quinta-feira, 5 de novembro de 2026

.: Crítica: "O Bosque Selvagem" é obra-prima épica repleta de subtramas

Cartaz de "O Bosque Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


Ao assistir "O Bosque Selvagem" não espere uma história de contos de fadas convencional ou algo semelhante ao inesquecível "Coraline e o Mundo Secreto" (2009). A grandiosa animação em stop-motion de 2026, produzida pelo Estúdio Laika e dirigida por Travis Knight, entrega fantasia bastante madura, assim como os diálogos. Em "O Bosque Selvagem" tudo começa, de fato, a partir do momento em que a jovem Prue McKeel adentra a floresta, estando o colega tímido e medroso Curtis logo atrás.

Nos primeiros minutos, os pais da garota são apresentados no papel de zelosos e incentivadores de uma boa leitura. Contudo, é preciso seguir as ordens de não levar o pequeno Mac McKeel porta a fora. Eis que a garota não obedece e, após viver horas de diversão numa bicicleta puxando um carrinho com o garotinho, Prue decide dar uma pausa no parquinho da região, mas um bando de corvos rapta o menininho. Assim, ela embarca numa aventura imprevisível na floresta proibida e encantada (nos arredores de Portland).

Com direito a confrontos estilo a saga de "O Senhor dos Anéis", "O Bosque Selvagem" que levou 16 anos para a conclusão é indiscutivelmente um épico da animação que trabalha temas complicados como luto, violência, perda e dilemas morais profundos (impulsionados pela dor e pela ambição da personagem da Rainha Viúva Alexandra, dublada por Carey Mulligan).

A produção que soma 2 horas e 10 minutos de duração e repleta de subtramas, utilizou de 233 a 236 bonecos diferentes, de tamanhos variando desde a ratinha Septima com 4,1 cm até a personagem General (dublada por Angela Basset) com 86 cm. Sendo que cerca de 142.030 rostos substituíveis impressos em 3D foram trocados quadro a quadro (24 rostos por segundo de filme) para garantir expressões faciais fluidas. 

O resultado na telona de cinema é uma obra-prima baseada no livro homônimo infanto juvenil de Colin Meloy e ilustrado por Carson Ellis, publicado originalmente em 2011. Vale a pena conferir o longa que não é recomendado para menores de 14 anos!  


Filme: O Bosque Selvagem. Título Original: Wildwood. Direção: Travis Knight. Roteiro: Chris Butler (adaptado dos livros de Colin Meloy e Carson Ellis). Produção: LAIKA. Gênero: Animação, Aventura, Família, Fantasia Sombria. Duração: 130 minutos (2h 10min). Distribuição no Brasil: Imagem Filmes. Elenco de Voz Original: Peyton Elizabeth Lee (Prue McKeel), Jacob Tremblay (Curtis), Mahershala Ali, Angela Bassett. Data de Lançamento no Brasil: 29 de outubro de 2026. Sinopse: Uma adolescente inicia uma missão desesperada de resgate em uma floresta encantada depois que seu irmãozinho é raptado por um bando de corvos. Acompanhada por um colega de classe azarado, ela arrisca tudo ao navegar por um mundo cheio de bandidos, animais falantes e figuras poderosas. 

Trailer de "O Bosque Selvagem"



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Cartaz de "Street Fighter"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em novembro de 2026


O novo longa de ação e aventura produzido para o clássico dos jogos de fliperama de mesmo nome, "Street Fighter", é um recomeço cinematográfico para a franquia. A produção com Andrew Koji, Noah Centineo e Callina Liang, nitidamente eleva o nível de seus antecessores, "Street Fighter - A Última Batalha" (1994) e do spin-off não canônico de 2009, "Street Fighter: A Lenda de Chun-Li". 

O roteiro assinado por T.J. Fixman e Kitao Sakurai (com colaborações creditadas ou apontadas em versões de desenvolvimento também por Dalan Musson), agrada aos fãs, mas, ao público em geral, deixa a sensação de que poderia ter sido muito melhor. Não pelo uso do bom CGI, mas pelo atropelamento em que todo o enredo é apresentado. No entanto, é bom destacar que entrega embates memoráveis, seja o do Ryu em meio a névoa da sauna ou quando Ken finaliza o confronto no estilo do jogo.

Ambientado nos anos 90, o filme dirigido por Kitao Sakurai com duração de 1 hora e 59 minutos traz diversos personagens importantes da criação da CAPCOM (multinational desenvolvedora e publicadora japonesa de jogos eletrônicos), mas foca na tríade Ryu (Andrew Koji, de "Trem-Bala"), Ken Masters (Noah Centineo, de "Para Todos os Garotos Que Já Amei", "Adão Negro") e Chun-Li (Callina Liang, de "Presença"). Para tanto, apresenta os parceiros, quase irmãos Ryu e Ken que passam anos afastados numa disputa pessoal e de orgulho sobre o passado. 

Longe das lutas, Ryu tenta viver discretamente com as vendas de seu lámen num carrinho decadente de rua. Em tempo, nem mesmo um gatinho esfomeado é capaz de degustar tal iguaria. A derrocada de Ryu até remete a de Johnny Lawrence, na série "Cobra Kai", uma vez que Ken tenta sobreviver expondo-se nos holofotes televisivos quebrando carros. O que faz lembrar do personagem Johnny Cage (Karl Urban), do recente "Mortal Kombat II", mas sem a mesma qualidade e nível de entretenimento.

Eis que o tempo chega para o loiro fortão que também tem a figura esquecida pela grande massa. Por outro lado, Ken mantém ao lado o fiel parceiro Dan Hibiki (Andrew Schulz). Contudo, os rumos das vidas de Ken e Ryu voltam a serem entrelaçados por obra de Chun-Li, movida numa tarefa sombria de M. Bison (David Dastmalchian, de "Entrevista com o Demônio").

"Street Fighter" entrega uma trama confusa em meio a tantos personagens que circundam o trio principal, desde Dhalsim (Vidyut Jammwal, de "Jungle - Protegendo a Selva"), Balrog (Curtis "50 Cent" Jackson, a Cammy (Mel Jarnson, "A Fera"), cabendo duas aparições de Blanka (Jason Momoa, "Aquaman"). Ao pecar por excesso, com até dois vilões, não apresenta o arco dos personagens e acaba desperdiçando sequência importantes, como o torneio oficial que em meio a tantos outros confrontos fica em segundo plano. 

