terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: Prêmio Sesc de Literatura anuncia vencedores da edição 2026


Mariana do Nascimento Ramos, Anacã Agra e Guilherme de Miranda Ramos tiveram seus livros selecionados nas categorias Romance, Conto e Poesia; edição recebeu 2.969 inscrições. Na imagem, o
s autores vencedores: Mariana do Nascimento Ramos; Anacã Agra; Guilherme de Miranda Ramos

O Prêmio Sesc de Literatura anunciou as obras vencedoras da edição 2026: na categoria romance o ganhador foi “A Vontade das Coisas Mortas”, do Distrito Federal, escrito por Mariana do Nascimento Ramos; em Conto o livro “A Replicação do Sangue”, da Paraíba, de autoria de Anacã Agra; e em poesia “Geografia do Desconforto”, de Alagoas, por Guilherme de Miranda Ramos. Neste ano, o prêmio bateu recorde histórico de inscrições com 2.969 obras, sendo 1.203 de poesia, 960 romances e 806 livros de contos. As obras foram selecionadas por especialistas convidados para cada categoria.

“Chegar a 23ª edição com recorde de inscrições é um reconhecimento da força que o Prêmio Sesc de Literatura conquistou ao longo de sua trajetória. Os trabalhos recebidos este ano mostram que há uma produção literária diversa, potente e interessada em encontrar novos caminhos para contar as histórias do nosso país. Mais do que revelar novos autores, o prêmio reafirma o compromisso do Sesc com a literatura brasileira, criando oportunidades para que essas vozes sejam publicadas, circulem e cheguem a leitores de diferentes lugares”, afirma Diana dos Santos Abreu, Diretora de Saúde, Cultura, Lazer e Assistência do Departamento Nacional do Sesc.

Criado para incentivar novos talentos da literatura nacional, o Prêmio Sesc de Literatura é voltado exclusivamente a autores inéditos, ou seja, aqueles que nunca tiveram livros publicados na categoria para a qual concorrem. Os vencedores têm seus livros publicados pela Editora Senac Rio e recebem uma premiação em dinheiro no valor de R$ 30 mil. Além disso, circulam pelo país em uma programação composta por eventos como clubes de leitores, bate-papos com o público e eventos de literários.


Romance
Vencedora na categoria Romance, Mariana do Nascimento Ramos, carioca de 45 anos que mora em Brasília, é a autora de “A Vontade das Coisas Mortas”. Escritora, professora e servidora pública, Mariana é formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde também concluiu mestrado em Ciência da Literatura. Atuou como professora de Literatura Brasileira na Argentina, na Costa Rica e na China.

“A Vontade das Coisas Mortas” conta a história de Bruna, professora de literatura de uma pequena cidade do interior que tenta reconstruir a própria vida depois de sobreviver a um massacre escolar. Entre sessões de terapia, o retorno ao trabalho, relações familiares e lembranças do passado, a personagem enfrenta o luto, a culpa e o trauma. A narrativa alterna presente e passado e aborda temas como memória, morte, solidão e as marcas deixadas por tragédias em pessoas e lugares. “Esse foi o primeiro romance que eu escrevi. O livro foi inspirado no caso de Suzano, em São Paulo, e tentei trazer intimidade de um lugar difícil, que é a violência. Procurei falar com lirismo e ternura, tratando a violência de forma silenciosa e que se entranha nas relações e nas coisas. Estou ansiosa para ver qual vai ser a percepção do público sobre a história”, conta.


Conto
Na categoria Conto, o escritor é o paraibano Anacã Agra, de 48 anos, com “A Replicação do Sangue”. Formado em Letras, com mestrado e doutorado em Literatura, Anacã é professor na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde ministra, desde 2017, um curso de criação literária. A literatura e a escrita estão presentes na vida dele desde a infância, com influência do pai, que também foi professor de literatura, letras e escritor. “Segundo meu pai conta, escrevi meu primeiro conto aos 13 anos e não parei mais”. Escritor de romances, contos, poemas e roteiros cinematográficos, Anacã publicou de forma independente os romances “A Face Interna da Carne”, “O Circo da Galileia”, “Amadis de Riorraso” e “Éramos Eternos”.

“A Replicação do Sangue” reúne contos marcados por tragédias humanas, violência, culpa, desejo e ironias do destino. As histórias colocam personagens comuns diante de situações extremas e exploram dramas familiares, paixões frustradas, vinganças, acidentes, crimes e encontros marcados pelo acaso. “Uma semana antes de receber a notícia do prêmio eu pensei em desistir de publicar. Faz mais de 30 anos que eu produzo e ainda não havia conseguido um ‘sim’. Agora eu não desisto mais”. Anacã diz que os contos que compõem o livro foram escritos ao longo do tempo, inicialmente sem a intenção de formar uma obra única. Posteriormente, o autor identificou aproximações temáticas entre os textos e os reuniu. “Parte das histórias tem origem em experiências próprias ou de pessoas próximas, enquanto outras nasceram de notícias, filmes e outras referências”, ele explica.

Poesia
O vencedor na categoria Poesia é o alagoano Guilherme de Miranda Ramos, 54 anos, com “Geografia do Desconforto”. Escritor, compositor e produtor cultural, Guilherme é autor de livros infantis e de crônicas e possui textos premiados em editais e concursos. Na música, é idealizador do Intermídia Estúdio de Criação e do projeto Quarentemas, além de compor trilhas sonoras para literatura, audiovisual e artes cênicas e produzir singles e álbuns autorais. Guilherme diz que o primeiro contato que teve com a arte foi criança, quando leu um poema em uma revista que sua mãe levou para casa. “Essa poesia me encantou, eu ficava reescrevendo como se o texto fosse meu”. Depois disso, se envolveu com arte na escola e passou a ler tudo, até bula de remédio, ele brinca.

Em “Geografia do Desconforto”, os poemas percorrem três territórios simbólicos: o sangue, o asfalto e o espelho. A primeira parte aborda memórias familiares, heranças afetivas, silêncios entre gerações, perdas e a busca por identidade. Na segunda, o olhar se volta para trabalhadores invisibilizados nas cidades, discutindo desigualdade, precarização, resistência e dignidade. Já a terceira parte mergulha em questões existenciais relacionadas ao corpo, ao tempo, à solidão, à saúde mental e ao sentimento de não pertencimento. Com linguagem simples e imagens marcantes, o livro constrói uma cartografia da memória e da condição humana. “Para esse livro eu saí da minha zona de conforto e experimentei formatos que antes eu não tinha coragem. Estou ansioso para encontrar outros escritores, trocar experiências com essas pessoas e ser fonte de inspiração para que eles não desistam dos seus sonhos, como eu não desisti do meu”.

Os autores vencedores serão apresentados ao público em uma cerimônia com noite de autógrafos no fim do ano. Após a publicação, os livros serão vendidos em livrarias online e físicas por todo país e distribuídos na rede de bibliotecas e escolas do Sesc. 

