quinta-feira, 8 de outubro de 2026

.: Se fosse antes do Pix… …todo mundo tinha, eu até achava no chão


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

O retorno ao lar depois do trabalho noturno tem sido muito salutar, apesar do cansaço. Não vou repetir o que venho dizendo sobre trabalhar — o amigo já não deve me aguentar. Digo apenas que, depois de vender a alma ao diabo (venda esta bem disparatada e de pouco rendimento, não se pode negar), as portas do céu têm se aberto para mim e captado meus olhos embotados de cimento e lágrima. Porque o tráfego diário entre escolas e salas de aula, ruas e avenidas é de rachar a cuca e botar um homem doido! Talvez não restasse vista capaz de ver, nem olhos dispostos a enxergar no mundo algo que merecesse ser escrito. Mas a vida é boa e sempre nos oferece a matéria-prima de que necessitamos. Por isso, cá estamos, assentando palavra sobre palavra, naquilo que se pretende como uma construção a que chamaremos crônica. Se o amigo assim não reconhecê-la, não há mal. Fica aqui ao menos a intenção de um dia ter sido cronista.

Dito o que era imprescindível, e para não mais agastar o leitor, vamos à crônica.

Vivemos num recanto privilegiado do mundo. Uma grande extensão de terra abençoada por Deus e bonita por natureza. Nela não há terremotos, não nos habitam os vulcões, e os maremotos jamais nos alcançarão (prometo!). Há mares e rios em abundância, a fauna e a flora nos acalentam, e o ouro negro nos garante um futuro próspero em mutretas. Temos por aqui muito o que comemorar: somos experts em operações anticorrupção hesitosas, os três poderes mantêm a mesma força na queda-de-braço, compramos inúmeras blusinhas na Shein e estamos no pódio entre os líderes mundiais em desperdício de tempo na internet. Para fechar, apenas nós somos Penta — e olha que ainda nem usamos a nossa arma secreta: o menino Ney!

Seríamos, veja bem, seríamos uma nação perfeita, certamente a primeira do mundo, se não fosse — pasmem — o Pix.

Pois é! Até por esses dias eu julgava exatamente o contrário, porque, se assim não fosse, não teríamos angariado ódio e inveja yankees à toa. Quando a esmola é muita, o cego desconfia. Quanto ao ódio, vale o mesmo. E o ódio vindo do norte encontrava em mim um espelho. Se odeiam o Pix é porque é bom. E se é bom, eu o amo. Uso-o o tempo todo (alguns dias, enquanto dura o salário) e, por isso, sou feliz. Ou julgava ser…

Aconteceu que, ao saltar do carro para a rua e da rua para casa — fim de noite, pós-expediente —, meus olhos embotados de cimento e tráfego cederam aos ouvidos, que ouviram:

— Uns com tanto, e eu com tão pouco. Se eu tivesse um tamanho desse…

Era um homem alto, magro, fumando um toco de cigarro, que caminhava expansivo, talvez flutuando no ar como se fosse um pássaro. E era comigo que falava.

— Mim dá um real pra mim tomar uma, pai.

— Não tenho nada aqui — respondi, querendo dizer que tinha tudo, dada a sinceridade aventada.

— Eu acredito, pai. Se fosse antes do Pix, todo mundo tinha, eu até achava no chão. Vou pedir pro meu primo que tá vindo ali, vou encher o saco dele.

E saiu na contramão atrapalhando a noite. Da outra ponta da rua, vinha alguém parecido com ele, como um pássaro, mas sem flutuar. Estanquei no portão, esperando o solene encontro. As mãos, ao se unirem, comungaram da mesma alegria. E eu pude adentrar em minha alcova, agora mais triste e tendo que dar razão aos yankees.

Se fosse antes do Pix...

.: "Um Espírito Baixou em Mim" junta Steve Martin e Lily Tomlin no mesmo corpo


Comédia de Carl Reiner transforma uma tentativa de transferência de alma em um duelo físico entre dois personagens incompatíveis e marca a última parceria do diretor com Steve Martin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A morte pode até ser inevitável, mas, em "Um Espírito Baixou em Mim", de Carl Reiner, ela está longe de ser o fim dos problemas. A comédia de 1984 chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte com Steve Martin e Lily Tomlin em uma das situações mais absurdas do cinema americano dos anos 1980: dois personagens incompatíveis obrigados a dividir o mesmo corpo. É uma premissa que poderia facilmente virar uma bobagem descartável, mas encontra em Martin um intérprete disposto a transformar cada movimento do personagem numa pequena catástrofe física.

Roger Cobb é um advogado que vive uma existência bastante menos interessante do que gostaria. Durante o dia, trabalha no escritório; à noite, alimenta o sonho de se dedicar à música. A rotina ganha contornos definitivamente estranhos quando ele assume o caso de Edwina Cutwater, uma milionária excêntrica que está morrendo e pretende transferir sua alma para o corpo da jovem Terry Hoskins, interpretada por Victoria Tennant. O plano parece suficientemente extravagante, mas Hollywood ainda tinha algumas cartas na manga.

O ritual dá errado e Edwina acaba dentro do corpo de Roger, ocupando apenas um dos lados. A partir daí, o advogado passa a disputar pernas, braços, voz e movimentos com a mulher que mal consegue suportar. A engenhoca funciona principalmente porque Steve Martin se entrega de corpo inteiro ao exercício. O ator precisa representar Roger, representar Edwina e, em vários momentos, representar Roger sendo tomado pelas vontades de Edwina. A comicidade nasce do controle corporal, dos gestos desencontrados e da tentativa de fazer parecer natural aquilo que, por definição, é completamente ridículo. 

Lily Tomlin, por sua vez, participa de uma brincadeira curiosa: depois da morte de Edwina, sua presença aparece sobretudo pela voz e pelos reflexos, enquanto Martin carrega fisicamente a personagem. O resultado exige dos dois atores um jogo de timing bastante preciso. A dupla recebeu indicações ao Globo de Ouro de 1985 nas categorias de atuação em comédia ou musical, reconhecimento que ajuda a dimensionar o impacto das performances na época. O filme foi dirigido por Carl Reiner, cineasta que já havia trabalhado com Martin em "O Panaca", "Cliente Morto Não Paga" e "O Médico Erótico". "Um Espírito Baixou em Mim" encerrou essa parceria cinematográfica entre os dois, que transformaram a persona cômica de Martin em matéria-prima para diferentes tipos de maluquice.

O roteiro de Henry Olek e Phil Alden Robinson parte do romance inédito "Me Two", de Edwin Davis. Segundo o catálogo do American Film Institute, o projeto chegou a circular durante a produção com os títulos provisórios "Me, Two" e "Me, Too", antes de assumir o definitivo "All of Me". A mesma fonte registra que a versão cinematográfica foi baseada no romance não publicado de Davis e teve lançamento nos Estados Unidos em 21 de setembro de 1984. Também chama atenção a participação de Victoria Tennant como Terry Hoskins. Durante as filmagens, a atriz conheceu Steve Martin, e os dois se casaram em 1986, permanecendo juntos até 1994. Tennant ainda voltaria a trabalhar com Martin anos depois, em "L.A. Story", de 1991. 

"Um Espírito Baixou em Mim" tem aquela aparência assumidamente oitentista de uma comédia que não precisa explicar demais o absurdo para colocá-lo em movimento. Algumas soluções envelheceram, certos efeitos denunciam a época e o humor pode provocar reações bem diferentes de quem chega ao filme hoje. Ainda assim, a proposta central continua funcionando quando Martin e Tomlin estão em cena, sobretudo porque a história encontrou um terreno perfeito para o talento físico do ator. Não por acaso, Martin ganhou em 1985 os prêmios de melhor ator da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle pelo trabalho no filme, enquanto também disputou o Globo de Ouro ao lado de Lily Tomlin.


