sexta-feira, 23 de outubro de 2026

.: Resenha: "Minha Melhor Amiga" é longa nacional divertido de fotografia impecável


Cartaz de "Minha Melhor Amiga"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O longa nacional de comédia, "Minha Melhor Amiga", estrelado por Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, entrega uma história empolgante e divertida sobre uma amizade real. Logo, a química entre Ingrid e Mônica na telona transborda a ponto de pegar o público pela mão e trazer para a trama sobre os dilemas das mulheres que já passaram dos 50 anos, desde o envelhecimento feminino, a síndrome do "ninho vazio", a autonomia feminina e a quebra da ideia de que a felicidade está ligada a um romance.

A intimidade genuína entre as atrizes reflete em Clara (Ingrid Guimarães, de "Perrengue Fashion", "Minha Irmã & Eu") e Julia (Mônica Martelli), o que contribui na aceitação do enredo simples da comédia carismática. Ainda que a trama não se aprofunde, é pertinente a abordagem de dilemas das mulheres quinquagenárias. Assim, a comédia leve, caótica e reconfortante, acontece em meio a uma fotografia solar e impecável. 

Enquanto faz o público rir, em "Minha Melhor Amiga" há espaço para uma delicada, mas emocionante homenagem ao ator Paulo Gustavo que faz referência a cena hilária de falar "sorry". A trama que coloca duas amigas viajando entre Portugal e Espanha reforça a importância da amizade feminina, reavalia o peso e desafios do envelhecimento, o mode de ver a liberdade, assim como o rumo de suas próprias vidas. Vale a pena conferir a produção que transborda o carisma da dupla de protagonistas!

Trailer


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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

.: Manual Crônico: A praça, o homem de bronze e o outro homem


Thiago Sobral é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack.


Em minha aldeia, há uma praça. Muitos nem percebem, mas, em minha aldeia, há uma praça e nela, há uma estátua. E como muitos mal ou nem percebem, em minha aldeia, há uma estátua que fica numa praça.

Essa praça serve de passagem para aqueles que cruzam a avenida, depois de ladear a Matriz, para alcançarem a Prefeitura na rua de trás. E muitos que chegam à Prefeitura na rua de trás nem percebem que, no meio do caminho, há uma praça e que nela mora uma estátua.

Essa estátua que mora na praça é de um homem. Talvez essa estátua de um homem seja — ou tenha sido — de bronze, embora o homem, quando era de carne, tenha sentido dor, mas não se deixou desatinar por ela.

Esse homem, antes de ser estátua, foi poeta, foi soldado, foi amante, foi menino. Esse menino recebeu nos lábios o seio de sua mãe, que o alimentou e fez dele um ser de carne, amante, soldado, poeta e, por fim, estátua talvez de bronze — que foi parar numa praça de minha aldeia.

Os homens e mulheres e meninos de minha aldeia são de carne. Seus olhos embaçados de fuligem e fumaça correm pelas ruas e não chegam a alcançar o homem de bronze. E, por não o alcançarem, não sabem como se chama.

Do mesmo modo, é provável que não saibam como se chama a praça pela qual passam diariamente. Por certo, o tal homem, que emprestou as formas à estátua de bronze fincada na praça, tem alguma relação com o nome da praça. Os homens de carne da minha aldeiam não desconfiam disso. Mas sei que ambos se referem à Lusitânia, pois um dia passaram por mares nunca dantes navegados e por cá aportaram.

Também nós aportamos por estas terras há algum tempo. Espremidos entre a serra e o mar, disputamos espaço com as fábricas e chaminés. E, ainda que haja, no centro da cidade, uma praça e um homem que vieram de sotaques distantes, o cantar das falas que por aqui se ouve traz outro tom. O tom das terras do nordeste, quentes e fervorosas, que sempre salvam a nação.

O homem de bronze que está na praça e que um dia foi de carne lutou e foi prisioneiro, nadou e escreveu versos. Os homens que aqui vivem, um dia migraram e ergueram estradas, trabalharam e construíram fábricas. E um desses homens, ébrio de paixão e talvez cachaça, caminheiro numa noite abafada, reparou no homem de bronze da praça. Diante dele, calou-se, de Alexandre e de Trajano, a fama das vitórias que tiveram, pois o homem daqui queria falar. E falou ao homem que um dia fora de carne e que agora está na praça:

— Caraio, um gigante de ouro! — Os olhos arregalados, lançados para cima, fitaram a estátua da praça.

