sábado, 7 de novembro de 2026

.: “Avó Inventada” recria vida de mulher que morreu antes de ser conhecida


Espetáculo de Ana Paula Lopez, dirigido por Kenia Dias, estreia no Sesc Vila Mariana e imagina outros destinos para uma avó marcada pelo analfabetismo, pelo casamento precoce e pela falta de acesso à saúde. Foto: Jamil Kubruk

E se fosse possível inventar uma vida diferente para alguém que morreu antes mesmo de você nascer? Foi a partir dessa pergunta que a atriz e dramaturga Ana Paula Lopez criou “Avó Inventada – Desenhando o Retrato da Avó que Não Conheci ou Desenterrando Seus Ossos em Mim”, espetáculo que estreia em 11 de novembro de 2026, no Auditório do Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Com direção de Kenia Dias, a montagem reúne Ana Paula e a musicista, compositora e performer vocal e sonora Tâmara David. A peça parte de uma história familiar para construir, entre memória, ficção e realismo mágico, uma vida possível para Maria, avó paterna da atriz, uma mulher que ela nunca chegou a conhecer. Aos 45 anos, mesma idade em que Maria morreu, Ana Paula decidiu olhar para os poucos vestígios deixados por essa mulher do norte de Minas Gerais. Vítima de esquistossomose e sem acesso a tratamento médico, analfabeta e casada ainda adolescente, Maria deixou uma história contada principalmente pelos relatos do filho, pai da atriz.

A dramaturgia surge do desejo de preencher essas lacunas. E se Maria tivesse aprendido a ler? E se tivesse se tornado professora? E se tivesse escolhido não ter filhos? E se tivesse vivido o suficiente para conhecer a neta? “Eu queria inventar um passado novo para ela, como um tipo de reparação mesmo. Queria que ela tivesse uma oportunidade de ser alfabetizada, de se tornar professora, como a maioria das netas dela são. Queria que ela tivesse esperança”, conta Ana Paula.

A imaginação, porém, não apaga a realidade que cerca a história de Maria. “Avó Inventada” coloca em cena questões como casamento infantil, maternidade compulsória, desigualdade social e violência patriarcal, aproximando a experiência de uma mulher do norte de Minas da realidade de tantas outras brasileiras. “Estou olhando para um Brasil profundo, para a realidade de milhões de mulheres que ainda vivem essas situações. Por mais que eu queira inventar um novo passado, ela vem e traz toda essa dor, toda essa violência que mulheres ainda estão sofrendo neste instante”, afirma a autora.

Diagnosticada com autismo na vida adulta, Ana Paula também investiga no espetáculo possíveis heranças neurodivergentes presentes em sua família. A questão aparece tanto no conteúdo quanto na própria construção da linguagem teatral, que acompanha pensamentos acelerados, associações de imagens e deslocamentos entre diferentes tempos e personagens. A atriz passa pela neta, pela avó e pela narradora sem recorrer às tradicionais mudanças de figurino ou caracterização. O corpo e a voz assumem a tarefa de estabelecer essas diferentes presenças.

A montagem também leva em consideração necessidades sensoriais de artistas e espectadores neurodivergentes. O desenho de luz e a intensidade sonora foram pensados para evitar estímulos que possam provocar desconforto, ampliando as possibilidades de acolhimento durante as apresentações. “A gente tem falado que é um duo de presenças. Nenhuma está a serviço da outra, mas são as duas traçando, falando esse texto pelo movimento, pela palavra, pelo som, pela música, pela relação entre as duas que se estabelece em cena”, explica Kenia.

A diretora também chama atenção para a convivência entre humor e tragédia na montagem. A avó inventada não aparece somente como uma figura marcada pela dor. Ela ganha espaço para reivindicar outras possibilidades de existência e, em determinado momento, chega a confrontar a própria neta. “Avó Inventada” foi uma das vencedoras do Concurso Internacional de Dramaturgia Feminina 2025/2026, promovido pelo Festival Internacional A Escritura das Diferenças.

O texto será publicado em português, italiano e espanhol pela editora italiana Metec Alegre Edizioni. O lançamento está previsto para 23 de dezembro de 2026, em Morcone, na Itália. Em novembro de 2027, o texto também terá leituras dramáticas em português e italiano durante o festival realizado em Pordenone. A montagem marca ainda a estreia da Mira Teatro, companhia fundada por Ana Paula Lopez e Kenia Dias, que mantêm uma parceria artística há mais de uma década. Ana Paula é professora da Escola de Arte Dramática da USP, enquanto Kenia leciona na Universidade de Brasília (UnB).


Ficha técnica
“Avó Inventada – Desenhando o Retrato da Avó que Não Conheci ou Desenterrando Seus Ossos em Mim”

Concepção, dramaturgia e interpretação: Ana Paula Lopez
Direção: Kenia Dias
Diretor assistente e iluminador: Lucas Brandão
Musicista, compositora e performer vocal: Tâmara David
Direção vocal: Mônica Montenegro
Dramaturgia de movimento: Kenia Dias, Lucas Brandão e Ana Paula Lopez
Orientação de escrita dramatúrgica: Solange Dias
Cenário e figurinos: Renato Bolelli
Sonorização: Gylez Batista
Assistente de cenografia e figurino: Ana de Queiroz
Assessoria de imprensa: Canal Aberto Comunicação
Fotografia: Jamil Kubruk
Arte: Tande Campos
Produção: Corpo Rastreado - Lucas Cardoso
Apoio: Mira Teatro, Perereca Produções, Corpo Rastreado e Casa Farofa
Realização: Sesc SP


Serviço
“Avó Inventada – Desenhando o Retrato da Avó que Não Conheci ou Desenterrando Seus Ossos em Mim”

Estreia: 11 de novembro de 2026, quarta-feira, às 20h30
Temporada: até 5 de dezembro de 2026
Apresentações: quintas, sextas e sábados, às 20h30
Local: Auditório do Sesc Vila Mariana - São Paulo
Exceção: não haverá sessão no dia 26 de novembro
Sessões acessíveis: dias 27 e 28 de novembro, sexta e sábado, às 18h30
Boteco Crítico: sábado, 28 de novembro, às 19h30, após a apresentação
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: 16 anos

Sesc Vila Mariana
Rua Pelotas, 141, Vila Mariana - São Paulo
Metrô Ana Rosa
Informações: (11) 5080-3000

Estacionamento: 125 vagas – R$ 10 a primeira hora + R$ 4 a hora adicional (Credencial Plena: trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes). R$ 20 a primeira hora + R$ 5 a hora adicional (outros). Paraciclo: 16 vagas – gratuito. É necessário utilizar travas de segurança.

