segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: Musical “A Igreja do Diabo” volta com humor, música e uma boa dose de pecado


Musical inspirado em Machado de Assis retoma a temporada em São Paulo e coloca virtude, vício e hipocrisia no palco em uma comédia pop dirigida por Guilherme Gila. Foto: Pedro Veras

Depois de conquistar público, crítica e alguns prêmios pelo caminho, “A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” está de volta a São Paulo. A montagem da companhia A Casa que Fala ganha uma curtíssima temporada em outubro, no Teatro Estúdio, com sessões às segundas e terças-feiras, às 20h00. Inspirado no conto homônimo de Machado de Assis, o espetáculo escrito, dirigido e musicado por Guilherme Gila pega a conhecida provocação do escritor do século XIX e a leva para um universo de humor, música pop brasileira, filosofia moral e coreografias de linguagem queer. A proposta é discutir virtude, vício, desejo e comportamento social sem deixar a graça pelo caminho.

Na história, a Diaba resolve fundar sua própria religião. A nova doutrina tem uma regra bastante simples: fazer o mal está liberado. Ser uma pessoa boa, por outro lado, passa a ser visto como um defeito. Parece uma receita perfeita para o caos e, considerando que Machado de Assis está na origem da história, seria estranho esperar que a humanidade obedecesse direitinho a qualquer manual de comportamento. Edyelle Brandão retorna ao papel da Diaba, personagem que lhe rendeu reconhecimento na primeira temporada. O elenco desta nova temporada reúne ainda Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira.


Machado, pecado e música pop
Publicado originalmente no século XIX e posteriormente reunido em “Histórias sem Data”, de 1884, “A Igreja do Diabo” apresenta um Diabo cansado da falta de organização de seu próprio ofício. A solução encontrada por ele é fundar uma igreja, estabelecer regras e inverter a lógica das virtudes e dos pecados. Machado usa a premissa para cutucar a natureza humana e sua relação bastante particular com qualquer sistema moral. Afinal, seguir regras parece uma tarefa simples até que elas começam a contrariar desejos, hábitos e conveniências.

Guilherme Gila parte dessa mesma provocação para construir sua versão musical. Na montagem, a Diaba assume a missão de criar uma religião própria e apresenta aos seguidores os chamados “sete ditados capitais”. A doutrina rapidamente ganha adeptos, todos dispostos a experimentar um mundo em que a maldade virou virtude. Só que existe um pequeno problema: gente é gente. E a natureza humana costuma ter seus próprios planos.

A montagem utiliza música, dança e comicidade para aproximar a obra machadiana de questões contemporâneas. A sonoridade inspirada no pop brasileiro e a linguagem coreográfica queer dialogam com manifestações artísticas associadas a mulheres, pessoas pretas e integrantes da comunidade LGBTQ+, grupos historicamente submetidos a julgamentos sobre seus corpos, comportamentos e formas de expressão. Com isso, a filosofia moral ganha ritmo de teatro musical e o debate sobre virtude, vício, hipocrisia e desejo chega ao palco com uma dose generosa de humor.


Um musical premiado
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” estreou em São Paulo em 2023 e acumulou mais de dez indicações durante sua primeira temporada. Entre os reconhecimentos estão o prêmio de Melhor Musical Off no Prêmio Bibi Ferreira e o prêmio de Dramaturgia Original para Guilherme Gila no Prêmio Destaque Imprensa Digital.

Edyelle Brandão também foi reconhecida como Atriz Revelação entre os Destaques do Ano de Miguel Arcanjo Prado, enquanto a produção apareceu entre os destaques na categoria Melhor Musical Off. A montagem ainda chegou ao Prêmio PRIO de Humor, com indicações para Edyelle, em Melhor Performance, e para a própria produção.

Gila, responsável pela direção geral, dramaturgia e músicas, já havia levado Machado de Assis ao teatro musical com “Dom Casmurro”, no qual também assinou direção musical, composições e letras. Em “A Igreja do Diabo”, a direção musical fica por conta de Samir Alves e as coreografias são de Gabriella Medeiros.

A equipe criativa conta ainda com Laís Damato na cenografia, Isis Patacho na cenotécnica, Pietro Di Pompeii no desenho do vitral, Fran Barros no desenho de luz e Graziela Bastos nos figurinos. Rebeca Reis assina a produção executiva, Dan Maschio responde pela identidade visual e Anne Beatriz pelas artes gráficas.

Com realização de A Casa que Fala, “A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário” retorna aos palcos para colocar Machado de Assis diante de uma plateia contemporânea — e, de quebra, provocar uma pergunta que continua bastante inconveniente: será que a humanidade conseguiria obedecer a uma religião cuja principal regra fosse fazer o mal?


Serviço
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário”
Temporada: de 5 a 25 de outubro | Segundas e terças-feiras, às 20h00
Local: Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada para estudantes, professores e aposentados)
Duração: 80 minutos, sem intervalo
Classificação indicativa: 12 anos
Vendas: Sympla

Ficha técnica
Elenco: Edyelle Brandão, Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira
Direção geral, dramaturgia e música: Guilherme Gila
Direção musical: Samir Alves
Coreografia: Gabriella Medeiros
Cenografia: Laís Damato
Cenotécnica: Isis Patacho
Desenho do vitral: Pietro Di Pompeii
Desenho de luz: Fran Barros
Figurino: Graziela Bastos
Produção executiva: Rebeca Reis
Assessoria de imprensa: GPress Comunicação
Identidade visual: Dan Maschio
Artes gráficas: Anne Beatriz
Realização: A Casa que Fala

.: “Grande Sertão: Veredas” revela as faces de Diadorim nas telas e no palco


De Bruna Lombardi a Luiza Lemmertz e Luisa Arraes, as intérpretes de Diadorim encontram maneiras distintas de representar uma das personagens mais complexas de João Guimarães Rosa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucas personagens de “Grande Sertão: Veredas” carregam tantos segredos quanto Diadorim. Companheiro de jagunçagem, amigo de infância e grande amor de Riobaldo, ela atravessa praticamente toda a narrativa escondendo a própria identidade. Para quem lê o romance, a personagem já representa um desafio. Para quem precisa colocá-la em cena, a dificuldade ganha corpo, voz, gesto, figurino e olhar. Ao longo das adaptações da obra de João Guimarães Rosa, diferentes atrizes encontraram suas próprias maneiras de lidar com essa personagem.

Sônia Clara foi Diadorim no primeiro filme, lançado em 1965. Bruna Lombardi assumiu o papel na minissérie da TV Globo de 1985. Décadas depois, Luiza Lemmertz viveu a personagem na montagem teatral e no filme de Bia Lessa, enquanto Luisa Arraes interpretou a personagem no filme de Guel Arraes, lançado em 2024. São interpretações separadas por décadas, linguagens e propostas estéticas. Em comum, todas precisam enfrentar uma personagem cuja identidade permanece deliberadamente em suspensão durante boa parte da história.


Bruna Lombardi encontra Reinaldo
Em 1985, Bruna Lombardi  recebeu de Walter Avancini a tarefa de interpretar Diadorim na minissérie de 25 capítulos da TV Globo. Tony Ramos vivia Riobaldo, enquanto Tarcísio Meira e José Dumont interpretavam Hermógenes e Zé Bebelo. A produção foi gravada em locações do sertão mineiro e apostou em uma estrutura grandiosa para levar o romance à televisão. A personagem aparecia principalmente como Reinaldo, nome pelo qual era conhecida entre os jagunços. Diadorim era o nome pelo qual Riobaldo a conhecia, numa relação marcada pela amizade, pela cumplicidade e por um sentimento que o próprio narrador demorava a compreender.

A escolha de Bruna Lombardi também contrariava, de certa maneira, a imagem que a atriz tinha naquele momento. Em entrevista concedida anos depois, ela contou que ficou surpresa com o convite de Avancini e que não compreendia inicialmente o que o diretor havia enxergado nela para o papel. A experiência acabou sendo muito mais profunda do que uma composição de personagem. 