Ficha técnica
"Um Espírito Baixou em Mim" | "All of Me" (título original) | "Almas do Outro Mundo" (título em Portugal)
Gênero: comédia e fantasia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa no Brasil: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 21 de setembro de 1984 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção:Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson e Henry Olek, baseado no romance "Me Two", de Edwin Davis. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith Osborne, Richard Libertini, Dana Elcar, Jason Bernard, Selma Diamond, Eric Christmas, Gailard Sartain, Neva Patterson, Michael Ensign e Peggy Feury. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos, porém há uma sequência musical durante os créditos finais. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

.: “As Cores do Tempo” recupera uma história de família para aproximar 1895 de 2025


Filme de Cédric Klapisch  chega à Reserva Imovision depois de passagem pelos cinemas brasileiros e pelo 2º Festival de Cinema Europeu Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, objetos esquecidos e uma mulher que deixou sua terra natal em 1895 são os pontos de partida de “As Cores do Tempo”, novo filme de Cédric Klapisch, que estreia na Reserva Imovision nesta quinta-feira, dia 8 de outubro. Depois de dez semanas nos cinemas brasileiros e da participação no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, a produção franco-belga chega ao streaming da distribuidora para reencontrar o público em uma história que aproxima duas épocas e transforma uma investigação familiar em uma espécie de viagem pela memória.

Na trama, quatro primos distantes recebem uma herança inesperada: uma antiga casa que permanece intocada desde os anos 1940. Seb, Guy, Céline e Abdel são encarregados de examinar o imóvel e acabam encontrando fotografias, cartas, pinturas e outros vestígios ligados a Adèle, ancestral que viveu naquele lugar. Aos 20 anos, ela deixou a Normandia e partiu para Paris, onde entrou em contato com uma cidade em plena transformação cultural e tecnológica. A investigação dos descendentes estabelece uma ponte com 1895, período em que a fotografia ganhava força e o impressionismo modificava profundamente a pintura. O próprio Festival de Cannes, onde o filme foi exibido fora de competição, descreve a estrutura como um movimento entre 1895 e 2025 a partir dos vestígios encontrados na casa.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e divide o elenco com Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. Olivier Gourmet aparece como Claude Monet, enquanto Fred Testot interpreta Félix Nadar. A produção ainda reúne François Berléand como Victor Hugo e Philippine Leroy-Beaulieu como Sarah Bernhardt, entre outras participações. A escalação chama atenção pela presença de vários nomes ligados a famílias conhecidas do cinema francês, questão que chegou a provocar comentários na imprensa especializada e foi respondida pelo próprio Klapisch durante a divulgação do filme.

A presença de Suzanne Lindon, filha dos atores Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou um capítulo próprio na trajetória do filme. A atriz foi indicada ao César 2026 na categoria de Melhor Revelação Feminina, enquanto “As Cores do Tempo” também concorreu nas categorias de Melhor Direção de Arte, para Marie Cheminal, e Melhor Figurino, para Pierre-Yves Gayraud. O Centro Nacional do Cinema da França confirmou as três indicações.

Klapisch assina a direção e o roteiro ao lado de Santiago Amigorena. Conhecido por construir histórias em torno de relações humanas, juventude e mudanças de fase, o cineasta encontra aqui uma maneira particularmente visual de trabalhar esses temas. A Paris do fim do século XIX aparece ligada à fotografia, à pintura e aos artistas que ajudaram a construir a imagem moderna da cidade. Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt, Félix Nadar, Paul Cézanne, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet, Camille Pissarro e Alfred Sisley estão entre as figuras históricas incorporadas à narrativa.

A proposta também explica o título. As cores do tempo aparecem nas pinturas, nas fotografias e na própria maneira como o filme coloca passado e presente em relação. As duas épocas acabam funcionando como espelhos para personagens que, inicialmente, se encontram por obrigação e passam a compreender melhor suas próprias histórias à medida que investigam a trajetória de Adèle. Algumas avaliações internacionais destacaram justamente a forma como Klapisch aproxima a vida cotidiana do século XIX da experiência contemporânea, enquanto outras apontaram um ritmo deliberadamente sereno e uma inclinação sentimental que pode dividir o público.

Essa mistura de memória, família e arte também está no centro da recepção do filme. Críticas e comentários reunidos no IMDb destacam a fotografia, a reconstituição de Paris e a atuação de Suzanne Lindon, além da passagem entre 1895 e 2025. Há quem veja na produção uma reflexão delicada sobre a relação entre gerações e sobre a maneira como a arte pode modificar a percepção da própria vida; outros consideram que algumas ideias são explicadas de forma excessiva e que a duração poderia ser menor. A variedade de leituras combina com um filme interessado justamente em observar como diferentes pessoas olham para as mesmas lembranças.

O resultado é uma produção que usa uma herança familiar como porta de entrada para um período decisivo da cultura francesa. A casa esquecida, os objetos guardados durante décadas e a trajetória de Adèle dão aos personagens do presente a possibilidade de conhecer uma mulher que viveu em outro mundo, mas que deixou marcas capazes de chegar até eles. Ao aproximar os dois períodos, Klapisch encontra no cinema, na fotografia e na pintura instrumentos para falar daquilo que permanece quando as pessoas e as cidades mudam.

Para quem perdeu “As Cores do Tempo” nos cinemas ou deseja revê-lo, a chegada à Reserva Imovision amplia o percurso de um dos títulos franceses apresentados pela distribuidora em 2026. O filme participou do 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, realizado entre 23 e 29 de abril, e integrou a seleção francesa ao lado de produções como “O Grande Arco de Paris”, “A Divina Sarah Bernhardt” e “E Seus Filhos Depois Deles”.


Ficha técnica
“As Cores do Tempo” | “La Venue de l’avenir” (título original)
Gênero: comédia dramática, drama e romance. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém conteúdo sexual, drogas e nudez. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 30 de julho de 2026 nos cinemas. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet (Pomme), Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Drama "Julgamento em Nuremberg”: a Justiça como instrumento de um regime

Com Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift e Maximilian Schell, clássico de Stanley Kramer revisita o julgamento de magistrados nazistas e coloca a própria ideia de Justiça no banco dos réus

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O streaming Belas Artes À La Carte recebe “Julgamento em Nuremberg”, clássico dirigido por Stanley Kramer em 1961, um dos grandes dramas judiciais do cinema americano e uma produção que reuniu Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell e Judy Garland. Inspirado no chamado “Julgamento dos Juízes”, realizado em Nuremberg depois da Segunda Guerra Mundial, o filme desloca a atenção dos grandes líderes nazistas para homens que ajudaram a transformar a Justiça alemã em instrumento de perseguição. A questão que move a narrativa continua incômoda: o que acontece quando a lei passa a servir ao poder em vez de proteger o indivíduo?

Na trama, o juiz americano Dan Haywood, interpretado por Spencer Tracy, chega à Alemanha ocupada para presidir o julgamento de quatro magistrados acusados de colaborar com o regime nazista. O processo coloca frente a frente o promotor Tad Lawson, vivido por Richard Widmark, e o advogado de defesa Hans Rolfe, papel de Maximilian Schell, enquanto depoimentos e provas revelam como decisões tomadas dentro dos tribunais contribuíram para legitimar esterilizações, perseguições raciais e assassinatos. O filme se passa em 1948, um ano depois do julgamento histórico que serviu de base ao roteiro, alteração feita por Abby Mann para incorporar ao drama o clima da Guerra Fria e a crescente pressão política por uma reaproximação com a Alemanha.

É nessa distância entre a letra da lei e a responsabilidade de quem a aplica que Stanley Kramer concentra sua força. “Julgamento em Nuremberg” não se limita a reconstruir um episódio histórico. O roteiro de Abby Mann, vencedor do Oscar, pergunta até onde pode ir a obediência de um funcionário do Estado e em que momento seguir uma ordem, uma norma ou uma legislação deixa de ser uma justificativa. A Biblioteca do Congresso, ao incluir o filme no National Film Registry em 2013, destacou justamente essa dimensão: a produção amplia o debate sobre os responsáveis pela administração da Justiça e sobre o dever de preservar direitos humanos mesmo quando eles entram em choque com interesses nacionais.

O elenco transforma esse embate jurídico em matéria dramática de primeira grandeza. Spencer Tracy conduz a história com uma atuação contida como o juiz Haywood, enquanto Maximilian Schell imprime ao advogado Hans Rolfe uma combinação de inteligência, agressividade e convicção. Schell havia interpretado o mesmo personagem na versão televisiva de “Judgment at Nuremberg”, exibida pelo programa “Playhouse 90”, da CBS, em 1959, e acabou permanecendo no papel mesmo depois de Marlon Brando manifestar interesse em assumir a função. A escolha se mostrou decisiva: Schell ganhou o Oscar de Melhor Ator.

