Neste quarto livro, escritora conduz o leitor por uma viagem entre fantasia, memória e história, tendo a imaginação como protagonista. Foto: divulgação
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Em um mundo que parece ter normalizado a competição, a rapidez, o sofrimento e a ansiedade, Fernando Cunha provoca as pessoas a pararem e refletirem sobre os caminhos que estão sendo trilhados pela sociedade. Autor de "O Dilema do Basilisco", uma obra filosófica que parte da pergunta “por que a humanidade não deve ser extinta?”, ele busca romper com a visão individualista do mundo para mostrar como alcançar objetivos materiais sozinho não tem significado.
No enredo, um personagem não identificado é convocado para responder a esse questionamento e defender a continuidade da própria espécie frente a uma inteligência artificial que se tornou a julgadora da população mundial. De acordo com o escritor, a publicação não tem o intuito de apresentar fórmulas prontas, mas de revelar as múltiplas perspectivas presentes em uma única pergunta.
“Respostas prontas não funcionam com o ser humano, apenas funcionam para torná-lo cheio de certezas e preconceitos. A formação da certeza enaltece o ego e depois o engessa. Para seguir essa jornada, é preciso flexibilizar um pouco a realidade, fazer com que o próprio leitor perceba quem ele é pelo espelho do protagonista”, explica ele. Compre o livro "O Dilema do Basilisco", de Fernando Cunha, neste link.
A ideia de colocar a humanidade diante de uma inteligência artificial que decide seu destino parte de um dilema filosófico bastante conhecido. Como o Basilisco de Roko se insere no seu romance?
Fernando Cunha - O Basilisco de Roko representa uma inteligência artificial soberana que controla todos os recursos e teoricamente poderia retaliar aqueles que não contribuíram para sua formação. Apesar do aspecto maligno e destrutivo sugerido pelo experimento mental, o Basilisco é apresentado no prólogo como uma entidade que pergunta e observa, sem interferência, com o potencial de julgar toda a humanidade num piscar de olhos. Nesse contexto, a ideia do Basilisco se junta ao seu conceito original de ser um monstro mitológico cujo olhar petrifica o alvo. O protagonista se apresenta para responder à pergunta diante da inteligência onipotente e onisciente.
O livro parte de uma pergunta profunda: "Por que a humanidade não deve ser extinta?". Na sua perspectiva, qual a importância de pensar sobre esse tema no mundo em que vivemos?
Fernando Cunha - A pergunta sobre a possibilidade de extinção é provocadora porque no dia a dia não temos o costume de avaliar como as nossas atitudes impactam a vida dos outros. Somos pressionados por um mundo rápido e materialista a pensar que somos especiais frente aos outros, e isso nos gera ambição, ansiedade e sofrimento. A pergunta tem um condão de machucar a visão individualista perpetuada nos dias de hoje pela necessidade de enriquecimento rápido e realizações sociais comparativas, substituindo-a pouco a pouco por uma visão mais integradora, reconhecendo que um “eu” sozinho que se destaca não significa nada.
O protagonista não tem nome. Existe um significado para essa escolha?
Fernando Cunha - A falta de identidade do protagonista é um dos pilares da obra. O fato de ele não ter identidade faz com que o leitor queira preenchê-la por conta própria. Ora o leitor se sente no papel dele, ora no papel do ouvinte Basilisco. Uma importante lição dessa escolha do autor é que o apego à identidade também é uma possível fonte de sofrimento.
O contato com o budismo também ocupa um lugar importante na sua trajetória. Como essa filosofia atravessa a construção do romance?
Fernando Cunha - A sabedoria budista talvez seja o principal pano de fundo de "O Dilema do Basilisco". O livro é sobre alguém que precisa responder uma pergunta diante do absoluto incompreensível. É exatamente isso que fazemos quando nos enveredamos para áreas como filosofia, espiritualidade e autoconhecimento. O protagonista pode representar cada um na sua jornada de evolução. Cada um tem seu próprio Basilisco para olhar nos olhos e dar a resposta que ele espera. Quando a resposta esgota todo o sofrimento, abre-se espaço para luz e felicidade. No fundo, o livro é um processo de iluminação (nirvana).
