terça-feira, 1 de setembro de 2026

.: "Teatro em Três Pernas" transforma 40 anos de palco em poesia na Bienal


Marcelo Lazzaratto reúne quatro décadas de teatro em 40 poemas e participa de sessão de autógrafos neste sábado, 5 de setembro, na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Foto: João Caldas

Quarenta anos de teatro cabem em um livro? Marcelo Lazzaratto decidiu testar a possibilidade e chegou a uma resposta em 40 poemas breves. Ator, diretor, dramaturgo, pesquisador e professor Livre-Docente do Instituto de Artes da Unicamp, ele estreia na poesia com "Teatro em Três Pernas", publicado pela Editora Patuá. A obra será apresentada ao público durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, com sessão de autógrafos marcada para sábado, 5 de setembro, às 14h00, no estande K45 da Editora Patuá.

Organizado em cinco atos, o livro transforma em poesia elementos que acompanham a trajetória de Lazzaratto nos palcos: ensaios, bastidores, processos de criação, pesquisa, presença, tempo e percepção. O teatro aparece como matéria-prima, mas a palavra ganha espaço próprio. Fundador e diretor artístico da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico e criador do sistema improvisacional Campo de Visão, Lazzaratto leva para os poemas o olhar construído em quatro décadas de convivência com a cena. A síntese também aproxima a obra da tradição do haicai, com atenção ao instante e à força da imagem. 

O resultado é um livro que condensa uma extensa experiência artística em textos curtos, alguns poéticos, outros bem-humorados, mantendo a inquietação característica de quem passou boa parte da vida investigando o que acontece quando um corpo ocupa um palco e uma palavra encontra alguém disposto a ouvi-la. A apresentação de "Teatro em Três Pernas" é assinada por Welington Andrade, editor da Revista Cult e crítico teatral. Ele estará ao lado do autor durante um bate-papo na data do lançamento. Compre o livro "Teatro em Três Pernas", de Marcelo Lazzaratto, neste link.


Sobre o autor
Marcelo Lazzaratto é ator, diretor, dramaturgo, pesquisador e professor Livre-Docente do Instituto de Artes da Unicamp. Fundador e diretor artístico da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico, criou o sistema improvisacional Campo de Visão, referência na pesquisa sobre coralidade, alteridade e presença cênica. Ao longo de quatro décadas de carreira, dirigiu e atuou em espetáculos como "O Jardim das Cerejeiras", "Ricardo III", "A Grande Magia", "Tebas", "Ifigênia" e "O Outro Borges". É autor dos livros "Campo de Visão: Exercício e Linguagem Cênica", "Campo de Visão: um Exercício de Alteridade" e "Arqueologia de um Ator. "Teatro em Três Pernas" marca sua estreia na poesia. Compre os livros de Marcelo Lazzaratto neste link.

Serviço
Sessão de autógrafos | "Teatro em Três Pernas" | Autor: Marcelo Lazzaratto
Dia 5 de setembro de 2026, sábado, às 14h00
28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Estande: K45 – Editora Patuá
Endereço: Distrito Anhembi – Avenida Olavo Fontoura, 1209 – Santana – São Paulo/SP

.: Teatro: “O Convite” ganha montagem brasileira após sucesso no cinema


Peça espanhola que conquistou o público nos palcos e virou filme de sucesso chega ao teatro brasileiro pelas mãos de Marcos Veras e do produtor Carlos Grun. Fotos: divulgação


Do cinema para os palcos brasileiros. Depois de conquistar o público em diferentes versões e ganhar uma adaptação cinematográfica de sucesso, “O Convite” prepara a primeira montagem brasileira da peça espanhola “Los Vecinos de Arriba”. Os direitos da obra foram adquiridos pelo ator Marcos Veras em parceria com o produtor Carlos Grun, que conheceu o texto no início deste ano, durante uma temporada em Portugal com Mateus Solano. Na ocasião, a versão teatral ainda não havia chegado ao cinema.

Meses depois, Veras se apaixonou pela adaptação cinematográfica e procurou o sócio para propor a montagem brasileira. A surpresa veio quando descobriu que Grun já estava em negociação pelos direitos da peça.  A estreia está prevista para abril de 2027, no Rio de Janeiro, com Marcos Veras no elenco. Os demais nomes da montagem serão anunciados em breve. O título da versão brasileira ainda será definido. Uma coisa, porém, já está decidida: depois de passar pelo cinema, “O Convite” vai bater à porta do teatro brasileiro.


“O Convite” transforma jantar entre vizinhos em crise de relacionamento
Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) estão naquele estágio do relacionamento em que o casamento parece precisar de uma boa sacudida. A rotina pesa, a relação dá sinais de desgaste e um simples jantar com os vizinhos do andar de cima parece uma boa ideia. Em “O Convite”, dirigido por Olivia Wilde, a chegada de Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) transforma uma noite aparentemente civilizada em uma sucessão de revelações, constrangimentos e provocações. 

O casal convidado tem um estilo de vida bem menos convencional do que Joe e Angela imaginavam, e a conversa sobre relacionamentos, desejos e sexualidade rapidamente sai do território seguro do bate-papo entre vizinhos. Com roteiro de Rashida Jones e Will McCormack, o filme aposta em quatro personagens confinados praticamente ao mesmo espaço para fazer a temperatura subir aos poucos. O apartamento vira uma espécie de arena doméstica, onde cada taça, pergunta indiscreta ou comentário inconveniente pode colocar um casamento em xeque.