Montgomery Clift e Judy Garland aparecem em momentos particularmente dolorosos do julgamento. Clift interpreta Rudolph Petersen, testemunha cuja experiência revela a violência praticada pelo sistema nazista, enquanto Garland vive Irene Hoffmann, personagem que presta um depoimento devastador. O filme ainda reserva a Marlene Dietrich uma presença de enorme força como Madame Bertholt, viúva de um general alemão executado por crimes de guerra. A atriz chegou a ter dificuldades para realizar uma das cenas porque discordava profundamente da ideia defendida por sua personagem sobre a suposta ignorância dos civis alemães em relação às atrocidades cometidas durante a guerra.

Uma das cenas mais lembradas pertence a Spencer Tracy. O discurso final do juiz Haywood dura cerca de 11 minutos e foi filmado em uma única tomada, com câmeras posicionadas simultaneamente para garantir a cobertura necessária. A decisão de Kramer preservou a continuidade da atuação e evitou interromper a concentração do protagonista. O resultado é uma das passagens mais emblemáticas do filme e demonstra por que o trabalho de Tracy permanece no centro da memória de “Julgamento em Nuremberg”.

A produção também incorporou imagens reais dos crimes cometidos nos campos de concentração. A Biblioteca do Congresso chama atenção para os cerca de sete minutos de material documental inseridos no filme, recurso que aproxima a ficção das provas históricas apresentadas dentro do tribunal. Essa combinação entre representação dramática e imagens documentais ajudou a dar ao julgamento uma dimensão particularmente perturbadora para o público de 1961.

A liberdade tomada pelo roteiro em relação aos acontecimentos históricos é considerável. O julgamento real dos juízes ocorreu em 1947 e teve 16 acusados, enquanto Abby Mann condensou a história em quatro réus e combinou características de diferentes figuras históricas. A mudança para 1948 também permitiu que a narrativa incorporasse o golpe comunista na Tchecoslováquia e a tensão crescente entre Estados Unidos e União Soviética. O AFI Catalog registra a origem do projeto no telefilme exibido em 1959 e a posterior adaptação de Mann para o cinema.

Essa dimensão de reconstrução histórica ajuda a compreender por que o filme permanece tão discutido. Bosley Crowther, do “The New York Times”, reconheceu na época a força do trabalho de Kramer e observou que a produção conseguia dizer muito sobre uma questão que continuava a exigir atenção. Décadas depois, o “Los Angeles Times” voltou a destacar o desempenho de Tracy e a maneira como o roteiro de Mann transformava a memória dos crimes nazistas em um conflito moral e jurídico.

“Julgamento em Nuremberg” também carrega uma curiosidade cinematográfica rara: Maximilian Schell venceu o Oscar de Melhor Ator embora apareça apenas como o quinto nome na ordem dos créditos principais. O filme recebeu 11 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator para Spencer Tracy, Ator Coadjuvante para Montgomery Clift e Atriz Coadjuvante para Judy Garland, além de categorias técnicas. As duas estatuetas foram para Schell e Abby Mann.

O reconhecimento institucional veio muitos anos depois. Em 2013, a Biblioteca do Congresso selecionou “Judgment at Nuremberg” para preservação no National Film Registry, que reúne obras consideradas cultural, histórica ou esteticamente significativas para o cinema dos Estados Unidos. A escolha reforça a permanência de um filme que nasceu ligado a um acontecimento específico, mas encontrou no tribunal uma maneira de discutir algo muito maior: a responsabilidade individual quando instituições inteiras decidem obedecer ao poder.


Ficha técnica

“Julgamento em Nuremberg” | “Judgment at Nuremberg” (título original)
Gênero: guerra, histórico e drama jurídico. Duração: 186 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1961. Data de lançamento: 14 de dezembro de 1961. Idioma: inglês e alemão. Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell, Judy Garland, William Shatner, Werner Klemperer, Torben Meyer e Martin Brandt. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

.: Doc “Orlando, Minha Biografia Política” é Virginia Woolf em carta sobre gênero


Filme de Paul B. Preciado chega à Reserva Imovision quase um século depois de Virginia Woolf criar Orlando e reúne 26 pessoas trans e não binárias para reinventar o personagem

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em 1928, Virginia Woolf publicou “Orlando”, romance em que o personagem principal muda de sexo no decorrer da história e atravessa diferentes épocas sem envelhecer da maneira convencional. Quase um século depois, o filósofo, escritor e ativista trans Paul B. Preciado responde à autora com cinema. Em “Orlando, Minha Biografia Política”, ele escreve uma carta filmada para Woolf e avisa que seu personagem saiu das páginas do livro para ganhar corpo, voz e experiências no mundo contemporâneo.

A produção francesa, que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision, foi o primeiro filme dirigido por Preciado e construiu uma trajetória de destaque no circuito internacional de festivais. Em 2023, na Berlinale, recebeu o Teddy Award de Melhor Documentário, o Prêmio Especial do Júri da mostra Encounters, além de outras distinções. No Brasil, também conquistou o Prêmio Félix de Melhor Documentário no Festival do Rio e o Prêmio do Público de Melhor Longa-Metragem Internacional no Festival MixBrasil.

A ideia surgiu de uma proposta da ARTE France, rede pública de televisão e mídia franco-alemã, inicialmente interessada em um documentário sobre a trajetória de Preciado. Ele recusou fazer uma autobiografia convencional e sugeriu uma adaptação de “Orlando: Uma Biografia”, de Virginia Woolf. A brincadeira acabou virando filme. A partir daí, Preciado organiza um teste de elenco e reúne 26 pessoas trans e não binárias, de oito a 70 anos, para interpretar Orlando. 

O personagem deixa de pertencer a uma única pessoa e passa a existir em diferentes corpos, idades e experiências. Entre os participantes estão o próprio Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier e Clara Deshayes.

O resultado mistura documentário, reconstituição, performance, autobiografia e adaptação literária. Em vez de simplesmente ilustrar o romance, Preciado cria uma relação direta entre a experiência de Orlando e as histórias daqueles que o interpretam. Os participantes falam de suas próprias vidas, enquanto também assumem as palavras e situações do personagem criado por Woolf.

É nessa combinação que o filme encontra sua personalidade. A literatura aparece como ponto de partida, mas as experiências contemporâneas modificam o sentido do personagem. As vozes individuais formam uma espécie de Orlando coletivo, capaz de conectar questões de identidade, gênero, corpo, documentação, psiquiatria, memória e reconhecimento social. O filme também recupera imagens e referências históricas relacionadas às experiências de pessoas trans ao longo do século XX. Preciado amplia, assim, a dimensão temporal do romance de Woolf: o Orlando que atravessa os séculos deixa de ser apenas uma invenção literária e passa a funcionar como uma figura capaz de reunir diferentes histórias de transformação.

A relação com Virginia Woolf permanece no centro da proposta. “Orlando” foi publicado em 1928 e acompanha um aristocrata inglês que, depois de viajar à Turquia, acorda transformado em mulher. A personagem continua vivendo ao longo dos séculos, enquanto o romance brinca com identidade, tempo, literatura e convenções sociais. Preciado parte justamente dessa liberdade para construir sua própria leitura do livro.

No filme, a separação entre depoimento e representação também perde importância. Uma pessoa pode falar de sua própria experiência e, no instante seguinte, assumir Orlando. A literatura se mistura à vida cotidiana; referências históricas convivem com situações atuais; a teatralidade divide espaço com relatos pessoais. O dispositivo deixa evidente que a identidade também pode ser narrada, encenada, reinventada e questionada.

Essa escolha aproxima “Orlando, Minha Biografia Política” de uma tradição de cinema ensaístico em que o realizador usa a própria experiência para investigar uma questão coletiva. Preciado, porém, desloca o centro da autobiografia. Sua história está presente, mas Orlando pertence a muitas pessoas. O filme ganha força justamente quando deixa de procurar uma única trajetória capaz de representar todas as outras.

A produção também chama atenção pela maneira como evita transformar uma discussão complexa em um documentário de formato convencional. O humor, a performance e a teatralidade convivem com assuntos como violência, patologização, transição de gênero e reconhecimento legal. A proposta nasceu de Virginia Woolf, mas chega a questões que pertencem diretamente ao presente.

