sábado, 12 de setembro de 2026

.: Vladimir Brichta em “O Menor Palco do Mundo” leva a paternidade ao teatro


“O Menor Palco do Mundo”, primeiro solo de Vladimir Brichta, transforma cartas, histórias e imaginação em uma reflexão sobre paternidade, distância, afeto e reconstrução dos vínculos. Foto: Julia Mataruna

Histórias carregam valores, aproximam pessoas e podem servir de abrigo quando a vida aperta. Em “O Menor Palco do Mundo”, primeiro espetáculo solo de Vladimir Brichta, contar histórias ganha outro peso: torna-se uma maneira de enfrentar a distância e manter vivos os vínculos entre um pai e seus filhos. A temporada de estreia acontece no Teatro Vivo, em São Paulo, de 10 a 31 de outubro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h00, e aos domingos, às 18h00. Inspirado na história real do premiado autor australiano Kim Crotty, o espetáculo tem dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, direção de Luiz Felipe Reis e idealização de Aura Cunha e Paula Picarelli.

A história acompanha Crotty, um pai que, depois de cometer um erro e ser preso, procura uma maneira de continuar presente na vida dos filhos. Dentro da prisão, começa a inventar histórias e enviá-las às crianças por cartas. O gesto, nascido de uma situação limite, encontra na imaginação uma possibilidade de aproximação. Entre palavras, personagens e fantasia, ele tenta diminuir a distância e reconstruir a relação com os filhos. As idealizadoras Aura Cunha e Paula Picarelli contam que há algum tempo estava procurando um texto que tivessem vontade de montar, até que a Paula leu uma matéria sobre a obra de Kim Crotty. 

Para Vladimir Brichta, a montagem também encontrou ecos em experiências pessoais e familiares. Primeiro espetáculo solo do ator, “O Menor Palco do Mundo” chega ao Brasil carregado de uma história australiana, mas encontra uma ponte em sentimentos que não precisam de tradução. “Tem coisas que só arte é capaz, como encurtar os espaços via afetos. Estive minha vida toda do outro lado do mundo dos australianos, imaginando, assistindo, vendo de sua cultura. Tive uma filha que visitou o país e sonhei em ter a mesma sorte um dia. Fui aconselhado pela minha agente a não estimular os filhos a irem viver na Austrália. Os filhos dela viveram lá e um deles casou e morou durante anos, para sofrimento dela por conta da saudade e da distância. Eis que já reverberava aí a peça de Kim Crotty, a nossa peça”.

“Fui tocado de imediato pela premissa do espetáculo, um homem, um pai, que comete um erro e precisa pagar por ele. Mas o preço não contabilizado é a distância dos filhos que tanto ama e também uma reflexão profunda sobre paternidade e amor, sob o signo da dor da distância, mas também do lúdico do diálogo e da conexão com nossos filhos quando pequenos”, completa o ator. “Um relato tão pessoal e comovente como o de Kim só faria sentido aqui, do outro lado do mundo, se também permeado por alguma pessoalidade de quem a conta, com as particularidades de se viver no Brasil. Estou muito feliz de trazer aos palcos um relato tão afetivo de Kim Crotty e igualmente feliz de diminuir a distância geográfica em nome de algo universal como amor e paternidade”, finaliza ele.

Luiz Felipe Reis, responsável pela direção e pela dramaturgia ao lado de Paula Picarelli, vê no título da peça uma imagem ligada ao espaço íntimo onde cada pessoa guarda suas experiências, lembranças e conflitos. O diretor conta que “O Menor Palco do Mundo” é, para mim, aquilo que todo humano carrega em si, em seu corpo e subjetividade, desde tempos imemoriais: este nosso pequeno palco-teatro interior, repleto de vísceras, pensamentos e emoções, em que buscamos metabolizar e elaborar o que vivemos nesse imensurável teatro da vida em que estamos imersos, com todos os seus mistérios e revelações, assombro e encantamento”.

“A peça é, por tudo isso, um conjunto de elaborações que ocorre a partir de um improvável encontro cênico entre um autor australiano e um ator brasileiro. Pais que precisam lidar, por diferentes razões, com a distância em relação a seus filhos, e a partir daí enfrentam a própria solidão, isolamento, a saudade, o vazio, a fragilidade e a impotência diante de acontecimentos menores ou maiores, até o ponto inevitável, sem escape, em que precisam olhar e adentrar o teatro das suas próprias vidas, olhar sem desvios pras suas próprias histórias, escolhas e crenças em busca, quem sabe, de uma possível transformação”, conclui Luiz Felipe Reis.

A montagem também olha para os modelos de masculinidade transmitidos entre gerações. Histórias de heróis, aventuras e provas de coragem apresentadas aos meninos desde a infância ajudam a construir uma ideia de homem associada à força e à resistência. A peça abre espaço para sentimentos que costumam ficar fora desse repertório, como medo, fragilidade e afeto. O espetáculo original, “The Smallest Stage”, de Kim Crotty, foi produzido pelo BREC, coproduzido pelo Festival de Perth e vencedor da categoria de Melhor Produção de Palco Principal no Performing Arts WA Awards (PAWA Awards), em 2023.


