terça-feira, 20 de outubro de 2026

.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Graham Greene e expõe as contradições da Guerra Fria


Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.

Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.

A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.

A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.

Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.

A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.

A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.

É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.

As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.

A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.

O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.

Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?


Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

.: Benito de Paula, o adeus do amigo do Charlie Brown


A Música Brasileira perdeu  um de seus talentos mais originais. Benito di Paula, cantor e compositor de vários sucessos faleceu no ílnal de semana. Tinha 85 anos e tratava de um câncer de próstata. Foto: Murilo Alvesso

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Benito di Paula, nome artístico de Uday Veloso, nasceu em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Cantor, compositor e pianista, construiu uma das trajetórias mais singulares da música popular brasileira, tornando-se um dos grandes responsáveis por aproximar o samba de uma sonoridade romântica, marcada pelo piano, por interpretações intensas e por melodias que conquistaram milhões de brasileiros.

Filho de uma família musical, Benito desenvolveu desde cedo sua relação com os instrumentos e com a canção popular. Ainda jovem, começou a trabalhar como crooner, apresentando-se em casas noturnas do Rio de Janeiro. Posteriormente, passou por Santos e São Paulo, onde encontrou um ambiente decisivo para o desenvolvimento de sua carreira. Foi na noite paulistana que consolidou sua identidade artística e conquistou o público com uma maneira própria de cantar e tocar samba ao piano.

Sua projeção nacional ganhou força no início da década de 1970, quando assinou com a gravadora Copacabana e passou a lançar discos que rapidamente encontraram grande repercussão comercial. Em 1973, a canção “Retalhos de Cetim” tornou-se um dos maiores marcos de sua carreira. Com sua interpretação emotiva, o piano em primeiro plano e uma melodia de forte apelo popular, a música se transformou em um clássico da canção brasileira, atravessando gerações e recebendo gravações de outros intérpretes.

A partir daí, Benito emplacou uma sequência de sucessos que consolidaram sua presença no imaginário popular. “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Se Não For Amor”, “Vai Ficar na Saudade”, “Tudo Está no Seu Lugar”, "Ah, como eu Amei" e “Proteção às Borboletas” estão entre as canções que ajudaram a definir sua obra. Suas composições combinavam romantismo, cotidiano, humor, sentimento e observação da vida brasileira, sempre com uma assinatura musical facilmente reconhecível.

Seu diferencial estava, sobretudo, na maneira de colocar o piano no centro do samba. Em uma tradição frequentemente identificada com o violão, o cavaquinho e os instrumentos de percussão, Benito desenvolveu uma estética em que o teclado harmônico conduzia a interpretação e estabelecia uma relação particular com a voz. Suas apresentações eram marcadas por gestos expressivos, forte presença cênica e uma entrega emocional que aproximava o artista de seu público.

Benito também rompeu barreiras entre diferentes segmentos da música popular. Sua obra dialogava com o samba tradicional, a canção romântica e elementos do jazz, sem perder o vínculo com a comunicação direta e com a experiência cotidiana dos ouvintes. Essa combinação contribuiu para que alcançasse públicos diversos e se tornasse um fenômeno de popularidade nas décadas de 1970 e 1980.

Embora tenha construído grande parte de sua trajetória a partir de composições próprias, Benito manteve relações importantes com outros criadores e intérpretes da música brasileira. Entre seus parceiros de composição estavam Chico Anysio, Adoniran Barbosa e Márcio Brandão, nomes que representam diferentes experiências e tradições da canção popular e também Jota Velloso, Ney Velloso e Ana Carolina Velloso (irmãos de Benito).

Sua obra também ultrapassou as fronteiras de seu próprio repertório. Composições de Benito foram gravadas por artistas como Roberto Carlos, Maria Bethânia e Alcione, demonstrando a capacidade de suas canções de encontrar novas interpretações e circular por diferentes universos musicais. “Retalhos de Cetim”, em particular, ganhou leituras de outros intérpretes brasileiros e estrangeiros, ampliando o alcance de sua criação.

O reconhecimento de sua música por artistas de gerações distintas reafirmou a força de um repertório que não dependia apenas da presença do próprio compositor para continuar vivo. Suas canções passaram a integrar o patrimônio afetivo da música brasileira, sendo revisitadas por intérpretes do samba, do pagode e da nova geração da MPB.

Nos últimos anos, Benito aprofundou o diálogo entre sua trajetória e a renovação da música popular por meio de seu filho, o cantor e pianista Rodrigo Vellozo. Juntos, lançaram o projeto O Infalível Zen, em 2021, aproximando a experiência musical do pai de outras referências estéticas e de uma perspectiva contemporânea. A parceria também simbolizou a transmissão de um legado artístico entre gerações. 

Benito di Paula deixa uma obra que pertence à memória afetiva de diferentes gerações. Suas canções continuam a contar histórias de amor, saudade, alegria e cotidiano, revelando a força de uma música popular que encontra no sentimento uma de suas maiores formas de comunicação. Com certeza, o seu amigo "Charlie Brown" deve se sentir agradecido pelo fato de você ter apresentado para ele as nossas belezas naturais esse sentir nossa musica.

