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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

.: #LeituraMiau: "Este Livro Odeia Você", leitura difícil e desconforto literário


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

O título de “Este Livro Odeia Você” funciona como um aviso e, ao mesmo tempo, uma armadilha. A provocação inicial sugere agressividade, confronto direto, talvez até um ataque ao leitor. No entanto, o próprio texto se encarrega de desmontar essa expectativa: não há ódio real em suas páginas. O que existe é a irritabilidade diante de quase tudo; um estado de fricção contínua com o mundo, reconhecível e profundamente humano.

A obra se constrói a partir do nervosismo como reação passageira. Raiva, frustração e incômodo surgem como estímulos momentâneos, e o autor Cleber Vinícius Lima de Brito deixa claro que ninguém sustenta esse estado permanentemente, portanto a escrita não funciona como descarga emocional, mas como filtro. Esse movimento se reflete diretamente na estrutura do livro, há deslocamentos constantes, transições e essas transmutações acenam no texto a instabilidade emocional que o livro carrega. O resultado é uma leitura assumidamente difícil, trata-se de uma obra que exige atenção, entrega e disposição para o desconforto.

“Este Livro Odeia Você”, publicado pela Costelas Felinas Editora, não busca agradar, consolar ou oferecer respostas. Sua força está justamente na recusa de um pacto fácil com o leitor. Ao transformar irritação em linguagem, o livro propõe uma experiência literária de enfrentamento, essa é a proposta que o leitor encontrará nas páginas desta obra: uma leitura que inquieta a mente e o livro não pede desculpas por causa disso.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

.: #LeituraMiau: "Rota 69", de Maycon Assunção, um olhar e muitas rotas


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

O autor Maycon Assunção nos convida a embarcar em uma jornada literária fascinante, onde a obra se transforma em um guia através do vasto mundo dos livros. Com uma abordagem única, Assunção explora obras clássicas e contemporâneas, apresentando suas nuances e contextos de maneira acessível e envolvente.

"Rota 69 - Uma Viagem pelos Livros", publicado pela Costelas Felinas Editora, leva o leitor a percorrer diferentes gêneros e estilos, pois cada capítulo é como uma parada em uma nova estação, onde podemos conhecer autores renomados e suas obras, bem como redescobrir histórias que marcaram época. Assunção não apenas resume os enredos, mas também analisa temas, estilos e a relevância cultural de cada obra, proporcionando ao leitor uma visão ampliada e enriquecedora.

Uma das grandes qualidades de Rota 69 é a paixão que transparece nas palavras de Assunção. Sua apreciação pela literatura é contagiante e ele consegue transmitir essa empolgação ao leitor, incentivando-o a explorar novos livros e a revisitar velhos conhecidos. O autor também oferece reflexões pessoais que tornam a leitura ainda mais íntima e acessível, mostrando como os livros podem impactar nossas vidas de maneiras profundas e inesperadas.

Além de ser uma obra informativa, "Rota 69" é uma celebração do ato de ler. Assunção lembra aos leitores que cada livro é uma porta para novos mundos e experiências e que a literatura possui o poder de nos transformar e expandir nossos horizontes.

"Rota 69 - Uma Viagem pelos Livros" é uma obra imprescindível para quem deseja aprofundar-se no universo literário e encontrar inspiração em cada página. Maycon Assunção se estabelece como um guia literário habilidoso, fazendo desta leitura uma experiência memorável e enriquecedora. Ao final da viagem, o leitor perceberá que aprenderá a ver a leitura por outros ângulos e constatará sobre a importância da literatura como uma companheira constante em nossa jornada.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

.: #LeituraMiau: "Deixa que Eu Conto - Volume 2", de Maria Braga Canaan


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "Deixa que Eu Conto - Volume 2: Rabiscos", publicado pela Costelas Felinas Editora, a autora Maria Braga Canaan aprofunda um projeto literário que se constrói à margem das classificações tradicionais. A autora propõe uma escrita que não se submete a gêneros rígidos nem a expectativas formais, optando por textos que surgem como fragmentos de pensamento, impressões sensíveis e confissões veladas.

