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domingo, 7 de junho de 2026

.: "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade" conta história que supera ficção policial


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O fascínio contemporâneo pelas narrativas criminais parece inesgotável. Séries, documentários e podcasts transformaram investigações policiais em verdadeiros fenômenos culturais. Mas há ocasiões em que a realidade produz histórias tão perturbadoras que qualquer roteirista pareceria excessivamente imaginativo ao tentar reproduzi-las. É nesse território nebuloso entre a incredulidade e o horror que se instala "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade", novo podcast documental original da Ubook.

A produção mergulha em uma sucessão de assassinatos que abalou o Rio de Janeiro e expõe uma trama em que ganância, poder, religiosidade, heranças e segredos familiares se entrelaçam de maneira quase cinematográfica. A diferença é que nada ali foi inventado. Tudo começa na noite de 14 de janeiro de 2010. Após encerrar mais um dia de trabalho no tradicional restaurante Rei do Bacalhau, na Praia da Bica, Ilha do Governador, José Maurício de Almeida, então com 59 anos, repetia uma rotina que conhecia de cor. Gerente administrativo da casa havia cinco anos, deixou o estabelecimento, embarcou no ônibus em direção à Barra da Tijuca e seguiu o percurso habitual.

Pouco depois de descer na Avenida Ayrton Senna, José Maurício foi surpreendido por criminosos e executado com extrema violência: três tiros nas costas e um na nuca. Policiais que estavam próximos ouviram os disparos e chegaram rapidamente ao local. Ainda houve tentativa de socorro, mas os ferimentos eram fatais. Inicialmente, a hipótese mais plausível parecia ser latrocínio - roubo seguido de morte. Contudo, bastaram os primeiros levantamentos para que essa teoria começasse a ruir. A maleta da vítima permanecia intacta. Dentro dela, além de documentos pessoais, havia cerca de quatro mil reais em dinheiro. A carteira continuava no bolso. A aliança seguia no dedo. Nenhum objeto de valor havia sido levado. O que, então, justificaria uma execução tão brutal?

A pergunta se transformou em obsessão para os investigadores. Como ocorre em muitos casos de homicídio, as primeiras 48 horas tornaram-se decisivas. Foi durante as diligências realizadas no restaurante onde José trabalhava que os agentes perceberam que talvez estivessem diante de algo muito maior do que um assassinato isolado. A morte do gerente era apenas a ponta visível de um iceberg macabro. Ao revisitar a história do Rei do Bacalhau, estabelecimento fundado em 1992 e transformado em referência gastronômica na cidade, a investigação começou a revelar um passado marcado por acontecimentos tão inquietantes quanto misteriosos.

Entre eles, o assassinato de Plácido da Silva Nunes, empresário português e fundador do restaurante. Em 2007, três anos antes da morte de José Maurício, Plácido foi encontrado morto dentro da própria residência. Vivia sozinho e foi surpreendido com uma facada pelas costas enquanto estava na cozinha. O crime permaneceu envolto em dúvidas. Como se não bastasse, outro episódio sombrio surgiria durante as apurações. Em 2009, um ano antes da execução do gerente administrativo, o pai de santo de confiança de Antônio Fernando da Silva - filho de Plácido - também foi encontrado morto em circunstâncias que ampliariam ainda mais o clima de mistério.

A narração das jornalistas Daiane Menezes e Naiana Ribeiro conduz o ouvinte por um percurso de revelações graduais, reconstituições detalhadas e depoimentos que ajudam a compreender como uma sequência de crimes aparentemente sem solução pode esconder conexões surpreendentes. A obra propõe uma reflexão sobre os mecanismos da justiça, os limites da investigação criminal e, sobretudo, sobre a perigosa sensação de impunidade que frequentemente acompanha crimes de grande repercussão no Brasil.

Ao longo de seus três episódios, o podcast transforma essa pergunta em combustível dramático, conduzindo o público por uma história repleta de reviravoltas, interesses ocultos e revelações capazes de surpreender até os mais habituados consumidores de true crime. O resultado é uma experiência que transcende o entretenimento. É um retrato perturbador de como ambições humanas podem desencadear tragédias sucessivas e de como a verdade, por mais enterrada que pareça, costuma encontrar caminhos para emergir.


Serviço

Disponível exclusivamente na Ubook. Formato: 3 episódios, com aproximadamente 25 minutos cada. Produção e roteiro: Daiane Menezes e Naiana Ribeiro. Classificação indicativa: 16 anos.


Sobre a Ubook
Fundada em 2014, a Ubook consolidou-se como uma das principais plataformas de audiotainment da América Latina. Com catálogo que ultrapassa 400 mil títulos, reúne audiobooks, podcasts, documentários, séries em áudio, e-books, notícias e conteúdo musical. Nos últimos anos, a empresa vem ampliando seu investimento em produções originais, apostando em temas de relevância social e cultural. Entre os destaques estão Adolescência e o alerta vermelho digital, que investiga a cultura incel no Brasil, e Embolhados, dedicado à análise de temas em evidência nas redes sociais. Com "Rei do Bacalhau - Fé na Impunidade", a plataforma reforça sua aposta em narrativas investigativas que unem rigor jornalístico, qualidade de produção e forte potencial de envolvimento junto ao público.

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

sábado, 6 de junho de 2026

.: Crítica: "Diana - A Princesa do Povo" devolve humanidade ao mito


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Costa

A história de Diana Spencer já foi contada à exaustão pela imprensa, pelo cinema, pela televisão e pelos documentários. Ainda assim, "Diana - A Princesa do Povo", em cartaz no Teatro Liberdade até dia 5 de julho, encontra uma brecha rara: abandonar o fascínio pela figura mítica para observar a mulher que existia por trás das manchetes. O "comeback" de Sara Sarres não poderia ser me melhor. Ela retorna aos palcos em estado de graça. O reencontro dela com o teatro musical não poderia ter encontrado personagem mais poderosa. 