Contudo, "Street Fighter" deixa clara a busca de entreter o público saudosista do jogo. Sem se levar tão a sério, o longa tem como ponto alto os flashbacks em estilo anime, entregando todo o poder dos embates que faltaram em algumas cenas em live-action. Para quem busca diversão, a trama do famoso golpe Hadouken é uma boa pedida e promete sequência, com direito a cena pós-crédito.

Filme: Street Fighter. Título original: Street Fighter. Gênero: Ação, Artes Marciais, Comédia. Duração: 1h 59min (119 minutos). Direção: Kitao Sakurai. Roteiro: T.J. Fixman, Dalan Musson e Kitao Sakurai. Produção: Legendary Pictures, Capcom. Distribuição: Paramount Pictures. País de origem: Estados Unidos / Japão. Elenco Principal: Andrew Koji (Ryu), Noah Centineo (Ken Masters), Callina Liang (Chun-Li), David Dastmalchian (M. Bison), Cody Rhodes (Guile), Jason Momoa (Blanka / Jimmy), Roman Reigns (Akuma), 50 Cent (Balrog). Ano de lançamento: 2026 (estreia no Brasil em 15 de outubro de 2026). Sinopse: Ambientado em 1993, a história acompanha os amigos de infância e artistas marciais Ryu e Ken Masters, que estão afastados há anos e são recrutados pela misteriosa Chun-Li para competir no World Warrior Tournament (Torneio dos Guerreiros Mundiais). Ao se prepararem para o combate, eles descobrem uma conspiração global sombria orquestrada pelo ditador M. Bison, precisando confrontar o passado para sobreviver.

Trailer de "Street Fighter"





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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

.: “Duna” desafia David Lynch com ficção científica grandiosa e estranha


Produção de 1984 tenta condensar o universo de Frank Herbert em 137 minutos e acaba encontrando sua força justamente nas imagens, nos figurinos e na atmosfera psicodélica

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Denis Villeneuve transformar “Duna” em uma das grandes experiências cinematográficas contemporâneas, David Lynch já havia encarado a tarefa de levar o universo criado por Frank Herbert ao cinema. O resultado, lançado em 1984, continua provocando uma reação curiosa: é perfeitamente possível reconhecer os problemas do filme e, ainda assim, continuar fascinado por ele. 

“Duna”, que estreia no streaming Belas Artes À La Carte, acompanha Paul Atreides (Kyle MacLachlan), jovem integrante de uma poderosa família nobre que se muda para Arrakis, planeta desértico responsável pela produção da especiaria Melange, substância fundamental para a expansão da humanidade pelo universo. O controle de Arrakis, portanto, significa controlar uma das maiores fontes de poder daquele futuro marcado por disputas políticas, guerras e intrigas.

A situação muda radicalmente quando os Atreides são traídos. Paul precisa sobreviver ao deserto, aproximar-se dos Fremen e compreender as visões que apontam para um destino muito maior do que ele próprio imaginava. No papel, uma aventura espacial de proporções gigantescas. Na prática, um dos projetos mais espinhosos da carreira de Lynch. O diretor passou cerca de três anos e meio trabalhando em “Duna”, depois de recusar a oportunidade de dirigir “O Retorno de Jedi”. Antes dele, Ridley Scott havia demonstrado interesse pelo projeto, mas acabou deixando a produção. Lynch assumiu direção e roteiro e tentou colocar no filme uma quantidade impressionante de informações do romance de Herbert.

Com uma história extremamente complexa, cheia de casas nobres, planetas, religiões, disputas políticas, profecias e termos próprios, “Duna” precisava de espaço. A versão cinematográfica, porém, chegou aos cinemas com 137 minutos. O corte original era consideravelmente maior, mas a interferência do estúdio reduziu a duração e, junto com ela, parte da capacidade do filme de desenvolver personagens, relações e acontecimentos. O resultado é uma narrativa que muitas vezes parece correr para explicar o que deveria ter tempo para apresentar. 

Vozes em off anunciam pensamentos, diálogos despejam informações e personagens aparecem com pouco espaço para ganhar profundidade. Para quem nunca leu o livro, acompanhar aquela quantidade de nomes e conceitos pode ser uma espécie de prova de resistência interplanetária. Existe ainda um detalhe curioso: Lynch não parece especialmente interessado em tornar aquele universo confortável para o espectador. A versão lynchiana de "Duna" tem uma aparência própria, frequentemente estranha, exagerada e psicodélica. A direção de arte e os figurinos carregam uma personalidade que continua chamando atenção décadas depois. Os cenários têm peso, textura e extravagância. Os trajes dos personagens parecem pertencer a uma civilização que passou séculos acumulando referências culturais de diferentes mundos e decidiu colocar tudo no mesmo guarda-roupa.

Os efeitos visuais, naturalmente, envelheceram. Algumas soluções parecem artesanais, outras revelam sem cerimônia as limitações técnicas da época. Ainda assim, existe uma dimensão tátil nos efeitos práticos e nas miniaturas que ajuda a explicar por que “Duna” continua despertando carinho entre parte dos admiradores da ficção científica. Os gigantescos vermes de areia de Arrakis são um bom exemplo. Vistos em uma tela pequena, determinados efeitos podem parecer frágeis. Em uma projeção de grande escala, porém, a dimensão física das criaturas ganha outra força. A experiência também favorece a fotografia, os cenários e o desenho de produção, elementos que sustentam boa parte do encanto do filme.

A trilha sonora de Toto, com participação de Brian Eno, é outro dos pontos fortes. O som ajuda a construir uma atmosfera grandiosa e peculiar, especialmente nas passagens envolvendo Arrakis e a Guilda Espacial. É uma música que, mesmo separada das imagens, continua capaz de evocar imediatamente o universo de Lynch. O elenco também merece atenção. Kyle MacLachlan interpreta Paul Atreides em seu primeiro grande papel no cinema e iniciaria ali uma parceria fundamental com Lynch. Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Sean Young, Virginia Madsen, Max von Sydow, Patrick Stewart e Sting completam uma escalação que hoje parece quase inacreditável.

Patrick Stewart surge como Gurney Halleck em um dos detalhes mais curiosos da produção: carregando um pug durante uma batalha. É uma imagem tão improvável que parece ter sido inventada por alguém depois de assistir ao filme, mas está lá. O músico Sting, por sua vez, interpreta Feyd-Rautha Harkonnen e protagoniza uma das cenas mais lembradas da produção. Ele quase apareceu completamente nu durante o famoso banho de vapor, mas o estúdio mudou de ideia pouco antes das filmagens. O figurino usado na sequência acabou sendo produzido às pressas.