 
Os jurados em 2026
O júri do Prêmio Sesc de Literatura 2026 reúne nomes de destaque da literatura brasileira. Em Romance, Maria Esther Maciel, escritora, poeta e professora da UFMG, e Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado e vencedor dos prêmios Jabuti, LeYa e Oceanos. Em Conto, participaram Miriam Alves, escritora e importante voz da literatura afro-brasileira contemporânea, e Dau Bastos, escritor, ensaísta e professor da UFRJ. Já o júri de Poesia foi formado por Cida Pedrosa, vencedora do Jabuti por Solo para Vialejo, e Edimilson de Almeida Pereira, poeta, ensaísta e professor da UFJF, vencedor do Oceanos e do Prêmio São Paulo de Literatura.

Sobre o Prêmio Sesc de Literatura
Criado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura já recebeu cerca de 27 mil originais e revelou ao mercado editorial 46 novos autores. O processo de avaliação tem como base o anonimato dos autores, garantindo a lisura do projeto e a liberdade de análise das comissões julgadoras, que fazem a seleção pelo mérito literário, com soberania sobre a decisão final. Os autores devem ser inéditos nas categorias pelas quais concorrem, ou seja, sem obras publicadas na categoria escolhida. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa vem contribuindo para a publicação e circulação de novos autores, aproximando suas obras de leitores de diferentes regiões do país.

.: “Sobre Poetas e Heresias” leva poesia, humor e ironia ao Sesc Pinheiros


Espetáculo com Jairo Mattos e direção de Carlo Milani aproxima Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira e outros autores em uma montagem que transforma literatura em jogo cênico. Foto: Adriano Escanhuela

A literatura ganha ritmo, humor e provocação em “Sobre Poetas e Heresias”, espetáculo protagonizado por Jairo Mattos e dirigido por Carlo Milani, em cartaz até dia 12 de setembro - de quinta a sábado, às 20h30; no dia 11 de setembro, também às 16h00 - , no auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo. A montagem reúne textos de Padre Antônio Vieira, José Régio, Fernando Pessoa e Wislawa Szymborska para criar um encontro entre poesia, pensamento e comicidade.

Em cena, Mattos interpreta um bufão contemporâneo que assume a função de mestre de cerimônias e comentarista. Diante do público, ele revisita versos, pensamentos e discursos de diferentes épocas, conduzindo a narrativa com ironia e questionamentos. Sermões e poemas ganham novas possibilidades ao serem transformados em ações cênicas, comentários e situações marcadas pelo humor. A dramaturgia, alinhavada por Aloysio Burtin, coloca lado a lado autores de períodos e contextos distintos para abordar temas como poder, fé, amor e ódio. A palavra ocupa o centro da montagem e serve como ponto de partida para um diálogo entre diferentes vozes da literatura.

“Escolhi o bufão porque ele não oferece respostas; ao contrário. Ri das certezas, desmonta discursos e convida o público a olhar o mundo por outro ângulo. Os poetas presentes também são hereges à sua maneira: recusaram aceitar o mundo como algo pronto e fizeram da poesia um ato de liberdade”, afirma Jairo Mattos.

O espetáculo também marca o reencontro artístico entre Mattos e Milani. A parceria entre ator e diretor parte da ideia de transformar a palavra em ação e estabelecer uma relação próxima com a plateia. A direção trabalha com diferentes ritmos para alternar a intimidade dos sermões, a dimensão poética dos textos e as provocações do bufão. O resultado é uma montagem que aproxima obras literárias do público por meio de uma encenação direta e bem-humorada. Entre citações, comentários e invenções, “Sobre Poetas e Heresias” convida a pensar sobre as certezas que atravessam a vida em sociedade sem abrir mão do prazer de rir delas.


Ficha técnica
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Direção: Carlo Milani
Atuação: Jairo Mattos
Figurino: Luiza Curvo
Maquiagem: Beto França
Texto, luz e cenário: Jairo Mattos
Operador de Luz: Bruno Gutierres
Fotografia: Adriano Escanhuela
Direção de produção: Lilia Ladislau e Jorge Moreira
Consultoria: Adolfo Mazzarini
Produção: Orapronobis Produções Culturais


Serviço
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Temporada: até dia 12 de setembro de 2026. De quinta a sábado, às 20h30. No dia 11 de setembro, também às 16h00.
Sessões com LIBRAS: 4 e 5 de setembro
Local: Sesc Pinheiros – Auditório – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Vendas: sescsp.org.br ou nas bilheterias das unidades do Sesc SP
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Acessibilidade: auditório acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo/SP.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 22h00; sábados, das 10h00 às 21h00; domingos e feriados, das 10h00 às 18h30.
Estacionamento: com manobrista.
Como chegar de transporte público: 350 metros a pé da Estação Faria Lima (Metrô – Linha Amarela), 350 metros a pé da Estação Pinheiros (CPTM – Linha Esmeralda) e do Terminal Municipal Pinheiros (ônibus).
Acessibilidade: a unidade possui rampas de acesso e elevadores, além de banheiros e vestiários acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. Também conta com espaços reservados para cadeirantes.

.: “Nós, Ursos” leva ao teatro um amor que amadureceu em segredo


Espetáculo dirigido por André Corrêa adapta romance de Gilvan Azevedo e coloca em cena dois homens maduros diante das escolhas que fizeram — e das que ainda desejam fazer. Foto: Daniela Ferreira

O que acontece quando a vida construída durante décadas começa a pedir uma revisão de roteiro? É dessa inquietação que parte “Nós, Ursos”, espetáculo que chega ao Teatro Commune, em São Paulo, com direção de André Corrêa e adaptação teatral assinada pelo escritor Gilvan Azevedo. A montagem, que segue em cartaz até dia 27 no Teatro Commune, reúne no elenco o próprio autor e Mauricio Constantino, seu marido e parceiro na criação da Cia. Salor. O espetáculo adapta o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, obra que conquistou leitores ao tratar de amor, identidade e reinvenção na maturidade. As apresentações acontecem aos sábados e domingos, às 20h00.

Em cena, Saulo e Rodney são dois homens maduros que passaram boa parte da vida seguindo os caminhos que pareciam previamente traçados. Pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a atender às expectativas alheias, eles se conhecem quando já carregam no currículo afetivo uma boa coleção de responsabilidades, escolhas e renúncias. A aproximação começa entre mensagens, viagens e encontros escondidos. Aos poucos, a relação ganha espaço e se transforma em algo difícil de manter nos bastidores. O romance passa então a conviver com afastamentos, conflitos internos, pressões familiares e as pequenas vitórias de quem decide, finalmente, olhar para a própria vida com outros olhos.

Misturando humor, drama e poesia, “Nós, Ursos” aborda amor, paternidade, masculinidades, liberdade, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta. A montagem também coloca em evidência relações LGBTQIA+ maduras, tema ainda pouco explorado pela dramaturgia brasileira contemporânea. Gilvan Azevedo, além de adaptar o romance, interpreta um dos protagonistas ao lado de Mauricio Constantino. A passagem da literatura para o palco nasceu da vontade de investigar o que o teatro poderia acrescentar à história.

"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens. A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única", afirma Gilvan Azevedo. Na direção, André Corrêa concentra a encenação nas relações entre os personagens e na passagem do tempo. A proposta combina interpretação, projeções e desenho de som, mantendo os atores e os vínculos estabelecidos entre eles no centro da narrativa.

"Vejo 'Nós, Ursos' como uma história sobre pessoas que chegam a um determinado momento da vida e precisam lidar com escolhas feitas, caminhos abandonados e possibilidades que ainda permanecem abertas. Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", afirma o diretor. O título da peça remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos na década de 1980 e difundida no Brasil a partir dos anos 1990.