A escolha do termo “rabiscos” é fundamental para a compreensão da obra. Longe de indicar precariedade ou improviso inconsequente, o conceito funciona como chave estética do livro. Os textos nascem do gesto imediato, do registro quase cru daquilo que pulsa, mas carregam uma densidade emocional e reflexiva que revela domínio da linguagem e consciência do próprio fazer literário. A espontaneidade, aqui, não exclui profundidade; ao contrário, é por meio dela que a autora alcança um grau elevado de intimidade com o leitor.

Neste volume os pensamentos, afetos e contradições que normalmente permanecem ocultos, tornam-se visíveis em uma escrita fragmentária. Essa postura confere ao livro uma força particular, fazendo da leitura uma experiência de aproximação, a fragmentação não fragiliza a obra; pelo contrário, sustenta sua unidade.

A linguagem é direta, mas não simplista. Há uma economia de palavras que intensifica o impacto de cada frase, exigindo uma leitura atenta e pausada. Assim, Deixa que eu Conto – Volume 2: Rabiscos se firma como um livro que valoriza o processo criativo e a verdade do instante. Ao transformar a escrita em gesto de risco e de honestidade radical, Maria Braga Canaan entrega uma obra sensível, provocadora e profundamente humana.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

.: #LeituraMiau: "13 Dias no Inferno: Ele Existe", de Emerson Sobral


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "13 Dias no Inferno: Ele Existe", livro publicado pela Costelas Felinas Editora, o autor Emerson Sobral mergulha nas profundezas de sua experiência pessoal de sobrevivência à covid-19, apresentando uma narrativa emocionante e profundamente realista. A obra vai além de um simples relato: é um testemunho visceral de luta, superação e transformação.

Por meio de uma escrita direta e sensível, o autor recria os momentos mais sombrios de sua batalha contra a doença - da febre intensa às dificuldades respiratórias - conduzindo o leitor por uma jornada física e emocional. O realismo com que descreve esses dias difíceis impressiona e comove, mas nunca abandona um fio de esperança que atravessa toda a narrativa. Emerson Sobral equilibra com maestria a dureza da experiência com uma sensação de redenção que se revela ao final.

O que torna "13 Dias no Inferno" ainda mais impactante é a profunda mudança que essa vivência provocou em sua vida. Suas reflexões sobre a fragilidade humana, o autocuidado e a relação com o sistema de saúde são instigantes e provocativas. Para o autor, a cura não foi apenas física, mas também emocional e espiritual. E essa transformação transparece em cada página. Sua nova maneira de enxergar o mundo é transmitida com sinceridade, despertando no leitor momentos de empatia e introspecção.

Como primeira obra publicada, Emerson Sobral demonstra notável habilidade ao transformar uma experiência tão íntima e dolorosa em literatura acessível e envolvente. A decisão de expor sua história exigiu coragem, e essa honestidade se reflete em cada linha, fazendo com que o leitor se sinta parte de sua trajetória. "13 Dias no Inferno: Ele Existe" é uma leitura intensa e necessária, recomendada a quem deseja compreender os impactos humanos da pandemia e, ao mesmo tempo, encontrar inspiração em uma história verdadeira de resiliência e esperança.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

.: #LeituraMiau: "Amores Improváveis", de JC. Sibila


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

"Amores Improváveis", de JC. Sibila é uma coletânea de contos que se afirma como um exercício refinado de imaginação literária e sensibilidade narrativa, inserindo-se de maneira consistente no campo do realismo mágico contemporâneo. A obra propõe uma leitura em que o cotidiano é constantemente atravessado pelo insólito, não como ruptura abrupta, mas como parte orgânica da experiência humana. O extraordinário, nesse universo ficcional, não se impõe com estridência; ao contrário, surge com naturalidade, como se sempre tivesse estado ali, à espera de um olhar capaz de reconhecê-lo.

Ao longo do livro, o autor constrói atmosferas narrativas marcadas por um delicado equilíbrio entre estranhamento e familiaridade. Situações aparentemente banais são lentamente contaminadas por acontecimentos improváveis, gestos simbólicos e imagens de forte carga metafórica. Esse deslocamento sutil da realidade não busca o espetáculo do absurdo, mas a criação de um espaço literário em que o leitor é convidado a suspender certezas e aceitar novas formas de sentido. Em Amores Improváveis, o fantástico não serve como fuga, mas como lente de ampliação da realidade emocional e subjetiva.