A recepção internacional acompanhou a singularidade do projeto. Além dos prêmios conquistados em Berlim, “Orlando, Minha Biografia Política” passou por festivais como Toronto, Nova York, San Sebastián, Karlovy Vary, IDFA e Festival do Rio. O filme também foi exibido no Festival Varilux de Cinema Francês e entrou no circuito brasileiro em julho de 2024, distribuído pela Filmes do Estação. A provocação continua a mesma: quase cem anos depois de Woolf imaginar um Orlando capaz de mudar de sexo e atravessar os séculos, quantas outras formas esse personagem pode assumir?

“Orlando, Minha Biografia Política” parte de uma personagem literária para discutir pessoas reais. Paul B. Preciado transforma a carta destinada a Virginia Woolf em um filme coletivo, no qual literatura e experiência pessoal se encontram para atualizar uma personagem que continua encontrando novos corpos para existir.


Ficha técnica
“Orlando, Minha Biografia Política” | “Orlando, ma biographie politique” (título original)

Gênero: documentário, docuficção, cinema de arte. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos - contém linguagem imprópria, nudez e temas sensíveis. Ano de produção: 2023. Idioma: Francês. Direção e roteiro: Paul B. Preciado Elenco: Paul B. Preciado, Oscar S. Miller, Janis Sahraoui, Liz Christin, Elios Levy, Victor Marzouk, Kori Ceballos, Vanasay Khamphommala, Ruben Rizza, Julia Postollec, Amir Baylly, Naëlle Dariya, Jenny Bel'Air, Emma Avena, Lillie, Arthur, Eleonore, La Bourette, Noam Iroual, Iris Crosnier, Clara Deshayes, Castiel Emery, Tristana Gray Martyr, Le Filip, Miss Drinks, Frédéric Pierrot, Nathan Callot, Pierre et Gilles, Tom Dekel, Virginie Despentes, Rilke & Pompom. Cenas pós-créditos: Não há indicação de cenas pós-créditos. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Streaming: “Solitário” invade o campo irlandês e faz o medo bater à porta


Drama dirigido por Eamonn Murphy acompanha fazendeiro viúvo cuja rotina muda depois que sua casa é invadida; produção independente foi totalmente financiada pelos próprios realizadores 

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Na Irlanda rural, onde a rotina parece obedecer ao relógio das vacas, das visitas ao pub e das tarefas da propriedade, uma invasão doméstica é suficiente para mudar a relação de um homem com o próprio lugar onde vive. É a partir desse desconforto que “Solitary”, drama dirigido e escrito pelo irlandês Eamonn Murphy, constrói uma história sobre envelhecimento, medo, violência e a dificuldade de pedir ajuda. O filme chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte

Gerry Herbert interpreta Brendan, um fazendeiro viúvo que vive sozinho na periferia de uma pequena vila. Acostumado à própria rotina, ele administra a propriedade, cuida do gado, encontra conhecidos e tenta seguir adiante depois da morte da mulher. A sensação de segurança começa a ruir quando sua casa é invadida e a violência passa a rondar a comunidade.

O ponto de interesse do filme está na maneira como Murphy transforma uma situação aparentemente simples em uma experiência cada vez mais angustiante. Durante o dia, “Solitary” se comporta como um drama rural sobre um homem envelhecendo em um mundo que já não lhe oferece a mesma sensação de pertencimento. À noite, porém, a conversa muda de tom. A casa ganha outra dimensão e a produção se aproxima do suspense, flertando com o terror à medida que Brendan fica sozinho diante de qualquer ruído, sombra ou possibilidade de uma nova invasão.

A mudança não é mero truque de gênero. O próprio Murphy explica que pensou a estrutura dessa maneira: enquanto Brendan está acompanhado, existe alguma sensação de proteção; quando a noite chega e ele fica por conta própria, o medo passa a comandar a narrativa. O diretor, curiosamente, não nasceu no interior. Murphy é de Dublin e passou parte das férias de infância e juventude visitando familiares no interior da Irlanda. A experiência acabou ajudando na construção de uma paisagem rural bastante específica, algo que chamou a atenção do público durante as primeiras exibições. 

“Solitary” também carrega uma história de produção que daria facilmente outro filme. Murphy começou a trabalhar no roteiro em 2012, quando ainda estava na faculdade, mas abandonou o projeto por não conseguir encontrar a forma certa para a história. Dez anos depois, enquanto morava em Berlim, voltou ao material e encontrou o caminho que procurava. O roteiro ganhou nova forma e acabou dando origem ao primeiro longa-metragem dele.

A empreitada foi praticamente uma operação de guerrilha. Murphy e o produtor Alan Breslin bancaram a produção, que teve um orçamento estimado em apenas € 60 mil. Segundo o diretor, moradores da região também ajudaram na realização, oferecendo colaboração e estrutura para que o filme pudesse existir. A dimensão artesanal da produção não impediu uma trajetória bastante expressiva em festivais.

A estreia aconteceu no Galway Film Fleadh, em julho de 2025, e “Solitary” foi reconhecido como Melhor Filme Independente Irlandês. Depois, no Festival de Arras, na França, conquistou o Golden Atlas - Grand Jury Prize, principal prêmio da competição. O reconhecimento combina com uma proposta que aposta pouco em pirotecnia e bastante na observação de um personagem. Gerry Herbert sustenta Brendan com uma interpretação contida, adequada a um homem que parece ter aprendido a guardar quase tudo para si. Cailum Carragher e Cate Russell completam o trio principal, enquanto o elenco ainda conta com Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes.

A produção também tem uma particularidade curiosa: Murphy acumula funções. Além de escrever e dirigir, ele assina a montagem do filme. David Christopher Lynch responde pela direção de fotografia e Jonathan Casey pela música. A combinação contribui para que “Solitary” mantenha uma unidade estética bastante pessoal, especialmente quando a luz natural do campo dá lugar aos interiores escuros da casa de Brendan.

No fim das contas, o filme encontra seu melhor material no desconforto de um homem que quer continuar dono da própria vida enquanto o corpo, a idade e as circunstâncias começam a impor outras regras. A violência externa é o estopim, mas a história cresce quando Brendan percebe que talvez a maior dificuldade seja admitir que precisa de alguém por perto. Para um filme produzido com recursos tão modestos, “Solitary” chega ao streaming com uma credencial respeitável: passou por festivais importantes, ganhou prêmios e encontrou uma maneira bastante econômica de transformar uma casa, uma fazenda e algumas noites mal dormidas em matéria-prima para um drama que vai ficando cada vez mais sombrio. Às vezes, basta uma porta arrombada para a vida inteira parecer menos segura.


Ficha técnica
“Solitário” | “Solitary” (título original)
Gênero: drama. Duração: 86 minutos. Classificação indicativa: não informada para o lançamento brasileiro. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 11 de julho de 2025, na Irlanda; data de estreia no Brasil no Belas Artes à La Carte não localizada em fonte pública confiável. Idioma: inglês. Direção: Eamonn Murphy. Roteiro: Eamonn Murphy. Elenco: Gerry Herbert, Cailum Carragher, Cate Russell, Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: Musical “A Igreja do Diabo” volta com humor, música e boa dose de pecado


Musical inspirado em Machado de Assis retoma a temporada em São Paulo e coloca virtude, vício e hipocrisia no palco em uma comédia pop dirigida por Guilherme Gila. Foto: Pedro Veras

Depois de conquistar público, crítica e alguns prêmios pelo caminho, “A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” está de volta a São Paulo. A montagem da companhia A Casa que Fala ganha uma curtíssima temporada em outubro, no Teatro Estúdio, com sessões às segundas e terças-feiras, às 20h00. Inspirado no conto homônimo de Machado de Assis, o espetáculo escrito, dirigido e musicado por Guilherme Gila pega a conhecida provocação do escritor do século XIX e a leva para um universo de humor, música pop brasileira, filosofia moral e coreografias de linguagem queer. A proposta é discutir virtude, vício, desejo e comportamento social sem deixar a graça pelo caminho.

