domingo, 30 de agosto de 2026

.: Romance "Me Chame pelo Seu Nome" ganha versão em graphic novel


Adaptação ilustrada por Sarah Maxwell revisita o romance de André Aciman quase duas décadas depois da publicação do livro que conquistou leitores e chegou aos cinemas

Quase vinte anos depois de chegar às livrarias e conquistar uma legião de leitores, "Me Chame pelo Seu Nome", escrito por André Aciman, ganha uma nova forma de ser lido. A Editora Planeta lança no Brasil a adaptação em graphic novel do romance que se tornou um clássico contemporâneo e inspirou o premiado filme homônimo. Agora em quadrinhos, a história de Elio e Oliver preserva a intensidade emocional e a atmosfera do romance original, enquanto ganha uma narrativa visual capaz de aproximar a obra de novos leitores. As ilustrações de Sarah Maxwell dão rosto, movimento e textura àquele verão italiano que, convenhamos, já tinha ingredientes suficientes para causar estragos no coração de qualquer leitor.

Na Riviera Italiana, Elio recebe Oliver, hóspede de seu pai. O americano chega com uma boa dose de arrogância, camisas esvoaçantes e comentários irônicos, fazendo Elio acreditar que a convivência entre os dois será uma receita para a antipatia. Só que o verão tem seus próprios planos. Com o passar dos dias, a convivência transforma a implicância inicial em amizade. Elio e Oliver caminham por ruas arborizadas, compartilham almoços sob o sol e disputam partidas de tênis. Aos poucos, Elio passa a reparar em coisas que talvez preferisse ignorar: quer fazer Oliver rir, observa seus gestos e se deixa fascinar pelo brilho de sua pele à beira da piscina.

O que parecia amizade começa a ganhar outra dimensão. Durante as semanas daquele verão, a ligação entre os dois se intensifica até se transformar em uma experiência de intimidade profunda e rara, capaz de deixar marcas muito depois de as férias terminarem. A adaptação mantém o universo criado por Aciman e encontra nas imagens uma maneira própria de explorar os personagens e a atmosfera da narrativa. Para quem já conhece a história, a graphic novel oferece uma nova visita à Itália de Elio e Oliver. Para quem chega agora, fica o convite para descobrir por que aquele verão continua despertando suspiros quase duas décadas depois.

"'Me Chame pelo Seu Nome' começou como uma simples fantasia sobre estar em uma vila italiana com vista para o mar. Eu não fazia ideia de que esse devaneio se transformaria em uma história, muito menos em um romance. Enquanto escrevia, acabei me apaixonando por Elio e Oliver. Sarah dá vida a esses personagens e ao universo deles de uma forma totalmente nova, e o resultado é incrível. Estou muito feliz por trabalharmos juntos para que ainda mais leitores possam descobrir 'Me Chame pelo Seu Nome' nesta belíssima graphic novel”, comenta o autor André Aciman.

"Sinto-me muito privilegiada por ter adaptado essa história tão bonita para uma graphic novel, permitindo que ainda mais pessoas possam se emocionar e se conectar com ela. Espero que todos que lerem Me chame pelo seu nome sejam transportados de volta àquele verão na Itália e possam se apaixonar por esses personagens, vez após vez", conclui Sarah Maxwell-McNicol. Compre a adaptação em graphic novel do romance "Me Chame pelo Seu Nome" neste link.


Sobre o autor
André Aciman é autor best-seller do The New York Times por "Me Chame pelo Seu Nome", além de diversas obras de ficção e não ficção. Também é editor de The Proust Project e professor de literatura comparada da City University of New York. Vive com a esposa em Manhattan.

Sobre a ilustradora
Sarah Maxwell é uma artista e ilustradora de quadrinhos estadounidense baseada em Londres. Seu portfólio abrange uma ampla variedade de gêneros e estilos. Nas horas vagas, também trabalha como tatuadora. Apaixonada por quadrinhos, flores e tudo que remete ao universo medieval.

.: “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” na Bienal do Livro SP com Thalita Rebouças


Autora promove a adaptação cinematográfica de sua obra na Bienal e participa de sessões de autógrafos nos dias 5 e 6 de setembro, no estande da Rocco

Os leitores de Thalita Rebouças que passarem pela Bienal do Livro SP 2026 terão a chance de encontrar a escritora, garantir um autógrafo e, de quebra, saber um pouco mais sobre a adaptação cinematográfica de “Era Uma Vez Minha Primeira Vez”, baseada no livro homônimo da autora. O encontro acontece no estande da editora Rocco em duas oportunidades: no sábado, 5 de setembro, às 15h00, e no domingo, 6, às 17h30. Durante as sessões de autógrafos, serão distribuídos marcadores de livro com QR Code que leva à compra de ingressos para o filme, que chega aos cinemas em 17 de setembro.

Dirigido por Claudia Castro, o filme tem roteiro assinado por Thalita Rebouças e João Paulo Horta e mergulha no universo juvenil com leveza, humor e uma dose generosa de descobertas. Ritos de passagem, amadurecimento, amizade, sexualidade e a velha diferença entre estar com pressa e estar preparado para descobrir aparecem no caminho. No elenco principal estão Castorine, Duda Matte, Leticia Braga e Livia Silva. O quarteto divide a cena com Cauã Martins, Caian Zattar, Cintia Rosa, Pedro Ogata, JP Rufino e Duda Pimenta.

A produção e a distribuição são da Na Paralela Filmes, com codistribuição da A Fábrica, em parceria com a RioFilme, órgão que integra a Secretaria de Cultura da Prefeitura do Rio. A produção conta ainda com coprodução da Warner Bros. Pictures e RioFilme e investimento do BRDE, por meio do Fundo Setorial do Audiovisual e da Ancine. Compre o livro "Era Uma Vez Minha Primeira Vez", de Thalita Rebouças, neste link.


Quatro amigas, quatro descobertas e nenhuma fórmula pronta
Baseado no livro de Thalita Rebouças, o filme “Era Uma Vez Minha 1ª Vez” leva para o cinema as descobertas e os ritos de passagem da juventude de maneira leve, madura e descomplicada. A trama acompanha quatro amigas - Teresa, Clara, Tuca e Patty - enquanto cada uma descobre, à sua maneira, que o despertar da sexualidade não segue manual de instruções. Expectativas, amizade e as diferenças entre pressa e descoberta dão o tom da história. Compre o livro "Era Uma Vez Minha Primeira Vez", de Thalita Rebouças, neste link.