Na comunidade LGBTQIA+, "urso" identifica homens gays ou bissexuais associados a corpos robustos, pelos e barbas. A expressão também carrega ideias de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A referência serve de ponto de partida para ampliar a conversa sobre corpos, afetos e diferentes formas de masculinidade, longe de caricaturas e estereótipos. "A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos, pessoas tentando conciliar expectativas externas e necessidades internas", afirma Gilvan Azevedo.

O escritor vê na trajetória de Saulo e Rodney uma história capaz de conversar com questões que vão muito além da experiência específica dos protagonistas. "Por isso, embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver”. Publicado inicialmente no Brasil e posteriormente lançado em inglês com o título “We Were Bears and Didn't Know”, o romance reúne leitores interessados em temas como identidade, afeto, corpo, pertencimento e as possibilidades que surgem depois dos 40 anos.

A adaptação marca, portanto, uma nova etapa para uma história que nasceu nas páginas de um livro e agora ganha corpo, voz e presença no palco. Porque algumas histórias de amor podem até demorar para começar. O problema é convencer o coração de que ele deveria continuar esperando. “Nós, Ursos” é uma produção da Cia. Salor, criada por Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino a partir da experiência da Editora Salor. A companhia desenvolve projetos que aproximam literatura, teatro e outras linguagens artísticas.

“Éramos Ursos e Não Sabíamos” transforma crise de identidade em romance sobre liberdade
Publicado em 2024, o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, acompanha dois homens maduros inseridos no universo corporativo de São Paulo e diante de uma pergunta que costuma chegar sem convite: e se a vida que deu certo para todo mundo estiver errada para quem a vive?

Rodney é um executivo bem-sucedido, mas enfrenta um casamento desgastado e desejos que permanecem escondidos. A rotina ganha outro contorno quando ele conhece Paulo, também executivo e marcado por uma formação familiar conservadora. A aproximação entre os dois provoca uma sucessão de questionamentos sobre identidade, desejo, autonomia e as escolhas feitas ao longo da vida.

Com 213 páginas, o livro combina romance, conflitos familiares, discussões filosóficas e situações do cotidiano para acompanhar personagens que precisam decidir entre a segurança de uma existência conhecida e os riscos de uma vida mais autêntica. O título faz referência à cultura bear e à descoberta tardia de uma identidade que esteve ali o tempo todo, ainda que os próprios personagens não soubessem reconhecê-la.

A obra, que deu origem ao espetáculo “Nós, Ursos”, também propõe uma reflexão sobre o envelhecimento e as possibilidades de recomeço depois dos 40. Afinal, amadurecer pode trazer rugas, boletos e algumas certezas — mas também a coragem de descobrir que ainda há tempo para mudar o roteiro. Compre o livro “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Nós, Ursos"

Direção: André Corrêa. Texto e adaptação teatral: Gilvan Azevedo. Elenco: Mauricio Constantino e Gilvan Azevedo. Produção: Cia. Salor. Figurinos e preparação corporal: Lu Castro. Desenho de iluminação: Rodrigo Pivetti. Desenho de som e projeções: Giba. Coordenação de produção: Lu Castro. Assistência de produção: Diogo Castro. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Design gráfico: Werner Schultz. Fotos e filmagens: Daniela Ferreira. Realização: Cia. Salor. Apoios: Carne Fresca Clothing, Planeta’s Restaurante, Cantina Luna di Capri, Piolin, Instituto Marcio Kozonara e ABC Bailão.


Serviço
Espetáculo “Nós, Ursos”
Temporada: de 8 de agosto a 27 de setembro de 2026. Sessões: sábados e domingos, às 20h00. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 70 minutos. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada). Vendas: Sympla - https://www.sympla.com.br/evento/nos-ursos/3453018. Teatro Commune |  Rua da Consolação, 1218, Consolação / São Paulo. Próximo à estação Higienópolis-Mackenzie.

.: “Loucos por Cinema!”: a cinefilia como matéria-prima de viagem pela memória


Arnaud Desplechin mistura ficção, documentário e ensaio para revisitar a formação de Paul Dédalus e investigar por que o cinema continua ocupando um lugar tão particular na vida de quem assiste

Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Ir ao cinema pode ser uma experiência tão íntima que, em determinados momentos, um filme parece saber alguma coisa sobre quem está sentado diante da tela. É nesse território de lembranças, descobertas e obsessões que Arnaud Desplechin coloca “Loucos por Cinema!”, produção francesa que chega à plataforma de streaming da Reserva Imovision depois de passar por festivais como Cannes e Festival do Rio.

O cineasta retoma Paul Dédalus, personagem que funciona como seu alter ego, para reconstruir a formação de um espectador apaixonado por filmes. A trajetória começa na infância, quando o garoto descobre o cinema levado pela avó para assistir a “Fantômas”, e acompanha diferentes fases de sua vida até o momento em que a cinefilia deixa de ser apenas uma paixão e passa a interferir na maneira como ele compreende o mundo.

Paul é interpretado em diferentes idades por Louis Birman, Milo Machado-Graner, Sam Chemoul e Salif Cissé. Mathieu Amalric, presença recorrente na filmografia de Desplechin e intérprete de Paul Dédalus em “Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual)”, aparece como o cineasta. A escolha reforça uma espécie de jogo de espelhos que acompanha o diretor há décadas.

A graça está justamente nessa mistura. “Loucos por Cinema!” se move entre a memória pessoal, a encenação ficcional, entrevistas, reflexão sobre a experiência de assistir a um filme e uma quantidade generosa de referências cinematográficas. Desplechin olha para a própria formação como cinéfilo e, ao fazer isso, acaba convidando o público a recuperar suas próprias primeiras sessões, os filmes descobertos por acaso, os personagens que permaneceram na lembrança e até aquelas obras que modificaram alguma coisa sem que fosse possível perceber imediatamente.

O diretor passeia por nomes e títulos fundamentais para a formação de seu olhar. “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, “Gritos e Sussurros”, de Ingmar Bergman, “As Pequenas Margaridas”, de Věra Chytilová, e “Shoah”, de Claude Lanzmann, aparecem em uma coleção de referências que ajuda a desenhar a educação sentimental de Paul. A própria escolha de “Fantômas” como ponto de partida remete a uma lembrança de infância do cineasta. Desplechin quer entender por que as pessoas continuam indo ao cinema depois de mais de um século de imagens projetadas. Cannes definiu a produção como uma homenagem às salas de cinema, enquanto o próprio diretor explicou que reuniu memórias, ficção e investigação para criar uma espécie de percurso de formação de um espectador.

O problema aparece quando a paixão do diretor começa a pesar sobre a narrativa. As referências são tantas, e a vontade de discutir cinema é tão evidente, que determinadas passagens parecem destinadas principalmente a quem já domina o repertório apresentado. O filme ganha força quando transforma a cinefilia em memória compartilhada; perde um pouco dela quando se fecha em conversas e associações que exigem do público uma intimidade semelhante com a história do cinema.

Ainda assim, existe algo bastante simpático nessa imperfeição. Desplechin não tenta organizar sua paixão de maneira didática. Ele deixa que lembranças, cenas, ideias e personagens se encontrem, como acontece na própria memória de quem passa anos assistindo a filmes. Uma lembrança de Bergman pode levar a uma discussão filosófica; um cineclube escolar pode despertar uma paixão; uma sessão pode se transformar em acontecimento amoroso; um personagem de ficção pode carregar traços de quem o criou.

