sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

.: Katia Simões e Roberto Prioste dizem porque Love Story desafiou o moralismo


Em entrevista, Katia Simões e Roberto Prioste revelam como a Love Story se tornou patrimônio afetivo da noite paulistana e por que um lugar assim talvez hoje não sobrevivesse à era da vigilância digital. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Durante mais de duas décadas, a Love Story ocupou um endereço físico no centro de São Paulo - mas construiu algo muito maior do que uma pista de dança. Entre a Boca do Lixo e a Boca do Luxo, a casa atravessou transformações urbanas, crises econômicas, mudanças de comportamento e revoluções tecnológicas sem perder aquilo que a tornaria lendária: a capacidade de reunir, no mesmo espaço, fama e anonimato, desejo e discrição, excessos e códigos próprios de convivência.

Ali, travestis dividiam a pista com empresários, jovens anônimos dançavam ao lado de celebridades internacionais e mulheres frequentavam sozinhas um ambiente que, para muitos, ainda carregava o estigma da noite. Havia exageros, contradições, episódios que hoje seriam lidos sob outras lentes morais e, sobretudo, uma sensação rara de liberdade compartilhada. A Love Story era um microcosmo da São Paulo que fervia depois da meia-noite.

Agora, essa memória ganha registro no livro "Love Story - A Casa de Todas as Casas", biografia não autorizada escrita pelos jornalistas Katia Simões e Roberto Prioste. Construída a partir de mais de 25 horas de depoimentos, a obra evita tanto a romantização fácil quanto o julgamento retrospectivo. Em vez disso, propõe um mergulho documental nos bastidores de um espaço que se tornou patrimônio afetivo da cidade e que talvez só pudesse existir antes da era da vigilância permanente.

Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, Katia Simões e Roberto Prioste falam sobre os riscos de narrar uma história sem controle institucional, os silêncios que encontraram pelo caminho, a fama de “puteiro” que o livro confronta e a pergunta inevitável: a Love Story acabou porque o tempo mudou - ou será que o tempo mudou porque lugares como a Love Story deixaram de existir? Compre o livro "Love Story - A Casa de Todas as Casas" neste link.

Resenhando.com - Ao optar por uma “biografia não autorizada”, vocês se libertaram de controles, mas também assumiram riscos. Em algum momento pensaram: isso aqui talvez não devesse ir para o papel e decidiram ir mesmo assim?
Katia Simões - A intenção sempre foi retratar um ícone importante da noite paulistana, e não invadir a vida pessoal dos frequentadores e das pessoas envolvidas no negócio, muito embora seja natural que, em alguns momentos, seja difícil realizar essa separação.
Roberto Prioste - Usar a expressão uma “biografia não autorizada” foi uma necessidade. Alguns relatos se referiam a terceiros. Embora a maioria das histórias foi checada, há ótimos relatos que não conseguimos cruzar as informações. Mesmo assim foram mantidos. Um exemplo é o caso do frequentador que se passava por delegado de polícia e certa vez levou na conversa até o Delegado Geral.


Resenhando.com - A Love Story aparece no livro como um território onde fama e anonimato coexistiam sem hierarquia. Hoje, numa era de stories, câmeras e vigilância constante, um lugar assim ainda seria possível?
Katia Simões - Não existe mais anonimato, vivemos num eterno Big Brother desde que as redes sociais ganharam voz e os celulares registram cada passo. Enquanto os flagrantes eram feitos apenas com máquinas fotográficas, os seguranças davam conta de inibir os “bisbilhoteiros” já na revista. Depois, com a chegada dos celulares, a tarefa ficou mais árdua, até se tornar impraticável. Não há mais espaço para uma casa noturna com o perfil do Love Story, tanto pela mudança dos costumes, quanto pelo uso massivo da tecnologia.
Roberto Prioste - Entendo que não. Hoje vivemos num mundo cercado por olhos e ouvidos eletrônicos.


Resenhando.com - O livro evita romantizar a noite, mas também não a demoniza. Como foi o equilíbrio entre documentar excessos e preservar a potência libertária que a Love Story representava?
Katia Simões - A noite abordada no livro, que é a da música, da diversão, do lazer, da paquera, não tem de ser demonizada. O que procuramos traduzir foi a atmosfera noturna paulistana que não existe mais. Vale observar que o que hoje é excesso, naquela época não era visto como tal, o que não significa que não havia. O livro retrata passagens envolvendo drogas, bebedeiras, brigas e até armas dentro do contexto da época.
Roberto Prioste - Foi justamente documentando excessos (bebidas/substâncias/atitudes) que conseguimos preservar a potência libertária. Porque a abordagem ousada, por exemplo, ao mesmo tempo em que era tolerada pela sociedade, no Love era combatida. Não era não! Várias mulheres contam passagens que confirmam essa postura e por isso se sentiam livres naquele ambiente.
 

Resenhando.com - Entre mais de 25 horas de depoimentos, o que chamou mais atenção: o motivo das pessoas que não quiseram falar ou o das histórias que nunca haviam sido ditas antes?
Katia Simões - Acredito que as duas coisas. Recebemos com surpresa a negativa de vários grupos, que eram assíduos frequentadores da casa, como os jogadores de futebol. Embora suas passagens foram registradas na mídia, preferiram ficar calados. Histórias surpreendentes também vieram à tona e nos ajudaram a rechear a narrativa.
Roberto Prioste - Na minha percepção, sem dúvida, foram as histórias nunca contadas. Ainda que reveladas sob pseudônimo ou aquelas em que preservamos a identidade do famoso ou do empresário.


