domingo, 17 de maio de 2026

.: Rei Lear no teatro, Alexia Twister leva Shakespeare ao risco e quebra tradição


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: divulgação

Não é exatamente um gesto discreto escalar uma drag queen para viver "Rei Lear" como centro de gravidade de uma tragédia que ainda costuma ser tratada com luvas no teatro brasileiro. A escolha desloca mais do que a encenação: mexe na ideia de autoridade, na forma como o poder se apresenta em cena e no tipo de corpo que se autoriza a desbravar esse repertório.

Em “Rei Lear”, montagem dirigida por Inês Bushatsky a partir da adaptação de João Mostazo, Alexia Twister assume o papel-título sem buscar neutralidade. O que aparece é outra camada de leitura: mais exposta, mais direta, sem a blindagem que costuma acompanhar o clássico. A tragédia permanece, mas ganha novas tensões quando passa por uma linguagem que surgiu fora das instituições e aprendeu a operar no confronto. O que se vê é um reposicionamento: trazer o texto de volta ao risco, ao contato com o público, à instabilidade que sempre esteve ali. 

Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, Alexia Twister fala de técnica, de trajetória e do que acontece quando o reconhecimento institucional cruza com uma linguagem que nunca se acomodou totalmente dentro dele.


Resenhando.com - "Ao assumir o papel-título de Rei Lear, você não apenas interpreta um rei - você implode uma tradição. Em que momento você percebeu que não estava “ocupando” o personagem, mas reescrevendo o próprio imaginário de poder no teatro?

Alexia Twister - Muito boa a pergunta. Implodir tradições, é o trabalho da drag. Reescrever o imaginário social, a binariedade já é o que a drag faz em si. Subverte o que é dito "de homem" e o que é " de mulher", e ainda questiona com humor: - Quem foi que te disse que não pode? A drag já contém esta linguagem transgressora e popular. Então... penso que já estava posto, era esta a proposta. E se o fiz de maneira a humanizar esta personagem de quatrocentos anos, devo a Inês Bushatsky, nossa diretora, João Mostazo quem adaptou o texto do Shakespeare, e claro ao elenco todo. Tive muita troca com artistas como eu e isso faz toda a diferença.


Resenhando.com - Existe algo de perigosamente arriscado em colocar uma drag queen para viver a ruína de um patriarca. O que em William Shakespeare ainda resiste - e o que já não sobrevive - quando é atravessado pelo seu corpo em cena?

Alexia Twister - Eu penso que Shakespeare é popular e a drag também. A comédia e a tragédia estão na drag e em Shakespeare.

O patriarca ser representado pela drag é propor amplamente questões ligadas a sociedade. Propor novas, outras representações. Não somente de poder e patriarcado, mas de masculinidade também. Eu acredito que a ideia de teatro burguês colocou Shakespeare e outros autores clássicos em um lugar elitista, quando a verde é que Shakespeare é a inspiração para outras histórias populares até hoje. E com a linguagem drag, aproximamos as pessoas dos textos clássicos. Tem muita tragédia no glamour. E é aí que eu me encontro. Em uma história tão humana, que nos identifica e atravessa o tempo e a linguagem. Nos tempos de Shakespeare, ir ao teatro era um grande evento, que durava o dia todo e as vezes chegava até a noite. A locomoção das pessoas era longa e complicada, então tinha que ser longo. Hoje, com tantas mídias, o entretenimento e a arte precisaram atualizar suas diretrizes. Mas ainda há espaço para contar boas histórias clássicas, sem perder a essência real da ideia inicial.


Resenhando.com - Você insiste que a drag não é ornamento, mas linguagem. O que ainda falta para que o teatro brasileiro pare de tratar corpos dissidentes como estética e passe a respeitá-los?

Alexia Twister - Existem muitos fatores que colaboram para um pensamento, digamos, mais conservador no teatro. Podemos falar sobre uma hierarquia teatral, onde a comédia me parece considerada menor que a tragédia. E há um pensamento "cômico " que envolve a drag. Outro ponto fala sobre a nascente da arte transformista. Hoje temos mulheres cisgênero, que são drag queens, mas sabemos que antes era uma arte inteiramente ligada a homens gays e mulheres trans e travestis. E infelizmente há este preconceito dentro do teatro mais tradicional. Penso que a lingua é um organismo vivo, que expressa a nossa necessidade de comunicação. Por tanto, ela se transforma moldada a imagem e necessidades da nossa sociedade.


Resenhando.com - Sua trajetória começa quando “drag queen” ainda era chamada de "transformista". O que se perdeu - e o que se sofisticou - nesse deslocamento de nome e de percepção?