Alguns segundos de silêncio. Uma genuflexão, mãos no peito e depois postas. Dedo na testa, no peito, ombro esquerdo, direito, beijinho na lateral do indicador dobrado. Os homens, agora, ficaram de pé.

— Ela vai voltar, não vai? Traz ela pra mim, meu santinho! — O homem de baixo suplicou.

Deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da estátua. Depois, virou-se para o lado da Prefeitura e seguiu seu caminho. Por certo sentia que a vida é um andar solitário entre a gente, pois, distante de sua amada, transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E imaginou. E imaginamos.

Pois aqui, ainda que nossas armas e barões não sejam assinalados, somos terra onde canta o coração, onde vivem as paixões, ainda que não reconheçamos o poeta.

Queria eu reconhecer o amador que se encaminhou em direção à Prefeitura, saber de sua amada, saber o seu nome. Mas não pude… Restou-me saber os outros nomes: o da praça, Portugal; o da estátua de bronze, Luís de Camões; e o da minha aldeia, Cubatão.

.: Crítica: "Digger" vai além da figura endinheirada para chegar ao teatro

Cartaz de "Digger"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


O homem mais poderoso do mundo provoca um desastre ambiental de proporções globais, ingressa numa missão intensa para reparar os danos causados e provar que é o salvador da humanidade. Eis "Digger", o longa do diretor vencedor do Oscar Alejandro G. Iñárritu ("O Regresso") em uma inédita parceria com Tom Cruise ("Top Gun: Maverick", "Missão Impossível 7").

A empreitada da dupla embora pareça trabalhar uma trama surreal, na verdade, flerta fortemente com a atualidade ao refletir sobre responsabilidade e impactos da ambição desenfreada, colocando em pauta crise climática, negacionismo e manipulação de informação. De fato, a vida no planeta Terra corre risco estando nas mãos dos mais poderosos fazendo o que bem entendem e desejam.

Contudo, a história de um reizinho bilionário, Digger Rockwell, que cruza com figuras influentes, como por exemplo, o presidente dos Estados Unidos, na tentativa de recuperar credibilidade, vai além. Logo, no drama épico da sátira política e climática sobre um magnata do petróleo que causa um desastre apocalíptico, surge uma trama paralela que enaltece o teatro. 

Desprendido de sua beleza, Tom Cruise foge de seus papéis de sucesso para viver Digger Rockwell e dá um show de atuação com próteses e uma caracterização pesada, enquanto que a fotografia de Emmanuel Lubezki complementa com precisão tudo que se vê em cada enquadramento impressionante, assim como a estética monumental e sombria que reflete a decadência do poder. Como não perceber os fundos estampados nos cenários e, ao retratar a degradação, com infiltrações e baldes na tentativa de melhorar o ambiente?

No elenco da produção ousada que se sustenta da atuação impecável de Tom Cruise ainda estão Sandra Hüller ("Anatomia de Uma Queda" e "Zona de Interesse"), Riz Ahmed ("Venom"), Sophie Wilde ("Fale Comigo", "O Portal Secreto"), Jesse Plemons ("Guerra Civil", "Bugonia"), Emma D'Arcy ("A Casa do Dragão") e John Goodman ("Os Flintstones: O Filme"). Vale a pena conferir!


"Digger" (Digger). Duração: 2h 09min. Gênero: ação, comédia. Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Sabina Berman. Elenco: Tom Cruise, Sandra Hüller, Riz Ahmed, John Goodman. Sinopse: Em uma corrida contra o tempo, ele precisa enfrentar as consequências de suas decisões antes que a crise saia completamente do controle e ameace o futuro do planeta. Nessa trajetória, o bilionário cruza o caminho de algumas das figuras mais influentes do mundo, incluindo o presidente dos Estados Unidos, enquanto tenta recuperar sua credibilidade. O filme mistura drama épico e reflete sobre responsabilidade e os impactos da ambição desenfreada em uma narrativa repleta de tensão.

