alien(nada)” aproxima teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa para tratar o imaginário alienígena como território estético, político e poético. A montagem integra a Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho, ampliando uma pesquisa continuada da artista sobre as relações entre arte, tecnologia, comunicação e imaginários extraterrestres.

O tema já aparece em trabalhos anteriores de Lívia Machado, como “O Museu Voador”, “O Sol Desapareceu”, “Ainda Sopra” e “Crônicas Marcianas”, que também exploram diferentes possibilidades de relação entre ficção, tecnologia e a ideia de vida para além da Terra. A montagem ainda se relaciona ao laboratório “Sinestesia Alienígena”, realizado em setembro no Instituto Capobianco. A experiência propôs uma investigação artística a partir dos conceitos de “sinestesia” e “alienígena”, aproximando linguagens e materialidades para criar diferentes perspectivas sensoriais sobre temas como morte, permanência do corpo, tecnologia e digitalidade.


Ficha técnica
“Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”
Idealização, dramaturgia, atuação e colagem audiovisual: Lívia Machado
Direção: Bruna Betito
Dramaturgismo e interlocução cênica: Janaina Leite
Visualidades: Paula Halker
Iluminação: Marcus Garcia e Marina Meyer
Videomapping: Vic Von Poser
Figurino: Vanessa Alves
Operação de luz: Marina Meyer
Operação de vídeo: Vic Von Poser e Mayhara Ribeiro
Direção de produção: Tetembua Dandara
Produção executiva: Tati Mayumi
Provocações: André Medeiros Martins, Lara Duarte e Tetembua Dandara
Fotografia de divulgação: Helena Wolfenson
Agradecimentos: Lena Giuliano, Gabi Guarabyra e Julia Regina.


Serviço
“Alien(nada): a Terra é uma adolescente e o Grande Filtro pode ser a autodestruição da humanidade”
Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho
De 9 a 11 de outubro
Local: Instituto Capobianco
R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo – São Paulo (SP)
Sexta e sábado, às 20h00. Domingo, às 18h00.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia) | Sympla
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 75 minutos

.: “Grande Sertão” é teatro, cinema e TV em diferentes versões de Rosa


Da primeira adaptação cinematográfica, em 1965, à minissérie de 1985 e às releituras contemporâneas de Bia Lessa e Guel Arraes, “Grande Sertão: Veredas” continua desafiando quem tenta levar Rosa para outras linguagens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Adaptar “Grande Sertão: Veredas” nunca foi tarefa das mais tranquilas. Publicado em 1956, o romance de João Guimarães Rosa combina uma narrativa cheia de desvios, centenas de personagens, batalhas, deslocamentos pelo sertão, reflexões filosóficas, histórias de amor, violência, religiosidade e uma linguagem que inventa palavras enquanto conta a história de Riobaldo.

Ainda assim, o livro chegou ao cinema menos de uma década depois da primeira publicação. Em seguida, ganhou uma das mais ambiciosas adaptações da televisão brasileira, voltou ao teatro, inspirou experiências audiovisuais de diferentes formatos e, em 2024, chegou novamente aos cinemas pelas mãos de Guel Arraes. A mesma história passou por linguagens muito diferentes sem deixar de provocar novas leituras.


O primeiro encontro com o cinema
A primeira adaptação cinematográfica de “Grande Sertão: Veredas” chegou aos cinemas em 1965, apenas nove anos depois da publicação do romance. Dirigido por Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira, “Grande Sertão” levou Maurício do Valle ao papel de Riobaldo e Sônia Clara como Reinaldo/Diadorim. Jofre Soares interpretou Zé Bebelo, enquanto Milton Gonçalves e Zózimo Bulbul também estavam no elenco. A Cinemateca Brasileira registra o filme como uma adaptação do romance. Com aproximadamente uma hora e meia, o filme precisava condensar uma história monumental. 

A narrativa acompanha Riobaldo, Diadorim e a vingança contra Hermógenes, preservando o eixo de aventura e conflito entre os jagunços. O resultado pertence a um cinema brasileiro que também dialogava com os filmes de cangaço e com o imaginário do sertão que dominava parte da produção nacional naquele período. O romance, entretanto, já apresentava um desafio que continuaria acompanhando todas as versões seguintes: como transportar para imagens uma obra cuja força está tanto no que acontece quanto na maneira como Riobaldo conta o que aconteceu?


A minissérie "Grande Sertão: Veredas" pode ser vista no Globoplay em junho. Na imagem, em destaque entre a figuração, os atores Bruna Lombardi e Tony Ramos. Foto: Globo/ Divulgação

1985: a televisão encara o romance
Vinte anos depois, a televisão brasileira resolveu apostar em uma adaptação de proporções ainda maiores. Exibida pela TV Globo entre 18 de novembro e 20 de dezembro de 1985, “Grande Sertão: Veredas” teve 25 capítulos, com roteiro de Walter George Durst, colaboração de José Antonio de Souza e direção de Walter Avancini. Tony Ramos interpretou Riobaldo e Bruna Lombardi assumiu Diadorim, enquanto Tarcísio Meira viveu Hermógenes e José Dumont interpretou Zé Bebelo.

A produção foi inteiramente gravada em locações do sertão mineiro. A equipe se instalou em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, e aproximadamente duas mil pessoas participaram das filmagens ao longo de 90 dias. O esforço de produção foi tão grande que até o maestro Júlio Medaglia, responsável pela trilha sonora, passou uma semana no local para conhecer aquele universo. 