Na história, a Diaba resolve fundar sua própria religião. A nova doutrina tem uma regra bastante simples: fazer o mal está liberado. Ser uma pessoa boa, por outro lado, passa a ser visto como um defeito. Parece uma receita perfeita para o caos e, considerando que Machado de Assis está na origem da história, seria estranho esperar que a humanidade obedecesse direitinho a qualquer manual de comportamento. Edyelle Brandão retorna ao papel da Diaba, personagem que lhe rendeu reconhecimento na primeira temporada. O elenco desta nova temporada reúne ainda Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira.


Machado, pecado e música pop
Publicado originalmente no século XIX e posteriormente reunido em “Histórias sem Data”, de 1884, “A Igreja do Diabo” apresenta um Diabo cansado da falta de organização de seu próprio ofício. A solução encontrada por ele é fundar uma igreja, estabelecer regras e inverter a lógica das virtudes e dos pecados. Machado usa a premissa para cutucar a natureza humana e sua relação bastante particular com qualquer sistema moral. Afinal, seguir regras parece uma tarefa simples até que elas começam a contrariar desejos, hábitos e conveniências.

Guilherme Gila parte dessa mesma provocação para construir sua versão musical. Na montagem, a Diaba assume a missão de criar uma religião própria e apresenta aos seguidores os chamados “sete ditados capitais”. A doutrina rapidamente ganha adeptos, todos dispostos a experimentar um mundo em que a maldade virou virtude. Só que existe um pequeno problema: gente é gente. E a natureza humana costuma ter seus próprios planos.

A montagem utiliza música, dança e comicidade para aproximar a obra machadiana de questões contemporâneas. A sonoridade inspirada no pop brasileiro e a linguagem coreográfica queer dialogam com manifestações artísticas associadas a mulheres, pessoas pretas e integrantes da comunidade LGBTQ+, grupos historicamente submetidos a julgamentos sobre seus corpos, comportamentos e formas de expressão. Com isso, a filosofia moral ganha ritmo de teatro musical e o debate sobre virtude, vício, hipocrisia e desejo chega ao palco com uma dose generosa de humor.


Um musical premiado
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” estreou em São Paulo em 2023 e acumulou mais de dez indicações durante sua primeira temporada. Entre os reconhecimentos estão o prêmio de Melhor Musical Off no Prêmio Bibi Ferreira e o prêmio de Dramaturgia Original para Guilherme Gila no Prêmio Destaque Imprensa Digital.

Edyelle Brandão também foi reconhecida como Atriz Revelação entre os Destaques do Ano de Miguel Arcanjo Prado, enquanto a produção apareceu entre os destaques na categoria Melhor Musical Off. A montagem ainda chegou ao Prêmio PRIO de Humor, com indicações para Edyelle, em Melhor Performance, e para a própria produção.

Gila, responsável pela direção geral, dramaturgia e músicas, já havia levado Machado de Assis ao teatro musical com “Dom Casmurro”, no qual também assinou direção musical, composições e letras. Em “A Igreja do Diabo”, a direção musical fica por conta de Samir Alves e as coreografias são de Gabriella Medeiros.

A equipe criativa conta ainda com Laís Damato na cenografia, Isis Patacho na cenotécnica, Pietro Di Pompeii no desenho do vitral, Fran Barros no desenho de luz e Graziela Bastos nos figurinos. Rebeca Reis assina a produção executiva, Dan Maschio responde pela identidade visual e Anne Beatriz pelas artes gráficas.

Com realização de A Casa que Fala, “A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário” retorna aos palcos para colocar Machado de Assis diante de uma plateia contemporânea — e, de quebra, provocar uma pergunta que continua bastante inconveniente: será que a humanidade conseguiria obedecer a uma religião cuja principal regra fosse fazer o mal?


Serviço
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário”
Temporada: de 5 a 25 de outubro | Segundas e terças-feiras, às 20h00
Local: Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada para estudantes, professores e aposentados)
Duração: 80 minutos, sem intervalo
Classificação indicativa: 12 anos
Vendas: Sympla

Ficha técnica
Elenco: Edyelle Brandão, Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira
Direção geral, dramaturgia e música: Guilherme Gila
Direção musical: Samir Alves
Coreografia: Gabriella Medeiros
Cenografia: Laís Damato
Cenotécnica: Isis Patacho
Desenho do vitral: Pietro Di Pompeii
Desenho de luz: Fran Barros
Figurino: Graziela Bastos
Produção executiva: Rebeca Reis
Assessoria de imprensa: GPress Comunicação
Identidade visual: Dan Maschio
Artes gráficas: Anne Beatriz
Realização: A Casa que Fala

.: “Grande Sertão: Veredas” revela as faces de Diadorim nas telas e no palco


De Bruna Lombardi a Luiza Lemmertz e Luisa Arraes, as intérpretes de Diadorim encontram maneiras distintas de representar uma das personagens mais complexas de João Guimarães Rosa

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucas personagens de “Grande Sertão: Veredas” carregam tantos segredos quanto Diadorim. Companheiro de jagunçagem, amigo de infância e grande amor de Riobaldo, ela atravessa praticamente toda a narrativa escondendo a própria identidade. Para quem lê o romance, a personagem já representa um desafio. Para quem precisa colocá-la em cena, a dificuldade ganha corpo, voz, gesto, figurino e olhar. Ao longo das adaptações da obra de João Guimarães Rosa, diferentes atrizes encontraram suas próprias maneiras de lidar com essa personagem.

Sônia Clara foi Diadorim no primeiro filme, lançado em 1965. Bruna Lombardi assumiu o papel na minissérie da TV Globo de 1985. Décadas depois, Luiza Lemmertz viveu a personagem na montagem teatral e no filme de Bia Lessa, enquanto Luisa Arraes interpretou a personagem no filme de Guel Arraes, lançado em 2024. São interpretações separadas por décadas, linguagens e propostas estéticas. Em comum, todas precisam enfrentar uma personagem cuja identidade permanece deliberadamente em suspensão durante boa parte da história.


Bruna Lombardi encontra Reinaldo
Em 1985, Bruna Lombardi  recebeu de Walter Avancini a tarefa de interpretar Diadorim na minissérie de 25 capítulos da TV Globo. Tony Ramos vivia Riobaldo, enquanto Tarcísio Meira e José Dumont interpretavam Hermógenes e Zé Bebelo. A produção foi gravada em locações do sertão mineiro e apostou em uma estrutura grandiosa para levar o romance à televisão. A personagem aparecia principalmente como Reinaldo, nome pelo qual era conhecida entre os jagunços. Diadorim era o nome pelo qual Riobaldo a conhecia, numa relação marcada pela amizade, pela cumplicidade e por um sentimento que o próprio narrador demorava a compreender.

A escolha de Bruna Lombardi também contrariava, de certa maneira, a imagem que a atriz tinha naquele momento. Em entrevista concedida anos depois, ela contou que ficou surpresa com o convite de Avancini e que não compreendia inicialmente o que o diretor havia enxergado nela para o papel. A experiência acabou sendo muito mais profunda do que uma composição de personagem. 

Bruna contou que a equipe viveu no sertão durante as gravações e que Avancini buscava um realismo intenso. Para a atriz, permanecer naquele ambiente, sem os confortos habituais, ajudou a compreender Diadorim e o universo de Rosa. Ela definiu aquela experiência como uma “grande viagem da alma”. O resultado entrou para a memória da televisão brasileira. A cena em que Riobaldo descobre a verdadeira identidade de Diadorim, depois da morte da personagem, permanece entre os momentos mais marcantes da minissérie.

Uma personagem que precisava esconder até o corpo
Interpretar Diadorim exige lidar com uma particularidade que vai além do figurino masculino. A personagem precisa convencer os outros personagens e, em boa medida, o próprio leitor, de que é um jagunço. Isso significa construir uma presença que não revele imediatamente o segredo guardado por ela. A questão ganha outra dimensão quando se considera a relação com Riobaldo. O afeto existe, mas não encontra uma forma simples de ser nomeado. 

Riobaldo sente desejo, admiração, amizade e amor por alguém que acredita ser um homem. Diadorim, por sua vez, também vive uma relação afetiva marcada por limites, códigos de honra e pela necessidade de manter a própria identidade escondida. Por isso, cada intérprete precisa trabalhar com aquilo que a personagem mostra e com aquilo que precisa esconder. Na televisão de 1985, essa tensão ganhou a dimensão de uma narrativa seriada. O público acompanhava durante 25 capítulos a convivência entre Riobaldo e Reinaldo/Diadorim até chegar à revelação final. No palco, a experiência seria outra.