Ficha técnica
Espetáculo "O Menor Palco do Mundo"
Elenco: Vladimir Brichta. Texto: Kim Crotty. Dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli (a partir do texto de Kim Crotty). Direção: Luiz Felipe Reis. Iluminação: Beto Bruel. Cenografia: Marisa Bentivegna. Trilha Sonora: Felipe Habib. Figurino: Theodoro Cochrane. Trabalho Corporal: Toni Rodrigues. Assistente de iluminação: Sarah Salgado. Assistente de direção e de produção (RJ): Julia Lund. Tradução: Aline Filócomo. Identidade visual e projeto gráfico: Guilherme Falcão. Fotos: Julia Mataruna. Assessoria de Imprensa: Pombo Correio. Produção executiva: Vini Silveira e Yumi Ogino. Idealização e diireção de produção: Aura Cunha (Elephante Produções) e Paula Picarelli (Frey Produções). Realização: Cachalote Produções.

Serviço
“O Menor Palco do Mundo”, com Vladimir Brichta
Temporada: 10 a 31 de outubro de 2026. Horários: sextas e sábados, às 20h00; domingos, às 18h00
Teatro Vivo | Av. Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi / São Paulo. Ingressos: R$ 150,00 (inteira), R$ 75,00 (meia-entrada), R$ 50,00 (ingressos populares - inteira) e R$ 25 (ingressos populares - meia-entrada). Vendas on-line: https://bileto.sympla.com.br/event/126035/d/409541/s/2668902. Bilheteria: (11) 3430-1524. Horário de funcionamento da bilheteria: duas horas antes da apresentação. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos. Capacidade: 274 lugares. Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Sessões com interpretação em Libras e Audiodescrição nos dias 10, 11, 16, 17, 18, 23, 24, 30 e 31. Estacionamento no local: entrada pela Av. Roque Petroni Jr, 1464. Valor R$ 30. Funcionamento 2h antes da apresentação e até 30 minutos após a sessão. A temporada de 10 a 31 de outubro será realizada através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e conta com o patrocínio da Vivo.

.: Francisco de Morais Mendes vence o Prêmio Academia Mineira de Letras


Livro de contos da Editora Sinete explora os ruídos da comunicação e os limites da linguagem em um presente saturado de informação. Foto: divulgação

O escritor mineiro Francisco de Morais Mendes venceu o Prêmio Academia Mineira de Letras 2026 com “A Bala dos Desarmados”, livro de contos publicado pela Editora Sinete em 2025. Patrocinada pela Fundação Educacional Lucas Machado (Feluma), a premiação concede R$ 40 mil ao vencedor e está entre os principais reconhecimentos destinados à produção literária em Minas Gerais. A obra foi escolhida entre os livros publicados em primeira edição durante 2025 nas categorias poesia, ficção em prosa, crônicas e ensaios.

Em “A Bala dos Desarmados”, a linguagem ocupa o centro das histórias. A palavra aparece como elemento de ligação entre os contos, mas também como fonte de ruído, ambiguidade e desencontro. Em diferentes situações, aquilo que deveria aproximar personagens acaba escondendo intenções, embaralhando sentidos e dificultando a comunicação.

Francisco de Morais Mendes coloca essas histórias diante de um presente marcado pelo excesso de informação e pela dificuldade cada vez maior de separar fato, invenção e manipulação. Tecnologia, comunicação e linguagem entram em um jogo no qual até o que parece evidente pode ganhar outro significado. O título do livro leva essa ideia ao limite: a palavra pode atingir, ferir e até calar — inclusive quando a “bala” deixa de ser apenas uma imagem.

“Muita satisfação de ter o livro ‘A bala dos desarmados’ reconhecido por uma instituição com o prestígio e o respeito da Academia Mineira de Letras. Esse reconhecimento dá ao livro um lugar de destaque no acervo cultural do Estado, do País. Por isso o sentimento é de gratificação, uma imensa alegria”, afirma Francisco de Morais Mendes sobre a conquista.

Nascido em Belo Horizonte, em 1956, o autor é jornalista formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também publicou os livros de contos “Escreva, Querida”, “A Razão Selvagem”, “Onde Terminam os Dias” e “Sacrifício e Outros Contos”, lançado originalmente em Lisboa, em 2019, e posteriormente no Rio de Janeiro, em 2021. A trajetória literária de Francisco reúne oito prêmios, entre eles o próprio Prêmio Academia Mineira de Letras, o Prêmio Minas de Cultura, do Governo do Estado, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura de Belo Horizonte, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa.