Bruna contou que a equipe viveu no sertão durante as gravações e que Avancini buscava um realismo intenso. Para a atriz, permanecer naquele ambiente, sem os confortos habituais, ajudou a compreender Diadorim e o universo de Rosa. Ela definiu aquela experiência como uma “grande viagem da alma”. O resultado entrou para a memória da televisão brasileira. A cena em que Riobaldo descobre a verdadeira identidade de Diadorim, depois da morte da personagem, permanece entre os momentos mais marcantes da minissérie.

Uma personagem que precisava esconder até o corpo
Interpretar Diadorim exige lidar com uma particularidade que vai além do figurino masculino. A personagem precisa convencer os outros personagens e, em boa medida, o próprio leitor, de que é um jagunço. Isso significa construir uma presença que não revele imediatamente o segredo guardado por ela. A questão ganha outra dimensão quando se considera a relação com Riobaldo. O afeto existe, mas não encontra uma forma simples de ser nomeado. 

Riobaldo sente desejo, admiração, amizade e amor por alguém que acredita ser um homem. Diadorim, por sua vez, também vive uma relação afetiva marcada por limites, códigos de honra e pela necessidade de manter a própria identidade escondida. Por isso, cada intérprete precisa trabalhar com aquilo que a personagem mostra e com aquilo que precisa esconder. Na televisão de 1985, essa tensão ganhou a dimensão de uma narrativa seriada. O público acompanhava durante 25 capítulos a convivência entre Riobaldo e Reinaldo/Diadorim até chegar à revelação final. No palco, a experiência seria outra.


Luiza Lemmertz encontra a Diadorim de Bia Lessa
Em 2017, Bia Lessa levou Guimarães Rosa ao teatro em uma montagem que misturava encenação, instalação, música e artes visuais. Caio Blat interpretava Riobaldo, enquanto Luiza Lemmertz  assumia Diadorim. Luisa Arraes também fazia parte do elenco. A montagem colocava os espectadores em arquibancadas e trabalhava com uma estrutura espacial que fazia do próprio ambiente parte da narrativa. A música de Egberto Gismonti e a cenografia colaboravam para construir uma experiência que não pretendia simplesmente reproduzir o sertão descrito no livro.

Nesse espaço, Luiza Lemmertz encontrou uma Diadorim que precisava existir diante do público sem depender dos recursos de uma produção televisiva. O gesto, a voz, o corpo e a relação com Riobaldo ganhavam outra importância. A experiência com a personagem, porém, não terminaria no palco. Em “O Diabo na Rua no Meio do Redemunho”, filme de Bia Lessa inspirado em “Grande Sertão: Veredas”, Luiza Lemmertz voltou a interpretar Diadorim. A montagem teatral também tem outra particularidade interessante: Luisa Arraes estava no mesmo elenco e, anos depois, interpretaria a personagem em uma adaptação diferente, desta vez no cinema, no “Grande Sertão” de Guel Arraes.

Luisa Arraes vive outra Diadorim
No filme “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e lançado em 2024, Luisa Arraes assumiu novamente a personagem. Só que o sertão de Guimarães Rosa já não estava ali da mesma maneira. A produção deslocou a história para uma comunidade periférica urbana, cercada por muros e atravessada por conflitos entre organizações criminosas e forças policiais. Riobaldo continuou sendo interpretado por Caio Blat, que também já havia vivido o personagem na montagem de Bia Lessa. Essa mudança de território altera também a maneira como Diadorim pode ser percebida.

A personagem continua ligada a Riobaldo por uma relação de amizade, desejo e amor. Continua sendo alguém cuja identidade é protegida por um segredo. Continua inserida em uma estrutura de violência e disputa de poder. O que muda é o mundo ao redor dela. Luisa Arraes, portanto, não recebeu apenas a tarefa de interpretar novamente uma personagem conhecida. Precisou encontrar Diadorim dentro de uma adaptação que alterava profundamente o espaço, o tempo e a organização da história.


A mesma atriz, duas experiências
A presença de Luisa Arraes em "O Diabo na Rua no Meio do Redemunho", de Bia Lessa, e em "Grande Sertão", de Guel Arraes, cria uma ponte curiosa entre duas leituras cinematográficas do universo de João Guimarães Rosa. No filme de Bia Lessa, a atriz interpreta Nhorinhá e também Riobaldo jovem, enquanto Luiza Lemmertz assume Diadorim e Caio Blat vive Riobaldo adulto.

Em "Grande Sertão", de Guel Arraes, Luisa Arraes ganha outro papel central: é Diadorim, novamente ao lado de Caio Blat, que interpreta Riobaldo. A mudança de personagem acompanha uma transformação radical na proposta de adaptação. O filme de Guel Arraes desloca a história para um Brasil urbano contemporâneo, no qual a guerra entre jagunços encontra correspondência na violência das grandes cidades.

As duas produções partem de "Grande Sertão: Veredas", mas seguem caminhos próprios. A partir de Bia Lessa, a relação com a obra de Rosa passa pela experiência cênica e pela construção visual de um universo particular. No longa-metragem de Guel Arraes, o romance ganha uma leitura cinematográfica contemporânea, com os conflitos de Riobaldo e Diadorim inseridos em outro território e em outra realidade brasileira. Para Luisa Arraes, o percurso ainda guarda uma particularidade: ela passa de Nhorinhá e do jovem Riobaldo a Diadorim, assumindo diferentes lugares dentro da mesma obra.


Diadorim não termina na revelação
O maior risco ao interpretar Diadorim seja reduzir a personagem ao segredo da identidade dela. A revelação final é fundamental para a narrativa, mas ela não explica sozinha quem é Diadorim. Antes disso, a personagem já demonstrou coragem, lealdade, habilidade para a guerra, capacidade de liderança, dureza e afeto. A identidade escondida interfere em sua trajetória, mas não esgota a personalidade dela, forjando uma complexidade que permite interpretações diferentes.

Na televisão, Bruna Lombardi construiu uma Diadorim marcada pela convivência prolongada com Riobaldo e pela dimensão épica da minissérie. No palco e no filme de Bia Lessa, Luiza Lemmertz encontrou uma personagem inserida numa experiência cênica de grande intensidade física. No filme de Guel Arraes, Luisa Arraes participou de uma releitura que deslocou o universo rosiano para outro Brasil. Nenhuma dessas Diadorins precisa apagar a anterior, já que cada uma pertence ao seu tempo.

Bruna Lombardi também escreveu sobre essa experiência
A relação de Bruna Lombardi com Diadorim não terminou quando as gravações de 1985 chegaram ao fim. Em “Diário do Grande Sertão”, publicado pela Autêntica, a atriz recuperou anotações feitas durante os bastidores da produção. O livro apresenta a experiência de filmar a minissérie, acompanhada de fotografias, desenhos e materiais que ajudam a reconstruir aquele período.

A publicação ganha importância especial dentro das comemorações dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”
, porque permite olhar para a adaptação de 1985 também pelo ponto de vista de quem esteve dentro dela. Bruna não retorna apenas à personagem, mas também ao sertão, à equipe, às filmagens e à experiência de conviver diariamente com um universo que, até então, existia principalmente nas páginas de Guimarães Rosa. É uma espécie de segunda travessia: primeiro, a atriz atravessou o sertão para interpretar Diadorim; décadas depois, voltou àquela experiência pela memória e pela escrita.

Uma personagem que continua mudando
Diadorim sobrevive às adaptações porque não depende de uma única aparência. Sônia Clara, Bruna Lombardi, Luiza Lemmertz e Luisa Arraes encontraram diferentes caminhos para chegar à personagem. A cada nova versão, muda o cenário, muda a linguagem, muda a época e mudam as ferramentas disponíveis para representar aquele universo.

O que permanece é a personagem criada por Guimarães Rosa: alguém que escolheu viver sob uma identidade masculina para escapar do destino reservado às mulheres de seu tempo e que construiu com Riobaldo uma relação que desafia classificações simples. A própria apresentação da personagem na minissérie de 1985 a descrevia como uma mulher que se disfarçava de homem para escapar da condição feminina no sertão. Ela não se entrega inteira de uma vez: nem ao leitor, nem a Riobaldo, nem ao público que a vê no palco ou na tela. Setenta anos depois, ainda existem novas maneiras de olhar para ela.