Trailer de "Digger"


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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

.: Resenha: "Cara-de-Barro" é excelente tormenta psicológica da nova fase DCU


Cartaz de "Cara-de-Barro"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Um ator de Hollywood no ápice do sucesso, com indicação ao Oscar, no auge do egocentrismo, corresponde às investidas de Mia Torrez (Joana Ribeiro), namorada de um poderoso chefão do crime de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik, "O Homem das Castanhas"), e tem como resultado, após uma noite de amor, um ataque sanguinolento que lhe dá um rosto talhado. Assim, Matt Hagen (Tom Rhys Harries, de "O Retorno") sai do homem comum, passa pelo anti-herói, vingando-se daqueles que lhe fizeram mal, até se tornar, de fato, o vilão “Cara-de-Barro” (Clayface), que dá nome ao longa de terror da DC, antagonista de Batman (promessa de confronto num filme futuro). 

Assim que o ator de Hollywood perde sua identidade, sem se reconhecer no espelho ou por aqueles que o cercam, Matt busca um tratamento experimental, esbarrando na Doutora Caitlyn Bates (Naomi Ackie, "I Wanna Dance With Somebody: A História de Whitney Houston" e "Mickey 17") que consegue reverter o aspecto monstruoso, porém nele também passa a habitar uma criatura de barro. Desta forma, acaba sendo estabelecida uma relação criador e criatura que costura uma história assustadora com bons sustos para o público.

A adaptação do ser desfigurado a mando do gângster local, surgiu originalmente nos quadrinhos em 1940, sendo historicamente um dos vilões mais clássicos e perigosos do Cavaleiro das Trevas, com direção de James Watkins ("Não Fale o Mal" e "A Mulher de Preto") e roteirizado por Mike Flanagan ("A Maldição da Mansão Bly" e "A Maldição da Residência Hill"), entrega terror, no estilo gore que consegue flertar, em partes, com o estilo de Sam Raimi ("Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio" e "Homem-Aranha"), porém mesmo expondo detalhes incômodos, acaba sendo um pouco mais recatado. Tal qual o próprio Raimi fez em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura", por exemplo.

Tendo uma excelente trilha sonora, incluindo a clássica "If You Leave Me Now", da banda Chicago, na voz de Jasmine Jethwa, uma nova e mais sombria Gotham City é desenhada, seguindo o oposto das já vistas nas tramas do herói Batman (ou Bruce Wayne) quem nem mesmo se faz presente. Paralelamente, a ausência de luz e o peso dramático na vida de Matt transmitem a tormenta psicológica, dividindo a agonia com quem assiste a tudo. Vale destacar a atuação marcante do ator galês Tom Rhys Harries.

O longa que integra o novo DC Studios (DCU) soma 1 hora e 48 minutos de duração de horror visceral, sem cenas pós-créditos. Com elementos de terror corporal tal qual o grande sucesso recente de cinema "A Substância", a produção exibe a transformação de Matt diante dos olhos do público, regada no terror sanguinolento capaz de incomodar quem está diante de tais sequências. Contudo, é numa grande festa que a grande sacada do poder de Cara-de-Barro se faz gerando grande envolvimento, além de surpreender por vezes. Vale muito a ida ao cinema!

Cara-de-Barro (Clayface, 2026). Gênero: Terror corporal, suspense. Direção: James Watkins. Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini. Elenco principal: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie e Max Minghella. Sinopse: acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator em ascensão que tem o rosto desfigurado por um chefe do crime de Gotham. Desesperado, ele usa um tratamento experimental clandestino que restaura sua aparência, mas o transforma em um monstro de argila e corrói sua sanidade. Estreia no Brasil: 22 de outubro de 2026 

Trailer de "Cara-de-Barro"


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terça-feira, 20 de outubro de 2026

.: “O Americano Tranquilo” revisita a Indochina de Greene e da Guerra Fria


Clássico dirigido por Joseph L. Mankiewicz chega ao Belas Artes à La Carte com Audie Murphy e Michael Redgrave em um triângulo amoroso cercado por disputas políticas, colonialismo e interesses estrangeiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O cinema gosta de revisitar as próprias feridas, às vezes com uma elegância que chega a ser desconfortável. É o caso de “O Americano Tranquilo”, produção de 1958 dirigida por Joseph L. Mankiewicz que estreia no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. Adaptado do romance homônimo de Graham Greene, o filme mergulha na Saigon de 1952 para acompanhar a relação entre um jornalista britânico experiente, um jovem americano cheio de convicções e uma vietnamita que se torna o centro de uma disputa afetiva e política.