.; “On Your Feet!” conta a trajetória de Gloria Estefan em musical inédito


Com Camilla Camargo no papel da cantora cubano-americana, montagem dirigida por Ricardo Marques estreia em São Paulo e reúne sucessos como “Conga”, “Get On Your Feet” e “Rhythm Is Gonna Get You”. Foto: Caio Gallucci


A história de Gloria Estefan chega aos palcos brasileiros ao som de “Conga”, “Rhythm Is Gonna Get You” e outros sucessos que ajudaram a colocar a música latina no mapa do pop internacional. “On Your Feet! - O Musical da Gloria Estefan” está em cartaz no Teatro Claro Mais, no Shopping Vila Olímpia, em São Paulo, em sua primeira montagem brasileira, que segue até dia até dia 20 de dezembro. Camilla Camargo interpreta Gloria Estefan, enquanto o venezuelano Esteban Velásquez estreia nos musicais brasileiros como Emilio Estefan. Renata Brás vive Gloria Fajardo, mãe da cantora. A produção tem direção de Ricardo Marques, adaptação de Silvano Vieira, direção associada de Igor Pushinov, direção musical de Paulo Nogueira e coreografias de Tutu Morasi.

Inspirado na história real de Gloria e Emilio Estefan, o espetáculo acompanha o casal desde as origens até a conquista do mercado internacional. Nascida em Havana, Cuba, e criada em Miami, Gloria construiu uma trajetória que a transformou em uma das artistas latinas de maior projeção mundial. Ao lado de Emilio, também participou da expansão da música latina dentro da indústria fonográfica norte-americana.

A narrativa passa pela formação do Miami Sound Machine, pelas dificuldades encontradas para fazer a música latina conquistar espaço no mercado dos Estados Unidos e pelos conflitos familiares que marcaram a trajetória do casal. A produção também aborda o grave acidente de ônibus sofrido por Gloria em 1990. A cantora ficou temporariamente paralisada e chegou a ter a carreira colocada em risco. No palco, a trajetória ganha ritmo com canções que atravessaram gerações e ajudaram a definir a carreira de Gloria Estefan, entre elas “Conga”, “Rhythm Is Gonna Get You”, “1-2-3”, “Get On Your Feet”, “Don’t Wanna Lose You”, “Coming Out of the Dark” e “Mi Tierra”.

“On Your Feet!” estreou mundialmente em Chicago, em 2015. No ano seguinte, chegou à Broadway, onde permaneceu em cartaz no Marquis Theatre até agosto de 2017. Depois da temporada nova-iorquina, o musical ganhou produções e turnês internacionais, incluindo montagens na Holanda e no West End, em Londres. O texto é assinado por Alexander Dinelaris, vencedor do Oscar pelo roteiro de “Birdman”. Na montagem original, Jerry Mitchell assumiu a direção e Sergio Trujillo foi responsável pelas coreografias.

A versão brasileira coloca Camilla Camargo à frente de uma produção que reúne atores, cantores e ensemble para contar uma trajetória marcada por música, imigração, família, obstáculos profissionais e uma carreira internacional construída ao lado de Emilio Estefan.


Ficha técnica
“On Your Feet! - O Musical da Gloria Estefan” 

Elenco:  Camilla Camargo (Gloria Estefan), Esteban Velásquez (Emilio Estefan), Renata Brás (Gloria Fajardo), Rafael de Castro (José Fajardo), Lilian de Lima (Consuelo García), Julia Pronio (Rebecca Fajardo / Cover de Gloria Estefan), Júlio Oliveira (Phil), Alessandro Balbi (ensemble / Cover José e Phil), Anny Gianoti (ensemble), Beatriz Kizima (ensemble / cover de Gloria Jovem e Rebecca), Gabriella Medeiros (ensemble / Cover Rebecca), Henrique Fernandes (Swing), João Hespanholeto (ensemble), Leo Costa  (ensemble), Maria Potacio  (ensemble / cover Consuelo García e Gloria Fajardo), Mari Moreira  (ensemble / cover Gloria Estefan), Miquéias Martins  (ensemble), Pietro Borba  (ensemble / cover Phil e Emilio Estefan), Rapha Mota  (ensemble / cover Emilio Estefan e José Fajardo), Vicky Maila  (ensemble / cover Consuelo e Gloria Fajardo), Vivian Bugno  (swing), Antonella Dez  (Gloria Jovem), Lorenzo Bozzella  (Nayib / Emilio Jovem), Luani Bordini  (Gloria Jovem) e Pedro Ken  (Nayib / Emilio Jovem).