"Retalhos de Cetim"

"Charlie Brown"

"Amigo do Sol, Amigo da Lua"

domingo, 18 de outubro de 2026

.: “Gol de Quem?”: Pato Fu lança disco ao vivo


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

No dia 7 de agosto de 2025, a banda Pato Fu subiu ao palco da Audio Club, em São Paulo, para comemorar três décadas de um de seus álbuns mais emblemáticos: “Gol de Quem?”. Lançado em 1995 e produzido por Carlos Savalla, o trabalho posicionou o grupo mineiro como uma das formações mais originais da cena nacional, unindo rock alternativo, música pop, experimentação sonora e letras cheias de personalidade.

O show reuniu convidados que têm escrito capítulos importantes da música brasileira. Os cantores Tom Zé, Zélia Duncan, BNegão e Coral juntaram-se ao Pato Fu para interpretar canções emblemáticas do álbum, em novas e emocionantes versões. A plateia sortuda que disputou ingressos para lotar a casa testemunhou esses felizes encontros centrados no repertório do “Gol de Quem?”, e seguiu cantando a plenos pulmões músicas de todas as fases da banda, algumas há muito tempo não executadas ao vivo.

Fãs de várias gerações agora podem ter acesso à integra desse espetáculo, que foi registrado em formato audiovisual com direção e concepção assinadas por Batman Zavareze, direção musical de John Ulhoa e direção de produção de Aluizer Malab. O registro de áudio de “Gol de Quem? Ao Vivo” acaba de chegar às plataformas digitais. Em breve o projeto também ganhará versões físicas, sendo lançado em CD e vinil duplos em data a ser confirmada.

Formado em Belo Horizonte em 1992, o Pato Fu é considerado uma das bandas mais criativas da música brasileira. Tem 17 álbuns lançados, 3 Discos de Ouro, um Grammy Latino, APCA, vários prêmios MTV e Multishow no currículo e uma carreira marcada por uma videografia reconhecida. A formação atual reúne Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Richard Neves.

  "Sobre o Tempo"

"Depois"

 "Eu"

.: "Hotel California": 50 anos de um clássico do rock


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Alguns álbuns permanecem com a mesma relevância da época em que foram lançados. Um desses casos é o excelente "Hotel California" da banda americana Eagles, que de uma certa forma acabou elevando o patamar do grupo dentro do mainstream. "
Hotel California" foi o quinto álbum de estúdio da banda e também o nome da música de maior sucesso do grupo. Ate ali o Eagles já havia conquistado um espaço com uma sonoridade próxima do folk rock.

A banda  tinha como líderes o baterista Don Henley e Glenn Frey, além dos guitarristas Don Felder e Joe Walsh. Ambos responsáveis pelo antológico solo da faixa. O disco demorou oito meses para ser gravado, entre Março e Outubro de 1976. O disco traz a música de maior sucesso do grupo: a faixa-título "Hotel California", além de outros sucessos como "New Kid In Town" e "Life In The Fast Lane". Teve participação do guitarrista Joe Walsh já como um membro fixo da banda, ele que tinha se juntado ao grupo no ano anterior, ocupando o lugar de Bernie Leadon.

Se você  ouvir novamente o disco, perceberá que tem uma sequencia de canções que se complementam. "Victim of Love" é a sequencia de baladas que encerra o album são outros destaques . A banda recebeu dois Grammy Awards, um pela música "Hotel California" na categoria "Record Of The Year" e outro pela música "New Kid in Town" na categoria "Best Arrangement For Voices".

"Hotel California"

"Victim of Love"

"New Kid in Town"

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Palavras desenhadas no ar


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Chave no contato. Giro. Partida. Dedo no botão: a Partida. Quinze, dezesseis minutos em que sou forçado a recriar na mente quatro linhas, círculo e semicírculos, traves, bola, toques, dribles, cabeçadas e chutes, que são desenhados no ar por alguém que não sei exatamente quem é. Tudo bem que os dribles não estão mais tão na moda assim, mas desejo muito imaginá-los. Caso contrário, qual seria a graça?

Há muito larguei as discussões acaloradas sobre o futebol. Há muito abandonei os gramados e talvez seja por isso que o hexa nunca vem. E há muito não ouvia uma partida pelo rádio. Ao colocar o dedo no botão, o jogo estava um a zero para nós. E os míseros quinze, dezesseis minutos de trajeto entre a escola, no fim do expediente noturno, e minha casa alojaram em meus ouvidos a nostalgia dos anos noventa.

Enquanto dirigia, o time adversário empatou. Diz o homem que desenhava as palavras no ar que Dairon Asprilla havia feito um golaço. Acreditei, incrédulo de meu pé-frio. Digo pé-frio porque me bailou na mente a última transmissão futebolística de rádio de que tenho memória. Não informo o time pelo qual torço por questão de privacidade. Mas o amigo vai entender.

O ano era 1998. E quem conheceu 98 sabe que a coisa não foi lá muita coisa para nós… Não só nós, mas todos nós (Zidane que o diga). Por pouco, não nos igualamos ao futuro, quando os alemães se fizeram em todos nós — não apenas em nós. Minha criança de dez anos ouviu aquela partida com olhos empoçados, imaginando cada um dos sete tentos lusitanos como marteladas no meu pequeno coração torcedor. No dia seguinte, o Globo Esporte calcificou minha imaginação para sempre.