Em vários momentos, ciência e espiritualidade dialogam na narrativa. De que maneira esses campos se complementam?
Fernando Cunha - Ciência e espiritualidade são maneiras diferentes de se buscar a verdade. Mas no livro, para encontrar a verdade é preciso destruir (ou pelo menos provocar) as verdades pessoais convencionais. Os capítulos provocam as certezas que formamos ao longo da vida e das experiências humanas. Dessa forma, a mente rejuvenesce para uma mente infantil, ávida por descobertas. A mente curiosa pode remover os obstáculos dos nossos preconceitos para conseguir enxergar a verdade-última, aquela que realmente dá o sentido de todas as coisas.
Em vez de oferecer respostas definitivas, a obra apresenta perguntas. O que você espera provocar no leitor ao final da leitura?
Fernando Cunha - A ideia de não trazer respostas é a grandiosidade da obra. Respostas prontas não funcionam com o ser humano, apenas funcionam para torná-lo cheio de certezas e preconceitos. A formação da certeza enaltece o ego e depois o engessa. Para seguir essa jornada, é preciso flexibilizar um pouco a realidade, fazer com que o próprio leitor perceba quem ele é pelo espelho do protagonista. O objetivo é provocar no leitor uma quebra de identidade, de apego e de agarramento ao “em si”, para que ele nasça novamente num caminho de compaixão e sabedoria.
A estreia de "Nunca Fui Santa" na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte resgata um momento decisivo na trajetória de Marilyn Monroe. Lançado em 1956, com direção de Joshua Logan e roteiro de George Axelrod, baseado na peça homônima de William Inge, o longa-metragem coloca a estrela em um terreno menos confortável, onde charme não basta. Na trama, o caubói Beauregard “Bo” Decker (Don Murray), jovem, teimoso e completamente despreparado para relações afetivas, cruza o caminho de Cherie (Monroe), cantora de saloon que sonha com uma vida melhor. Um encontro breve vira obsessão. Convencido de que encontrou a futura esposa, ele decide levá-la para seu rancho em Montana - com ou sem consentimento. A viagem de ônibus, interrompida por uma nevasca, força os dois a encarar o que há de mais incômodo: expectativas desencontradas, desejo de liberdade e a dificuldade de reconhecer o outro como sujeito.
Joshua Logan, vindo da Broadway, conduz o filme com atenção ao comportamento dos personagens, sem pressa de resolver conflitos. O texto de Axelrod amplia a peça original e cria situações que expõem o ridículo e a fragilidade de Bo, ao mesmo tempo em que permite a Cherie escapar do estereótipo da “loira ingênua”. Monroe aproveita cada fresta. Após estudar no Actors Studio com Lee e Paula Strasberg, ela constrói uma personagem com sotaque sulista carregado, gestos contidos e um desleixo calculado no visual. A decisão de usar pouca maquiagem e abandonar o glamour habitual foi uma estratégia e tanto.
A crítica da época percebeu. Bosley Crowther, do The New York Times, escreveu que Monroe finalmente se afirmava como atriz de verdade. A indicação ao Globo de Ouro veio no mesmo embalo. Don Murray, em sua estreia no cinema, recebeu indicação ao Oscar de ator coadjuvante, sustentando com energia um personagem difícil de defender. No elenco, Arthur O’Connell e Betty Field completam o quadro com segurança, enquanto Hope Lange também inicia nesse filme a trajetória nas telas.