Tony Ramos se preparou fisicamente para o papel, perdeu oito quilos e fez aulas de equitação, rastejamento militar e tiro. Bruna Lombardi também passou longos períodos a cavalo durante as gravações. A escolha de levar a equipe para o sertão não era apenas uma questão de cenário, já que a produção procurava construir fisicamente o mundo dos jagunços, das travessias e dos conflitos que Rosa havia criado na literatura.


Bruna Lombardi encontra Diadorim
A interpretação de Bruna Lombardi tornou-se uma das marcas da minissérie. A atriz contou posteriormente que inicialmente teve dúvidas sobre a própria capacidade em interpretar a personagem, especialmente porque era associada a papéis de perfil mais romântico. Walter Avancini, porém, acreditava que havia nela uma força adequada à personagem.

Na história, Bruna precisava viver Reinaldo, o jagunço conhecido como Diadorim, preservando para Riobaldo - e para o público - o segredo sobre sua identidade. O conflito afetivo entre os dois ocupava o centro da narrativa televisiva. A minissérie também teve uma dimensão histórica própria. O trabalho foi realizado em uma época em que a televisão brasileira ampliava o espaço destinado às adaptações literárias, e “Grande Sertão: Veredas” entrou nesse movimento com uma produção que apostou em locações reais e em uma grande estrutura de filmagem.


Bia Lessa leva Guimarães Rosa para o palco
Entre uma versão e outra no audiovisual, o romance ganhou uma importante releitura teatral pelas mãos de Bia Lessa. Em 2017, a diretora estreou no Sesc Consolação, em São Paulo, uma montagem de “Grande Sertão: Veredas” com Caio Blat como Riobaldo e Luiza Lemmertz como Diadorim. Luisa Arraes também integrava o elenco. A montagem tinha aproximadamente três horas, estrutura de arquibancadas e fones de ouvido para o público acompanhar diálogos e trilha sonora de Egberto Gismonti. Bia Lessa não tentou simplesmente reproduzir o sertão no palco. 

A encenação trabalhou com atores, animais, plantas e elementos da paisagem, criando uma espécie de ambiente humano em constante transformação. O cenário foi concebido por Paulo Mendes da Rocha, e a experiência aproximava teatro, instalação e artes visuais. A diretora já tinha uma relação anterior com o universo de Rosa. Em 2006, havia criado uma instalação sobre “Grande Sertão: Veredas” para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa. Anos depois, levou novamente o romance ao palco, agora com uma estrutura que colocava o espectador dentro da experiência cênica. A montagem circulou por outras cidades e chegou ao Festival de Curitiba em 2018. O trabalho recebeu o prêmio APCA de melhor direção para Bia Lessa.


Em cena de “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, os atores Caio Blat e Luiza Lemmertz interpretam Riobaldo de Diadorim. Foto: divulgação

“O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”
A relação de Bia Lessa com o romance não terminou no teatro. Em 2018, a diretora filmou uma nova experiência com parte do mesmo elenco. O resultado, lançado posteriormente como “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, não procurou reproduzir o romance inteiro. A própria diretora preferiu definir o processo como uma “transcriação”, termo que indicava uma liberdade maior diante do texto original. Caio Blat, Luiza Lemmertz, Luisa Arraes e Leonardo Miggiorin estavam novamente ligados ao projeto. 

As filmagens foram realizadas em 17 dias, e o filme adotou outra relação com a narrativa de Guimarães Rosa, concentrando-se em questões e fragmentos que interessavam à diretora. Essa escolha revela uma possibilidade que as adaptações de “Grande Sertão: Veredas” apresentam com frequência: não tentar carregar as cerca de 600 páginas para uma tela ou um palco, mas encontrar dentro delas uma história, uma imagem, uma relação ou uma pergunta capaz de sobreviver em outra linguagem.


Guel Arraes troca o sertão pelas periferias
Em 2024, Guel Arraes levou “Grande Sertão” aos cinemas com Caio Blat como Riobaldo e Luisa Arraes como Diadorim. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor em parceria com Jorge Furtado. O filme chegou ao circuito nacional em junho daquele ano. A mudança mais evidente está no espaço. Em vez do sertão mineiro e dos bandos de jagunços, a produção apresenta uma comunidade periférica urbana cercada por grandes muros e dominada por organizações criminosas. A guerra entre jagunços ganha outra configuração: policiais e grupos criminosos ocupam o espaço do conflito, enquanto a relação entre Riobaldo e Diadorim continua funcionando como eixo afetivo da história.

Guel Arraes não escondeu a dificuldade de trabalhar com o romance. Em entrevista à CNN, comparou a experiência à adaptação de “O Auto da Compadecida” e explicou que o texto de Guimarães Rosa apresentava uma estrutura muito mais complexa para o cinema. A operação é radical: tirar a história do sertão histórico e colocá-la em um território urbano contemporâneo. O resultado mantém nomes, relações e conflitos fundamentais, mas altera o ambiente em que eles acontecem. Riobaldo continua procurando entender o que sente por Diadorim. A guerra continua existindo. A violência continua organizando as relações de poder. A dúvida sobre o bem, o mal, a coragem, o medo e o desejo permanece.