Diana oferece a Sara Sarres todas as possibilidades dramáticas imagináveis, e a atriz aproveita cada uma delas. Vulnerável, divertida, apaixonada, indignada e determinada, a interpretação dela evita o retrato santificado que tantas vezes acompanha a princesa. Sara constrói uma mulher real, capaz de despertar empatia sem pedir complacência. Ao lado dela, Claudio Lins entrega um Charles distante da caricatura. A voz cristalina do ator encontra espaço para brilhar em números musicais que ampliam os conflitos internos do personagem. O espetáculo compreende algo que muitas produções ignoram: para que Diana funcione dramaticamente, Charles precisa existir como figura complexa. E Lins alcança esse equilíbrio com precisão.

Uma das decisões mais inteligentes da montagem está na construção de Camilla Parker Bowles. Giselle de Prattes afasta qualquer leitura simplista da personagem e oferece uma interpretação marcada pela humanidade. A Camilla defendida por ela não surge como antagonista de novela, mas como alguém que também espera, sofre e ocupa um lugar desconfortável dentro daquele tabuleiro afetivo. Curiosamente, a figura mais rígida e implacável da narrativa acaba sendo a Rainha Elizabeth II, defendida com firmeza por Simone Centurione. A presença dela no espetáculo ajuda a compreender que o verdadeiro embate nunca foi apenas amoroso, era institucional.

Dino Fernandes também deixa sua marca como James Hewitt. A participação dele ganha destaque em uma das cenas visualmente mais impactantes da montagem, envolvendo o célebre passeio a cavalo. É um momento que sintetiza liberdade, desejo e fuga em meio ao sufocamento imposto pela vida pública.

Marianna Alexandre confirma aquilo que o público habituado ao teatro musical brasileiro já conhece: a presença dela em cena funciona como um selo de qualidade. Nas sequências compartilhadas com Diana, interpretando Sarah Spencer, a atriz introduz afeto, cumplicidade e leveza sem desviar a atenção dos conflitos centrais. São passagens que lembram algo frequentemente esquecido quando se fala da princesa: antes de se tornar um fenômeno mundial, ela era uma mulher que acreditou sinceramente em uma história de amor. Tudo o que veio depois parece surgir como reação ao colapso dessa promessa.

O grande mérito de Tadeu Aguiar está em compreender essas nuances. A direção precisa dele evita julgamentos simplistas e conduz o espectador por zonas moralmente mais interessantes. Não há heróis absolutos e muito menos monstros definitivos em "Diana - A Princesa do Povo". Todos no espetáculo são pessoas presas a protocolos, interesses, expectativas e convenções que acabam esmagando qualquer possibilidade de felicidade genuína.

Com direção musical de Thalyson Rodrigues, cenografia de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e coreografias de Sueli Guerra, a superprodução da Estamos Aqui Produções transforma um episódio amplamente conhecido da cultura pop em uma experiência emocionalmente envolvente. O espetáculo revisita a trajetória da princesa Diana sem recorrer à reverência automática que costuma cercar a memória dela. O resultado é um musical que faz uma pergunta desconfortável e atual: o que acontece quando uma instituição milenar exige obediência de alguém que deseja apenas ser amada? A resposta, o mundo inteiro já conhece. O mérito desta montagem está em fazer o público voltar a senti-la.

Serviço
Espetáculo "Diana - A Princesa do Povo"
Local: Teatro Liberdade
Rua São Joaquim, 129 - Liberdade | São Paulo
Temporada até dia 5 de julho de 2026
Sessões: Sextas às 20h00, Sábado às 16h00 e 20h30. Domingos às 15h00 e às 19h30

Ingressos
Plateia Premium 
Sexta-feira, sábado e 1ª sessão de domingo - R$340,00 (Inteira) | R$170,00 (Meia)
Quinta-feira e 2ª sessão de domingo - R$ 280,00 | R$140,00 (Meia)

Plateia 
Sexta-feira, sábado e primeira sessão de domingo - R$250,00 (Inteira) | R$125,00 (Meia)
Quinta-feira e segunda sessão de domingo - R$ 190,00 | R$85,00 (Meia)
Balcão Visão Parcial - R$120,00 (Inteira) | R$60,00 (Meia)
Balcão A - R$170,00 (Inteira) | R$85,00 (Meia)
Balcão B: R$50,00 (Inteira) | R$25,00 (Meia)
Vendas: Site Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114505) ou Bilheteria local
Gênero: musical
Duração: 150 minutos (com intervalo)
Classificação: 12 anos

Descontos
*Desconto 35%: Obtenha 35% de desconto no ingresso inteiro ao preencher o formulário durante o processo de compra.
Para comprar mais de um ingresso nessa modalidade, basta preencher um formulário por ingresso conforme será solicitado. Desconto disponível para todos os públicos.
*Clientes Glesp: têm 25% de desconto nos ingressos inteiros mediante a aplicação do cupom, limitado a 4 ingressos por cupom. Válido para todos os setores.
*Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.

Ingressos
Internet (com taxa de conveniência):
Bilheteria física (sem taxa de conveniência):
Horário de funcionamento de bilheteria:
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.

