terça-feira, 28 de julho de 2026

.: Fafy Siqueira: 50 anos de carreira em comédia que discute etarismo e TDAH


Sob direção de Isser Korik e idealização da atriz e produtora Rachel Gollassi, o espetáculo Já Dizia Minha Vó! estreia dia 2 de agosto no Teatro Uol, transformando questões sociais delicadas em comédia leve e emocionante. Foto: 
Saymon Sampaio

O riso é a ferramenta que aproxima gerações em "Já Dizia Minha Vó!": uma comédia que une humor, reflexão e impacto social. Idealizado a partir de uma proposta inicial de Gilberto Tadeu - pai da atriz Rachel Gollassi -, o espetáculo nasceu inspirado pelas histórias diversas de sua avó paterna, Dona Nilza. A peça estreia dia 2 de agosto, domingo, no Teatro Uol, em São Paulo, marcando os 50 anos de carreira de Fafy Siqueira. Com texto de Tiago Luchi e direção de Isser Korik, reúne no palco Fafy e a idealizadora Rachel Gollassi. O espetáculo conta com Gil Teles na assistência de direção, preparação corporal de Tito Soffredini - com base nas técnicas de Klaus Viana - concepção visual e figurinos de Marisa Rebollo, iluminação de César Pivetti e trilha de Wagner Bernardes.

A trama gira em torno da relação entre uma avó moderna (Dona Irene) e sua neta vulnerável (Gabriela). Enquanto a jovem busca forças para sair de um relacionamento tóxico, sua avó enfrenta o desafio de reingressar no mercado de trabalho e lidar com o preconceito contra a idade. De forma leve e acessível, o espetáculo aborda temas atuais e relevantes, como o combate ao etarismo e a importância de as mulheres fortes se apoiarem, promovendo a igualdade de gênero e o empoderamento feminino e despertando no público a consciência de que experiência, afeto e solidariedade são ferramentas poderosas de transformação.

O resgate da linguagem de interpretação do Teatro Popular na direção
O diretor Isser Korik é quem equilibra humor e reflexão em cena. Entusiasta do texto, ele destaca que a dramaturgia de Luchi tem ritmo natural e convida à interpretação. “'Já Dizia Minha Vó!' é aquele tipo de texto que dá vontade de atuar. Fiquei muito feliz com o convite para dirigir, porque é uma oportunidade de trabalhar de forma muito direta com as atrizes, mais focado na interpretação que na encenação".

O objetivo de Korik foi reforçar o vínculo afetivo entre avó e neta sem perder a agilidade do texto e o tom de comédia. Para isso, recorreu aos 40 anos de pesquisa em Teatro Popular Brasileiro, escola que estuda desde 1985, quando foi discípulo de Carlos Alberto Soffredini. O trabalho da linguagem de interpretação é reforçado pela parceria com Tito Soffredini na preparação corporal das atrizes, baseada na técnica de Klaus Viana. A concepção visual de Marisa Rebollo, a iluminação de César Pivetti e a trilha sonora de Wagner Bernardes buscam uma teatralidade deslocada do realismo, visando principalmente a diversão e o conforto pela plateia.


Leveza, humor e reflexão social
A comédia trata o preconceito de idade com leveza, mostrando como essa barreira limita e exclui profissionais valiosos no mercado. Ao dar voz a personagens que enfrentam esse cenário, o espetáculo estimula uma reflexão sobre convivência entre gerações e sobre valores como respeito e inclusão.

Embora a personagem Gabriela não tenha sido inspirada nas vivências de Rachel Gollassi, a atriz e idealizadora encontrou pontos de conexão com o papel durante o processo de ensaios. Ela esclarece que a história foi criada de forma totalmente independente pelo autor, mas que acabou gerando uma identificação posterior.

"O mais curioso é que o Tiago não conhecia minha história pessoal. Depois percebi que muitas das experiências da Gabriela dialogavam com as minhas, porque eu já vivi um relacionamento tóxico e compartilho alguns conflitos internos parecidos com os dela. Durante o processo de construção da personagem, passei a me identificar com algumas características associadas ao TDAH". Sem diagnóstico formal, a atriz pesquisou o tema a fundo para estruturar a personagem.

O espetáculo conta com o apoio da campanha "TDAH Levado a Sério", da Apsen, patrocinadora da temporada, e busca tratar o transtorno com responsabilidade. A produção defende que TDAH e ansiedade exigem acolhimento, terapia e acompanhamento — não rótulos. O interesse da Apsen em apoiar o projeto está ligado ao compromisso da farmacêutica com saúde e bem-estar, temas que aparecem na trama de forma orgânica, como nos cuidados de saúde que fazem parte da rotina de Dona Irene.