Do cinema para a televisão outra vez
A história não terminou com a estreia nos cinemas. Em janeiro de 2025, “Grande Sertão” ganhou uma versão em quatro episódios exibida pela TV Globo. A minissérie foi construída a partir do filme de Guel Arraes e de seu roteiro com Jorge Furtado. A mudança de formato permitiu ampliar a experiência da narrativa. Caio Blat e Luisa Arraes permaneceram como Riobaldo e Diadorim, acompanhados por Rodrigo Lombardi como Joca Ramiro, Eduardo Sterblitch como Hermógenes, Luís Miranda como Zé Bebelo, Mariana Nunes como Otacília e Luellem de Castro como Nhorinhá.

Para Caio Blat, que já havia vivido Riobaldo no teatro de Bia Lessa, o personagem representava um retorno particularmente curioso. O ator passou por duas experiências muito diferentes com a mesma obra: primeiro, uma montagem teatral que colocava o público dentro de uma espécie de sertão imaginário; depois, uma produção audiovisual que transferia os conflitos para uma periferia urbana.


Quadrinhos, música e outras veredas
As adaptações não ficaram restritas ao cinema, à televisão e ao teatro. Em 2014, “Grande Sertão: Veredas” ganhou uma versão em quadrinhos com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa. A graphic novel recebeu reconhecimento em premiações voltadas aos quadrinhos, mostrando que a obra também poderia ser reorganizada pela combinação entre desenho, enquadramento e texto.

Na música, o compositor argentino Rufo Herrera criou “Sertão Sertões”, cantata cênica baseada em textos do romance, apresentada em 2001 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A obra reuniu música, teatro, dança e elementos visuais para construir sua própria interpretação do universo rosiano.

Em 2008, a artista Rosângela Rennó criou “Febre do Sertão”, videoinstalação que colocou em diálogo imagens do filme de 1965 e da minissérie de 1985. Em vez de escolher uma adaptação, a obra fez as duas versões se encontrarem, criando um novo trabalho a partir das imagens produzidas por outros artistas.

Não existe uma única maneira de representar o sertão de Guimarães Rosa. O filme de 1965 apostou na aventura e no conflito dos jagunços. A televisão de 1985 construiu uma produção de grandes dimensões diretamente no sertão mineiro. Bia Lessa transformou o romance em experiência cênica, trabalhando com corpos, sons, imagens e espaço. Guel Arraes deslocou os personagens para uma periferia urbana e refez as relações de poder em outro território. São caminhos diferentes para uma mesma obra.

A melhor forma de pensar essas adaptações é perceber o que cada uma escolhe preservar. Algumas ficam mais próximas da trama. Outras se aproximam de personagens específicos. Há aquelas que preferem a atmosfera, uma pergunta ou uma imagem. O livro permanece como ponto de partida, mas cada linguagem precisa descobrir o próprio modo de contar essa história. Setenta anos depois da publicação, “Grande Sertão: Veredas” continua oferecendo material para novas interpretações porque seu sertão nunca coube inteiro em uma única imagem.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Chico Chico lança "3º Ato", disco ao vivo com orquestra Sesiminas


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Chico Chico e Orquestra Sesiminas lançam "3º Ato (Maré/Espelho, Parabelo da Existência, Altiva)", EP que fecha a trilogia ao vivo do show especial do cantor e compositor ao lado da orquestra, pela gravadora Deck. O terceiro e último ato dessa gravação, que vem sendo disponibilizada aos poucos, chega com as versões ao vivo de "Maré/Espelho", "Parabelo da Existência" (Chico Chico, Helder Quiroga, Oscar Vasconcelos) e "Altiva" (Chico Chico, Sal Pessoa). São canções autorais de Chico que, acompanhadas pela orquestra, ganham um tom ainda mais emocionante, encerrando com força um projeto que revelou novas camadas ao repertório do cantor.

O primeiro ato havia trazido o clássico de Zé Ramalho "Admirável Gado Novo" e as autorais "Toada", "Vai" e "A Felicidade". Já o segundo apresentou as canções "O Tempo Nunca Mais Firmou", "Terra à Vista" e "Urmininu". No espetáculo, Chico é acompanhado pela Orquestra Sesiminas e pelos músicos João Rafael (baixo), Pedro Fonseca (piano de cauda), Thiaguinho Silva (bateria) e Walter Villaça (guitarra).

Com o "3º Ato", o EP "Chico Chico & Orquestra Sesiminas" completa sua trilogia, registrando por inteiro uma apresentação especial que uniu a potência da orquestra à sensibilidade autoral de um dos novos nomes da nova MPB.

"Parabelo da Existência"

"Maré"

"Altiva"

.: Sofia Campos lança "Minha Beleza", quarto album, que percorre a incerteza


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

"Minha Beleza", o quarto álbum de Sofía Campos, surge de uma travessia: deixar para trás o que é conhecido e atravessar a vertigem da mudança. O álbum percorre a incerteza, com seus avanços e retrocessos, em uma busca pessoal e sonora. São dez canções atravessadas pelo desejo, pelos riscos, pelos vínculos e pelo impulso de recomeçar. Uma procura que também brinca e experimenta no campo sonoro, que se abre ao novo e aos seus desvios, guiada por uma bússola que aponta para o reencontro e o encantamento com a própria beleza.

O lançamento chega depois da apresentação de três singles: “Intacto”, “Cómo Viene Tu Amor” e “Vamos al Mar”, esta última em colaboração com o artista mexicano Caloncho. Em Minha Beleza, Sofía se permite sair de alguns de seus lugares habituais, experimentar novos ritmos e texturas e levar suas canções para uma sonoridade diferente, sem perder a intimidade, a sensibilidade e o peso da palavra que caracterizam sua obra.