Os bastidores também foram pouco amigáveis. As filmagens no México provocaram problemas gastrointestinais em integrantes do elenco e da equipe. Para evitar novos contratempos, a produção construiu uma grande cafeteria para concentrar a alimentação e chegou a importar produtos dos Estados Unidos. Os trajes da Guilda Espacial têm outra história peculiar. Segundo os relatos reunidos sobre a produção, algumas peças foram encontradas em um antigo quartel de bombeiros abandonado e originalmente eram utilizadas como sacos para cadáveres. A equipe reaproveitou o material sem informar aos atores sua procedência. 

A recepção de “Duna” foi bastante dividida. Parte da crítica e dos fãs considerou a adaptação confusa, excessivamente comprimida e distante do espírito do romance. Outros enxergaram na personalidade visual e na estranheza de Lynch os elementos que fazem a produção permanecer interessante. Essa divisão continua décadas depois. Há quem considere o filme um dos grandes tropeços da carreira do diretor. Há também quem o veja como uma experiência singular, imperfeita e fascinante, especialmente por aquilo que ousa fazer com o material de Herbert.

O próprio Lynch ficou profundamente insatisfeito com a versão final. Ele chegou a pedir que seu nome fosse retirado da versão estendida produzida para a televisão americana, utilizando o pseudônimo Alan Smithee na direção e Judas Booth no roteiro. O gesto dizia muito sobre sua relação com um projeto que havia consumido anos de trabalho. 

“Duna” é melhor compreendido como documento de uma tentativa impossível: condensar um romance monumental em pouco mais de duas horas e, ao mesmo tempo, preservar a estranheza de um cineasta como David Lynch. O resultado é irregular, às vezes desajeitado, frequentemente exagerado e, em alguns momentos, involuntariamente engraçado. Também é visualmente inventivo, musicalmente marcante e cheio de escolhas que permanecem na memória. É um filme que pode irritar quem espera uma adaptação fiel e encantar quem gosta de descobrir alguma imagem inesperada, um figurino absurdo, uma criatura gigantesca ou Patrick Stewart entrando em batalha com um pug. 


Ficha técnica
“Duna” | “Dune” (título original)
Gênero: Ficção científica, aventura. Duração: 137 minutos. Direção e roteiro: David Lynch. Baseado no romance “Duna”, de Frank Herbert. Produção: Raffaella De Laurentiis. Produção executiva: Dino De Laurentiis. Elenco: Kyle MacLachlan, Francesca Annis, Jürgen Prochnow, Kenneth McMillan, Sean Young, Virginia Madsen, Sting, Max von Sydow, Patrick Stewart, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Silvana Mangano, Freddie Jones, Richard Jordan, Everett McGill, Siân Phillips, Paul L. Smith, Alicia Witt, Dean Stockwell, Jack Nance, entre outros. Música: Brian Eno e Toto. Cinematografia: Freddie Francis. Direção de arte: Pier Luigi Basile. Figurino: Bob Ringwood. Edição: Antony Gibbs. Companhia produtora: De Laurentiis. Distribuição nos Estados Unidos: Universal Pictures. Lançamento nos Estados Unidos: 14 de dezembro de 1984. Idiomas: Inglês e italiano. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 3 de novembro de 2026

.: Aos 97 anos, Nathália Timberg encara "Fôlego" e reafirma a paixão pelo teatro


Texto inédito de Andréa Bassitt, escrito especialmente para a atriz, acompanha uma veterana dos palcos diante das dificuldades para manter de pé o teatro que construiu ao longo da vida. Foto: Fernando Ocazione

Aos 97 anos e em plena atividade profissional, Nathália Timberg volta aos palcos para protagonizar "Fôlego", espetáculo inédito escrito por Andréa Bassitt especialmente para a atriz. Com direção de Ricardo Grasson, a montagem pode ser assistida no Sesc Santo Amaro, em São Paulo, onde permanece em cartaz até 13 de dezembro. As atrizes Carla Marins e Rita Elmôr completam o elenco.

Na peça, Nathália interpreta Rosa, uma atriz que fundou um teatro ao lado da irmã e do cunhado, ambos já falecidos. Durante décadas, os três mantiveram o espaço, que acabou se tornando uma referência cultural de sua geração. Com o passar dos anos, porém, Rosa fica sozinha diante das dificuldades financeiras e da falta de recursos para manter o teatro funcionando. 

Escrito especialmente para Nathália Timberg e inspirado em aspectos de sua trajetória, "Fôlego" não é uma biografia. Andréa Bassitt realizou uma pesquisa sobre a vida da atriz para criar uma narrativa ficcional que parte da relação visceral de Nathália com o teatro. “Deixei que a imaginação ficasse livre para falar de uma mulher cuja casa é o teatro, essa foi a essência do texto. A partir desse ponto, deixei que a imaginação fluísse, mas sem perder a conexão com a vida dela, toda dedicada ao teatro que, num sentido metafórico, se tornou sua casa”, explica a autora.

Para Nathália, a relação com os palcos vem de uma vida inteira. “É uma vida inteira respirando teatro. Foi assim que aprendi a estar no mundo e a me comunicar com os que estavam à minha volta. Depois desse tempo longe dos palcos, é como se eu tivesse estado privada de ar e agora, finalmente, pudesse voltar a respirar”, explica.

A dramaturgia também incorpora referências à trajetória da atriz e à história do teatro brasileiro. Uma delas é "Antígona", de Jean Anouilh, protagonizada por Nathália em 1964. Em uma das apresentações daquela montagem, a plateia chegou a se manifestar dizendo “não” a Creonte junto com a personagem. Ricardo Grasson trabalha com Nathália há quase duas décadas e identifica na proximidade entre atriz e personagem uma das camadas mais interessantes da montagem.

“A Rosa mistura muito da história de vida da Nathália e da história do teatro brasileiro. É uma atriz de 97 anos que passou a vida inteira no teatro, vivendo com o teatro e vivendo do teatro. É um pouco o que a Nathália faz hoje: ela não deixa o teatro sair dela”, afirma o diretor. O conflito ganha novos contornos quando Juliana (Carla Marins), sobrinha de Rosa, apresenta uma proposta para vender o imóvel a uma igreja. Laura (Rita Elmôr), afilhada de Rosa e filha de uma antiga camareira do teatro, torna-se uma de suas principais aliadas.

A possível venda do espaço amplia a discussão para a própria sobrevivência dos teatros. A situação vivida por Rosa dialoga com uma realidade conhecida no setor cultural: salas que fecham as portas, dificuldades financeiras e novas formas de consumo disputando a atenção do público com as artes presenciais.