Serviço
“On Your Feet! - O Musical da Gloria Estefan”

Temporada: até dia 20 de dezembro de 2026
Teatro Claro Mais - Shopping Vila Olímpia - São Paulo/SP
Sessões: quintas e sextas-feiras, às 20h30; sábados, às 16h30 e 20h30; domingos, às 16h00 e 20h00
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 220,00
Uhuu e bilheteria do Teatro Claro Mais: https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/on-your-feet-o-musical-da-gloria-estefan-16378


.: "Acesso" expõe no teatro as feridas de uma noite em um hospital público


Espetáculo de Daniela Tozzi, com direção de Lavínia Pannunzio, estreia em 9 de novembro no Teatro Estúdio e acompanha uma mulher diante da espera por atendimento para a companheira. Foto: Manoel Marques

O encontro entre a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho e a atriz Daniela Tozzi deu origem a "Acesso", espetáculo que parte de uma experiência de escrita teatral para chegar ao palco com uma história sobre espera, desamparo e as muitas faces de um hospital público. A montagem estreia em 9 de novembro, no Teatro Estúdio, em São Paulo, onde permanece em curta temporada até 22 de dezembro, sempre às segundas e terças-feiras, às 18h30.

O texto teve sua primeira versão desenvolvida por Daniela Tozzi durante um curso de escrita teatral na CAL – Casa das Artes de Laranjeiras, no Rio de Janeiro. O que começou com apenas três páginas ganhou novos contornos durante um processo de orientação dramatúrgica e, posteriormente, encontrou na diretora Lavínia Pannunzio a responsável por levar a obra ao palco.

“O texto 'Acesso' tem origem com apenas três páginas em um curso online que fiz na CAL – Casa de Artes Laranjeiras/RJ com a dramaturga Daniela Pereira de Carvalho, que posteriormente me incentivou a dar continuidade ao processo de escrita e me tornei sua orientanda por sete meses em encontros online individuais durante o ano de 2025. O primeiro encontro fez nascer o texto 'Acesso'. O segundo nascer o espetáculo. Convidei a diretora Lavínia Pannunzio para ouvir uma leitura e ela por sorte minha, aceitou encená-lo. Durante o processo de montagem o texto original foi adaptado primorosamente pela diretora para o palco, possibilitando o terceiro encontro, com o público. Só tenho a agradecer imensamente, Daniela Pereira de Carvalho e Lavínia Pannunzio por todo amparo criativo para que 'Acessp' pudesse nascer”, declara Daniela Tozzi.

Em "Acesso", Olivia acompanha a namorada, Alice, ao pronto-socorro de um hospital público na cidade de São Paulo. Alice luta para respirar, enquanto Olivia enfrenta horas de espera. Entre corredores, salas e procedimentos, a personagem é tomada por memórias, medos e pensamentos que revelam uma situação de extrema fragilidade.

A espera de Olivia acaba abrindo espaço para outras histórias. O hospital concentra personagens que carregam diferentes marcas da realidade brasileira: a enfermeira Judith, exaurida e ainda assombrada pela pandemia; uma motogirl ferida durante uma entrega de comida por aplicativo; um menino vendedor de paçoca que foi esfaqueado; um médico que admite o desgaste ético provocado pela própria profissão; e Gabriel, o "Homem Esqueleto", figura que leva ao limite a deterioração do corpo.

São oito narrativas interpretadas por Daniela Tozzi, em um solo que percorre mais de 12 horas dentro de um hospital público e coloca em cena uma coleção de vidas anônimas, dores particulares e problemas que se repetem diariamente. “Estruturada como um solo épico-dramático, autora e personagens se misturam ao longo dessas mais de 12 horas entre salas de espera, infindáveis corredores e uma burocracia kafkiana que revela, ao mesmo tempo, as profundezas de um sistema administrativo tão complexo, absurdo e opressor - que esmaga o indivíduo, deixando-o completamente impotente e desamparado -, e a gama humana por trás daquelas centenas de pessoas anônimas que passam, hora após hora, por um hospital público no centro da maior cidade do país", diz Lavínia.

A dramaturga Daniela Pereira de Carvalho aponta a dimensão política da obra e a relação direta entre a dramaturgia e as desigualdades sociais presentes no cotidiano. “A dramaturgia de 'Acesso' é uma espécie propulsora frontal de enfrentamentos às desigualdades sócio econômicas, à mediocridade política e a todo retrocesso comportamental. Acesso é tão profundo e complexo quanto real e urgente”, completa Daniela Pereira de Carvalho.

Para Lavínia Pannunzio, o percurso de Olivia também revela uma sociedade marcada pela multiplicação das situações de vulnerabilidade. “O que a narrativa de Daniela Tozzi nos conta é que nossa sociedade, ao contrário do que pretende nosso famigerado sistema único de saúde, engendra cada vez mais violência sobre violência, e cria sistemas de vulnerabilização social e humana sem precedentes na história da humanidade”, finaliza Pannunzio.


Ficha técnica
"Acesso" | Monólogo

Direção: Lavínia Pannunzio
Atuação, dramaturgia e realização: Daniela Tozzi
Orientação dramatúrgica: Daniela Pereira de Carvalho
Cenografia e direção de arte: Mira Andrade
Figurino: Anne Cerutti
Assistente de figurino: Isadora Brant
Desenho de luz: Aline Santini
Musicista (Acordeão): Aline Reis
Composição Musical Canção UTI e Piano: Daniela Tozzi
Trilha sonora original e design de áudio: Rafael Thomazini
Voz off: Alexandre Padilha - Ministro da Saúde
Operação de luz: Giovanna Gonçalves
Operação de som: Rafael Thomazini
Fotógrafo e vídeo maker: Manoel Marques
Redes Sociais e designer gráfico: Victoria Moliterno
Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro
Direção de produção: Carol Vidotti
Apoio Cultural: Nelson Casteline


Serviço
"Acesso" | Monólogo
De: 9 de novembro a 22 de dezembro de 2026
Dias: segundas e terças-feiras, às 18h30
Local: Teatro Estúdio
Rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos
Ingressos: R$ 80,00 (inteira) | R$ 40,00 (meia) | R$ 20,00 para profissionais da saúde, disponíveis diretamente na bilheteria
Vendas: Sympla
Classificação: 14 anos
Duração: 1h20
Capacidade: 42 lugares
*O acesso ao espaço é feito apenas por escadas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

.: Scatolove lança “Estanho”, álbum que celebra dez anos de dupla


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Formada pelo casal Léo Ramos (vocalista, compositor e guitarrista da Supercombo) e Isa Salles (compositora e vocalista da Teima), a Scatolove lança “Estanho”, seu segundo álbum de estúdio, sucessor de “Lei de Muffin” (2018). O título faz referência às bodas de estanho, que marcam dez anos de união, pois o disco celebra uma década da banda e do relacionamento da dupla.