Para o escritor, o reconhecimento alcança quem escreve e também quem lê. “Para o autor o prêmio é um indutor, um estímulo forte para continuar escrevendo. Para a sociedade, o prêmio é um balizador, pois vai assinalar as obras que passaram pelo crivo de um corpo de especialistas. O livro destacado ganha visibilidade e pode chegar a um número maior de leitores”, destaca. Francisco também vê os prêmios literários como uma maneira de acompanhar o que está sendo produzido na literatura contemporânea. “sempre me guio pelos prêmios para ver o que trazem de novo as obras selecionadas. E sempre encontro boas surpresas”.

Criado para reconhecer escritores ligados a Minas Gerais, o Prêmio Academia Mineira de Letras contempla autores naturais do estado ou radicados em território mineiro há mais de cinco anos. A escolha é feita por indicação dos acadêmicos. Na edição de 2026, foram consideradas obras publicadas em primeira edição entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025, nas categorias poesia, ficção em prosa, crônicas e ensaios. A entrega do prêmio será realizada em sessão solene da Academia Mineira de Letras. Vencedor de oito prêmios literários, Francisco de Morais Mendes recebeu, entre outros, o Prêmio Academia Mineira de Letras, o Prêmio Minas de Cultura, do Governo do Estado, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura de Belo Horizonte, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa. Compre o livro “A Bala dos Desarmados”, de Francisco de Morais Mendes, neste link.

.: Crítica: "A Estranha na Cama", romance mais apimentado de Raphael Montes


Novo romance de Raphael Montes mistura sexo, ambição, mentira e vingança numa história em que ninguém permanece inocente por muito tempo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Novo romance de Raphael Montes, “A Estranha na Cama”, começa com uma mulher, Laura, chegando à delegacia com sangue nas roupas. Ela está com um casamento em ruínas e uma história que parece pronta para ser contada. Na sala ao lado, Diego, advogado criminalista e marido dela, também presta depoimento. O problema é que os dois contam histórias diferentes. E, como o autor sabe muito bem, em uma investigação policial a história bem contada pode ser tão perigosa quanto a sentença final.

Publicado pela Companhia das Letras, o romance tem gosto de escândalo de classe média alta: um casal carioca, bonito, rico, socialmente bem relacionado e aparentemente feliz resolve apimentar o casamento com uma terceira pessoa. A experiência termina com a morte de Julia, amante de Diego. A partir daí, entram em cena chantagens, traições, vídeos íntimos, dinheiro, violência e uma quantidade bastante razoável de gente interessada em salvar a própria pele. Raphael Montes  poderia se contentar com esse cardápio. Prefere, porém, preparar outra conversa.

A estrutura em depoimentos é um dos grandes acertos do livro. Laura e Diego apresentam versões dos acontecimentos que se chocam e se corrigem mas, sobretudo, levantam novas suspeitas. A delegada Patrícia Custódio Revoredo funciona como uma espécie de editora implacável da história: pergunta, volta ao ponto anterior, percebe contradições e deixa os personagens se enforcarem com as próprias argumentações. O efeito é eficiente porque o leitor passa a desconfiar até daquilo que acabou de ler.

Laura é a personagem mais interessante do romance. Vinda de uma família pobre, marcada por uma relação familiar violenta e acolhida pelo universo confortável da família Guimarães Prata, ela constrói uma vida que parece saída de uma propaganda de sabonete caro: cobertura em Ipanema, viagens, festas, contatos influentes, marido bem-sucedido e uma floricultura para chamar de sua. Aos poucos, porém, fica evidente o preço daquele cenário. O casamento, afinal, tem seus contratos. Alguns estão no papel, outros são erguidos entre expectativas, dependências e concessões.

O romance também acerta ao colocar a imprensa e a exposição pública dentro da engrenagem do crime. O julgamento se transforma em espetáculo, com jornalistas, fotógrafos, curiosos, fofocas e vídeos íntimos circulando como combustível para uma história que já perdeu qualquer possibilidade de privacidade. O thriller conversa, assim, com uma época em que uma investigação pode acontecer simultaneamente na delegacia, no tribunal e nas redes sociais.

Raphael Montes sabe esconder as cartas. Uma informação aparentemente banal pode ganhar outro significado algumas dezenas de páginas depois,. O leitor acompanha as versões, suspeita de uma, abandona outra e, quando acredita ter entendido o jogo, descobre que talvez tenha prestado atenção à pergunta errada.

“A Estranha na Cama” também fala sobre pessoas que passam tempo demais tentando representar aquilo que acreditam que os outros esperam delas. Laura representa a esposa perfeita. Diego, o marido bem-sucedido. A família, a respeitabilidade. A imprensa, por sua vez, procura a verdade enquanto devora o escândalo. Raphael Montes escreve com velocidade, mas não confunde rapidez com pressa. O texto avança porque sempre existe alguma coisa esperando nas páginas adiante. 

O livro reafirma Raphael Montes como um escritor que entende muito bem o prazer popular do suspense sem tratar o leitor como alguém que precisa receber tudo mastigado. O livro quer divertir, provocar, chocar e, de quebra, brincar com a vontade quase infantil de descobrir quem está mentindo. Compre “A Estranha na Cama”, novo romance de Raphael Montes, neste link.

