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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

.: "Um Espírito Baixou em Mim" junta Steve Martin e Lily Tomlin no mesmo corpo


Comédia de Carl Reiner transforma uma tentativa de transferência de alma em um duelo físico entre dois personagens incompatíveis e marca a última parceria do diretor com Steve Martin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A morte pode até ser inevitável, mas, em "Um Espírito Baixou em Mim", de Carl Reiner, ela está longe de ser o fim dos problemas. A comédia de 1984 chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte com Steve Martin e Lily Tomlin em uma das situações mais absurdas do cinema americano dos anos 1980: dois personagens incompatíveis obrigados a dividir o mesmo corpo. É uma premissa que poderia facilmente virar uma bobagem descartável, mas encontra em Martin um intérprete disposto a transformar cada movimento do personagem numa pequena catástrofe física.

Roger Cobb é um advogado que vive uma existência bastante menos interessante do que gostaria. Durante o dia, trabalha no escritório; à noite, alimenta o sonho de se dedicar à música. A rotina ganha contornos definitivamente estranhos quando ele assume o caso de Edwina Cutwater, uma milionária excêntrica que está morrendo e pretende transferir sua alma para o corpo da jovem Terry Hoskins, interpretada por Victoria Tennant. O plano parece suficientemente extravagante, mas Hollywood ainda tinha algumas cartas na manga.

O ritual dá errado e Edwina acaba dentro do corpo de Roger, ocupando apenas um dos lados. A partir daí, o advogado passa a disputar pernas, braços, voz e movimentos com a mulher que mal consegue suportar. A engenhoca funciona principalmente porque Steve Martin se entrega de corpo inteiro ao exercício. O ator precisa representar Roger, representar Edwina e, em vários momentos, representar Roger sendo tomado pelas vontades de Edwina. A comicidade nasce do controle corporal, dos gestos desencontrados e da tentativa de fazer parecer natural aquilo que, por definição, é completamente ridículo. 

Lily Tomlin, por sua vez, participa de uma brincadeira curiosa: depois da morte de Edwina, sua presença aparece sobretudo pela voz e pelos reflexos, enquanto Martin carrega fisicamente a personagem. O resultado exige dos dois atores um jogo de timing bastante preciso. A dupla recebeu indicações ao Globo de Ouro de 1985 nas categorias de atuação em comédia ou musical, reconhecimento que ajuda a dimensionar o impacto das performances na época. O filme foi dirigido por Carl Reiner, cineasta que já havia trabalhado com Martin em "O Panaca", "Cliente Morto Não Paga" e "O Médico Erótico". "Um Espírito Baixou em Mim" encerrou essa parceria cinematográfica entre os dois, que transformaram a persona cômica de Martin em matéria-prima para diferentes tipos de maluquice.

O roteiro de Henry Olek e Phil Alden Robinson parte do romance inédito "Me Two", de Edwin Davis. Segundo o catálogo do American Film Institute, o projeto chegou a circular durante a produção com os títulos provisórios "Me, Two" e "Me, Too", antes de assumir o definitivo "All of Me". A mesma fonte registra que a versão cinematográfica foi baseada no romance não publicado de Davis e teve lançamento nos Estados Unidos em 21 de setembro de 1984. Também chama atenção a participação de Victoria Tennant como Terry Hoskins. Durante as filmagens, a atriz conheceu Steve Martin, e os dois se casaram em 1986, permanecendo juntos até 1994. Tennant ainda voltaria a trabalhar com Martin anos depois, em "L.A. Story", de 1991. 

"Um Espírito Baixou em Mim" tem aquela aparência assumidamente oitentista de uma comédia que não precisa explicar demais o absurdo para colocá-lo em movimento. Algumas soluções envelheceram, certos efeitos denunciam a época e o humor pode provocar reações bem diferentes de quem chega ao filme hoje. Ainda assim, a proposta central continua funcionando quando Martin e Tomlin estão em cena, sobretudo porque a história encontrou um terreno perfeito para o talento físico do ator. Não por acaso, Martin ganhou em 1985 os prêmios de melhor ator da National Society of Film Critics e do New York Film Critics Circle pelo trabalho no filme, enquanto também disputou o Globo de Ouro ao lado de Lily Tomlin.


Ficha técnica
"Um Espírito Baixou em Mim" | "All of Me" (título original) | "Almas do Outro Mundo" (título em Portugal)
Gênero: comédia e fantasia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa no Brasil: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 21 de setembro de 1984 nos Estados Unidos. Idioma: inglês. Direção:Carl Reiner. Roteiro: Phil Alden Robinson e Henry Olek, baseado no romance "Me Two", de Edwin Davis. Elenco: Steve Martin, Lily Tomlin, Victoria Tennant, Madolyn Smith Osborne, Richard Libertini, Dana Elcar, Jason Bernard, Selma Diamond, Eric Christmas, Gailard Sartain, Neva Patterson, Michael Ensign e Peggy Feury. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos, porém há uma sequência musical durante os créditos finais. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

.: Drama "Julgamento em Nuremberg”: a Justiça como instrumento de um regime

Com Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift e Maximilian Schell, clássico de Stanley Kramer revisita o julgamento de magistrados nazistas e coloca a própria ideia de Justiça no banco dos réus

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

O streaming Belas Artes À La Carte recebe “Julgamento em Nuremberg”, clássico dirigido por Stanley Kramer em 1961, um dos grandes dramas judiciais do cinema americano e uma produção que reuniu Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell e Judy Garland. Inspirado no chamado “Julgamento dos Juízes”, realizado em Nuremberg depois da Segunda Guerra Mundial, o filme desloca a atenção dos grandes líderes nazistas para homens que ajudaram a transformar a Justiça alemã em instrumento de perseguição. A questão que move a narrativa continua incômoda: o que acontece quando a lei passa a servir ao poder em vez de proteger o indivíduo?

Na trama, o juiz americano Dan Haywood, interpretado por Spencer Tracy, chega à Alemanha ocupada para presidir o julgamento de quatro magistrados acusados de colaborar com o regime nazista. O processo coloca frente a frente o promotor Tad Lawson, vivido por Richard Widmark, e o advogado de defesa Hans Rolfe, papel de Maximilian Schell, enquanto depoimentos e provas revelam como decisões tomadas dentro dos tribunais contribuíram para legitimar esterilizações, perseguições raciais e assassinatos. O filme se passa em 1948, um ano depois do julgamento histórico que serviu de base ao roteiro, alteração feita por Abby Mann para incorporar ao drama o clima da Guerra Fria e a crescente pressão política por uma reaproximação com a Alemanha.

É nessa distância entre a letra da lei e a responsabilidade de quem a aplica que Stanley Kramer concentra sua força. “Julgamento em Nuremberg” não se limita a reconstruir um episódio histórico. O roteiro de Abby Mann, vencedor do Oscar, pergunta até onde pode ir a obediência de um funcionário do Estado e em que momento seguir uma ordem, uma norma ou uma legislação deixa de ser uma justificativa. A Biblioteca do Congresso, ao incluir o filme no National Film Registry em 2013, destacou justamente essa dimensão: a produção amplia o debate sobre os responsáveis pela administração da Justiça e sobre o dever de preservar direitos humanos mesmo quando eles entram em choque com interesses nacionais.

O elenco transforma esse embate jurídico em matéria dramática de primeira grandeza. Spencer Tracy conduz a história com uma atuação contida como o juiz Haywood, enquanto Maximilian Schell imprime ao advogado Hans Rolfe uma combinação de inteligência, agressividade e convicção. Schell havia interpretado o mesmo personagem na versão televisiva de “Judgment at Nuremberg”, exibida pelo programa “Playhouse 90”, da CBS, em 1959, e acabou permanecendo no papel mesmo depois de Marlon Brando manifestar interesse em assumir a função. A escolha se mostrou decisiva: Schell ganhou o Oscar de Melhor Ator.

Montgomery Clift e Judy Garland aparecem em momentos particularmente dolorosos do julgamento. Clift interpreta Rudolph Petersen, testemunha cuja experiência revela a violência praticada pelo sistema nazista, enquanto Garland vive Irene Hoffmann, personagem que presta um depoimento devastador. O filme ainda reserva a Marlene Dietrich uma presença de enorme força como Madame Bertholt, viúva de um general alemão executado por crimes de guerra. A atriz chegou a ter dificuldades para realizar uma das cenas porque discordava profundamente da ideia defendida por sua personagem sobre a suposta ignorância dos civis alemães em relação às atrocidades cometidas durante a guerra.