Com 88 minutos, “Loucos por Cinema!” tem o tamanho de uma lembrança que se recusa a terminar. A produção francesa foi apresentada na Sessão Especial de Cannes em 2024 e chegou aos cinemas brasileiros em março de 2025. O resultado é irregular, mas coerente com o próprio objeto. Afinal, a cinefilia também tem seus excessos. Há quem assista a um filme e siga para casa. Há quem passe dias pensando nele, procure entrevistas, leia sobre o diretor, descubra outro título, monte uma lista e volte à sala de cinema para rever aquilo que acabou de descobrir. Desplechin claramente pertence ao segundo grupo.


Ficha técnica
“Loucos por Cinema!” | “Spectateurs!” (título original) | “Espectadores!” (título em Portugal)
Gênero: drama, comédia e ficção documental. Duração: 88 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 15 de janeiro de 2025, na França. Idioma: francês. Direção e roteiro: Arnaud Desplechin. Elenco: Louis Birman, Dominique Païni, Clément Hervieu-Léger, Françoise Lebrun, Sandra Laugier, Olga Milshtein, Milo Machado-Graner, Margaux Mussano, Sam Chemoul, Marilou Poujardieu, Salomé Rose Stein, Micha Lescot, Shoshana Felman, Kent Jones, Salif Cissé e Mathieu Amalric. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: "Chapeuzinhos Mais Coloridos" ganha novas cores e caminhos para o clássico


Novo livro de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta revisita "Chapeuzinho Vermelho" com seis versões da personagem e chega pela editora independente Padaria de Livros. Fotos: divulgação


Chapeuzinho Vermelho já percorreu a floresta tantas vezes que talvez estivesse na hora de experimentar um figurino novo. É o que fazem José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta em "Chapeuzinhos Mais Coloridos", novo livro infantil da dupla, publicado pela Padaria de Livros, editora independente criada pelos próprios autores, que começa pré-venda no dia 15 de setembro, com ilustrações de Marilia Pirillo. O título dá continuidade a "Chapeuzinhos Coloridos", lançado em 2010 pela Companhia das Letras e que já vendeu 200 mil exemplares. Desta vez, os escritores ampliam a brincadeira e apresentam seis novas possibilidades para a personagem: Amarelo-Canário, Marrom, Rosa, Transparente, Xadrez e Arco-Íris.

Em cada versão, a conhecida história de Chapeuzinho Vermelho ganha outro rumo. A dupla parte do conto tradicional para abordar assuntos como vaidade, folclore brasileiro, questões ambientais, terceira idade, fome, arte e até os mecanismos dos próprios contos de fada, em uma história que brinca com a metalinguagem. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" integra a coleção "Eram Mil Vezes", dedicada às reinvenções de histórias conhecidas.

Torero e Pimenta escrevem juntos há mais de 30 anos e acumulam mais de 30 títulos em parceria, entre livros infantis, juvenis e adultos. O método de trabalho é curioso: um funciona como revisor do outro, numa parceria literária que sobreviveu a três décadas e, aparentemente, ainda rende novas maneiras de mexer com personagens que todo mundo acha que conhece. Na mesma coleção, os autores já publicaram "Os Penteados de Rapunzel" (2023), "O Patinho Feio que Não Era Patinho Nem Feio" (2024) e "Os Coelhos e as Tartarugas" (2025).

Na coleção "Fábrica de Fábulas", da Cia das Letrinhas, a dupla soma outros nove títulos de recontos. Jornalistas de formação, Torero e Pimenta se conheceram quando trabalhavam como revisores de uma revista especializada na área química. A parceria literária também passou pela ficção histórica. Entre os trabalhos da dupla está "Galantes Memórias e Admiráveis Aventuras do Virtuoso Conselheiro Gomes, O Chalaça", publicado originalmente em 1995 e vencedor do Prêmio Jabuti de Romance.

Ao longo da carreira, os dois publicaram por editoras como Companhia das Letras, Alfaguara, Moderna e Objetiva. Em 2019, ao lado do ilustrador Ivo Minkovicius, criaram a Padaria de Livros, que publica exclusivamente obras dos três sócios. A editora já lançou mais de 30 títulos, alguns deles indicados ao Prêmio Jabuti, e ultrapassou a marca de cem mil exemplares vendidos. "Chapeuzinhos Mais Coloridos" chega com 56 páginas e formato de 21 x 28 centímetros. A pré-venda começa em 15 de setembro, pelo site da Padaria de Livros. Pré-venda neste link.

.: "Jacques Tati, Caído da Lua" revela gênio quase destruído por "PlayTime"


Documentário de Jean-Baptiste Péretié revisita a trajetória do criador e mostra como perfeccionismo, ambição e uma cidade construída do zero ajudaram a produzir uma obra-prima - e uma ruína financeira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Jacques Tati tinha um problema sério com limites. Para fazer cinema, precisava controlar o enquadramento, o movimento dos atores, o cenário, os ruídos e até aquilo que o espectador deveria descobrir sozinho. Em "Jacques Tati, Caído da Lua", documentário dirigido por Jean-Baptiste Péretié, essa obsessão aparece como uma das chaves para entender tanto a grandeza quanto a derrocada do cineasta francês. A produção estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e percorre a carreira de Tati por meio de imagens de arquivo, cenas de filmes, entrevistas e registros pouco conhecidos de seu processo criativo.

Com 60 minutos de duração, o documentário acompanha a trajetória do artista desde os primeiros trabalhos no music-hall até o sucesso internacional e o desastre financeiro provocado por "PlayTime". A narração é de Denis Podalydès, ator da Comédie-Française, e o elenco de imagens de arquivo reúne, entre outros, o próprio Tati e nomes como Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland e Charles de Gaulle.

O título original, "Jacques Tati, Tombé de la Lune", traduz a ideia de alguém que parece ter chegado de outro planeta para observar o mundo. A expressão combina perfeitamente com Monsieur Hulot, personagem que Tati transformou em uma espécie de alter ego: alto, desajeitado, educado, distraído e quase sempre deslocado diante das engenhocas, dos costumes e da velocidade do mundo moderno. A diferença é que Hulot tropeça nas situações enquanto Tati parecia arquitetar cada tropeço com régua, compasso e uma paciência quase criminosa.

Péretié recupera um aspecto essencial dessa filmografia: Tati fez da observação cotidiana uma forma particular de comédia. O diretor preferia Buster Keaton a Charlie Chaplin e chegou a criticar Chaplin por concentrar demais a comicidade no protagonista. Tati caminhou em outra direção, espalhando a gag pelo quadro e permitindo que personagens aparentemente secundários participassem da engrenagem humorística. 

O som também ocupa lugar central. Tati pertence ao cinema falado, mas muitas vezes parece trabalhar como se estivesse reinventando o cinema mudo. Portas, motores, passos, máquinas, campainhas, copos, telefones e ruídos urbanos assumem funções que normalmente seriam entregues aos diálogos. A comicidade nasce tanto do que se vê quanto do que se escuta. Em seus filmes, uma porta pode ter personalidade e uma máquina pode parecer mais humana do que quem a opera.