.: Barraco Editorial leva a literatura independente para a Bienal do Livro SP


Editora criada por Wesley Barbosa participa pela segunda vez consecutiva do maior evento literário da América Latina e apresenta "Viela Ensanguentada", "Os Barraquinhos da Favela" e "Ódio ao Poema"

Da venda de livros de mão em mão pelas ruas de São Paulo ao estande de uma das maiores feiras literárias do país. A trajetória da Barraco Editorial ganhou mais um capítulo na Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Criada em 2023 pelo escritor e editor Wesley Barbosa, a editora confirma presença na 28ª edição do evento, que será realizada entre 4 e 13 de setembro de 2026, no Distrito Anhembi. 

Será a segunda participação consecutiva da Barraco Editorial na Bienal, levando ao público uma produção literária que coloca autores independentes e vozes das periferias brasileiras no centro da conversa. A proposta continua a mesma: abrir espaço para uma literatura que conhece a quebrada por dentro e que não precisa de tradução para falar sobre suas próprias experiências.

Entre os destaques está a segunda edição do romance "Viela Ensanguentada", de Wesley Barbosa. O editor também apresenta "Os Barraquinhos da Favela", seu primeiro livro infantil, lançado em julho de 2026 pela Editora Moderna, na Coleção Girassol. A obra tem ilustrações de Tainan Rocha e marca uma nova fase na produção do escritor, agora voltada ao público a partir dos seis anos. Escrito em primeira pessoa, "Os Barraquinhos da Favela" recupera memórias da infância de Wesley, que cresceu em barracos e moradias da periferia. O livro encara as dificuldades da vida na quebrada, incluindo a vulnerabilidade de casas de madeira castigadas e arrancadas pela força do vento, mas também encontra espaço para a imaginação e para as pequenas belezas do cotidiano.

Entre arroz e feijão recém-feitos, janelas quebradas e noites de céu aberto, a infância periférica aparece com suas dores e afetos. As estrelas e o horizonte, afinal, também cabem numa janela que já perdeu o vidro. Outro destaque da Barraco Editorial em 2026 é "Ódio ao Poema", de Vitor Miranda, que estará no estande da editora durante toda a Bienal Internacional do Livro de São Paulo. O título é o oitavo livro do autor e idealizador do Movimento Neomarginal.

Com estrutura e ritmo próximos de um manifesto político e estético, a obra transforma o próprio "Poema" em personagem. Distante do lirismo tradicional, ele ganha corpo e voz para encarar a violência urbana, a desigualdade social e as contradições do presente. Vitor Miranda coloca a literatura diante da realidade brasileira sem a preocupação de deixá-la confortável para quem lê.

.: Crítica: "As Cores do Tempo" é espiral constante de vivências geracionais


Por 
Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com

Heranças sempre trazem labirintos a serem decifrados. Na produção francesa e belga "As Cores do Tempo" ("La Venue de L'avenir"), há complicações maravilhosas que, ao longo de 2 horas e 4 minutos, entrega poesia visual de perfeita contemplação. Exibido no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o longa-metragem dirigido por Cédric Klapisch ("O Próximo Passo") entrega drama, enquanto transita pela comédia. O filme chega ao catálogo de streaming da Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina.

Em "As Cores do Tempo" um grupo de mais de trinta herdeiros, no tempo presente, descobre estar conectado por laços familiares, uma vez que cada um é descendente de Adèle Meunier (Suzanne Lindon, de "Jovens Amantes"), mulher que deixou uma casa de família na Normandia, fechada desde 1944. Reunidos pelo interessado na compra do terreno com a antiga casa com previsão para ser estacionamento de um grande shopping, alguns herdeiros acabam se aproximando por conta de uma pintura que chama a atenção do professor Abdelkrim (Zinedine Soualem, de "Bonecas Russas").

No filme de fotografia belíssima e contemplativa, é um retrato impressionista que desenha a trama que envolve do início ao fim, incluindo o pintor Claude Monet e a prostituta Odette (Sara Giraudeau, de "O Destino de Haffmann") para formar a narrativa de Adèle Meunier. Ora saindo do presente para o passado, entrelaça duas linhas temporais (1895 e 2024/2025). 

Enquanto num tempo distante, uma jovem sai de um vilarejo, após a morte da avó, em busca da mãe na grande Paris, em tempos mais modernos, seus descendentes decidem o que será feito de seu imóvel fechado desde os anos 40. Com delicadeza, "As Cores do Tempo" constrói constantemente um espiral em que as vivências de gerações distintas se sobrepõem, relacionando a arte, a memória e a passagem do tempo. Imperdível!

Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | La Venue de L'avenir (título original).
Gênero: Drama, Comédia.
Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch. Duração: 2h 06min. Distribuição: Imovision. Elenco: Suzanne Lindon: Adèle Meunier (1895), Paul Kircher: Anatole (2025), Vassili Schneider: Lucien, Abraham Wapler: Seb / Claude Monet (1874), Olivier Gourmet: Claude Monet (1895), Philippine Leroy-Beaulieu: Sarah Bernhardt, Vincent Pérez: Tio Théophraste, Cécile De France: Calixte de La Ferrière, Vincent Macaigne: Guy, Julia Piaton: Céline. Sinopse: O filme destaca a transição da ancestral Adèle, de 20 anos, que sai da Normandia para Paris no final do século XIX, conectando sua história com a de seus descendentes. A trama é descrita como um épico familiar com o estilo humanista do diretor. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Ran" coloca o poder em guerra e faz Kurosawa incendiar "Rei Lear"


Clássico de Akira Kurosawa transforma a tragédia de Shakespeare em um monumental drama de guerra sobre ambição, vingança e a ruína de uma família; filme chega ao Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Dividir um império entre três filhos parecia, para o senhor feudal Hidetora Ichimonji, uma maneira razoavelmente sensata de garantir a continuidade de seu legado. O problema é que ele se esqueceu de um detalhe bastante inconveniente: filhos também podem querer o trono inteiro. É desse pequeno erro de cálculo que Akira Kurosawa ergue "Ran", um dos filmes mais grandiosos, ferozes e visualmente impressionantes da carreira dele, que chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte.