Uma das cenas mais lembradas pertence a Spencer Tracy. O discurso final do juiz Haywood dura cerca de 11 minutos e foi filmado em uma única tomada, com câmeras posicionadas simultaneamente para garantir a cobertura necessária. A decisão de Kramer preservou a continuidade da atuação e evitou interromper a concentração do protagonista. O resultado é uma das passagens mais emblemáticas do filme e demonstra por que o trabalho de Tracy permanece no centro da memória de “Julgamento em Nuremberg”.

A produção também incorporou imagens reais dos crimes cometidos nos campos de concentração. A Biblioteca do Congresso chama atenção para os cerca de sete minutos de material documental inseridos no filme, recurso que aproxima a ficção das provas históricas apresentadas dentro do tribunal. Essa combinação entre representação dramática e imagens documentais ajudou a dar ao julgamento uma dimensão particularmente perturbadora para o público de 1961.

A liberdade tomada pelo roteiro em relação aos acontecimentos históricos é considerável. O julgamento real dos juízes ocorreu em 1947 e teve 16 acusados, enquanto Abby Mann condensou a história em quatro réus e combinou características de diferentes figuras históricas. A mudança para 1948 também permitiu que a narrativa incorporasse o golpe comunista na Tchecoslováquia e a tensão crescente entre Estados Unidos e União Soviética. O AFI Catalog registra a origem do projeto no telefilme exibido em 1959 e a posterior adaptação de Mann para o cinema.

Essa dimensão de reconstrução histórica ajuda a compreender por que o filme permanece tão discutido. Bosley Crowther, do “The New York Times”, reconheceu na época a força do trabalho de Kramer e observou que a produção conseguia dizer muito sobre uma questão que continuava a exigir atenção. Décadas depois, o “Los Angeles Times” voltou a destacar o desempenho de Tracy e a maneira como o roteiro de Mann transformava a memória dos crimes nazistas em um conflito moral e jurídico.

“Julgamento em Nuremberg” também carrega uma curiosidade cinematográfica rara: Maximilian Schell venceu o Oscar de Melhor Ator embora apareça apenas como o quinto nome na ordem dos créditos principais. O filme recebeu 11 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Direção, Ator para Spencer Tracy, Ator Coadjuvante para Montgomery Clift e Atriz Coadjuvante para Judy Garland, além de categorias técnicas. As duas estatuetas foram para Schell e Abby Mann.

O reconhecimento institucional veio muitos anos depois. Em 2013, a Biblioteca do Congresso selecionou “Judgment at Nuremberg” para preservação no National Film Registry, que reúne obras consideradas cultural, histórica ou esteticamente significativas para o cinema dos Estados Unidos. A escolha reforça a permanência de um filme que nasceu ligado a um acontecimento específico, mas encontrou no tribunal uma maneira de discutir algo muito maior: a responsabilidade individual quando instituições inteiras decidem obedecer ao poder.


Ficha técnica

“Julgamento em Nuremberg” | “Judgment at Nuremberg” (título original)
Gênero: guerra, histórico e drama jurídico. Duração: 186 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1961. Data de lançamento: 14 de dezembro de 1961. Idioma: inglês e alemão. Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich, Montgomery Clift, Maximilian Schell, Judy Garland, William Shatner, Werner Klemperer, Torben Meyer e Martin Brandt. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 6 de outubro de 2026

.: Streaming: “Solitário” invade o campo irlandês e faz o medo bater à porta


Drama dirigido por Eamonn Murphy acompanha fazendeiro viúvo cuja rotina muda depois que sua casa é invadida; produção independente foi totalmente financiada pelos próprios realizadores 

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Na Irlanda rural, onde a rotina parece obedecer ao relógio das vacas, das visitas ao pub e das tarefas da propriedade, uma invasão doméstica é suficiente para mudar a relação de um homem com o próprio lugar onde vive. É a partir desse desconforto que “Solitary”, drama dirigido e escrito pelo irlandês Eamonn Murphy, constrói uma história sobre envelhecimento, medo, violência e a dificuldade de pedir ajuda. O filme chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte

Gerry Herbert interpreta Brendan, um fazendeiro viúvo que vive sozinho na periferia de uma pequena vila. Acostumado à própria rotina, ele administra a propriedade, cuida do gado, encontra conhecidos e tenta seguir adiante depois da morte da mulher. A sensação de segurança começa a ruir quando sua casa é invadida e a violência passa a rondar a comunidade.

O ponto de interesse do filme está na maneira como Murphy transforma uma situação aparentemente simples em uma experiência cada vez mais angustiante. Durante o dia, “Solitary” se comporta como um drama rural sobre um homem envelhecendo em um mundo que já não lhe oferece a mesma sensação de pertencimento. À noite, porém, a conversa muda de tom. A casa ganha outra dimensão e a produção se aproxima do suspense, flertando com o terror à medida que Brendan fica sozinho diante de qualquer ruído, sombra ou possibilidade de uma nova invasão.

A mudança não é mero truque de gênero. O próprio Murphy explica que pensou a estrutura dessa maneira: enquanto Brendan está acompanhado, existe alguma sensação de proteção; quando a noite chega e ele fica por conta própria, o medo passa a comandar a narrativa. O diretor, curiosamente, não nasceu no interior. Murphy é de Dublin e passou parte das férias de infância e juventude visitando familiares no interior da Irlanda. A experiência acabou ajudando na construção de uma paisagem rural bastante específica, algo que chamou a atenção do público durante as primeiras exibições. 

“Solitary” também carrega uma história de produção que daria facilmente outro filme. Murphy começou a trabalhar no roteiro em 2012, quando ainda estava na faculdade, mas abandonou o projeto por não conseguir encontrar a forma certa para a história. Dez anos depois, enquanto morava em Berlim, voltou ao material e encontrou o caminho que procurava. O roteiro ganhou nova forma e acabou dando origem ao primeiro longa-metragem dele.

A empreitada foi praticamente uma operação de guerrilha. Murphy e o produtor Alan Breslin bancaram a produção, que teve um orçamento estimado em apenas € 60 mil. Segundo o diretor, moradores da região também ajudaram na realização, oferecendo colaboração e estrutura para que o filme pudesse existir. A dimensão artesanal da produção não impediu uma trajetória bastante expressiva em festivais.

A estreia aconteceu no Galway Film Fleadh, em julho de 2025, e “Solitary” foi reconhecido como Melhor Filme Independente Irlandês. Depois, no Festival de Arras, na França, conquistou o Golden Atlas - Grand Jury Prize, principal prêmio da competição. O reconhecimento combina com uma proposta que aposta pouco em pirotecnia e bastante na observação de um personagem. Gerry Herbert sustenta Brendan com uma interpretação contida, adequada a um homem que parece ter aprendido a guardar quase tudo para si. Cailum Carragher e Cate Russell completam o trio principal, enquanto o elenco ainda conta com Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes.

A produção também tem uma particularidade curiosa: Murphy acumula funções. Além de escrever e dirigir, ele assina a montagem do filme. David Christopher Lynch responde pela direção de fotografia e Jonathan Casey pela música. A combinação contribui para que “Solitary” mantenha uma unidade estética bastante pessoal, especialmente quando a luz natural do campo dá lugar aos interiores escuros da casa de Brendan.

No fim das contas, o filme encontra seu melhor material no desconforto de um homem que quer continuar dono da própria vida enquanto o corpo, a idade e as circunstâncias começam a impor outras regras. A violência externa é o estopim, mas a história cresce quando Brendan percebe que talvez a maior dificuldade seja admitir que precisa de alguém por perto. Para um filme produzido com recursos tão modestos, “Solitary” chega ao streaming com uma credencial respeitável: passou por festivais importantes, ganhou prêmios e encontrou uma maneira bastante econômica de transformar uma casa, uma fazenda e algumas noites mal dormidas em matéria-prima para um drama que vai ficando cada vez mais sombrio. Às vezes, basta uma porta arrombada para a vida inteira parecer menos segura.


Ficha técnica
“Solitário” | “Solitary” (título original)
Gênero: drama. Duração: 86 minutos. Classificação indicativa: não informada para o lançamento brasileiro. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 11 de julho de 2025, na Irlanda; data de estreia no Brasil no Belas Artes à La Carte não localizada em fonte pública confiável. Idioma: inglês. Direção: Eamonn Murphy. Roteiro: Eamonn Murphy. Elenco: Gerry Herbert, Cailum Carragher, Cate Russell, Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: "O Libertino" recupera Johnny Depp em papel provocador e mostra decadência


Dirigido por Laurence Dunmore, drama de época acompanha o poeta John Wilmot, vivido por Depp, entre escândalos, sexo, literatura e uma paixão que muda o rumo de sua vida

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Inglaterra da Restauração ganha contornos pouco comportados em "O Libertino", drama histórico dirigido por Laurence Dunmore que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte. Lançado originalmente em 2004, o filme coloca Johnny Depp na pele de John Wilmot, 2º Conde de Rochester, poeta, aristocrata e personagem célebre por transformar o desprezo pelas convenções sociais em uma espécie de método de vida. Na corte de Carlos II, Rochester circula entre bebida, mulheres, provocações e escritos que incomodam justamente por atingirem quem está acostumado a mandar. O rei, interpretado por John Malkovich, decide recorrer ao velho amigo quando precisa de uma peça capaz de impressionar a corte francesa. A encomenda, porém, encontra um homem muito mais interessado em seus próprios excessos do que em cumprir qualquer obrigação real.