Essa obsessão alcança uma escala quase delirante em "PlayTime". Para filmar a produção de 1967, Tati construiu uma enorme cidade cenográfica conhecida como Tativille, com prédios, escritórios, ruas e interiores concebidos para que o diretor pudesse organizar sua coreografia visual. O projeto consumiu anos de trabalho e extrapolou sucessivamente o orçamento. O resultado hoje é tratado como uma das grandes obras-primas do cinema, mas sua recepção inicial foi bem menos generosa. O fracasso comercial levou Tati a uma crise financeira que envolveu a liquidação de sua empresa e a perda do controle sobre seus filmes, já que ele praticamente apostou a própria vida em uma obra que o público da época não estava preparado para receber. 

O cineasta chegou a hipotecar a casa e outros bens para sustentar a produção. O projeto, concebido com uma ambição monumental, acabou contribuindo para sua ruína. Décadas depois, a história tratou de devolver a "PlayTime" o lugar que Tati imaginava que merecia. O documentário também ajuda a reposicionar o cineasta diante da modernidade. Tati não tratava a tecnologia apenas como vilã. O que o interessava era o modo como os seres humanos se comportavam diante dela. 

Esse olhar continua particularmente atual. A arquitetura padronizada, a obsessão pela eficiência, a proliferação de dispositivos e a dificuldade de estabelecer relações em meio a ambientes cada vez mais automatizados poderiam facilmente alimentar uma comédia contemporânea. Tati percebeu esse mundo quando ele ainda estava começando a tomar forma. Talvez por isso Monsieur Hulot continue parecendo perdido: o problema é que nós também estamos.

"Jacques Tati, Caído da Lua" funciona como uma porta de entrada para uma filmografia pequena em quantidade e enorme em influência. O documentário não precisa transformar Tati em santo da comédia para demonstrar sua importância. Basta acompanhar o homem que começou no music-hall, criou um dos personagens mais reconhecíveis do cinema, ganhou o Oscar por "Meu Tio", construiu uma cidade para realizar "PlayTime" e terminou pagando uma conta brutal por sua própria ambição. Tati morreu em 1982, aos 75 anos, mas sua obra continuou crescendo depois dele. 

O melhor elogio que se pode fazer a "Jacques Tati, caído da Lua" talvez seja lembrar que o cineasta permanece difícil de encaixar. Ele é comediante, ator, roteirista, diretor, mímico e arquiteto de situações. É francês, mas seu humor atravessou fronteiras porque dependia pouco de idioma. É herdeiro de uma tradição burlesca, mas não cabe confortavelmente nela. E criou um personagem que parecia estar sempre alguns segundos atrasado em relação ao mundo, porque Tati estiva, na verdade, alguns anos à frente.


Ficha técnica
"Jacques Tati, caído da Lua" | "Jacques Tati, Tombé de la Lune" (título original)
Gênero: documentário. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: a confirmar no lançamento brasileiro. Ano de produção: 2021. Data de lançamento: a confirmar para a estreia na Belas Artes à La Carte. Idioma: francês. Direção: Jean-Baptiste Péretié. Roteiro: Jean-Baptiste Péretié. Elenco: Jacques Tati, Denis Podalydès (narração), Marcel Amont, Brigitte Bardot, Olivia de Havilland, Charles de Gaulle, entre outros, em imagens de arquivo. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: Prêmio São Paulo de Literatura 2026 abre inscrições para 19ª edição


Com inscrições disponíveis até 1º de outubro, o prêmio reconhece destaques de 2025 em duas categorias, totalizando R$ 400 mil em premiação

A 19ª edição do Prêmio São Paulo de Literatura, uma das maiores premiações literárias do Brasil, está chegando. Iniciativa do Governo do Estado de São Paulo por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, o prêmio valoriza a produção contemporânea e incentiva novos talentos literários, reconhecendo anualmente os melhores romances publicados e comercializados no Brasil.

Na edição de 2026, serão premiadas duas obras do gênero romance. A premiação será dividida em duas categorias: Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Romance de 2025 e Prêmio São Paulo de Literatura de Melhor Romance de Estreia de 2025. O vencedor de cada categoria receberá R$ 200 mil e o edital para inscrição das obras está disponível por meio do site prêmio são paulo de literatura.org.br.
 
“O Prêmio São Paulo não é apenas um reconhecimento, é um motor para o mercado editorial brasileiro. A cada edição, celebramos autores consolidados e abrimos portas decisivas para novos talentos, garantindo que a criação artística seja valorizada e que a leitura ganhe cada vez mais espaço no nosso estado", destaca a secretária da Cultura, Economia e Indústria Criativas, Marilia Marton.

A inscrição é gratuita e poderá ser realizada pelo próprio escritor, pela editora do livro, ou por procurador constituído pelo autor. Podem concorrer obras físicas cuja primeira edição tenha sido publicada e comercializada no Brasil entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025 e que tenham recebido seu registro de edição física pela Câmara Brasileira do Livro em 2025.

Entre os requisitos previstos no edital, a obra deverá pertencer ao gênero romance, ter sido escrita originalmente em língua portuguesa, ter autor vivo, ter sua primeira edição física publicada e comercializada no Brasil em 2025 e ter o primeiro ISBN do livro físico atribuído pela Câmara Brasileira do Livro em 2025. 

Também deverá concorrer em apenas uma categoria, possuir autoria única ou coautoria, desde que não integre compilação ou compêndio, não ter sido publicada, integral ou parcialmente, fora do período estabelecido no edital, e não ter sido escrita, ainda que parcialmente, com recursos de Inteligência Artificial Generativa.

Na categoria Melhor Romance de Estreia, será obrigatória a declaração do autor informando que se trata de seu primeiro romance, assinada eletronicamente por meio do site gov.br (não serão aceitas assinaturas de próprio punho ou inserções de fotos das assinaturas no arquivo). O processo de inscrição possui duas etapas: na primeira, o escritor, a editora ou o procurador deverá preencher o formulário de inscrição on-line, exclusivamente por meio do Sistema de Fomento (fomento.sp.gov.br). Será necessário anexar o livro completo em PDF, documentos de identificação, documentação complementar e as declarações previstas para as diferentes situações de inscrição.

Na segunda etapa, para que a inscrição seja efetivada, deverão ser enviados 10 exemplares físicos da obra, acompanhados do comprovante da inscrição on-line e da ficha de inscrição correspondente. O material deverá ser encaminhado para a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, na Rua Mauá, 51, Luz, São Paulo, SP, 01028-900. O envio poderá ser realizado por transportadora, via postal com Aviso de Recebimento (AR) ou mediante entrega presencial.

A seleção será realizada em duas etapas. Na primeira, um júri composto por 10 profissionais com reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura selecionará 10 obras em cada categoria, totalizando 20 livros finalistas. Cada obra será avaliada por pelo menos cinco integrantes do júri, com cálculo da média das notas, com exclusão da maior e da menor notas atribuídas à obra.