Lançado em 1985, o filme japonês transforma "Rei Lear", de William Shakespeare, em uma tragédia ambientada no Japão feudal. Hidetora, interpretado por Tatsuya Nakadai, decide abandonar o comando de seus domínios e distribuir o poder entre Taro, Jiro e Saburo. O caçula, único dos três disposto a dizer ao pai aquilo que ele não quer ouvir, acaba banido. A partir daí, a promessa de união familiar se dissolve em traições, vinganças, mortes e batalhas.

O título "Ran" significa "caos", e Kurosawa leva a palavra a sério. A estrutura de Shakespeare permanece reconhecível, mas o diretor incorpora elementos da história japonesa, das lendas feudais e do teatro Nô para criar uma obra com identidade própria. A adaptação também troca as filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora, deslocando a tragédia para uma sociedade marcada pela guerra, pela hierarquia e pela disputa territorial. A própria parábola das três flechas, associada ao senhor feudal Mori Motonari, serve como uma espécie de manual de família que ninguém no filme parece ter lido até o fim.

Kurosawa passou cerca de uma década preparando "Ran". Aos 75 anos, já com a visão bastante comprometida, desenhou centenas de pinturas e storyboards para planejar as cenas. O trabalho não era mero capricho de artista: as imagens serviram como mapas detalhados para a equipe durante a produção. O material revela a precisão com que o cineasta pensava cada enquadramento, cada deslocamento dos personagens e cada composição visual.

A produção também nasceu em escala gigantesca. O Festival de Cannes registra que a primeira versão imaginada por Kurosawa chegava a três horas e meia e acabou reduzida para cerca de duas horas e meia. O custo ficou em aproximadamente US$ 11 milhões, fazendo de "Ran" o trabalho mais caro da carreira do diretor. Centenas de figurinos foram produzidos especialmente para o filme, muitos deles durante anos de preparação.

O resultado é um filme em que a guerra raramente aparece como espetáculo glorioso. Kurosawa observa os exércitos à distância, deixa os corpos e as bandeiras ocuparem a paisagem e, em uma das sequências mais célebres, retira praticamente todos os efeitos sonoros da batalha para deixar a música de Tōru Takemitsu conduzir o horror. A estratégia torna a violência ainda mais desconfortável: os homens correm, os cavalos tombam, os castelos queimam e a música continua, como se o mundo tivesse decidido assistir à própria destruição.

Roger Ebert percebeu justamente essa força ao escrever sobre o filme em 1985. Para o crítico americano, a idade de Kurosawa parecia dialogar diretamente com a experiência de Hidetora, um homem que passou a vida acumulando poder e chega à velhice acreditando que ainda pode determinar o destino dos outros. Ebert também chamou atenção para os dez anos de preparação e para a dimensão excepcional da produção.

Anos depois, ao revisitar "Ran", Ebert foi ainda mais longe e relacionou o filme à própria trajetória de Kurosawa. Para ele, o cineasta havia colocado na história questões sobre envelhecimento, poder, decadência e a dificuldade de um homem que passou a vida inteira construindo algo perceber que já não consegue controlar o que virá depois. É uma leitura especialmente interessante porque Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu o filme, exatamente a idade de Hidetora.

Tatsuya Nakadai sustenta o centro dessa ruína com uma atuação marcada pela contenção. Seu Hidetora começa como um senhor poderoso, cercado por homens, cavalos e bandeiras, e termina vagando por uma paisagem devastada, desorientado diante das consequências de suas próprias decisões. Ao redor dele, Akira Terao e Jinpachi Nezu interpretam os filhos Taro e Jiro, enquanto Daisuke Ryū vive Saburo, o filho que paga caro por dizer a verdade.

Mieko Harada também merece atenção como Lady Kaede, uma das personagens mais perigosas da história. Movida pela vingança contra Hidetora e sua família, ela manipula os homens ao seu redor com uma frieza que transforma cada gesto em ameaça. A personagem acrescenta uma camada de crueldade particular à história e faz da disputa pelo poder um jogo ainda mais venenoso.

Visualmente, "Ran" permanece assombroso. Kurosawa utiliza grandes planos, paisagens abertas, cores cuidadosamente associadas aos diferentes exércitos e uma arquitetura monumental para transformar o Japão feudal em uma espécie de palco de proporções gigantescas. O diretor, que começou a carreira artística como pintor, compôs os enquadramentos com o rigor de quem sabia exatamente onde queria colocar cada figura.

O cuidado com os figurinos rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. O filme ainda recebeu indicações ao Oscar de direção, fotografia e direção de arte. No BAFTA, conquistou os prêmios de Melhor Filme em Língua Estrangeira e Maquiagem. A produção também foi reconhecida por diversas associações de críticos nos Estados Unidos.

Em "Ran", Kurosawa não tenta suavizar Shakespeare. Pelo contrário: ele deixa a tragédia ganhar espadas, cavalos, canhões, castelos em chamas e uma quantidade pouco recomendável de problemas familiares. O resultado é uma obra monumental sobre um homem que acredita poder administrar o futuro depois de entregar o presente aos próprios filhos. A ironia é cruel. Hidetora passou décadas conquistando terras e destruindo adversários para construir um reino. Quando finalmente decide descansar, descobre que o poder tem memória curta e que seus herdeiros aprenderam muito bem as lições do pai. 

A entrada do clássico na Belas Artes À La Carte acompanha a disponibilização de "Os segredos de Ran", documentário de Chris Marker que registra Kurosawa durante a preparação de sua produção mais ambiciosa. Quarenta e um anos depois de sua estreia, "Ran" continua sendo uma experiência cinematográfica de escala rara. A família pode até começar reunida em torno de uma boa intenção. O problema é quando alguém decide repartir o reino. A partir daí, Shakespeare já avisava: a conta costuma chegar.