JC. Sibila apresenta uma linguagem simbólica e metafórica, utilizando-a como ferramenta central de construção narrativa. Cada conto opera como uma espécie de alegoria aberta, permitindo múltiplas camadas de leitura e interpretação. Os símbolos não são fechados nem didáticos; ao contrário, permanecem em estado de tensão, convocando o leitor a participar ativamente do processo de significação. Há, nesses textos, uma clara recusa de respostas prontas, o que confere à obra uma densidade reflexiva rara e instigante.

Embora dialogue com a tradição do realismo mágico latino-americano, o autor não se limita à reverência estética. Sua escrita revela uma apropriação autoral, reinterpretando-o à luz de inquietações contemporâneas e de uma sensibilidade própria. O nonsense, quando aparece, não funciona como mero jogo formal, mas como expressão legítima das contradições do desejo, da memória e da afetividade. O resultado é uma literatura que transita entre o poético e o psíquico, explorando zonas de ambiguidade onde o racional já não dá conta da experiência humana.

Os contos de "Amores Improváveis" sugerem, de maneira recorrente, um mergulho no inconsciente. Personagens são frequentemente confrontados com forças que escapam à lógica convencional, como se o texto encenasse conflitos internos, afetos reprimidos e lembranças fragmentadas sob a forma de acontecimentos mágicos ou inexplicáveis. O improvável, nesse contexto, torna-se não apenas possível, mas necessário: é por meio dele que a obra alcança uma compreensão mais profunda e poética da existência.

Outro aspecto relevante da coletânea é sua abordagem dos afetos. O amor, longe de ser tratado de forma idealizada ou romântica, aparece como experiência ambígua, por vezes desconcertante, atravessada por ausências, estranhamentos e desencontros. São amores que desafiam expectativas, normas e certezas — amores que, justamente por sua improbabilidade, revelam verdades íntimas e universais. A escrita de JC. Sibila captura essas experiências com delicadeza, evitando excessos sentimentais e apostando na sugestão, no silêncio e na entrelinha.

Mais do que contar histórias, "Amores Improváveis" constrói um ritmo de leitura que exige entrega e contemplação. O livro se posiciona contra a pressa interpretativa e a lógica do consumo rápido, propondo uma experiência literária mais lenta e reflexiva. Cada conto deixa ressonâncias, perguntas em aberto e imagens persistentes, prolongando-se para além da última página. A leitura se transforma, assim, em um processo de escuta sensível e de disponibilidade ao enigma.

Ao final, a obra se revela como um convite à percepção do invisível que habita o cotidiano. Amores Improváveis sugere que a magia não está nos eventos extraordinários em si, mas na forma como aprendemos a olhar para aquilo que não compreendemos plenamente. Com uma escrita precisa, elegante e profundamente evocativa, JC. Sibila oferece ao leitor um livro que desestabiliza suavemente, provoca reflexão e reafirma o poder da literatura como espaço de mistério, descoberta e ampliação da experiência humana. Aquisição: https://catalogocostelasfelinaseditora.blogspot.com/2025/04/conto-amores-improvaveis-jc-sibila.html

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

.: #LeituraMiau: as sequência de "Poesias Polêmicas" de Amador Maia


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "Poesias Polêmicas 2", Amador Maia reafirma a poesia como território de confronto, denúncia e memória. A obra se debruça sobre uma das feridas mais abertas da sociedade contemporânea - o feminicídio - e o faz sem suavizações, sem metáforas confortáveis ou distanciamento estético. Trata-se de um livro que não busca apenas emocionar, mas inquietar, desestabilizar e exigir posicionamento.

Os poemas que compõem o livro funcionam como um memorial poético às mulheres assassinadas pela violência de gênero. Cada verso carrega a dor interrompida, o silêncio imposto, os sonhos abortados. Maia escreve a partir da urgência: seus poemas não pedem licença, não ornamentam a tragédia, não transformam a violência em espetáculo. Pelo contrário, expõem o horror cotidiano que muitas vezes é naturalizado, reduzido a números frios ou notícias efêmeras.