A estrutura aproxima “O Convite” do teatro, algo especialmente curioso agora que a obra também ganha uma montagem brasileira. Com poucos personagens, um único ambiente predominante e diálogos que conduzem boa parte da ação, o filme deixa os atores no centro da brincadeira. No meio de coquetéis, confissões e uma boa dose de vergonha alheia, a produção encontra espaço para falar sobre aquilo que costuma azedar relações duradouras: rotina, desejo, insegurança, ego e a dificuldade de enxergar o parceiro depois de tantos anos dividindo a mesma vida.

.: "Egoísta" leva mulher negra, viagens e liberdade ao palco da CAIXA Cultural SP


Espetáculo protagonizado por Ana Marlene transforma a história real da cearense Josefa Feitosa em uma conversa sobre maternidade, etarismo e o direito de escolher o próprio caminho

Mochileira, viajante, passageira do mundo. É assim que Josefa Feitosa, ou simplesmente Jô, se apresenta. Aos 64 anos, a cearense de Juazeiro do Norte já passou por mais de 60 países e decidiu fazer da própria vida uma espécie de mapa sem residência fixa. Agora, sua história ganha o palco em "Egoísta", espetáculo idealizado e dirigido por Juracy de Oliveira, com Ana Marlene no papel de Jô. A produção da Peixe-Mulher estreia em São Paulo com temporada de 3 a 13 de setembro, de quinta a domingo, na CAIXA Cultural São Paulo. Depois, segue para a CAIXA Cultural Fortaleza.

A peça parte da trajetória de uma mulher negra que resolveu contrariar o roteiro social reservado à terceira idade. Depois da aposentadoria, Jô colocou a mochila nas costas e saiu pelo mundo. Nada de recolhimento doméstico, rotina engessada ou obrigação de dedicar os dias aos netos. Para ela, a vida continua acontecendo enquanto houver caminho pela frente. "Egoísta" acompanha lembranças da infância, experiências de viagem e episódios da trajetória de Jô, aproximando essas memórias de temas como maternidade e etarismo. A relação com o público também faz parte da proposta, criando um espaço para que a história pessoal da personagem encontre outras experiências.

A montagem ainda oferece atividades complementares durante a temporada paulistana. No dia 5 de setembro, Jô ministra a oficina "A Fantástica Experiência de Viajar Sozinha", voltada para mulheres a partir de 50 anos. A partir da própria experiência como nômade, ela aborda questões práticas das viagens, como utilização de cartão de crédito, comunicação e orientação em diferentes lugares. As sessões dos dias 4 e 11 de setembro terão bate-papo com o público após a apresentação. Já as sessões dos dias 6 e 13 serão acessíveis ao público surdo, com intérprete de Libras.


De assistente social a cidadã do mundo
Jô nasceu em Juazeiro do Norte, é mãe, avó e assistente social por formação. Durante quase três décadas, trabalhou no sistema carcerário cearense, onde se dedicou à defesa dos Direitos Humanos. Também foi uma das responsáveis pela criação de alas exclusivas para pessoas trans no sistema prisional.

Fora do trabalho, criou sozinha três filhos e acompanhou a criação de um neto. A experiência fez com que a própria ideia de liberdade ganhasse contornos particulares. Para algumas mulheres, a maternidade solo também pode assumir a aparência de uma prisão. Depois de se aposentar, Jô decidiu viver como nômade. Passou um ano viajando e, quando retornou, doou tudo o que tinha. Dividiu o patrimônio, organizou a mochila e voltou para a estrada. Desde então, vive onde a mala está.

A tecnologia também entrou no roteiro durante os percursos. Hospedada em hostels e convivendo com viajantes mais jovens, aprendeu a utilizar aparelhos, redes sociais e ferramentas que facilitam a vida de quem não tem endereço fixo. Em troca, compartilhou com os novos amigos outras maneiras de olhar para o mundo. Hoje, suas viagens também podem ser acompanhadas pelas redes sociais, no perfil @joviajando.


Uma história que encontrou o teatro
A transformação da trajetória de Jô em espetáculo começou a partir do encontro dela com Juracy de Oliveira. O diretor conheceu a viajante por intermédio da irmã, que estava se tornando nômade. “Conhecer a Jô foi uma surpresa, a história de vida dela é inacreditável e por ter sido criado em uma família com uma maioria de mulheres, a coragem dela me atravessou, me fez lembrar das mulheres que são referência pra mim. Essa peça parte de um desejo genuíno de homenagear pessoas enquanto estão vivas, ainda que não sejam famosas”, explica Juracy, diretor do projeto.

A história também conquistou Ana Marlene. Com 46 anos de carreira, a atriz, fundadora da Trupe Caba de Chegar - primeiro grupo de teatro de rua de Fortaleza - encontrou em Jô uma personagem capaz de dialogar com sua própria trajetória. "A Jô me inspira. A história dela conta também uma parte da minha: uma mulher negra, que saiu de casa pra viver um sonho, que não teve medo de enfrentar o preconceito, não teve medo de ousar e se aventurar. Mesmo no alto dos seus 50, 60 anos, quando tudo o que a sociedade quer é que você se esconda, ela fez o contrário, apareceu mais ainda e pintou o cabelo de azul", conta a atriz.