Luiza Lemmertz encontra a Diadorim de Bia Lessa
Em 2017, Bia Lessa levou Guimarães Rosa ao teatro em uma montagem que misturava encenação, instalação, música e artes visuais. Caio Blat interpretava Riobaldo, enquanto Luiza Lemmertz  assumia Diadorim. Luisa Arraes também fazia parte do elenco. A montagem colocava os espectadores em arquibancadas e trabalhava com uma estrutura espacial que fazia do próprio ambiente parte da narrativa. A música de Egberto Gismonti e a cenografia colaboravam para construir uma experiência que não pretendia simplesmente reproduzir o sertão descrito no livro.

Nesse espaço, Luiza Lemmertz encontrou uma Diadorim que precisava existir diante do público sem depender dos recursos de uma produção televisiva. O gesto, a voz, o corpo e a relação com Riobaldo ganhavam outra importância. A experiência com a personagem, porém, não terminaria no palco. Em “O Diabo na Rua no Meio do Redemunho”, filme de Bia Lessa inspirado em “Grande Sertão: Veredas”, Luiza Lemmertz voltou a interpretar Diadorim. A montagem teatral também tem outra particularidade interessante: Luisa Arraes estava no mesmo elenco e, anos depois, interpretaria a personagem em uma adaptação diferente, desta vez no cinema, no “Grande Sertão” de Guel Arraes.

Luisa Arraes vive outra Diadorim
No filme “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e lançado em 2024, Luisa Arraes assumiu novamente a personagem. Só que o sertão de Guimarães Rosa já não estava ali da mesma maneira. A produção deslocou a história para uma comunidade periférica urbana, cercada por muros e atravessada por conflitos entre organizações criminosas e forças policiais. Riobaldo continuou sendo interpretado por Caio Blat, que também já havia vivido o personagem na montagem de Bia Lessa. Essa mudança de território altera também a maneira como Diadorim pode ser percebida.

A personagem continua ligada a Riobaldo por uma relação de amizade, desejo e amor. Continua sendo alguém cuja identidade é protegida por um segredo. Continua inserida em uma estrutura de violência e disputa de poder. O que muda é o mundo ao redor dela. Luisa Arraes, portanto, não recebeu apenas a tarefa de interpretar novamente uma personagem conhecida. Precisou encontrar Diadorim dentro de uma adaptação que alterava profundamente o espaço, o tempo e a organização da história.


A mesma atriz, duas experiências
A presença de Luisa Arraes em "O Diabo na Rua no Meio do Redemunho", de Bia Lessa, e em "Grande Sertão", de Guel Arraes, cria uma ponte curiosa entre duas leituras cinematográficas do universo de João Guimarães Rosa. No filme de Bia Lessa, a atriz interpreta Nhorinhá e também Riobaldo jovem, enquanto Luiza Lemmertz assume Diadorim e Caio Blat vive Riobaldo adulto.

Em "Grande Sertão", de Guel Arraes, Luisa Arraes ganha outro papel central: é Diadorim, novamente ao lado de Caio Blat, que interpreta Riobaldo. A mudança de personagem acompanha uma transformação radical na proposta de adaptação. O filme de Guel Arraes desloca a história para um Brasil urbano contemporâneo, no qual a guerra entre jagunços encontra correspondência na violência das grandes cidades.

As duas produções partem de "Grande Sertão: Veredas", mas seguem caminhos próprios. A partir de Bia Lessa, a relação com a obra de Rosa passa pela experiência cênica e pela construção visual de um universo particular. No longa-metragem de Guel Arraes, o romance ganha uma leitura cinematográfica contemporânea, com os conflitos de Riobaldo e Diadorim inseridos em outro território e em outra realidade brasileira. Para Luisa Arraes, o percurso ainda guarda uma particularidade: ela passa de Nhorinhá e do jovem Riobaldo a Diadorim, assumindo diferentes lugares dentro da mesma obra.


Diadorim não termina na revelação
O maior risco ao interpretar Diadorim seja reduzir a personagem ao segredo da identidade dela. A revelação final é fundamental para a narrativa, mas ela não explica sozinha quem é Diadorim. Antes disso, a personagem já demonstrou coragem, lealdade, habilidade para a guerra, capacidade de liderança, dureza e afeto. A identidade escondida interfere em sua trajetória, mas não esgota a personalidade dela, forjando uma complexidade que permite interpretações diferentes.

Na televisão, Bruna Lombardi construiu uma Diadorim marcada pela convivência prolongada com Riobaldo e pela dimensão épica da minissérie. No palco e no filme de Bia Lessa, Luiza Lemmertz encontrou uma personagem inserida numa experiência cênica de grande intensidade física. No filme de Guel Arraes, Luisa Arraes participou de uma releitura que deslocou o universo rosiano para outro Brasil. Nenhuma dessas Diadorins precisa apagar a anterior, já que cada uma pertence ao seu tempo.

Bruna Lombardi também escreveu sobre essa experiência
A relação de Bruna Lombardi com Diadorim não terminou quando as gravações de 1985 chegaram ao fim. Em “Diário do Grande Sertão”, publicado pela Autêntica, a atriz recuperou anotações feitas durante os bastidores da produção. O livro apresenta a experiência de filmar a minissérie, acompanhada de fotografias, desenhos e materiais que ajudam a reconstruir aquele período.

A publicação ganha importância especial dentro das comemorações dos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”
, porque permite olhar para a adaptação de 1985 também pelo ponto de vista de quem esteve dentro dela. Bruna não retorna apenas à personagem, mas também ao sertão, à equipe, às filmagens e à experiência de conviver diariamente com um universo que, até então, existia principalmente nas páginas de Guimarães Rosa. É uma espécie de segunda travessia: primeiro, a atriz atravessou o sertão para interpretar Diadorim; décadas depois, voltou àquela experiência pela memória e pela escrita.

Uma personagem que continua mudando
Diadorim sobrevive às adaptações porque não depende de uma única aparência. Sônia Clara, Bruna Lombardi, Luiza Lemmertz e Luisa Arraes encontraram diferentes caminhos para chegar à personagem. A cada nova versão, muda o cenário, muda a linguagem, muda a época e mudam as ferramentas disponíveis para representar aquele universo.

O que permanece é a personagem criada por Guimarães Rosa: alguém que escolheu viver sob uma identidade masculina para escapar do destino reservado às mulheres de seu tempo e que construiu com Riobaldo uma relação que desafia classificações simples. A própria apresentação da personagem na minissérie de 1985 a descrevia como uma mulher que se disfarçava de homem para escapar da condição feminina no sertão. Ela não se entrega inteira de uma vez: nem ao leitor, nem a Riobaldo, nem ao público que a vê no palco ou na tela. Setenta anos depois, ainda existem novas maneiras de olhar para ela.

.: "Horror Expo Brasil" reúne astros do terror e experiências imersivas em SP


Mark Pellegrino, Eileen Dietz, Douglas Tait e Chris Fehn estão entre os convidados da quinta edição, que acontece nos dias 17 e 18 de outubro, no Expo Barra Funda

São Paulo ganha, nos dias 17 e 18 de outubro, um endereço especial para quem gosta de terror, fantasia e cultura sombria. A quinta edição da "Horror Expo Brasil" ocupa o Expo Barra Funda com convidados internacionais, nomes do cinema e da literatura brasileira, painéis, workshops, experiências de escape, ambientes temáticos e uma festa vampiresca para fechar cada noite. A organização espera receber cerca de 15 mil visitantes.

Um dos nomes mais conhecidos da programação é Mark Pellegrino, que interpretou Lucifer em "Supernatural" e Jacob em "Lost". A lista de convidados internacionais inclui ainda Eileen Dietz, associada a algumas das imagens mais lembradas de "O Exorcista", e Douglas Tait, intérprete de Jason Voorhees e Michael Myers. Durante o evento, Tait participará de sessões de fotos com os fãs caracterizado como os dois personagens, colocando frente a frente alguns dos rostos mais reconhecíveis do horror cinematográfico.

A música também encontra seu espaço entre monstros, fantasmas e assassinos mascarados. Chris Fehn, ex-percussionista do Slipknot, participa da convenção para dividir histórias de sua trajetória e conversar com o público. Fotos, autógrafos e encontros com os convidados estarão disponíveis de acordo com as modalidades de participação de cada atração.