Nos bastidores, a produção teve tensão. Logan desconfiava da disciplina de Monroe, famosa por atrasos e inseguranças. Mudou de opinião ao longo das filmagens, chegando a compará-la a Charlie Chaplin pela capacidade de equilibrar humor e emoção. O filme também marca o retorno da atriz após um período de afastamento de Hollywood, quando rompeu com a 20th Century Fox, mudou-se para Nova York e criou a Marilyn Monroe Productions, exigindo maior controle sobre sua carreira.
"Nunca Fui Santa" não resolve todas as contradições - o romance central incomoda, a condução narrativa por vezes acelera soluções - mas permanece como registro de uma virada. O público encontra ali uma Monroe que não quer mais ser apenas imagem. Quer ser levada a sério. E, por boa parte do filme, consegue.
Ficha técnica
“Nunca Fui Santa” | "Bus Stop" (título original) | "Paragem de Autocarro" (título em Portugal). Gênero: comédia dramática, romance. Duração: 96 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1956. Data de lançamento: 1956. Idioma: inglês. Direção: Joshua Logan. Roteiro: George Axelrod, baseado na peça de William Inge. Elenco: Marilyn Monroe, Don Murray, Arthur O'Connell, Betty Field, Eileen Heckart, Hope Lange. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
A criançada pode esperar muita brincadeira, diversão e interatividade nos shows que o Grupo Triii fará para celebrar 18 anos de carreira nos dias 29 e 30 de agosto, no Teatro Sabesp Frei Caneca, com sessões às 11h00, às 14h00 e às 16h00. Além dos integrantes Marina Pittier (voz e percussão), Fê Stok (guitarra e voz) e Ed Encarnação (bateria, percussão e voz), o espetáculo "Dia de Festa" conta com participação de Cris Barulins no sábado e de Estêvão Marques no domingo. Completam a banda neste show os músicos Mari Stefani, no baixo, e Danilo Penteado, nas cordas e sanfona. O repertório da apresentação reúne os principais sucessos do Triii, como “A E I O U”, “Viro, Vira, Virou”, “O Tomate e o Caqui”, “Xote da Dona Ema”, “Bamboleia”, além das novas composições "Bichinho Fofura", "Tchururu" e "Dia de Festa" - que dá nome ao show.
Cheio de interação e brincadeiras, o show conta com a participação de mais “Is” - ou seja de Mari Stefani (baixo) e Danilo Penteado (cordas e sanfona) -, além de percussões variadas e coros divertidos e mirabolantes. O grupo surgiu a partir do encontro entre três pessoas com três coisas em comum: a amizade, a identificação musical e a admiração e respeito pelas crianças. A ideia é criar um contato direto com crianças e adultos através da música e da brincadeira, de forma sensível, divertida e criativa.
Grupo Triii
Formado por Marina Pittier (voz e percussão), Fê Stok (guitarra e voz) e Ed Encarnação (bateria, percussão e voz), o Grupo Triii surgiu em 2008. Com shows que reúnem músicas, brincadeiras e performances, a proposta do Triii é interagir com crianças e pais através da música, de forma sensível, divertida e sempre muito criativa.
Desde o seu início, o grupo realizou diversas apresentações por todo o Brasil, em teatros, SESC´s, parques, praças, centros culturais e escolas, participando também de projetos especiais ligados à educação, sempre com ênfase na música e na criatividade, envolvendo pesquisa e criação de repertório dentro do universo infantil, escolar e familiar. O grupo tem canções e livros lançados, como a Coleção Histórias que Cantam (com três Livros + CDs lançados pela Editora Melhoramentos: “Ei, ei, ei Vanderlei”, “A Sopa Supimpa” e “Pão, pão, pão”), além de outros trabalhos como “Brasil for Children” , “Dia e noite”, entre outros.
Marina Pittier é cantora. Integrante e co-fundadora do Grupo Triii, com quem lançou discos e livros. Fez parte da banda da Palavra Cantada, Barbatuques, Luiz Tatit, Antônio Nóbrega entre outros. É co-autora do livro "Brincadeiras Musicais", da Palavra Cantada e Editora Melhoramentos. Gravou nos CDs de Luiz Tatit, Palavra Cantada, Chico dos Bonecos, Lidia Hortélio, Antônio Nóbrega entre outros. Lançou seu primeiro disco solo “Presente” em 2017.