Michael Redgrave interpreta Thomas Fowler, correspondente britânico que conhece bem as engrenagens da Indochina e prefere observar os acontecimentos com uma dose generosa de cinismo. Audie Murphy vive o americano, personagem chamado Alden Pyle no romance, mas que permanece sem nome no filme. Giorgia Moll interpreta Phuong, jovem vietnamita envolvida com Fowler e, depois, também com o recém-chegado americano. Claude Dauphin completa o quarteto principal como o inspetor Vigot.

A trama começa com a descoberta do corpo do americano e recua no tempo para mostrar como aquela morte foi construída pelas relações entre os personagens. O que poderia se limitar a um triângulo amoroso ganha proporções maiores quando as ideias políticas de Pyle entram em choque com a experiência de Fowler. O americano acredita em uma espécie de “terceira força” capaz de reorganizar a região, enquanto o jornalista desconfia cada vez mais das boas intenções de quem chega de fora com soluções prontas.

A diferença entre o romance de Greene e o filme de Mankiewicz é uma das partes mais interessantes dessa história. No livro, publicado em 1955, Alden Pyle é um agente americano ligado à CIA e a intervenção estrangeira aparece sob uma perspectiva bastante crítica. A adaptação mudou radicalmente esse desenho: o personagem passou a ser apresentado como um civil ligado a uma organização de ajuda internacional, o que suavizou sua relação com o governo dos Estados Unidos. O Film at Lincoln Center observa que essa alteração provocou a reação de Greene, enquanto a mesma mudança acabou fortalecendo, para alguns críticos, o conflito dramático entre Pyle e Fowler.

Graham Greene não gostou da brincadeira. O escritor considerou que Mankiewicz havia alterado o sentido político de sua história. O British Film Institute lembra que o cineasta modificou o desfecho da trama de maneira significativa, invertendo a responsabilidade pelos atentados que aparecem na narrativa. No romance, a participação americana está no centro da violência; no filme, a explicação apresentada segue outro caminho.

A mudança não aconteceu por acaso. Hollywood ainda carregava as marcas do macarthismo e da perseguição a artistas acusados de simpatias comunistas. O próprio ambiente político da época ajuda a compreender por que um romance tão desconfiado da intervenção americana ganhou uma adaptação com posições diferentes das de Greene. Existe ainda uma figura curiosa nos bastidores: Edward Lansdale, oficial de inteligência americano que colaborou sem crédito no roteiro. O envolvimento dele ajudou a alimentar a associação entre o personagem e a atuação americana no Sudeste Asiático. A presença de Lansdale na produção tornou a história ainda mais curiosa, sobretudo porque o filme trata de uma região que poucos anos depois estaria no centro de uma intervenção militar americana de proporções muito maiores.

A escolha de Audie Murphy também acrescenta uma camada peculiar ao filme. Herói de guerra condecorado e uma das grandes celebridades militares americanas da época, Murphy carregava para a tela uma imagem pública muito diferente daquela de um ator convencional. Mankiewicz chegou a considerar Montgomery Clift para o papel, enquanto Laurence Olivier estava ligado inicialmente ao personagem de Fowler. Com a saída de Clift por problemas de saúde, Olivier também deixou o projeto, e Michael Redgrave assumiu o papel.

É Redgrave, aliás, quem acaba dominando boa parte do filme. A interpretação de Fowler recebeu elogios desde o lançamento e continua sendo apontada como um dos grandes trunfos da produção. As imagens de Saigon são outro capítulo à parte. “O Americano Tranquilo” foi o primeiro filme de Hollywood filmado no Vietnã, e parte significativa das cenas externas foi realizada em Saigon. Mercados, cerimônias religiosas e ruas da cidade foram incorporados à produção, dando ao filme uma dimensão documental rara para uma obra hollywoodiana daquele período. O restante das filmagens foi realizado nos estúdios Cinecittà, em Roma.

As filmagens vietnamitas renderam situações quase cinematográficas demais para serem verdadeiras. A equipe precisava evitar o meio-dia por causa da luz intensa, teve dificuldades para conseguir autorização para filmar em um templo budista e acabou registrando, sem saber, uma manifestação política que a polícia local acreditava ser uma cena de figuração. A produção pensou estar diante de uma procissão religiosa; depois descobriu que se tratava de um protesto.

A fotografia em preto e branco de Robert Krasker reforça essa atmosfera. Responsável também pela cinematografia de “O Terceiro Homem” e “Desencanto”, Krasker cria uma Saigon de contrastes fortes, em que a movimentação das ruas convive com a tensão permanente entre os personagens. O resultado tem o peso visual do cinema clássico, mas registra uma cidade que ainda estava longe de se tornar o cenário conhecido mundialmente pela Guerra do Vietnã.