"Egoísta" marca o primeiro solo de Ana Marlene, que recebeu indicação ao Prêmio Shell 2024 na categoria Melhor Atriz pela atuação. A produção já passou por mais de dez cidades brasileiras e teve duas temporadas no Rio de Janeiro. A primeira aconteceu em 2024, no Sesc Tijuca, com ingressos esgotados. Em maio de 2026, o espetáculo voltou ao estado e circulou pela capital e pelo interior, passando por seis cidades. Agora, chega a São Paulo com entrada gratuita. Para quem acredita que depois de certa idade o mundo deve ficar pequeno, Jô tem uma resposta prática: basta arrumar a mochila.


Ficha técnica
Espetáculo "Egoísta"
Direção e idealização: Juracy de Oliveira
Concepção dramatúrgica: Juracy de Oliveira e Sara Síntique
Texto: Sara Síntique
Elenco: Ana Marlene
Coordenação de Produção: Luana Caiubi
Coordenação de Comunicação: Renata Monte
Produção: Marisa Bezerra e Rodrigo Ferrera
Maquiagem: Rodrigo Ferrera
Figurino: Cris Rodrigues
Cenário: Li Coelho e Cris Rodrigues
Assistência de Direção: Alda Pessoa
Direção musical: Clau Aniz
Fotos: Matheus Tavares / Karla Brights
Redes sociais: Peixe-Mulher
Design: Lorena Araújo
Iluminação: Tayná Maciel
Realização: Peixe-Mulher

Serviço
"Egoísta"
Datas: 3, 4, 5, 6, 10, 11, 12 e 13 de setembro de 2026
Horário: quinta-feira a sábado, às 19h; domingo, às 18h
Local: CAIXA Cultural São Paulo — Praça da Sé, 111, São Paulo
Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes do início de cada apresentação, limitados a um por pessoa.
Duração: 60 minutos
Classificação indicativa: livre


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

.: “Banquete Coutinho” devolve a palavra a Eduardo Coutinho e serve cinema puro


Documentário de Josafá Veloso parte de uma entrevista realizada em 2012 para revisitar a obra, as ideias e as inquietações de um dos maiores cineastas brasileiros

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Eduardo Coutinho tinha talento para conversar e uma alergia saudável à pose de gênio. Em determinado momento de “Banquete Coutinho”, resume a própria existência com a secura bem-humorada de quem dispensava monumentos: “Eu fumo e faço uns filmes”. A frase parece pequena diante de uma filmografia que modificou a maneira de registrar pessoas comuns no cinema brasileiro. Talvez seja esse o charme. Coutinho sabia que uma câmera, uma cadeira e alguém disposto a contar a própria história podiam produzir terremotos.

Dirigido e roteirizado por Josafá Veloso, “Banquete Coutinho” chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision, depois de percorrer festivais brasileiros e internacionais. Realizado a partir de um encontro filmado com Coutinho em 2012, dois anos antes da morte do cineasta, o documentário usa aquela conversa como espinha dorsal para passear por sua obra e por algumas obsessões que o acompanharam durante décadas: vida, morte, trabalho, cinema, ética, religião, relações de poder e o curioso território criado entre quem pergunta e quem aceita ser filmado. 

A provocação que move Veloso é boa: teria Eduardo Coutinho passado a carreira inteira realizando, de algum modo, o mesmo filme? A pergunta conduz um percurso que alcança títulos fundamentais como “Cabra Marcado para Morrer”, “Santo Forte”, “Babilônia 2000”, “Edifício Master”, “O Fim e o Princípio” e “Jogo de Cena”. A montagem de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos aproxima trechos dessas obras da entrevista de 2012 e permite perceber uma espécie de parentesco entre personagens, métodos e preocupações espalhados pela filmografia. A fotografia do novo material é de Ticão Okada, enquanto Veloso assina também a música.

O próprio Coutinho ocupa o centro da cena, posição curiosa para alguém que construiu boa parte da carreira olhando para os outros. A inversão rende sabor ao filme. O homem que perguntava passa a responder, embora continue escapando das certezas, desconfiando das teorias muito arrumadinhas e tratando o cinema com aquela mistura peculiar de rigor, humor e desencanto. Pela tela passam suas ideias sobre o ofício e fragmentos de uma trajetória que começou longe da imagem consagrada do mestre documentarista.

Antes de “Cabra Marcado para Morrer” se tornar um marco, Coutinho experimentou a ficção, trabalhou como roteirista, integrou o “Globo Repórter” e passou anos construindo uma linguagem documental baseada no encontro, no conflito e na singularidade de cada pessoa diante da câmera. “Cabra Marcado para Morrer”, iniciado como ficção em 1964 e interrompido após o golpe militar, seria retomado anos depois sob outra forma, misturando o material antigo ao reencontro com seus participantes. Lançado em 1984, recebeu, entre outros prêmios, o Fipresci no Festival de Berlim e tornou-se peça central de sua carreira.

Veloso ainda recupera uma curiosidade quase arqueológica: “Le Téléphone”, curta de 1959 realizado por Coutinho durante seus estudos no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o IDHEC, na França. Esse retorno às primeiras experiências ajuda a desmontar a impressão de que o cineasta nasceu pronto, barba branca, cigarro na mão e perguntas afiadas. Houve ficção, televisão, roteiros para outros diretores, tropeços, mudanças de rota e muito trabalho antes da fase que consolidaria títulos como “Santo Forte”, “Edifício Master” e “Jogo de Cena”.