A linguagem direta e, por vezes, áspera, é uma escolha ética e estética. Ao evitar eufemismos, o autor recusa qualquer forma de complacência com a violência. Sua poesia é denúncia, mas também é luto coletivo. É o reconhecimento de que cada mulher assassinada representa uma falha social, política e cultural. Nesse sentido, o livro ultrapassa o campo individual da dor e aponta para estruturas históricas de opressão, machismo e silenciamento.

"Poesias Polêmicas 2" também se constrói como um gesto de resistência. Ao dar voz às que foram caladas Maia transforma a palavra poética em ato político. Há, nos poemas, uma tentativa de resgatar humanidade onde houve brutalidade, de devolver nome, corpo e memória a quem foi reduzida à estatística. A poesia surge, assim, como ferramenta de enfrentamento e de permanência: enquanto se escreve, a violência não é esquecida.

Mais do que um livro de poesia, a obra é um chamado à consciência. O autor convoca o leitor a sair da posição confortável de espectador e a refletir sobre seu papel diante dessa realidade persistente. Ler "Poesias Polêmicas 2" é aceitar o desconforto e compreender que a literatura pode - e deve - intervir no mundo.

Essencial e necessário, o livro de Amador Maia, Costelas Felinas Editora,  Reafirma o poder da poesia como instrumento de denúncia social e transformação. É um lembrete contundente de que a palavra, quando comprometida com a vida, pode manter acesa a memória das mulheres que partiram cedo demais e fortalecer a luta por justiça, dignidade e igualdade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

.: Vicente de Carvalho: resgate do poeta santista por Flávio Viegas Amoreira


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

A obra "Vicente de Carvalho - Redescoberto", organizada por Flávio Viegas Amoreira, representa um marco para a preservação e revitalização da obra do icônico poeta santista Vicente de Carvalho. Com uma seleção cuidadosa de poemas e o ineditismo de um conto resgatado, a obra é um convite ao mergulho na lírica do “Poeta do Mar” e nos sentimentos da alma caiçara.

Além do encanto e da relevância de um conto publicado há 90 anos, o livro ganha um brilho especial com o prefácio escrito por Vicente Augusto de Carvalho (neto do autor) e por Ives Gandra Martins (membro da Academia Brasileira de Filosofia e ex-presidente da Academia Paulista de Letras). A edição em capa dura reforça o caráter de preservação cultural que esta obra representa.

Para a cidade de Santos, o resgate da obra de Vicente de Carvalho é muito mais do que uma homenagem; é um gesto de recuperação e valorização da história literária regional. Suas poesias, que celebram o mar, a natureza e o cotidiano, refletem o espírito do povo santista e reavivam uma conexão afetiva com as origens culturais da cidade. Esse livro não apenas enriquece a biblioteca da literatura brasileira, mas também reitera a importância de preservar a herança literária para futuras gerações. A edição organizada por Flávio Viegas Amoreira é, portanto, uma joia literária e um presente para os amantes da poesia e da cultura santista.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

.: #LeituraMiau: "Mistério no Sótão", um segredo repleto de suspense


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

"Mistério no Sótão" da autora Gladys Floriano, é uma narrativa envolvente e sensível às experiências do público infantojuvenil, a obra conduz o leitor por uma aventura cheia de descobertas, laços e desafios. A história gira em torno de Diana, Raul, Luca e Malu - quatro jovens conectados por uma antiga casa e um segredo guardado no sótão.

A mudança de residência dá início à trama, quando Diana e Raul, recém-chegados ao novo lar, conhecem Luca, o ex-morador com informações valiosas, e Malu, a vizinha curiosa. Juntos, eles embarcam em uma investigação repleta de suspense, explorando pistas e enfrentando dilemas que tocam temas como justiça, amizade, escola e os primeiros sinais de paixão.

A autora equilibra mistério e cotidianidade com maestria, proporcionando momentos de tensão e também de identificação com situações comuns da vida de qualquer jovem leitor. Mais do que um enigma a ser resolvido, o livro é um convite à imaginação, à empatia e ao valor da colaboração.