Ficha técnica
"Ran" | "Ran" (título original) | "Ran - Os Senhores da Guerra" (título em Portugal).
Gênero: drama, guerra e épico. Duração: 162 minutos. Classificação indicativa: 16 anos no Brasil. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 1º de junho de 1985. Idioma: japonês. Direção: Akira Kurosawa. Roteiro: Akira Kurosawa, Hideo Oguni e Masato Ide. Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryū, Mieko Harada, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Shinnosuke Ikehata, Masayuki Yui, Kazuo Katō, Hitoshi Ueki e Mansai Nomura. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

.: Grupo Equale canta a obra de Aldir Blanc no álbum “Salve, Aldir!”


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Fotos: divulgação

Formado em 1990, o Equale é um importante grupo vocal carioca que reverencia a MPB com trabalhos interessantes, conhecidos pela originalidade nas performances e pelos arranjos personalizados em mais de três décadas de carreira. O álbum “Salve, Aldir!”, que a Biscoito Fino acaba de lançar, se juntará a outros tributos fonográficos do grupo a compositores brasileiros, mote de uma discografia que inclui os álbuns "Expresso Gil" (2000), "Equale Canta Milton Nascimento - Um Gosto de Sol" (2004) e "Na Praia de Caymmi" (2017) - este último, vencedor do Prêmio da Música Brasileira de 2018 como melhor grupo de MPB. 

Dessa vez, o Equale dá vozes ao cancioneiro do compositor Aldir Blanc (1946 - 2020), que completaria 80 anos em 2026. Nesta homenagem, o grupo rebobina parcerias não tão óbvias, com compositores como Djavan, Cristovão Bastos, Sueli Costa, Moacyr Luz e Maurício Tapajós, além de alguns clássicos  com João Bosco e Guinga, dois dos principais parceiros do bardo carioca.  

Com direção musical e regência do maestro André Protásio, produção musical do mesmo, em parceria com Flavio Mendes e Tom Andrade, o álbum conta com as participações especiais de Guinga, Ilessi, Marcos Sacramento e Cristóvão Bastos. A produção executiva do álbum é de Letícia Dias e da TAPA - Tom Andrade Produções Artísticas.

"Nação"

"Querelas do Brasil"

"Voisa Feita"

.: "Depois que Abri a Porta do Mar" leva Gabriela Curry à Bienal do Livro de SP


Autora transforma 25 anos entre Brasil e Portugal em crônicas sobre identidade, preconceito, feminismo, amadurecimento e as experiências que ajudam a construir uma trajetória

A escritora, jornalista e publicitária Gabriela Curry participa pela primeira vez da Bienal do Livro de São Paulo, que acontece de 4 a 13 de setembro, para apresentar "Depois que Abri a Porta do Mar - Crônicas entre Dois Continentes", publicado pela Editora Lacre. O livro reúne crônicas inspiradas nos 25 anos em que a autora viveu entre Brasil e Portugal, depois de deixar o Espírito Santo, em 2001. "Eu estou em êxtase! Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei que teria o meu metro quadrado na Bienal", conta Gabriela.

No dia 6 de setembro, a autora participa de um bate-papo no Espaço Escreva Garota, ao lado de Kika Gama Lobo e Manika Apsara. Com o tema "O que uma mulher precisa atravessar para contar a própria história?", o encontro aborda assuntos como silenciamentos, autorização para escrever, envelhecimento e carreira. Depois da conversa, as três autoras permanecem no espaço para conversar com o público, vender e autografar os livros.

"Foi justamente através de um impulsionamento da Kika que surgiu a ideia de criar o livro", explica Gabriela. Para transformar a proposta em publicação, ela resgatou textos escritos desde a adolescência e passou um mês em cafeterias do Rio de Janeiro reunindo materiais produzidos ao longo de duas décadas.

O título surgiu depois, a partir de uma imagem que traduz a relação afetiva da autora com os dois países. "Esse Atlântico tem uma porta. Imaginária, poética, mas muito real para mim. Eu a abro e chego em casa, em Portugal. Abro-a de novo e retorno para casa, no Brasil. Há 25 anos vivo nesse vai e vem atravessando essa porta sempre aberta e construindo, entre as duas margens, o meu caminho. E casa não é forçosamente um espaço físico, é mais um sentimento. Eu encontro abrigo nos dois lugares", afirma.

As experiências dessa travessia aparecem em diferentes momentos do livro. Gabriela recupera os primeiros anos de adaptação em Portugal, as impressões provocadas pela escola e a experiência de crescer longe do país onde nasceu. Também revisita o retorno ao Brasil, aos 34 anos, justamente a idade em que a mãe havia emigrado para Portugal.

"Há muitos textos que narram os primeiros anos de adaptação: as impressões, os sentimentos e as situações vividas nas escolas. Alguns contam como eu e minha irmã nos emancipamos tão cedo e a importância da confiança e educação da nossa mãe para enfrentarmos muitas coisas. Existem outros sobre os primeiros anos da minha volta ao Brasil, aos 34 anos — a mesma idade em que minha mãe emigrou para Portugal. É uma mistura interessante, porque o leitor acompanhará dois processos vividos em momentos e idades muito diferentes da minha vida", explica.

A escrita acompanha Gabriela desde cedo. Formada em Jornalismo pela Universidade do Porto, ela conta que sempre ouviu de pessoas próximas que deveria seguir carreira na comunicação. "Sou naturalmente midiática: crio, escrevo, capto, edito e tenho pouquíssima dificuldade em falar diante de uma câmera. Claro que ninguém nasce sabendo; vamos aprimorando, errando e aprendendo ao longo do caminho. Mesmo nos curtos períodos em que não tinha vínculos empregatícios, eu roteirizava, captava e editava meus próprios conteúdos para o Instagram", relata.

Depois da graduação, concluída em 2017, Gabriela tomou uma decisão ousada: comprou uma passagem só de ida para o Brasil com o objetivo de trabalhar como repórter. O destino foi o Rio de Janeiro. Em 2018, entregou um currículo na sede da Band e pouco tempo depois foi contratada. A passagem pela emissora durou alguns meses e é definida por ela como uma experiência "intensa e impactante".