“Banquete Coutinho” foi o primeiro filme dirigido por Josafá Veloso, historiador formado pela USP, mestre pela Universidade Federal Fluminense e com estudos de documentário na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños, em Cuba. A estreia ocorreu em 2019, na abertura da oitava edição do Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba. Depois, o documentário passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Festival do Rio, Doclisboa, Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano, CineOP, Cinecipó e forumdoc.bh, entre outros eventos.

A força da proposta aparece quando Coutinho simplesmente fala. A ironia seca, a inteligência quase impaciente e a capacidade de desmontar solenidades continuam vivas na gravação. Veloso dispõe esse material ao lado dos filmes e deixa que uma obra converse com outra. O resultado também sugere algo delicioso: talvez a pergunta sobre Coutinho ter realizado repetidamente “o mesmo filme” diga bastante sobre a coerência de um artista que passou décadas interessado no ser humano quando ele deixa de caber no estereótipo. O título “Banquete Coutinho” cai bem. Há muita coisa na mesa: memória, política, ética, religião, fracasso, vaidade, morte, trabalho e cinema. No centro dela está um sujeito que preferia conversar com gente a fabricar estátuas de si próprio. Para alguém que dizia fumar e fazer uns filmes, Eduardo Coutinho deixou uma tremenda quantidade de assunto.


Ficha técnica
“Banquete Coutinho” (título original) | “A Treat of Coutinho” (título internacional)
Gênero: documentário. Duração: 74 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2019. Data de lançamento: 5 de junho de 2019, no Brasil. Idioma: português. Direção e roteiro: Josafá Veloso. Elenco: Eduardo Coutinho. Produção: Eugenio Puppo. Direção de fotografia: Ticão Okada. Montagem: Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos. Música: Josafá Veloso. Produção: Heco Produções. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Aventura de Férias" embaralha férias, memória e família sob o sol da Sardenha


Filme de Sophie Letourneur, destaque do Festival do Rio, acompanha viagem de uma família francesa pela Sardenha e chega ao Brasil pelo Belas Artes à La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Destaque na programação do Festival do Rio 2025, "Aventura de Férias" chega ao Brasil pelo streaming Belas Artes À La Carte com uma proposta que parece simples até a família colocar o pé na estrada: passar as férias de verão na Sardenha. O problema é que férias em família raramente obedecem ao roteiro imaginado antes de fechar as malas. Dirigido por Sophie Letourneur, o filme acompanha Claudine, uma menina que está prestes a completar 11 anos e decide registrar as histórias da viagem enquanto percorre a ilha italiana de carro com a mãe, Sophie, o padrasto, Jean-Philippe, e o irmão caçula, Raoul, de três anos. Entre passeios, refeições, pequenas descobertas, discussões e as inevitáveis trapalhadas provocadas por uma criança que parece ter energia para abastecer uma cidade inteira, a viagem vai ganhando contornos muito menos turísticos.

Selecionado para a mostra Panorama Mundial do Festival do Rio, "Aventura de Férias" chamou atenção pela maneira como transforma o cotidiano familiar em matéria cinematográfica. O filme acompanha situações aparentemente banais e encontra nelas humor, desconforto, ternura e uma certa melancolia. A proposta está longe da comédia familiar convencional, aquela em que cada confusão precisa desembocar em uma lição edificante antes dos créditos finais. Nesse filme, a família pode discutir, perder a paciência, rir, irritar e continuar junta. Como acontece na vida real, para desespero de quem esperava uma viagem perfeitamente organizada.

A estrutura do filme tem uma particularidade saborosa: as conversas familiares são fundamentais para a construção da narrativa. Letourneur utiliza gravações realizadas durante viagens feitas em 2016 como matéria-prima para o projeto. Segundo informações divulgadas sobre a produção, ela registrou aquelas conversas sem saber exatamente, naquele momento, qual seria o destino do material. Anos depois, as gravações passaram a alimentar a escrita do filme.

O resultado cria uma curiosa mistura de ficção e experiência pessoal. As falas carregam uma naturalidade desconcertante, enquanto a encenação organiza aquilo que poderia parecer apenas um amontoado de lembranças de férias. A própria diretora já havia trabalhado com procedimento semelhante em "Voyages en Italie", de 2023, primeiro filme de uma trilogia dedicada aos relacionamentos e às viagens pela Itália. "A Aventura" é o segundo capítulo desse projeto.

E o título não é por acaso. "Aventura de Férias" faz uma referência direta a "L'Avventura", clássico de Michelangelo Antonioni lançado em 1960. A brincadeira já havia aparecido no filme anterior de Letourneur, "Voyages en Italie", uma alusão evidente a "Viagem à Itália", de Roberto Rossellini. O cinema italiano, portanto, está no retrovisor, embora a família de Letourneur esteja ocupada demais tentando sobreviver às férias para prestar muita atenção à cinefilia.

A comparação com Antonioni, porém, serve mais como provocação cinéfila do que como indicação de que os filmes tenham propostas semelhantes. O clássico de 1960 é uma obra fundamental do cinema moderno, enquanto a produção de Letourneur mergulha no cotidiano, nas relações familiares e na memória. A ligação está principalmente no título e no desejo de transformar uma viagem em uma experiência de observação.