 A produção ficou a cargo de Kassin e Matías Cella. De volta à Argentina, o álbum continuou crescendo durante vários meses ao lado de Cella, até encontrar sua forma definitiva. O resultado é um trabalho que conecta as diferentes geografias que atravessam a identidade de Sofía: suas raízes argentinas, a infância vivida no Brasil e os anos que passou no México.

 Indicada ao Latin Grammy 2022 na categoria Melhor Artista Revelação, Sofía Campos construiu uma trajetória que a levou a palcos da Argentina, do México, do Brasil e da Espanha, além de participar de festivais e encontros como SXSW e LAMC. Ao longo de sua carreira, colaborou com artistas como Jorge Drexler, para quem abriu o show no Movistar Arena, Caloncho, com quem divide a faixa “Vamos al Mar”, e Natalia Lafourcade, com quem colaborou em “Verde Nocturno”.

"Minha Beleza"

"Intacto"


.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sorumbáticos da existência


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.

Que não pedimos pela vida, é certo. Que não escolhemos o próprio contexto, todos sabemos. Agora, que teríamos de trabalhar para prover o próprio sustento? Ah, vá! Adão, seu filho de uma serpente! Eva, sacripanta do Éden! Posto isso, as eras vão avançando, e cá estamos nós, a pagar pelo crime alheio. É preciso construir todo um circo em torno de si para que se cumpra a pena. E, pasmem, nos definimos por isso. “Quem é você?”, perguntarão; “Apresente-se, por favor”, será solicitado. “Sou fulano de tal, professor — ou marceneiro, ou médico, ou advogado, ou deputado —, doutor no raio que o parta, seu criado”, poderá se responder, como se disso as maiores conclusões pudessem ser alcançadas.

Porque o trabalho tem dessas. Ocupa muito mais espaço que o coração e nos obriga a vestir a camisa até ela virar mortalha, ainda que reste algum fiapo de vida. Pois foi isso que vi um dia desses. E vi com esses meus olhos sorumbáticos de sexta-feira. Explico.

Era segunda-feira — há de se registrar. Mas os olhos eram de sexta, posso garantir. E eu que, se pudesse, não trabalhava nunca, vinha do trabalho. Era tarde, muito tarde — também há de se registrar. As mãos automáticas guiavam o volante no rumo de casa. Conformado pela existência produzida, puxei o freio de mão. Casa, para que te quero, senão para habitá-la por algumas horinhas depois do labor? Pois bem, fui à casa.

Mas antes de cruzar o portão, vinha um ônibus. Vinha um ônibus, e havia um homem. Estava sentado o homem no degrau do comércio fechado, alguns palmos (ou metros?) distante do local de parada do coletivo. Cabeça curvada, apontada para as mãos, talvez com os ouvidos tampados. Ergueu-se de súbito, à cata de um tiro que vinha. Lançou-se ao meio-fio, ocupou um dos bolsos, ergueu o outro braço, esticou o indicador. Tarde demais. Apenas poeira e vento alcançaram seus dedos. Restou-lhe bater as asas nos flancos e agitar a cabeça.

Agora, havia apenas um homem com olhos no chão. O andar mocorongo, no mesmo rumo do ônibus que passou. Certamente saía do trabalho. Certamente estava cansado. Certamente, se pudesse, também não trabalhava nunca. E, caso lhe perguntassem, certamente se definiria: “Sou fulano de tal, empregado no entreposto, doutor em malabarismos e milagres, seu criado.” Encerramos assim, ele e eu, o nosso dia, sorumbáticos da existência. Porque, para produzir a própria vida é preciso entregar o corpo, a alma e, se bobear, até o recibo.

.: Guimarães Rosa: as paisagens, viagens e lugares que entraram para a literatura


Da boiada conduzida em 1952 às veredas, rios, chapadas e cavernas que aparecem nos livros, João Guimarães Rosa transformou o sertão mineiro em um território literário que ultrapassa qualquer mapa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser uma paisagem literária, o sertão foi, para João Guimarães Rosa, um lugar percorrido a cavalo, atravessado em meio a boiadas, observado de perto e registrado em cadernetas. A relação do escritor com o interior de Minas Gerais não se resumiu às lembranças da infância em Cordisburgo. O escritor voltou ao sertão, conversou com vaqueiros, anotou palavras, costumes, nomes de plantas e animais, ouviu histórias e deixou que aquela experiência se misturasse à imaginação.

É dessa matéria-prima que aparece boa parte da força de “Grande Sertão: Veredas”, publicado em 1956 e celebrado agora em uma edição especial da Commpanhia das Letrasd pelos 70 anos. O livro apresenta rios, veredas, chapadões, matas, povoados e caminhos, mas não oferece ao leitor um simples roteiro turístico. O sertão de Guimarães Rosa é reconhecível e, ao mesmo tempo, reinventado. Existem lugares reais, outros que ganharam novas formas e aqueles que pertencem sobretudo à geografia imaginária do romance.


A viagem que colocou Rosa no caminho da boiada
Em maio de 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, o escritor Guimarães Rosa acompanhou uma comitiva de vaqueiros que conduzia uma boiada pelo sertão mineiro. A viagem partiu da Fazenda Sirga, na região de Três Marias, e terminou nas proximidades de Araçaí. Durante dez dias, o escritor esteve em contato direto com os homens, os animais e os lugares que atravessavam o caminho.