.: "Barbarella", ficção científica com Jane Fonda, é um delírio psicodélico e sensual


Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.

Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.

Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.

Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.

A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.

A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.

O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.

A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.


Ficha técnica
"Barbarella" (título original) 
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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.: “A Margem” chega ao streaming e reencontra um Brasil à beira do Tietê


Filme de Ozualdo Candeias transforma personagens esquecidos pela cidade em figuras de uma história áspera, poética e ainda desconcertante

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema brasileiro volta a olhar para as margens do rio Tietê com “A Margem”, primeiro longa-metragem de Ozualdo Ribeiro Candeias, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 1967, o filme permanece como uma das obras fundamentais para compreender o cinema marginal paulista e uma São Paulo que crescia em ritmo acelerado enquanto empurrava para fora do enquadramento quem não combinava com a fotografia oficial da cidade.

Candeias acompanha quatro personagens que vivem às margens do rio e da própria sociedade: duas prostitutas, um homem com problemas mentais e um cafetão. Entre encontros, desencontros, afetos improváveis e destinos trágicos, o diretor constrói uma narrativa fragmentada, carregada de símbolos e pouco interessada em facilitar a vida de quem assiste.

O resultado tem uma beleza áspera. O Tietê aparece como cenário, mas também como presença constante, cercando personagens que parecem condenados a permanecer naquele pedaço esquecido da cidade. Uma mulher negra vestida de noiva dentro de uma igreja em ruínas, um homem à procura de uma rosa e uma pequena flor que circula entre os personagens estão entre as imagens que ajudam a transformar a precariedade em matéria poética.

A câmera de Candeias acompanha essas figuras com uma liberdade que ainda impressiona. O diretor também assume fotografia e montagem ao lado de Belarmindo Manccini e Máximo Barro, respectivamente, numa produção realizada com recursos escassos. O próprio histórico do filme registra essa economia como parte de sua força estética: Candeias fez de limitações práticas uma linguagem cinematográfica própria.

A estreia de “A Margem” aconteceu em São Paulo em novembro de 1967. No 3º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme recebeu menções honrosas para Valéria Vidal e para a música. Depois vieram outros reconhecimentos, incluindo os prêmios de melhor direção e melhor música do Instituto Nacional de Cinema e o prêmio de melhor diretor concedido pelo Governo do Estado de São Paulo.

O reconhecimento crítico, porém, não significou uma carreira comercial confortável. Pesquisa acadêmica da USP sobre a recepção do filme registra que “A Margem” chegou a ser exibido em cinemas de arte paulistanos, entre eles o Belas Artes, mas permaneceu pouco tempo em cartaz. Décadas depois, a importância histórica da produção ganhou uma espécie de carimbo da crítica brasileira. “A Margem” entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine e aparece na 51ª posição na relação publicada pela associação.

Na crítica publicada pela Folha de S.Paulo por ocasião dos 50 anos do filme, Inácio Araujo chamou atenção para a maneira particular como Candeias se aproxima dos personagens pobres retratados na obra. Em vez de transformar aquelas pessoas em meros exemplos de uma tese social, o diretor as observa de perto, encontrando nelas uma poesia estranha, áspera e profundamente brasileira. O filme não precisa explicar seus personagens para fazê-los existir. Eles estão ali, entre o lixo, a água, a igreja deteriorada, os pequenos gestos de afeto e uma cidade que parece avançar sem levar todos consigo.

Também chama atenção o jogo entre o real e o simbólico. A barca que surge no começo e retorna no encerramento dá ao filme uma estrutura quase circular. A imagem remete a uma travessia de mortos, enquanto os personagens parecem permanecer presos entre uma vida que pouco oferece e um destino que nunca se esclarece completamente. 

O curioso é que, quase seis décadas depois, certas imagens perderam o caráter documental e ganharam outra camada. O Tietê de 1967 ainda permitia cenas que hoje parecem pertencer a outro planeta. O filme registra um rio que já carregava as marcas da degradação, mas que ainda fazia parte da paisagem cotidiana daquela população. A própria pesquisa sobre Candeias observa como o diretor confronta a pujança econômica paulista com aquilo que a cidade deixava nas bordas. É uma oportunidade de reencontro com um dos filmes brasileiros que ajudaram a deslocar o centro do cinema para lugares menos confortáveis. 


Ficha técnica
“A Margem” (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1967. Data de lançamento: 27 de novembro de 1967. Idioma: português. Direção e roteiro: Ozualdo Ribeiro Candeias. Elenco: Mário Benvenutti, Valéria Vidal, Bentinho e Lucy Rangel. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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sexta-feira, 11 de setembro de 2026

.: Álbum “Na Linha do Tempo” celebra os 25 anos do Sururu na Roda


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

O grupo Sururu na Roda celebra 25 anos de trajetória com o lançamento de “Na Linha do Tempo”, seu novo álbum, que chega às plataformas digitais. Com direção musical de Rildo Hora e participação especial de Mart’nália, o disco revisita a história do Sururu a partir de um repertório afetivo, popular e profundamente ligado à memória do samba brasileiro.