Fê Stok é cantor, compositor e produtor multi-instrumentista. É co-fundador e integrante do Grupo Triii, formado em 2008. Já fez trilhas para filmes e séries como Vila Sésamo e Lilica Ripilica, tocou com o Palavra Cantada e fez produções por encomenda para a dupla, além de ter produzido com Marina Pittier todas as músicas gravadas pelo Triii.
Ed Encarnação é músico e artista-educador, nascido no recôncavo baiano, onde pôde vivenciar durante sua infância a magia e o encantamento das festas populares com seus batuques, cantos e danças. É integrante do Grupo Triii, além de tocar com outros grupos como Palavra Cantada, com quem realizou shows, musicais infantis e oficinas de formação para educadores em diversos estados brasileiros. Hoje e sempre, acredita que a música e o conjunto dos saberes afro-brasileiros, são essenciais na educação e construção de uma sociedade mais equilibrada e próspera.
Ficha técnica
Show "Dia de Festa"
Voz e percussão: Marina Pittier
Guitarra e voz: Fê Stok
Bateria, percussão e voz: Ed Encarnação
Músicos convidados - Baixo: Mari Stefani
Músicos convidados - Cordas e Sanfona: Danilo Penteado
Convidada especial dia 29 de agosto: Cris Barulins
Convidada especial dia 30 de agosto: Estêvão Marques
Figurinos: Edith Pittier
Cenografia: Marina Pittier e Edith Pittier
Iluminador: Tiê Fabiano
Roadie: Dennys Villas Boas
Técnico de som: Junão Ferreira
Comunicação: Lucas Sancho
Redes sociais: Tatiana Agra
Identidade visual: Laércio Lopo
Fotos: Antônio Brasileiro
Marketing digital: Renato Passos
Produção executiva: Marcos Rinaldi
Produção de campo: Tayná Caldas
Gerente de projetos: Andreia Porto
Direção de produção: Fernando Padilha e Clarissa Rockenbach
Produção: Pad Rok Produções Culturais
Serviço
Show "Dia de Festa", com Grupo Triiii
Apresentações: 29 e 30 de agosto, às 11h00, às 14h00 e às 16h00
Teatro Sabesp Frei Caneca - Shopping Frei Caneca - R. Frei Caneca, 569 - Consolação / São Paulo
Ingressos: Plateia Baixa - R$140 (inteira) e R$70 (meia-entrada) | Plateia - R$120 (inteira) e R$60 (meia-entrada) | Plateia Alta - R$100 (inteira) e R$50 (meia-entrada)
Vendas on-line: https://uhuu.com/comprar-ingressos/sp/sao-paulo/grupo-triii-show-dia-de-festa-15983/#/
Duração: 60 minutos.
Classificação: livre. Menores de 18 anos, somente poderão entrar acompanhados dos pais ou responsáveis e crianças até 24 meses de idade que ficarem no colo dos pais, não pagam
Capacidade: 600 lugares
Acessibilidade: Teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Durante anos, a voz de Lhays Macedo acompanhou a infância de milhões de brasileiros em séries, filmes e animações. Agora, a dubladora conhecida por dar vida a personagens como Pikachu ("Pokémon: O Filme -Eu Escolho Você!"), Polly Papagaio ("Peppa Pig"), Lucky Prescott ("Spirit - Cavalgando Livre", da Netflix) e Lola Loud ("The Loud House", da Nickelodeon), troca os estúdios de dublagem pelas páginas de "A Camaleoa Luni". Neste livro infantil, com versão também em audiobook, a artista narra uma história que dialoga com um tema cada vez mais presente: a busca pela própria identidade.