Eis o ponto! A partida do presente levou-me à partida do passado, e as emoções se tornaram uma só. O coração acelerado ouviu o apito estridente e o desenhista das palavras no ar anunciar o pênalti. Foi? Não foi? A mão no câmbio do carro e a segunda entrou rasgando. Jonathan Calleri bateu no alto. Grito! Mão no câmbio novamente: a terceira deslizou. A imaginação cumpriu seu trabalho.

Melancolia do passado. Euforia do presente. Tudo construído através das palavras desenhadas pelas ondas sonoras, sentimento no ar. Não sei se bom ou ruim. Sei apenas que os meninos de dez anos de hoje talvez não terão essa chance, lá na frente. Porque o que há são imagens e cortes, canais e streamings. O palco é das telas. E o serviço está feito.

Só resta torcer.

Torcer como torceu o garotinho na final de 98, na França. Torcer e chorar como o menino que viu os lusos Émerson, César, Leandro, Carlinhos, Evandro, Ricardo Lopes e Da Silva alcançarem o número perfeito, ainda que enganado pelos tricolores Serginho e Marcelinho. Ou mesmo, como torceu o homem de hoje, ao ouvir novamente as palavras desenhadas no ar pelo locutor.

O jogo de agora teve um desfecho melhor: três a um e a nossa classificação para a próxima fase. Dessa vez, não recorri ao Globo Esporte para calcificar a imaginação. Preferi ficar com as palavras desenhadas no ar por alguém que não sei exatamente quem é.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

.: Fama e Hollywood são matéria-prima para novo romance de John Green


Após quase uma década longe da ficção, autor de “A Culpa É das Estrelas” acompanha dois jovens atores diante das delícias e dos estragos provocados pela fama


John Green está de volta à ficção. Depois de quase uma década, o escritor norte-americano retorna às livrarias com “Um Final de Cinema”, romance que mergulha no universo do cinema para discutir fama, exposição, ambição profissional e as marcas que certas experiências deixam pelo caminho. O livro, publicado pela Intrínseca, chega às livrarias em outubro, com tradução de Alda Lima. A arte de Andy Warhol, figura controversa e fundamental da Pop Art, serve como uma das referências para a história. A célebre relação entre celebridade, consumo e transformação de pessoas em produtos ganha novas camadas nas mãos de Green, autor de livros que conquistaram gerações de leitores, como “A culpa é das estrelas” e “Cidades de papel”.

A trama acompanha dois atores em ascensão durante as filmagens de uma cinebiografia sobre o último ano de vida de Warhol. Kai é um estreante em Hollywood que tenta descobrir se finalmente encontrou a oportunidade capaz de mudar sua trajetória ou se aquela será sua primeira e última grande chance. Juniper, por sua vez, foi atriz mirim e está determinada a mostrar que cresceu, amadureceu e está pronta para ocupar novos espaços na indústria. A proximidade entre os dois rapidamente desperta a atenção do público. O talento chama a atenção, mas os rumores de um possível romance também fazem sua parte, especialmente nas redes sociais. Enquanto o filme ganha forma, Kai e Juniper percebem que estão envolvidos em uma produção capaz de alterar suas vidas profissionais.

A expectativa aumenta quando, perto da estreia, a produção conquista atenção suficiente para elevar as projeções de arrecadação. O sucesso finalmente parece ao alcance dos dois. Juniper e Kai chegam ao lugar que tanto desejavam, enquanto uma possível história de amor surge no horizonte, justamente quando suas carreiras começam a ganhar velocidade. A fama, porém, costuma cobrar a conta com juros. Conforme os dois passam a ocupar mais espaço na mídia, lembranças que preferiam manter no passado reaparecem. A exposição transforma questões pessoais em assunto público e obriga os protagonistas a descobrir como sobreviver a uma realidade na qual cada detalhe pode virar notícia, comentário ou especulação.

É nesse jogo entre celebridade e intimidade que John Green encontra o coração de “Um Final de Cinema”. Seus personagens sabem o que querem profissionalmente, mas precisam enfrentar a possibilidade de se transformarem em mercadorias da própria indústria que desejam conquistar. A referência a Warhol, portanto, ganha uma dimensão particularmente saborosa dentro da narrativa. A fama pode durar quinze minutos. O problema começa quando esses quinze minutos resolvem ocupar uma vida inteira.


Sobre o autor
John Green é autor premiado e best-seller do New York Times. Formado em língua inglesa e estudos religiosos pelo Kenyon College, em Ohio, nasceu em 1977, no estado de Indiana, onde vive com a mulher e os filhos. Ao longo da vida, também morou em Nova York, Illinois, Michigan, Flórida e Alabama. Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da literatura contemporânea para jovens adultos, trabalhou como redator na National Public Radio, em Chicago, e como editor-assistente e de produção da revista de resenhas literárias Booklist. Também assinou críticas de livros para o New York Times. Pela Intrínseca, publicou “A Culpa É das Estrelas”, “Quem É Você, Alasca?”, “Cidades de Papel”, “O Teorema Katherine”, “Tartarugas Até Lá Embaixo”, “Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra” e “Tudo É Tuberculose”.

domingo, 11 de outubro de 2026

.: “Grande Sertão: Veredas” em novas leituras para uma história sem fim


Sete décadas depois da publicação, o romance de João Guimarães Rosa permanece aberto a novas leituras, adaptações, pesquisas e interpretações que mantêm linguagem e personagens em movimento

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em julho de 1956, “Grande Sertão: Veredas” chegou às livrarias brasileiras. Setenta anos depois, o romance continua sendo lido, estudado, adaptado, encenado, desenhado, filmado e discutido. A distância entre essas duas datas ajuda a dimensionar a permanência de uma obra que nunca se acomodou dentro da própria importância. O livro de João Guimarães Rosa atravessou gerações sem perder a capacidade de provocar estranhamento. 