Na segunda etapa, os 20 livros finalistas serão avaliados por uma curadoria formada por cinco profissionais de reconhecida experiência e conhecimento na área de literatura. A curadoria escolherá os dois vencedores, um em cada categoria. Os nomes dos integrantes da curadoria e do júri serão divulgados no Diário Oficial do Estado de São Paulo até o final do período de inscrições. Mais informações estão disponíveis no site oficial e pelo e-mail premiosaopaulodeliteratura@sp.gov.br. A cerimônia de premiação será realizada em data a ser definida.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

.: Crítica: “Quando”, de Carla Madeira, coloca mãe e filho em lados opostos


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Existe uma tentação contemporânea de dividir o mundo entre vítimas perfeitas e culpados absolutos. Carla Madeira faz o movimento contrário em “Quando”, quarto e mais ambicioso romance dela, publicado pela Editora Record. Um livro que exige do leitor algo particularmente desagradável: examinar as próprias convicções. Em tempos de uma sociedade cada vez mais adoecida, em que um streamer aborda e ridiculariza um ator da TV Globo na saída do Rock in Rio por causa da roupa que ele vestia e depois justifica a atitude como entretenimento, o livro ganha uma incômoda atualidade.

A história gira em torno de Viridiana, costureira e mãe de Margarida, Valquíria e Tito. Ela vive cercada pelos pequenos rituais da família, pelos afetos domésticos e por uma espécie de fé na possibilidade de manter tudo no devido lugar. Até que uma tragédia desmonta a bolha em que vive. Depois de chamar a polícia e denunciar o próprio filho, passa a conviver com uma pergunta que nenhuma sentença judicial consegue resolver: o que fazer com o amor quando ele está do lado de alguém que fez alguma coisa imperdoável?

A partir dessa premissa, começa a se desenvolver uma história em que maternidade, culpa, violência, homofobia, preconceito e Justiça se confundem até o leitor perceber que talvez não exista personagem suficientemente inocente para ocupar o papel de juiz. O gesto de Viridiana é brutal porque é correto e, ao mesmo tempo, devastador. Ela denuncia Tito à polícia porque amar alguém não significa necessariamente protegê-lo das consequências de seus atos.

Denunciar ou proteger o próprio filho se transforma em uma pergunta moral sem uma resposta satisfatória. A escritora sabe colocar o dedo na ferida e escolhe um lugar particularmente dolorido: o ponto em que uma mãe descobre que amar um filho pode significar entregá-lo à Justiça. Carla Madeira chegou a um ponto raro na trajetória dela como escritora. Depois do impacto de “Tudo É Rio”, da estrutura de “Véspera” e da investigação íntima de “A Natureza da Mordida”, “Quando” confirma uma escritora interessada em testar até onde a literatura pode levar uma situação aparentemente doméstica.

Machado de Assis já havia colocado, no conto “Pai Contra Mãe”, a miséria humana diante de uma escolha em que o afeto e a sobrevivência se enfrentam. Carla Madeira parece inverter o espelho em “Quando”: a situação a mãe contra o filho e o conflito ganha uma camada ainda mais incômoda, porque Viridiana precisa escolher entre proteger quem ama e entregá-lo às consequências do que fez. “Quando” poderia ter sido escrito como uma história convencional sobre culpa, violência e reconciliação.

Carla Madeira prefere desmontar o relógio, embaralhar os pontos de vista e fazer o leitor pensar, já que o livro avança aos solavancos do tempo. Há horários, lembranças, conversas, capítulos chamados “Engramas”, mudanças de perspectiva e episódios que retornam como se a memória fosse uma casa em que ninguém tivesse encontrado ainda o interruptor. A estrutura reproduz a experiência de quem espera: o tempo passa, mas alguma coisa permanece no mesmo lugar.

Viridiana espera Tito durante horas, dias, meses, vinte anos. Carla Madeira entende que o tempo sabe envelhecer pessoas, mas definitivamente não consegue educar sentimentos. Alguns leitores podem estranhar o ritmo contemplativo, sobretudo quando a narrativa parece interromper a ação para permanecer algum tempo dentro de uma lembrança, de uma conversa ou de uma sensação. Essa escolha, porém, está profundamente ligada ao que o romance pretende investigar: a autora quer que o leitor permaneça dentro das consequências.

Também é particularmente feliz a decisão de não transformar Viridiana em uma santa de porcelana. Ela erra, julga, sente vergonha, arrepende-se, recorda episódios que preferia esquecer e tenta compreender as próprias covardias. Em determinado momento, a mulher que se julgava correta percebe que já havia escolhido não enxergar outras dores quando elas bateram à própria porta. A maternidade, então, ganha contornos menos confortáveis. Uma mãe também pode ser espectadora, cúmplice involuntária, mulher amedrontada, pessoa preconceituosa e alguém capaz de rever a própria história.

Tito, por sua vez, não é apenas o filho denunciado, também está representado pela ausência que reorganiza a família. A homofobia surge dentro desse mecanismo familiar em que os personagens orbitam. O preconceito aparece em casa, no constrangimento, na vergonha, na religião usada como argumento, no medo da opinião alheia e na tentativa de transformar a sexualidade de alguém em problema coletivo. O romance entende que a violência também pode morar numa frase dita à mesa de jantar.

Carla Madeira não trata a dor como uma obrigação de solenidade. Pessoas continuam com fome durante tragédias, brigam por coisas pequenas, fazem sexo, criam filhos, queimam carne, tomam decisões ruins, sentem desejo, falam besteira e riem quando deveriam chorar, afinal, a vida tem péssimo gosto para escolher momentos adequados. O livro também não transforma sofrimento em espetáculo. A autora conhece o apelo da tragédia, mas não parece interessada em entregar ao leitor o conforto de um melodrama convencional. Carla Madeira escreve sobre uma família, mas observa um país.

O Brasil dos anos 1980 aparece como cenário social de uma narrativa marcada por preconceitos que não ficaram confinados ao passado e ainda ecoam em 2026. Homofobia, violência doméstica e familiar, autoritarismo e a ideia de que educar um filho significa moldá-lo pela força aparecem como sintomas de uma sociedade que aprendeu a chamar brutalidade de correção. Dentro desse contexto, expõe-se a fantasia de que os monstros nascem prontos, mas a escritora se mostra interessada no processo contrário: em como uma pessoa se forma dentro de uma família, quando uma violência pode ser ensinada, reproduzida e naturalizada, em como uma criança pode aprender que humilhar alguém é uma forma aceitável de exercer poder.

“Quando” deixa de ser apenas um romance sobre uma família destruída e passa a ser uma história sobre aquilo que o tempo faz quando decide não curar ninguém. O relógio anda, as pessoas envelhecem, o mundo continua, mas determinadas coisas permanecem no lugar em que foram pausadas. O quarto romance de Carla Madeira confirma uma escritora que poderia facilmente repetir a fórmula que a transformou em fenômeno editorial, mas prefere complicá-la. Em vez de oferecer outra história devastadora apenas pela devastação, constrói uma narrativa sobre o que vem depois da tragédia. Compre o livro “Quando”, de Carla Madeira, neste link.

.: "O Tesoureiro" revisita o caso PC Farias pelo olhar de Xico Sá


Livro recupera a investigação que levou o jornalista ao paradeiro do tesoureiro de Fernando Collor e reconstitui bastidores de um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira. Foto: Renato Parada / C
apa: Veridiana Scarpelli

Em "O Tesoureiro: O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias", lançado pela Editora Todavia, o escritor Xico Sá retorna aos anos 1990 para reconstruir uma história que reúne política, investigação jornalística, fuga internacional e um assassinato que permanece cercado de dúvidas. O livro combina perfil, reportagem e memória para revisitar os bastidores da cobertura que colocou o jornalista no encalço de Paulo César Farias, personagem central do escândalo que abalou o governo de Fernando Collor de Mello. A capa é de Veridiana Scarpelli.