Acessibilidade
Deficientes físicos: teatros adequados às normas de acessibilidade, contendo elevador, corrimão, espaço para cadeirantes e acompanhantes, banheiros adaptados.
Deficientes auditivos – Agenda de apresentações com tradução em libras (em construção)
Deficientes visuais - Previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize texto da peça em Braile e resumo descritivo do espetáculo em Braille e em áudio (para cidadãos devidamente identificados)
Deficientes intelectuais – Quatro (quatro) assentos posicionados em local de fácil mobilidade para este público, proporcionando conforto caso haja necessidade de se retirar durante a sessão e, ainda, previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize abafadores de ruído (para cidadãos devidamente identificados)
Este espetáculo contém Luz Estroboscópica (flashes de luz intensa). Este efeito visual é contraindicado para pessoas com epilepsia, sensibilidade à luz ou autismo. Aconselhamos cautela.


.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: A carne, o mar e a ruptura: a juventude desenfreada de "Paixão Juvenil"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1956 e dirigido com maestria por Kô Nakahira, "Paixão Juvenil", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, hoje é reverenciado como clássico, mas já representou uma transgressão perigosa quando foi lançado. É nesse terreno de provocação que se posiciona o cinema japonês daquele período, batizado de Nuberu Bagu (a "Nouvelle Vague" japonesa). O movimento focava em pequenas crises cotidianas e no registro da intensidade de uma geração que buscava escapar do autoritarismo e da mesmice, sem a preocupação de entregar respostas fáceis ao público. 

As grandes transformações políticas e os traumas das guerras historicamente deixam marcas profundas na produção artística, gerando movimentos que ecoam diretamente no comportamento das novas gerações. Nos anos 1950 e 1960, a efervescência cultural moldou um estilo de vida rebelde, cuja atitude muitas vezes foi confundida com mera imaturidade ou contestação vazia. No cinema, essa necessidade de crueza e urgência encontrou paralelo perfeito com a entrega dos jovens daquela época, uma mistura explosiva de audácia e coragem para desafiar sistemas corrompidos. 

O filme acompanha a trajetória de dois irmãos de classe média alta que aproveitam o verão em uma estância balnear. Natsuhisa, o mais velho, esbanja autoconfiança e experiência com as mulheres; já Haruji, o caçula, carrega uma timidez crônica diante do sexo oposto. A dinâmica pacata e tediosa desse grupo de jovens ricos sofre uma ruptura quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Eri, uma figura misteriosa que o irmão mais novo conhece ao desembarcar na estação de trem. À medida que o enredo avança, descobre-se que a jovem esconde segredos densos, incluindo um casamento com um estrangeiro mais velho, transformando o conflito fraterno em um triângulo amoroso obsessivo e destrutivo.

A construção da personagem feminina representa uma verdadeira revolução para os padrões da cinematografia japonesa da época, historicamente pautada por figuras femininas frágeis e submissas. Eri surge como uma femme fatale de filme noir, uma mulher dotada de uma liberdade incomum que usa a beleza e a aparente fragilidade como isca para manipular e devorar os homens ao seu redor. Nakahira explora o erotismo e o toque corporal com uma audácia impressionante para o ano de 1956, inundando a tela com uma efervescência juvenil focada na busca incessante pelo prazer individual, onde o sentimento amoroso é relegado a um plano secundário.

O longa-metragem escancara a massiva influência dos Estados Unidos no Japão pós-guerra, visível tanto nos figurinos inspirados na moda norte-americana quanto na trilha sonora dominada pelo ritmo das big bands ocidentais. Contudo, essa dominação cultural é ironizada pelo diretor em momentos cirúrgicos, como nas piadas direcionadas ao rapaz que passou uma temporada em solo americano ou na própria escolha de colocar um estrangeiro no papel de marido traído. Em termos técnicos, a produção abraça a cartilha de Hollywood com maestria: a narrativa possui um ritmo frenético, construída com cortes rápidos, planos curtos, variações constantes de tomada e um desenho de som ativo que impede qualquer ameaça de monotonia.

A relevância estética de "Paixão Juvenil" é tamanha que a produção serviu de inspiração direta para os realizadores da Nouvelle Vague francesa, como François Truffaut. O enredo, que remete aos conflitos passionais de "Jules e Jim", caminha para um desfecho violento e febril, comparável ao terceiro ato das tragédias de Tennessee Williams, em que as emoções reprimidas transbordam e provocam a ruína completa dos personagens. Trata-se de um registro temporal audacioso e atemporal, cuja contextualização histórica apenas amplia o prazer de testemunhar o nascimento de uma nova linguagem cinematográfica.


Ficha técnica
“Paixão Juvenil” | "Kurutta kajitsu" (título original) | "Fruto de Paixão" (título em Portugal)
Gênero: drama, cult. Duração: 1h 26min (86 minutos). Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: japonês e inglês. Direção: Kô Nakahira. Roteiro: Shintaro Ishihara. Elenco: Yûjirô Ishihara (Takishima Natsuhisa), Masahiko Tsugawa (Takishima Haruji), Mie Kitahara (Eri), Harold Conway (Marido de Eri), Taizô Fukami (Pai), Masumi Okada, Eiko Higashiya, Atsuko Akashi, Yoko Benisawa, Ayuko Fujishiro, Keiko Hara, Shigeo Hayashi, Eiko Higashitani, Hiroshi Kondo. Distribuição no Brasil: sem distribuidor oficial nos cinemas (lançado diretamente em festivais e mídia física de colecionador). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Kokuho" desafia o cinema ao tentar filmar a alma do kabuki


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema contemporâneo raramente se atreve a flertar com a grandiosidade dos épicos que exigem tempo, fôlego e entrega absoluta. Sob a assinatura do cineasta Lee Sang-il, "Kokuho - O Preço da Perfeição", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, é uma dessas raras e monumentais exceções. O longa-metragem consegue a proeza de transportar o espectador para o coração pulsante do teatro kabuki, mapeando cinquenta anos de história com uma força dramática que evoca os grandes clássicos do cinema asiático. 