Alexia Twister - Eu gosto muito do termo transformista, porquê é um termo latino, nosso. O termo "drag queen" vem da gringa, ainda nos anos 80, no final desta era. Mas vem com uma nova roupagem acerca da arte transformista. Eu costumo dizer que são termos diferentes para a mesma arte, mais uma maneira diferente de "contar a mesma história". Alguns dirão que a drag é o exagero e a transformista não. Outros dirão que drags são mais coloridas, transformistas tem a maquiagem mais baixa. Mas nem sempre esses conceitos são seguidos... Por isso eu acho ótimo. Porquê tudo se torna mais subjetivo ainda. Algo como a arte, que fala da verdade de um artista. Com sua assinatura e conceito próprios. De verdade.


Resenhando.com - Há um momento em "Rei Lear" em que tudo desaba: poder, sanidade, afeto. Como Alexia Twister negocia, em cena, a linha tênue entre performance e colapso real?

Alexia Twister - Lear, sem dúvida é a personagem mais complexa que já tive a oportunidade de viver, pelo menos até aqui. São nuances, quebras e tudo isso a gente sustenta através da técnica. De um pensamento interno, a parte do artista, mas criado a partir dele, que pensa e age como Lear. Criado com base nos meus estudos e meu arcabouço particular de experiências. Que tem fonte interna, mas que quer chegar ao público com verdade.


Resenhando.com - Ao ganhar o Prêmio Shell, você entra para uma história que sempre pareceu não ter espaço para corpos como o seu. O reconhecimento institucional domestica a radicalidade da sua arte ou a amplia?

Alexia Twister - Não creio que domestique a minha arte. Acredito que crie uma nova realidade a partir desta conquista. Que não é só minha, mas de toda uma ancestralidade que me trouxe até aqui. E a partir disso, eu construo um novo lugar, de onde será possível chegar pelas gerações futuras. Claro, o caminho nem sempre é dentro de um pensamento constante. Mas ter ganho um prêmio tão importante, torna-se um marco de possibilidades, ampliando o leque de manifestações artísticas que utilizam a arte drag como expressão. 


Resenhando.com - Existe um risco de a arte drag, ao ganhar visibilidade e aplauso, ser absorvida pelo mesmo sistema que antes a marginalizava. Em que medida o sucesso de Alexia Twister ainda consegue ser subversivo e quando ele começa a ser conveniente demais?

Alexia Twister - Ótima pergunta. Eu vejo que isso já acontece. E claro a drag torna-se um produto interessante e consumível. Mas como costumo dizer. Quem viu uma drag, definitivamente não viu todas as drags. E ao mesmo tempo que ela ocupa o streaming, ocupa o bar, a boate, a escola, o teatro, a cozinha. O encanto da subjetividade da drag , em si, reconstrói em esfera totalmente diferentes a subversividade da nascente drag.


Resenhando.com - Entre a boate, o streaming e o teatro, sua carreira atravessa espaços que operam com lógicas muito distintas de público e validação. Em qual área sua arte corre mais risco?

Alexia Twister - É interessante, mas não vejo risco na arte drag. Digo na área de atuação. Porque na vida, o risco a violência é constante e real. Boate, streaming, teatro são áreas distintas de ação. Para cada uma um caminho diferente. Talvez por ser uma arte com apelo visual tão forte, no realismo a drag pode sofrer mais alterações, para caber dentro desta estética. Mas mesmo assim, a drag ainda cabe.


Resenhando.com - Ao levar "Rei Lear" para um elenco inteiramente drag, há um jogo entre excesso e contenção. Como você equilibra o gesto grandioso da drag com a densidade trágica de Shakespeare sem cair na caricatura?

Alexia Twister - Eu tenho a boa sorte de uma boa direção. A Inês Bushatsky, nossa diretora compreende e sabe como mesclar muito bem o exagero da drag com a densidade da tragédia. Outro ponto é o texto. Para além do texto do Shakespeare, a adaptação de João Mostazo, se mantém fial ao texto original, mas nos dá indicações de onde propor a drag. E justamente por ser popular, que a drag tem oportunidade de brilhar em textos clássicos.


Resenhando.com - Depois de 30 anos de drag e mais de três décadas de palco, o que ainda assusta você, e o que você faz com esse medo quando as luzes acendem?

Alexia Twister - Eu penso que o próprio medo de quando as luzes se acendem é o que me sustenta. O questionamento a cerca de uma personagem que nasce a partir do texto e do olhar da direção e de elementos da minha experiência e técnica. Como dizem grandes veteranos, quando achar que sabe tudo é porquê ainda há muito o que aprender. Poucas coisas assustam quem faz da arte drag o seu "como". A mentira escolhida para a sua expressão artística. Porque antes de tudo, ser drag queen, já é um ato de resistência. E para resistir é preciso coragem e amor.

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