Fafy Siqueira e os 50 anos de palco
Depois de cinquenta anos de carreira, Fafy Siqueira pode escolher os projetos que aceita. O texto de Tiago Luchi a conquistou pela precisão das piadas. "O que me fez escolher esse texto foi a qualidade das piadas. Ver um texto de humor com piadas assim interessantes, elegantes e inteligentes, hoje em dia, é muito difícil. Isso para mim foi o fundamental".

Interpretar a elegante Irene trouxe também uma mudança bem-vinda. Depois de anos em papéis de TV que exigiam abrir mão da vaidade em nome do escracho, Fafy comemora viver uma mulher de 70 anos refinada, bem-vestida, quase uma "Meryl Streep da vida".

Fafy também comenta o etarismo enfrentado por sua personagem. Seu nome consolidado a protege de ser preterida individualmente, mas ela aponta que a indústria ainda erra ao não dar protagonismo a atores mais velhos, relegando-os com frequência a papéis de avós coadjuvantes. Por isso, o papel principal de Dona Irene é raro.

Entre o palco e a realidade, a atriz se diverte ao traçar a linha que a separa da personagem. "Eu não tive filhos porque não quis, mas tenho uma maternidade na minha alma muito grande. Outra coisa que tem de Fafy na Dona Irene é a alegria: a Dona Irene acredita na vida, a Fafy acredita na vida."

Personagens ditando o ritmo
Para evitar o tom panfletário, o autor Tiago Luchi revela que seu norte criativo foi deixar que o humor nascesse organicamente do choque geracional, e não de piadas sobre os temas em si. "O maior desafio foi justamente esse: não deixar que os temas conduzissem a história. Eu sempre parti das personagens.  A Gabriela vive tudo de forma intensa, impulsiva e imediata. Já a Dona Irene olha para a vida com a tranquilidade de quem já errou muito e aprendeu com isso. O choque entre essas duas formas de enxergar o mundo cria situações naturalmente engraçadas".

Segundo Luchi, a virada de chave foi construir uma identificação com as vivências da dupla, blindando a dignidade das personagens acima da piada fácil para fazer o público rir e, ao mesmo tempo, refletir. "Sempre tive o cuidado de que o público risse das situações e se identificasse com as personagens, nunca das suas dores. Acho que essa foi a chave para preservar a leveza. Eu queria que o espectador saísse do teatro com a sensação de ter dado muitas risadas, mas percebesse, já no caminho de casa, que também refletiu sobre a própria vida".

Ficha técnica
Espetáculo  "Já Dizia Minha Vó!"
Texto: Tiago Luchi. Colaboração: Ruan Reis. Direção: Isser Korik. Diretor Assistente: Gil Teles. Elenco: Fafy Siqueira e Rachel Gollassi. Idealização: Gilberto Tadeu . Participação Especial: Genezio de Barros, Fernanda Lorenzoni e Anastácia Custódio. Cenografia e Figurinos: Marisa Rebollo. Desenho de Luz: Cesar Pivetti. Trilha Sonora: Wagner Bernardes.  Preparação Corporal: Tito Soffredini. Preparação Vocal: Alessandra Zalaf. Coreografia de Sapateado: Carla Vasquez. Cenotécnica: Casa Malagueta.Direção de Produção: Maristela Bueno. Produção Executiva: Tiago Luchi e Rachel Gollassi. Produtor: Thomas Marcondes. Operador de Luz: Rodrigo Pivetti. Contrarregra: Pedro Sousa. Coordenação Administrativa: Art’ssi Produções e L Ponto Produções. Prestação de Contas: Pipoca Cultural. Design Gráfico e Redes Sociais: Gigi Prade. Gestão de Tráfego: Thiago Marques. Fotografia Artística: Saymon Sampaio. Assessoria de Imprensa: Arteplural - M. Fernanda Teixeira e Mauricio Barreira. Landing Page: Ivan Brasileiro. Vídeo de IA: Guil Valente.

 

Serviço
Espetáculo "Já Dizia Minha Vó!"
Teatro Uol - Shopping Pátio Higienópolis. Av. Higienópolis, 618 – Consolação. Estreia: 2 de agosto,  domingo, 18h. Temporada: de 2 de agosto a 25 de outubro. Sessões: sábados e domingos, às 18h. Ingressos: R$ 150,00 (inteira) e R$ 75,00 (meia-entrada). Ingressos Populares: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada).

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