.: "Horror Expo Brasil" reúne astros do terror e experiências imersivas em SP


Mark Pellegrino, Eileen Dietz, Douglas Tait e Chris Fehn estão entre os convidados da quinta edição, que acontece nos dias 17 e 18 de outubro, no Expo Barra Funda

São Paulo ganha, nos dias 17 e 18 de outubro, um endereço especial para quem gosta de terror, fantasia e cultura sombria. A quinta edição da "Horror Expo Brasil" ocupa o Expo Barra Funda com convidados internacionais, nomes do cinema e da literatura brasileira, painéis, workshops, experiências de escape, ambientes temáticos e uma festa vampiresca para fechar cada noite. A organização espera receber cerca de 15 mil visitantes.

Um dos nomes mais conhecidos da programação é Mark Pellegrino, que interpretou Lucifer em "Supernatural" e Jacob em "Lost". A lista de convidados internacionais inclui ainda Eileen Dietz, associada a algumas das imagens mais lembradas de "O Exorcista", e Douglas Tait, intérprete de Jason Voorhees e Michael Myers. Durante o evento, Tait participará de sessões de fotos com os fãs caracterizado como os dois personagens, colocando frente a frente alguns dos rostos mais reconhecíveis do horror cinematográfico.

A música também encontra seu espaço entre monstros, fantasmas e assassinos mascarados. Chris Fehn, ex-percussionista do Slipknot, participa da convenção para dividir histórias de sua trajetória e conversar com o público. Fotos, autógrafos e encontros com os convidados estarão disponíveis de acordo com as modalidades de participação de cada atração.


Cinema brasileiro, bastidores e literatura de horror
O cinema brasileiro marca presença em encontros dedicados a diferentes produções e processos criativos. Caio Cobra e Carol Castro conversam sobre "Pacto Maldito", enquanto Dane Taranha e Fernando Sanches participam de um painel sobre "Herança Canibal". Maria Tachach também integra a programação para falar sobre "Ogiva". Rodrigo Aragão, um dos nomes conhecidos do horror brasileiro, conduz um workshop de maquiagem e apresenta o painel "30 Anos Trabalhando com Terror". A proposta é compartilhar experiências acumuladas na criação de efeitos, personagens e histórias do gênero. 

A relação entre literatura e cinema ganha espaço no encontro "Escrever, Adaptar e Filmar: um diálogo entre o cinema e a literatura de horror do Brasil", com Denisson Ramalho e Oscar Nestarez. Claudia Lemes, Cesar Bravo e Marcos De Brito completam a participação de escritores na programação e reforçam a presença da literatura brasileira no evento.


Slashers, Frankenstein e histórias de assombração
Os grandes personagens e fenômenos do horror também ganham espaço nos debates. O Boca do Inferno apresenta "Slashers, um pesadelo na Sexta-Feira 13", enquanto outro painel se volta para Frankenstein, criatura que atravessa gerações e continua rendendo interpretações no cinema e na cultura popular. Pipoca & Nanquim, Getro Guimarães, Luciano Milici e o dublador Nelson Machado também participam da programação.

Para quem prefere mistério, investigação paranormal e histórias que desafiam a explicação racional, KBC Brasil - Caçadores de Fantasmas e Daniel Pires, do Canal Lenda, levam seus relatos ao evento. Thiago de Souza, do "O Que Te Assombra", aborda o tema "Lobisomens", aproximando a programação de uma figura que há muito tempo alimenta o imaginário popular.


Experiências colocam o público dentro do horror
Quem for à "Horror Expo Brasil 2026" encontrará atrações que vão além dos palcos. A proposta é colocar o visitante dentro de cenários e situações inspirados pelo universo do terror. Entre os destaques está a ativação de "Cara de Barro", da Warner. A Escape Time participa com o Escape Ônibus Zumbi e o Escape Ícones do Terror. O Escape Hotel apresenta o Escape Crystal Lake - Jason, enquanto Fugativa e Escape Core levam ao evento o Espaço True Crime. 

O circuito ainda inclui o Labirinto Oberon, com 180 m², o Museu dos Vampiros, o Espaço Exorcista, com destaque para Regan, e o Espaço Chucky, desenvolvido em parceria com Fabrício Abreu, conhecido nas redes como @lordbleus. O público também poderá acompanhar o concurso cosplay, circular entre expositores e conhecer artistas, produtos e projetos ligados ao universo do horror.


"Baile dos Condenados" fecha cada noite com clima vampiresco
Depois de um dia cercado por monstros, criaturas e histórias de arrepiar, a festa continua. O "Baile dos Condenados" encerra cada noite da Horror Expo com uma proposta de festa vitoriana, música e uma estética marcada pela elegância sombria. A discotecagem fica por conta de DJ Lord A, fundador da Rede Vamp e da Carmilla Noite de Gala Sombria. 

Em parceria com a Encantaria Art & Couture, modelos vampíricos apresentam criações especiais no palco, com rendas, veludo e uma corte imortal digna de uma noite dedicada aos habitantes da noite. Entre cinema, literatura, música, cosplay e atrações imersivas, a "Horror Expo Brasil 2026" aposta numa programação que permite ao público assistir, conversar, fotografar e, em alguns casos, entrar literalmente nos universos que ajudaram a construir a cultura do horror.


Serviço
"Horror Expo Brasil 2026" - 5ª edição
Datas: 17 e 18 de outubro de 2026
Local: Expo Barra Funda - São Paulo/SP
Clube do Ingresso
Ingressos para atividades com os convidados: HP - Eventos e Ingressos na Uticket
Parceiro de Mídia Oficial: Uol
Programação sujeita a alterações. Consulte as condições de acesso e participação nas atividades e nos encontros com convidados.

.: De Ryûsuke Hamaguchi, “O Mal Não Existe” confronta natureza e ganância


Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, drama japonês acompanha comunidade rural ameaçada pela instalação de um empreendimento de glamping e chega à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ryûsuke Hamaguchi troca a atmosfera urbana de seus trabalhos anteriores por uma comunidade rural japonesa em “O Mal Não Existe”, filme que chega ao streaming Reserva Imovision e coloca natureza, interesses econômicos e relações humanas em rota de colisão. Vencedor do Grande Prêmio do Júri, o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2023, o longa-metragem confirma a disposição do cineasta de seguir por caminhos bem diferentes depois do reconhecimento internacional de “Drive My Car”.

A história acompanha Takumi (Hitoshi Omika), pai de Hana (Ryo Nishikawa), uma menina de oito anos. Os dois vivem em Mizubiki, uma pequena vila cercada por florestas, onde o cotidiano segue um ritmo distante da pressa das grandes cidades. Takumi trabalha em diferentes serviços para os moradores e conhece profundamente a região, enquanto Hana circula pela mata e aprende com o pai a reconhecer árvores, animais e caminhos.

A rotina começa a sofrer pressão quando uma empresa apresenta aos moradores um projeto de glamping, modalidade que combina a experiência de acampamento com estrutura e conforto de hospedagem. A proposta pretende atrair visitantes interessados em uma temporada de contato com a natureza, mas esbarra em questões muito concretas: abastecimento de água, tratamento de esgoto, segurança e impacto sobre o ecossistema.

A reunião entre os representantes da empresa e os moradores é uma das passagens centrais do filme. Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (Ayaka Shibutani) chegam à vila para apresentar o projeto e ouvir a comunidade, mas logo percebem que conhecem pouco sobre o lugar onde pretendem instalar o empreendimento. A conversa, conduzida com aparente cordialidade, ganha contornos cada vez mais incômodos à medida que os moradores apontam problemas que deveriam ter sido considerados antes da apresentação.

Hamaguchi não transforma os representantes da empresa em vilões simplórios. Depois da reunião, o roteiro acompanha Takahashi e Mayuzumi em momentos mais pessoais, especialmente durante uma viagem de carro, quando os dois falam sobre trabalho, relacionamentos e suas próprias insatisfações. A mudança de perspectiva ajuda a embaralhar a divisão entre bons e maus e dá ao conflito uma dimensão mais humana.