Na encenação, Grasson parte do realismo da dramaturgia e da situação vivida pelos personagens. “O espetáculo fala do passado porque é importante termos consciência dos que vieram antes e do que foi feito antes, para entendermos aquilo que estamos fazendo e o que queremos para o futuro. Pretendo trabalhar de maneira muito realista, porque o texto nos coloca diante daquilo que estamos vivendo. Vamos lidar com o imagético e o lúdico, mas com o pé no chão”, conclui.

Andréa Bassitt amplia a questão para a relação entre arte, sociedade e a condição da própria protagonista. “A arte, por meio do teatro, se comunica diretamente com a plateia, com a sociedade, que é um reflexo das histórias contadas em cena”, afirma. A autora também chama atenção para a idade de Rosa e para a trajetória construída pela personagem ao longo de décadas: “Rosa é uma senhora de 97 anos, que trabalhou a vida toda, fez uma carreira digna, não tem filhos e vê sua vida sendo ameaçada por um sistema que devora os mais frágeis. A luta de Rosa é a luta de todos nós”.

Para Grasson, a presença de Nathália em cena resume uma das questões centrais de "Fôlego": a vontade de continuar. “Ela tem consciência de tudo o que fez e vontade de continuar fazendo até o último dia. É isso que a Nathália pensa hoje: continuar trabalhando, continuar fazendo teatro. A gente vai passar, mas o teatro continua”. Aos 97 anos, Nathália segue fazendo aquilo que a personagem Rosa conhece tão bem: viver do teatro, viver com o teatro e, sobretudo, continuar respirando por ele.


Ficha técnica
Espetáculo "Fôlego"
Elenco: Nathália Timberg, Carla Marins e Rita Elmôr. Texto: Andréa Bassitt. Direção: Ricardo Grasson.
Cenário: Cris Aizner. Figurinos e visagismo: Fabio Namatame. Iluminação: Cesar Pivetti.bTrilha sonora: Aghata. Gerente de captação e casting: Marcus Montenegro. Produção executiva: Rosy Farias.
Coordenação de produção: Andréa Bassitt. Produção/Administração: Oasis Empreendimentos Artísticos Ltda. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes.


Serviço
Espetáculo "Fôlego"
Duração: 80 minutos. Classificação: 12 anos. Sesc Santo Amaro | Rua Amador Bueno, 505, Santo Amaro/São Paulo. Temporada: até dia 13 de dezembro. Quintas, sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00. Sessões extras: 13 de novembro, sexta-feira, às 15h00; 4 de dezembro, sexta-feira, às 15h00. Acessibilidade em Libras: 5, 13, 28 de novembro e 6 de dezembro. Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$ 35,00 (meia) e R$ 21,00 (Credencial Plena). Venda disponível on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP ou pelo site da Central de Relacionamento do Sesc e nas bilheterias das unidades.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 21h30; sábado, domingo e feriado, das 10h00 às 18h30. Como chegar de transporte público: 300 metros a pé da Estação Largo Treze (metrô); 900 metros a pé da Estação Santo Amaro (CPTM); 350 metros a pé do Terminal Santo Amaro (ônibus).
Acessibilidade: a praça dá acesso a todos os andares (subsolo, térreo, 1º pavimento e 2º pavimento) do prédio e aos espaços de atividades por meio de dois elevadores. A unidade possui banheiros e vestiários adaptados para pessoas com mobilidade reduzida, espaço reservado no teatro e seis vagas especiais no estacionamento.

.: Documentário impressionante registra vida de Fatma Hassouna sob as bombas


Documentário de Sepideh Farsi acompanha por videochamadas a rotina de uma fotojornalista palestina em Gaza e ganha outro significado após a morte da jovem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Com a impossibilidade de entrar em Gaza, a cineasta iraniana Sepideh Farsi encontrou no celular uma maneira de se aproximar de quem vivia sob os bombardeios. Foi assim que conheceu Fatma Hassouna, jovem fotojornalista palestina que passou a registrar para Farsi o cotidiano de uma população submetida à guerra. Durante mais de 200 dias, as duas mantiveram contato por videochamadas, trocando imagens, fotografias, mensagens e impressões sobre uma realidade marcada pela destruição.

O resultado dessa relação está em “Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe”, documentário que chega à plataforma Reserva Imovision. A produção acompanha Fatma entre conversas pela internet e imagens que ela própria registrava em Gaza, enquanto Farsi, do outro lado da tela, tentava manter aberta uma ligação com uma jovem que se tornou os olhos dela naquela região. O formato, aparentemente limitado pelas telas de celulares e pela precariedade das conexões, acaba incorporando ao filme a própria distância física entre as duas.

Fatma fala sobre fotografia, família, alimentação, sonhos e sobre a vontade de conhecer outros lugares. Ao mesmo tempo, relata os efeitos dos ataques que atingem a região e fotografa os escombros ao redor de onde vive. O filme alterna a convivência entre a brutalidade da guerra e os momentos cotidianos das conversas e aproxima o público da experiência de Fatma por meio de assuntos que vão dos bombardeios e das mortes de familiares a poesia, café, roupas e esperanças pessoais.

A câmera de Farsi também permanece consciente da própria posição dela. Muitas imagens são feitas a partir da tela de outro celular, enquanto televisores ligados ao fundo exibem notícias do conflito. A precariedade do sinal, os congelamentos da imagem e o áudio irregular passam a integrar a experiência de assistir ao documentário. Em uma das conversas, quando Farsi manifesta a angústia por não conseguir ajudar a amiga, Fatma responde que o simples fato de ela estar ali, ouvindo, já significa alguma coisa. 

A trajetória de Farsi também ajuda a compreender a proximidade entre as duas. Nascida no Irã e radicada em Paris, a cineasta deixou seu país ainda jovem e construiu uma carreira que inclui documentários, ficção e animação. A filmografia dela é marcada pelo interesse por conflitos políticos e pelas experiências de pessoas submetidas a situações de violência e deslocamento.

O filme foi selecionado para a mostra ACID do Festival de Cannes de 2025. A notícia chegou a Fatma em 15 de abril daquele ano. No dia seguinte, ela foi morta, aos 25 anos, junto de familiares, em um ataque israelense contra sua casa, segundo a produtora do filme e o Instituto Moreira Salles. A circunstância altera profundamente a percepção do material registrado durante os meses anteriores: aquelas conversas passam a constituir também o registro de uma vida que foi interrompida.