Cinema brasileiro, bastidores e literatura de horror
O cinema brasileiro marca presença em encontros dedicados a diferentes produções e processos criativos. Caio Cobra e Carol Castro conversam sobre "Pacto Maldito", enquanto Dane Taranha e Fernando Sanches participam de um painel sobre "Herança Canibal". Maria Tachach também integra a programação para falar sobre "Ogiva". Rodrigo Aragão, um dos nomes conhecidos do horror brasileiro, conduz um workshop de maquiagem e apresenta o painel "30 Anos Trabalhando com Terror". A proposta é compartilhar experiências acumuladas na criação de efeitos, personagens e histórias do gênero. 

A relação entre literatura e cinema ganha espaço no encontro "Escrever, Adaptar e Filmar: um diálogo entre o cinema e a literatura de horror do Brasil", com Denisson Ramalho e Oscar Nestarez. Claudia Lemes, Cesar Bravo e Marcos De Brito completam a participação de escritores na programação e reforçam a presença da literatura brasileira no evento.


Slashers, Frankenstein e histórias de assombração
Os grandes personagens e fenômenos do horror também ganham espaço nos debates. O Boca do Inferno apresenta "Slashers, um pesadelo na Sexta-Feira 13", enquanto outro painel se volta para Frankenstein, criatura que atravessa gerações e continua rendendo interpretações no cinema e na cultura popular. Pipoca & Nanquim, Getro Guimarães, Luciano Milici e o dublador Nelson Machado também participam da programação.

Para quem prefere mistério, investigação paranormal e histórias que desafiam a explicação racional, KBC Brasil - Caçadores de Fantasmas e Daniel Pires, do Canal Lenda, levam seus relatos ao evento. Thiago de Souza, do "O Que Te Assombra", aborda o tema "Lobisomens", aproximando a programação de uma figura que há muito tempo alimenta o imaginário popular.


Experiências colocam o público dentro do horror
Quem for à "Horror Expo Brasil 2026" encontrará atrações que vão além dos palcos. A proposta é colocar o visitante dentro de cenários e situações inspirados pelo universo do terror. Entre os destaques está a ativação de "Cara de Barro", da Warner. A Escape Time participa com o Escape Ônibus Zumbi e o Escape Ícones do Terror. O Escape Hotel apresenta o Escape Crystal Lake - Jason, enquanto Fugativa e Escape Core levam ao evento o Espaço True Crime. 

O circuito ainda inclui o Labirinto Oberon, com 180 m², o Museu dos Vampiros, o Espaço Exorcista, com destaque para Regan, e o Espaço Chucky, desenvolvido em parceria com Fabrício Abreu, conhecido nas redes como @lordbleus. O público também poderá acompanhar o concurso cosplay, circular entre expositores e conhecer artistas, produtos e projetos ligados ao universo do horror.


"Baile dos Condenados" fecha cada noite com clima vampiresco
Depois de um dia cercado por monstros, criaturas e histórias de arrepiar, a festa continua. O "Baile dos Condenados" encerra cada noite da Horror Expo com uma proposta de festa vitoriana, música e uma estética marcada pela elegância sombria. A discotecagem fica por conta de DJ Lord A, fundador da Rede Vamp e da Carmilla Noite de Gala Sombria. 

Em parceria com a Encantaria Art & Couture, modelos vampíricos apresentam criações especiais no palco, com rendas, veludo e uma corte imortal digna de uma noite dedicada aos habitantes da noite. Entre cinema, literatura, música, cosplay e atrações imersivas, a "Horror Expo Brasil 2026" aposta numa programação que permite ao público assistir, conversar, fotografar e, em alguns casos, entrar literalmente nos universos que ajudaram a construir a cultura do horror.


Serviço
"Horror Expo Brasil 2026" - 5ª edição
Datas: 17 e 18 de outubro de 2026
Local: Expo Barra Funda - São Paulo/SP
Clube do Ingresso
Ingressos para atividades com os convidados: HP - Eventos e Ingressos na Uticket
Parceiro de Mídia Oficial: Uol
Programação sujeita a alterações. Consulte as condições de acesso e participação nas atividades e nos encontros com convidados.

.: De Ryûsuke Hamaguchi, “O Mal Não Existe” confronta natureza e ganância


Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, drama japonês acompanha comunidade rural ameaçada pela instalação de um empreendimento de glamping e chega à Reserva Imovision

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ryûsuke Hamaguchi troca a atmosfera urbana de seus trabalhos anteriores por uma comunidade rural japonesa em “O Mal Não Existe”, filme que chega ao streaming Reserva Imovision e coloca natureza, interesses econômicos e relações humanas em rota de colisão. Vencedor do Grande Prêmio do Júri, o Leão de Prata, no Festival de Veneza de 2023, o longa-metragem confirma a disposição do cineasta de seguir por caminhos bem diferentes depois do reconhecimento internacional de “Drive My Car”.

A história acompanha Takumi (Hitoshi Omika), pai de Hana (Ryo Nishikawa), uma menina de oito anos. Os dois vivem em Mizubiki, uma pequena vila cercada por florestas, onde o cotidiano segue um ritmo distante da pressa das grandes cidades. Takumi trabalha em diferentes serviços para os moradores e conhece profundamente a região, enquanto Hana circula pela mata e aprende com o pai a reconhecer árvores, animais e caminhos.

A rotina começa a sofrer pressão quando uma empresa apresenta aos moradores um projeto de glamping, modalidade que combina a experiência de acampamento com estrutura e conforto de hospedagem. A proposta pretende atrair visitantes interessados em uma temporada de contato com a natureza, mas esbarra em questões muito concretas: abastecimento de água, tratamento de esgoto, segurança e impacto sobre o ecossistema.

A reunião entre os representantes da empresa e os moradores é uma das passagens centrais do filme. Takahashi (Ryûji Kosaka) e Mayuzumi (Ayaka Shibutani) chegam à vila para apresentar o projeto e ouvir a comunidade, mas logo percebem que conhecem pouco sobre o lugar onde pretendem instalar o empreendimento. A conversa, conduzida com aparente cordialidade, ganha contornos cada vez mais incômodos à medida que os moradores apontam problemas que deveriam ter sido considerados antes da apresentação.

Hamaguchi não transforma os representantes da empresa em vilões simplórios. Depois da reunião, o roteiro acompanha Takahashi e Mayuzumi em momentos mais pessoais, especialmente durante uma viagem de carro, quando os dois falam sobre trabalho, relacionamentos e suas próprias insatisfações. A mudança de perspectiva ajuda a embaralhar a divisão entre bons e maus e dá ao conflito uma dimensão mais humana.

O diretor já havia demonstrado interesse por personagens que se revelam por meio das conversas, dos gestos e daquilo que deixam de dizer. Em “O Mal Não Existe”, porém, a natureza ocupa um espaço muito maior. A floresta aparece desde os primeiros minutos, acompanhada pela trilha de Eiko Ishibashi, e o filme dedica tempo ao cotidiano de Takumi, aos trabalhos manuais e aos caminhos percorridos por ele e pela filha.

A parceria entre Hamaguchi e Ishibashi começou antes do longa-metragem. A compositora, responsável pela trilha de “Drive My Car”, havia convidado o cineasta para criar imagens que acompanhassem uma apresentação musical ao vivo. O resultado foi “Gift”, projeto inicialmente concebido sem diálogos. Hamaguchi percebeu naquele material a possibilidade de desenvolver uma história e transformou a ideia em “O Mal Não Existe”.

A relação entre os dois projetos é fundamental para compreender a particularidade do filme. A música de Ishibashi não funciona simplesmente como acompanhamento das imagens: ela participa da construção do clima, alternando momentos de serenidade e inquietação. O próprio percurso visual também preserva algo da experiência contemplativa que estava na origem de “Gift”.

A escolha de Hitoshi Omika para interpretar Takumi tem uma história curiosa. Segundo Hamaguchi contou ao Los Angeles Times, o diretor conheceu o ator durante a busca por locações rurais para “Gift”. Omika dirigia o carro que levava Hamaguchi pelas regiões pesquisadas e acabou chamando a atenção do cineasta. Quando recebeu o convite para atuar, Omika inicialmente ficou surpreso.