O diretor já havia demonstrado interesse por personagens que se revelam por meio das conversas, dos gestos e daquilo que deixam de dizer. Em “O Mal Não Existe”, porém, a natureza ocupa um espaço muito maior. A floresta aparece desde os primeiros minutos, acompanhada pela trilha de Eiko Ishibashi, e o filme dedica tempo ao cotidiano de Takumi, aos trabalhos manuais e aos caminhos percorridos por ele e pela filha.

A parceria entre Hamaguchi e Ishibashi começou antes do longa-metragem. A compositora, responsável pela trilha de “Drive My Car”, havia convidado o cineasta para criar imagens que acompanhassem uma apresentação musical ao vivo. O resultado foi “Gift”, projeto inicialmente concebido sem diálogos. Hamaguchi percebeu naquele material a possibilidade de desenvolver uma história e transformou a ideia em “O Mal Não Existe”.

A relação entre os dois projetos é fundamental para compreender a particularidade do filme. A música de Ishibashi não funciona simplesmente como acompanhamento das imagens: ela participa da construção do clima, alternando momentos de serenidade e inquietação. O próprio percurso visual também preserva algo da experiência contemplativa que estava na origem de “Gift”.

A escolha de Hitoshi Omika para interpretar Takumi tem uma história curiosa. Segundo Hamaguchi contou ao Los Angeles Times, o diretor conheceu o ator durante a busca por locações rurais para “Gift”. Omika dirigia o carro que levava Hamaguchi pelas regiões pesquisadas e acabou chamando a atenção do cineasta. Quando recebeu o convite para atuar, Omika inicialmente ficou surpreso.

Outro detalhe pouco convencional está no figurino. Omika usou as próprias roupas durante as filmagens. Hamaguchi também explicou que imaginou Takumi com uma personalidade mais próxima de personagens interpretados por Clint Eastwood ou Charles Bronson, mas percebeu que a suavidade do ator acrescentava outra camada ao protagonista. A produção foi construída a partir de uma pesquisa do diretor por diferentes vilas japonesas. Mizubiki é uma localidade fictícia, composta por características de vários lugares visitados por Hamaguchi durante o desenvolvimento do roteiro. A equipe também filmou em áreas próximas às fronteiras das províncias de Yamanashi e Nagano.

A ameaça representada pelo empreendimento não está limitada à chegada de turistas. O projeto evidencia uma maneira de enxergar a natureza como produto, algo que pode ser organizado, vendido e consumido. A comunidade, por sua vez, conhece o território de outra maneira: a água, a floresta e os animais fazem parte da própria sobrevivência dos moradores.

É  nessa diferença de percepção que Hamaguchi encontra o conflito central. A empresa quer acelerar o projeto para aproveitar subsídios ligados ao período da pandemia, enquanto os moradores observam consequências que não cabem em uma planilha financeira. A situação aproxima o filme de questões contemporâneas sobre desenvolvimento, turismo e exploração ambiental, sem abandonar o interesse do diretor pelo comportamento humano.

A narrativa reserva uma mudança radical para os minutos finais. Depois de acompanhar durante boa parte da projeção a rotina de Takumi, os moradores e o conflito provocado pelo empreendimento, o filme encaminha a história para uma situação de violência e ambiguidade. A conclusão pode causar estranhamento porque Hamaguchi não fecha todas as possibilidades de interpretação. A floresta, a presença de um cervo ferido, o desaparecimento de Hana e a reação de Takumi colocam em primeiro plano uma relação entre instinto, proteção e violência. O que parecia ser uma discussão sobre um empreendimento turístico ganha uma dimensão muito mais sombria.


Ficha técnica
“O Mal Não Existe” | “Aku wa sonzai shinai” (título original) | “O Mal Não Está Aqui” (título em Portugal)

Gênero: drama. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Data de lançamento no Brasil: 1º de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idioma: japonês. Direção: Ryûsuke Hamaguchi. Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Eiko Ishibashi. Elenco: Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryûji Kosaka, Ayaka Shibutani, Hazuki Kikuchi e Hiroyuki Miura. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "O Libertino" recupera Johnny Depp em papel provocador e mostra decadência


Dirigido por Laurence Dunmore, drama de época acompanha o poeta John Wilmot, vivido por Depp, entre escândalos, sexo, literatura e uma paixão que muda o rumo de sua vida

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Inglaterra da Restauração ganha contornos pouco comportados em "O Libertino", drama histórico dirigido por Laurence Dunmore que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado originalmente em 2004, o filme coloca Johnny Depp na pele de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta, aristocrata e personagem célebre por transformar o desprezo pelas convenções sociais em uma espécie de método de vida. Na corte de Carlos II, Rochester circula entre bebida, mulheres, provocações e escritos que incomodam justamente por atingirem quem está acostumado a mandar. O rei, interpretado por John Malkovich, decide recorrer ao velho amigo quando precisa de uma peça capaz de impressionar a corte francesa. A encomenda, porém, encontra um homem muito mais interessado em seus próprios excessos do que em cumprir qualquer obrigação real.

A situação ganha outra dimensão quando Rochester conhece Elizabeth Barry, interpretada por Samantha Morton, uma atriz ainda pouco conhecida que ele decide preparar para os palcos. A relação entre os dois começa como uma espécie de parceria artística, mas rapidamente ganha contornos afetivos e sexuais. Enquanto Lizzie desenvolve uma presença cada vez mais forte como atriz, Rochester segue numa trajetória de autodestruição que cobra uma conta bastante alta.

O filme nasceu no teatro. O roteiro de Stephen Jeffreys é baseado na própria peça "The Libertine", escrita pelo dramaturgo inglês e anteriormente encenada pela Steppenwolf Theatre Company, de Chicago. John Malkovich já havia interpretado Rochester nos palcos e, na adaptação cinematográfica, passou para o outro lado da história ao assumir Carlos II. Além de atuar, o astro também aparece entre os produtores da produção.

Johnny Depp também não teria sido a primeira opção de Laurence Dunmore para o protagonista. A ideia inicial do diretor era contar com o próprio Malkovich como Rochester, antes de o ator assumir o papel do rei. A escolha acabou criando uma curiosa troca de posições entre a montagem teatral e o filme: Malkovich conhecia profundamente o personagem principal, enquanto Depp mergulhou no aristocrata libertino com uma composição que exigia tanto extravagância quanto degradação física.

A proposta visual de Dunmore também foge do acabamento elegante que costuma acompanhar dramas ambientados na aristocracia. O filme foi realizado quase todo com câmera na mão, recurso que aproxima o espectador da sujeira, da fumaça e da desordem daquela Londres. As tomadas panorâmicas do interior do teatro são algumas das exceções e funcionam como uma mudança calculada de perspectiva.

A fotografia de Alexander Melman segue a mesma lógica. Para iluminar determinadas cenas, a equipe criou estruturas com várias velas e uma superfície refletora, batizadas nos bastidores de "birthday cakes". A iluminação precisava produzir luz suficiente sem abandonar a aparência característica de um ambiente iluminado por velas. O resultado divide opiniões até hoje: enquanto alguns espectadores consideram a imagem propositalmente áspera e coerente com o universo de Rochester, outros enxergam excesso de granulação e pouca definição. 

A produção também guarda uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas por alguém com senso de humor peculiar. O orçamento registrou £6.890 em óleo vegetal utilizado para produzir fumaça e neblina. A planilha ainda contabilizou £3.672 gastos em 17 pênis artificiais inspirados no século XVII. É o tipo de informação que ajuda a imaginar a quantidade de trabalho necessária para recriar uma época em que o diretor claramente não pretendia esconder os excessos de seu personagem.

A vida de John Wilmot, por si só, já oferecia material suficiente para um filme bastante indigesto. Poeta satírico e figura conhecida pela conduta escandalosa, Rochester morreu aos 33 anos, vítima das consequências de uma vida marcada pelo abuso de álcool e pela sífilis. A reputação literária, contudo, cresceu depois de ele morrer, o que acrescenta uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que tratava a própria existência como uma provocação acabou conquistando reconhecimento duradouro justamente por aquilo que escrevia.