A produção desembarcou nas telas brasileiras precedida por uma trajetória robusta no circuito internacional, que incluiu uma première mundial na prestigiosa Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, além de passagens celebradas pelos festivais de Toronto e Busan. Fenômeno comercial histórico em seu país de origem, a obra arrastou mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o live-action de maior bilheteria da história do Japão.

A narrativa, estruturada a partir do roteiro preciso de Satoko Okudera, adapta o celebrado romance em dois volumes de Shûichi Yoshida, lançado em 2018. A trama acompanha a saga de Kikuo Tachibana, jovem que carrega o estigma de ter nascido em uma família ligada à yakuza. Após o brutal assassinato de seu pai, o destino do garoto de 14 anos sofre uma guinada radical quando ele acaba acolhido pelo lendário mestre do kabuki, Hanai Hanjiro II, papel defendido com a habitual crueza e generosidade paternal de Ken Watanabe. Nos bastidores da tradicional dinastia artística de Kamigata, Kikuo passa a dividir os dias com Shunsuke Ogaki, o herdeiro legítimo do clã. Juntos, os dois garotos mergulham em um universo onde a busca pela excelência artística exige a renúncia de qualquer vestígio de normalidade cotidiana, iniciando uma jornada que flutua constantemente entre a irmandade mútua e uma rivalidade silenciosa e devastadora.

O núcleo dramático gira em torno da obsessão dos protagonistas em alcançar o título de Kokuho - a honraria máxima de "Tesouro Nacional Vivo", concedida pelo governo japonês aos grandes mestres da arte tradicional. Ambos dedicam-se à complexa especialidade do onnagata, os atores que assumiram os papéis femininos na cena teatral desde que o xogunato baniu as mulheres dos palcos no Período Edo por questões morais. A dinâmica entre os dois adultos, interpretados com assombrosa entrega por Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama, expõe um embate clássico: de um lado, o talento bruto e instintivo de um órfão marginalizado; de outro, o peso esmagador da hereditariedade e a cobrança pelo sangue azul de uma linhagem artística. O diretor conduz esse emaranhado de orgulho e dor sem pressa, permitindo que o tempo dilate o sacrifício físico e emocional dos personagens.

A obsessão do filme pela autenticidade transborda em cada plano trabalhado pelo diretor de fotografia Sofian El Fani. Para conferir o realismo necessário aos bastidores e camarins, o autor do livro original, Shuichi Yoshida, passou três anos infiltrado como um Kurogo - o assistente de palco que se veste inteiramente de preto para se tornar "invisível" aos olhos do público. Essa vivência íntima reverbera na tela na meticulosa preparação dos atores. 

O protagonista Ryo Yoshizawa submeteu-se a um intenso e rigoroso treinamento de 18 meses com profissionais do kabuki para dominar a precisão cirúrgica de cada gesto, postura e olhar. Não por acaso, a produção garantiu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, honrando a deslumbrante transformação dos intérpretes na alvura impecável das maquiagens tradicionais, contrapondo-se ao universo rústico e melancólico da masculinidade tóxica que rege a vida fora dos palcos.

A trilha sonora sublime de Marihiko Hara, pontuada por canções interpretadas por Miu Sakamoto e Iguchi Osamu, eleva a voltagem dramática da produção, especialmente nas sequências em que a câmera rompe a barreira do "teatro filmado" para rodopiar de forma imersiva ao redor dos corpos em cena. Embora a montagem execute saltos temporais bruscos que por vezes sacrificam o desenvolvimento das personagens femininas - como a matriarca interpretada por Shinobu Terajima -, a obra compensa as arestas com uma força visual avassaladora. "Kokuho – O Preço da Perfeição" se consolida como um registro sofisticado sobre uma manifestação cultural tricentenária que tenta sobreviver ao avanço da modernidade no Japão pós-guerra, expondo sem filtros as cicatrizes incuráveis de quem decide vender a própria alma em troca do vislumbre eterno da divindade artística.


Ficha técnica
“Kokuho  O Preço da Perfeição” | “Kokuhō” (título original)
Gênero: drama. Duração: 175 minutos (2h55m). Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: japonês. Direção: Lee Sang-il. Roteiro: Satoko Okudera (baseado no romance de Shûichi Yoshida). Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Nana Mori, Ai Mikami, Kumi Takiuchi, Masatoshi Nagase, Emma Miyazawa, Takahiro Miura, Kyusaku Shimada, Tateto Serizawa, Nakamura Ganjirō IV, Min Tanaka. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: "Rebelião Silenciosa" fala sobre o peso do silêncio e a força da emancipação


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A aparente calmaria das paisagens bucólicas da Suíça historicamente serviu como uma espécie de biombo para esconder tensões morais e contradições profundas. É justamente nesse cenário de isolamento e aparente virtude que se constrói a narrativa de "Rebelião Silenciosa", o contundente longa-metragem de estreia da diretora Marie-Elsa Sgualdo, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Ambientado no ano de 1943, em meio ao turbilhão da Segunda Guerra Mundial, o drama evita as frentes de batalha tradicionais para focar em um front íntimo, doloroso e profundamente político: o corpo e a autonomia de uma jovem de 15 anos.

A trama acompanha Emma, interpretada com uma vivacidade impressionante por Lila Gueneau, cuja atuação contida e emocionalmente inteligente rendeu elogios da imprensa internacional e o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Fargo. Emma é inicialmente descrita como uma adolescente exemplar na pequena comunidade rural protestante onde vive. No entanto, sua visão de mundo começa a ruir quando ela testemunha a vila recusar abrigo a refugiados franceses que fogem do conflito. O senso de justiça da jovem é testado ao limite quando ela mesma se torna vítima de uma violência sexual brutal. Grávida após o estupro, Emma se recusa a aceitar o papel de mártir ou de vergonha comunitária que a hipocrisia moral local tenta lhe impor.