Repórter de política da Folha de S.Paulo naquele período, Xico Sá foi o primeiro jornalista a revelar o paradeiro de PC Farias depois que o empresário teve a prisão decretada, em 1993. Acusado de envolvimento em um esquema de corrupção ligado ao governo Collor, PC fugiu do Brasil e passou por diferentes países até ser localizado em Bangkok, na Tailândia.

A trajetória da fuga parece saída de uma narrativa de espionagem. Com peruca e sem o característico bigode, PC deixou uma fazenda no interior de Pernambuco em um bimotor com destino a Buenos Aires. O percurso ainda incluiu passagens pela Bahia, Paraguai, Uruguai e Londres, até a chegada à Tailândia. Depois de cumprir pena em Alagoas, ele foi assassinado em junho de 1996, ao lado da namorada, Suzana Marcolino. O crime, ocorrido em uma casa de Guaxuma, em Maceió, jamais foi completamente esclarecido.

Mais de três décadas depois dos acontecimentos que marcaram a política brasileira, Xico Sá recupera as informações que cercaram aquela cobertura. Entre as lembranças estão fontes que forneciam pistas em boates de Maceió, telefonemas anônimos, ameaças e os métodos de uma época em que a apuração jornalística dependia de viagens, telefones e contatos presenciais. O livro também registra uma transformação profunda na profissão. No início dos anos 1990, a internet ainda dava os primeiros passos e os celulares estavam longe da realidade atual. A rotina dos repórteres era marcada pelo fechamento diário dos jornais impressos e por uma cobertura que exigia presença constante no local dos acontecimentos.

É nesse ambiente que Xico Sá resgata a própria trajetória profissional. O jornalista mistura memória e investigação para reconstituir os caminhos percorridos durante a cobertura de PC Farias, incluindo episódios vividos ao lado de personagens da cena cultural pernambucana, como Chico Science e Doctor Mabuse. Um dos momentos narrados no livro acontece em junho de 1993. Xico estava em Recife, em um raro período de folga, quando uma notícia transmitida pelo rádio anunciou que a Justiça havia decretado a prisão preventiva de PC Farias por sonegação fiscal. A pausa acabou antes mesmo de começar. Por determinação da redação, o jornalista precisou retomar imediatamente a apuração e voltar a Maceió para acompanhar os passos do empresário.

A passagem também funciona como retrato de uma prática jornalística que dependia de telefones enormes, deslocamentos e uma rede de fontes construída no contato direto. O chamado "tijolão", celular cedido pela Folha, servia basicamente para fazer e receber ligações. A velocidade da informação era outra, e o fechamento de cada edição estabelecia o ritmo da investigação. Ao recuperar essas histórias, Xico Sá aproxima o passado dos dilemas do presente.

O resultado é um livro que acompanha a ascensão e a queda de uma das figuras mais controversas da Nova República enquanto também registra a formação de um jornalista diante de uma cobertura que atravessou política, corrupção, perseguições e mistérios. A narrativa preserva ainda a marca literária do autor, que se inspira em referências como Hunter S. Thompson e incorpora elementos de literatura policial à investigação. Entre as figuras que povoam a história está a misteriosa informante conhecida pelo codinome Brigitte Monfort, nome emprestado de uma personagem de romances populares. Compre o livro "O Tesoureiro", escrito por Xico Sá, neste link.


Sobre o autor
Xico Sá nasceu no Crato, no Ceará, em 1962. Iniciou a carreira jornalística no Recife e trabalhou durante anos como repórter investigativo. É autor de livros de contos e crônicas, apresentador do ICL Notícias e colunista do Diário do Nordeste. Compre os livros de Xico Sá neste link.

.: “Gente Pobre” e “A Dócil” recolocam Dostoiévski no centro do debate literário


Novas traduções diretas do russo, lançadas pela Via Leitura, aproximam leitores contemporâneos de dois textos fundamentais do escritor e filósofo russo


A literatura russa voltou a ocupar espaço no imaginário do público brasileiro. De referências a Fiódor Dostoiévski na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, ao crescimento da hashtag #russianliterature no TikTok, que já ultrapassa 180 milhões de visualizações, os clássicos do século XIX encontram uma nova geração de leitores interessada em histórias marcadas por conflitos humanos, questões sociais e mergulhos na subjetividade. 

O interesse também aparece nas livrarias. O mercado editorial brasileiro tem ampliado a publicação de coleções e novas traduções de autores russos, muitas delas realizadas diretamente a partir do idioma original. É nesse cenário que a Via Leitura lança “Gente Pobre e “A Dócil”, dois livros que ajudam a compreender por que Dostoiévski continua dialogando tão de perto com o presente. As novas edições têm tradução direta do russo assinada pela linguista e tradutora Natalia Petroff, formada pela USP e especialista no idioma. O trabalho busca preservar a força dos textos originais e, ao mesmo tempo, oferecer ao leitor brasileiro uma porta de entrada acessível para a obra do escritor.

Publicado originalmente em 1846, apresentando uma narrativa epistolar de forte dimensão social, “Gente Pobre” foi o primeiro romance de Dostoiévski. A narrativa acompanha, por meio de cartas, dois personagens humildes que compartilham sentimentos, expectativas e dificuldades provocadas pela pobreza. A troca epistolar revela tanto as limitações impostas pela condição social quanto a sensibilidade e a dignidade daqueles que vivem à margem. Compre "Gente Pobre", de Dostoiévski, neste link.

Concentra em poucas páginas um intenso estudo sobre a mente humana,“A Dócil” apresenta um dos momentos mais concentrados e perturbadores da literatura de Dostoiévski. Após o suicídio da jovem esposa, um homem tenta reconstruir os acontecimentos que levaram à tragédia. Entre lembranças, justificativas e contradições, a narrativa expõe temas como solidão, orgulho, incomunicabilidade e os impasses das relações afetivas. Compre "A Dócil", de Dostoiévski, neste link.

Essa capacidade de observar o indivíduo em seus momentos de maior fragilidade explicam a permanência de Dostoiévski. Culpa, medo, isolamento, desigualdade, relações humanas e conflitos psicológicos atravessam o tempo e encontram eco em questões discutidas atualmente, inclusive no campo da saúde mental. Os livros integram a coleção de literatura russa da Via Leitura, que também reúne títulos como “Memórias do Subsolo” e “Noites Brancas”. Com a iniciativa, o Grupo Editorial Edipro amplia o acesso a traduções diretas e aproxima do público brasileiro obras fundamentais da literatura mundial. Para quem ainda vê os clássicos russos como leituras distantes ou difíceis, os dois lançamentos também podem funcionar como ponto de partida. 