A trajetória profissional, porém, encontrou novos caminhos na publicidade. Gabriela passou a construir carreira na área e se especializou em gestão de atendimento, atividade que reúne organização, visão estratégica e compreensão ampla do marketing. "Aos poucos, fui construindo minha carreira nessa área. Acabei me encontrando dentro da gestão de atendimento, uma área essencialmente relacional, que exige muita organização, visão estratégica e uma compreensão 360º do marketing. Minha primeira grande experiência em uma empresa global foi na Ogilvy Brasil, e ela foi uma verdadeira escola. Trabalhei com grandes marcas, processos altamente dinâmicos e desafios complexos. Foi uma base muito sólida e forte para a construção da minha carreira", conta.

Essa trajetória entre diferentes áreas e países também está presente nas páginas de "Depois que Abri a Porta do Mar". Aos 15 anos, Gabriela chegou a Portugal e passou a experimentar o cotidiano sob a perspectiva da cultura portuguesa. No lugar de Machado de Assis, conheceu Luiz de Camões. Antes do almoço e do jantar, incorporou o hábito português de tomar sopa. Entre costumes, descobertas e adaptações, construiu uma identidade marcada pela mistura das duas culturas.

Aos 16 anos, começou a trabalhar em telemarketing, uma experiência que, somada às viagens pela Europa e ao contato precoce com o universo profissional, ajudou a moldar sua personalidade. "Trabalhar tão cedo moldou traços da minha personalidade, como esse meu lado tão social e extrovertido. Trabalhar, e conviver com adultos já formados, inclusive em dado momento com a minha própria mãe, que pagavam boletos e tinham suas próprias responsabilidades, me deu muito cedo um senso de compromisso e responsabilidade com tudo o que faço", afirma.

A convivência entre Brasil e Portugal também provocou questionamentos sobre pertencimento. Gabriela passou por momentos em que não sabia exatamente como definir sua identidade ou explicar de onde era. "Hoje, é uma diversão que conduzo com leveza, mas houve momentos de crise, sem saber exatamente de onde eu era, a que lugar pertencia ou como deveria escrever. Eu não sabia nem como me apresentar. 'Mas és brasileira ou portuguesa?', 'onde você nasceu?'. Decidi incorporar tudo: sou brasileira, lusa, escrevo e falo tudo misturado. Atualmente, quando estou em Portugal, falo como uma portuguesa; quando estou no Brasil, falo como uma brasileira", relata.

O sentimento de não pertencimento também esteve relacionado a episódios de xenofobia que a autora vivenciou e transformou em matéria literária. O preconceito contra brasileiras na Europa aparece em uma das crônicas do livro, assim como uma situação envolvendo a irmã de Gabriela, que aos 13 anos reagiu a uma ofensa preconceituosa dentro da escola. "Sofri com estereótipos, rótulos, preconceitos. 25 anos atrás, para muita gente na Europa, brasileira era vista apenas como prostituta ou manicure. Até você explicar que não há problema algum em ser qualquer uma das duas, a conversa costumava ser longa, ou terminava em tapa (risos). Uma das minhas crônicas, inclusive, fala de um caso em que minha irmã, aos 13 anos, voou na jugular de um sujeito que gritou no corredor da escola: 'Lá vêm as brasileiras, filhas da put&!'. Ela respondeu na hora: 'Da minha mãe você não fala!'", lembra.

A experiência pessoal acabou dando à autora uma perspectiva mais ampla sobre temas como preconceito, feminismo, racismo e os direitos da população LGBTQIAPN+. Para Gabriela, a escrita também representa uma forma de não permanecer em silêncio diante dessas questões. "São causas que não pertencem a um grupo específico; elas devem ser olhadas e defendidas ativamente por todos nós. Escrevo sobre elas porque não posso passar omissa diante das inúmeras barbáries cometidas todos os dias contra mulheres, pretos e pessoas LGBTQIAPN+. Se você se cala, pode até não cometer o crime, mas se torna cúmplice daquilo que permite que continue acontecendo", finaliza.


Sobre Gabriela Curry
Nascida em 1985, no Espírito Santo, Gabriela Curry é licenciada em Jornalismo pela Universidade do Porto, em Portugal, e também construiu carreira na área de Publicidade. Anualmente, colabora com a revista portuguesa I Love Brides, mantendo a ligação com o universo da escrita e da comunicação. Ao longo da experiência entre diferentes culturas, lugares e encontros, Gabriela passou a compartilhar nas redes sociais crônicas escritas durante boa parte da vida. Aos poucos, conquistou leitores e consolidou seu trabalho autoral.

A partir de uma inquietação da escritora Kika Gama Lobo, começou a desenvolver "Depois que Abri a Porta do Mar - Crônicas entre Dois Continentes", publicado pela Editora Lacre. Além da trajetória literária, Gabriela atua há nove anos como publicitária, com passagens por algumas das principais agências do mercado, entre elas Ogilvy, BETC Havas e Rock World. Ao longo desse período, desenvolveu projetos para grandes marcas e consolidou experiência em comunicação e gestão de contas.

Sem abandonar o jornalismo, escreve desde 2022 para a revista I Love Brides, em Portugal. Também produz roteiros, edita e cria conteúdos autorais de viagens para o Instagram, além de ter participado de diferentes projetos editoriais. No Brasil, trabalhou como repórter na TV Bandeirantes.


Serviço
Bienal do Livro de São Paulo 2026
Evento: Bate-papo "O que uma mulher precisa atravessar para contar a própria história?"
Participantes: Gabriela Curry, Kika Gama Lobo e Manika Apsara
Data: 6 de setembro de 2026
Local: Espaço Escreva Garota
Livro: "Depois que Abri a Porta do Mar – Crônicas Entre Dois Continentes"
Editora: Lacre
Onde comprar: Editora Lacre
Instagram: @gabycurry

.: “Torrentes de Paixão” traz à tona a 1ª protagonista de Marilyn Monroe


Clássico de Henry Hathaway coloca Marilyn Monroe no centro de uma trama de desejo, adultério e assassinato e chega ao catálogo da plataforma Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de se tornar uma das maiores estrelas de Hollywood, Marilyn Monroe precisou provar muito que poderia sustentar personagens além da imagem de loira sedutora que o cinema começava a construir para ela. Em “Torrentes de Paixão”, produção de 1953 dirigida por Henry Hathaway, a atriz encontrou uma oportunidade decisiva: Rose Loomis, uma mulher ardilosa que planeja assassinar o marido, George, vivido por Joseph Cotten, com a ajuda do amante. A produção chega ao streaming pela plataforma Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de um clássico que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional e, além disso, é um dos trabalhos fundamentais da fase inicial da carreira da loira. 