O filme acabou ficando em uma posição curiosa na história do cinema. Foi recebido com atenção, mas enfrentou críticas pela distância em relação ao romance de Greene e não se transformou em grande sucesso comercial. Décadas depois, ganhou uma nova leitura, especialmente porque o que parecia uma disputa política distante passou a ser visto à luz dos acontecimentos que se seguiriam no Vietnã.

Jean-Luc Godard chegou a defender a produção de Mankiewicz e a considerá-la um dos grandes filmes de 1958. Em 2002, Philip Noyce voltou ao romance de Greene com Michael Caine, Brendan Fraser e Do Thi Hai Yen. Essa segunda versão é considerada mais fiel ao livro e ajuda a perceber o tamanho das mudanças feitas por Mankiewicz. As duas adaptações podem ser vistas quase como respostas cinematográficas diferentes para a mesma pergunta: até onde vai a ingenuidade de quem acredita estar ajudando um país estrangeiro e quando essa suposta ajuda começa a produzir consequências que ninguém consegue controlar?


Ficha técnica
“O Americano Tranquilo” | “The Quiet American” (título original)
Gênero: drama, romance, suspense e guerra. Duração: 122 minutos. Classificação indicativa: não informada no Brasil; produção originalmente classificada como Approved nos Estados Unidos. Ano de produção: 1958. Data de lançamento: 8 de fevereiro de 1958, nos Estados Unidos. Idiomas: inglês, francês e vietnamita. Direção: Joseph L. Mankiewicz. Roteiro: Graham Greene (romance) e Joseph L. Mankiewicz; Edward Lansdale colaborou sem crédito. Elenco: Audie Murphy, Michael Redgrave, Claude Dauphin, Giorgia Moll, Bruce Cabot, Fred Sadoff, Kerima e Richard Loo. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

.: Benito de Paula, o adeus do amigo do Charlie Brown


A Música Brasileira perdeu  um de seus talentos mais originais. Benito di Paula, cantor e compositor de vários sucessos faleceu no ílnal de semana. Tinha 85 anos e tratava de um câncer de próstata. Foto: Murilo Alvesso

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Benito di Paula, nome artístico de Uday Veloso, nasceu em 28 de novembro de 1941, em Nova Friburgo, na região serrana do Rio de Janeiro. Cantor, compositor e pianista, construiu uma das trajetórias mais singulares da música popular brasileira, tornando-se um dos grandes responsáveis por aproximar o samba de uma sonoridade romântica, marcada pelo piano, por interpretações intensas e por melodias que conquistaram milhões de brasileiros.

Filho de uma família musical, Benito desenvolveu desde cedo sua relação com os instrumentos e com a canção popular. Ainda jovem, começou a trabalhar como crooner, apresentando-se em casas noturnas do Rio de Janeiro. Posteriormente, passou por Santos e São Paulo, onde encontrou um ambiente decisivo para o desenvolvimento de sua carreira. Foi na noite paulistana que consolidou sua identidade artística e conquistou o público com uma maneira própria de cantar e tocar samba ao piano.

Sua projeção nacional ganhou força no início da década de 1970, quando assinou com a gravadora Copacabana e passou a lançar discos que rapidamente encontraram grande repercussão comercial. Em 1973, a canção “Retalhos de Cetim” tornou-se um dos maiores marcos de sua carreira. Com sua interpretação emotiva, o piano em primeiro plano e uma melodia de forte apelo popular, a música se transformou em um clássico da canção brasileira, atravessando gerações e recebendo gravações de outros intérpretes.

A partir daí, Benito emplacou uma sequência de sucessos que consolidaram sua presença no imaginário popular. “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer”, “Se Não For Amor”, “Vai Ficar na Saudade”, “Tudo Está no Seu Lugar”, "Ah, como eu Amei" e “Proteção às Borboletas” estão entre as canções que ajudaram a definir sua obra. Suas composições combinavam romantismo, cotidiano, humor, sentimento e observação da vida brasileira, sempre com uma assinatura musical facilmente reconhecível.

Seu diferencial estava, sobretudo, na maneira de colocar o piano no centro do samba. Em uma tradição frequentemente identificada com o violão, o cavaquinho e os instrumentos de percussão, Benito desenvolveu uma estética em que o teclado harmônico conduzia a interpretação e estabelecia uma relação particular com a voz. Suas apresentações eram marcadas por gestos expressivos, forte presença cênica e uma entrega emocional que aproximava o artista de seu público.