A situação ganha outra dimensão quando Rochester conhece Elizabeth Barry, interpretada por Samantha Morton, uma atriz ainda pouco conhecida que ele decide preparar para os palcos. A relação entre os dois começa como uma espécie de parceria artística, mas rapidamente ganha contornos afetivos e sexuais. Enquanto Lizzie desenvolve uma presença cada vez mais forte como atriz, Rochester segue numa trajetória de autodestruição que cobra uma conta bastante alta.

O filme nasceu no teatro. O roteiro de Stephen Jeffreys é baseado na própria peça "The Libertine", escrita pelo dramaturgo inglês e anteriormente encenada pela Steppenwolf Theatre Company, de Chicago. John Malkovich já havia interpretado Rochester nos palcos e, na adaptação cinematográfica, passou para o outro lado da história ao assumir Carlos II. Além de atuar, o astro também aparece entre os produtores da produção.

Johnny Depp também não teria sido a primeira opção de Laurence Dunmore para o protagonista. A ideia inicial do diretor era contar com o próprio Malkovich como Rochester, antes de o ator assumir o papel do rei. A escolha acabou criando uma curiosa troca de posições entre a montagem teatral e o filme: Malkovich conhecia profundamente o personagem principal, enquanto Depp mergulhou no aristocrata libertino com uma composição que exigia tanto extravagância quanto degradação física.

A proposta visual de Dunmore também foge do acabamento elegante que costuma acompanhar dramas ambientados na aristocracia. O filme foi realizado quase todo com câmera na mão, recurso que aproxima o espectador da sujeira, da fumaça e da desordem daquela Londres. As tomadas panorâmicas do interior do teatro são algumas das exceções e funcionam como uma mudança calculada de perspectiva.

A fotografia de Alexander Melman segue a mesma lógica. Para iluminar determinadas cenas, a equipe criou estruturas com várias velas e uma superfície refletora, batizadas nos bastidores de "birthday cakes". A iluminação precisava produzir luz suficiente sem abandonar a aparência característica de um ambiente iluminado por velas. O resultado divide opiniões até hoje: enquanto alguns espectadores consideram a imagem propositalmente áspera e coerente com o universo de Rochester, outros enxergam excesso de granulação e pouca definição. 

A produção também guarda uma daquelas histórias que parecem ter sido inventadas por alguém com senso de humor peculiar. O orçamento registrou £6.890 em óleo vegetal utilizado para produzir fumaça e neblina. A planilha ainda contabilizou £3.672 gastos em 17 pênis artificiais inspirados no século XVII. É o tipo de informação que ajuda a imaginar a quantidade de trabalho necessária para recriar uma época em que o diretor claramente não pretendia esconder os excessos de seu personagem.

A vida de John Wilmot, por si só, já oferecia material suficiente para um filme bastante indigesto. Poeta satírico e figura conhecida pela conduta escandalosa, Rochester morreu aos 33 anos, vítima das consequências de uma vida marcada pelo abuso de álcool e pela sífilis. A reputação literária, contudo, cresceu depois de ele morrer, o que acrescenta uma ironia particularmente adequada ao personagem: o homem que tratava a própria existência como uma provocação acabou conquistando reconhecimento duradouro justamente por aquilo que escrevia.

"O Libertino" não tenta tornar Rochester agradável. O próprio personagem avisa o público logo no começo que não quer ser querido. A estratégia reaparece no encerramento, numa construção que aproxima o espectador diretamente do protagonista e reforça a origem teatral do material. Essa escolha foi bastante comentada nas avaliações do filme, com espectadores destacando a força da abertura e da atuação de Depp.

O elenco acompanha a aposta. Samantha Morton encontra em Elizabeth Barry uma personagem que cresce conforme aprende a dominar o palco e, sobretudo, a não se deixar reduzir às vontades de Rochester. Rosamund Pike interpreta Elizabeth Malet, esposa do protagonista, enquanto Tom Hollander vive o dramaturgo George Etherege. Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly e Jack Davenport completam o elenco.

John Malkovich merece atenção especial. Existe algo de deliciosamente contraditório na escalação de um ator que já havia vivido Rochester no teatro para interpretar o monarca que tenta controlar os estragos provocados pelo amigo. Carlos II conhece os excessos do poeta, tolera muitos deles e, ao mesmo tempo, precisa impedir que Rochester leve suas provocações longe demais.

O resultado é um filme deliberadamente desconfortável, com humor ácido, sexo, doença, literatura e uma visão pouco decorativa da aristocracia inglesa. "O Libertino" chegou ao público cercado por opiniões divididas, especialmente em razão da fotografia carregada, do ritmo e da forte presença do texto teatral. Ainda assim, a atuação de Depp aparece como um dos pontos mais elogiados nas avaliações, ao lado do trabalho de Samantha Morton, John Malkovich e da recriação visual do período.


Ficha técnica:
"O Libertino" | "The Libertine" (título original)
Gênero: drama histórico, biografia. Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2004. Data de lançamento: 18 de novembro de 2005 no Reino Unido; no Brasil, 7 de julho de 2006. Idioma: inglês. Direção: Laurence Dunmore. Roteiro: Stephen Jeffreys. Elenco: Johnny Depp, Samantha Morton, John Malkovich, Rosamund Pike, Tom Hollander, Richard Coyle, Rupert Friend, Kelly Reilly, Jack Davenport, Francesca Annis, Paul Ritter, Stanley Townsend e Johnny Vegas. Distribuição no Brasil: a confirmar para o lançamento na plataforma Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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terça-feira, 22 de setembro de 2026

.: “Os Deuses Malditos” expõe a família que se vendeu ao poder nazista


Clássico de Luchino Visconti mergulha na decadência de uma dinastia industrial alemã enquanto o nazismo transforma disputas familiares em um jogo de sobrevivência

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A chegada de “Os Deuses Malditos” ao streaming Belas Artes À La Carte recoloca em circulação um dos filmes mais provocadores de Luchino Visconti. Lançado em 1969, o drama acompanha a derrocada dos von Essenbeck, uma poderosa família alemã ligada à indústria siderúrgica, enquanto o nazismo avança e reorganiza as relações de poder no país. Inspirado livremente na trajetória de grandes famílias industriais alemãs, especialmente os Krupp, o filme transforma a mansão aristocrática em palco para ambição, traição, assassinato e oportunismo.

A história começa em 1933, quando Joachim von Essenbeck, patriarca do clã, reúne os familiares e anuncia mudanças no comando de seu império. A decisão provoca uma disputa interna que ganha contornos cada vez mais brutais. Enquanto alguns personagens tentam preservar seus privilégios, outros percebem na ascensão de Adolf Hitler uma oportunidade para ampliar poder e fortuna. O resultado é uma sucessão de alianças frágeis, conspirações e mortes que acompanha a consolidação do regime nazista até a Noite das Facas Longas.

Visconti não se limita a reconstituir acontecimentos históricos. O interesse dele está também na maneira como uma elite econômica reage diante de uma nova configuração política. A família von Essenbeck, embora fictícia, remete aos grandes grupos industriais alemães que mantiveram relações com o regime. O filme usa essa família como uma espécie de laboratório moral, no qual dinheiro, parentesco e poder entram em combustão à medida que os personagens percebem que colaborar com o novo regime pode ser bastante conveniente.

A referência aos Krupp é recorrente na fortuna crítica sobre o filme, mas “Os Deuses Malditos” não deve ser tomado como uma reconstituição literal da história dessa família. A própria construção dos personagens mistura referências históricas e elementos de tragédia familiar. A comparação com “Macbeth”, de William Shakespeare, também aparece na leitura crítica da obra, sobretudo pela sucessão de assassinatos, manipulações e disputas pelo poder.