Publicado pela Editora Mundo Cristão e com ilustrações de Laura Mocelin, o lançamento marca a estreia literária da atriz, diretora de dublagem e influenciadora, que reúne mais de 4 milhões de seguidores nas redes sociais. A narrativa transforma questões profundas em uma leitura leve, acessível e significativa para crianças e suas famílias. O enredo se passa na vila de Aguaviva, onde mora Luni, uma camaleoa capaz de mudar de cor quando quiser. Mas o que parece ser um dom extraordinário logo se transforma em um desafio. Na tentativa de ser aceita e se encaixar nos grupos ao seu redor, ela muda tanto que acaba se afastando de quem realmente é.
A partir dessa metáfora, Lhays Macedo provoca reflexões sobre pertencimento, autoestima e autenticidade. Voltado para a faixa etária de 4 a 8 anos, o livro conduz os pequenos leitores por uma jornada de autodescoberta que ganha força quando Luni parte até a misteriosa Fonte da Verdade. Ao longo do caminho, ela encontra respostas que transformam a própria visão sobre si mesma. Outro destaque são as ilustrações de Laura Mocelin, artista de projeção internacional que ilustra a aventura da personagem e o universo de Aguaviva, ampliando a experiência de leitura com imagens coloridas e divertidas.
A camaleoa Luni oferece ainda um ponto de apoio para pais, educadores e famílias que buscam conversar com as crianças sobre valores e saúde emocional. Depois de anos dando voz a protagonistas marcantes, Lhays Macedo agora encontra nas páginas um espaço para transmitir uma mensagem especial: dentro do coração, cada pessoa carrega um valor único que não depende da aprovação dos outros. Compre o livro "A Camaleoa Luni" neste link.
Sobre a autora
Lhays Macedo é atriz, dubladora e diretora de dublagem, com quase duas décadas de carreira no audiovisual. Já deu voz a centenas de personagens em filmes, séries, desenhos, animes, games e novelas, como Pikachu em "Pokémon: O Filme - Eu Escolho Você!". Dirige a dublagem do "Bible Project Português" e soma mais de 4 milhões de seguidores em suas redes sociais, criando conteúdo sobre fé, maternidade e os bastidores de sua profissão.
Sobre a ilustradora
Laura Mocelin é ilustradora e diagramadora especializada em livros infantis. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela UFFS Erechim, mas a arte tomou seu coração desde os primeiros rabiscos na infância. Hoje é representada internacionalmente pela Illo Agency e tem uma lista de mais de cem livros ilustrados.
Para além da crise pessoal, o aborto representa uma mancha no mundo burguês, limpo, ordenado e elegante, no qual Denise conseguira ingressar depois de muitos anos de escolarização e controle de suas maneiras; é um resquício do meio onde cresceu, um cenário repleto de desejo e vulgaridade. Acreditando ter chegado longe, a protagonista disseca o ambiente popular, as palavras, os modos, as diferenças de uma classe e outra, além da vergonha que sente de seus pais.
E se os temas podem parecer semelhantes aos de obras posteriores como O acontecimento, "O Lugar", "A Vergonha", o que impressiona em "Os Armários Vazios" é a linguagem rápida, entrecortada e pulsante, livre de autocensura e que urge em captar todo o vivido para que não seja esquecido, para que a verdade não seja postergada. Nele, tem-se a possibilidade de conhecer Ernaux sem as arestas aparadas. Trata-se da obra que revelou para o mundo o trabalho da autora, o qual, desde então, segue impressionando com todas as suas facetas. Compre o livro "Os Armários Vazios", de Annie Ernaux, neste link.
Sobre a autora
Annie Ernaux nasceu em 1940, em Lillebonne, na França. Estudou na Universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de 30 anos. Os livros dela são considerados clássicos modernos na França. Em 2022, Ernaux recebeu o prêmio Nobel de literatura pelo conjunto de sua obra. Compre os livros de Annie Ernaux neste link.