Benito também rompeu barreiras entre diferentes segmentos da música popular. Sua obra dialogava com o samba tradicional, a canção romântica e elementos do jazz, sem perder o vínculo com a comunicação direta e com a experiência cotidiana dos ouvintes. Essa combinação contribuiu para que alcançasse públicos diversos e se tornasse um fenômeno de popularidade nas décadas de 1970 e 1980.

Embora tenha construído grande parte de sua trajetória a partir de composições próprias, Benito manteve relações importantes com outros criadores e intérpretes da música brasileira. Entre seus parceiros de composição estavam Chico Anysio, Adoniran Barbosa e Márcio Brandão, nomes que representam diferentes experiências e tradições da canção popular e também Jota Velloso, Ney Velloso e Ana Carolina Velloso (irmãos de Benito).

Sua obra também ultrapassou as fronteiras de seu próprio repertório. Composições de Benito foram gravadas por artistas como Roberto Carlos, Maria Bethânia e Alcione, demonstrando a capacidade de suas canções de encontrar novas interpretações e circular por diferentes universos musicais. “Retalhos de Cetim”, em particular, ganhou leituras de outros intérpretes brasileiros e estrangeiros, ampliando o alcance de sua criação.

O reconhecimento de sua música por artistas de gerações distintas reafirmou a força de um repertório que não dependia apenas da presença do próprio compositor para continuar vivo. Suas canções passaram a integrar o patrimônio afetivo da música brasileira, sendo revisitadas por intérpretes do samba, do pagode e da nova geração da MPB.

Nos últimos anos, Benito aprofundou o diálogo entre sua trajetória e a renovação da música popular por meio de seu filho, o cantor e pianista Rodrigo Vellozo. Juntos, lançaram o projeto O Infalível Zen, em 2021, aproximando a experiência musical do pai de outras referências estéticas e de uma perspectiva contemporânea. A parceria também simbolizou a transmissão de um legado artístico entre gerações. 

Benito di Paula deixa uma obra que pertence à memória afetiva de diferentes gerações. Suas canções continuam a contar histórias de amor, saudade, alegria e cotidiano, revelando a força de uma música popular que encontra no sentimento uma de suas maiores formas de comunicação. Com certeza, o seu amigo "Charlie Brown" deve se sentir agradecido pelo fato de você ter apresentado para ele as nossas belezas naturais esse sentir nossa musica.

"Retalhos de Cetim"

"Charlie Brown"

"Amigo do Sol, Amigo da Lua"

domingo, 18 de outubro de 2026

.: “Gol de Quem?”: Pato Fu lança disco ao vivo


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

No dia 7 de agosto de 2025, a banda Pato Fu subiu ao palco da Audio Club, em São Paulo, para comemorar três décadas de um de seus álbuns mais emblemáticos: “Gol de Quem?”. Lançado em 1995 e produzido por Carlos Savalla, o trabalho posicionou o grupo mineiro como uma das formações mais originais da cena nacional, unindo rock alternativo, música pop, experimentação sonora e letras cheias de personalidade.

O show reuniu convidados que têm escrito capítulos importantes da música brasileira. Os cantores Tom Zé, Zélia Duncan, BNegão e Coral juntaram-se ao Pato Fu para interpretar canções emblemáticas do álbum, em novas e emocionantes versões. A plateia sortuda que disputou ingressos para lotar a casa testemunhou esses felizes encontros centrados no repertório do “Gol de Quem?”, e seguiu cantando a plenos pulmões músicas de todas as fases da banda, algumas há muito tempo não executadas ao vivo.

Fãs de várias gerações agora podem ter acesso à integra desse espetáculo, que foi registrado em formato audiovisual com direção e concepção assinadas por Batman Zavareze, direção musical de John Ulhoa e direção de produção de Aluizer Malab. O registro de áudio de “Gol de Quem? Ao Vivo” acaba de chegar às plataformas digitais. Em breve o projeto também ganhará versões físicas, sendo lançado em CD e vinil duplos em data a ser confirmada.

Formado em Belo Horizonte em 1992, o Pato Fu é considerado uma das bandas mais criativas da música brasileira. Tem 17 álbuns lançados, 3 Discos de Ouro, um Grammy Latino, APCA, vários prêmios MTV e Multishow no currículo e uma carreira marcada por uma videografia reconhecida. A formação atual reúne Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Richard Neves.