"O Libertino" não tenta tornar Rochester agradável. O próprio personagem avisa o público logo no começo que não quer ser querido. A estratégia reaparece no encerramento, numa construção que aproxima o espectador diretamente do protagonista e reforça a origem teatral do material. Essa escolha foi bastante comentada nas avaliações do filme, com espectadores destacando a força da abertura e da atuação de Depp.

O elenco acompanha a aposta. Samantha Morton encontra em Elizabeth Barry uma personagem que cresce conforme aprende a dominar o palco e, sobretudo, a não se deixar reduzir às vontades de Rochester. Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet, esposa do protagonista, enquanto Tom Hollander vive o dramaturgo George Etherege. Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly e Jack Davenport completam o elenco.

John Malkovich merece atenção especial. Existe algo de deliciosamente contraditório na escalação de um ator que já havia vivido Rochester no teatro para interpretar o monarca que tenta controlar os estragos provocados pelo amigo. Carlos II conhece os excessos do poeta, tolera muitos deles e, ao mesmo tempo, precisa impedir que Rochester leve suas provocações longe demais.

O resultado é um filme deliberadamente desconfortável, com humor ácido, sexo, doença, literatura e uma visão pouco decorativa da aristocracia inglesa. "O Libertino" chegou ao público cercado por opiniões divididas, especialmente em razão da fotografia carregada, do ritmo e da forte presença do texto teatral. Ainda assim, a atuação de Depp aparece como um dos pontos mais elogiados nas avaliações, ao lado do trabalho de Samantha Morton, John Malkovich e da recriação visual do período.


Ficha técnica:
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 4 de outubro de 2026

.: Livro “Que Brazil É Esse?” revela como estrangeiros enxergam o Brasil


Livro de Paulo Otávio Barreiros Gravina reúne declarações de personalidades como Brigitte Bardot, Albert Camus, Frank Sinatra, Barack Obama e Charles Darwin para investigar as imagens construídas sobre o país. Foto: divulgação

Como o Brasil aparece aos olhos de quem vem de fora? A pergunta pode render elogios, estranhamentos, preconceitos e até algumas boas doses de ironia. Em “Que Brazil É Esse? - O que Eles Disseram Sobre o Brasil”,  publicado pela Editora Livros Ilimitados, o escritor e professor de escrita Paulo Otávio Barreiros Gravina reúne declarações de personalidades conhecidas mundialmente para investigar o modo como o país foi e continua sendo percebido por estrangeiros.

Com humor e pesquisa bibliográfica, o autor percorre as opiniões de 30 personalidades, entre elas Brigitte Bardot, Barack Obama, Diego Maradona, Albert Einstein, Frank Sinatra, Albert Camus, Charles Darwin e Walt Whitman. O resultado é um mosaico de impressões que passa por questões como preconceito, desigualdade, conflitos culturais e também pelas potencialidades atribuídas ao Brasil. A publicação ainda reserva espaço para comentários encontrados na internet, trazendo para a discussão as impressões de turistas e internautas. As manifestações ajudam a mostrar tanto as tensões provocadas pelo encontro entre culturas quanto uma característica bastante brasileira: a disposição para rebater críticas feitas de fora. Entre as ideias que ganharam força como uma espécie de retrato internacional do país está a famosa definição de “Brasil, um país do futuro”, título do livro publicado pelo escritor austríaco Stefan Zweig. A frase pode ser lida de maneiras diferentes. De um lado, carrega a expectativa de desenvolvimento de uma nação promissora; de outro, pode sugerir a condição de um país eternamente adiado, sempre esperando pelo futuro que nunca chega.

O passeio pelo imaginário estrangeiro também chega a um dos exemplos mais conhecidos da cultura pop. Em um dos capítulos, Gravina recupera a polêmica envolvendo um episódio de “Os Simpsons” em que a família viaja ao Brasil. A representação do país passa por pobreza, sexualidade explícita e pelo Carnaval tratado como uma espécie de cortina para problemas sociais.

Em determinado momento, Homer Simpson dispara: “Eu adoraria voltar ao Brasil, mas soube que o problema dos macacos está cada vez pior por lá”. As representações preconceituosas analisadas pelo autor aparecem em diferentes momentos da obra, incluindo uma declaração racista atribuída a Diego Maradona e uma fala misógina de Arnold Schwarzenegger. Gravina utiliza essas manifestações como material para discutir as imagens construídas sobre o Brasil e a posição do país no cenário internacional.

O livro também retoma ideias que, de tempos em tempos, voltam ao debate brasileiro, como o próprio conceito de “país do futuro” e o chamado “complexo de vira-lata”. Para o autor, observar o que estrangeiros disseram sobre o Brasil pode servir como uma forma de olhar novamente para o país - inclusive para algumas das imagens que os próprios brasileiros construíram sobre si. 

“Certos temas da história são cíclicos. Volta e meia alguém cita a ideia de o Brasil ser 'o país do futuro' ou aborda o nosso 'complexo de vira-lata'. Por isso, considero que entender as relações do Brasil com o mundo e analisar essas visões estrangeiras nos ajuda a compreender o que estamos passando na contemporaneidade”, afirma Paulo Otávio Barreiros Gravina. Com 164 páginas, “Que Brazil É Esse?” transforma frases, opiniões e episódios curiosos em matéria-prima para uma investigação sobre identidade nacional. Entre elogios e alfinetadas, o livro convida o leitor a encarar uma pergunta que talvez seja menos simples do que parece: afinal, que Brasil é esse que o mundo enxerga?


Sobre o autor
Paulo Otávio Barreiros Gravina é escritor, editor, tradutor, revisor, biógrafo, mestre em Literatura Brasileira e professor de escrita na Coordenação Central de Educação Continuada (CCEC) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É autor dos livros “Que Brazil É Esse?”, “A Fábula do Príncipe Narseu” e “Família Pacheco - 190 anos”. Também publica ensaios e textos ficcionais no blog “Minhas Traduções Poéticas”.

Como editor, revisor e tradutor, participou de projetos envolvendo obras como “Eureca”, de Edgar Allan Poe, e “Prefácio a Shakespeare”, de Samuel Johnson, entre outros trabalhos.

.: “Trilogia da Noite Escura da Alma” leva 3 santos para dentro da Catedral da Sé


Trilogia reúne “Edith Stein, a Estrela e a Cruz”, protagonizado por Daniela Schitini; “João da Cruz”, interpretado por Helder Mariani; e “Theresinha”, com Gabriela Cerqueira. Fotos: divulgação

A Catedral da Sé de São Paulo será o ponto de partida para uma experiência teatral que convida o público a caminhar por diferentes espaços do templo enquanto acompanha histórias de fé, dúvida, solidão e busca espiritual. A partir de 6 de outubro, a “Trilogia da Noite Escura da Alma”, com dramaturgia e direção de Helder Mariani, reúne três monólogos dedicados a figuras fundamentais da tradição carmelita: Edith Stein, João da Cruz e Theresinha. A proposta transforma a própria arquitetura da Catedral em parte da encenação. O público percorre o Salão Superior, a Cripta e o Coro, encontrando os personagens ao longo do trajeto, até chegar ao Altar-Mor. São cinco apresentações, nos dias 6, 20 e 27 de outubro e 3 e 10 de novembro, sempre às terças-feiras, às 19h00.

A trilogia reúne “Edith Stein, a Estrela e a Cruz”, protagonizado por Daniela Schitini; “João da Cruz”, interpretado por Helder Mariani; e “Theresinha”, com Gabriela Cerqueira. Katia Naiane e Nicoli Rizzoli completam o elenco como atrizes condutoras, responsáveis também por acompanhar o público durante o percurso pela Catedral.