Entre os vaqueiros estava Manuel Nardy, o Manuelzão, que se tornaria uma das figuras mais conhecidas associadas ao universo rosiano. Também estava João Henrique Ribeiro, o Zito, que atuava como guia, cozinheiro e vaqueiro e conversava longamente com o escritor durante o percurso. Décadas depois, Zito ainda guardava lembranças daquela viagem e contou à revista "Cult" detalhes do trajeto e da convivência com Rosa.

O escritor registrou a experiência em cadernetas que posteriormente ficaram conhecidas como “A Boiada”. A documentação dessa viagem reúne observações sobre a paisagem, a fauna, a flora, as pessoas e a vida cotidiana do sertão. Uma mostra organizada pelo Museu Casa Guimarães Rosa descreve esse material como uma espécie de inventário da natureza e da vida sociocultural do Cerrado mineiro da década de 1950.  Não se tratava, portanto, de um escritor passando rapidamente por uma paisagem em busca de inspiração, mas de alguém que estava interessado nos detalhes. O modo de falar de um vaqueiro, o comportamento dos animais, o nome de uma planta, uma festa, uma história contada à noite, o desenho de um caminho. Tudo podia acabar transformado em literatura.


De Três Marias a Araçaí
O percurso da boiada atravessou diferentes pontos do sertão mineiro. Pesquisas sobre “A Boiada” identificam passagens por municípios como Três Marias, Corinto, Morro da Garça, Curvelo, Cordisburgo e Araçaí. O caminho aparece nos registros de Guimarães Rosa como uma sucessão de fazendas, rios, veredas e encontros. A experiência também aproximou o escritor de uma cultura que ele conhecia desde a infância, mas que agora podia observar de dentro. 

Durante aqueles dias, precisava acompanhar o ritmo da comitiva, lidar com os deslocamentos, ouvir quem conhecia a região e prestar atenção a uma realidade que dificilmente caberia em descrições genéricas. Foi nesse contato que pessoas reais começaram a alimentar personagens e situações literárias. Manuelzão, por exemplo, seria transformado em personagem de “Uma Estória de Amor”, novela de “Corpo de Baile”. A viagem de 1952, por sua vez, deixou marcas na construção do universo de “Grande Sertão: Veredas”.


Quando a paisagem vira literatura
Quem procura localizar cada passagem de “Grande Sertão: Veredas” em um mapa corre o risco de encontrar uma obra diferente daquela que o escritor construiu. O romance está profundamente ligado ao sertão mineiro e aos Gerais, mas seus espaços foram reorganizados pela ficção. O Rio São Francisco e o Urucuia, por exemplo, pertencem à geografia brasileira. Já lugares como o Liso do Sussuarão ocupam uma zona mais complexa entre referência regional e criação literária.

O próprio Parque Nacional Grande Sertão Veredas ajuda a entender essa relação. Criado em 1989 e ampliado em 2004, o parque ocupa atualmente mais de 230 mil hectares entre Minas Gerais e Bahia e recebeu o nome em homenagem ao romance. O ICMBio destaca a importância ecológica e cultural da região, que reúne áreas de Cerrado, rios, veredas e diferentes ambientes associados ao universo descrito por Rosa.

Isso não significa que o escritor tenha percorrido todo o território posteriormente protegido pelo parque. Há, inclusive, pesquisas e levantamentos que observam que não há registro da passagem dele por determinadas áreas do parque. A homenagem está ligada à relação literária entre a região dos Gerais e o romance.


As veredas, os rios e os buritis
No universo de Guimarães Rosa, a paisagem nunca está simplesmente parada. A água corre, o gado atravessa, o vento mexe os buritis, os homens caminham e os personagens mudam de rumo. As veredas, particularmente, ocupam um lugar fundamental nessa geografia. São áreas úmidas do Cerrado, frequentemente associadas aos buritis e às nascentes, que aparecem de maneira recorrente na obra. O próprio nome do romance coloca essa paisagem no centro da experiência de leitura.

O Parque Nacional Grande Sertão Veredas conserva diferentes ambientes desse tipo e possui entre seus atrativos a Vereda do Santa Rita, o encontro dos rios Preto e Carinhanha, além de trilhas, cachoeiras e mirantes. É uma paisagem que também mudou desde o tempo de Rosa. Reportagem do "Globo Repórter" de 2023 mostrou pesquisas sobre o aquecimento da região e os impactos sobre as nascentes e veredas, além de registrar ameaças ambientais enfrentadas pelo Parque Nacional Grande Sertão Veredas. A literatura, nesse caso, acaba funcionando também como uma espécie de registro de uma paisagem em transformação. O sertão que Guimarães Rosa conheceu na década de 1950 continua existindo, mas não permanece intocado.


As cavernas também entram nessa geografia
O sertão rosiano não se resume aos campos abertos e às veredas. As cavernas também fazem parte dessa paisagem. Em 2023, uma equipe do "Globo Repórter" percorreu diferentes regiões relacionadas ao universo de “Grande Sertão: Veredas” e passou pelo Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. A região reúne centenas de cavernas mapeadas, cânions e cursos d’água. Na narrativa televisiva sobre a obra, o espaço foi associado aos refúgios de Riobaldo e dos jagunços.

O contraste é interessante: de um lado, as veredas abertas, com água e buritis; de outro, as formações rochosas, as grutas e os cânions. No livro, o sertão comporta essas diferenças sem precisar escolher uma única aparência. É um território de contrastes, onde a paisagem pode mudar tanto quanto o homem que atravessa seus caminhos.