O roteiro, assinado por Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e pela própria diretora, evita o melodrama. A narrativa prefere acompanhar o processo de reconstrução dessa jovem, transformando um trauma devastador no elemento catalisador de sua emancipação e autodeterminação. Enquanto o vilarejo se fecha em dogmas e preconceitos, Emma busca forças para trilhar o próprio caminho e enfrentar as expectativas sufocantes daquela sociedade patriarcal.

A produção é da Suíça, Bélgica e França, com locações que exploram as paisagens do cantão de Vaud, incluindo a histórica comuna de Romainmôtier, além de Goumoëns e Colombier. A escolha desses cenários rurais funciona como um contraponto visual perfeito para o sufocamento psicológico vivido pela protagonista. A primorosa direção de fotografia de Benoît Dervaux e a montagem precisa de Karine Sudan conferem ao filme uma sofisticação estética que não passou despercebida pela crítica especializada, garantindo ao longa os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Montagem no prestigiado Swiss Film Awards de 2026, premiação na qual a obra figurou como uma das grandes líderes com sete indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Roteiro.

Após uma elogiada estreia mundial na mostra Venice Spotlight do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza em setembro de 2025, o filme percorreu um circuito internacional robusto, passando por festivais em Sevilha, Palm Springs, Cairo e Estocolmo. A recepção crítica destacou a sutileza com que Marie-Elsa Sgualdo aborda os direitos das mulheres na década de 1940, construindo um retrato de época que conversa diretamente com as discussões contemporâneas sobre feminismo, corpo e consentimento.

Ficha técnica
"Rebelião Silenciosa" | "À bras-le-corps" (título original)

Gênero: Drama / História. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: francês / alemão. Direção: Marie-Elsa Sgualdo. Roteiro: Nadine Lamari, Pauline Ouvrard e Marie-Elsa Sgualdo. Elenco: Lila Gueneau, Grégoire Colin, Thomas Doret, Aurélia Petit, Sandrine Blancke, Sasha Gravat Harsch, Cyril Metzger. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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.: A poética do asfalto de Steve Martin ganha as telas em "L.A. Story"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Há cidades que não passam de cenários, mas Los Angeles, no olhar afiado de Steve Martin, é uma piada pronta que insiste em se levar a sério. Sob a direção do britânico Mick Jackson, o comediante de cabelos brancos concebeu uma crônica ácida, porém estranhamente terna, sobre a capital mundial das aparências. Longe de ser apenas mais uma comédia romântica desmiolada para preencher as tardes de domingo, o longa-metragem "L.A. Story", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, é uma sátira sofisticada que bebe diretamente na fonte do neorrealismo italiano e no teatro clássico inglês, oferecendo um espelho deformado e cirúrgico do modo de vida californiano. A poética do asfalto, que afirma que "o sol brilha para todos", é destrinchada neste filme.

A trama acompanha as desventuras de Harris K. Telemacher, um homem que carrega o fardo de um doutorado em artes e humanidades, mas ganha a vida como o "meteorologista maluco" de um telejornal local. Em uma cidade onde o clima se resume a um eterno e imutável ensolarado, a função de Harris é a própria definição da inutilidade elegante. Ele patina por galerias de arte destilando resenhas excêntricas e recita Shakespeare em esquinas movimentadas, tateando qualquer resquício de significado em meio a um oceano de futilidades. A vida do protagonista entra em parafuso quando ele descobre que sua namorada ambiciosa o trai há três anos com seu próprio agente, e que uma previsão errada de temporal acabou por afundar o iate de seu chefe, custando-lhe o emprego.

O ponto de virada surge na solidão da rodovia, quando o carro de Harris quebra e um painel eletrônico de sinalização de trânsito começa a piscar mensagens enigmáticas, direcionadas exclusivamente a ele. Essa entidade mecânica e conselheira passa a guiar seus passos românticos em direção a Sara, uma jornalista londrina que desconfia do estilo de vida local, mas que se vê presa ao desejo de reconciliação de seu ex-marido. Para complicar o quadrante amoroso, Harris se envolve com SanDeE*, uma jovem e desinibida aspirante a modelo cuja maior profundidade intelectual reside na grafia peculiar de seu próprio nome.

A genialidade do roteiro de Steve Martin está na capacidade de extrair humor da neurose urbana sem descambar para a grosseria. A antológica cena do restaurante "California Cuisine", onde os frequentadores pedem variações milimetricamente pretensiosas de café descafeinado com toques de limão e reagem a um terremoto com a naturalidade de quem espanta uma mosca, resume o espírito da obra. Martin escreveu o texto como uma resposta da Costa Oeste ao clássico "Contos de Nova York", provando que a futilidade de Los Angeles também merecia sua própria poesia. A própria abertura do filme, inclusive, faz uma reverência direta e refinada a "A Doce Vida", clássico de Federico Fellini.

O longa também carrega marcas de bastidores. Martin dividiu o protagonismo com Victoria Tennant, com quem era casado na vida real durante a produção. O elenco de apoio brilha com Sarah Jessica Parker entregando uma atuação inspirada como a bimbette californiana e Patrick Stewart roubando a cena como o maître do pomposo restaurante L'Idiot. Curiosamente, grandes nomes como John Lithgow e Scott Bakula chegaram a rodar participações importantes como um agente de cinema e um vizinho, respectivamente, mas tiveram suas cenas completamente limadas na sala de edição para garantir o ritmo da narrativa - embora referências aos diálogos de Lithgow ainda ecoem na versão final. Outros astros, como Chevy Chase, Woody Harrelson e Rick Moranis, dão as caras em aparições rápidas e não creditadas que divertem o espectador atento.