O filme acompanha dois casais hospedados nas proximidades das Cataratas do Niágara. Rose e George vivem um casamento em ruínas, enquanto Polly e Ray Cutler, interpretados por Jean Peters e Max Showalter, estão em uma lua de mel tardia. O encontro entre os quatro transforma uma viagem aparentemente tranquila em uma história de ciúme, traição e morte. O roteiro de Charles Brackett, Richard L. Breen e Walter Reisch surgiu de uma ideia do produtor Charles Brackett, que queria uma produção ambientada nas Cataratas do Niágara. Reisch propôs transformar o cenário turístico associado a casais em lua de mel em palco para um mistério de assassinato. A escolha deu ao filme uma combinação pouco habitual de romance, suspense e film noir.

As Cataratas são tratadas como presença constante na história do filme. Henry Hathaway aproveita passarelas, túneis, torres, barcos e os próprios pontos turísticos da região para construir situações de perigo. A fotografia de Joe MacDonald também contribuiu para o caráter particular da produção. Em vez do preto e branco associado ao imaginário clássico do noir, “Torrentes de Paixão” aposta no Technicolor, explorando cores fortes, sombras e contrastes. O resultado aproxima a exuberância turística das cataratas da atmosfera de ameaça que domina o casamento dos Loomis. 

Marilyn recebeu o maior destaque nos créditos de “Niagara”, decisão que ajudou a consolidar o status dela como estrela. Segundo a TCM, o papel de Rose Loomis foi ampliado depois que os executivos da Fox perceberam o potencial da atriz, transformando o que seria uma simples participação em uma personagem central. O filme também marcou a estreia dela como protagonista em uma produção colorida. Depois de renegociar o contrato com o estúdio, Monroe passou a exigir que seus filmes fossem realizados em cores.

Jean Peters chegou ao elenco depois da saída de Anne Baxter, inicialmente escolhida para viver Polly Cutler. A personagem de Peters havia sido concebida como uma das figuras centrais da história, mas a ascensão de Monroe fez com que “Torrentes de Paixão” se tornasse um veículo para a nova estrela da 20th Century-Fox. Joseph Cotten interpreta George, marido atormentado, ciumento e emocionalmente instável de Rose. A combinação entre a fragilidade do personagem e a frieza calculada da mulher produz o núcleo mais sombrio da trama. O próprio Hathaway teria preferido James Mason para o papel, mas o ator recusou a participação.

Entre as imagens mais conhecidas está a sequência em que Rose aparece com um vestido rosa e canta “Kiss”, música composta por Lionel Newman, com letra de Haven Gillespie, ambos sem crédito no filme, e interpretada por Monroe. A canção retorna como elemento narrativo na trama do assassinato planejado por Rose e seu amante. A produção também deixou uma marca fora do cinema. Uma fotografia promocional de Marilyn feita para “Niagara” serviu de base, quase uma década depois, para “Marilyn Diptych”, de Andy Warhol, uma das obras mais conhecidas do artista. 

Com Marilyn Monroe no primeiro grande momento de protagonismo no cinema, Joseph Cotten como o marido consumido pelo ciúme e Jean Peters como a recém-casada que acaba envolvida na trama, “Torrentes de Paixão” permanece como um capítulo importante da transformação de Monroe em estrela. No fim das contas, é uma história de assassinato filmada diante de uma das paisagens naturais mais famosas do mundo... contada de maneira bastante atrativa.


Ficha técnica
“Torrentes de Paixão” | “Niagara” (título original)
Gênero: drama, suspense, filme noir. Duração: 1h32min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1953. Data de lançamento: fevereiro de 1953, nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção: Henry Hathaway. Roteiro: Charles Brackett, Walter Reisch e Richard L. Breen. Elenco: Marilyn Monroe, Joseph Cotten, Jean Peters, Max Showalter, Denis O'Dea, Richard Allan, Don Wilson, Lurene Tuttle, Russell Collins e Will Wright. Distribuição no Brasil: 20th Century Fox. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: Há 92 anos, nascia Sylvia Telles, a voz da Bossa Nova


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. Fotos: divulgação

Há 92 anos, nascia no Rio de Janeiro a cantora Sylvia Telles, a voz que serviu como a imagem da Bossa Nova. Com personalidade forte e cativante, ela acabou influenciando várias outras canypras com sua interpretação peculiar e moderna. Sempre a frente de seu tempo. Sylvia D´Atri Telles nasceu em uma família que tinha a música sempre próxima. Embora fosse atraída inicialmente pela dança (ballet clássico) eLa acabou se descobrindo como intérptrete estimulada pelo seu irmão mais velgo, Mario Telles, que tinha discos e já atuava na música.

O compositor Anibal Augusto Sardinha, conhecido como Garoto, ajudou ela a encontrar trabalho no início da carreira. E foi nessa época também que conheceu um músico baiano com quem teve um breve namoro: João Gilberto. Sylvinha, como wea apelidada pelos amigos, fez sucesso com a canção "Amendoim Torradinho" no ano de 1955. Essa  gravação foi determinante para a sua entrada no mercado fonográfico  e dos shows ao vivo. Nesse mesmo ano casa-se com José Candido de Mello Mattos, o Candinho, com quem teve a primeira e única filha, Cláudia Telles, que mais tarde se tornaria também cantora.

Ela passou a frequentar as reuniões no apartamento da família de Nara Leão, que se tornou o berlo do movimento musical batizado como Bossa Nova, que conquistaria o mundo nos anos seguintes, Ela logo se identificou com o novo estilo, sendo até apontada como a personificação da Bossa Bova como intérprete. Em 1960 casou-se pela segunda vez com Aloisio de Oliveira, de quem se separaria em 1964.