Sessenta anos depois de sua criação, "O Santo Inquérito", de Dias Gomes, estreia em nova montagem da Escola de Arte Dramática (EAD-ECA-USP), com direção de Abilio Tavares, de 12 a 23 de agosto de 2026, de quarta a domingo, às 20h, no TUSP, no Centro MariAntonia da Usp, em São Paulo. Escrita em 1966, a peça conta a história de Branca Dias, jovem descendente de cristãos-novos perseguida pela Inquisição na Paraíba de 1750. Ao tratar de um episódio do Brasil Colônia, Dias Gomes construía uma metáfora para o próprio momento histórico em que vivia, marcado pelos primeiros anos da ditadura militar. Em 2026, a nova montagem retoma a obra a partir de outra posição no tempo e lança uma pergunta que acompanha todo o processo de criação: por que montar "O Santo Inquérito" hoje?
“Talvez seja porque essa história ainda encontra eco no Brasil contemporâneo”, afirma Abilio. Para o diretor, depois da abertura política, textos diretamente relacionados à ditadura chegaram a parecer datados. “De uns tempos para cá, com todo esse movimento de direita, de extrema direita, essas evocações saudosistas do período da ditadura militar, esses textos voltaram a ficar muito atuais” . A montagem parte da tentativa de identificar essas conexões com o Brasil de hoje.
O diálogo com o presente aparece desde a entrada do público na sala. O elenco já está em cena, em um espaço marcado pelo rito da Inquisição, que Abilio define como um “rito de morte”. O chão é povoado por carvão e restos de carvão, como resíduos de fogueiras. “Como se fosse o resíduo de muitas fogueiras que foram queimadas, muitas liberdades, muitas histórias que foram dizimadas ali”, explica.
Cenografia e figurinos de Marco Lima também recusam uma reconstrução histórica do Brasil de 1750. Há referências pontuais ao período na roupa de Branca Dias, enquanto os personagens masculinos vestem roupas contemporâneas. A escolha desloca a ação para o presente e amplia a questão da intolerância religiosa. “Hoje em dia a intolerância religiosa não está circunscrita apenas à Igreja Católica, então a gente procurou ampliar esse espectro, abrindo possibilidades de leituras nesse sentido”, diz Abilio.
Entre as questões identificadas no processo estão a intolerância religiosa, de costumes e de modos de vida, além da resistência àquilo que é diferente. A questão da mulher também ganha centralidade. Branca Dias é perseguida por suas ideias e por sua disposição de questionar o poder estabelecido. “É uma mulher que é levada à fogueira pela Inquisição, por suas ideias, por sua ousadia de pensar fora dos cânones daquele poder estabelecido”, afirma o diretor. Para ele, a fala da personagem de que não é a primeira e nem será a última encontra ecos no cotidiano contemporâneo.
O texto de Dias Gomes é mantido integralmente, com pequenas adaptações de expressões. A única inserção é o enunciado de abertura: “Brasil hoje, Brasil Colônia, Brasil 1750, Tribunal da Inquisição, Brasil”. A partir do texto original, outra chave da montagem está na frase de Branca Dias: “Tudo é uma questão de interpretação. Depende da posição em que a gente se encontra”. Para Abilio, a fala ganhou novas camadas diante da circulação de diferentes versões dos fatos. “Depende do lado por onde você olha, você pode ter compreensões diferentes”, afirma, aproximando a questão da interpretação do fenômeno das fake news e da possibilidade de uma mesma história produzir compreensões opostas e perigosas.
A própria história da peça é marcada por diferentes interpretações. Escrita em 1966, O Santo Inquérito teve uma de suas montagens mais conhecidas em 1976, no Rio de Janeiro, sob direção de Flávio Rangel e com Isabel Ribeiro como Branca Dias. Em 1977, Rangel remontou o espetáculo em São Paulo, desta vez com Regina Duarte no papel da protagonista. Agora, seis décadas depois, uma nova geração assume a obra.