A morte de Fatma aconteceu antes da estreia em Cannes, mas o documentário preserva sua presença em momentos que vão muito além da condição de vítima de uma guerra. Ela aparece como fotógrafa, jovem apaixonada pelo que fazia, mulher com planos para o futuro e alguém que ainda encontrava espaço para sorrir diante da câmera. É um filme pensado como retrato de uma jovem que também passa a carregar a dimensão de uma despedida.

A escolha estética de Sepideh Farsi dispensa uma estrutura convencional de reportagem. As imagens produzidas por Fatma, os registros feitos pela diretora e as chamadas virtuais constroem um documento marcado pela intimidade. É uma janela para a vida em Gaza durante os bombardeios, realizada a partir das conversas entre as duas. O filme também ganhou reconhecimento em festivais internacionais. Entre as premiações estão o prêmio de Melhor Documentário no Arab Film Festival e o Gold Hugo de Melhor Documentário no Chicago International Film Festival, além de outras seleções e indicações.

“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” mantém aberta a conversa entre Sepideh Farsi e Fatma Hassouna. O celular, que poderia ser apenas uma limitação diante da distância, torna-se o instrumento que permite preservar a voz, o rosto e as imagens de uma jovem fotojornalista que continuou fotografando enquanto tentava sobreviver em Gaza.


Ficha técnica
“Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe” | “Put Your Soul on Your Hand and Walk” (título original) | “Com a Alma na Mão, Caminha” (título em Portugal)
Gênero: documentário. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 15 de maio de 2025, no Festival de Cannes; lançamento comercial francês em 24 de setembro de 2025. Idioma: árabe, francês e inglês. Direção e roteiro: Sepideh Farsi. Elenco: Fatma Hassouna e Sepideh Farsi. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Clássico, “Aria” leva ópera ao cinema pelas lentes de diretores consagrados


Clássico de 1987 reúne Robert Altman, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Nicolas Roeg e outros nomes do cinema em dez interpretações visuais de famosas árias

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A ópera ganha imagens bem pouco comportadas em “Aria”, produção de 1987 que reúne dez diretores de diferentes estilos para transformar árias famosas em pequenas narrativas de desejo, ciúme, erotismo, obsessão, violência e humor. O filme, concebido pelo produtor britânico Don Boyd, chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte como uma oportunidade para reencontrar uma experiência cinematográfica tão ambiciosa quanto peculiar.

Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge e Julien Temple receberam liberdade para escolher uma ária e criar uma interpretação visual própria. O resultado passa longe de uma adaptação convencional de ópera: cada segmento encontra sua própria maneira de conversar com a música, muitas vezes abandonando completamente a narrativa original. O projeto reúne, assim, dez curtas que funcionam como um mosaico de linguagens, atmosferas e provocações. O Festival de Cannes selecionou “Aria” para a competição oficial de 1987 e ainda o escolheu como filme de encerramento daquela edição.

A ideia partiu de Don Boyd, produtor que queria aproximar duas de suas paixões, cinema e música, tomando como referência o impacto de “Fantasia”, da Disney, mas trabalhando com atores e imagens em ação real. Cada diretor escolheu uma peça do repertório operístico e recebeu liberdade para criar sua própria leitura. O projeto acabou envolvendo dez diretores de fotografia, 19 estúdios e locações, além de dezenas de atores e centenas de figurantes.

A diversidade de propostas é justamente uma das atrações do filme. Robert Altman revisita “Les Boréades”, de Rameau, enquanto Bruce Beresford trabalha com “Die tote Stadt”, de Korngold. Bill Bryden parte de “I Pagliacci”, de Leoncavallo; Godard encara “Armide”, de Lully; Derek Jarman escolhe “Louise”, de Charpentier; e Franc Roddam mergulha em “Tristão e Isolda”, de Wagner. Nicolas Roeg utiliza “Un ballo in maschera”, de Verdi, Ken Russell aposta em “Turandot”, de Puccini, Charles Sturridge trabalha com “La forza del destino”, também de Verdi, e Julien Temple fecha a seleção com trechos de “Rigoletto”.

O segmento de Godard é um dos exemplos mais curiosos da proposta. Em vez de reproduzir a trama de “Armide”, o cineasta coloca a música como combustível para uma construção visual envolvendo mulheres e fisiculturistas em uma academia. A relação entre corpo, desejo e performance ganha uma leitura tão particular quanto provocadora, característica de um filme no qual nenhum diretor parece disposto a simplesmente ilustrar aquilo que a música já conta.

Nicolas Roeg, por sua vez, leva “Un Ballo in Maschera” para uma fantasia histórica protagonizada por Theresa Russell como o rei Zog I da Albânia. A sequência parte de um episódio real ocorrido em Viena, em 1931, e o reorganiza dentro da lógica delirante e sensual do cineasta. John Hurt, Tilda Swinton, Bridget Fonda, Elizabeth Hurley, Beverly D’Angelo e Buck Henry também integram o elenco dessa experiência que mistura música erudita, cinema autoral e uma boa dose de extravagância.

Outro detalhe saboroso da produção envolve Orson Welles. O cineasta chegou a ser convidado por Boyd para participar do projeto, aceitou a proposta e pediu que o contrato fosse enviado a Los Angeles. Welles morreu antes de assiná-lo. A história ganhou um desfecho macabro quando, segundo o próprio Boyd, o documento acabou encaminhado ao endereço que constava nos papéis - justamente a funerária onde o diretor estava sendo velado.

A estrutura de “Aria” também explica por que o filme continua despertando curiosidade décadas depois. Em vez de procurar uma unidade estética impossível diante de dez realizadores, a produção abraça as diferenças entre eles. Altman, Godard, Jarman, Roeg, Ken Russell e Julien Temple, entre outros, levam para o mesmo projeto suas obsessões, seus métodos e seus modos particulares de filmar. O próprio material de arquivo de Don Boyd mostra que alguns conceitos foram modificados durante a produção, enquanto outros chegaram à tela praticamente como haviam sido imaginados no papel.

A recepção crítica foi dividida desde o lançamento, o que talvez seja uma consequência natural de um filme que reúne propostas tão distintas. Roger Ebert enxergou graça na tensão entre os diretores e suas próprias obsessões, enquanto Janet Maslin, do “The New York Times”, considerou a obra irregular. O tempo, porém, ajudou “Aria” a ganhar espaço como uma experiência cinematográfica singular, especialmente pela reunião de realizadores que dificilmente voltariam a dividir uma produção com tamanha liberdade artística.