O projeto nasce como uma biografia musical. Em vez de apenas olhar para trás, “Na Linha do Tempo” organiza a trajetória do grupo como uma travessia: dos primeiros anos na Lapa carioca ao reconhecimento nacional, das turnês internacionais à maturidade artística da formação atual. O resultado é um disco que celebra o passado, mas aponta para uma nova fase.

O álbum traz Ana Costa, Fabiano Salek e Silvio Carvalho à frente do Sururu na Roda, acompanhados pelos músicos  Alexandre Caldi, Flavio Santos, Guinter Vieira, Luiz Augusto Guimarães, Maurício Massunaga, Ney Conceição, Marcelo Caldi, Dirceu Leite, Léo Ramiro e o próprio Rildo Hora, que também assina a direção musical.

Com 12 faixas, “Na Linha do Tempo” reúne canções que ajudam a contar a história do Sururu e sua relação com diferentes vertentes do samba. O repertório atravessa clássicos, memórias afetivas e escolhas que dialogam com a sonoridade construída pelo grupo ao longo de duas décadas e meia. Entre os destaques do disco está “Mascarada”, faixa que conta com participação especial de Mart’nália. O álbum também traz “Conversa de Botequim”, “Ex-Amor”, “Fogo de Saudade”, “Seja Sambista Também”, “Sambas de Roda”, “Água da Minha Sede”, “Sorriso Aberto”, “É”, “Testamento de Partideiro”, “Pura Semente” e “Mutirão de Amor”. Já “Sambas de Roda” aparece como um pot-pourri com por três músicas: “O Cavalo de São Jorge”, “Milagre” e “Todo Menino É Um Rei”.

Gravado no Estúdio Cia dos Técnicos, no Rio de Janeiro, com gravação e mixagem de William Luna, masterização de Alexandre Rabaço e produção de Alan Rabelo (Panda Produções), o álbum reafirma o Sururu na Roda como um dos nomes mais consistentes do samba contemporâneo. Mais do que um álbum comemorativo, ”Na Linha do Tempo” é uma declaração de permanência. Um brinde ao samba, à amizade musical e à capacidade de seguir reinventando a tradição.

"Sorriso Aberto"

"Mascarada"

"Seja Sambista Também"

.: Claudya lança disco ao vivo com convidados


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Foto: divulgação

Há vozes que pertencem a uma época. E há vozes que atravessam épocas. Claudya faz parte do segundo grupo. Aos 60 anos de carreira, a cantora celebra sua trajetória com o lançamento de um novo álbum ao vivo, que foi gravado na Casa Natura Musical, em março deste ano, e que chega a todas as plataformas digitais pela gravadora Kuarup.

O registro reúne 12 faixas - algumas apresentadas em medleys - e revisita diferentes momentos de uma carreira construída entre grandes compositores, diferentes gêneros da música brasileira e uma das interpretações vocais mais reconhecíveis de sua geração. O trabalho também promove três encontros especiais que simbolizam a força e a permanência da música brasileira: Alaíde Costa participa de “Dindi”, clássico de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira; Ayrton Montarroyos participa de “Ipanema Leblon”, de Sergio Fayne e Vitor Martins; e Patrícia Marx participa de “Com Mais de Trinta”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle.

Aos 60 anos de carreira, Claudya poderia simplesmente olhar para trás. Mas escolhe fazer o contrário: revisita sua história para reafirmar sua presença no presente. O registro ao vivo funciona como uma espécie de fotografia artística dessa trajetória. Há espaço para clássicos, canções menos óbvias, composições próprias, repertório popular e momentos de forte experimentação interpretativa.

A abertura já anuncia essa diversidade. Claudya começa com “Deixa Eu Dizer”, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, uma das canções mais associadas à sua trajetória, em um medley que inclui “Só Que Deram o Zero Pro Bedeu”, de Luis Wagner, “Agora Quem Ri Sou Eu”, parceria de Claudya e Cristiê, e “Garra”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. 

O repertório segue por diferentes paisagens da música brasileira, passando por “Menina Fulô”, de Luiz Wanderley, e “Ossain”, de Antonio Carlos e Jocafi. A interpretação segura e singular de Claudya é uma qualidade que ela preserva  de forma contundente. É realmente uma das nossas maiores cantoras da MPB e merece mesmo todas as ho.menagens

"Com Mais de 30"

"Deixa Eu Dizer"

"Pois É Seu Zé"

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: Filme "Banho de Sangue" tem herança e carnificina à moda de Mario Bava


Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.

Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".

O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.

O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.

A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.

São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?

Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho. 

O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra. 

O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos. 

O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.


Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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.: Adriana Calcanhotto em "Saga Lusa", livro que comemora 18 anos da Cogobó


Relato bem-humorado da cantora sobre os percalços da turnê portuguesa de "Maré" ganha nova edição pela Cobogó


Para comemorar 18 anos de atividade, a Cobogó volta ao ponto de partida de seu catálogo e relança "Saga Lusa - O Relato de Uma Viagem", de Adriana Calcanhotto. Publicado originalmente em 2008, o livro ganha uma segunda edição com apresentação da própria autora e novo texto de orelha assinado pelo poeta Eucanaã Ferraz. Com humor afiado e uma boa dose de ironia, Adriana transforma os acontecimentos de uma turnê portuguesa em matéria-prima para uma narrativa tão divertida quanto improvável. A viagem aconteceu entre maio e junho de 2008, durante a temporada de shows do disco "Maré". O que deveria seguir o roteiro habitual de uma excursão musical acaba descambando para uma sucessão de situações pouco recomendáveis para quem deseja manter a agenda em ordem. Com capa de Felipe Kaizer, adaptada por Mari Taboada, o livro comemora os 18 anos da Editora Cogobó, que abriu o catálogo com este livro.

Depois de um voo entre Rio de Janeiro e Lisboa sem conseguir dormir, entrevistas logo na chegada e um show interrompido pela falta de luz, mas não pela disposição de continuar cantando, a artista ainda enfrenta uma gripe fortíssima e decide combatê-la com uma combinação desastrosa de medicamentos. O resultado é um surto psicótico provocado pelos remédios, que leva ao cancelamento de shows e compromissos durante vários dias.

No quarto do hotel, sem dormir por dias e cercada por médicos, hospitais, medicamentos, exames e pela incerteza sobre quando aquela situação chegaria ao fim, Adriana começa a escrever compulsivamente. A escrita aparece como uma espécie de fio terra, uma maneira de organizar o medo e preservar algum grau de lucidez enquanto tudo parece sair do controle. O episódio rende uma narrativa em que a cantora se coloca no centro da própria trapalhada e, em vez de esconder o ridículo da situação, explora suas possibilidades cômicas. A língua portuguesa vira brinquedo, canções e livros entram pela prosa sem cerimônia e a experiência de uma crise ganha contornos de aventura.

Entre uma situação absurda e outra, Adriana encontra uma espécie de lema para atravessar aquela temporada: "a alegria é a prova dos nove". A imagem do panda, criada pela própria autora para descrever sua aparência durante o período de recuperação, sintetiza bem o espírito do livro. A cantora observa a si mesma com uma mistura rara de espanto, carinho e deboche - qualidade que transforma um episódio bastante difícil em uma história de leitura saborosa. Compre o livro "Saga Lusa - O Relato de Uma Viagem", de Adriana Calcanhotto, neste link.


Sobre a autora
Adriana Calcanhotto é compositora, cantora e professora da Universidade de Coimbra, instituição da qual é embaixadora desde 2015. Com quatro décadas de carreira, lançou álbuns de estúdio, trabalhos ao vivo e registros audiovisuais de turnês realizadas em diferentes partes do mundo. Suas canções foram gravadas por nomes como Gal Costa, Ney Matogrosso e Marisa Monte. Também colaborou com poetas como Augusto de Campos, Antonio Cicero, Waly Salomão e Arnaldo Antunes. Como Adriana Partimpim, seu heterônimo voltado às crianças de todas as idades, lançou quatro discos e recebeu o Grammy Latino de Melhor Álbum Infantil. 

Na literatura, trabalhou como ilustradora e organizou antologias de poesia. "Saga Lusa - O Relato de Uma Viagem", publicado pela primeira vez em 2008, marcou sua estreia na prosa. O livro também revelou outra faceta de uma artista que circula entre música e literatura com liberdade e personalidade próprias. Adriana Calcanhotto nasceu em Porto Alegre, vive no Rio de Janeiro e, como toda boa autora que sabe escolher suas companhias, ama os felinos.

.: Editora Fósforo assume edição da obra de Raduan Nassar com textos inéditos


Editora prepara novos lançamentos, textos inéditos, audiolivros e projetos de formação sobre o escritor vencedor do Prêmio Camões

A Editora Fósforo anuncia que, a partir de 2027, passa a publicar a obra de Raduan Nassar, vencedor do Prêmio Camões e autor de "Lavoura Arcaica", "Um Copo de Cólera" e "Menina a Caminho". Os três títulos estão entre os mais cultuados da literatura brasileira e chegam a uma nova etapa editorial sob o comando da jovem editora. Para acompanhar o projeto, a Fósforo criou um conselho editorial formado pela crítica e curadora Rita Palmeira, pelo professor e editor Augusto Massi, pelo editor e escritor Estevão Azevedo, autor de "O Corpo Erótico das Palavras: um Estudo da Obra de Raduan Nassar", e por Messias Barboza, assessor de Nassar.

