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terça-feira, 19 de maio de 2026

.: Filme de encerramento em Veneza, “O Jardim Americano” aposta no suspense


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

“O Jardim Americano” chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte  como mais um capítulo da longa e inquieta trajetória do cineasta italiano Pupi Avati que, aos quase 90 anos, insiste em revisitar fantasmas, sejam eles pessoais, estéticos e narrativos. Exibido como filme de encerramento do 81º Festival de Veneza, em setembro de 2024, o longa-metragem reafirma o fôlego de um autor que atravessa décadas sem abdicar das próprias obsessões: a memória, o desejo e aquilo que escapa à lógica.

Baseado em romance homônimo escrito pelo próprio Avati, o filme tem roteiro assinado por ele em parceria com o filho, Tommaso Avati, o que reforça o caráter íntimo e autoral do projeto. A trama acompanha um jovem escritor - interpretado por Filippo Scotti - que, entre lembranças fragmentadas e projeções quase delirantes, se vê atravessado por uma paixão súbita e por um desaparecimento que conecta Itália e Estados Unidos. O que começa como uma história de amor à primeira vista logo se converte em uma investigação sinuosa, marcada pelo silêncio, pela ausência e por uma crescente sensação de deslocamento.

A narrativa se ancora em um tempo difuso, que transita entre o passado da guerra e um presente igualmente instável, enquanto o protagonista tenta reconstruir os rastros de uma enfermeira americana por quem se apaixonou. Ao chegar aos Estados Unidos, ele encontra não apenas o vazio deixado por essa mulher, mas também um cenário que desmente as próprias expectativas: um interior americano árido, distante do imaginário idealizado. Esse estranhamento funciona como motor dramático para o retorno à Itália e para o mergulho em uma trama que envolve crimes, julgamentos e figuras ambíguas.

Se o roteiro aposta em digressões e nem sempre sustenta a tensão prometida, a força do filme está em na atmosfera dele. A fotografia em preto e branco de alto contraste, assinada por Cesare Bastelli, confere à obra um verniz gótico que remete aos trabalhos mais sombrios de Avati, especialmente aqueles que dialogam com o suspense psicológico e o horror. A direção de arte acompanha essa proposta, criando imagens que parecem suspensas entre o sonho e a decomposição, como se cada cenário carregasse o peso de uma lembrança mal resolvida.

Conhecido por pela versatilidade, Avati revisita um território inquietante. Há um esforço evidente em explorar a mente do protagonista, recorrendo a imagens oníricas e a uma narrativa que flerta com o surreal. No centro dessa engrenagem está Filippo Scotti, que sustenta o filme com uma atuação sensível e contida. O ator, já conhecido por “A Mão de Deus”, encontra no filme um papel que exige presença constante. Ao seu redor, nomes como Rita Tushingham, Roberto De Francesco e Chiara Caselli compõem um elenco que reforça o caráter melancólico da obra.


Ficha técnica
“O Jardim Americano” | “L’orto Americano” (título original) 
Gênero: romance, mistério. Duração: 107 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: Italiano e inglês. Direção: Pupi Avati. Roteiro: Pupi Avati, Tommaso Avati. Elenco: Filippo Scotti, Roberto De Francesco, Rita Tushingham, Armando De Ceccon, Chiara Caselli.Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming de quem leva cinema a sério
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

.: Clássico, "Trapézio" transforma o amor em risco mortal no alto do picadeiro


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o drama “Trapézio” é um clássico de apelo popular que equilibra espetáculo e melodrama sob o risco constante da queda. Dirigido por Carol Reed, cineasta consagrado por “O Terceiro Homem”, o longa-metragem é baseado no romance “The Killing Frost”, de Max Catto, com roteiro assinado por James R. Webb e adaptação de Liam O’Brien. No centro da narrativa, Burt Lancaster interpreta Mike Ribble, um trapezista marcado por um acidente que interrompeu sua carreira no auge. A entrada de Tino Orsini (Tony Curtis), jovem ambicioso disposto a aprender o perigoso triplo mortal, reativa não só o talento, mas também as feridas do veterano. A equação se complica com a chegada de Lola (Gina Lollobrigida).

No romance original, as relações entre os personagens sugerem camadas de desejo e conflito que o cinema dos anos 1950 não poderia explicitar. O filme suaviza essas tensões, mas não as elimina por completo. Elas permanecem ali, insinuadas, como um movimento interrompido no ar. O filme se ancora em uma estrutura aparentemente simples - o triângulo amoroso - para tensionar temas mais espinhosos, como ambição, vaidade e traição. Para além da superfície romântica, há uma disputa silenciosa por protagonismo, reconhecimento e sobrevivência em um ambiente onde o erro custa caro. 

A produção foi filmada majoritariamente no Cirque d’Hiver, em Paris, o que confere autenticidade às sequências circenses. Lancaster, que antes da carreira no cinema havia sido acrobata, realizou boa parte das próprias cenas, insistência que resultou, inclusive, em uma lesão nas costas durante as filmagens, atrasando a produção. Ainda assim, o ator manteve-se envolvido nas sequências mais exigentes, reforçando a dimensão quase obsessiva de seu personagem.

Visualmente, “Trapézio” explora o contraste entre o brilho do espetáculo e a precariedade dos bastidores. A fotografia de Robert Krasker - colaborador de Reed em “O Terceiro Homem” - aposta em enquadramentos vertiginosos que simulam a perspectiva do próprio trapezista: olhar para baixo nunca foi tão desconfortável. O uso do Technicolor intensifica esse jogo entre fascínio e perigo, transformando o picadeiro em palco de ilusões e conflitos.

Recebido com entusiasmo pelo público da época, o filme figurou entre as maiores bilheterias de 1956 nos Estados Unidos e teve desempenho expressivo também no Reino Unido. A crítica, por outro lado, dividiu-se. Enquanto vozes como a da revista The New Yorker destacaram a energia da direção e o magnetismo de Lancaster e Lollobrigida, o The New York Times, em texto de Bosley Crowther, considerou a trama previsível e os diálogos pouco inspirados. 


Ficha técnica
“Trapézio” | "Trapeze" (título original) 
Gênero: drama, romance. Duração: 1h45. Classificação indicativa: livre (à época, equivalente ao selo Approved). Ano de produção: 1956. Idioma: inglês, italiano. Direção: Carol Reed. Roteiro: James R. Webb, Liam O’Brien (baseado em obra de Max Catto). Elenco: Burt Lancaster, Tony Curtis, Gina Lollobrigida, Katy Jurado, Thomas Gomez. Distribuição no Brasil: não especificada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte


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