Ficha técnica
“Aria” (título original) 
Gênero: Drama, comédia, musical. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 18 anos no Reino Unido; a classificação brasileira deve ser confirmada para a disponibilização no Belas Artes à La Carte.
Ano de produção: 1987. Data de lançamento: 27 de maio de 1987. Idioma: Inglês, italiano, francês e alemão. Direção: Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge e Julien Temple. Roteiro: Robert Altman, Bruce Beresford, Bill Bryden, Jean-Luc Godard, Derek Jarman, Franc Roddam, Nicolas Roeg, Ken Russell, Charles Sturridge, Julien Temple e Don Boyd. Elenco: John Hurt, Theresa Russell, Stephanie Lane, Tilda Swinton, Bridget Fonda, Elizabeth Hurley, Beverly D’Angelo, Buck Henry, Anita Morris, Sophie Ward, Julie Hagerty, Geneviève Page, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

.: Taylor Swift, Michelangelo e eleições mostram matemática por outro ângulo


Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, diretor-geral do Impa reúne crônicas publicadas na “Folha de S.Paulo” e revela como números, lógica e pensamento matemático aparecem em situações que vão da cultura pop à política.

O que Taylor Swift, Michelangelo, Platão, inteligência artificial e eleições podem ter em comum? Para o matemático Marcelo Viana, a resposta está muito mais próxima do cotidiano do que muita gente imagina. Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, lançamento da Tinta-da-China Brasil, o diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) mostra que essa ciência aparece em lugares pouco convencionais, inclusive onde o leitor talvez jamais pensasse em procurá-la.

Autor de “Histórias da Matemática”, que conquistou leitores interessados em conhecer a trajetória dessa ciência, e de “A Descoberta dos Números”, Viana reúne no novo volume textos publicados em sua coluna semanal no jornal Folha de S.Paulo. Com uma combinação de precisão científica, curiosidade e leveza narrativa, o escritor aproxima conceitos complexos de situações reconhecíveis, recorrendo a episódios históricos, anedotas e referências culturais. O resultado é um convite para observar o mundo com um pouco mais de atenção aos padrões, às relações e às perguntas que os números ajudam a formular.

Nas crônicas, a matemática encontra espaço na arte, na literatura, na política e até nas disputas da indústria musical. As esculturas inacabadas de Michelangelo, por exemplo, ajudam a apresentar uma questão antiga da filosofia: os conceitos matemáticos são descobertos ou inventados? A trajetória de James McCune Smith, médico e abolicionista, conduz a uma discussão sobre o uso da estatística para desmontar argumentos racistas sustentados por falsas justificativas científicas.

Taylor Swift e Selena Gomez também entram na conversa. A comparação entre as duas artistas serve para explicar o paradoxo de Simpson, fenômeno estatístico que demonstra como a interpretação equivocada de dados pode produzir conclusões enganosas. Já a história de Kurt Gödel aproxima lógica, filosofia e democracia, mostrando como ideias aparentemente distantes podem compartilhar questões fundamentais.

O repertório de Marcelo Viana também passa por situações bastante práticas. O funcionamento dos códigos de barras e dos QR codes, os modelos matemáticos utilizados em sistemas eleitorais e as ferramentas que ajudam atletas olímpicos a aperfeiçoar seus movimentos aparecem entre os assuntos abordados. O autor ainda apresenta o problema do caixeiro-viajante, desafio matemático com aplicações relevantes em áreas como logística e computação.

Ao aproximar matemática e literatura, Viana aproveita para questionar a divisão rígida entre as chamadas ciências humanas e exatas. Criatividade, imaginação e raciocínio lógico aparecem como elementos que podem conviver e se complementar. Afinal, a construção de uma boa história também depende de escolhas, estruturas e relações, enquanto a matemática exige inventividade para formular perguntas e encontrar caminhos.

Organizado em sete blocos temáticos - “Pioneiros e Pioneiras”; “Símbolos, Falácias e Paradoxos”; “Muito Mais do que Uma Linguagem”; “A Matemática e as Máquinas”; “Querelas e Descobertas”; “Números e Mais Números”; e “Todo Poder à Matemática” -, o livro percorre descobertas, controvérsias e personagens que ajudaram a construir o pensamento matemático. Há também atenção especial às mulheres que abriram caminhos nessa área, no Brasil e em outros países. Para quem gosta de colocar a cabeça para funcionar, uma seção final de desafios permite testar o próprio raciocínio.

Em “Matemática para Seres Humanos (e Alguns Robôs)”, Marcelo Viana demonstra que compreender números pode ser uma aventura intelectual bastante divertida. Entre referências à música pop, episódios históricos e problemas que interferem na vida cotidiana, o matemático apresenta uma ciência que continua em movimento e que tem muito a dizer sobre as escolhas, os acontecimentos e as contradições do mundo contemporâneo.


Sobre o autor
Carioca, Marcelo Viana é doutor em matemática, pesquisador titular e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa). Reconhecido internacionalmente por suas pesquisas em sistemas dinâmicos, integra a Academia Brasileira de Ciências e recebeu diferentes prêmios e distinções acadêmicas. Também foi condecorado pela Presidência da República com as Ordens Nacionais do Mérito Científico e do Mérito Educacional.

Colunista da “Folha de S.Paulo”, publicou pela Tinta-da-China Brasil “Histórias da matemática: da contagem nos dedos à inteligência artificial” (2024) e “A descoberta dos números: uma aventura matemática” (2025), títulos que ajudam a aproximar o conhecimento científico de leitores com diferentes formações.


Sobre a editora
Fundada em 2012, no Rio de Janeiro, por Bárbara Bulhosa, a Tinta-da-China Brasil nasceu com a proposta de trazer ao país a excelência editorial da casa portuguesa, criada em Lisboa em 2005. Desde 2022, a editora brasileira está sob os cuidados da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos sediada em São Paulo e dedicada à difusão do livro no Brasil. O catálogo reúne publicações de literatura, história e ciência, além de títulos de humor, jornalismo, quadrinhos e crítica literária.

.: Nobel Isaac Bashevis Singer apresenta histórias cheias de humor e sabedoria


Em “Porque Noé Escolheu a Pomba e Outras Histórias para Crianças”, escritor polonês vencedor do Nobel de Literatura ganha edição brasileira pela Nova Fronteira, com tradução de Christine Ajuz, ilustrações de Ionit Zilberman e prefácio de Ana Maria Machado


A Editora Nova Fronteira apresenta aos leitores brasileiros uma coletânea infantil assinada por um dos grandes nomes da literatura mundial. “Porque Noé Escolheu a Pomba e Outras Histórias para Crianças” reúne narrativas de Isaac Bashevis Singer, escritor polonês que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1978 e construiu uma obra reconhecida pela riqueza de personagens, pelo humor e pela maneira particular de observar o comportamento humano.