Sobre Fiódor Dostoiévski
Fiódor Dostoiévski
(1821-1881) foi escritor, jornalista e filósofo russo. Considerado um dos grandes nomes da literatura universal e um dos precursores do pensamento existencialista, construiu uma obra marcada pela investigação dos conflitos psicológicos e das contradições humanas. Entre seus livros mais conhecidos estão “Crime e Castigo”, “O Idiota” e “Os Irmãos Karamázov”. Sua trajetória pessoal também foi marcada por dificuldades financeiras e familiares, além de períodos de exílio e intensa produção literária. A experiência de Dostoiévski diante da pobreza, da culpa, da perda e das relações humanas atravessou seus livros e ajudou a formar uma literatura que continua provocando leitores de diferentes gerações. Compre os livros de Dostoiéviski neste link.

.: "Espirais" leva Nelson Job às origens do Druamverso na Bienal de São Paulo


Romance de ficção especulativa combina filosofia, ciência, espiritualidade e cultura pop para contar a história de uma sociedade ancestral

Nelson Job chega à 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo com "Espirais", romance de ficção especulativa publicado pela Mondru Editora que retorna ao passado mais remoto do Druamverso. O encontro com os leitores acontece em 12 de setembro, no Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros, na Travessa 11 (Travessa Literária). 

A história se passa em Mrun, uma ilha ancestral localizada no território que, muitos milênios depois, seria conhecido como Brasil. Nesse lugar, humanos, animais, plantas e outras formas de consciência vivem em comunhão. A harmonia, porém, começa a ruir quando pulsações cósmicas provocam alterações na matéria, na percepção e nas capacidades dos seres vivos.

Com as mudanças, antigos acordos passam a ser questionados e o medo começa a interferir nas decisões coletivas. A transformação do mundo exterior acaba provocando também uma transformação na maneira como seus habitantes percebem a própria existência. A narrativa é conduzida por Nyarah, sacerdotisa e filósofa de Mrun, e se organiza em três movimentos: Dobra, Redobra e Desdobra. Ao longo da história, as mudanças alcançam a ilha, outros territórios e o plano etéreo.

Embora tenha autonomia para ser lido como uma obra independente, "Espirais" ocupa uma posição central na construção do Druamverso. O romance apresenta as origens de conceitos e conflitos que aparecem em trabalhos anteriores de Nelson Job, como "Druam", "Pulsares" e "Cânticos Andróginos". A ficção criada pelo autor aproxima filosofia, ciência, espiritualidade, arte e cultura pop e amplia um universo literário que já vem sendo desenvolvido em diferentes formatos. Aqui, o cosmos não aparece apenas como cenário: ele interfere diretamente na vida dos personagens e nas regras que organizam aquele mundo.


Sobre Nelson Job
Nelson Job é escritor, psicólogo e pesquisador transdisciplinar, doutor em História das Ciências, das Técnicas e Epistemologia pela UFRJ. Trabalhou com o físico Luiz Pinguelli Rosa e conheceu Nise da Silveira na Casa das Palmeiras, onde foi coordenador cultural. É coeditor da revista "Cosmos e Contexto", ao lado do cosmólogo Mario Novello, e criador do campo dos transaberes. É autor de "Druam", "Livro na Borogodança", "Cânticos Andróginos" e "Pulsares". Job desenvolve o Druamverso em diferentes formatos e também promove cursos e grupos de estudo dedicados à experimentação e ao pensamento brasileiro. Compre os livros de Nelson Job neste link.


Serviço
Nelson Job na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Evento: 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo
Data: até dia 13 de setembro de 2026
Local: Distrito Anhembi - Pavilhão de Exposições
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209 - Santana, São Paulo - SP

Atividade: Autógrafos e bate-papo
Data: 12 de setembro de 2026, sábado
Horário: das 10h às 13h45
Onde: Gaeb - Grupo Associado de Escritores Brasileiros - Travessa 11 (Travessa Literária)
Livro: "Espirais"
Gênero: Romance de ficção especulativa
Editora: Mondru Editora
Páginas: 240
Lançamento: 2026

sábado, 5 de setembro de 2026

.: "As Irmãs de Amarelo" mergulha em escolhas difíceis e na sobrevivência


Novo romance de Mieko Kawakami chega ao Brasil pela Intrínseca e acompanha mulheres que tentam sobreviver à pobreza, à criminalidade e à falta de perspectivas. Foto: Reiko Toyama

Quanto de liberdade existe quando escolher é um privilégio que o dinheiro pode comprar? Em "As Irmãs de Amarelo", novo romance de Mieko Kawakami, autora de "Peitos e Ovos", essa pergunta ganha contornos cada vez mais incômodos ao acompanhar mulheres que encontram na amizade, no trabalho e até na criminalidade maneiras de escapar de uma vida marcada pela precariedade. 

Publicado pela Intrínseca, o livro leva o leitor às noites de Tóquio do fim dos anos 1990 e retoma alguns dos assuntos recorrentes na obra da escritora japonesa, como desigualdade social, trabalho feminino e os limites impostos às mulheres quando faltam dinheiro, proteção e perspectivas. Vencedora do Prêmio Yomiuri de Literatura, Kawakami constrói uma narrativa em que as escolhas pessoais nunca estão completamente separadas das condições sociais que as cercam. A tradução é de Rita Kohl.

A história começa em abril de 2020. Aos 40 anos, Hana se depara por acaso com uma notícia de jornal sobre Kimiko Yoshikawa, uma mulher de 60 anos que está sendo julgada por agredir e manter uma jovem em cárcere privado. O nome faz Hana voltar no tempo, até uma fase da vida que parecia definitivamente arquivada. Em 1998, aos 15 anos, ela morava com a mãe na periferia de Tóquio, enfrentava dificuldades financeiras e trabalhava para juntar algum dinheiro. Em uma casa sem segurança e com poucas possibilidades de decidir o próprio futuro, Hana encontra em Kimiko uma espécie de porta de saída.

As duas abrem o Lemon, pequeno bar no bairro de Sangenjaya que acaba se tornando ponto de encontro e abrigo para Hana e outras duas jovens, Lan e Momoko. As quatro passam a trabalhar juntas e dividir a mesma casa. Por algum tempo, aquela família improvisada oferece algo que parecia impossível: pertencimento. Só que contas não costumam respeitar sonhos. Quando o dinheiro começa a desaparecer, a sensação de liberdade também perde força. Hana acaba envolvida no submundo dos golpes, onde necessidade e ganância passam a dividir uma fronteira cada vez mais estreita. O que parecia uma alternativa para sobreviver começa a cobrar um preço próprio. É nesse terreno desconfortável que Kawakami desenvolve a principal questão do romance: até onde uma escolha pode ser considerada realmente livre quando as outras opções praticamente desapareceram? Compre o livro "As Irmãs de Amarelo", de Mieko Kawakami, neste link.

Sobre a autora
Mieko Kawakami
é autora do best-seller internacional "Peitos e Ovos", escolhido pelo jornal The New York Times entre os livros notáveis do ano e incluído pela revista Time entre os dez melhores livros de 2020. Entre seus outros romances estão "Paraíso", finalista do International Booker Prize de 2022, e "Todos os Amantes da Noite", finalista do National Book Critics Circle Award de 2023 na categoria ficção. Em 2024, "As Irmãs de Amarelo" recebeu o Prêmio Yomiuri de Literatura. Traduzidos para mais de quarenta idiomas, os livros da escritora são conhecidos pelas reflexões sobre gênero, classe e ética na sociedade contemporânea. Nascida em Osaka, Kawakami vive atualmente em Tóquio, no Japão. Compre os livros de Mieko Kawakami neste link.

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