Depois do EP “Cavalice no País das Maravilhas - Episódio 1”, a continuação prometida foi se transformando até deixar de conversar com o conceito original. Em vez de uma segunda parte, a Scatolove entrega agora um álbum inteiramente novo.

Em “Estanho”, o indie pop/rock da dupla ganha um peso inédito. Pedal duplo, guitarra de sete cordas e vocais berrados resultam na sonoridade mais densa da carreira. O single “Só Voar” é a faixa preferida dos dois. Pesada, mas dançante e chiclete, traz uma letra descontraída sobre o quanto Léo e Isa são dispersos e as dificuldades que isso traz ao dia a dia.

“Agulhas” reflete sobre o momento político atual e critica a forma como a sociedade se estruturou. Já “No Lugar” transforma em arte o processo doloroso e assustador vivido por Isa ao ser diagnosticada com síndrome do pânico; parte dos vocais foi gravada enquanto ela se regulava durante uma crise.

“Pra Não Ver” é uma música doce que carrega uma crítica pesada ao falar da relação inversamente proporcional entre lucidez e felicidade, e de como, às vezes, é preciso se distanciar da própria vida para encará-la de forma positiva. Sonoramente, é a faixa que mais se conecta com o passado do duo. Lançado pela Deck, “Estanho” já está disponível em todas as plataformas

"Agulhas"

"Passifloras" 


.: Manual Crônico: Preâmbulos, o que seria da vida sem eles?


Thiago Sobral
é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack. 

Penso que todo aquele que se pretende ao apodo de cronista precisa dar-se bem com preâmbulos. Afinal, o que fazemos aqui, despretensiosamente, é ou não é um preâmbulo dos fatos sérios e importantes — e que, por vezes, fingimos ignorar — dado à luz por nossa pena como de suma urgência e importância?

Dito isso, quero hoje fazer uma apologia aos tipos do cotidiano que são capazes de preambular qualquer notícia ou conhecimento proferido como se fosse fruto da mais pura originalidade pessoal, ou uma grande descoberta de seu genuíno exercício reflexivo. Frases longas, empoladas, cravadas por apostos, intercaladas por orações subordinadas das mais várias, floreadas por vocábulos empoeirados, salpicadas por um léxico rebuscado, tal qual o Cultismo barroco tão falado por Antônio Vieira.

Há de se considerar que um preâmbulo bem elaborado, dotado de sintaxe indireta, dando ao sujeito o cabo da oração, e ao predicado, as maiúsculas do início, destacando os adjuntos adverbiais e adnominais, formando sintagmas esplendorosos, é capaz de elevar à máxima potência qualquer ideia sórdida que venha à mente de um ser simplório que arroga a si o direito autoral e a plena erudição.

Pois bem. Preâmbulos cansam, e não está mais aqui quem deles falou.

Mas hoje, lembrei-me de alguns colegas de vida e de ofício que são bons em prefaciar o óbvio. Nem sempre são frases longas, mas sempre são jaculatórias que provocam o suspense ante à grande revelação prestes a ser feita. Vejam só: estas linhas aqui deitadas ao papel pretendem chegar aos vossos olhos a fim de que vejam, leiam e contemplem algo raro, complexo e há muito tempo esquecido — a crônica.

Os néscios dirão que minha crônica é óbvia, mas não é. Num mundo letrado como o nosso, nesta temporada da humanidade em que mais letrados há em toda a nossa história, os feeds livrescos consumidos aos montes raramente dão palco para o cronista, mestre dos preâmbulos. E se aqui vem semanalmente o cronista dizer o óbvio, o leitor educado há de lhe dar ao menos uma forçada educação e consideração lendo-lhe as palavras que aqui se desperdiçam.

Ainda que eu tente frequentemente, jamais alcançarei um certo colega que dava ares superiores às mais vis e medíocres afirmações que fazia.

— Agora, vou te falar uma coisa que tu não sabe — dizia ele: — se você considerar que Maria se casou com José naquele ano, e que José se casou com Maria nesse mês daquele mesmo ano, e que os dois juntos tiveram um filho, essa criança vai ser, presta bem atenção: — o suspense no ar — essa criança vai ser filha de José e Maria, e eles serão seus pais — e o sorriso desatava-lhe largo no rosto.

Preâmbulos, meus amigos, Pre-âm-bu-los! Afinal, o que seria da vida sem os preâmbulos?

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

.: Crônica: há 25 anos tudo começou e aqui estamos nós...

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


Era 5 de novembro de 2001. Depois de umas boas conversas pelos corredores da Universidade Católica de Santos, fomos ao cinema pela primeira vez, afinal estava acontecendo o Festival de Cinema Brasileiro com ingressos a R$ 2,00. Assistimos ao drama "Bicho de Sete Cabeças" e a comédia mesclada com romance "Amores Possíveis". Assim, ele saiu esbanjando o total de R$ 8,00.

Sim. Começamos a namorar numa sala de cinema Cinemark Santos há 25 anos, completando, então, a nossa relação as bodas de prata, enquanto que mês passado fizemos 20 anos de casados, bodas de porcelana. 