A embalagem sonora do filme ganha um tom místico com a presença da música de Enya, criando o contraponto perfeito para as bizarrices visuais e as perseguições nas autoestradas. Para os cinéfilos detalhistas, uma curiosidade de bastidor une esta produção a clássicos posteriores: a placa de carro "2GAT123", utilizada no veículo de Harris, tornou-se um dos maiores easter eggs de Hollywood, reaparecendo anos depois em produções de peso como "Traffic", "Cidade dos Sonhos" e "A Corrente do Bem". Entre o deboche e o lirismo, o filme sobrevive ao tempo como um registro afetuoso de uma cidade que insiste em inventar sua própria realidade.


Ficha técnica
"Loucuras em Los Angeles" | "L.A. Story" (título original) | "Viver e Amar em Los Angeles" (título em Portugal)
Gênero: comédia, romance, fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Mick Jackson. Roteiro: Steve Martin. Elenco: Steve Martin, Victoria Tennant, Richard E. Grant, Marilu Henner, Sarah Jessica Parker, Susan Forristal, Kevin Pollak, Patrick Stewart. Distribuição no Brasil: Tri-Star Pictures / Columbia TriStar Home Video. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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.: "A Cronologia da Água" mergulha na dor e na redenção de Lidia Yuknavitch


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em sua aguardada estreia na direção de longas-metragens, Kristen Stewart escolheu o caminho mais íngreme e corajoso ao adaptar a autobiografia de Lidia Yuknavitch em "A Cronologia da Água", que estreia no Cine Arte Posto 4, o cinema da orla de Santos, no litoral de São Paulo. Longe da maquiagem que costuma pasteurizar as cinebiografias de Hollywood, o espectador é arremessado em uma narrativa fragmentada, incômoda e esteticamente provocativa. 

Exibido na prestigiada seção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o longa-metragem impactou a Riviera Francesa, de onde saiu consagrado por uma arrebatadora ovação de pé com mais de seis minutos de aplausos contínuos. É um cartão de visitas cinematográfico que posiciona Stewart não mais como a estrela infantojuvenil da saga "Crepúsculo" ou a atriz cultuada da atualidade, mas como uma realizadora destemida.

A trama esmiúça a trajetória sinuosa de Lidia, interpretada com uma entrega física e psicológica devastadora por Imogen Poots. Desde a juventude, a protagonista busca na natação e na literatura os únicos refúgios possíveis contra um ambiente doméstico asfixiante, dominado pelos abusos físicos e sexuais sistemáticos perpetrados pelo próprio pai, Mike, papel defendido pelo ator Michael Epp, sob o olhar tragicamente omisso de uma mãe alcoólatra. 

Quando a piscina deixa de ser um santuário e as aspirações olímpicas desmoronam, Lidia mergulha em uma espiral destrutiva de excessos, drogas, relacionamentos voláteis e perdas irreparáveis, incluindo o trauma de um parto natimorto. A redenção não surge por meio de milagres sentimentais, mas pela fricção com a arte, impulsionada pelo convívio acadêmico com o escritor Ken Kesey, interpretado pelo veterano Jim Belushi, e por experiências terapêuticas heterodoxas ligadas ao universo do BDSM.

A imprensa internacional especializada rapidamente rotulou a produção como um dos grandes acontecimentos cinematográficos recentes. Críticos da revista Variety elogiaram a paixão poética com que a jornada de abuso e redenção é conduzida, enquanto periódicos independentes destacaram a recusa deliberada do roteiro em enquadrar a protagonista no estereótipo limitante da vítima idealizada. 

Para alcançar essa atmosfera de intimidade documental, Stewart e o diretor de fotografia Corey C. Waters tomaram a decisão artística de rodar o filme inteiramente em película de 16mm, utilizando a proporção de tela 1,66:1. Essa escolha técnica confere às imagens uma textura granulada, orgânica e nostálgica, perfeitamente alinhada à névoa das memórias fragmentadas da escritora. O longa arrebatou prêmios importantes nos festivais de Deauville e Savannah, além de render a Kristen Stewart o Prêmio Maverick no IndieWire Honors, consolidando sua transição triunfal para os bastidores da sétima arte.


Ficha técnica
“A Cronologia da Água” | “The Chronology of Water” (título original)
Gênero: drama psicológico, biográfico. Duração: 128 minutos. Classificação indicativa: não recomendado para menores de 18 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Kristen Stewart. Roteiro: Kristen Stewart e Andy Mingo (baseado no livro de memórias de Lidia Yuknavitch). Elenco: Imogen Poots, Thora Birch, Susannah Flood, Tom Sturridge, Kim Gordon, Michael Epp, Earl Cave, Esmé Creed-Miles, Jim Belushi, Charlie Carrick. Cenas pós-créditos: não.


Cine Arte Posto 4
Av. Vicente de Carvalho, sem número - Gonzaga - Santos/SP (Posto 4, ao lado do Canal 3)
Em cartaz até dia 10 de junho
Sessões (horário especial): 15h00, 17h30 e 20h00
Funcionamento: terça a domingo (fechado às segundas-feiras)
Ingressos a R$ 3,00 (inteira) e R$ 1,50 (meia-entrada). Pagamento somente em dinheiro, temporariamente.
Telefone: (13) 3286-0297 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

.: "Delicatessen" é banquete surrealista de Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre carregou a fama de flertar com o existencialismo e a filosofia profunda, muitas vezes esquecendo o poder do puro absurdo. Quando estreou nos cinemas franceses, em abril de 1991, "Delicatessen", que agora volta em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, implodiu essa solenidade europeia com a precisão de um cutelo bem afiado. Dirigido pela dupla estreante Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro, o longa-metragem injetou um humor revigorante e uma estética visual arrebatadora no cenário internacional, conquistando rapidamente o status de cult definitivo. 