Os três monólogos partem de um mesmo eixo: a chamada “noite escura da alma”, experiência espiritual associada à tradição carmelita e relacionada a momentos de crise, recolhimento, dúvida e transformação interior. As histórias de Santa Benedita Tereza da Cruz, conhecida como Edith Stein, São João da Cruz e Santa Theresinha do Menino Jesus se passam em épocas distintas, mas encontram pontos de contato nas inquietações que colocam fé e razão frente a frente. A dramaturgia de Helder Mariani foi construída a partir dos textos autobiográficos dos três personagens. A concepção cênica aposta na presença do ator diante do público, em uma comunicação direta que recupera a figura do ator-narrador e do rapsodo no teatro contemporâneo.

João da Cruz e Thérèse de Lisieux foram declarados Doutores da Igreja, enquanto Edith Stein está em processo de declaração. Os três pertencem à tradição dos carmelitas descalços e viveram, cada qual à sua maneira, experiências marcadas por conflitos espirituais e existenciais. A montagem leva essas figuras religiosas para um território que ultrapassa a devoção. Ao humanizar personagens tradicionalmente associados à santidade, a trilogia aproxima suas dúvidas e inquietações de questões bastante presentes na vida contemporânea. A rotina acelerada das grandes cidades, o excesso de trabalho e informação, os medos, a solidão e as dificuldades de convivência entram nesse diálogo com histórias escritas em outros períodos históricos.

A escolha da Catedral da Sé acrescenta outra camada à experiência. Em vez de assistir aos três espetáculos em um único espaço convencional, o espectador se desloca pelo edifício e encontra cada personagem em um ambiente diferente. Segundo o diretor Helder Mariani, a proposta nasceu também da necessidade de olhar para a dimensão espiritual em uma cidade marcada pela velocidade e pela tecnologia.

A trilogia aproxima sentimentos e paixões, dúvidas e certezas, fé e razão, enquanto apresenta santos conhecidos pela tradição católica em uma dimensão mais humana. A “noite escura da alma” deixa de ser uma experiência restrita às biografias dos personagens e passa a dialogar com as inquietações de quem acompanha o percurso teatral. “A quem percorrer esse caminho da Catedral da Sé, há de se iluminar um olhar mais crítico e mais compassivo, para si mesmo e para o outro”, finaliza Helder Mariani.


Ficha técnica
“Trilogia da Noite Escura da Alma”
Dramaturgia e direção: Helder Mariani
Elenco: Daniela Schitini (Edith Stein), Helder Mariani (João da Cruz) e Gabriela Cerqueira (Theresinha)
Atores condutores: Katia Naiane e Nicoli Rizzoli
Coordenação de operação de luz e som: Sylvie Laila
Designer gráfico: Thierry Avelar
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena
Idealização e produção: Cia. da Palavra


Serviço
“Trilogia da Noite Escura da Alma”
Solos: “Edith Stein, a Estrela e a Cruz” | “João da Cruz” | “Theresinha”
Apresentações: 6, 20 e 27 de outubro; 3 e 10 de novembro de 2026
Dias e horário: terças-feiras, às 19h
Duração total: 140 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: drama
Capacidade: 100 pessoas
Ingressos: R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada)
Bilheteria: uma hora antes das sessões
Vendas online: Sympla
Locais de encenação: Salão Superior, Cripta, Coro e Altar-Mor
Acessibilidade: disponível somente para Coro e Salão Superior. A Cripta não possui acessibilidade.

Catedral da Sé
Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção
Praça da Sé - Sé - São Paulo/SP

Na rede: @trilogianoiteescuradaalma | @catedraldasesp

.: “Alien(nada)” mostra a autodestruição da humanidade a partir do imaginário ET


Monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado combina teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa em apresentações de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo. Foto: Helena Wolfenson

O que os extraterrestres têm a nos ensinar sobre a possibilidade de a humanidade desaparecer por conta própria? Essa é uma das perguntas que movem “Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”, monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado, que será apresentado de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo.

Dirigido por Bruna Betito, com dramaturgismo e interlocução cênica de Janaina Leite, o espetáculo parte do Paradoxo de Fermi, questão que confronta a aparente ausência de evidências de vida extraterrestre com a enorme quantidade de possibilidades de existência de vida no universo. A partir daí, Lívia Machado volta a pergunta para a própria espécie humana e investiga os caminhos que poderiam levar à sua extinção.

Em formato de palestra-performance-sampler-audiovisual, “Alien(nada)” aproxima teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa para tratar o imaginário alienígena como território estético, político e poético. A montagem integra a Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho, ampliando uma pesquisa continuada da artista sobre as relações entre arte, tecnologia, comunicação e imaginários extraterrestres.

O tema já aparece em trabalhos anteriores de Lívia Machado, como “O Museu Voador”, “O Sol Desapareceu”, “Ainda Sopra” e “Crônicas Marcianas”, que também exploram diferentes possibilidades de relação entre ficção, tecnologia e a ideia de vida para além da Terra. A montagem ainda se relaciona ao laboratório “Sinestesia Alienígena”, realizado em setembro no Instituto Capobianco. A experiência propôs uma investigação artística a partir dos conceitos de “sinestesia” e “alienígena”, aproximando linguagens e materialidades para criar diferentes perspectivas sensoriais sobre temas como morte, permanência do corpo, tecnologia e digitalidade.


Ficha técnica
“Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”
Idealização, dramaturgia, atuação e colagem audiovisual: Lívia Machado
Direção: Bruna Betito
Dramaturgismo e interlocução cênica: Janaina Leite
Visualidades: Paula Halker
Iluminação: Marcus Garcia e Marina Meyer
Videomapping: Vic Von Poser
Figurino: Vanessa Alves
Operação de luz: Marina Meyer
Operação de vídeo: Vic Von Poser e Mayhara Ribeiro
Direção de produção: Tetembua Dandara
Produção executiva: Tati Mayumi
Provocações: André Medeiros Martins, Lara Duarte e Tetembua Dandara
Fotografia de divulgação: Helena Wolfenson
Agradecimentos: Lena Giuliano, Gabi Guarabyra e Julia Regina.


Serviço
“Alien(nada): a Terra é uma adolescente e o Grande Filtro pode ser a autodestruição da humanidade”
Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho
De 9 a 11 de outubro
Local: Instituto Capobianco
R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo – São Paulo (SP)
Sexta e sábado, às 20h00. Domingo, às 18h00.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia) | Sympla
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 75 minutos

.: “Grande Sertão” é teatro, cinema e TV em diferentes versões de Rosa


Da primeira adaptação cinematográfica, em 1965, à minissérie de 1985 e às releituras contemporâneas de Bia Lessa e Guel Arraes, “Grande Sertão: Veredas” continua desafiando quem tenta levar Rosa para outras linguagens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Adaptar “Grande Sertão: Veredas” nunca foi tarefa das mais tranquilas. Publicado em 1956, o romance de João Guimarães Rosa combina uma narrativa cheia de desvios, centenas de personagens, batalhas, deslocamentos pelo sertão, reflexões filosóficas, histórias de amor, violência, religiosidade e uma linguagem que inventa palavras enquanto conta a história de Riobaldo.

Ainda assim, o livro chegou ao cinema menos de uma década depois da primeira publicação. Em seguida, ganhou uma das mais ambiciosas adaptações da televisão brasileira, voltou ao teatro, inspirou experiências audiovisuais de diferentes formatos e, em 2024, chegou novamente aos cinemas pelas mãos de Guel Arraes. A mesma história passou por linguagens muito diferentes sem deixar de provocar novas leituras.


O primeiro encontro com o cinema
A primeira adaptação cinematográfica de “Grande Sertão: Veredas” chegou aos cinemas em 1965, apenas nove anos depois da publicação do romance. Dirigido por Geraldo Santos Pereira e Renato Santos Pereira, “Grande Sertão” levou Maurício do Valle ao papel de Riobaldo e Sônia Clara como Reinaldo/Diadorim. Jofre Soares interpretou Zé Bebelo, enquanto Milton Gonçalves e Zózimo Bulbul também estavam no elenco. A Cinemateca Brasileira registra o filme como uma adaptação do romance. Com aproximadamente uma hora e meia, o filme precisava condensar uma história monumental. 