"Aventura de Férias" também carrega uma trajetória internacional respeitável. O filme abriu a programação da ACID no Festival de Cannes 2025, uma das importantes seções paralelas dedicadas ao cinema independente. Depois, passou por outros festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A imprensa francesa destacou a combinação entre humor, intimidade e situações corriqueiras. O jornal "Le Monde" chamou atenção para a maneira como Letourneur transforma episódios triviais - refeições, passeios, praias, caprichos infantis e pequenas tensões - em material para refletir sobre a passagem do tempo e as transformações dentro de uma família.

Claudine observa tudo com a curiosidade de quem ainda está descobrindo os adultos e suas contradições. Ao registrar as conversas da família, ela transforma a viagem em memória antes mesmo de ela terminar. É como se a menina soubesse que aquelas pequenas confusões, que naquele momento parecem intermináveis, um dia serão as histórias que todos vão querer lembrar.

Com humor agridoce, uma dose generosa de desconforto e um olhar bastante particular para a vida cotidiana, Sophie Letourneur faz de "Aventura de Férias" uma viagem que interessa menos pelo destino turístico do que pelas pessoas dentro do carro. A Sardenha está lá, bonita como cartão-postal. A família, felizmente, trata de estragar um pouco a fotografia.


Ficha técnica
"Aventura de Férias" | "L'Aventura" (título original)
Gênero: comédia dramática. Duração: 1h40min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 2 de julho de 2025, na França; 2 de julho de 2026, em Portugal. Idioma: francês. Direção: Sophie Letourneur. Roteiro: Sophie Letourneur e Laetitia Goffi. Elenco: Sophie Letourneur, Philippe Katerine, Bérénice Vernet e Esteban Melero. Fotografia: Jonathan Ricquebourg. Montagem: Sophie Letourneur. Música: Laure Arto e Carole Verner. Produção: Sophie Letourneur, Tristan Vaslot, Thomas Verhaeghe e Mathieu Verhaeghe. Produtoras: Tourne Films, Atelier de Production e Sacré Vendredi Productions. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

domingo, 30 de agosto de 2026

.: Romance "Me Chame pelo Seu Nome" ganha versão em graphic novel


Adaptação ilustrada por Sarah Maxwell revisita o romance de André Aciman quase duas décadas depois da publicação do livro que conquistou leitores e chegou aos cinemas

Quase vinte anos depois de chegar às livrarias e conquistar uma legião de leitores, "Me Chame pelo Seu Nome", escrito por André Aciman, ganha uma nova forma de ser lido. A Editora Planeta lança no Brasil a adaptação em graphic novel do romance que se tornou um clássico contemporâneo e inspirou o premiado filme homônimo. Agora em quadrinhos, a história de Elio e Oliver preserva a intensidade emocional e a atmosfera do romance original, enquanto ganha uma narrativa visual capaz de aproximar a obra de novos leitores. As ilustrações de Sarah Maxwell dão rosto, movimento e textura àquele verão italiano que, convenhamos, já tinha ingredientes suficientes para causar estragos no coração de qualquer leitor.

Na Riviera Italiana, Elio recebe Oliver, hóspede de seu pai. O americano chega com uma boa dose de arrogância, camisas esvoaçantes e comentários irônicos, fazendo Elio acreditar que a convivência entre os dois será uma receita para a antipatia. Só que o verão tem seus próprios planos. Com o passar dos dias, a convivência transforma a implicância inicial em amizade. Elio e Oliver caminham por ruas arborizadas, compartilham almoços sob o sol e disputam partidas de tênis. Aos poucos, Elio passa a reparar em coisas que talvez preferisse ignorar: quer fazer Oliver rir, observa seus gestos e se deixa fascinar pelo brilho de sua pele à beira da piscina.

O que parecia amizade começa a ganhar outra dimensão. Durante as semanas daquele verão, a ligação entre os dois se intensifica até se transformar em uma experiência de intimidade profunda e rara, capaz de deixar marcas muito depois de as férias terminarem. A adaptação mantém o universo criado por Aciman e encontra nas imagens uma maneira própria de explorar os personagens e a atmosfera da narrativa. Para quem já conhece a história, a graphic novel oferece uma nova visita à Itália de Elio e Oliver. Para quem chega agora, fica o convite para descobrir por que aquele verão continua despertando suspiros quase duas décadas depois.

"'Me Chame pelo Seu Nome' começou como uma simples fantasia sobre estar em uma vila italiana com vista para o mar. Eu não fazia ideia de que esse devaneio se transformaria em uma história, muito menos em um romance. Enquanto escrevia, acabei me apaixonando por Elio e Oliver. Sarah dá vida a esses personagens e ao universo deles de uma forma totalmente nova, e o resultado é incrível. Estou muito feliz por trabalharmos juntos para que ainda mais leitores possam descobrir 'Me Chame pelo Seu Nome' nesta belíssima graphic novel”, comenta o autor André Aciman.

"Sinto-me muito privilegiada por ter adaptado essa história tão bonita para uma graphic novel, permitindo que ainda mais pessoas possam se emocionar e se conectar com ela. Espero que todos que lerem Me chame pelo seu nome sejam transportados de volta àquele verão na Itália e possam se apaixonar por esses personagens, vez após vez", conclui Sarah Maxwell-McNicol. Compre a adaptação em graphic novel do romance "Me Chame pelo Seu Nome" neste link.


Sobre o autor
André Aciman é autor best-seller do The New York Times por "Me Chame pelo Seu Nome", além de diversas obras de ficção e não ficção. Também é editor de The Proust Project e professor de literatura comparada da City University of New York. Vive com a esposa em Manhattan.