Resenhando.com - A Love Story atravessou Boca do Lixo e Boca do Luxo. Em que momento vocês perceberam que estavam contando, na verdade, uma biografia da própria São Paulo e não apenas de uma boate?
Katia Simões - Porque a Love Story era um recorte de um retrato maior do que acontecia na noite, na sociedade e na São Paulo das décadas de 1990 e 2000. Ali estavam representados os perfis e trajetórias mais diversos. Homens, mulheres, nativos e estrangeiros, migrantes e imigrantes, homossexuais, prostitutas, doutores, banqueiros, trabalhadores da noite, artistas, ricos e pobres, como acontece na capital que abraça a todos.
Roberto Prioste - Foi quando as pessoas começaram a verbalizar, para além das histórias de azaração, o carinho com a Love Story. Quando revelavam memórias incrivelmente emocionais. Foi aí que percebemos que estávamos diante de um patrimônio imaterial da cidade de São Paulo.


Resenhando.com - Muitos relatos apontam a Love como um espaço de igualdade radical, onde roupa, profissão ou status social não importavam. Isso era um projeto consciente da casa ou um efeito colateral da noite bem vivida?
Katia Simões - Não acredito que seja um projeto consciente, mas resultado dos sentimentos de liberdade e alegria que as pessoas dividiam na pista. Na LS todos eram recebidos da mesma maneira, com as honras da casa.
Roberto Prioste - Não foi consciente, por óbvio. Entendo que ninguém constrói sozinho - e aqui eu me refiro à alma do Love, o tio João - um espaço tão democrático. Mas foi, efetivamente, o efeito colateral de uma atitude coletiva: receber e tratar bem a todos. Existe uma frase lendária que resume tudo. No Love ia do porteiro ao Garnero (Álvaro).


Resenhando.com - O pacto de discrição parece ter sido um dos grandes segredos da Love Story. O que esse cuidado com a privacidade revela sobre a relação entre desejo, liberdade e espetáculo naquela época?
Katia Simões - Até a chegada da internet o pacto da discrição funcionou. Não era permitida a entrada com máquina fotográfica, filmadoras, os seguranças barravam. Com a chegada dos celulares, contudo, ficou impossível controlar, restringir ao Love o que acontecia no Love.
Roberto Prioste - Estamos falando de um pacto não escrito. A certeza do anonimato (não se entrava com máquinas fotográficas) fazia com que jovens e casais abastados, do interior e da capital, se divertissem tranquilamente juntos e misturados com garotas de programa, malandros. Sem falar nas damas da sociedade e de casadas que iam ao Love viver fantasias, dançar nos famosos queijinhos (os pequenos palcos) sem qualquer pudor. Isso é bastante revelador.


Resenhando.com - Ao ouvir depoimentos tão diversos - de artistas a frequentadores anônimos -, houve alguma versão da Love Story que contrariou frontalmente a memória afetiva que vocês mesmos tinham da casa?
Katia Simões - A memória afetiva e a ligação com a Love Story entre quem viveu a casa nos anos 1990 e na primeira década dos anos 2000 é muito diferente das recordações de quem frequentou a pista nos seus últimos anos. Talvez esteja aí alguns pontos contraditórios.
Roberto Prioste - Pelo menos duas gerações passaram pela Love Story. A do Love raiz, da década de 1990, e a do gourmet, após 2010. É claro que quem viveu uma, estranha a outra. Pessoalmente, ao ouvir alguns relatos, revisitei memórias de quando era um jovem estudante e circulava de vez em quando pela Boca do Luxo. Calçadas cheias, neon, paqueras, carros em baixa velocidade. Estava tudo lá. Agora, existiu a fama, quase senso comum, de que o Love era um puteiro. Nesse ponto o livro vai contrariar a percepção de muitos, principalmente daqueles só conheceram o Love por fora.


Resenhando.com - O livro documenta uma época em que a noite era lugar de invenção social. Vocês enxergam a Love Story como um espaço político, mesmo sem jamais se assumir como tal?
Katia Simões - Era um espaço de contestação de costumes, não de política. Bem diferente dos tempos atuais de polarização em todos os lugares.
Roberto Prioste - O livro cobre um longo período. Portanto, diverso social e politicamente. Não ouvimos relatos que corroborem com a tese, a não ser na questão de costumes. Mas podemos entender como um ato político o fato de mulheres frequentarem o Love sozinhas, sem medo. Ou trans e travestis expressando preferências e condutas sem qualquer repressão.


Resenhando.com - Depois de escrever "A Casa de Todas as Casas", o que ficou mais evidente: que a Love Story acabou porque o tempo mudou ou que o tempo mudou porque lugares como a Love Story deixaram de existir? As pessoas mudaram de lá para cá? 
Katia Simões - O LS acabou porque o tempo mudou, os costumes são outros, a tela do celular encurtou distâncias, mudou a maneira como as pessoas se conhecem e se relacionam. A noite, assim como a cidade, se tornou mais violenta. Hoje, as pessoas estão menos tolerantes, mais preconceituosas e pouco dispostas a saírem da própria bolha. Embora se fale tanto de diversidade - mais na teoria, do que na prática -, o Love por décadas fez da diversidade uma marca registrada.
Roberto Prioste - Acabou porque os tempos são outros. E não estou olhando para a degradação do centro ou para a violência. Hoje, ninguém precisa sair de casa para paquerar, comer ou se divertir. Está tudo na palma da mão. E sim, as pessoas mudaram. Tanto que sentimos necessidade de alertar o leitor sobre termos usados por entrevistados que denotam cargas de machismo, homofobia, enfim... Conceitos e posições comuns e aceitáveis à época, mas que hoje são impensáveis.


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