É sempre engraçado quando paramos para pensar em quantas coisa passamos juntos. São tantos anos juntos, juntos mesmo. Parceria de fechamento e, ao longo desses 25 anos foram assistidos muitos filmes na telona dos cinemas do litoral paulista, na grande São Paulo e até nas viagens além das redondezas.

Seguimos o juramento feito diante do padre e de tantas testemunhas, incluindo nossos pais, que reforçou e oficializou o que foi iniciado lá naquele 5 de novembro quando eu cheguei totalmente atrasada. Ele lá estava me aguardando na entrada do Shopping Miramar, andando de um lado para o outro. 

Não tinha celular, o que valia era o combinado e ponto final. 

Sim. Ele me esperou e aqui estamos.

Afinal, em 2006 juramos:

“Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe".


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Cartaz de "O Bosque Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


Ao assistir "O Bosque Selvagem" não espere uma história de contos de fadas convencional ou algo semelhante ao inesquecível "Coraline e o Mundo Secreto" (2009). A grandiosa animação em stop-motion de 2026, produzida pelo Estúdio Laika e dirigida por Travis Knight, entrega fantasia bastante madura, assim como os diálogos. Em "O Bosque Selvagem" tudo começa, de fato, a partir do momento em que a jovem Prue McKeel adentra a floresta, estando o colega tímido e medroso Curtis logo atrás.

Nos primeiros minutos, os pais da garota são apresentados no papel de zelosos e incentivadores de uma boa leitura. Contudo, é preciso seguir as ordens de não levar o pequeno Mac McKeel porta a fora. Eis que a garota não obedece e, após viver horas de diversão numa bicicleta puxando um carrinho com o garotinho, Prue decide dar uma pausa no parquinho da região, mas um bando de corvos rapta o menininho. Assim, ela embarca numa aventura imprevisível na floresta proibida e encantada (nos arredores de Portland).

Com direito a confrontos estilo a saga de "O Senhor dos Anéis", "O Bosque Selvagem" que levou 16 anos para a conclusão é indiscutivelmente um épico da animação que trabalha temas complicados como luto, violência, perda e dilemas morais profundos (impulsionados pela dor e pela ambição da personagem da Rainha Viúva Alexandra, dublada por Carey Mulligan).

A produção que soma 2 horas e 10 minutos de duração e repleta de subtramas, utilizou de 233 a 236 bonecos diferentes, de tamanhos variando desde a ratinha Septima com 4,1 cm até a personagem General (dublada por Angela Basset) com 86 cm. Sendo que cerca de 142.030 rostos substituíveis impressos em 3D foram trocados quadro a quadro (24 rostos por segundo de filme) para garantir expressões faciais fluidas. 

O resultado na telona de cinema é uma obra-prima baseada no livro homônimo infanto juvenil de Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis, publicado originalmente em 2011. Vale a pena conferir o longa que não é recomendado para menores de 14 anos!  


Filme: O Bosque Selvagem. Título Original: Wildwood. Direção: Travis Knight. Roteiro: Chris Butler (adaptado dos livros de Colin Meloy e Carson Ellis). Produção: LAIKA. Gênero: Animação, Aventura, Família, Fantasia Sombria. Duração: 130 minutos (2h 10min). Distribuição no Brasil: Imagem Filmes. Elenco de Voz Original: Peyton Elizabeth Lee (Prue McKeel), Jacob Tremblay (Curtis), Mahershala Ali, Angela Bassett. Data de Lançamento no Brasil: 29 de outubro de 2026. Sinopse: Uma adolescente inicia uma missão desesperada de resgate em uma floresta encantada depois que seu irmãozinho é raptado por um bando de corvos. Acompanhada por um colega de classe azarado, ela arrisca tudo ao navegar por um mundo cheio de bandidos, animais falantes e figuras poderosas. 

Trailer de "O Bosque Selvagem"



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Cartaz de "Street Fighter"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


O novo longa de ação e aventura produzido para o clássico dos jogos de fliperama de mesmo nome, "Street Fighter", é um recomeço cinematográfico para a franquia. A produção com Andrew Koji, Noah Centineo e Callina Liang, nitidamente eleva o nível de seus antecessores, "Street Fighter - A Última Batalha" (1994) e do spin-off não canônico de 2009, "Street Fighter: A Lenda de Chun-Li". 

O roteiro assinado por T.J. Fixman e Kitao Sakurai (com colaborações creditadas ou apontadas em versões de desenvolvimento também por Dalan Musson), agrada aos fãs, mas, ao público em geral, deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor. Não pelo uso do bom CGI, mas pelo atropelamento em que todo o enredo é apresentado. No entanto, é bom destacar que entrega embates memoráveis, seja o do Ryu em meio a névoa da sauna ou quando Ken finaliza o confronto no estilo do jogo.

Ambientado nos anos 90, o filme dirigido por Kitao Sakurai com duração de 1 hora e 59 minutos traz diversos personagens importantes da criação da CAPCOM (multinational desenvolvedora e publicadora japonesa de jogos eletrônicos), mas foca na tríade Ryu (Andrew Koji, de "Trem-Bala"), Ken Masters (Noah Centineo, de "Para Todos os Garotos Que Já Amei", "Adão Negro") e Chun-Li (Callina Liang, de "Presença"). Para tanto, apresenta os parceiros, quase irmãos Ryu e Ken que passam anos afastados numa disputa pessoal e de orgulho sobre o passado. 

Longe das lutas, Ryu tenta viver discretamente com as vendas de seu lámen num carrinho decadente de rua. Em tempo, nem mesmo um gatinho esfomeado é capaz de degustar tal iguaria. A derrocada de Ryu até remete a de Johnny Lawrence, na série "Cobra Kai", uma vez que Ken tenta sobreviver expondo-se nos holofotes televisivos quebrando carros. O que faz lembrar do personagem Johnny Cage (Karl Urban), do recente "Mortal Kombat II", mas sem a mesma qualidade e nível de entretenimento.