Infelizmente Sylvinha faleceria no dia 17 de dezembro de 1966, em um acidente automobilistco com seu namorado na época, Horacio de Carvalho, na região de Maricá, no Rio de Janeiro. Tinha apenas 32 anos e uma carreira em crescente ascensão. Meu  contato com a obra de Sylvia Telles aconteceu nos anos 80; no período em que busquei mais informações sobre os músicos e cantores que se destacaram na Bossa Nova. As interpretações de Sylvinha eram bem originais, fazendo com perfeição uma ponte entre a nossa MPB e o universo sofisticado do jazz.

Apesar de ter deixado um legado musical de valor inegável,  a obra fonográfica de Sylvinha Telles  permanece fora de catálogo. Felizmente há vídeos com diversas gravações e trechos de aparições na televisão. E nas platafoirmas de streaming você consegue encontar alguns discos lançados nos anos 50 e 60 pata ouvir. 

Em 2022, foi lançada sua primeira biografia, revelando-a dona de talento e comportamento a frente de seu tempo, símbolo de uma época e criadora de um estilo que permanece vivo e atual. Durante dez anos, o músico e pesquisador Gabriel Gonzaga mergulhou fundo em sua história; colecionou mais de 2500 recortes, reportagens, 200 fotos e cerca de 50 entrevistas que ajudam a contar os detalhes de uma vida intensa.


"Samba Torto"

"Samba de Uma Nota Só"

"Você e Eu"

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

.: “Agnus Dei” acompanha cordeiros e freiras em tradição secular em Roma


Documentário de Massimiliano Camaiti acompanha a rotina das beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília e a produção do pálio destinado ao papa; filme estreia no Brasil na plataforma Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sim, “Agnus Dei” é todo “lindo”, para usar o adjetivo mais recorrente a este tipo de filme. O documentário de Massimiliano Camaiti observa, com olhar atento e paciente, uma tradição secular preservada pelas freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília, em Trastevere, no coração de Roma. Depois da passagem pela 8½ Festa do Cinema Italiano no Brasil, o documentário chega ao streaming Belas Artes À La Carte, ampliando a circulação de uma produção que já percorreu festivais e recebeu reconhecimento internacional.

Durante 73 minutos, a câmera acompanha dois cordeiros recém-nascidos que chegam ao convento e a rotina das religiosas responsáveis por cuidar deles até a tosquia, quando a lã será transformada em parte do pálio, vestimenta litúrgica destinada ao papa e aos arcebispos metropolitanos. A delicadeza das imagens, porém, não elimina uma questão incômoda. Tudo parece muito belamente fotografado e relaxante... se você não for um cordeiro.

Camaiti, que assina direção e roteiro, descobriu a tradição por acaso, ao passar diante da Basílica de Santa Cecília e encontrar dois cordeiros enfeitados com flores durante a cerimônia de bênção. A cena despertou sua curiosidade e acabou dando origem ao filme. Na primeira parte, “Agnus Dei” coloca o espectador diante de uma imagem difícil de ignorar: um filhote recém-nascido é separado da mãe e levado, junto de outro cordeiro, para o mosteiro. O balido da mãe, diante da separação, estabelece uma tensão que permanece ao longo da produção. Os dois pequenos animais chegam ao convento e passam a receber os cuidados de irmã Vincenza, que os alimenta com mamadeira, acompanha seu crescimento e os incorpora à rotina das monjas.

Os cordeiros são tratados com carinho, recebem cuidados veterinários e convivem com as religiosas, mas a finalidade de todo esse processo permanece evidente. A lã será utilizada na confecção do pálio. A pergunta sobre o sentido dessa tradição, portanto, fica para o espectador. Para quem enxerga a relação entre humanos e animais a partir de uma perspectiva vegana, “Agnus Dei” certamente pode provocar uma reação bastante diferente daquela sugerida pela beleza das imagens.

O pálio é uma faixa de lã branca ornamentada com cruzes negras que simboliza a relação entre o papa e os arcebispos metropolitanos. Segundo a tradição, os dois cordeiros são abençoados em janeiro, no período da festa de Santa Inês, e depois entregues às monjas de Santa Cecília. Após a tosquia, sua lã é utilizada na produção dos paramentos. Os animais são imobilizados, a lã é retirada e o filme encerra o ciclo sem explicar o destino posterior dos cordeiros. A tradição é associada a Roma desde a Antiguidade cristã e segue vinculada à solenidade dos santos Pedro e Paulo, em 29 de junho.

Camaiti evita entrevistas explicativas e narração em off. A opção é observar. O formato 4:3, os enquadramentos fixos e a fotografia de Ilya Sapeha contribuem para uma experiência visual que privilegia os espaços do mosteiro, os gestos das religiosas, os animais e a passagem das estações. O resultado chamou atenção no circuito de festivais. “Agnus Dei” foi apresentado na 82ª Mostra Internacional de Arte Cinematográfica de Veneza, dentro da seção Biennale College Cinema. Depois, recebeu o Prêmio Michel Mitrani de descoberta no FIPADOC, em Biarritz.

A produção também ganhou uma camada histórica inesperada durante as filmagens. Em 2025, enquanto o ritual era acompanhado por Camaiti, o papa Francisco adoeceu e morreu em abril daquele ano. A notícia chega ao mosteiro e interrompe por algumas horas a rotina das religiosas. Depois, a vida cotidiana retoma seu curso. A ocorrência transforma o filme em um registro involuntário de um momento específico da Igreja Católica e da transição entre dois pontificados.


Ficha técnica
“Agnus Dei” (título original)
Gênero: documentário. Duração: 73 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 31 de agosto de 2025, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Massimiliano Camaiti. Roteiro: Massimiliano Camaiti. Elenco: freiras beneditinas do Mosteiro de Santa Cecília em Trastevere. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "A Praga" estreia na Reserva Imovision como último horror inédito de Mojica


Filme rodado em 1980, considerado perdido por décadas e restaurado a partir de negativos encontrados no antigo escritório do cineasta, recupera um dos projetos mais singulares de José Mojica Marins

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Em maio de 2012, José Mojica Marins esteve em Curitiba para a estreia de um espetáculo inspirado na própria trajetória. Ao terminar a apresentação, diante da plateia, anunciou em alto e bom som: “'A Praga' vem aí!”. A promessa levaria mais de uma década para se concretizar. Mojica morreu em fevereiro de 2020, sem ver concluído o projeto que acompanhou durante tantos anos. Agora, "A Praga", último filme inédito dele como diretor, chega ao catálogo da Reserva Imovisiona maior plataforma de filmes independentes da América Latina, mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens.