A narrativa acompanha Riobaldo, Diadorim e a vingança contra Hermógenes, preservando o eixo de aventura e conflito entre os jagunços. O resultado pertence a um cinema brasileiro que também dialogava com os filmes de cangaço e com o imaginário do sertão que dominava parte da produção nacional naquele período. O romance, entretanto, já apresentava um desafio que continuaria acompanhando todas as versões seguintes: como transportar para imagens uma obra cuja força está tanto no que acontece quanto na maneira como Riobaldo conta o que aconteceu?


A minissérie "Grande Sertão: Veredas" pode ser vista no Globoplay em junho. Na imagem, em destaque entre a figuração, os atores Bruna Lombardi e Tony Ramos. Foto: Globo/ Divulgação

1985: a televisão encara o romance
Vinte anos depois, a televisão brasileira resolveu apostar em uma adaptação de proporções ainda maiores. Exibida pela TV Globo entre 18 de novembro e 20 de dezembro de 1985, “Grande Sertão: Veredas” teve 25 capítulos, com roteiro de Walter George Durst, colaboração de José Antonio de Souza e direção de Walter Avancini. Tony Ramos interpretou Riobaldo e Bruna Lombardi assumiu Diadorim, enquanto Tarcísio Meira viveu Hermógenes e José Dumont interpretou Zé Bebelo.

A produção foi inteiramente gravada em locações do sertão mineiro. A equipe se instalou em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, e aproximadamente duas mil pessoas participaram das filmagens ao longo de 90 dias. O esforço de produção foi tão grande que até o maestro Júlio Medaglia, responsável pela trilha sonora, passou uma semana no local para conhecer aquele universo. 

Tony Ramos se preparou fisicamente para o papel, perdeu oito quilos e fez aulas de equitação, rastejamento militar e tiro. Bruna Lombardi também passou longos períodos a cavalo durante as gravações. A escolha de levar a equipe para o sertão não era apenas uma questão de cenário, já que a produção procurava construir fisicamente o mundo dos jagunços, das travessias e dos conflitos que Rosa havia criado na literatura.


Bruna Lombardi encontra Diadorim
A interpretação de Bruna Lombardi tornou-se uma das marcas da minissérie. A atriz contou posteriormente que inicialmente teve dúvidas sobre a própria capacidade em interpretar a personagem, especialmente porque era associada a papéis de perfil mais romântico. Walter Avancini, porém, acreditava que havia nela uma força adequada à personagem.

Na história, Bruna precisava viver Reinaldo, o jagunço conhecido como Diadorim, preservando para Riobaldo - e para o público - o segredo sobre sua identidade. O conflito afetivo entre os dois ocupava o centro da narrativa televisiva. A minissérie também teve uma dimensão histórica própria. O trabalho foi realizado em uma época em que a televisão brasileira ampliava o espaço destinado às adaptações literárias, e “Grande Sertão: Veredas” entrou nesse movimento com uma produção que apostou em locações reais e em uma grande estrutura de filmagem.


Bia Lessa leva Guimarães Rosa para o palco
Entre uma versão e outra no audiovisual, o romance ganhou uma importante releitura teatral pelas mãos de Bia Lessa. Em 2017, a diretora estreou no Sesc Consolação, em São Paulo, uma montagem de “Grande Sertão: Veredas” com Caio Blat como Riobaldo e Luiza Lemmertz como Diadorim. Luisa Arraes também integrava o elenco. A montagem tinha aproximadamente três horas, estrutura de arquibancadas e fones de ouvido para o público acompanhar diálogos e trilha sonora de Egberto Gismonti. Bia Lessa não tentou simplesmente reproduzir o sertão no palco. 

A encenação trabalhou com atores, animais, plantas e elementos da paisagem, criando uma espécie de ambiente humano em constante transformação. O cenário foi concebido por Paulo Mendes da Rocha, e a experiência aproximava teatro, instalação e artes visuais. A diretora já tinha uma relação anterior com o universo de Rosa. Em 2006, havia criado uma instalação sobre “Grande Sertão: Veredas” para a inauguração do Museu da Língua Portuguesa. Anos depois, levou novamente o romance ao palco, agora com uma estrutura que colocava o espectador dentro da experiência cênica. A montagem circulou por outras cidades e chegou ao Festival de Curitiba em 2018. O trabalho recebeu o prêmio APCA de melhor direção para Bia Lessa.


Em cena de “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, os atores Caio Blat e Luiza Lemmertz interpretam Riobaldo de Diadorim. Foto: divulgação

“O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”
A relação de Bia Lessa com o romance não terminou no teatro. Em 2018, a diretora filmou uma nova experiência com parte do mesmo elenco. O resultado, lançado posteriormente como “O Diabo na Rua, no Meio do Redemunho”, não procurou reproduzir o romance inteiro. A própria diretora preferiu definir o processo como uma “transcriação”, termo que indicava uma liberdade maior diante do texto original. Caio Blat, Luiza Lemmertz, Luisa Arraes e Leonardo Miggiorin estavam novamente ligados ao projeto. 

As filmagens foram realizadas em 17 dias, e o filme adotou outra relação com a narrativa de Guimarães Rosa, concentrando-se em questões e fragmentos que interessavam à diretora. Essa escolha revela uma possibilidade que as adaptações de “Grande Sertão: Veredas” apresentam com frequência: não tentar carregar as cerca de 600 páginas para uma tela ou um palco, mas encontrar dentro delas uma história, uma imagem, uma relação ou uma pergunta capaz de sobreviver em outra linguagem.


Guel Arraes troca o sertão pelas periferias
Em 2024, Guel Arraes levou “Grande Sertão” aos cinemas com Caio Blat como Riobaldo e Luisa Arraes como Diadorim. O roteiro foi escrito pelo próprio diretor em parceria com Jorge Furtado. O filme chegou ao circuito nacional em junho daquele ano. A mudança mais evidente está no espaço. Em vez do sertão mineiro e dos bandos de jagunços, a produção apresenta uma comunidade periférica urbana cercada por grandes muros e dominada por organizações criminosas. A guerra entre jagunços ganha outra configuração: policiais e grupos criminosos ocupam o espaço do conflito, enquanto a relação entre Riobaldo e Diadorim continua funcionando como eixo afetivo da história.

Guel Arraes não escondeu a dificuldade de trabalhar com o romance. Em entrevista à CNN, comparou a experiência à adaptação de “O Auto da Compadecida” e explicou que o texto de Guimarães Rosa apresentava uma estrutura muito mais complexa para o cinema. A operação é radical: tirar a história do sertão histórico e colocá-la em um território urbano contemporâneo. O resultado mantém nomes, relações e conflitos fundamentais, mas altera o ambiente em que eles acontecem. Riobaldo continua procurando entender o que sente por Diadorim. A guerra continua existindo. A violência continua organizando as relações de poder. A dúvida sobre o bem, o mal, a coragem, o medo e o desejo permanece.


Do cinema para a televisão outra vez
A história não terminou com a estreia nos cinemas. Em janeiro de 2025, “Grande Sertão” ganhou uma versão em quatro episódios exibida pela TV Globo. A minissérie foi construída a partir do filme de Guel Arraes e de seu roteiro com Jorge Furtado. A mudança de formato permitiu ampliar a experiência da narrativa. Caio Blat e Luisa Arraes permaneceram como Riobaldo e Diadorim, acompanhados por Rodrigo Lombardi como Joca Ramiro, Eduardo Sterblitch como Hermógenes, Luís Miranda como Zé Bebelo, Mariana Nunes como Otacília e Luellem de Castro como Nhorinhá.

Para Caio Blat, que já havia vivido Riobaldo no teatro de Bia Lessa, o personagem representava um retorno particularmente curioso. O ator passou por duas experiências muito diferentes com a mesma obra: primeiro, uma montagem teatral que colocava o público dentro de uma espécie de sertão imaginário; depois, uma produção audiovisual que transferia os conflitos para uma periferia urbana.


Quadrinhos, música e outras veredas
As adaptações não ficaram restritas ao cinema, à televisão e ao teatro. Em 2014, “Grande Sertão: Veredas” ganhou uma versão em quadrinhos com roteiro de Eloar Guazzelli e arte de Rodrigo Rosa. A graphic novel recebeu reconhecimento em premiações voltadas aos quadrinhos, mostrando que a obra também poderia ser reorganizada pela combinação entre desenho, enquadramento e texto.