É com honra e alegria que assumimos a tarefa de abrir um novo ciclo editorial para a obra de Nassar. O desafio da empreitada está à altura da grandeza de sua literatura e do trabalho extraordinário realizado pela Companhia das Letras ao longo de décadas, tanto no Brasil quanto no exterior”, afirma Rita Mattar, sócia da Fósforo. 

Sobre a dimensão da produção literária de Nassar, Augusto Massi afirma: “Raduan representa um ponto de virada, criativo e crítico, comparável ao impacto das formas narrativas de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ele inventou uma linguagem própria cujo princípio formal é colocar o conflito no centro de suas narrativas. Em contraponto à brevidade da obra, sua prosa não para de crescer em importância, revelando um grau de extrema atualidade estética, histórica e política”.


Audiovisual
O cineasta Luiz Fernando Carvalho, responsável pela adaptação cinematográfica de "Lavoura Arcaica", ficará à frente dos desdobramentos audiovisuais da obra. Carvalho também trabalha na adaptação de "As Três Batalhas", texto inédito de Nassar. “Raduan Nassar é um universo, um poeta à frente de seu tempo. Os desdobramentos de sua pequena grande lavra são fundamentais. Sem falar que trata-se de um autor ainda não plenamente descoberto, possuindo material inédito que precisa ganhar visualidade”, afirma o cineasta.

O novo projeto editorial pretende ampliar o conjunto de livros disponíveis ao público. Além das obras já conhecidas, a Fósforo prevê a publicação de escritos inéditos e de reuniões de textos que Nassar publicou na imprensa durante mais de cinco décadas de participação no debate público. Também estão previstos livros dedicados à análise da produção do escritor e audiolivros.

“Um novo projeto editorial para Raduan deve, sem jamais abrir mão da coerência e do rigor que ele sempre demonstrou, contribuir para que novos leitores tenham a oportunidade e a sorte de se apaixonar por sua obra”, afirma Estevão Azevedo. Rita Palmeira aponta outra frente de trabalho do conselho editorial: “Além de colaborar com decisões editoriais, o conselho pretende contribuir para a organização do conjunto de documentos, fotos, manuscritos e periódicos que Raduan vem reunindo ao longo de décadas. É uma enorme responsabilidade e sobretudo uma grande honra fazer parte deste conselho".


Novos leitores
Os primeiros lançamentos estão previstos para o primeiro semestre de 2027. A programação inclui ainda cursos online gratuitos sobre a obra de Nassar e clubes de leitura abertos ao público. “Queremos dialogar com novos leitores, mas também com professores e pesquisadores dedicados ao estudo de Nassar", afirma Fernanda Diamant, sócia fundadora da Fósforo.

Augusto Massi acrescenta: “Penso que o fato de Raduan mudar de casa, ser revisitado por uma editora jovem, formada por uma equipe aguerrida, pode retirar a roupagem de clássico e nos trazer de volta o espírito radical de um escritor que sempre cultivou um campo de antagonismos, um Raduan capaz de reconduzir o leitor à cena contemporânea”.

Messias Barboza vê no projeto a possibilidade de apresentar uma dimensão menos conhecida da trajetória pública do escritor. Para ele, a nova edição deverá “apresentar o cidadão Raduan àqueles que não conhecem uma parte significativa de sua atuação na sociedade. A exemplo de sua escrita, que rompeu estilos e paradigmas, sua militância desafiou convenções. Será uma viagem no tempo por jornalismo, meio ambiente, educação e cidadania”.

.: Manual Crônico: Uma dama-da-noite, as mudanças acontecem à revelia


As mudanças acontecem à revelia de nossa própria vontade

Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Mudar é preciso, sempre se pode ouvir em algum lugar. Mudar é inevitável, outros ainda dirão. Até porque, já disseram por aí, ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Logo, nada permanece o mesmo o tempo todo; ou tudo sempre muda a todo momento. Entre nada e tudo, talvez estejamos nós. Ou talvez nem estejamos. Não sei, já me perdi. Mais fácil mandar tudo às favas (ia dizer à merda, mas pega mal) e deixar o rio seguir seu curso. Pois muito cedo aprendemos que as mudanças acontecem à revelia de nossa própria vontade.

Contava eu quatro ou cinco anos de idade (ou talvez seis?) e habitávamos uma edícula com um vasto quintal à frente. Nele, cultivávamos couve, repolho e mandioca, bastante mandioca. Havia também uma jaqueira frondosa e preguiçosa. Havia galinhas, havia ovos, havia pintinhos. E havia um galo muito bravo, que insistia em eleger certas pernas para perseguir. Uma vez, “mordeu-me” a barriga porque tentei cruzar uma fronteira em busca dos ovos de uma de suas galinhas.