Com tradução de Christine Ajuz, ilustrações de Ionit Zilberman e prefácio da escritora e acadêmica Ana Maria Machado, o volume chega ao Brasil com 144 páginas. A publicação corresponde ao segundo volume da coletânea originalmente intitulada “Histórias para crianças”, cuja continuação tem lançamento previsto para o primeiro semestre de 2027.

No texto de apresentação, Ana Maria Machado chama atenção para a variedade de recursos narrativos encontrados nas histórias, que passeiam entre fantasia, realismo, elementos sobrenaturais e lembranças afetivas. “As diferentes histórias aqui reunidas alternam sonhos e literatura, realismo e intromissões do sobrenatural, tom didático e evocações saudosas. Podem não ser uma leitura fácil. Mas, seguramente, deixarão marcas na lembrança. O que também é uma riqueza que os livros nos trazem”, afirma.

Singer tinha uma opinião bastante particular sobre a literatura destinada aos pequenos leitores. No ensaio “São as crianças os críticos literários definitivos?”, também incluído no livro e originalmente publicado no jornal Chicago Sun-Times, o escritor defende que o público infantil merece narrativas bem construídas, capazes de respeitar sua inteligência e seu interesse por boas histórias.

"As crianças são os melhores leitores da autêntica literatura. Os adultos se deixam hipnotizar por grandes nomes, elogios exagerados, publicidade persuasiva [...] As crianças, porém, não aceitam facilmente esse tipo de crença. Elas ainda preferem clareza, lógica e até mesmo uma coisa tão obsoleta como pontuação. Mais ainda, o jovem leitor exige uma história real, com começo, meio e fim, da maneira como os contos são narrados há milhares de anos", afirma Singer.

A história que dá nome à coletânea recupera uma das passagens mais conhecidas da tradição bíblica: o Dilúvio e a construção da arca de Noé. Enquanto os animais disputam a atenção do patriarca, exibindo força, beleza e esperteza para conquistar um lugar de destaque, a pomba chama atenção por sua modéstia. Noé percebe que todos possuem valor aos olhos de Deus e escolhe a ave para desempenhar uma missão especial como mensageira.

O humor também tem lugar garantido na seleção. Em “Os anciãos de Chelm e a chave de Genendel”, por exemplo, Singer recupera o universo das histórias populares judaicas, explorando situações engraçadas e personagens envolvidos em confusões que desafiam a lógica. A comicidade ajuda a afastar qualquer leitura excessivamente moralizante, preservando a espontaneidade e a graça das narrativas.

Entre alegorias, episódios divertidos e reflexões sobre a convivência humana, a coletânea apresenta às novas gerações um escritor que dedicou atenção especial à literatura infantil, tratando seus leitores com a mesma exigência narrativa que marcou seus contos e romances destinados aos adultos.


Um Nobel que também escreveu para crianças
Nascido em 1902, na Polônia, Isaac Bashevis Singer imigrou para Nova York em 1935, onde desenvolveu grande parte de sua trajetória literária. Filho e neto de rabinos, construiu uma obra predominantemente em língua ídiche, recuperando em contos e romances aspectos da memória, da religiosidade e do cotidiano dos shtetls, comunidades judaicas da Europa Oriental.

Consagrado internacionalmente com o Nobel de Literatura de 1978, Singer tornou-se uma referência da literatura universal. Sua produção reúne histórias marcadas pela observação psicológica, pela presença do fantástico e por personagens que transitam entre dilemas morais, crenças e contradições humanas.

Com a nova publicação, a Nova Fronteira recupera uma faceta especialmente interessante desse escritor: a de alguém que reconhecia nas crianças leitores exigentes, atentos e pouco dispostos a aceitar histórias contadas de qualquer maneira.

.: Vanessa Yetu estreia no Brasil com contos que exploram as contradições


Em “Velório de Moscas Sobre a Carne”, escritora cabo-verdiana inaugura coleção da Pallas dedicada à literatura africana contemporânea, com curadoria do angolano Ondjaki, e participa de encontros com leitores no Rio de Janeiro


A literatura africana contemporânea ganha um novo espaço nas prateleiras brasileiras com a chegada de Vanessa Yetu. Escritora cabo-verdiana, ela estreia no mercado editorial brasileiro com “Velório de Moscas Sobre a Carne”, publicação da Pallas Editora que inaugura a Coleção Múcua, projeto dedicado à produção literária atual de países africanos, sob curadoria do escritor angolano Ondjaki.

Com 144 páginas, o livro reúne quatro narrativas que investigam as contradições da experiência humana, passando por temas como identidade, pertencimento e memória. A escrita de Vanessa combina imagens intensas, humor e melancolia para apresentar personagens envolvidos em conflitos pessoais, enquanto convivem com mudanças sociais e culturais. As histórias percorrem diferentes geografias e aproximam vivências de Cabo Verde, Angola, Moçambique e Portugal, países que também integram a trajetória da autora.

Para marcar o lançamento, Vanessa estará no Brasil entre os dias 5 e 9 de novembro, com uma programação de encontros literários no Rio de Janeiro e em cidades da região metropolitana. A primeira parada será na FLIM – Língua ao Mar, em Maricá, na quinta-feira, dia 5, às 19h00. A escritora participa de uma conversa com Énia Lipanga e Kalaf Epalanga, sob mediação de Aza Njeri.

Na sexta-feira, 6 de novembro, às 11h00, o encontro será na Universidade Federal Fluminense (UFF). No sábado, dia 7, às 13h30, Vanessa estará na Primavera dos Livros, no Museu de Arte do Rio (MAR), para uma conversa com Bianca Ramoneda e Felipe Charbel. A agenda termina na segunda-feira, dia 9, às 11h, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão, em atividade com Carmen Lucia Tindó, Norma Lino e Vera Duarte.

Na apresentação de “Velório de Moscas Sobre a Carne”, Ondjaki chama atenção para a força literária da autora e sua maneira particular de observar as relações humanas. “O olhar de Vanessa Yetu funciona como uma lente de precisão que habita paisagens humanas complexas e valoriza o silêncio de cada gesto", escreve. O escritor identifica nos contos uma combinação de beleza imperfeita e aspectos sombrios da existência, com personagens expostos às fragilidades e às contradições das relações. A obra, segundo ele, “mergulha naquilo que nos torna trágicos, frágeis e reais".

Uma coleção com raízes africanas e diálogos atlânticos
O nome Múcua faz referência ao fruto do baobá, árvore associada à ancestralidade e à vida em diferentes culturas africanas. A escolha traduz a proposta da Pallas de aproximar escritores e leitores das duas margens do Atlântico, apresentando ao público brasileiro diferentes vozes da literatura africana contemporânea.