Sobre a ilustradora
Sarah Maxwell é uma artista e ilustradora de quadrinhos estadounidense baseada em Londres. Seu portfólio abrange uma ampla variedade de gêneros e estilos. Nas horas vagas, também trabalha como tatuadora. Apaixonada por quadrinhos, flores e tudo que remete ao universo medieval.

.: “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” na Bienal do Livro SP com Thalita Rebouças


Autora promove a adaptação cinematográfica de sua obra na Bienal e participa de sessões de autógrafos nos dias 5 e 6 de setembro, no estande da Rocco

Os leitores de Thalita Rebouças que passarem pela Bienal do Livro SP 2026 terão a chance de encontrar a escritora, garantir um autógrafo e, de quebra, saber um pouco mais sobre a adaptação cinematográfica de “Era Uma Vez Minha Primeira Vez”, baseada no livro homônimo da autora. O encontro acontece no estande da editora Rocco em duas oportunidades: no sábado, 5 de setembro, às 15h00, e no domingo, 6, às 17h30. Durante as sessões de autógrafos, serão distribuídos marcadores de livro com QR Code que leva à compra de ingressos para o filme, que chega aos cinemas em 17 de setembro.

Dirigido por Claudia Castro, o filme tem roteiro assinado por Thalita Rebouças e João Paulo Horta e mergulha no universo juvenil com leveza, humor e uma dose generosa de descobertas. Ritos de passagem, amadurecimento, amizade, sexualidade e a velha diferença entre estar com pressa e estar preparado para descobrir aparecem no caminho. No elenco principal estão Castorine, Duda Matte, Leticia Braga e Livia Silva. O quarteto divide a cena com Cauã Martins, Caian Zattar, Cintia Rosa, Pedro Ogata, JP Rufino e Duda Pimenta.

A produção e a distribuição são da Na Paralela Filmes, com codistribuição da A Fábrica, em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio. A produção conta ainda com coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme e investimento do BRDE, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual e da Ancine. Compre o livro "Era Uma Vez Minha Primeira Vez", de Thalita Rebouças, neste link.


Quatro amigas, quatro descobertas e nenhuma fórmula pronta
Baseado no livro de Thalita Rebouças, o filme “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” leva para o cinema as descobertas e os ritos de passagem da juventude de maneira leve, madura e descomplicada. A trama acompanha quatro amigas - Teresa, Clara, Tuca e Patty - enquanto cada uma descobre, à sua maneira, que o despertar da sexualidade não segue manual de instruções. Expectativas, amizade e as diferenças entre pressa e descoberta dão o tom da história. Compre o livro "Era Uma Vez Minha Primeira Vez", de Thalita Rebouças, neste link.

.: Barraco Editorial leva a literatura independente para a Bienal do Livro SP


Editora criada por Wesley Barbosa participa pela segunda vez consecutiva do maior evento literário da América Latina e apresenta "Viela Ensanguentada", "Os Barraquinhos da Favela" e "Ódio ao Poema"

Da venda de livros de mão em mão pelas ruas de São Paulo ao estande de uma das maiores feiras literárias do país. A trajetória da Barraco Editorial ganhou mais um capítulo na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Criada em 2023 pelo escritor e editor Wesley Barbosa, a editora confirma presença na 28ª edição do evento, que será realizada entre 4 e 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi. 

Será a segunda participação consecutiva da Barraco Editorial na Bienal, levando ao público uma produção literária que coloca autores independentes e vozes das periferias brasileiras no centro da conversa. A proposta continua a mesma: abrir espaço para uma literatura que conhece a quebrada por dentro e que não precisa de tradução para falar sobre suas próprias experiências.

Entre os destaques está a segunda edição do romance "Viela Ensanguentada", de Wesley Barbosa. O editor também apresenta "Os Barraquinhos da Favela", seu primeiro livro infantil, lançado em julho de 2026 pela Editora Moderna, na Coleção Girassol. A obra tem ilustrações de Tainan Rocha e marca uma nova fase na produção do escritor, agora voltada ao público a partir dos seis anos. Escrito em primeira pessoa, "Os Barraquinhos da Favela" recupera memórias da infância de Wesley, que cresceu em barracos e moradias da periferia. O livro encara as dificuldades da vida na quebrada, incluindo a vulnerabilidade de casas de madeira castigadas e arrancadas pela força do vento, mas também encontra espaço para a imaginação e para as pequenas belezas do cotidiano.

Entre arroz e feijão recém-feitos, janelas quebradas e noites de céu aberto, a infância periférica aparece com suas dores e afetos. As estrelas e o horizonte, afinal, também cabem numa janela que já perdeu o vidro. Outro destaque da Barraco Editorial em 2026 é "Ódio ao Poema", de Vitor Miranda, que estará no estande da editora durante toda a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O título é o oitavo livro do autor e idealizador do Movimento Neomarginal.

Com estrutura e ritmo próximos de um manifesto político e estético, a obra transforma o próprio "Poema" em personagem. Distante do lirismo tradicional, ele ganha corpo e voz para encarar a violência urbana, a desigualdade social e as contradições do presente. Vitor Miranda coloca a literatura diante da realidade brasileira sem a preocupação de deixá-la confortável para quem lê.

.: Crítica: "As Cores do Tempo" é espiral constante de vivências geracionais


Por 
Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Heranças sempre trazem labirintos a serem decifrados. Na produção francesa e belga "As Cores do Tempo" ("La Venue de L'avenir"), há complicações maravilhosas que, ao longo de 2 horas e 4 minutos, entrega poesia visual de perfeita contemplação. Exibido no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("O Próximo Passo") entrega drama, enquanto transita pela comédia. O filme chega ao catálogo de streaming da Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina.