Nesse mesmo quintal, dei os primeiros chutes de minha exitosa carreira no futebol. Foi ali, jogando bola com meu irmão, que angariei meu primeiro grande corte na perna, cuja ferida verteu muito sangue e exigiu intensas lágrimas, cinco pontos e muito bilu-bilu nos dias seguintes. A ida ao pronto-socorro, na garupa da bicicleta do meu outro irmão, permanece na memória para sempre. A cicatriz na perna também. Hoje em dia, gosto de dizer aos desavisados que é marca de um tiro.

Também havia, nesse mesmo quintal, quase encostada ao muro, tímida durante o dia, esplendorosa ao anoitecer, uma dama-da-noite. Hoje, sei que era uma dama-da-noite. Pois, em 1992, sabia apenas que era planta, que tinha flores e que cheirava. E como cheirava! Bastou isso para que ela se tornasse um grande amor, certamente a primeira dama por quem me apaixonei.

Mas como mudar é preciso e o progresso sempre vem, nosso imenso quintal não foi poupado. Inquilinos que éramos, empurraram-nos goela abaixo um prédio. Enxadas e marretas, foices e rastelos e, os mais temidos, machados e facões tomaram posição. Zás! Cadê leiras de mandioca? Cadê pintinho piando? Cadê galo de briga? Abaixo a grande jaqueira, no chão o galinheiro. E o facão? No tronco de minha dama. Era novembro. Não me disseram, não tenho certeza da data, mas sei que era novembro. Porque o cheiro insistiu em ficar, mesmo depois de recolhidos os despojos.

No auge do sacrifício, minha irmã mais nova e eu gritávamos, não queríamos o corte, repudiávamos o assassínio. A dama era nossa, não podia deixar de existir. As bochechas quentes e molhadas, os braços contidos por mamãe e pela irmã mais velha, que cumpriam as ordens, assistiram ao ritual. Choramos, Maiara e eu, o fim da nossa dama-da-noite.

O quintal foi povoado por um prédio, que foi povoado por engradados e bebidas. No topo do edifício, um novo lar para uma nova família, que tinha crianças. Uma delas inspirou o nome do gato mais cavalheiro que já houve no mundo. As mudanças ocorrem. A vida acontece. De alguma forma, tudo passa e sempre vem uma nova vida, ainda que perfumada pelos mesmos cheiros. Na lembrança, o cheiro de minha dama, que insiste em passar sob minhas narinas sem que eu esteja esperando. Mesmo que dezembro não esteja chegando, nessa hora, para mim, é sempre novembro.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Um Homem com Uma Câmera" ganha vida com trilha sonora ao vivo no MIS


Clássico de Dziga Vertov será exibido pelo Cinematographo em sessão com acompanhamento do pianista e compositor Anselmo Mancini. Foto: divulgação


O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo resgata a experiência das antigas sessões de cinema no dia 13 de setembro, quando o programa Cinematographo apresenta "Um Homem com Uma Câmera", clássico documentário dirigido por Dziga Vertov em 1929. A sessão terá trilha sonora executada ao vivo pelo pianista e compositor Anselmo Mancini, que recriará musicalmente a atmosfera da produção soviética. Considerado um dos grandes documentários da história do cinema, o filme acompanha 24 horas na vida dos moradores de uma cidade grande. Do amanhecer ao anoitecer, um cinegrafista percorre diferentes espaços com a câmera no ombro e registra o movimento urbano, o trabalho, o lazer e a rotina cotidiana.

A proposta de Vertov revolucionou a linguagem documental ao transformar a própria câmera em personagem e explorar possibilidades de montagem, ritmo e enquadramento. Quase um século depois, o filme ganha uma nova camada de experiência no MIS com a música criada e executada ao vivo por Mancini. Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pela plataforma Megapass ou na bilheteria física do MIS.

A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual. 


Sobre o convidado
Anselmo Mancini
é doutor e mestre em audiovisual e bacharel em composição musical pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 24 anos de trajetória profissional, atua como compositor e pesquisador, reunindo experiência em diferentes áreas relacionadas à música e ao audiovisual. Mancini ministra cursos, oficinas e workshops sobre trilha sonora em instituições como o Centro de Pesquisa e Formação do SESC, as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo e a Academia Internacional de Cinema. Também participa como palestrante convidado e integra bancas de trabalhos de conclusão de curso e defesas de mestrado nos departamentos de Música, Audiovisual e Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e da FMU-FIAM-FAAM.

Sobre o Cinematographo
O Cinematographo é um programa mensal do MIS dedicado a recuperar o clima das antigas sessões de cinema, com um detalhe que muda completamente a experiência: músicos convidados criam e executam a trilha sonora ao vivo durante a exibição. A cada edição, filmes de diferentes períodos ganham acompanhamento musical pensado para a sessão, aproximando cinema e música em uma experiência que transforma a relação do público com a obra.

Serviço | Cinematographo – "Um Homem com Uma Câmera"
Domingo, dia 13 de setembro, às 15h00
Auditório MIS (168 lugares)
Ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Ingressos disponíveis na plataforma Megapass e na bilheteria do MIS
Classificação: 14 anos

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