Eis que o tempo chega para o loiro fortão que também tem a figura esquecida pela grande massa. Por outro lado, Ken mantém ao lado o fiel parceiro Dan Hibiki (Andrew Schulz). Contudo, os rumos das vidas de Ken e Ryu voltam a serem entrelaçados por obra de Chun-Li, movida numa tarefa sombria de M. Bison (David Dastmalchian, de "Entrevista com o Demônio").

"Street Fighter", de trilha sonora no ponto com clássicos da época como "Wanna Be My Lover", La Bouche, entrega uma trama confusa em meio a tantos personagens que circundam o trio principal, desde Dhalsim (Vidyut Jammwal, de "Jungle - Protegendo a Selva"), Balrog (Curtis "50 Cent" Jackson, a Cammy (Mel Jarnson, "A Fera"), cabendo duas aparições de Blanka (Jason Momoa, "Aquaman"). Ao pecar por excesso, com até dois vilões, não apresenta o arco dos personagens e acaba desperdiçando sequência importantes, como o torneio oficial que em meio a tantos outros confrontos fica em segundo plano. 

Contudo, "Street Fighter" deixa clara a busca de entreter o público saudosista do jogo. Sem se levar tão a sério, o longa tem como ponto alto os flashbacks em estilo anime, entregando todo o poder dos embates que faltaram em algumas cenas em live-action. Para quem busca diversão, a trama do famoso golpe Hadouken é uma boa pedida e promete sequência, com direito a cena pós-crédito.

Filme: Street Fighter. Título original: Street Fighter. Gênero: Ação, Artes Marciais, Comédia. Duração: 1h 59min (119 minutos). Direção: Kitao Sakurai. Roteiro: T.J. Fixman, Dalan Musson e Kitao Sakurai. Produção: Legendary Pictures, Capcom. Distribuição: Paramount Pictures. País de origem: Estados Unidos / Japão. Elenco Principal: Andrew Koji (Ryu), Noah Centineo (Ken Masters), Callina Liang (Chun-Li), David Dastmalchian (M. Bison), Cody Rhodes (Guile), Jason Momoa (Blanka / Jimmy), Roman Reigns (Akuma), 50 Cent (Balrog). Ano de lançamento: 2026 (estreia no Brasil em 15 de outubro de 2026). Sinopse: Ambientado em 1993, a história acompanha os amigos de infância e artistas marciais Ryu e Ken Masters, que estão afastados há anos e são recrutados pela misteriosa Chun-Li para competir no World Warrior Tournament (Torneio dos Guerreiros Mundiais). Ao se prepararem para o combate, eles descobrem uma conspiração global sombria orquestrada pelo ditador M. Bison, precisando confrontar o passado para sobreviver.

Trailer de "Street Fighter"





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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

.: “Duna” desafia David Lynch com ficção científica grandiosa e estranha


Produção de 1984 tenta condensar o universo de Frank Herbert em 137 minutos e acaba encontrando sua força justamente nas imagens, nos figurinos e na atmosfera psicodélica

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Denis Villeneuve transformar “Duna” em uma das grandes experiências cinematográficas contemporâneas, David Lynch já havia encarado a tarefa de levar o universo criado por Frank Herbert ao cinema. O resultado, lançado em 1984, continua provocando uma reação curiosa: é perfeitamente possível reconhecer os problemas do filme e, ainda assim, continuar fascinado por ele. 

“Duna”, que estreia no streaming Belas Artes À La Carte, acompanha Paul Atreides (Kyle MacLachlan), jovem integrante de uma poderosa família nobre que se muda para Arrakis, planeta desértico responsável pela produção da especiaria Melange, substância fundamental para a expansão da humanidade pelo universo. O controle de Arrakis, portanto, significa controlar uma das maiores fontes de poder daquele futuro marcado por disputas políticas, guerras e intrigas.

A situação muda radicalmente quando os Atreides são traídos. Paul precisa sobreviver ao deserto, aproximar-se dos Fremen e compreender as visões que apontam para um destino muito maior do que ele próprio imaginava. No papel, uma aventura espacial de proporções gigantescas. Na prática, um dos projetos mais espinhosos da carreira de Lynch. O diretor passou cerca de três anos e meio trabalhando em “Duna”, depois de recusar a oportunidade de dirigir “O Retorno de Jedi”. Antes dele, Ridley Scott havia demonstrado interesse pelo projeto, mas acabou deixando a produção. Lynch assumiu direção e roteiro e tentou colocar no filme uma quantidade impressionante de informações do romance de Herbert.

Com uma história extremamente complexa, cheia de casas nobres, planetas, religiões, disputas políticas, profecias e termos próprios, “Duna” precisava de espaço. A versão cinematográfica, porém, chegou aos cinemas com 137 minutos. O corte original era consideravelmente maior, mas a interferência do estúdio reduziu a duração e, junto com ela, parte da capacidade do filme de desenvolver personagens, relações e acontecimentos. O resultado é uma narrativa que muitas vezes parece correr para explicar o que deveria ter tempo para apresentar. 

Vozes em off anunciam pensamentos, diálogos despejam informações e personagens aparecem com pouco espaço para ganhar profundidade. Para quem nunca leu o livro, acompanhar aquela quantidade de nomes e conceitos pode ser uma espécie de prova de resistência interplanetária. Existe ainda um detalhe curioso: Lynch não parece especialmente interessado em tornar aquele universo confortável para o espectador. A versão lynchiana de "Duna" tem uma aparência própria, frequentemente estranha, exagerada e psicodélica. A direção de arte e os figurinos carregam uma personalidade que continua chamando atenção décadas depois. Os cenários têm peso, textura e extravagância. Os trajes dos personagens parecem pertencer a uma civilização que passou séculos acumulando referências culturais de diferentes mundos e decidiu colocar tudo no mesmo guarda-roupa.