O elenco reúne Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Umberto Orsini, Charlotte Rampling e Florinda Bolkan. Helmut Berger interpreta Martin von Essenbeck, personagem que se tornou um dos grandes cartões de visita de sua carreira. A produção também marcou uma das primeiras aparições importantes de Florinda Bolkan no cinema, no papel de Olga. IMDb confirma ainda a participação de nomes como Renaud Verley, René Koldehoff e Albrecht Schönhals.

Berger ganhou especial projeção com Martin, personagem que concentra boa parte do caráter teatral e perturbador do filme. Uma das cenas mais conhecidas mostra o personagem interpretando uma canção associada a Marlene Dietrich, momento que já foi destacado pela crítica como exemplo da maneira extravagante com que Visconti trabalha aparência, sexualidade, poder e representação. A sequência aparece também em análises contemporâneas do filme publicadas pelo British Film Institute.

A trilha sonora de Maurice Jarre acompanha esse universo de excessos com uma música igualmente grandiosa. Na fotografia, Pasqualino De Santis e Armando Nannuzzi ajudam a construir a atmosfera visual da produção, enquanto Ruggero Mastroianni assina a montagem. O roteiro foi escrito por Nicola Badalucco, Enrico Medioli e o próprio Visconti. “Os Deuses Malditos” também abriu o que ficou conhecido como a “trilogia alemã” de Visconti, seguida por “Morte em Veneza” (1971) e “Ludwig” (1973). O British Film Institute observa que os filmes tardios do cineasta frequentemente trabalham com a ideia de ordens sociais em processo de decadência, e situa “Os Deuses Malditos” dentro dessa investigação histórica sobre o desaparecimento de um determinado mundo europeu.

A recepção internacional do filme foi marcada por reconhecimento e controvérsia. Visconti, Badalucco e Medioli receberam indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 1970. Helmut Berger também foi indicado ao Globo de Ouro como revelação masculina. No cinema italiano, Visconti recebeu o Nastro d'Argento de melhor diretor. O conteúdo sexual e a violência provocaram problemas com órgãos de classificação em diferentes países. Nos Estados Unidos, a produção chegou a receber classificação X e posteriormente teve essa classificação alterada para R depois de cortes. A repercussão ajuda a explicar por que o filme continua sendo lembrado tanto por sua construção dramática quanto pelo modo frontal com que Visconti aborda os excessos de seus personagens.

Também chama atenção o fato de “Os Deuses Malditos” ter sido construído em inglês e alemão, apesar de ser uma produção dirigida por um italiano. A ficha técnica registra Itália e Alemanha Ocidental entre os países de produção, enquanto diferentes fontes apontam pequenas variações na duração, entre 154 e 158 minutos, de acordo com a versão consultada. Rever “Os Deuses Malditos” hoje significa reencontrar um Visconti interessado em famílias ricas, ambientes luxuosos e personagens dispostos a ultrapassar praticamente qualquer limite para preservar seus lugares à mesa. Só que, desta vez, a mesa está posta diante de uma Alemanha em transformação, e os convidados descobrem rapidamente que, quando o poder muda de mãos, ninguém permanece completamente protegido.


Ficha técnica
“Os Deuses Malditos” | “La caduta degli dei” (título original) | “Os Malditos” (título em Portugal) | “The Damned” (título internacional)
Gênero: drama, guerra. Duração: 154 minutos. Classificação indicativa: 16 anos, conforme registros consultados; a classificação pode variar segundo a versão e o serviço. Ano de produção: 1969. Data de lançamento: 14 de outubro de 1969, em Roma; 16 de outubro de 1969, na Itália. Idiomas: inglês e alemão. Direção: Luchino Visconti. Roteiro: Nicola Badalucco, Enrico Medioli e Luchino Visconti. Elenco: Dirk Bogarde, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Helmut Griem, Renaud Verley, Umberto Orsini, René Koldehoff, Albrecht Schönhals, Florinda Bolkan, Charlotte Rampling, Nora Ricci e Irina Wanka. Distribuição no Brasil: Warner Bros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: "O Futuro Espera" leva a Paris ocupada para o confinamento de uma família


Drama de Nils Tavernier, inspirado na história real de Tauba Zylbersztejn, acompanha dois anos de uma família escondida em uma pequena dependência sob os telhados de Paris durante a ocupação nazista

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Paris de 1942 aparece em "O Futuro Espera" por uma perspectiva bastante particular: a de quem praticamente não pode sair do lugar. Dirigido por Nils Tavernier, o filme franco-belga que acaba de chegar ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte acompanha Tauba Zylbersztejn e seus pais, judeus poloneses que escapam da perseguição aos judeus em Paris e encontram abrigo em uma pequena dependência sob os telhados da cidade. O que deveria ser uma solução provisória acaba se prolongando por cerca de dois anos, enquanto a família convive com o medo de ser descoberta.

Inspirado em uma história real, o filme tem como protagonista a adolescente Tauba, interpretada por Violette Guillon. Guillaume Gallienne e Adeline d’Hermy vivem seus pais, Moshe e Rywka, enquanto Sandrine Bonnaire interpreta Rose Dinanceau, uma das pessoas que ajudam a família a permanecer escondida. O roteiro é assinado por Tavernier ao lado de Guy Birenbaum e Laurent Bertoni.

O caso que deu origem à produção é especialmente impressionante pela duração do confinamento. Segundo o "Le Parisien", Tauba, seus pais e o casal francês que os ajudou passaram 765 dias ligados àquele pequeno espaço. A família havia escapado da batida policial associada à Rafle du Vél’ d’Hiv, em julho de 1942, e conseguiu se esconder no número 209 da Rue Saint-Maur, no 10º arrondissement de Paris.

A história chegou ao cinema a partir do testemunho da própria Tauba. Em 1997, ela relatou sua experiência em uma entrevista que integra o trabalho de preservação de depoimentos de sobreviventes da Shoah associado ao projeto de Steven Spielberg. O material serviu de base para a construção do filme e também para o livro homônimo escrito por Guy Birenbaum, filho de Tauba e um dos roteiristas da produção.

A ligação de Birenbaum com a história dá ao projeto uma dimensão familiar bastante particular. Tauba era sua mãe, e o roteiro parte justamente das lembranças e do testemunho dela. Em entrevista ao CRIF, o escritor contou que a equipe chegou a reproduzir cuidadosamente o espaço onde sua família permaneceu durante os 765 dias. A reconstituição do pequeno cômodo foi um dos elementos centrais da produção.

Tavernier utiliza o espaço reduzido para construir uma narrativa marcada pela tensão da espera. A família precisa administrar o medo, a falta de liberdade e as mudanças na relação entre seus integrantes, enquanto os acontecimentos da guerra chegam por sons, notícias e breves vislumbres do mundo exterior. Para Tauba, entretanto, pequenas possibilidades de liberdade ganham outro peso: um piano desenhado no chão e a vista de Paris pelas janelas tornam-se formas de manter a imaginação em movimento.

A produção também investiu na reconstrução histórica de Paris. O cenário da Rue Saint-Maur e o pequeno espaço ocupado pela família foram recriados com atenção aos detalhes, enquanto imagens de arquivo ajudam a aproximar a experiência particular dos personagens dos acontecimentos que tomavam conta da cidade. O projeto recebeu apoio da Fondation pour la Mémoire de la Shoah, instituição dedicada à preservação e transmissão da memória do Holocausto.

É uma produção que parte de uma história familiar para recuperar um dos períodos mais sombrios da história europeia. O filme já havia estreado nos cinemas franceses em fevereiro de 2025 e apresenta Nils Tavernier, filho do também cineasta Bertrand Tavernier, diante de uma narrativa baseada em uma experiência vivida e registrada pela própria sobrevivente.

Ficha técnica
"O Futuro Espera" | "La Vie Devant Moi" (título original) |"The Future Awaits" (título internacional)
Gênero: drama, biografia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa: a definir no Brasil. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Nils Tavernier. Roteiro: Nils Tavernier, Guy Birenbaum e Laurent Bertoni. Elenco: Violette Guillon, Guillaume Gallienne, Adeline d’Hermy, Sandrine Bonnaire, Laurent Bateau, Claude Mathieu, Rod Paradot e Bernard Le Coq. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 20 de setembro de 2026

.: "Plenty" revisita guerra, desencanto e uma mulher incapaz de voltar ao normal


Com Meryl Streep no centro de um drama escrito por David Hare, "Plenty - O Mundo de Uma Mulher" acompanha duas décadas da vida de Susan Traherne, ex-integrante da Resistência Francesa que descobre, depois da Segunda Guerra Mundial, que a paz pode ser muito menos excitante do que imaginava

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Meryl Streep encara uma das personagens mais desconfortáveis da carreira em "Plenty - O Mundo de uma Mulher", drama dirigido por Fred Schepisi que chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. O filme acompanha Susan Traherne desde mensageira da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, até os anos seguintes ao conflito, quando a vida que deveria representar liberdade, estabilidade e prosperidade começa a parecer pequena demais para alguém que se acostumou ao risco.