Na música, o compositor argentino Rufo Herrera criou “Sertão Sertões”, cantata cênica baseada em textos do romance, apresentada em 2001 no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A obra reuniu música, teatro, dança e elementos visuais para construir sua própria interpretação do universo rosiano.

Em 2008, a artista Rosângela Rennó criou “Febre do Sertão”, videoinstalação que colocou em diálogo imagens do filme de 1965 e da minissérie de 1985. Em vez de escolher uma adaptação, a obra fez as duas versões se encontrarem, criando um novo trabalho a partir das imagens produzidas por outros artistas.

Não existe uma única maneira de representar o sertão de Guimarães Rosa. O filme de 1965 apostou na aventura e no conflito dos jagunços. A televisão de 1985 construiu uma produção de grandes dimensões diretamente no sertão mineiro. Bia Lessa transformou o romance em experiência cênica, trabalhando com corpos, sons, imagens e espaço. Guel Arraes deslocou os personagens para uma periferia urbana e refez as relações de poder em outro território. São caminhos diferentes para uma mesma obra.

A melhor forma de pensar essas adaptações é perceber o que cada uma escolhe preservar. Algumas ficam mais próximas da trama. Outras se aproximam de personagens específicos. Há aquelas que preferem a atmosfera, uma pergunta ou uma imagem. O livro permanece como ponto de partida, mas cada linguagem precisa descobrir o próprio modo de contar essa história. Setenta anos depois da publicação, “Grande Sertão: Veredas” continua oferecendo material para novas interpretações porque seu sertão nunca coube inteiro em uma única imagem.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Chico Chico lança "3º Ato", disco ao vivo com orquestra Sesiminas


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Chico Chico e Orquestra Sesiminas lançam "3º Ato (Maré/Espelho, Parabelo da Existência, Altiva)", EP que fecha a trilogia ao vivo do show especial do cantor e compositor ao lado da orquestra, pela gravadora Deck. O terceiro e último ato dessa gravação, que vem sendo disponibilizada aos poucos, chega com as versões ao vivo de "Maré/Espelho", "Parabelo da Existência" (Chico Chico, Helder Quiroga, Oscar Vasconcelos) e "Altiva" (Chico Chico, Sal Pessoa). São canções autorais de Chico que, acompanhadas pela orquestra, ganham um tom ainda mais emocionante, encerrando com força um projeto que revelou novas camadas ao repertório do cantor.

O primeiro ato havia trazido o clássico de Zé Ramalho "Admirável Gado Novo" e as autorais "Toada", "Vai" e "A Felicidade". Já o segundo apresentou as canções "O Tempo Nunca Mais Firmou", "Terra à Vista" e "Urmininu". No espetáculo, Chico é acompanhado pela Orquestra Sesiminas e pelos músicos João Rafael (baixo), Pedro Fonseca (piano de cauda), Thiaguinho Silva (bateria) e Walter Villaça (guitarra).

Com o "3º Ato", o EP "Chico Chico & Orquestra Sesiminas" completa sua trilogia, registrando por inteiro uma apresentação especial que uniu a potência da orquestra à sensibilidade autoral de um dos novos nomes da nova MPB.

"Parabelo da Existência"

"Maré"

"Altiva"

.: Sofia Campos lança "Minha Beleza", quarto album, que percorre a incerteza


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

"Minha Beleza", o quarto álbum de Sofía Campos, surge de uma travessia: deixar para trás o que é conhecido e atravessar a vertigem da mudança. O álbum percorre a incerteza, com seus avanços e retrocessos, em uma busca pessoal e sonora. São dez canções atravessadas pelo desejo, pelos riscos, pelos vínculos e pelo impulso de recomeçar. Uma procura que também brinca e experimenta no campo sonoro, que se abre ao novo e aos seus desvios, guiada por uma bússola que aponta para o reencontro e o encantamento com a própria beleza.

O lançamento chega depois da apresentação de três singles: “Intacto”, “Cómo Viene Tu Amor” e “Vamos al Mar”, esta última em colaboração com o artista mexicano Caloncho. Em Minha Beleza, Sofía se permite sair de alguns de seus lugares habituais, experimentar novos ritmos e texturas e levar suas canções para uma sonoridade diferente, sem perder a intimidade, a sensibilidade e o peso da palavra que caracterizam sua obra.

 A produção ficou a cargo de Kassin e Matías Cella. De volta à Argentina, o álbum continuou crescendo durante vários meses ao lado de Cella, até encontrar sua forma definitiva. O resultado é um trabalho que conecta as diferentes geografias que atravessam a identidade de Sofía: suas raízes argentinas, a infância vivida no Brasil e os anos que passou no México.

 Indicada ao Latin Grammy 2022 na categoria Melhor Artista Revelação, Sofía Campos construiu uma trajetória que a levou a palcos da Argentina, do México, do Brasil e da Espanha, além de participar de festivais e encontros como SXSW e LAMC. Ao longo de sua carreira, colaborou com artistas como Jorge Drexler, para quem abriu o show no Movistar Arena, Caloncho, com quem divide a faixa “Vamos al Mar”, e Natalia Lafourcade, com quem colaborou em “Verde Nocturno”.

"Minha Beleza"

"Intacto"


.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sorumbáticos da existência


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.


Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.

Que não pedimos pela vida, é certo. Que não escolhemos o próprio contexto, todos sabemos. Agora, que teríamos de trabalhar para prover o próprio sustento? Ah, vá! Adão, seu filho de uma serpente! Eva, sacripanta do Éden! Posto isso, as eras vão avançando, e cá estamos nós, a pagar pelo crime alheio. É preciso construir todo um circo em torno de si para que se cumpra a pena. E, pasmem, nos definimos por isso. “Quem é você?”, perguntarão; “Apresente-se, por favor”, será solicitado. “Sou fulano de tal, professor — ou marceneiro, ou médico, ou advogado, ou deputado —, doutor no raio que o parta, seu criado”, poderá se responder, como se disso as maiores conclusões pudessem ser alcançadas.

Porque o trabalho tem dessas. Ocupa muito mais espaço que o coração e nos obriga a vestir a camisa até ela virar mortalha, ainda que reste algum fiapo de vida. Pois foi isso que vi um dia desses. E vi com esses meus olhos sorumbáticos de sexta-feira. Explico.

Era segunda-feira — há de se registrar. Mas os olhos eram de sexta, posso garantir. E eu que, se pudesse, não trabalhava nunca, vinha do trabalho. Era tarde, muito tarde — também há de se registrar. As mãos automáticas guiavam o volante no rumo de casa. Conformado pela existência produzida, puxei o freio de mão. Casa, para que te quero, senão para habitá-la por algumas horinhas depois do labor? Pois bem, fui à casa.

Mas antes de cruzar o portão, vinha um ônibus. Vinha um ônibus, e havia um homem. Estava sentado o homem no degrau do comércio fechado, alguns palmos (ou metros?) distante do local de parada do coletivo. Cabeça curvada, apontada para as mãos, talvez com os ouvidos tampados. Ergueu-se de súbito, à cata de um tiro que vinha. Lançou-se ao meio-fio, ocupou um dos bolsos, ergueu o outro braço, esticou o indicador. Tarde demais. Apenas poeira e vento alcançaram seus dedos. Restou-lhe bater as asas nos flancos e agitar a cabeça.

Agora, havia apenas um homem com olhos no chão. O andar mocorongo, no mesmo rumo do ônibus que passou. Certamente saía do trabalho. Certamente estava cansado. Certamente, se pudesse, também não trabalhava nunca. E, caso lhe perguntassem, certamente se definiria: “Sou fulano de tal, empregado no entreposto, doutor em malabarismos e milagres, seu criado.” Encerramos assim, ele e eu, o nosso dia, sorumbáticos da existência. Porque, para produzir a própria vida é preciso entregar o corpo, a alma e, se bobear, até o recibo.
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