Riobaldo continua contando a história dele, Diadorim permanece escondendo segredos, os jagunços seguem atravessando o sertão e as perguntas sobre amor, violência, fé, destino, coragem, medo e escolha ainda estão abertas. A explicação para a vitalidade do romance é uma: “Grande Sertão: Veredas” não oferece uma leitura única de si mesmo. A publicação de 1956 representou um momento decisivo na trajetória de Guimarães Rosa. O escritor já havia chamado atenção com “Sagarana”, publicado dez anos antes, mas o novo romance ampliou de maneira radical as possibilidades de sua literatura.

A história acompanha Riobaldo em um longo relato sobre a vida entre jagunços, as guerras, as alianças, as perdas e a relação com Diadorim. Só que a aventura nunca aparece separada das grandes questões que ocupam o narrador. Enquanto conta o que viveu, Riobaldo tenta compreender o que fez, o que desejou, aquilo em que acreditou e até onde suas escolhas foram realmente suas. Essa combinação dá ao livro uma característica incomum. Há uma história para acompanhar, mas também há uma linguagem que exige atenção. Há personagens e acontecimentos, mas existe ainda uma voz que pensa sobre tudo isso enquanto narra. O resultado é um romance que permite diferentes portas de entrada.

Um leitor pode chegar pela história de Riobaldo e Diadorim. Outro pode se interessar pelo sertão. Há quem entre pela linguagem, pela filosofia, pela religiosidade, pela violência ou pela própria construção do narrador. Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende essa condição viva do clássico. Para ele, uma obra dessa dimensão não deve ser tratada como peça de museu: cada nova leitura pode recolocar o livro em circulação e fazer com que leitores de épocas diferentes encontrem outras possibilidades na narrativa.


O sertão ficou maior que o mapa
A frase de Riobaldo - “o sertão é do tamanho do mundo” - ganhou uma espécie de vida própria ao longo das décadas. Guimarães Rosa conhecia o sertão mineiro desde a infância, mas também voltou a ele como observador e escritor. Em 1952, acompanhou durante dez dias uma comitiva de oito vaqueiros que conduzia cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. Durante a viagem, registrou palavras, expressões, nomes de lugares, histórias, comportamentos e detalhes do cotidiano, um material que foi transformado pela literatura. No livro aparecem rios, veredas, fazendas, chapadas, animais, vaqueiros e jagunços reconhecíveis. mas também existe também um território interior, feito de dúvidas e decisões, no qual qualquer pessoa pode se reconhecer.

Riobaldo ainda tem perguntas está o tempo todo tentando interpretar os acontecimentos. O homem mais velho que ele se tornou olha para o jagunço do passado e procura compreender o jovem que tomou determinadas decisões. A distância entre experiência e memória produz uma narrativa cheia de dúvidas. Ele acredita que fez um pacto com o Diabo? O destino existe ou é uma explicação que inventamos depois dos acontecimentos? As pessoas escolhem seus caminhos ou apenas descobrem tarde demais aquilo que já fizeram?

Süssekind aproxima Riobaldo de personagens de tradições muito diferentes, como Hamlet, de Shakespeare. A comparação pode parecer inesperada, mas parte de uma ideia simples: a dimensão de um personagem não depende do lugar onde ele vive. Riobaldo pensa sobre a existência com uma intensidade que ultrapassa a classificação de “personagem regional”.


Diadorim continua mudando de rosto
Sônia Clara viveu Diadorim no filme de 1965. Bruna Lombardi assumiu a personagem na minissérie da TV Globo de 1985. Luiza Lemmertz levou a personagem para a montagem teatral de Bia Lessa e depois voltou a interpretá-la no cinema. Luisa Arraes, que também participou da montagem teatral, assumiu Diadorim no “Grande Sertão” de Guel Arraes. A cada versão, a personagem muda de corpo, de ambiente e de linguagem.

A televisão dos anos 1980 encontrou uma Diadorim inserida em uma produção de grandes dimensões, filmada no sertão mineiro. O teatro de Bia Lessa transformou o romance em uma experiência espacial. O cinema de Guel Arraes transferiu os conflitos dos jagunços para uma periferia urbana. As adaptações de “Grande Sertão: Veredas” mostram isso com clareza. O filme de 1965 precisou condensar uma narrativa monumental. A minissérie de 1985 ampliou o tempo e a dimensão da história. Bia Lessa transformou a obra em teatro e instalação. Guel Arraes levou os conflitos do livro para outro território. Também houve quadrinhos, música e videoinstalação. Mas nenhuma dessas versões substitui o romance, já que ajudaram a mantê-lo em circulação.