O roteiro de David Hare, adaptado da própria peça teatral escrita por ele em 1978, percorre quase duas décadas da vida da protagonista. Susan retorna à Inglaterra depois da guerra esperando encontrar um país renovado e uma existência à altura dos ideais pelos quais lutou. O problema é que o cotidiano tem pouco interesse em corresponder às expectativas de quem acabou de sobreviver a uma guerra.

Na França ocupada, Susan viveu uma experiência marcada pelo perigo, pela urgência e por um romance breve com Lazar (Sam Neill), agente britânico que chega de paraquedas para auxiliar a Resistência. O encontro dura pouco, mas permanece na memória dela durante anos. De volta à Inglaterra, Susan passa por empregos, relacionamentos e situações que parecem incapazes de preencher o espaço deixado por aquela juventude vivida em condições extraordinárias.

É nesse período que entram Raymond Brock (Charles Dance), diplomata com quem ela se casa, Alice Park (Tracey Ullman), amiga e companheira de moradia, e Mick (Sting), homem que Susan procura numa tentativa pouco convencional de realizar o desejo de ser mãe. John Gielgud e Ian McKellen completam o elenco principal como figuras ligadas ao universo diplomático que cerca Raymond.

A atuação de Meryl Streep foi bastante observada pela crítica na época do lançamento. Roger Ebert, em crítica publicada no Chicago Sun-Times em setembro de 1985, chamou atenção para a sutileza com que a atriz constrói Susan, uma mulher autodestrutiva, difícil de compreender e ainda mais difícil de acompanhar emocionalmente. Para o crítico, a personagem poderia ter sido reduzida a um conjunto de sintomas, mas Streep consegue lhe dar personalidade e contradições.

O filme também dividiu opiniões. A crítica da revista "The New Yorker", assinada por Pauline Kael, destacou o mal-estar político e emocional presente no texto de David Hare e descreveu Susan como uma personagem marcada pela perda do idealismo juvenil. Já a "Los Angeles Times" enxergou na produção uma investigação sobre o preço cobrado pelo idealismo romântico, elogiando particularmente a interpretação de Streep.

A relação de "Plenty" com o teatro merece atenção. A montagem original da Broadway estreou em 6 de janeiro de 1983, no Plymouth Theatre, e permaneceu em cartaz por 92 apresentações. A peça recebeu indicações ao Tony, incluindo Melhor Peça, Melhor Atriz para Kate Nelligan e Melhor Ator para Edward Herrmann.

Nelligan, aliás, foi a primeira intérprete de Susan Traherne nos palcos de Londres e Nova York. Para o cinema, a personagem passou para Meryl Streep, que já havia construído uma carreira de enorme prestígio e vinha de "A Escolha de Sofia". A troca provocou discussões sobre o que se ganhava e o que se perdia quando uma personagem originalmente associada ao teatro britânico passava a ser interpretada por uma estrela de Hollywood.

A própria estrutura do filme ajuda a explicar algumas das reações tão diferentes. "Plenty" não conta a trajetória de Susan de maneira convencional: a narrativa avança e recua no tempo, acompanhando diferentes momentos de sua vida e colocando suas experiências pessoais ao lado de acontecimentos da história britânica do pós-guerra, incluindo a coroação de Elizabeth II e a Crise de Suez. A crítica da "Time Out" observou que a adaptação cinematográfica desloca o ponto de vista entre personagens, ampliando a dimensão social da peça original.

O título ganha um sentido particularmente irônico quando se considera a passagem da austeridade do pós-guerra para um período de maior prosperidade material. Susan, porém, parece cada vez menos capaz de aproveitar aquilo que deveria representar uma vida confortável. Quanto mais a sociedade avança em direção à estabilidade, maior fica a distância entre o que ela esperava do futuro e aquilo que efetivamente encontra.

O resultado é um filme centrado numa mulher difícil, contraditória e muitas vezes desagradável, mas justamente por isso interessante. Susan não se encaixa facilmente no papel de heroína, vítima ou vilã, e Meryl Streep aceita o desconforto de interpretar alguém cuja inquietação contamina o casamento, as amizades e a própria percepção que ela tem de si mesma.


Ficha técnica
"Plenty - O Mundo de Uma Mulher" | "Plenty" (título original) | "Plenty, Uma História de Mulher" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de setembro de 1985. Idioma: inglês. Direção: Fred Schepisi. Roteiro: David Hare. Elenco: Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Ian McKellen, Sam Neill, Burt Kwouk e Pik-Sen Lim. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

.: “Um Sonho de Domingo” traz família e arte sob o sol de Bertrand Tavernier


Filme de Bertrand Tavernier acompanha um domingo de verão de 1912 e transforma uma reunião familiar aparentemente tranquila em um delicado acerto de contas com o tempo, as escolhas e aquilo que ficou pelo caminho


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um domingo de verão pode parecer o cenário perfeito para uma reunião familiar: comida, conversa, crianças correndo pelo jardim e aquela coleção de pequenas implicâncias que só parentes sabem produzir com tanta eficiência. Em “Um Sonho de Domingo”, que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, o diretor Bertrand Tavernier pega esse material aparentemente banal e encontra nele uma história sobre envelhecimento, arte, frustrações e escolhas que continuam incomodando mesmo quando já não há muito tempo para corrigi-las.

O filme francês de 1984 acompanha Monsieur Ladmiral (Louis Ducreux), um pintor aposentado que vive no campo desde a morte da esposa. Como acontece praticamente todos os domingos, ele recebe o filho Gonzague (Michel Aumont), a nora Marie-Thérèse (Geneviève Mnich) e os três netos. A rotina, cuidadosamente conhecida por todos, ganha outra temperatura quando chega Irène (Sabine Azéma), filha do pintor e mulher independente, inquieta e pouco afeita às convenções familiares.

A presença de Irène mexe com o pai porque ela representa uma possibilidade de vida que ele próprio deixou escapar. Ladmiral alcançou reconhecimento como artista, mas começa a olhar para a própria trajetória com certa desconfiança. Enquanto conversa com a filha sobre pintura, percebe que talvez tenha sido conservador demais justamente no campo em que poderia ter arriscado mais. Tavernier constrói o filme a partir desses pequenos deslocamentos. Não há necessidade de grandes acontecimentos para que as relações familiares revelem suas rachaduras. Um comentário, uma lembrança, uma caminhada ou uma conversa aparentemente despretensiosa carregam aquilo que os personagens nem sempre conseguem dizer diretamente.

A história se passa em 1912, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, mas o filme não se entrega ao peso histórico do período. A atenção está concentrada naquela casa, no jardim, nos personagens e na passagem das horas. A câmera de Bruno de Keyzer explora a luminosidade do interior francês e cria imagens que remetem à pintura impressionista, reforçando a ligação entre a forma do filme e o universo artístico de Ladmiral. A trilha sonora segue o mesmo caminho de delicadeza. A produção utiliza peças de música de câmara de Gabriel Fauré, ao lado de trabalhos associados a Louis Ducreux e Marc Perrone, criando uma atmosfera íntima para aquela reunião familiar.

“Um Sonho de Domingo” adapta o romance “Monsieur Ladmiral va Bientôt Mourir”, publicado por Pierre Bost em 1945. O roteiro foi escrito por Bertrand Tavernier e a filha dele, Colo Tavernier. A adaptação preserva a estrutura concentrada da obra literária e acompanha os personagens durante poucas horas, deixando que passado e presente se encontrem nas conversas e nas lembranças. Louis Ducreux, conhecido também pela atuação no teatro e pelo trabalho como compositor e dramaturgo, encontra em Monsieur Ladmiral um personagem de poucas explosões e muitas contradições. Sabine Azéma, por sua vez, injeta energia na produção como Irène, personagem que chega carregando uma liberdade que incomoda o irmão e fascina o pai.

A recepção crítica ajudou a transformar “Um Sonho de Domingo” em uma das obras mais lembradas da filmografia de Tavernier. O filme competiu pela Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984 e o diretor recebeu o prêmio de Melhor Direção. No César, a produção levou os prêmios de Melhor Atriz, para Sabine Azéma, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Fotografia, de Bruno de Keyzer.