Morro da Garça e a memória de Guimarães Rosa
O Morro da Garça ocupa outro lugar importante nessa cartografia. O município mineiro aparece ligado à trajetória do escritor e às histórias do sertão que ele conheceu durante suas viagens. A região também preserva uma memória coletiva associada a Guimarães Rosa. Em reportagem sobre o segundo programa especial do "Globo Repórter", foi registrada a visita da equipe ao município, a presença da cultura sertaneja e da tradição cigana e a Festa da Lavoura.

A ideia de preservar essa memória vai além dos livros. A proposta de criação de um Museu de Território apresentada na reportagem pretendia permitir que o percurso relacionado à viagem de Rosa pudesse ser conhecido também como experiência cultural, aproximando paisagem, memória, comunidade e literatura. Há algo particularmente bonito nisso: os lugares que ajudaram a alimentar uma obra literária passam a guardar, décadas depois, a memória do próprio escritor que os percorreu.


Manuelzão, o homem que virou personagem
Entre tantos nomes encontrados por Guimarães Rosa durante suas viagens, Manuelzão ganhou uma vida literária especialmente duradoura. Manoel Nardy era capataz da Fazenda Sirga e conduziu a boiada acompanhada pelo escritor em 1952. A fazenda onde viveu, segundo reportagem do "Globo Repórter", passou a abrigar o Museu do Manuelzão, dedicado à preservação dessa memória.

A passagem do homem real para o personagem literário revela como funcionava o olhar de Guimarães Rosa. Ele recolhia pessoas, vozes, histórias e modos de vida, mas não os transportava intactos para a página, pois os recriava. Por isso, conhecer os caminhos percorridos pelo escritor ajuda a compreender “Grande Sertão: Veredas”, mas não encerra o romance. O livro começa onde a geografia real já não consegue dar conta de tudo.


Um sertão que continua se movendo
Setenta anos depois da publicação, os caminhos de “Grande Sertão: Veredas” continuam despertando interesse porque a paisagem de Rosa nunca foi apenas cenário. Rios, veredas, chapadas, cavernas, fazendas e estradas participam da narrativa tanto quanto os jagunços. O espaço interfere nas decisões, cria obstáculos, aproxima pessoas, separa grupos e acompanha as mudanças de Riobaldo. A geografia do romance está sempre em movimento porque quem atravessa o sertão também se modifica. “o sertão é do tamanho do mundo”, frase tantas vezes associada ao universo do livro, continua funcionando tão bem como chave de leitura. O sertão de Guimarães Rosa cabe em Minas Gerais, mas não termina lá. A viagem de 1952 teve começo, percurso e destino. A viagem literária, essa, continua.


.: Crítica: "Verity" fisga pelo talento do elenco, mas se perde na pegada erótica

Imagem de  "Verity"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Uma escritora desconhecida do grande público consegue a chance na carreira literária, mas como ghost writer (escritor-fantasma) de um nome de sucesso estrondoso. No suspense psicológico "Verity" com Anne Hattaway, Josh Harnett e Dakota Johnson, adaptado do livro de mesmo nome da escritora norte-americana Colleen Hoover ("É Assim Que Acaba"),um a profissional da escrita é contratada para seguir na produção de novos livros da queridinha Verity (Anne Hattaway, "Instinto Materno"). Assim, Lowen (Dakota Johnson, de "Madame Teia") ingressa mna trama ao aceitar organizar anotações da grande escritora, sem receber crédito público ou assinatura pela autoria da obra, mas embolsando uma grande bolada.

O longa começa de modo forte e num encontro ao acaso, porém tremendamente medonho entre Jeremy (Josh Harnett, de "Oppenheimer" e "Armadilha") e Lowen. O resultado é uma forte tensão entre os dois quando o destino consegue uni-los novamente, mas tendo como desculpa uma excelente oportunidade de trabalho. Embora considere por minutos recusar, Lowen aceita a proposta ao assinar um contrato de confidencialidade. Assim, vai passar alguns dias na casa da família Crawford.

Neste jogo de contar e recontar histórias, "Verity" garante bons sustos, mas põe a perder o bom do suspense em nome de pesar a mão em sequências de pegadas eróticas, o que acaba ligando a atriz Dakota Johnson novamente ao sexy "50 tons de cinza", longa que catapultou a filha de Melanie Griffith em Hollywood. Aos fãs de Josh Hartnett também cabe a leve desconfiança em torno das revelações de seu personagem -e parte dela pode ser confirmada.

Embora "Verity" traga a talentosa Hattaway na pele de um personagem inconstante, não espere algo estilo o excelente longa "Instinto Materno". Inicialmente, até se aproxima e faz lembrar, mas conforme a trama se desenrola, acaba parecendo uma releitura de "A Empregada", sem o desfecho desejado e plausível. Uma vez que Lowen mergulha de cabeça nas tragédias da família que vive na casa afastada com um lago adiante -cenário de uma morte dolorosa. 

A brincadeira com os nomes das personagens femininas, a dona da verdade (Verity) que tem em seu caminho alguém mais baixo, considerando as três primeiras letras do nome de Lowen, é uma riqueza que mais impacta na escrita. Assim, ordenando apontamentos de Verity, uma mulher acamada, Lowen passa a desejar ser a outra e suas confusões a levam a um final duvidoso. Infelizmente, a adaptação dirigida por Michael Showalter consegue ser bastante previsível.