  "Sobre o Tempo"

"Depois"

 "Eu"

.: "Hotel California": 50 anos de um clássico do rock


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Alguns álbuns permanecem com a mesma relevância da época em que foram lançados. Um desses casos é o excelente "Hotel California" da banda americana Eagles, que de uma certa forma acabou elevando o patamar do grupo dentro do mainstream. "
Hotel California" foi o quinto álbum de estúdio da banda e também o nome da música de maior sucesso do grupo. Ate ali o Eagles já havia conquistado um espaço com uma sonoridade próxima do folk rock.

A banda  tinha como líderes o baterista Don Henley e Glenn Frey, além dos guitarristas Don Felder e Joe Walsh. Ambos responsáveis pelo antológico solo da faixa. O disco demorou oito meses para ser gravado, entre Março e Outubro de 1976. O disco traz a música de maior sucesso do grupo: a faixa-título "Hotel California", além de outros sucessos como "New Kid In Town" e "Life In The Fast Lane". Teve participação do guitarrista Joe Walsh já como um membro fixo da banda, ele que tinha se juntado ao grupo no ano anterior, ocupando o lugar de Bernie Leadon.

Se você  ouvir novamente o disco, perceberá que tem uma sequencia de canções que se complementam. "Victim of Love" é a sequencia de baladas que encerra o album são outros destaques . A banda recebeu dois Grammy Awards, um pela música "Hotel California" na categoria "Record Of The Year" e outro pela música "New Kid in Town" na categoria "Best Arrangement For Voices".

"Hotel California"

"Victim of Love"

"New Kid in Town"

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Palavras desenhadas no ar


Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Chave no contato. Giro. Partida. Dedo no botão: a Partida. Quinze, dezesseis minutos em que sou forçado a recriar na mente quatro linhas, círculo e semicírculos, traves, bola, toques, dribles, cabeçadas e chutes, que são desenhados no ar por alguém que não sei exatamente quem é. Tudo bem que os dribles não estão mais tão na moda assim, mas desejo muito imaginá-los. Caso contrário, qual seria a graça?

Há muito larguei as discussões acaloradas sobre o futebol. Há muito abandonei os gramados e talvez seja por isso que o hexa nunca vem. E há muito não ouvia uma partida pelo rádio. Ao colocar o dedo no botão, o jogo estava um a zero para nós. E os míseros quinze, dezesseis minutos de trajeto entre a escola, no fim do expediente noturno, e minha casa alojaram em meus ouvidos a nostalgia dos anos noventa.

Enquanto dirigia, o time adversário empatou. Diz o homem que desenhava as palavras no ar que Dairon Asprilla havia feito um golaço. Acreditei, incrédulo de meu pé-frio. Digo pé-frio porque me bailou na mente a última transmissão futebolística de rádio de que tenho memória. Não informo o time pelo qual torço por questão de privacidade. Mas o amigo vai entender.

O ano era 1998. E quem conheceu 98 sabe que a coisa não foi lá muita coisa para nós… Não só nós, mas todos nós (Zidane que o diga). Por pouco, não nos igualamos ao futuro, quando os alemães se fizeram em todos nós — não apenas em nós. Minha criança de dez anos ouviu aquela partida com olhos empoçados, imaginando cada um dos sete tentos lusitanos como marteladas no meu pequeno coração torcedor. No dia seguinte, o Globo Esporte calcificou minha imaginação para sempre.

Eis o ponto! A partida do presente levou-me à partida do passado, e as emoções se tornaram uma só. O coração acelerado ouviu o apito estridente e o desenhista das palavras no ar anunciar o pênalti. Foi? Não foi? A mão no câmbio do carro e a segunda entrou rasgando. Jonathan Calleri bateu no alto. Grito! Mão no câmbio novamente: a terceira deslizou. A imaginação cumpriu seu trabalho.

Melancolia do passado. Euforia do presente. Tudo construído através das palavras desenhadas pelas ondas sonoras, sentimento no ar. Não sei se bom ou ruim. Sei apenas que os meninos de dez anos de hoje talvez não terão essa chance, lá na frente. Porque o que há são imagens e cortes, canais e streamings. O palco é das telas. E o serviço está feito.

Só resta torcer.