A própria estrutura do filme pode dividir opiniões. Para alguns espectadores, o ritmo contemplativo e a ausência de grandes reviravoltas fazem parte de seu encanto; para outros, a mesma característica pode exigir uma dose extra de paciência.  Esse contraste combina com a proposta de Tavernier. “Um Sonho de Domingo” observa uma família durante um único dia e deixa que as pequenas tensões façam o trabalho pesado. O pai olha para os filhos e, ao mesmo tempo, parece enxergar versões diferentes de si próprio. Gonzague representa a vida organizada, previsível e socialmente aprovada. Irène chega com independência, desejo e uma certa desordem atributos que o pai admira e talvez inveje um pouco.

O filme sabe encontrar drama onde a vida costuma escondê-lo: nas visitas que se repetem, nas escolhas que parecem definitivas, nas conversas que chegam tarde e naquela incômoda sensação de que algumas possibilidades ficaram para trás. Tavernier filma tudo isso com elegância, humor discreto e uma melancolia que nunca precisa levantar a voz.


Ficha técnica
“Um Sonho de Domingo” | “Un Dimanche à la Campagne” (título original) | “Um Domingo no Campo” (título em Portugal) | “A Sunday in the Country” (título internacional).
Gênero: drama. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1984. Data de lançamento: 11 de abril de 1984, na França. Idioma: francês. Direção: Bertrand Tavernier. Roteiro: Bertrand Tavernier e Colo Tavernier, baseado no romance “Monsieur Ladmiral va bientôt mourir”, de Pierre Bost. Elenco: Louis Ducreux, Michel Aumont, Sabine Azéma, Geneviève Mnich, Monique Chaumette, Thomas Duval, Quentin Ogier e Katia Wostrikoff. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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domingo, 13 de setembro de 2026

.: "O Declínio do Império Americano" expõe desejos e a crise de uma geração


Comédia dramática de Denys Arcand chega ao Belas Artes à La Carte e reúne professores universitários para uma noite em que sexo, política, casamento e hipocrisia entram no cardápio. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir aplicativo de relacionamento, antes de o sexo virar assunto de algoritmo e antes de qualquer reunião de amigos terminar com alguém dizendo que o outro precisa “fazer terapia”, Denys Arcand já colocava intelectuais em volta de uma mesa para falar sobre desejo, casamento, traição, política e as pequenas mentiras que ajudam a manter uma vida aparentemente organizada. Em "O Declínio do Império Americano", produção canadense de 1986 que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, a conversa é longa, afiada e, vez ou outra, inconveniente.

O ponto de partida parece simples. Quatro professores universitários se reúnem em uma casa de campo para preparar um jantar. Enquanto cozinham, conversam sobre mulheres, sexo, relacionamentos e aventuras extraconjugais. Em outro lugar, quatro mulheres ligadas a eles passam a tarde em um clube de exercícios e fazem praticamente a mesma coisa: falam dos homens, dos próprios desejos e das relações que insistem em complicar aquilo que deveria ser simples. Quando os dois grupos finalmente se encontram, o jantar vira uma espécie de tribunal informal das relações humanas.

Arcand, que também assina o roteiro, constrói o filme praticamente em cima da palavra. São personagens que pensam, argumentam, provocam, exageram e, principalmente, falam demais. E justamente aí está uma das graças da produção. O cineasta não tem pressa para chegar ao conflito. Prefere deixar que os personagens revelem quem são pelo que dizem e, principalmente, pelo que falam quando acreditam estar entre pessoas que pensam como eles.

O resultado é uma comédia dramática bastante particular, com humor ácido e uma dose generosa de cinismo. Sexo aparece por todos os lados, mas não como simples provocação. As conversas sobre amantes, casamento, fidelidade, homossexualidade, fantasias e relações paralelas servem para expor a distância entre aquilo que os personagens defendem intelectualmente e a maneira como conduzem a própria vida.

A ironia fica ainda melhor porque todos parecem saber muito sobre o comportamento humano. São professores, intelectuais, leitores, homens e mulheres acostumados a teorizar sobre a sociedade. Quando o assunto chega à própria intimidade, porém, a erudição começa a escorregar. Saber explicar o mundo, afinal, nunca garantiu competência para viver dentro dele. No centro dessa engrenagem está Rémy, interpretado por Rémy Girard, personagem que reapareceria em "As Invasões Bárbaras", de 2003. Casado com Louise, vivida por Dorothée Berryman, ele representa uma geração formada sob o discurso da liberdade sexual e das rupturas com os valores tradicionais. O problema é que liberdade, na prática, costuma cobrar uma conta que a teoria não prevê.

Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal e Pierre Curzi lideram um elenco que também conta com Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. A atuação depende muito da naturalidade dos diálogos, já que Arcand coloca os personagens em situações nas quais conversar é praticamente uma modalidade de combate. A estrutura também ajuda a criar uma espécie de duelo entre homens e mulheres. Os dois grupos parecem estar separados geograficamente, mas discutem praticamente os mesmos assuntos. Homens falam das mulheres, que falam dos homens e todos falam de sexo enquanto ninguém parece especialmente interessado em admitir que seja parte do problema.

O título "O Declínio do Império Americano" carrega uma provocação que vai muito além dos Estados Unidos. A expressão serve como metáfora para a deterioração de determinados valores associados à sociedade ocidental: casamento, família, fidelidade, religião, moral e uma ideia mais tradicional de organização social. Arcand olha para esse processo com uma mistura de ironia e desencanto, sem transformar os personagens em simples porta-vozes de uma tese.

Produzido em meados dos anos 1980, o filme também registra uma época bastante específica. O surgimento da Aids, as mudanças nos costumes, o avanço das discussões sobre liberdade sexual e a ressaca das utopias políticas das décadas anteriores fazem parte do ambiente em que esses personagens circulam. O próprio filme parece interessado em observar o que acontece quando uma geração que passou a juventude questionando regras precisa descobrir como viver depois que algumas dessas regras já não parecem tão sólidas.

A produção teve uma trajetória internacional expressiva. Foi exibida na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes em 1986 e recebeu o Prêmio FIPRESCI. No ano seguinte, tornou-se o primeiro filme canadense indicado ao Oscar na categoria de Filme em Língua Estrangeira. O filme também ajudou a colocar Denys Arcand no circuito internacional e preparou o terreno para "As Invasões Bárbaras", que retomaria personagens e conflitos 17 anos depois. A continuação ganhou o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira em 2004.

O filme costuma ser associado a uma trilogia informal de Arcand, completada por "A Era da Inocência", de 2007. Não existe um nome oficial para esse conjunto, mas os três filmes compartilham o interesse do cineasta pelas transformações sociais, pelo desencanto e pelas contradições da vida contemporânea. Outro detalhe curioso está na própria construção do filme. Arcand reuniu o elenco antes das filmagens para longas conversas sobre política, sexo e costumes, experiência que contribuiu para a naturalidade buscada nos diálogos. A estratégia combina perfeitamente com uma produção em que a palavra ocupa tanto espaço quanto os personagens.

Quase quatro décadas depois, muita coisa mudou, mas a dificuldade de conciliar desejo e compromisso permanece intacta. As ferramentas mudaram, as palavras mudaram e os costumes ganharam novas embalagens. A velha confusão entre aquilo que se deseja, aquilo que se promete e aquilo que efetivamente se faz continua firme.


Ficha técnica
"O Declínio do Império Americano" | "Le Déclin de l'empire américain" (título original) | "The Decline of the American Empire" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 101 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 19 de junho de 1986, no Canadá. Idioma: francês. Direção: Denys Arcand. Roteiro: Denys Arcand. Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte, em estreia na plataforma de streaming. Cenas pós-créditos: não. A duração oficial de 101 minutos e os créditos principais são confirmados pelo Library and Archives Canada e pela Cinemateca de Québec. O título usado em Portugal também aparece na programação oficial da Cinemateca Portuguesa. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 12 de setembro de 2026

.: "Barbarella", ficção científica com Jane Fonda, é um delírio psicodélico e sensual


Produção de Roger Vadim leva Jane Fonda ao espaço em uma aventura que mistura erotismo, humor, exagero e uma boa dose de maluquice

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

No ano 40.000, as guerras ficaram para trás e a humanidade vive em uma sociedade pacificada. O problema é que alguém resolveu mexer nessa tranquilidade. Quando o cientista Durand Durand desenvolve uma arma capaz de provocar uma destruição em escala interplanetária, Barbarella (Jane Fonda) recebe do Presidente da Terra (Claude Dauphin) a missão de encontrá-lo e impedir que o invento caia nas mãos erradas. Dirigido por Roger Vadim e lançado em 1968, "Barbarella" , que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, parece ter sido concebido depois de uma reunião em que alguém sugeriu colocar ficção científica, quadrinhos, erotismo, humor camp - aquele que celebra o exagero, a teatralidade e a artificialidade de forma irônica e consciente -, cenários psicodélicos e Jane Fonda dentro de um mesmo foguete. O resultado é tão peculiar que tentar enquadrá-lo nos padrões tradicionais do gênero pode ser uma atividade perigosa.