Setenta anos também cabem em novas leituras
A permanência de “Grande Sertão: Veredas” aparece ainda na quantidade de maneiras encontradas para voltar a ele. Em 2026, a edição especial de 70 anos publicada pela Companhia das Letras ganhou novo projeto gráfico, capa inspirada em trabalho da artista mineira Sonia Gomes, ensaio de Érico Melo sobre o processo de construção do romance e depoimentos de escritores, pesquisadores e leitores. O aniversário também movimenta outras iniciativas, entre elas uma nova edição de  “Diário do Grande Sertão”, de Bruna Lombardi, debates e uma versão em audiolivro narrada por Caio Blat.

Na Flip de 2026, mais de 300 pessoas acompanharam a conferência “70 Anos de Grande Sertão: Veredas”, com Itamar Vieira Junior, dedicada à permanência e à força do romance no presente. A quantidade de atividades em torno da obra revela uma coisa curiosa: comemorar 70 anos não significa olhar para trás durante sete dias, pelo contrário, evidencia encontrar novos motivos para voltar ao livro. Existe ainda uma razão menos evidente para a permanência de “Grande Sertão: Veredas”: Guimarães Rosa continua sendo descoberto.

A biografia dele ajuda a entender parte dessa obra. O menino de Cordisburgo que cresceu ouvindo histórias, o médico que percorreu pequenas cidades do interior, o diplomata que viveu na Europa e ajudou a salvar muitas vidas, o homem interessado por idiomas e culturas diferentes e o escritor que voltou ao sertão para recolher palavras e histórias não cabem numa imagem única.

Chamar Guimarães Rosa apenas de escritor regional seria pequeno demais. Colocá-lo exclusivamente entre os autores do modernismo também não dá conta do que ele fez com a linguagem. Transformar “Grande Sertão: Veredas” em monumento literário pode até reconhecer sua importância, mas cria uma distância desnecessária entre o livro e quem ainda não o leu. A literatura brasileira mudou muito desde 1956. Mudaram os leitores, os costumes, as formas de publicação, os meios de comunicação e as maneiras de contar histórias.

O livro hoje pode ser encontrado numa edição comemorativa, discutido em uma universidade, transformado em filme, levado ao teatro, convertido em quadrinhos, ouvido em audiolivro ou apresentado em uma conversa com escritores. Pode chegar ao leitor que conhece Guimarães Rosa desde a escola e também àquele que abre o livro pela primeira vez. A obra sobrevive porque permite essas aproximações sem perder a ´própria estranheza e não precisa ser simplificada para continuar atual. Ele permanece disponível para novas perguntas sem entregar uma interpretação definitiva de si mesmo.

sábado, 10 de outubro de 2026

.: Clara Ribeiro lança "Outras Ondas, Mesmas Cores"


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Clara Ribeiro lança seu novo projeto musical, "Outras Ondas, Mesmas Cores", em colaboração com os produtores musicais Taleko e Warmando. Assinam também os beatmakers Holandês, Drei, GregoOnDeBeat, flowerthings, Jovelli, Crosstalk, CL Fez O Beat, Jacquelone e DJ Carlosz – que já produziu Anitta, Marina Sena e Bia Soull. 

Primeiro álbum da artista, a iniciativa marca um momento de expansão em sua carreira. Depois de alcançar mais de 100 mil streams com o EP "Desabafos" (2025), em parceria com Chediak, Clara dá continuidade a uma pesquisa artística entre música eletrônica, R&B e experimentos sonoros.

Em "Outras Ondas, Mesmas Cores", Clara reúne diferentes artistas e produtores para atravessar gêneros como house, city pop, UK garage e grime. As faixas nasceram há alguns anos como composições e beats independentes. "Outras Ondas, Mesmas Cores" já está disponível em todas as plataformas.

 "Porto Seguro"

 "Mantra"

"Vital"

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

.: Lula Barbosa revisita sua carreira na música


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O intérprete e compositor Lula Barbosa, reconhecido como um dos nomes mais importantes da música brasileira, apresenta-se no Centro Cultural Vila Itororó no dia 29 de outubro, quinta, às 19h. Antes do show, às 17h30, o artista conduz uma Vivência Musical aberta a todos os interessados. Tanto a vivência quanto o show têm ingressos gratuitos e contam com recursos de acessibilidade como intérprete de Libras e audiodescrição. Esta programação dá início ao projeto Lula Barbosa -  Memória Viva, que celebra uma trajetória de mais de 40 anos na música brasileira.
 

No show, Lula Barbosa (voz e violão) - acompanhado por Omar Campos (guitarra), Elias Jó (piano e Direção Musical), Elias Caju (bateria) e Zazá (contrabaixo) - interpreta composições que ilustram toda a sua carreira, entre elas Mira Ira, Brincos e Tempo de Fé. Entre um número musical e outro, ele divide com o público algumas histórias, memórias ou curiosidades sobre as canções. Na vivência, o artista transforma sua experiência, suas músicas e suas histórias em conhecimento para seus fãs e para as novas gerações.