Trailer de "Verity"

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

.: Crítica: "A Ilha Esquecida" até lembra "Red", mas foca na amizade e encanta

Imagem de  "A Ilha Esquecida"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


A animação que mescla aventura e comédia, "A Ilha Esquecida", entrega colorido de dar inveja nas novas criações Disney, além de estampar os traços artísticos sempre presentes nas produções do mesmo gênero de "Homem-Aranha no Aranhaverso". Da DreamWorks Animation, "A Ilha Esquecida" chega a remeter o também excelente "Red: Crescer é Uma Fera", mas vai além fugindo do realismo, com traços 2D expressivos, dinâmicos e exagerados, inspirados em animes japoneses, o que faz lembrar o sucesso "As Guerreiras do K-Pop", da Netflix.

"A Ilha Esquecida" traz um peso emocional de uma das protagonistas com a avó, como também acontece em "Cara de Um, Focinho de Outro", mas é muito ágil na trama garantino várias reviravoltas. A diferença está no fato de a produção ser focada na amizade e o acerto é em sequência, muito por trazer uma trilha sonora sem defeitos, incluindo "Don't Stop Believin'", "Never Tear Us Apart" e "Nothing's Gonna Stop Us Now", por exemplo. Tanto é que os créditos finais celebra a amizade exibindo fotos reais de amigos e familiares da equipe de produção, em uma homenagem aos temas de memória e amizade do filme.

Sem muita pretensão, a produção de divulgação encabulada, é puro deleite visual e narrativo. Na animação que soma 1 hora e 40 minutos de duração, as melhores amigas Jo e Raissa criam um forte elo desde a primeira topada enquanto aguardavam atendimento da diretora após agirem de modo equivocado em aula. Elas viram adolescentes e quando tudo parecia normal, planos mudam. 

No entanto, as duas se deparam com um portal misterioso que as transporta para a ilha fantástica chamada Nakali. Enquanto vivenciam o que juravam não existir, como por exemplo, criaturas mágicas, Jo e Raissa descobrem a importância da amizade verdadeira de longos anos, uma vez que o preço para voltar para casa são as memórias da relação construída por elas. Por outro lado, juntas elas buscam uma forma de sair do lugar dos sonhos sem que uma esqueça da outra para sempre. Imperdível!


Trailer de "A Ilha Esquecida"




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Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo e outros jagunços formam uma galeria de personagens que transforma o sertão de João Guimarães Rosa em território de conflitos, afetos e escolhas

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Se o sertão de João Guimarães Rosa ganhou dimensões que ultrapassam a geografia, os personagens também são bem mais complexos do que parecem. Em “Grande Sertão: Veredas” , publicado em 1956 e relançado em edição especial pela Companhia das Letras, Riobaldo narra as próprias lembranças a partir da velhice e retorna aos anos em que viveu entre jagunços, disputas, perseguições, mortes, amizades e amores. No centro dessa memória está Diadorim, personagem que acompanha Riobaldo durante boa parte da narrativa e cuja presença reorganiza o modo como ele percebe o mundo. 

Ao redor dos dois aparecem chefes de bando, companheiros de armas, inimigos e mulheres que participam de diferentes momentos da trajetória do narrador. A lista é extensa. Alguns personagens permanecem durante longos trechos da narrativa; outros entram em cena para alterar o rumo da história. Juntos, eles ajudam a construir um romance em que a aventura sertaneja convive com questões sobre identidade, desejo, violência, fé, lealdade e destino.


Riobaldo conta a própria história
Riobaldo é protagonista e narrador de “Grande Sertão: Veredas”. Quando começa a contar sua história, já é um ex-jagunço e fazendeiro. O que o leitor acompanha, portanto, não acontece no presente da narrativa, mas retorna à memória de um homem que tenta compreender acontecimentos da juventude. Antes de entrar definitivamente para a jagunçagem, Riobaldo foi professor de Zé Bebelo. Depois, aproximou-se do grupo de Joca Ramiro e passou a viver a rotina de combates e deslocamentos pelo sertão.

Entre os jagunços, recebeu o apelido de Tatarana, associado à habilidade dele com armas. Mais tarde, depois do episódio das Veredas-Mortas e do suposto pacto com o Diabo, assume a liderança do grupo e passa a ser chamado de Urutu-Branco. Essa transformação ajuda a entender uma das características mais interessantes do personagem: Riobaldo está sempre tentando descobrir quem é. Ele narra os acontecimentos, mas também questiona as próprias decisões, as crenças e aquilo que acredita ter vivido. É um personagem que age e, ao mesmo tempo, pensa sobre a própria ação. A aventura, na voz dele, nunca aparece separada da dúvida.


Diadorim guarda o segredo do romance
Diadorim chega à narrativa primeiro como Reinaldo. Para Riobaldo, é o companheiro de jagunçagem por quem desenvolve uma ligação que se torna cada vez mais intensa. A personagem é filha de Joca Ramiro e integra o bando do pai. É também quem aproxima Riobaldo daquele universo. O vínculo entre os dois é uma das grandes forças do romance. Riobaldo sente amizade, admiração, desejo, ciúme e inquietação diante de Diadorim, enquanto a personagem mantém uma postura determinada diante da guerra e da vingança pela morte do pai.