Sob a assinatura estética inspirada na fotografia monocromática de Brassaï e no lirismo caótico de Terry Gilliam - que inclusive apadrinhou o lançamento da obra na América do Norte -, o filme transforma a escassez absoluta em uma experiência cinematográfica de fartura sensorial. A trama se estabelece em um edifício dilapidado, imerso em uma França pós-apocalíptica de tons amarelados e cinzentos, onde a comida se tornou o bem mais precioso e os grãos de cereais funcionam como moeda de troca oficial. 

No térreo desse microcosmo social, opera um açougue comandado por Clapet, um senhorio brutal interpretado com maestria sádica por Jean-Claude Dreyfus. Para manter o negócio abastecido e os inquilinos devidamente alimentados, Clapet adota uma estratégia de recrutamento peculiar: publica anúncios de emprego para atrair trabalhadores desavisados, que logo se transformam na matéria-prima das iguarias vendidas no balcão. O equilíbrio dessa engrenagem macabra é colocado à prova quando Louison, um ex-palhaço de circo desempregado vivido pelo expressivo Dominique Pinon, aceita a vaga de zelador e desperta o afeto de Julie, a doce filha do açougueiro, interpretada por Marie-Laure Dougnac.

Os bastidores da produção revelam que o cerne desta sátira canibal nasceu de vivências bastante cotidianas e curiosas do próprio Jean-Pierre Jeunet. Em 1988, durante as férias nos Estados Unidos, o cineasta se deparou com uma culinária de hotel tão insossa e peculiar que brincou com a ideia de que os pratos seriam feitos de carne humana. O estalo definitivo, contudo, ocorreu quando morava no andar superior de um açougue em Paris; todas as manhãs, por volta das sete horas, o som rítmico do cutelo batendo contra o balcão ecoava em seu quarto, inspirando a criação do ritmado e claustrofóbico universo do prédio. 

Toda essa bagagem cultural e o amor por referências que vão da melancolia fotográfica de Robert Doisneau às peripécias físicas de Buster Keaton e Tex Avery foram condensados em sequências antológicas, como a sinfonia cômica que une o ranger das molas de uma cama a uma colagem de sons cotidianos do edifício. Embora uma parcela da crítica norte-americana da época tenha demonstrado certa resistência ao clímax cataclísmico e molhado do terceiro ato, o consenso crítico foi amplamente favorável, rendendo ao filme uma aceitação duradoura de 90% no agregador Rotten Tomatoes.

Para além do entretenimento excêntrico, analistas contemporâneos enxergam na obra uma alegoria ácida sobre o movimento de resistência na Europa ocupada e as dinâmicas de sobrevivência social. A consagração na temporada de premiações confirmou o talento da dupla de realizadores: "Delicatessen" arrebatou quatro prêmios César - incluindo Melhor Estreia e Melhor Roteiro Original, escrito em parceria com Gilles Adrien -, além do prêmio de Melhor Direção no Festival de Sitges e o prestigiado Prêmio de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Tóquio. É uma iguaria cinematográfica indispensável que abriu as portas do mundo para que Jeunet, dez anos mais tarde, fizesse história com o solar "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".


Ficha técnica
“Delicatessen”
Gênero: comédia, ficção científica, fantasia. Duração: 99 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Roteiro: Gilles Adrien, Jean-Pierre Jeunet e Marc Caro. Elenco: Dominique Pinon, Marie-Laure Dougnac, Jean-Claude Dreyfus, Karin Viard, Ticky Holgado, Rufus, Howard Vernon, Chick Ortega. Distribuição no Brasil: Flashstar Home Video / Continental Home Vídeo (lançamentos históricos em home video). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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.: O fantasma da autocrítica ganha voz e traço em "Todo Mundo Ama Jeanne"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema francês sempre teve uma aptidão singular para extrair graça do desespero, e a diretora Céline Devaux abraça essa tradição com uma ousadia visual refrescante. Em cartaz estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, a comédia "Todo Mundo Ama Jeanne" equilibra as dores do luto e do fracasso financeiro sob uma ótica inesperadamente leve. O longa-metragem acompanha Jeanne, interpretada por Blanche Gardin, uma empresária do ramo ecológico que vê seu projeto revolucionário de despoluição marinha afundar sob os olhares do público. Falida, cheia de dívidas e assombrada pelo recente suicídio da mãe, ela se vê obrigada a viajar para Lisboa com o objetivo de vender o apartamento da família.

A viagem ganha contornos de humor absurdo logo no aeroporto, quando Jeanne é abordada por Jean, papel de Laurent Lafitte. O sujeito é um antigo colega de escola de quem ela não guarda a menor lembrança, mas que se revela uma figura inconveniente, invasiva e dotada de uma excentricidade irresistível. Em solo português, a protagonista ainda precisa lidar com a reaparição de um antigo namorado, vivido por Nuno Lopes, enquanto tenta encontrar forças para arrumar o imóvel repleto de memórias dolorosas. A grande sacada da diretora, que estreia longas-metragens com esse filme, é dar vida aos pensamentos intrusivos de Jeanne por meio de pequenas inserções em animação. Um fantasminha cabeludo, desenhado e dublado pela própria cineasta, surge na tela para verbalizar as inseguranças e as autocríticas mais cruéis da personagem.