Lula Barbosa é dono de um timbre ímpar e de uma interpretação marcante e singular que adorna com naturalidade a diversidade brasileira de ritmos e estilos, indo da MPB ao pop, da música latina ao choro e ao jazz. Sua discografia, com 24 títulos, é prova da riqueza de sua obra, reunindo trabalhos autorais e homenagens a mestres da nossa cultura.

O projeto "Lula Barbosa - Memória Viva" - viabilizado pelo Edital Fomento CultSP - PNAB N° 19/2025 - Produção e/ou Manutenção de Projetos Culturais na Indústria Criativa por Pessoas 60+, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo - busca valorizar a trajetória do compositor e intérprete com quase cinco décadas de atuação na música popular brasileira. A iniciativa vem celebrar, registrar e difundir a vasta obra do artista que é um patrimônio vivo da canção brasileira.

"Brincos"

"Desejos e Delírios"

.: "Nós Acreditamos em Vocês" coloca a Justiça diante da palavra de uma mãe


Drama belga de Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys, premiado na Berlinale, acompanha uma audiência de guarda marcada por acusações de violência sexual e chega com exclusividade à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Alice chega ao tribunal sabendo que qualquer palavra pode interferir no destino dos filhos. A guarda das crianças está em discussão, o ex-marido está diante dela e a mãe precisa sustentar, perante uma juíza, a decisão de protegê-las. É a situação central de "Nós Acreditamos em Vocês" ("On vous croit"), drama belga dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys que estreia exclusivamente na plataforma Reserva Imovision nesta sexta-feira, dia 9 de outubro. O filme foi lançado nos cinemas brasileiros em julho, pela Filmes do Estação, e retorna agora ao streaming depois de conquistar espaço em festivais internacionais.

Myriem Akheddiou interpreta Alice, personagem que concentra praticamente toda a tensão da narrativa. Conhecida por trabalhos como "Titane" e pela colaboração com os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, a atriz divide o elenco com Laurent Capelluto, no papel do pai, e Natali Broods, como a juíza. Ulysse Goffin e Adèle Pinckaers completam o núcleo familiar, respectivamente como Etienne e Lila. A direção e o roteiro são assinados por Devillers e Dufeys, que realizam aqui o primeiro longa-metragem da carreira conjunta.

O ponto de partida é uma audiência de família na qual Alice tenta impedir que os filhos voltem a ficar sob os cuidados do pai, acusado de violência sexual contra uma das crianças. A mãe precisa apresentar sua versão diante de advogados e da magistrada, enquanto sua própria conduta passa a ser examinada pelo sistema judicial. O filme acompanha esse embate durante uma manhã e mantém a narrativa praticamente confinada ao ambiente do tribunal, fazendo da burocracia, dos questionamentos e das respostas uma fonte contínua de tensão.

A escolha formal é decisiva para esse efeito. "Nós Acreditamos em Vocês" foi realizado no formato 4:3, com enquadramentos próximos dos rostos, especialmente o de Myriem Akheddiou. Charlotte Devillers explicou que o formato surgiu também da necessidade de trabalhar com recursos reduzidos e que o rosto de Alice se tornou uma espécie de paisagem principal da produção. A diretora e Arnaud Dufeys queriam deixar espaço para a atuação e para a sensação de que aquela audiência estava acontecendo diante do espectador.

Uma das características mais particulares da produção está na extensa cena de audiência. Segundo a entrevista concedida por Akheddiou ao AlloCiné, a sequência principal tem cerca de 55 minutos e foi filmada em uma tomada, com três câmeras. A atriz também enfrentou um monólogo de aproximadamente 25 minutos, exigência que ajudou a transformar a interpretação de Alice no eixo físico e emocional da produção.

O resultado é um drama de tribunal que evita transformar a acusação em mero recurso para produzir reviravoltas. Os diretores concentram a atenção na maneira como uma mãe precisa organizar sua fala enquanto enfrenta perguntas, objeções e procedimentos jurídicos. A estrutura também coloca o espectador numa posição desconfortável, porque a dúvida institucional passa a disputar espaço com aquilo que Alice afirma estar tentando impedir: que os filhos sejam novamente expostos ao homem que ela acusa.

A origem do projeto ajuda a entender essa escolha. Charlotte Devillers é enfermeira e teve contato profissional com questões relacionadas à saúde sexual e a vítimas de violência. Em entrevistas, ela e Dufeys relatam que pesquisaram o funcionamento da Justiça e conversaram com vítimas e profissionais antes de desenvolver o roteiro. A preocupação dos realizadores era compreender o desgaste de mães que chegam às instituições depois de longos períodos tentando proteger os filhos e precisam, ainda assim, explicar repetidamente suas decisões.

O filme também ganhou atenção pela maneira como utiliza atores profissionais ao lado de pessoas ligadas ao universo jurídico. As advogadas Alisa Laub e Marion de Nanteuil, que atuam na defesa da proteção infantil na Bélgica, participam da produção, assim como Mounir Bennaoum no papel do advogado das crianças. Devillers contou que o texto destinado aos advogados recebeu tratamento diferente durante as filmagens: eles receberam as ideias centrais e puderam desenvolver seus argumentos durante a longa cena da audiência.