Quase seis décadas depois, o filme continua sendo uma cápsula espacial dos anos 1960: leva para o futuro as fantasias, os exageros e as contradições de seu próprio tempo. E Jane Fonda, no centro de tudo, permanece como a comandante perfeita para essa viagem tão extravagante quanto impossível de levar completamente a sério. Baseado na personagem criada pelo francês Jean-Claude Forest, o filme acompanha uma heroína espacial de aparência exuberante e comportamento quase ingênuo.

Barbarella percorre planetas, enfrenta vilões, encontra criaturas estranhas e passa por situações que transformam o erotismo em uma espécie de linguagem oficial daquele futuro. A sexualidade está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A famosa abertura, com Jane Fonda despindo-se enquanto os créditos aparecem, ajudou a transformar a atriz em símbolo sexual e continua sendo uma das imagens mais lembradas do filme. A personagem, contudo, também apresenta uma curiosa combinação de sensualidade e inocência: para Barbarella, o prazer não carrega o peso moral que costuma acompanhar personagens femininas em aventuras desse tipo.

Essa liberdade sexual, vista hoje, permite uma leitura dupla. De um lado, existe uma personagem feminina que circula por um universo no qual o desejo não precisa ser tratado como pecado. De outro, a câmera masculina de Vadim encontra inúmeras oportunidades para explorar o corpo de Fonda. A fantasia futurista pode ser libertária, mas também revela bastante sobre os desejos de quem estava atrás das câmeras. E o filme não economiza na imaginação visual. Cenários coloridos, figurinos extravagantes, objetos futuristas e criaturas que parecem ter escapado de uma história em quadrinhos compõem um universo deliberadamente artificial. A direção de arte e a fotografia de Claude Renoir ajudam a sustentar essa estética, que prefere o desenho, a textura e o exagero aos efeitos especiais sofisticados.

A produção foi realizada em uma época em que "2001: Uma Odisseia no Espaço" também chegava aos cinemas, o que torna inevitável a comparação. Só que as ambições são bem diferentes. "Barbarella" não pretende construir uma experiência científica ou filosófica. Roger Vadim abraça o absurdo e trata a ficção científica como uma extensão dos quadrinhos, com humor, erotismo e uma estética deliberadamente exagerada. Essa escolha explica parte da permanência do filme. "Barbarella" envelheceu mal em alguns aspectos técnicos e narrativos, mas sobreviveu de maneira curiosamente interessante em outros. A precariedade de determinados efeitos, que pode provocar risadas involuntárias, também contribui para o charme de uma produção que nunca parece interessada em ser discreta.

A quantidade de roteiristas ajuda a explicar a sensação de irregularidade. Terry Southern escreveu uma primeira versão, enquanto Roger Vadim, Jean-Claude Forest e outros nomes aparecem nos créditos finais. A história passou por sucessivas intervenções durante a produção. Jane Fonda, por sua vez, encontrou em Barbarella uma personagem que se tornaria inseparável de sua imagem naquele período. Antes dela, outras atrizes foram consideradas para o papel, entre elas Brigitte Bardot, Virna Lisi e Sophia Loren. Fonda inicialmente demonstrou dúvidas, mas acabou convencida por Vadim, então seu marido.

O curioso é que a atriz não fica reduzida à função de enfeite espacial. A Barbarella dela possui uma ingenuidade quase infantil diante das situações que encontra, enquanto o mundo ao redor parece empenhado em sexualizar tudo o que se move. Esse contraste ajuda a sustentar o humor da produção e impede que a personagem seja apenas uma sucessão de poses sensuais. Também existe uma boa coleção de bizarrices no caminho: o anjo cego Pygar (John Phillip Law), a Rainha Negra (Anita Pallenberg), o Professor Ping (Marcel Marceau), o revolucionário Dildano (David Hemmings) e o cientista Durand Durand (Milo O'Shea) formam uma galeria de figuras tão excêntricas quanto os cenários que habitam. A cidade de Sogo, inclusive, brinca com a referência bíblica a Sodoma e Gomorra.

A recepção crítica sempre oscilou entre o encanto e a irritação. Algumas avaliações enxergam em "Barbarella" uma fantasia adulta refrescante, visualmente inventiva e assumidamente camp. Outras encontram uma narrativa frouxa, humor irregular e uma exploração excessiva da sensualidade de Fonda. Essa combinação explosiva transformou o filme em objeto de culto. "Barbarella" pode ser lento, exagerado, sexualmente datado e narrativamente irregular. Também pode ser colorido, inventivo, divertido e estranhamente fascinante. Depende bastante do quanto o espectador aceita entrar na brincadeira.


Ficha técnica
"Barbarella" (título original) 
Gênero: Ficção científica, aventura, comédia e fantasia. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1968. Data de lançamento: 25 de dezembro de 1968, no Brasil. Idioma: nglês.
Direção: Roger Vadim. Roteiro: Terry Southern, Roger Vadim, Claude Brulé, Vittorio Bonicelli, Clement Biddle Wood, Brian Degas, Tudor Gates e Jean-Claude Forest. Elenco: Jane Fonda, John Phillip Law, Anita Pallenberg, Milo O'Shea, Marcel Marceau, David Hemmings, Ugo Tognazzi e Claude Dauphin.
Distribuição no Brasil: Paramount Pictures. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

.: Filme "Banho de Sangue" tem herança e carnificina à moda de Mario Bava


Clássico italiano de 1971 antecipa o slasher, coleciona mortes criativas e deixa "Sexta-Feira 13" com uma dívida considerável

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de Jason Voorhees aparecer para atormentar adolescentes em acampamentos, Mario Bava já tinha descoberto que uma propriedade isolada, um punhado de pessoas gananciosas e uma quantidade generosa de sangue poderiam render uma bela carnificina. É nesse território que chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte o filme "Banho de Sangue", produção italiana de 1971 que permanece como uma das obras mais influentes do cinema de horror.

Dirigido por Bava, o filme parte de uma premissa simples: a morte da condessa Federica Donati abre uma disputa pela propriedade situada em uma baía isolada. O que poderia render uma briga familiar, algumas reuniões de herdeiros e um processo judicial ganha contornos muito mais definitivos quando os interessados começam a morrer um atrás do outro. Bava não entrega ao público um assassino único, metódico e interessado em construir uma carreira. A cobiça movimenta praticamente todos os personagens, e cada um parece carregar uma razão particular para eliminar quem estiver no caminho. A matança vira uma reação em cadeia, como anuncia um dos títulos originais do filme, "Reazione a Catena".

O título original, porém, é "Ecologia del delitto", algo próximo de "Ecologia do Crime". E a escolha faz algum sentido: naquela baía, gente, dinheiro, natureza e propriedade estão envolvidos numa espécie de cadeia alimentar em que a espécie dominante costuma ser aquela que consegue matar primeiro. Com Claudine Auger, Luigi Pistilli, Laura Betti, Claudio Camaso, Isa Miranda, Leopoldo Trieste, Brigitte Skay e outros nomes do cinema italiano, Bava monta um elenco de personagens pouco preocupados com princípios. Auger, conhecida internacionalmente por "007 Contra a Chantagem Atômica", vive Renata Donati, uma das figuras diretamente envolvidas na disputa pela herança. Pistilli interpreta Alberto, enquanto Claudio Camaso aparece como Simon, personagem ligado aos mistérios da propriedade.

O roteiro reúne Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti e outros colaboradores, com uma trama que mistura elementos do giallo - um subgênero do cinema italiano, especialmente popular entre as décadas de 1960 e 1970, que mistura mistério policial, suspense, terror, investigação e violência gráfica - e aquilo que posteriormente seria reconhecido como a cartilha do slasher. O Museu de Arte Moderna de Nova York, ao apresentar o filme em sua programação, destacou precisamente essa importância histórica: luvas pretas, assassino anônimo, jovens imprudentes e objetos cortantes transformados em instrumentos de morte aparecem entre os elementos que ajudaram a estabelecer as convenções do subgênero.

A influência sobre "Sexta-Feira 13" é particularmente evidente. A famosa sequência em que dois amantes são mortos juntos por uma lança durante o ato sexual reaparece em "Sexta-Feira 13 - Parte 2". A comparação entre as duas cenas é recorrente em estudos e textos sobre a genealogia do slasher. Bava também contou com um nome que se tornaria lendário em outro campo do cinema: Carlo Rambaldi, responsável pelos efeitos de maquiagem. Décadas depois, o italiano ganharia três Oscars, incluindo os prêmios por "Alien, o Oitavo Passageiro" e "E.T. - O Extraterrestre". Em "Banho de Sangue", o trabalho dele ajudou a transformar as mortes em atrações próprias, com direito a machadadas, facadas, decapitações e empalações.