Em "As Cores do Tempo" um grupo de mais de trinta herdeiros, no tempo presente, descobre estar conectado por laços familiares, uma vez que cada um é descendente de Adèle Meunier (Suzanne Lindon, de "Jovens Amantes"), mulher que deixou uma casa de família na Normandia, fechada desde 1944. Reunidos pelo interessado na compra do terreno com a antiga casa com previsão para ser estacionamento de um grande shopping, alguns herdeiros acabam se aproximando por conta de uma pintura que chama a atenção do professor Abdelkrim (Zinedine Soualem, de "Bonecas Russas").

No filme de fotografia belíssima e contemplativa, é um retrato impressionista que desenha a trama que envolve do início ao fim, incluindo o pintor Claude Monet e a prostituta Odette (Sara Giraudeau, de "O Destino de Haffmann") para formar a narrativa de Adèle Meunier. Ora saindo do presente para o passado, entrelaça duas linhas temporais (1895 e 2024/2025). 

Enquanto num tempo distante, uma jovem sai de um vilarejo, após a morte da avó, em busca da mãe na grande Paris, em tempos mais modernos, seus descendentes decidem o que será feito de seu imóvel fechado desde os anos 40. Com delicadeza, "As Cores do Tempo" constrói constantemente um espiral em que as vivências de gerações distintas se sobrepõem, relacionando a arte, a memória e a passagem do tempo. Imperdível!

Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | La Venue de L'avenir (título original).
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch. Duração: 2h 06min. Distribuição: Imovision. Elenco: Suzanne Lindon: Adèle Meunier (1895), Paul Kircher: Anatole (2025), Vassili Schneider: Lucien, Abraham Wapler: Seb / Claude Monet (1874), Olivier Gourmet: Claude Monet (1895), Philippine Leroy-Beaulieu: Sarah Bernhardt, Vincent Pérez: Tio Théophraste, Cécile De France: Calixte de La Ferrière, Vincent Macaigne: Guy, Julia Piaton: Céline. Sinopse: O filme destaca a transição da ancestral Adèle, de 20 anos, que sai da Normandia para Paris no final do século XIX, conectando sua história com a de seus descendentes. A trama é descrita como um épico familiar com o estilo humanista do diretor. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Ran" coloca o poder em guerra e faz Kurosawa incendiar "Rei Lear"


Clássico de Akira Kurosawa transforma a tragédia de Shakespeare em um monumental drama de guerra sobre ambição, vingança e a ruína de uma família; filme chega ao Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dividir um império entre três filhos parecia, para o senhor feudal Hidetora Ichimonji, uma maneira razoavelmente sensata de garantir a continuidade de seu legado. O problema é que ele se esqueceu de um detalhe bastante inconveniente: filhos também podem querer o trono inteiro. É desse pequeno erro de cálculo que Akira Kurosawa ergue "Ran", um dos filmes mais grandiosos, ferozes e visualmente impressionantes da carreira dele, que chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte.

Lançado em 1985, o filme japonês transforma "Rei Lear", de William Shakespeare, em uma tragédia ambientada no Japão feudal. Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, decide abandonar o comando de seus domínios e distribuir o poder entre Taro, Jiro e Saburo. O caçula, único dos três disposto a dizer ao pai aquilo que ele não quer ouvir, acaba banido. A partir daí, a promessa de união familiar se dissolve em traições, vinganças, mortes e batalhas.

O título "Ran" significa "caos", e Kurosawa leva a palavra a sério. A estrutura de Shakespeare permanece reconhecível, mas o diretor incorpora elementos da história japonesa, das lendas feudais e do teatro Nô para criar uma obra com identidade própria. A adaptação também troca as filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora, deslocando a tragédia para uma sociedade marcada pela guerra, pela hierarquia e pela disputa territorial. A própria parábola das três flechas, associada ao senhor feudal Mori Motonari, serve como uma espécie de manual de família que ninguém no filme parece ter lido até o fim.

Kurosawa passou cerca de uma década preparando "Ran". Aos 75 anos, já com a visão bastante comprometida, desenhou centenas de pinturas e storyboards para planejar as cenas. O trabalho não era mero capricho de artista: as imagens serviram como mapas detalhados para a equipe durante a produção. O material revela a precisão com que o cineasta pensava cada enquadramento, cada deslocamento dos personagens e cada composição visual.

A produção também nasceu em escala gigantesca. O Festival de Cannes registra que a primeira versão imaginada por Kurosawa chegava a três horas e meia e acabou reduzida para cerca de duas horas e meia. O custo ficou em aproximadamente US$ 11 milhões, fazendo de "Ran" o trabalho mais caro da carreira do diretor. Centenas de figurinos foram produzidos especialmente para o filme, muitos deles durante anos de preparação.

O resultado é um filme em que a guerra raramente aparece como espetáculo glorioso. Kurosawa observa os exércitos à distância, deixa os corpos e as bandeiras ocuparem a paisagem e, em uma das sequências mais célebres, retira praticamente todos os efeitos sonoros da batalha para deixar a música de Tōru Takemitsu conduzir o horror. A estratégia torna a violência ainda mais desconfortável: os homens correm, os cavalos tombam, os castelos queimam e a música continua, como se o mundo tivesse decidido assistir à própria destruição.