A inspiração para o roteiro nasceu de observações reais de Céline Devaux durante suas viagens a Portugal em meados de 2010, no auge da crise econômica europeia, quando viu amigos se desfazendo de patrimônios devido à inflação sufocante. A diretora revelou à imprensa que decidiu colocar na tela os seus maiores temores em relação ao futuro do planeta e ao luto, transformando temas densos em algo deliberadamente estranho e divertido. Outro ponto que chama a atenção na estrutura narrativa é a inversão do clássico arquétipo cinematográfico conhecido como Manic Pixie Dream Girl - aquela personagem feminina excêntrica que surge apenas para salvar o protagonista masculino de sua apatia. Laurent Lafitte assume esse papel de agente do caos terapêutico, usando a falta de noção para empurrar Jeanne de volta à vida.

Exibido originalmente na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes, o filme chama a atenção pela inventividade, embora divida opiniões quanto ao ritmo. Para parte da crítica especializada, o contraste entre o marasmo apático da atuação de Blanche Gardin e a vivacidade das animações cria um desequilíbrio na tela, fazendo com que o longa por vezes flerte com a superfície dos problemas que propõe debater. Ainda assim, a produção se destaca como um exercício criativo de empatia, no qual os coadjuvantes de peso, como a veterana atriz suíça Marthe Keller no papel da mãe falecida, garantem sustentação a uma comédia dramática que passa longe de ser convencional.


Ficha Técnica
“Todo Mundo Ama Jeanne” | "Tout le Monde Aime Jeanne" (título original) | "Toda a gente gosta de Jeanne" (em Portugal)
Gênero: comédia, drama, romance. Duração: 95 minutos.Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 14 anos Ano de produção: 2022 (lançamento no Brasil em 2024). Idioma: francês (com trechos em português). Direção e roteiro: Céline Devaux. Elenco: Blanche Gardin, Laurent Lafitte, Nuno Lopes, Marthe Keller, Maxence Tual. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não.

 nesta quinta-feira, dia 21 de maio, como uma obra rara que ultrapassa o objeto imediato - a gastronomia - para tocar em algo mais profundo: a ética do trabalho, a obsessão pela excelência e o peso silencioso da herança. Dirigido e roteirizado por David Gelb, o filme acompanha o cotidiano de Jiro Ono, mestre octogenário que transformou um balcão de dez lugares escondido em uma estação de metrô de Tóquio em um dos restaurantes mais reverenciados do mundo, agraciado com três estrelas do guia Michelin.


Gelb inicialmente concebeu o projeto como um panorama mais amplo sobre diferentes sushimen, algo que ele próprio definiu como um “Planeta Sushi”, em referência à estética grandiosa das produções da BBC. O encontro com Jiro, no entanto, deslocou o eixo do filme: não havia mais interesse em diversidade de estilos, mas na singularidade de um homem que, aos 85 anos, ainda repetia os mesmos gestos com a precisão de quem persegue um ideal inalcançável. 

A decisão deu ao documentário uma espinha narrativa mais íntima, centrada também na relação com o filho mais velho, Yoshikazu, destinado a herdar não apenas o restaurante Sukiyabashi Jiro, mas o fardo de corresponder a um padrão quase inatingível. O filme constrói sua força na repetição - tanto temática quanto estética. A trilha sonora, que inclui composições de Philip Glass, Tchaikovsky e Max Richter, ecoa a rotina do protagonista: ciclos que se reiteram, mas nunca são idênticos. Há, nisso, uma espécie de metáfora sonora para o próprio conceito de aperfeiçoamento contínuo que orienta Jiro. 

A câmera de Gelb, por sua vez, privilegia closes e movimentos lentos, quase reverenciais, que transformam o preparo do sushi em um ritual de minúcias. Não se trata apenas de comida, mas de um processo que começa na escolha rigorosa dos fornecedores - muitos dos quais se orgulham de servir exclusivamente ao restaurante - e culmina em um gesto aparentemente simples: servir.

Entre as curiosidades reveladas, uma chama atenção pela precisão quase científica do método: o sushi ideal deve equilibrar temperaturas distintas - o arroz ligeiramente aquecido à temperatura corporal e o peixe em temperatura ambiente. Pequenos detalhes como esse ajudam a compreender por que a excelência, aqui, não é um discurso, mas uma prática obsessiva. O próprio Jiro sintetiza essa filosofia em uma frase que atravessa o filme: “Eu faço a mesma coisa repetidamente, melhorando pouco a pouco”

A recepção crítica internacional confirma o impacto da obra. Com 99% de aprovação no Rotten Tomatoes e avaliações majoritariamente favoráveis no Metacritic, o documentário foi celebrado não apenas como um retrato gastronômico, mas como uma reflexão sobre disciplina e propósito. O crítico Roger Ebert, em uma de suas últimas análises marcantes, descreveu o filme como um estudo quase enigmático de um homem cuja vida parece inteiramente consumida por sua arte - uma devoção que levanta questões incômodas sobre sacrifício, realização e limites pessoais.

Exibido inicialmente no Festival de Tribeca em 2011, “Jiro Sonha com Sushi” também encontrou um público mais amplo ao ser disponibilizado em plataformas de streaming, consolidando-se como um dos documentários gastronômicos mais influentes da última década. Ainda que se passe em um espaço minúsculo - um restaurante sem luxo aparente e com poucos assentos --, o filme expande as fronteiras para discutir algo universal: o que significa dedicar uma vida inteira a fazer uma única coisa, e fazê-la melhor do que qualquer outro.


Ficha técnica
“O Sushi dos Sonhos de Jiro” | “Jiro Dreams of Sushi” (título original)
Gênero: Documentário. Duração: 82 min. Classificação indicativa: Livre. Ano de produção: 2011. Idioma: Japonês. Direção: David Gelb. Roteiro: David Gelb. Elenco: Jiro Ono, Yoshikazu Ono, Masuhiro Yamamoto. Distribuição no Brasil: (varia por relançamento/exibição). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

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