A repercussão internacional começou na Berlinale 2025, onde "On vous croit" participou da seção Perspectives e recebeu uma Menção Especial do júri na categoria de primeiro longa-metragem. O reconhecimento oficial da Berlinale confirma a distinção, concedida ao filme dirigido por Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys.

A trajetória posterior ampliou a recepção da produção. "Nós Acreditamos em Vocês" acumulou premiações em festivais e, posteriormente, conquistou seis troféus na primeira edição do prêmio René du Cinéma, entre eles Melhor Filme e Melhor Direção. A atuação de Myriem Akheddiou também recebeu reconhecimento em diferentes festivais, reforçando a posição da atriz como principal força interpretativa da produção.

O título ganha sentido completo quando a audiência chega ao fim. "Nós Acreditamos em Vocês" se refere diretamente à necessidade de reconhecer a palavra de vítimas de violência e, ao mesmo tempo, expõe a distância entre o que uma pessoa vive e aquilo que precisa ser traduzido para dentro de uma estrutura jurídica. A produção encontra sua força justamente nessa fricção: Alice precisa falar, explicar, responder e insistir enquanto tenta impedir que a proteção dos filhos seja tratada como uma questão secundária.

Com 78 minutos, fotografia de Pépin Struye, montagem de Nicolas Bier, direção de arte de Mathilde Lejeune e música de Lolita Del Pino, "Nós Acreditamos em Vocês" constrói uma experiência concentrada, sustentada pela atuação de Myriem Akheddiou e pela decisão de manter o espectador dentro daquela audiência durante praticamente toda o filme.

Ficha técnica
"Nós Acreditamos em Vocês" | "On Vous Croit" (título original) | "Acreditamos em Ti" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 78 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês. Direção: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Roteiro: Charlotte Devillers e Arnaud Dufeys. Elenco: Myriem Akheddiou, Laurent Capelluto, Natali Broods, Ulysse Goffin, Adèle Pinckaers, Alisa Laub, Marion de Nanteuil e Mounir Bennaoum. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.



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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

.: Se fosse antes do Pix… …todo mundo tinha, eu até achava no chão


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

O retorno ao lar depois do trabalho noturno tem sido muito salutar, apesar do cansaço. Não vou repetir o que venho dizendo sobre trabalhar — o amigo já não deve me aguentar. Digo apenas que, depois de vender a alma ao diabo (venda esta bem disparatada e de pouco rendimento, não se pode negar), as portas do céu têm se aberto para mim e captado meus olhos embotados de cimento e lágrima. Porque o tráfego diário entre escolas e salas de aula, ruas e avenidas é de rachar a cuca e botar um homem doido! Talvez não restasse vista capaz de ver, nem olhos dispostos a enxergar no mundo algo que merecesse ser escrito. Mas a vida é boa e sempre nos oferece a matéria-prima de que necessitamos. Por isso, cá estamos, assentando palavra sobre palavra, naquilo que se pretende como uma construção a que chamaremos crônica. Se o amigo assim não reconhecê-la, não há mal. Fica aqui ao menos a intenção de um dia ter sido cronista.

Dito o que era imprescindível, e para não mais agastar o leitor, vamos à crônica.

Vivemos num recanto privilegiado do mundo. Uma grande extensão de terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Nela não há terremotos, não nos habitam os vulcões, e os maremotos jamais nos alcançarão (prometo!). Há mares e rios em abundância, a fauna e a flora nos acalentam, e o ouro negro nos garante um futuro próspero em mutretas. Temos por aqui muito o que comemorar: somos experts em operações anticorrupção hesitosas, os três poderes mantêm a mesma força na queda-de-braço, compramos inúmeras blusinhas na Shein e estamos no pódio entre os líderes mundiais em desperdício de tempo na internet. Para fechar, apenas nós somos Penta — e olha que ainda nem usamos a nossa arma secreta: o menino Ney!

Seríamos, veja bem, seríamos uma nação perfeita, certamente a primeira do mundo, se não fosse — pasmem — o Pix.

Pois é! Até por esses dias eu julgava exatamente o contrário, porque, se assim não fosse, não teríamos angariado ódio e inveja yankees à toa. Quando a esmola é muita, o cego desconfia. Quanto ao ódio, vale o mesmo. E o ódio vindo do norte encontrava em mim um espelho. Se odeiam o Pix é porque é bom. E se é bom, eu o amo. Uso-o o tempo todo (alguns dias, enquanto dura o salário) e, por isso, sou feliz. Ou julgava ser…

Aconteceu que, ao saltar do carro para a rua e da rua para casa — fim de noite, pós-expediente —, meus olhos embotados de cimento e tráfego cederam aos ouvidos, que ouviram:

— Uns com tanto, e eu com tão pouco. Se eu tivesse um tamanho desse…

Era um homem alto, magro, fumando um toco de cigarro, que caminhava expansivo, talvez flutuando no ar como se fosse um pássaro. E era comigo que falava.

— Mim dá um real pra mim tomar uma, pai.

— Não tenho nada aqui — respondi, querendo dizer que tinha tudo, dada a sinceridade aventada.

— Eu acredito, pai. Se fosse antes do Pix, todo mundo tinha, eu até achava no chão. Vou pedir pro meu primo que tá vindo ali, vou encher o saco dele.