Nascida em 1974, na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, Vanessa Yetu passou parte da infância em seu país natal e concluiu o ensino secundário em Moçambique. Formou-se em Economia em Portugal e vive em Angola desde 2004. Durante anos, conciliou a carreira profissional com a escrita e colaborou com suplementos literários. Em 2014, publicou “Não nos impõem as memórias, que nos permitem pertencer”.

O nome literário Yetu significa “nosso” ou “nossa” nas línguas bantas umbundu e kimbundu. A escolha carrega uma ideia de coletividade que acompanha a visão da escritora sobre a literatura: para ela, a escrita não se encerra na experiência individual, pois também se constrói a partir das vivências compartilhadas.

Com a chegada de Vanessa Yetu ao Brasil, a Coleção Múcua começa a apresentar ao público uma produção literária que merece circular com mais frequência por aqui. Afinal, conhecer outras geografias também passa pelas histórias que seus escritores escolhem contar.


Agenda de Vanessa Yetu no Rio de Janeiro
Dia 5 de novembro, quinta-feira, às 19h00:
FLIM – Língua ao Mar, em Maricá. Encontro com Énia Lipanga e Kalaf Epalanga, mediação de Aza Njeri.

Dia 6 de novembro, sexta-feira, às 11h00: Universidade Federal Fluminense (UFF).

Dia 7 de novembro, sábado, às 13h30: Primavera dos Livros, no Museu de Arte do Rio (MAR). Conversa com Bianca Ramoneda e Felipe Charbel.

Dia 9 de novembro, segunda-feira, às 11h00: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundão. Encontro com Carmen Lucia Tindó, Norma Lino e Vera Duarte.

domingo, 1 de novembro de 2026

.: Isabel Clemente lança “Toda Escrita É Criativa” em São Paulo, Rio e Brasília


Em “Toda Escrita É Criativa”, jornalista e escritora reúne crônicas e ensaios sobre o ofício de escrever e provoca o leitor a encontrar a própria voz

Todo texto pode melhorar. Até aquele que parece pronto, redondo, definitivo. Para quem se dedica à escrita criativa, a busca passa pelo tom de voz, pela escolha da palavra e pela capacidade de encontrar a forma mais precisa de dizer o que se pretende. É nesse território que Isabel Clemente mergulha em “Toda Escrita É Criativa - Quase Um Guia para Inspirar Você a Escrever Melhor”, publicado pela Editora Giacombelo, primeira antologia dela de crônicas e ensaios dedicada ao ofício da escrita. 

Para apresentar “Toda Escrita É Criativa”, Isabel Clemente participa de três sessões de autógrafos em novembro. Os encontros acontecem nas lojas da Livraria da Travessa em São Paulo, no dia 9, na Livraria Travessa do Shopping Villa Lobos; no Rio de Janeiro, no dia 11, na Livraria da Travessa de Botafogo; e em Brasília, no dia 17, na Livraria da Travessa do CasaPark. As sessões serão realizadas sempre das 19h00 às 21h00.

Jornalista e escritora, Isabel reúne reflexões práticas, bem-humoradas e profundas sobre a capacidade de defender ideias e contar histórias por escrito. O livro parte de uma constatação bastante democrática: escrever bem não deveria ser um privilégio reservado a escritores ou profissionais que vivem de palavras. Afinal, todo mundo escreve — nem que seja uma mensagem no celular, um texto de trabalho ou aquela justificativa que precisava caber em três linhas e acaba virando um tratado.

A autora propõe pensar a escrita como uma extensão da personalidade e como uma ferramenta capaz de revelar uma voz própria. “Escrever é o superpoder que você pode desenvolver para deixar sua marca no mundo”, diz Isabel. Com textos curtos e densos, que assumem o formato de pequenas aulas sem a sisudez típica das aulas, o livro está organizado em três grandes capítulos: “Histórias Importam”, “Pesquisas Apoiam” e “Memórias Emocionam”. Ao circular por essas três frentes, Isabel combina repertório de vida, ciência e reflexão para mostrar como histórias, informação e memória podem ajudar qualquer pessoa a desenvolver um modo próprio de escrever.

O subtítulo “quase um guia” carrega uma dose de brincadeira. O livro passa longe dos manuais de redação corporativa e das receitas para produzir e-mails, relatórios ou documentos impecavelmente burocráticos. A proposta está em outro lugar: estimular o cuidado com clareza, expressão e personalidade em qualquer texto. A autora também questiona critérios rígidos que costumam cercar o ensino da escrita, incluindo os famosos “penduricalhos” associados à redação do Enem. Em vez de oferecer uma fórmula pronta, Isabel prefere provocar o leitor a pensar sobre as escolhas que faz quando coloca uma ideia no papel.

Como resume o escritor e professor Flávio Carneiro na orelha do livro, a escrita de Isabel “vai caminhando na corda-bamba, sabendo do risco da queda e buscando o difícil equilíbrio” e se destaca por ser “clara e profunda, boa ouvinte e boa perguntadora, e ainda muito engraçada”. Formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London, Isabel é colunista do Valor Econômico. Ao longo de mais de 30 anos, passou pelas principais redações do país como repórter, editora, colunista e correspondente internacional.

A escritora tem quatro livros publicados no Brasil, entre eles “A Pior Mãe do Mundo: Uma Biografia Não Autorizada de Todos Nós” e “A Mãe da Lua e do Vento”. Finalista do Aesthetica Creative Writing 2022, teve contos publicados na Inglaterra e também ministra oficinas de escrita para jornalistas e profissionais de diferentes áreas. Isabel vive no Rio de Janeiro com o marido e as duas filhas. “Toda Escrita É Criativa” é publicado pela Giacombelo, editora independente da qual Isabel é sócia.


Serviço
São Paulo | Dia 9 de novembro, das 19h00 às 21h00

Local: Livraria da Travessa, Shopping Villa Lobos
Av. Dra. Ruth Cardoso, 4777 – Segundo Piso – Jardim Universidade Pinheiros / São Paulo

Rio de Janeiro | Dia 11 de novembro, das 19h00 às 21h00
Livraria da Travessa de Botafogo
R. Voluntários da Pátria, 97 – Botafogo / Rio de Janeiro

Brasília | Dia 17 de novembro, das 19h00 às 21h00
Livraria da Travessa do CasaPark
SGCV SUL Lote 22 – 4A Casa Park Shopping, St. Park Sul / Brasília

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