Torcer como torceu o garotinho na final de 98, na França. Torcer e chorar como o menino que viu os lusos Émerson, César, Leandro, Carlinhos, Evandro, Ricardo Lopes e Da Silva alcançarem o número perfeito, ainda que enganado pelos tricolores Serginho e Marcelinho. Ou mesmo, como torceu o homem de hoje, ao ouvir novamente as palavras desenhadas no ar pelo locutor.

O jogo de agora teve um desfecho melhor: três a um e a nossa classificação para a próxima fase. Dessa vez, não recorri ao Globo Esporte para calcificar a imaginação. Preferi ficar com as palavras desenhadas no ar por alguém que não sei exatamente quem é.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

.: Fama e Hollywood são matéria-prima para novo romance de John Green


Após quase uma década longe da ficção, autor de “A Culpa É das Estrelas” acompanha dois jovens atores diante das delícias e dos estragos provocados pela fama


John Green está de volta à ficção. Depois de quase uma década, o escritor norte-americano retorna às livrarias com “Um Final de Cinema”, romance que mergulha no universo do cinema para discutir fama, exposição, ambição profissional e as marcas que certas experiências deixam pelo caminho. O livro, publicado pela Intrínseca, chega às livrarias em outubro, com tradução de Alda Lima. A arte de Andy Warhol, figura controversa e fundamental da Pop Art, serve como uma das referências para a história. A célebre relação entre celebridade, consumo e transformação de pessoas em produtos ganha novas camadas nas mãos de Green, autor de livros que conquistaram gerações de leitores, como “A culpa é das estrelas” e “Cidades de papel”.

A trama acompanha dois atores em ascensão durante as filmagens de uma cinebiografia sobre o último ano de vida de Warhol. Kai é um estreante em Hollywood que tenta descobrir se finalmente encontrou a oportunidade capaz de mudar sua trajetória ou se aquela será sua primeira e última grande chance. Juniper, por sua vez, foi atriz mirim e está determinada a mostrar que cresceu, amadureceu e está pronta para ocupar novos espaços na indústria. A proximidade entre os dois rapidamente desperta a atenção do público. O talento chama a atenção, mas os rumores de um possível romance também fazem sua parte, especialmente nas redes sociais. Enquanto o filme ganha forma, Kai e Juniper percebem que estão envolvidos em uma produção capaz de alterar suas vidas profissionais.

A expectativa aumenta quando, perto da estreia, a produção conquista atenção suficiente para elevar as projeções de arrecadação. O sucesso finalmente parece ao alcance dos dois. Juniper e Kai chegam ao lugar que tanto desejavam, enquanto uma possível história de amor surge no horizonte, justamente quando suas carreiras começam a ganhar velocidade. A fama, porém, costuma cobrar a conta com juros. Conforme os dois passam a ocupar mais espaço na mídia, lembranças que preferiam manter no passado reaparecem. A exposição transforma questões pessoais em assunto público e obriga os protagonistas a descobrir como sobreviver a uma realidade na qual cada detalhe pode virar notícia, comentário ou especulação.

É nesse jogo entre celebridade e intimidade que John Green encontra o coração de “Um Final de Cinema”. Seus personagens sabem o que querem profissionalmente, mas precisam enfrentar a possibilidade de se transformarem em mercadorias da própria indústria que desejam conquistar. A referência a Warhol, portanto, ganha uma dimensão particularmente saborosa dentro da narrativa. A fama pode durar quinze minutos. O problema começa quando esses quinze minutos resolvem ocupar uma vida inteira.


Sobre o autor
John Green é autor premiado e best-seller do New York Times. Formado em língua inglesa e estudos religiosos pelo Kenyon College, em Ohio, nasceu em 1977, no estado de Indiana, onde vive com a mulher e os filhos. Ao longo da vida, também morou em Nova York, Illinois, Michigan, Flórida e Alabama. Antes de se tornar um dos nomes mais conhecidos da literatura contemporânea para jovens adultos, trabalhou como redator na National Public Radio, em Chicago, e como editor-assistente e de produção da revista de resenhas literárias Booklist. Também assinou críticas de livros para o New York Times. Pela Intrínseca, publicou “A Culpa É das Estrelas”, “Quem É Você, Alasca?”, “Cidades de Papel”, “O Teorema Katherine”, “Tartarugas Até Lá Embaixo”, “Antropoceno: Notas Sobre a Vida na Terra” e “Tudo É Tuberculose”.

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