São 13 mortes em uma sucessão que transforma o assassinato em espetáculo visual. O curioso é que a violência não elimina a ironia. Pelo contrário: Bava parece se divertir com a ideia de colocar seus personagens uns contra os outros até que praticamente ninguém reste para reivindicar a propriedade. A abertura já dá o tom. Uma condessa é assassinada e o crime é montado para parecer suicídio. Pouco depois, o homem responsável pela morte também vira vítima. A partir daí, a lógica convencional do suspense começa a escorregar pelo ralo. Quem mata quem? Quem está interessado na herança? Quem pretende explorar comercialmente a baía? Quem apareceu ali por acaso e quem já chegou com a faca escondida?

Essa estrutura ajuda a explicar por que o filme é frequentemente apontado como precursor fundamental do slasher. O próprio material reunido sobre a produção registra a quantidade de títulos internacionais que recebeu, entre eles "A Bay of Blood", "Twitch of the Death Nerve", "Bloodbath" e "Carnage". O IMDb identifica "Ecologia del delitto" como título original e registra duração de 1h24. Outro detalhe saboroso é que Bava, além de dirigir, assumiu a fotografia. A câmera acompanha a paisagem da baía com interesse quase tão grande quanto dedica aos corpos que vão surgindo pelo caminho. 

O resultado cria um contraste curioso: a beleza do cenário e a brutalidade dos assassinatos convivem no mesmo quadro. O filme consegue ser visualmente elegante enquanto seus personagens fazem coisas que dificilmente seriam recomendadas por qualquer manual de boa convivência. A produção foi filmada na região de Sabaudia, ao sul de Roma, incluindo a casa de praia do produtor, segundo registros sobre a obra. 

O orçamento modesto não impediu Bava de apostar em soluções visuais bastante inventivas, uma característica que ajuda a explicar por que "Banho de Sangue" envelheceu como referência cinematográfica, mesmo quando sua narrativa parece disposta a testar a paciência de quem tenta acompanhar todas as relações de parentesco, interesses imobiliários e planos criminosos. 

O filme sabe o que quer entregar: atmosfera, mortes inventivas, humor ácido e uma sucessão de reviravoltas. Bava parece olhar para a ganância de seus personagens com uma sobrancelha levantada. Para quem conhece "Halloween" e "Sexta-Feira 13" antes de chegar aos seus ancestrais italianos, "Banho de Sangue" funciona como uma visita à árvore genealógica do horror. Para quem já conhece Mario Bava, é uma oportunidade de rever um cineasta que transformava limitações de produção em invenção visual.


Ficha técnica
"Banho de Sangue" | "Ecologia del delitto" (título original) | "Baía Sangrenta" (título em Portugal). "A Bay of Blood" (título internacional)
Gênero: terror, giallo, slasher. Duração: 84 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1971. Data de lançamento: 8 de setembro de 1971, na Itália. Idioma: italiano. Direção: Mario Bava.
Roteiro: Mario Bava, Giuseppe Zaccariello, Filippo Ottoni, Dardano Sacchetti, Franco Barberi e Gene Luotto. Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Camaso, Laura Betti, Leopoldo Trieste, Isa Miranda, Anna Maria Rosati, Brigitte Skay, Chris Avram, Paola Montenero, Nicoletta Elmi, Renato Cestiè, Guido Boccaccini, Roberto Bonanni e Giovanni Nuvoletti. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Sid e Nancy: o Amor Mata" transforma o amor punk em sentença de morte


Cultuado desde os anos 1980, filme de Alex Cox chega ao Belas Artes à La Carte com Gary Oldman e Chloe Webb em uma das histórias de amor mais caóticas da história do rock

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sexo, drogas, brigas, heroína, Sex Pistols e um romance que parecia ter sido escrito por alguém com uma queda preocupante por finais infelizes. "Sid & Nancy: o Amor Mata" retorna ao catálogo brasileiro pela plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para revisitar a história de Sid Vicious e Nancy Spungen, casal que virou símbolo do lado mais destrutivo do punk em um retrato cru e perturbador da breve e incendiária trajetória de Sid Vicious e Nancy Spungen.

Dirigido por Alex Cox, o filme acompanha Sid Vicious, baixista dos Sex Pistols interpretado por Gary Oldman, e Nancy Spungen, vivida por Chloe Webb. A trama parte da passagem da banda pelos Estados Unidos, em 1978, e acompanha a deterioração do relacionamento entre os dois, enquanto drogas, violência e dependência passam a ocupar cada vez mais espaço na vida do casal. A produção também traz David Hayman como Malcolm McLaren, Andrew Schofield como Johnny Rotten e uma participação de Courtney Love, em uma de suas primeiras experiências no cinema.

Cox escreveu o roteiro ao lado de Abbe Wool. O diretor já vinha do irreverente "Repo Man" e decidiu tratar Sid e Nancy com uma liberdade que incomodou bastante gente ligada aos Sex Pistols. O próprio Cox explicou, anos depois, que a recepção americana do filme, entendido como uma história de amor trágica, estava mais próxima da intenção original do que a leitura britânica que o classificava simplesmente como um filme sobre o movimento punk.

A produção também ganhou força graças ao trabalho de Gary Oldman. O ator emagreceu para interpretar Sid e incorporou postura, voz e gestos do músico. Uma das curiosidades mais saborosas da produção é que Oldman usou durante as filmagens o colar que pertenceu ao próprio Sid Vicious. A mãe do músico, Anne Beverley, entregou a peça ao ator depois de conhecer a produção. Chloe Webb constrói uma Nancy menos fácil de encaixar na caricatura da groupie problemática. A atriz mergulha na instabilidade da personagem e acompanha a transformação de uma relação amorosa em uma espécie de pacto de autodestruição. O resultado incomoda porque o filme não oferece personagens particularmente fáceis de admirar.

A decadência aparece em primeiro plano, com o uso de drogas e a dependência tratados de maneira bastante dura. O filme também carregou uma velha briga com John Lydon, o Johnny Rotten dos Sex Pistols. O vocalista atacou publicamente a produção e reclamou da ausência de sua versão dos acontecimentos durante o processo de realização. Em entrevista ao The Guardian, anos depois, Lydon continuava classificando o filme de forma bastante pouco diplomática.

O incômodo faz algum sentido: Cox nunca pretendeu fazer uma reconstituição histórica convencional. A própria produção assumiu uma abordagem estilizada, misturando acontecimentos reais, memória e imaginação cinematográfica. O diretor chegou a admitir posteriormente que gostaria de ter tornado o final mais duro, deixando ainda mais evidente a dimensão trágica do desperdício das vidas de Sid e Nancy.

A trilha sonora ajuda a explicar por que o filme ganhou vida própria dentro da cultura punk. Joe Strummer, do The Clash, compôs "Love Kills", canção que acabou batizando a produção em diferentes materiais internacionais. A trilha ainda reúne The Pogues, John Cale, Steve Jones, Circle Jerks, Pray for Rain e o próprio Gary Oldman cantando "My Way". Outro detalhe curioso envolve Courtney Love. "Sid e Nancy" marcou uma de suas primeiras experiências no cinema, anos antes de ela conquistar reconhecimento como atriz por "O Povo contra Larry Flynt". No filme de Cox, ela aparece em um papel secundário, quando ainda era uma figura distante da celebridade cinematográfica que viria a se tornar.

A produção não foi um fenômeno comercial. Feita com orçamento estimado em US$ 4 milhões, arrecadou cerca de US$ 2,85 milhões mundialmente. A matemática, portanto, não ajudou. O tempo, entretanto, resolveu ser mais generoso: "Sid e Nancy" ganhou status de clássico cult e passou a ser lembrado como uma das cinebiografias musicais mais particulares dos anos 1980. A recepção crítica também ajudou a preservar o filme. 

Ficha Técnica
"Sid e Nancy: o Amor Mata" | "Sid and Nancy" (título original)
Gênero: drama biográfico, musical e romance. Duração: 112 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Data de lançamento: 7 de agosto de 1987 (Brasil). Idioma: inglês. Direção: Alex Cox. Roteiro: Alex Cox e Abbe Wool. Elenco: Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman, Andrew Schofield, Perry Benson, Tony London e Courtney Love. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não há cena pós-créditos propriamente dita. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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