Outro detalhe pouco convencional está no figurino. Omika usou as próprias roupas durante as filmagens. Hamaguchi também explicou que imaginou Takumi com uma personalidade mais próxima de personagens interpretados por Clint Eastwood ou Charles Bronson, mas percebeu que a suavidade do ator acrescentava outra camada ao protagonista. A produção foi construída a partir de uma pesquisa do diretor por diferentes vilas japonesas. Mizubiki é uma localidade fictícia, composta por características de vários lugares visitados por Hamaguchi durante o desenvolvimento do roteiro. A equipe também filmou em áreas próximas às fronteiras das províncias de Yamanashi e Nagano.

A ameaça representada pelo empreendimento não está limitada à chegada de turistas. O projeto evidencia uma maneira de enxergar a natureza como produto, algo que pode ser organizado, vendido e consumido. A comunidade, por sua vez, conhece o território de outra maneira: a água, a floresta e os animais fazem parte da própria sobrevivência dos moradores.

É  nessa diferença de percepção que Hamaguchi encontra o conflito central. A empresa quer acelerar o projeto para aproveitar subsídios ligados ao período da pandemia, enquanto os moradores observam consequências que não cabem em uma planilha financeira. A situação aproxima o filme de questões contemporâneas sobre desenvolvimento, turismo e exploração ambiental, sem abandonar o interesse do diretor pelo comportamento humano.

A narrativa reserva uma mudança radical para os minutos finais. Depois de acompanhar durante boa parte da projeção a rotina de Takumi, os moradores e o conflito provocado pelo empreendimento, o filme encaminha a história para uma situação de violência e ambiguidade. A conclusão pode causar estranhamento porque Hamaguchi não fecha todas as possibilidades de interpretação. A floresta, a presença de um cervo ferido, o desaparecimento de Hana e a reação de Takumi colocam em primeiro plano uma relação entre instinto, proteção e violência. O que parecia ser uma discussão sobre um empreendimento turístico ganha uma dimensão muito mais sombria.


Ficha técnica
“O Mal Não Existe” | “Aku wa sonzai shinai” (título original) | “O Mal Não Está Aqui” (título em Portugal)

Gênero: drama. Duração: 106 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2023. Data de lançamento no Brasil: 1º de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idioma: japonês. Direção: Ryûsuke Hamaguchi. Roteiro: Ryûsuke Hamaguchi e Eiko Ishibashi. Elenco: Hitoshi Omika, Ryo Nishikawa, Ryûji Kosaka, Ayaka Shibutani, Hazuki Kikuchi e Hiroyuki Miura. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "O Libertino" recupera Johnny Depp em papel provocador e mostra decadência


Dirigido por Laurence Dunmore, drama de época acompanha o poeta John Wilmot, vivido por Depp, entre escândalos, sexo, literatura e uma paixão que muda o rumo de sua vida

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Inglaterra da Restauração ganha contornos pouco comportados em "O Libertino", drama histórico dirigido por Laurence Dunmore que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado originalmente em 2004, o filme coloca Johnny Depp na pele de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta, aristocrata e personagem célebre por transformar o desprezo pelas convenções sociais em uma espécie de método de vida. Na corte de Carlos II, Rochester circula entre bebida, mulheres, provocações e escritos que incomodam justamente por atingirem quem está acostumado a mandar. O rei, interpretado por John Malkovich, decide recorrer ao velho amigo quando precisa de uma peça capaz de impressionar a corte francesa. A encomenda, porém, encontra um homem muito mais interessado em seus próprios excessos do que em cumprir qualquer obrigação real.

A situação ganha outra dimensão quando Rochester conhece Elizabeth Barry, interpretada por Samantha Morton, uma atriz ainda pouco conhecida que ele decide preparar para os palcos. A relação entre os dois começa como uma espécie de parceria artística, mas rapidamente ganha contornos afetivos e sexuais. Enquanto Lizzie desenvolve uma presença cada vez mais forte como atriz, Rochester segue numa trajetória de autodestruição que cobra uma conta bastante alta.

O filme nasceu no teatro. O roteiro de Stephen Jeffreys é baseado na própria peça "The Libertine", escrita pelo dramaturgo inglês e anteriormente encenada pela Steppenwolf Theatre Company, de Chicago. John Malkovich já havia interpretado Rochester nos palcos e, na adaptação cinematográfica, passou para o outro lado da história ao assumir Carlos II. Além de atuar, o astro também aparece entre os produtores da produção.

Johnny Depp também não teria sido a primeira opção de Laurence Dunmore para o protagonista. A ideia inicial do diretor era contar com o próprio Malkovich como Rochester, antes de o ator assumir o papel do rei. A escolha acabou criando uma curiosa troca de posições entre a montagem teatral e o filme: Malkovich conhecia profundamente o personagem principal, enquanto Depp mergulhou no aristocrata libertino com uma composição que exigia tanto extravagância quanto degradação física.

A proposta visual de Dunmore também foge do acabamento elegante que costuma acompanhar dramas ambientados na aristocracia. O filme foi realizado quase todo com câmera na mão, recurso que aproxima o espectador da sujeira, da fumaça e da desordem daquela Londres. As tomadas panorâmicas do interior do teatro são algumas das exceções e funcionam como uma mudança calculada de perspectiva.

A fotografia de Alexander Melman segue a mesma lógica. Para iluminar determinadas cenas, a equipe criou estruturas com várias velas e uma superfície refletora, batizadas nos bastidores de "birthday cakes". A iluminação precisava produzir luz suficiente sem abandonar a aparência característica de um ambiente iluminado por velas. O resultado divide opiniões até hoje: enquanto alguns espectadores consideram a imagem propositalmente áspera e coerente com o universo de Rochester, outros enxergam excesso de granulação e pouca definição. 

A produção também guarda uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas por alguém com senso de humor peculiar. O orçamento registrou £6.890 em óleo vegetal utilizado para produzir fumaça e neblina. A planilha ainda contabilizou £3.672 gastos em 17 pênis artificiais inspirados no século XVII. É o tipo de informação que ajuda a imaginar a quantidade de trabalho necessária para recriar uma época em que o diretor claramente não pretendia esconder os excessos de seu personagem.

A vida de John Wilmot, por si só, já oferecia material suficiente para um filme bastante indigesto. Poeta satírico e figura conhecida pela conduta escandalosa, Rochester morreu aos 33 anos, vítima das consequências de uma vida marcada pelo abuso de álcool e pela sífilis. A reputação literária, contudo, cresceu depois de ele morrer, o que acrescenta uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que tratava a própria existência como uma provocação acabou conquistando reconhecimento duradouro justamente por aquilo que escrevia.

"O Libertino" não tenta tornar Rochester agradável. O próprio personagem avisa o público logo no começo que não quer ser querido. A estratégia reaparece no encerramento, numa construção que aproxima o espectador diretamente do protagonista e reforça a origem teatral do material. Essa escolha foi bastante comentada nas avaliações do filme, com espectadores destacando a força da abertura e da atuação de Depp.

O elenco acompanha a aposta. Samantha Morton encontra em Elizabeth Barry uma personagem que cresce conforme aprende a dominar o palco e, sobretudo, a não se deixar reduzir às vontades de Rochester. Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet, esposa do protagonista, enquanto Tom Hollander vive o dramaturgo George Etherege. Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly e Jack Davenport completam o elenco.

John Malkovich merece atenção especial. Existe algo de deliciosamente contraditório na escalação de um ator que já havia vivido Rochester no teatro para interpretar o monarca que tenta controlar os estragos provocados pelo amigo. Carlos II conhece os excessos do poeta, tolera muitos deles e, ao mesmo tempo, precisa impedir que Rochester leve suas provocações longe demais.

O resultado é um filme deliberadamente desconfortável, com humor ácido, sexo, doença, literatura e uma visão pouco decorativa da aristocracia inglesa. "O Libertino" chegou ao público cercado por opiniões divididas, especialmente em razão da fotografia carregada, do ritmo e da forte presença do texto teatral. Ainda assim, a atuação de Depp aparece como um dos pontos mais elogiados nas avaliações, ao lado do trabalho de Samantha Morton, John Malkovich e da recriação visual do período.


Ficha técnica:
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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