Roger Ebert percebeu justamente essa força ao escrever sobre o filme em 1985. Para o crítico americano, a idade de Kurosawa parecia dialogar diretamente com a experiência de Hidetora, um homem que passou a vida acumulando poder e chega à velhice acreditando que ainda pode determinar o destino dos outros. Ebert também chamou atenção para os dez anos de preparação e para a dimensão excepcional da produção.

Anos depois, ao revisitar "Ran", Ebert foi ainda mais longe e relacionou o filme à própria trajetória de Kurosawa. Para ele, o cineasta havia colocado na história questões sobre envelhecimento, poder, decadência e a dificuldade de um homem que passou a vida inteira construindo algo perceber que já não consegue controlar o que virá depois. É uma leitura especialmente interessante porque Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu o filme, exatamente a idade de Hidetora.

Tatsuya Nakadai sustenta o centro dessa ruína com uma atuação marcada pela contenção. Seu Hidetora começa como um senhor poderoso, cercado por homens, cavalos e bandeiras, e termina vagando por uma paisagem devastada, desorientado diante das consequências de suas próprias decisões. Ao redor dele, Akira Terao e Jinpachi Nezu interpretam os filhos Taro e Jiro, enquanto Daisuke Ryū vive Saburo, o filho que paga caro por dizer a verdade.

Mieko Harada também merece atenção como Lady Kaede, uma das personagens mais perigosas da história. Movida pela vingança contra Hidetora e sua família, ela manipula os homens ao seu redor com uma frieza que transforma cada gesto em ameaça. A personagem acrescenta uma camada de crueldade particular à história e faz da disputa pelo poder um jogo ainda mais venenoso.

Visualmente, "Ran" permanece assombroso. Kurosawa utiliza grandes planos, paisagens abertas, cores cuidadosamente associadas aos diferentes exércitos e uma arquitetura monumental para transformar o Japão feudal em uma espécie de palco de proporções gigantescas. O diretor, que começou a carreira artística como pintor, compôs os enquadramentos com o rigor de quem sabia exatamente onde queria colocar cada figura.

O cuidado com os figurinos rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar de direção, fotografia e direção de arte. No BAFTA, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Maquiagem. A produção também foi reconhecida por diversas associações de críticos nos Estados Unidos.

Em "Ran", Kurosawa não tenta suavizar Shakespeare. Pelo contrário: ele deixa a tragédia ganhar espadas, cavalos, canhões, castelos em chamas e uma quantidade pouco recomendável de problemas familiares. O resultado é uma obra monumental sobre um homem que acredita poder administrar o futuro depois de entregar o presente aos próprios filhos. A ironia é cruel. Hidetora passou décadas conquistando terras e destruindo adversários para construir um reino. Quando finalmente decide descansar, descobre que o poder tem memória curta e que seus herdeiros aprenderam muito bem as lições do pai. 

A entrada do clássico na Belas Artes À La Carte acompanha a disponibilização de "Os segredos de Ran", documentário de Chris Marker que registra Kurosawa durante a preparação de sua produção mais ambiciosa. Quarenta e um anos depois de sua estreia, "Ran" continua sendo uma experiência cinematográfica de escala rara. A família pode até começar reunida em torno de uma boa intenção. O problema é quando alguém decide repartir o reino. A partir daí, Shakespeare já avisava: a conta costuma chegar.

Ficha técnica
"Ran" | "Ran" (título original) | "Ran - Os Senhores da Guerra" (título em Portugal).
Gênero: drama, guerra e épico. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 1º de junho de 1985. Idioma: japonês. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide. Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryū, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Shinnosuke Ikehata, Masayuki Yui, Kazuo Katō, Hitoshi Ueki e Mansai Nomura. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

.: Grupo Equale canta a obra de Aldir Blanc no álbum “Salve, Aldir!”


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Fotos: divulgação

Formado em 1990, o Equale é um importante grupo vocal carioca que reverencia a MPB com trabalhos interessantes, conhecidos pela originalidade nas performances e pelos arranjos personalizados em mais de três décadas de carreira. O álbum “Salve, Aldir!”, que a Biscoito Fino acaba de lançar, se juntará a outros tributos fonográficos do grupo a compositores brasileiros, mote de uma discografia que inclui os álbuns "Expresso Gil" (2000), "Equale Canta Milton Nascimento - Um Gosto de Sol" (2004) e "Na Praia de Caymmi" (2017) - este último, vencedor do Prêmio da Música Brasileira de 2018 como melhor grupo de MPB. 

Dessa vez, o Equale dá vozes ao cancioneiro do compositor Aldir Blanc (1946 - 2020), que completaria 80 anos em 2026. Nesta homenagem, o grupo rebobina parcerias não tão óbvias, com compositores como Djavan, Cristovão Bastos, Sueli Costa, Moacyr Luz e Maurício Tapajós, além de alguns clássicos  com João Bosco e Guinga, dois dos principais parceiros do bardo carioca.  

Com direção musical e regência do maestro André Protásio, produção musical do mesmo, em parceria com Flavio Mendes e Tom Andrade, o álbum conta com as participações especiais de Guinga, Ilessi, Marcos Sacramento e Cristóvão Bastos. A produção executiva do álbum é de Letícia Dias e da TAPA - Tom Andrade Produções Artísticas.

"Nação"

"Querelas do Brasil"

"Voisa Feita"

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