E saiu na contramão atrapalhando a noite. Da outra ponta da rua, vinha alguém parecido com ele, como um pássaro, mas sem flutuar. Estanquei no portão, esperando o solene encontro. As mãos, ao se unirem, comungaram da mesma alegria. E eu pude adentrar em minha alcova, agora mais triste e tendo que dar razão aos yankees.

Se fosse antes do Pix...

.: "Um Espírito Baixou em Mim": Steve Martin e Lily Tomlin no mesmo corpo


Comédia de Carl Reiner transforma uma tentativa de transferência de alma em um duelo físico entre dois personagens incompatíveis e marca a última parceria do diretor com Steve Martin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A morte pode até ser inevitável, mas, em "Um Espírito Baixou em Mim", de Carl Reiner, ela está longe de ser o fim dos problemas. A comédia de 1984 chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte com Steve Martin e Lily Tomlin em uma das situações mais absurdas do cinema americano dos anos 1980: dois personagens incompatíveis obrigados a dividir o mesmo corpo. É uma premissa que poderia facilmente virar uma bobagem descartável, mas encontra em Martin um intérprete disposto a transformar cada movimento do personagem numa pequena catástrofe física.

Roger Cobb é um advogado que vive uma existência bastante menos interessante do que gostaria. Durante o dia, trabalha no escritório; à noite, alimenta o sonho de se dedicar à música. A rotina ganha contornos definitivamente estranhos quando ele assume o caso de Edwina Cutwater, uma milionária excêntrica que está morrendo e pretende transferir sua alma para o corpo da jovem Terry Hoskins, interpretada por Victoria Tennant. O plano parece suficientemente extravagante, mas Hollywood ainda tinha algumas cartas na manga.

O ritual dá errado e Edwina acaba dentro do corpo de Roger, ocupando apenas um dos lados. A partir daí, o advogado passa a disputar pernas, braços, voz e movimentos com a mulher que mal consegue suportar. A engenhoca funciona principalmente porque Steve Martin se entrega de corpo inteiro ao exercício. O ator precisa representar Roger, representar Edwina e, em vários momentos, representar Roger sendo tomado pelas vontades de Edwina. A comicidade nasce do controle corporal, dos gestos desencontrados e da tentativa de fazer parecer natural aquilo que, por definição, é completamente ridículo. 

Lily Tomlin, por sua vez, participa de uma brincadeira curiosa: depois da morte de Edwina, sua presença aparece sobretudo pela voz e pelos reflexos, enquanto Martin carrega fisicamente a personagem. O resultado exige dos dois atores um jogo de timing bastante preciso. A dupla recebeu indicações ao Globo de Ouro de 1985 nas categorias de atuação em comédia ou musical, reconhecimento que ajuda a dimensionar o impacto das performances na época. O filme foi dirigido por Carl Reiner, cineasta que já havia trabalhado com Martin em "O Panaca", "Cliente Morto Não Paga" e "O Médico Erótico". "Um Espírito Baixou em Mim" encerrou essa parceria cinematográfica entre os dois, que transformaram a persona cômica de Martin em matéria-prima para diferentes tipos de maluquice.

O roteiro de Henry Olek e Phil Alden Robinson parte do romance inédito "Me Two", de Edwin Davis. Segundo o catálogo do American Film Institute, o projeto chegou a circular durante a produção com os títulos provisórios "Me, Two" e "Me, Too", antes de assumir o definitivo "All of Me". A mesma fonte registra que a versão cinematográfica foi baseada no romance não publicado de Davis e teve lançamento nos Estados Unidos em 21 de setembro de 1984. Também chama atenção a participação de Victoria Tennant como Terry Hoskins. Durante as filmagens, a atriz conheceu Steve Martin, e os dois se casaram em 1986, permanecendo juntos até 1994. Tennant ainda voltaria a trabalhar com Martin anos depois, em "L.A. Story", de 1991. 

"Um Espírito Baixou em Mim" tem aquela aparência assumidamente oitentista de uma comédia que não precisa explicar demais o absurdo para colocá-lo em movimento. Algumas soluções envelheceram, certos efeitos denunciam a época e o humor pode provocar reações bem diferentes de quem chega ao filme hoje. Ainda assim, a proposta central continua funcionando quando Martin e Tomlin estão em cena, sobretudo porque a história encontrou um terreno perfeito para o talento físico do ator. Não por acaso, Martin ganhou em 1985 os prêmios de melhor ator da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle pelo trabalho no filme, enquanto também disputou o Globo de Ouro ao lado de Lily Tomlin.


Ficha técnica
"Um Espírito Baixou em Mim" | "All of Me" (título original) | "Almas do Outro Mundo" (título em Portugal)
Gênero: comédia e fantasia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa no Brasil: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 21 de setembro de 1984 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção:Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson e Henry Olek, baseado no romance "Me Two", de Edwin Davis. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith Osborne, Richard Libertini, Dana Elcar, Jason Bernard, Selma Diamond, Eric Christmas, Gailard Sartain, Neva Patterson, Michael Ensign e Peggy Feury. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos, porém há uma sequência musical durante os créditos finais. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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