Os efeitos visuais, naturalmente, envelheceram. Algumas soluções parecem artesanais, outras revelam sem cerimônia as limitações técnicas da época. Ainda assim, existe uma dimensão tátil nos efeitos práticos e nas miniaturas que ajuda a explicar por que “Duna” continua despertando carinho entre parte dos admiradores da ficção científica. Os gigantescos vermes de areia de Arrakis são um bom exemplo. Vistos em uma tela pequena, determinados efeitos podem parecer frágeis. Em uma projeção de grande escala, porém, a dimensão física das criaturas ganha outra força. A experiência também favorece a fotografia, os cenários e o desenho de produção, elementos que sustentam boa parte do encanto do filme.

A trilha sonora de Toto, com participação de Brian Eno, é outro dos pontos fortes. O som ajuda a construir uma atmosfera grandiosa e peculiar, especialmente nas passagens envolvendo Arrakis e a Guilda Espacial. É uma música que, mesmo separada das imagens, continua capaz de evocar imediatamente o universo de Lynch. O elenco também merece atenção. Kyle MacLachlan interpreta Paul Atreides em seu primeiro grande papel no cinema e iniciaria ali uma parceria fundamental com Lynch. Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Sean Young, Virginia Madsen, Max von Sydow, Patrick Stewart e Sting completam uma escalação que hoje parece quase inacreditável.

Patrick Stewart surge como Gurney Halleck em um dos detalhes mais curiosos da produção: carregando um pug durante uma batalha. É uma imagem tão improvável que parece ter sido inventada por alguém depois de assistir ao filme, mas está lá. O músico Sting, por sua vez, interpreta Feyd-Rautha Harkonnen e protagoniza uma das cenas mais lembradas da produção. Ele quase apareceu completamente nu durante o famoso banho de vapor, mas o estúdio mudou de ideia pouco antes das filmagens. O figurino usado na sequência acabou sendo produzido às pressas.

Os bastidores também foram pouco amigáveis. As filmagens no México provocaram problemas gastrointestinais em integrantes do elenco e da equipe. Para evitar novos contratempos, a produção construiu uma grande cafeteria para concentrar a alimentação e chegou a importar produtos dos Estados Unidos. Os trajes da Guilda Espacial têm outra história peculiar. Segundo os relatos reunidos sobre a produção, algumas peças foram encontradas em um antigo quartel de bombeiros abandonado e originalmente eram utilizadas como sacos para cadáveres. A equipe reaproveitou o material sem informar aos atores sua procedência. 

A recepção de “Duna” foi bastante dividida. Parte da crítica e dos fãs considerou a adaptação confusa, excessivamente comprimida e distante do espírito do romance. Outros enxergaram na personalidade visual e na estranheza de Lynch os elementos que fazem a produção permanecer interessante. Essa divisão continua décadas depois. Há quem considere o filme um dos grandes tropeços da carreira do diretor. Há também quem o veja como uma experiência singular, imperfeita e fascinante, especialmente por aquilo que ousa fazer com o material de Herbert.

O próprio Lynch ficou profundamente insatisfeito com a versão final. Ele chegou a pedir que seu nome fosse retirado da versão estendida produzida para a televisão americana, utilizando o pseudônimo Alan Smithee na direção e Judas Booth no roteiro. O gesto dizia muito sobre sua relação com um projeto que havia consumido anos de trabalho. 

“Duna” é melhor compreendido como documento de uma tentativa impossível: condensar um romance monumental em pouco mais de duas horas e, ao mesmo tempo, preservar a estranheza de um cineasta como David Lynch. O resultado é irregular, às vezes desajeitado, frequentemente exagerado e, em alguns momentos, involuntariamente engraçado. Também é visualmente inventivo, musicalmente marcante e cheio de escolhas que permanecem na memória. É um filme que pode irritar quem espera uma adaptação fiel e encantar quem gosta de descobrir alguma imagem inesperada, um figurino absurdo, uma criatura gigantesca ou Patrick Stewart entrando em batalha com um pug. 


Ficha técnica
“Duna” | “Dune” (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura. Duração: 137 minutos. Direção e roteiro: David Lynch. Baseado no romance “Duna”, de Frank Herbert. Produção: Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis. Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Kenneth McMillan, Sean Young, Virginia Madsen, Sting, Max von Sydow, Patrick Stewart, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Silvana Mangano, Freddie Jones, Richard Jordan, Everett McGill, Siân Phillips, Paul L. Smith, Alicia Witt, Dean Stockwell, Jack Nance, entre outros. Música: Brian Eno e Toto. Cinematografia: Freddie Francis. Direção de arte: Pier Luigi Basile. Figurino: Bob Ringwood. Edição: Antony Gibbs. Companhia produtora: De Laurentiis. Distribuição nos Estados Unidos: Universal Pictures. Lançamento nos Estados Unidos: 14 de dezembro de 1984. Idiomas: Inglês e italiano. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Aos 97 anos, Nathália Timberg encara "Fôlego" e reafirma a paixão pelo teatro


Texto inédito de Andréa Bassitt, escrito especialmente para a atriz, acompanha uma veterana dos palcos diante das dificuldades para manter de pé o teatro que construiu ao longo da vida. Foto: Fernando Ocazione

Aos 97 anos e em plena atividade profissional, Nathália Timberg volta aos palcos para protagonizar "Fôlego", espetáculo inédito escrito por Andréa Bassitt especialmente para a atriz. Com direção de Ricardo Grasson, a montagem pode ser assistida no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, onde permanece em cartaz até 13 de dezembro. As atrizes Carla Marins e Rita Elmôr completam o elenco.

Na peça, Nathália interpreta Rosa, uma atriz que fundou um teatro ao lado da irmã e do cunhado, ambos já falecidos. Durante décadas, os três mantiveram o espaço, que acabou se tornando uma referência cultural de sua geração. Com o passar dos anos, porém, Rosa fica sozinha diante das dificuldades financeiras e da falta de recursos para manter o teatro funcionando. 