O elenco reúne sete estudantes do quarto e último ano da EAD: Abraão Kimberley, Dennys Roberty Evangelista, Felipe Andrade, Hysnaip, Marília Viana, Rodrigo Kantovitz e Vitor Ugo. A montagem não altera a dramaturgia para atualizá-la, mas estabelece o contato entre diferentes tempos por meio dos atores, da cena e do espaço. A concepção sonora, assinada por Abraão Kimberley e Abilio Tavares, utiliza referências musicais e elementos sonoros para criar atmosferas de opressão ao longo do espetáculo.
A apresentação no Tusp Maria Antônia acrescenta outra camada histórica à montagem. O edifício que hoje integra o Centro MariAntonia abrigou a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e foi, nos primeiros anos da ditadura, um importante espaço de produção intelectual e liberdade de expressão. Em 1968, o local foi palco da Batalha da Maria Antônia, conflito que culminou na morte do estudante secundarista José Guimarães e na saída da USP daquele endereço.
Para Abilio, há uma proximidade histórica entre o espaço e a obra de Dias Gomes: “O que é similar entre aquilo que o Dias Gomes estava escrevendo como resistência, como um grito de liberdade quando ele escreve O Santo Inquérito em 1966, e o que estava acontecendo naquele mesmo período aqui em São Paulo nesse histórico prédio onde o TUSP hoje está instalado”. A montagem integra a programação EAD Celebra os 60 anos da ECA, que reúne atividades da Escola de Arte Dramática, da Escola de Comunicações e Artes, do Teatro da USP, do Cinema da USP, do Centro MariAntonia e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária.
A nova a montagem procura observar o que acontece quando uma obra muda de lugar no tempo. Para Abilio, “a intolerância com a alteridade” e a mudança de posição de quem olha são as duas grandes questões que a peça apresenta ao público em 2026. A resposta para a pergunta sobre por que remontá-la hoje permanece aberta: cabe também ao espectador encontrá-la.
Ficha técnica
Espetáculo "O Santo Inquérito", de Dias Gomes
Turma 75 - Escola de Arte Dramática - EAD ECA USP
Elenco: Abraão Kimberley (Notário), Dennys Roberty Evangelista (Guarda), Felipe Andrade (Simão Dias, Hysnaip (Augusto Coutinho), Marília Viana (Branca Dias), Rodrigo Kantovitz (Visitador), Vitor Ugo (Padre Bernardo)
Encenação e direção geral: Abílio Tavares
Diretor pedagogo: Ruy Cortez
Orientação teórica: Antônio Rogério Toscano
Orientação no trabalho de voz: Mônica Montenegro
Cenário e figurino: Marco Lima
Iluminação: Mário de Castro
Assistente de iluminação: Alice Penido
Assistente de direção e operação de som: Eduardo Barros
Concepção sonora: Abraão Kimberley e Abílio Tavares
Preparação musical: Abraão Kimberley
Preparação corporal: Felipe Andrade
Cenotécnicos: Alicio Silva e Zito Rodrigues
Pintura de arte: Danndhara Soyama e Paulo Sérgio Basílio
Costureira: Silvana Carvalho
Designer gráfico: Gabriel Franco
Fotos: Manoela Rabinovitch
Produção: Abílio Tavares e Karina Cardoso
Realização: EAD - Escola de Arte Dramática e ECA – Escola de Comunicações e Artes da Usp - ECA 60 Anos
Serviço
Espetáculo "O Santo Inquérito"
Temporada: de 12 a 23 de agosto de 2026
Dias e horários: quarta a domingo, às 20h
TUSP - Teatro da Usp
Rua Maria Antônia, 294 - Vila Buarque / Sāo Paulo
Lotação 100 lugares | Duração 100 minutos | Recomendação 12 anos
Entrada Franca – Retirada de ingressos com uma hora de antecedência, na bilheteria do Teatro