sexta-feira, 6 de novembro de 2026

.: Manual Crônico: Preâmbulos, o que seria da vida sem eles?


Thiago Sobral
é escritor e autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá. Também publica semanalmente a coluna "Ao rés-do-chão" no Substack. 

Penso que todo aquele que se pretende ao apodo de cronista precisa dar-se bem com preâmbulos. Afinal, o que fazemos aqui, despretensiosamente, é ou não é um preâmbulo dos fatos sérios e importantes — e que, por vezes, fingimos ignorar — dado à luz por nossa pena como de suma urgência e importância?

Dito isso, quero hoje fazer uma apologia aos tipos do cotidiano que são capazes de preambular qualquer notícia ou conhecimento proferido como se fosse fruto da mais pura originalidade pessoal, ou uma grande descoberta de seu genuíno exercício reflexivo. Frases longas, empoladas, cravadas por apostos, intercaladas por orações subordinadas das mais várias, floreadas por vocábulos empoeirados, salpicadas por um léxico rebuscado, tal qual o Cultismo barroco tão falado por Antônio Vieira.

Há de se considerar que um preâmbulo bem elaborado, dotado de sintaxe indireta, dando ao sujeito o cabo da oração, e ao predicado, as maiúsculas do início, destacando os adjuntos adverbiais e adnominais, formando sintagmas esplendorosos, é capaz de elevar à máxima potência qualquer ideia sórdida que venha à mente de um ser simplório que arroga a si o direito autoral e a plena erudição.

Pois bem. Preâmbulos cansam, e não está mais aqui quem deles falou.

Mas hoje, lembrei-me de alguns colegas de vida e de ofício que são bons em prefaciar o óbvio. Nem sempre são frases longas, mas sempre são jaculatórias que provocam o suspense ante à grande revelação prestes a ser feita. Vejam só: estas linhas aqui deitadas ao papel pretendem chegar aos vossos olhos a fim de que vejam, leiam e contemplem algo raro, complexo e há muito tempo esquecido — a crônica.

Os néscios dirão que minha crônica é óbvia, mas não é. Num mundo letrado como o nosso, nesta temporada da humanidade em que mais letrados há em toda a nossa história, os feeds livrescos consumidos aos montes raramente dão palco para o cronista, mestre dos preâmbulos. E se aqui vem semanalmente o cronista dizer o óbvio, o leitor educado há de lhe dar ao menos uma forçada educação e consideração lendo-lhe as palavras que aqui se desperdiçam.

Ainda que eu tente frequentemente, jamais alcançarei um certo colega que dava ares superiores às mais vis e medíocres afirmações que fazia.

— Agora, vou te falar uma coisa que tu não sabe — dizia ele: — se você considerar que Maria se casou com José naquele ano, e que José se casou com Maria nesse mês daquele mesmo ano, e que os dois juntos tiveram um filho, essa criança vai ser, presta bem atenção: — o suspense no ar — essa criança vai ser filha de José e Maria, e eles serão seus pais — e o sorriso desatava-lhe largo no rosto.

Preâmbulos, meus amigos, Pre-âm-bu-los! Afinal, o que seria da vida sem os preâmbulos?
← Postagem mais recente Postagem mais antiga → Página inicial

0 comments:

Postar um comentário

Deixe-nos uma mensagem.

Tecnologia do Blogger.