Escrito especialmente para Nathália Timberg e inspirado em aspectos de sua trajetória, "Fôlego" não é uma biografia. Andréa Bassitt realizou uma pesquisa sobre a vida da atriz para criar uma narrativa ficcional que parte da relação visceral de Nathália com o teatro. “Deixei que a imaginação ficasse livre para falar de uma mulher cuja casa é o teatro, essa foi a essência do texto. A partir desse ponto, deixei que a imaginação fluísse, mas sem perder a conexão com a vida dela, toda dedicada ao teatro que, num sentido metafórico, se tornou sua casa”, explica a autora.

Para Nathália, a relação com os palcos vem de uma vida inteira. “É uma vida inteira respirando teatro. Foi assim que aprendi a estar no mundo e a me comunicar com os que estavam à minha volta. Depois desse tempo longe dos palcos, é como se eu tivesse estado privada de ar e agora, finalmente, pudesse voltar a respirar”, explica.

A dramaturgia também incorpora referências à trajetória da atriz e à história do teatro brasileiro. Uma delas é "Antígona", de Jean Anouilh, protagonizada por Nathália em 1964. Em uma das apresentações daquela montagem, a plateia chegou a se manifestar dizendo “não” a Creonte junto com a personagem. Ricardo Grasson trabalha com Nathália há quase duas décadas e identifica na proximidade entre atriz e personagem uma das camadas mais interessantes da montagem.

“A Rosa mistura muito da história de vida da Nathália e da história do teatro brasileiro. É uma atriz de 97 anos que passou a vida inteira no teatro, vivendo com o teatro e vivendo do teatro. É um pouco o que a Nathália faz hoje: ela não deixa o teatro sair dela”, afirma o diretor. O conflito ganha novos contornos quando Juliana (Carla Marins), sobrinha de Rosa, apresenta uma proposta para vender o imóvel a uma igreja. Laura (Rita Elmôr), afilhada de Rosa e filha de uma antiga camareira do teatro, torna-se uma de suas principais aliadas.

A possível venda do espaço amplia a discussão para a própria sobrevivência dos teatros. A situação vivida por Rosa dialoga com uma realidade conhecida no setor cultural: salas que fecham as portas, dificuldades financeiras e novas formas de consumo disputando a atenção do público com as artes presenciais.

Na encenação, Grasson parte do realismo da dramaturgia e da situação vivida pelos personagens. “O espetáculo fala do passado porque é importante termos consciência dos que vieram antes e do que foi feito antes, para entendermos aquilo que estamos fazendo e o que queremos para o futuro. Pretendo trabalhar de maneira muito realista, porque o texto nos coloca diante daquilo que estamos vivendo. Vamos lidar com o imagético e o lúdico, mas com o pé no chão”, conclui.

Andréa Bassitt amplia a questão para a relação entre arte, sociedade e a condição da própria protagonista. “A arte, por meio do teatro, se comunica diretamente com a plateia, com a sociedade, que é um reflexo das histórias contadas em cena”, afirma. A autora também chama atenção para a idade de Rosa e para a trajetória construída pela personagem ao longo de décadas: “Rosa é uma senhora de 97 anos, que trabalhou a vida toda, fez uma carreira digna, não tem filhos e vê sua vida sendo ameaçada por um sistema que devora os mais frágeis. A luta de Rosa é a luta de todos nós”.

Para Grasson, a presença de Nathália em cena resume uma das questões centrais de "Fôlego": a vontade de continuar. “Ela tem consciência de tudo o que fez e vontade de continuar fazendo até o último dia. É isso que a Nathália pensa hoje: continuar trabalhando, continuar fazendo teatro. A gente vai passar, mas o teatro continua”. Aos 97 anos, Nathália segue fazendo aquilo que a personagem Rosa conhece tão bem: viver do teatro, viver com o teatro e, sobretudo, continuar respirando por ele.


Ficha técnica
Espetáculo "Fôlego"
Elenco: Nathália Timberg, Carla Marins e Rita Elmôr. Texto: Andréa Bassitt. Direção: Ricardo Grasson.
Cenário: Cris Aizner. Figurinos e visagismo: Fabio Namatame. Iluminação: Cesar Pivetti.bTrilha sonora: Aghata. Gerente de captação e casting: Marcus Montenegro. Produção executiva: Rosy Farias.
Coordenação de produção: Andréa Bassitt. Produção/Administração: Oasis Empreendimentos Artísticos Ltda. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.


Serviço
Espetáculo "Fôlego"
Duração: 80 minutos. Classificação: 12 anos. Sesc Santo Amaro | Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro/São Paulo. Temporada: até dia 13 de dezembro. Quintas, sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00. Sessões extras: 13 de novembro, sexta-feira, às 15h00; 4 de dezembro, sexta-feira, às 15h00. Acessibilidade em Libras: 5, 13, 28 de novembro e 6 de dezembro. Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$ 35,00 (meia) e R$ 21,00 (Credencial Plena). Venda disponível on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site da Central de Relacionamento do Sesc e nas bilheterias das unidades.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 21h30; sábado, domingo e feriado, das 10h00 às 18h30. Como chegar de transporte público: 300 metros a pé da Estação Largo Treze (metrô); 900 metros a pé da Estação Santo Amaro (CPTM); 350 metros a pé do Terminal Santo Amaro (ônibus).
Acessibilidade: a praça dá acesso a todos os andares (subsolo, térreo, 1º pavimento e 2º pavimento) do prédio e aos espaços de atividades por meio de dois elevadores. A unidade possui banheiros e vestiários adaptados para pessoas com mobilidade reduzida, espaço reservado no teatro e seis vagas especiais no estacionamento.
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