Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
Há poucas casas no país, é preciso encontrar terreno. Há poucos lares no país, é preciso erguer moradias. Há no país uma legenda: sem-terra se mata com tiro. E no país há também uma lei: a propriedade privada é inviolável. Não se pode tomá-la, mas se pode matar para protegê-la. Penso ser de suma importância proteger a propriedade de inquilinos indesejados. Por isso, sou a favor do despejo. Não há lágrimas que segurem um morador inadimplente. Que importa que parta para as ruas? Que importa que durma ao relento? Dá-se-lhe duas bordoadas no pé da orelha para que se vá e aprenda a dizer “Estrelas, para que vos quero, senão para que me sirvam de lençol?”, e vida que segue.
Foi por isso que, num passado distante, libertaram os escravizados a toque de caixa. Antes, vê-los livres rapidamente do que donos de terra. Repartir significaria empobrecer, uma puta sacanagem com quem se esforçou para possuir, ainda que não usufruísse do naco de terra que angariou. Portanto, viva aos abolicionistas! Viva aos homens de bem que mandaram os negros às ruas!
Pelo mesmo motivo, dia desses, desmanchei umas casinhas de marimbondo - ou vespa, não sei - que apareceram nas telas de proteção de minha janela e sacada. Pois minha propriedade, ainda que alugada, é privada e, portanto, posso matar por ela. Economia e sociologia à parte, acho marimbondos fofinhos, embora me pele de medo. Sobretudo, depois de descobrir a variedade que há deles.
Lembro-me do dia em que dirigia para o trabalho e, na subida da Ponte do Mar Pequeno, uma vespa-oleira invadiu o carro. Meus músculos se contraíram só um tantinho - juro por Deus -, as mãos sufocaram o volante e desabei para o acostamento. Com sopros suaves, cheios de gratiluz, encaminhei a mocinha para a janela e respirei aliviado (e talvez borrado).
Esse povo que não tem propriedade adora invadir a propriedade alheia. Começa assim, chegando devagar, sorrateiro, e vai ocupando espaço, como em “Casa tomada”, do Cortázar. E tem disso em toda espécie: crianças abandonadas, orquídeas hospedeiras, rêmoras no tubarão, gatinhos de rua (a Cecília, lá de casa, é uma), e até marimbondos marombeiros. Estávamos na faxina das férias, quando a Pietra, minha esposa, convocou-me à sacada:
— Olha aquilo ali na tela — apontou, receosa.
Mirei a trama de segurança. Umas bolinhas de barro amontoadas e grudadas. Na janela ao lado, outras.
— Isso é casa de marimbondo — decretei na força do ódio-proprietário que ser inquilino me proporciona.
— Não sei — ponderou ela, já puxando do celular para pesquisar pelo Google Lens, dado o seu espírito sherlockiano.
Eram casinhas de vespas. Armei-me de uma bela vassoura e, zás!, está salva a propriedade. De dentro das bolinhas, saíram larvas verdes. O gérmen do MTST ali, querendo brotar: o parasita do meu lar alugado, o inquilino de minha propriedade comprada a cada mês, sem garantia de permanência. A noite geral prossegue, a manhã custa a chegar. Mas chegou. Foi nesse último final de semana, domingo. Eu estava prestes a sair de casa para ir à farmácia, quando a Helena gritou:
— Pai! Uma formiga vermelha voando! — retraiu-se no sofá.
Outro invasor, pensei. Não era. Era, na verdade, uma vespa, uma maldita vespa - ou marimbondo, não sei -, pairando no ar, tal como um helicóptero criminoso. Enchi o peito e parti para a guerra contra o inseto proletário. O chinelo saltou para a minha mão e alcançou o bicho-inquilino que, certamente, já queria erguer nova morada em minha não-propriedade. Lançado ao chão violentamente, ele agonizava. Como bom sinhô que sou, espragatei-o, torci o chinelo sobre o chão, e fim. Quando descobri, contemplei o resultado: cabeça para um lado, corpo para o outro.
Parti feliz para a farmácia. Minutos depois, recebi um vídeo da minha esposa. A cabeça do inquilino ainda se mexia, esticando a língua para fora. Pouco importa. Exerci o meu direito: matei. Está salva a propriedade, ainda que eu continue a ser nela o principal inquilino.













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