A revelação sobre a identidade dela, depois da morte, reorganiza retrospectivamente muitos dos sentimentos e acontecimentos narrados por Riobaldo. A própria memória do protagonista passa a ser atravessada pela descoberta. A personagem continua provocando interpretações diferentes sete décadas depois da publicação. Um estudo publicado pela PUC Minas em 2025, por exemplo, analisa Diadorim a partir de questões relacionadas à imagem, ao luto, à melancolia e aos estudos de gênero, destacando a força da indeterminação da personagem. É essa abertura que impede Diadorim de ser reduzida a uma única definição. Ela participa da guerra, da amizade e da busca por vingança, mas também concentra as contradições mais profundas da experiência de Riobaldo.


Joca Ramiro representa a liderança
Joca Ramiro é o grande chefe do grupo de jagunços e pai de Diadorim. Na percepção de Riobaldo, aparece como uma figura admirada e respeitada, alguém capaz de exercer autoridade sobre homens acostumados à violência e à vida errante. A morte dele, provocada pela traição de Hermógenes e Ricardão, altera o curso da narrativa. O assassinato dá origem à busca por vingança e reorganiza as alianças entre os jagunços. A partir desse momento, a história ganha uma dimensão ainda mais marcada pela perseguição. A vingança deixa de ser apenas uma questão pessoal e passa a movimentar diferentes personagens e grupos.


Hermógenes encarna a ameaça
Se Joca Ramiro representa uma liderança admirada, Hermógenes ocupa o lado oposto dessa relação de confiança. Subchefe do grupo, ele participa da conspiração que resulta na morte de Joca Ramiro ao lado de Ricardão. A figura de Hermógenes está ligada, ao longo da narrativa, à violência e à suspeita de um pacto com o Diabo. Riobaldo vê nele uma presença especialmente perturbadora, o que contribui para a associação entre o personagem e a discussão central do romance sobre a existência ou não do demônio. Hermógenes não funciona apenas como adversário de Riobaldo. Ele é uma ameaça que permite ao narrador voltar constantemente à pergunta que atravessa o livro: onde termina a vontade humana e começa aquilo que não se consegue explicar?


Zé Bebelo coloca o sertão em disputa
Zé Bebelo apresenta outra espécie de liderança. Ele pretende combater a jagunçagem e pacificar o sertão, além de alimentar ambições políticas. A relação dele com Riobaldo começa antes da entrada definitiva do narrador na vida dos jagunços: Riobaldo chega a ser professor dele, ensinando-lhe “letras e números”. A relação entre os dois, porém, não permanece restrita à sala de aula. Zé Bebelo também se torna uma espécie de mestre de Riobaldo na experiência concreta do sertão.

Mais tarde, depois da morte de Joca Ramiro e da atuação de Medeiro Vaz na busca pelos responsáveis, Zé Bebelo volta a ocupar posição central na organização dos jagunços. O personagem amplia a discussão sobre poder no romance. Ele transita entre o discurso de combate à jagunçagem e a própria lógica dos grupos armados, aproximando mundos que, à primeira vista, poderiam parecer separados.


Medeiro Vaz, Otacília e Nhorinhá ampliam o caminho de Riobaldo
Medeiro Vaz assume a liderança dos jagunços depois da morte de Joca Ramiro e conduz a perseguição a Hermógenes e Ricardão. É lembrado pelo respeito que desperta entre os homens do bando. Depois da morte dele, Zé Bebelo assume a chefia. As mulheres também ocupam lugares diferentes na trajetória de Riobaldo. Otacília é uma das pessoas por quem ele se apaixona e, posteriormente, torna-se sua esposa. Nhorinhá aparece ligada ao desejo e a outra dimensão da experiência amorosa do protagonista.

Essa multiplicidade importa porque Diadorim não existe isoladamente na vida afetiva de Riobaldo. O narrador experimenta diferentes formas de relação e, ao compará-las, revela as próprias contradições. As mulheres, os amigos, os chefes e os inimigos ajudam a formar um retrato fragmentado de um homem que passa a vida tentando compreender as próprias escolhas.


Quelemém escuta o homem que ficou
Quando Riobaldo conta sua história, existe um interlocutor atento do outro lado. É o compadre Quelemém de Góis, amigo e confidente do narrador. A presença de Quelemém é fundamental porque “Grande Sertão: Veredas”  não apresenta simplesmente uma sequência de aventuras. Riobaldo está contando, refletindo, voltando atrás, levantando dúvidas e procurando algum sentido para aquilo que viveu.

A narrativa, assim, transforma os personagens do passado em parte de uma investigação feita muitos anos depois. Riobaldo fala de Diadorim, Hermógenes, Joca Ramiro, Zé Bebelo e dos outros jagunços, mas está falando também de si mesmo. Pedro Süssekind, que colocou Guimarães Rosa em diálogo com Homero e Shakespeare no livro “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, chama atenção para essa dimensão filosófica de Riobaldo. Para o pesquisador, o personagem está “à altura de Hamlet” quando se considera a capacidade dele em pensar e questionar a própria experiência.

É uma das razões pelas quais os personagens de “Grande Sertão: Veredas” continuam provocando leitores. Eles participam de uma história de jagunços, mas as perguntas não ficaram presas ao sertão de 1956. Riobaldo continua tentando entender Diadorim. Diadorim continua desafiando as certezas de Riobaldo. Hermógenes continua associado à dúvida sobre o mal. Joca Ramiro permanece como referência de autoridade. Zé Bebelo mistura guerra, política e ambição. E, ao redor deles, uma multidão de personagens ajuda a fazer do romance de João Guimarães Rosa uma narrativa tão vasta quanto o território em que foi ambientada.
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