Na trama, Marina (Sílvia Gless) e Juvenal (Felipe Von Rhein) passeiam pelo campo e param diante da casa de uma senhora idosa para tirar fotografias. A brincadeira não termina bem. A mulher, interpretada por Wanda Kosmo, revela sua verdadeira identidade: é uma bruxa. Ao ser provocada, ela lança uma maldição sobre Juvenal. A transformação começa de maneira quase silenciosa, com pesadelos e mudanças de comportamento, mas rapidamente assume contornos cada vez mais perturbadores.

Uma ferida surge no corpo dele e passa a exigir carne crua para ser alimentada. O horror começa na deterioração física e psicológica do personagem. Juvenal perde gradualmente o domínio sobre o próprio corpo e tenta entender a origem daquela fome monstruosa. A punição sobrenatural transforma uma atitude aparentemente banal em um pesadelo que cresce até se tornar uma ameaça.



Uma praga que atravessou décadas, mudou de formato e quase desapareceu para sempre
A história por trás da produção poderia facilmente pertencer a um dos pesadelos criados pelo próprio Zé do Caixão. A ideia surgiu ainda nos anos 1960, quando "A Praga" foi concebido como um episódio de "Além, Muito Além do Além", programa de histórias macabras exibido pela TV Bandeirantes entre 1967 e 1968. O roteiro foi escrito por Rubens Francisco Lucchetti, um dos principais parceiros de Mojica na construção de seu universo fantástico. As gravações do programa, porém, desapareceram. O material da emissora foi perdido, mas a história ganhou uma nova vida em 1969, quando foi adaptada para os quadrinhos na revista "O Estranho Mundo de Zé do Caixão".

Mais de uma década depois, Mojica decidiu retomar a ideia. Em 1980, começou a filmar "A Praga" em Super-8. O dinheiro terminou antes que o projeto pudesse ser concluído e os negativos ficaram esquecidos durante anos. O material só seria reencontrado em 2007, quando o produtor Eugenio Puppo pesquisava o acervo de Mojica para uma retrospectiva. Os rolos estavam guardados no antigo escritório do cineasta, em São Paulo - dentro de um saco de lixo.

O reencontro com os negativos, no entanto, estava longe de significar o fim da jornada. As imagens não possuíam o registro sonoro necessário para recuperar os diálogos originais. A solução foi recorrer à leitura labial, realizada por Lakshmi Lobato, para reconstruir as falas e viabilizar uma nova dublagem. Débora Muniz assumiu a voz de Sílvia Gless, Eucir de Souza dublou Felipe Von Rhein e Luah Guimarãez emprestou a voz a Wanda Kosmo. O processo de restauração incluiu ainda correção de cores, tratamento de imagem, remasterização sonora, trilha musical e efeitos especiais.

Depois de anos de trabalho, a versão definitiva foi apresentada pela primeira vez no Festival de Cinema de Sitges, na Espanha, em outubro de 2021. A restauração preservou as características visuais do material encontrado, incluindo grãos, desgastes e outras marcas deixadas pelo tempo. A intenção foi recuperar o filme sem apagar a aparência de uma produção realizada em 1980.

Wanda Kosmo é uma das presenças mais marcantes da produção. Como a bruxa, a atriz e diretora concentra boa parte da atmosfera inquietante do filme. Felipe Von Rhein acompanha a degradação de Juvenal, enquanto Sílvia Gless interpreta Marina, testemunha próxima da transformação do companheiro. José Mojica Marins também aparece diante da câmera, mas não como protagonista. Zé do Caixão surge como anfitrião e narrador, conduzindo o espectador pela história. A escolha recupera uma característica de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", de 1968, também realizado em parceria com Lucchetti.


O filme que sobreviveu ao próprio criador e ganhou uma última chance de chegar ao público
O curta-metragem documental "A Última Praga de Mojica", de 17 minutos, acompanha o filme e ajuda a reconstituir essa trajetória improvável. Dirigido por Cédric Fanti, Eugenio Puppo, Matheus Sundfeld e Pedro Junqueira, reúne imagens de bastidores, depoimentos, registros das filmagens originais e reproduções da história em quadrinhos que esteve na origem do projeto. Depois da estreia em Sitges, a produção passou por eventos como Fantasporto e Festival do Rio, entre outros festivais dedicados ao cinema de gênero. 

O percurso de "A Praga" é tão extraordinário quanto o próprio filme. Nasceu para a televisão, ganhou os quadrinhos, foi retomado por Mojica em Super-8, ficou inacabado, desapareceu durante décadas e acabou reencontrado entre materiais guardados em um saco de lixo. Sobreviveu ao abandono e chegou ao público quando seu próprio criador já não estava mais aqui para vê-lo.

Mojica não chegou a assistir à chegada de "A Praga" ao público. O filme, porém, preserva elementos que atravessaram sua carreira: o sobrenatural, o grotesco, a provocação e uma certa disposição para transformar o cotidiano em pesadelo. Agora, disponível na Reserva Imovision, "A Praga" finalmente cumpre a promessa feita por Mojica em Curitiba. Mais de quatro décadas depois das primeiras filmagens, a praga saiu das sombras.

Ficha técnica
"A Praga" (Título original) | "A Peste" (Título em Portugal) | "The Plague" (Título no exterior)
Gênero: terror. Duração: aproximadamente 51 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2021, a partir do material filmado originalmente em 1980. Data de lançamento: 2021, com estreia da versão definitiva no Festival de Cinema de Sitges; lançamento comercial brasileiro em 2023. Idioma: português. Direção: José Mojica Marins. Roteiro: Rubens F. Lucchetti. Elenco: Felipe Von Rhein, Sílvia Gless, Wanda Kosmo e José Mojica Marins. Distribuição no Brasil: Elo Studios. Streaming: Reserva Imovision. Cenas pós-créditos: não.Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.
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