Ideal para leitores em formação, 'Mistério no Sótão' é uma leitura instigante, leve e cheia de alma, que acende a curiosidade e o prazer pela leitura.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

.: #LeituraMiau: "O Sagrado e o Além-Túmulo", de Carlos Carvalho Cavalheiro


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "O Sagrado e o Além-Túmulo - Milagreiros e Santos Profanos de Sorocaba", Carlos Carvalho Cavalheiro reúne décadas de observação, pesquisa de campo e levantamento documental para lançar luz sobre um tema tão fascinante quanto negligenciado pela historiografia tradicional: a devoção popular aos chamados “santos de cemitério”. O autor se volta a personagens cuja trajetória, marcada por tragédias, mortes prematuras ou circunstâncias excepcionais, transformou-os - pela força da fé popular - em intercessores capazes de operar graças e milagres.

Ao explorar a cidade de Sorocaba e seus cemitérios históricos, Cavalheiro faz emergir uma cartografia emocional da fé local. Cada tumba, cada inscrição e cada objeto deixado pelos devotos constituem fragmentos de uma narrativa construída coletivamente ao longo de gerações. O livro, assim, não é apenas um inventário dos milagreiros sorocabanos, mas um estudo aprofundado sobre a forma como comunidades ressignificam a morte e constroem uma espiritualidade muito própria, alheia às fronteiras formais entre religiosidade oficial e crença popular.

A escrita de Cavalheiro alia precisão historiográfica a uma sensibilidade etnográfica rara. O autor articula depoimentos, documentos, crônicas, registros iconográficos e tradições orais para reconstruir o percurso de cada figura sagrada. Há um cuidado especial em não apenas descrever fatos, mas contextualizá-los dentro de um universo cultural mais amplo, revelando como cada “santo profano” se insere na vida cotidiana da cidade.

A presença das fotografias, cuidadosamente selecionadas, amplia significativamente o alcance da obra. Elas não funcionam como simples ilustrações, mas como material de leitura paralela, que convida o leitor a percorrer os mesmos caminhos do pesquisador. Os registros visuais revelam túmulos ornamentados, placas de agradecimento, velas, flores, marcas de devoção silenciosa - elementos que, somados ao texto, constroem uma experiência quase imersiva. A materialidade da fé, assim, é apresentada com força e dignidade.

Cavalheiro demonstra, ao longo da obra, que a devoção aos santos de cemitério não é apenas sobrevivência de uma prática antiga, mas também uma forma contemporânea de resistência, memória e identidade comunitária. Suas análises evidenciam a complexidade sociocultural que envolve essas crenças: a interseção entre dor e esperança, morte e permanência, anonimato e consagração.

Em um momento histórico no qual as expressões da religiosidade popular ainda são subestimadas ou tratadas como curiosidades folclóricas, "O Sagrado e o Além-Túmulo" reafirma seu valor como documento imprescindível. A obra contribui para o debate sobre o sagrado no espaço urbano, amplia o repertório de estudos sobre Sorocaba e oferece ao leitor uma rara oportunidade de compreender como a fé se manifesta nos interstícios da vida e da morte.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

.: #LeituraMiau: "Argumentos e Roteiros para Curtas-Metragens"


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

"Argumentos e Roteiros para Curtas-Metragens" do autor H. Francisconi, é uma obra singular que cruza as fronteiras entre literatura e cinema de forma criativa. Sem a pretensão de ensinar ou oferecer fórmulas, o autor apresenta uma coletânea de histórias em dois formatos: primeiro como narrativa literária, depois em versão roteirizada para o cinema.

Mais do que um exercício de estilo, essa duplicidade revela o potencial das ideias e a riqueza de seus desdobramentos. O leitor é convidado a observar como o mesmo enredo pode ganhar diferentes nuances ao migrar do texto literário para a estrutura cinematográfica, explorando os silêncios, os cortes, as imagens sugeridas — e tudo aquilo que escapa à palavra escrita.

Francisconi oferece um jogo inteligente entre forma e conteúdo, em que a técnica não se impõe, mas se dissolve na fluidez do gesto criativo. A obra, longe de ser um manual, é um convite à experimentação, à leitura atenta e à sensibilidade artística. Ideal para leitores interessados nas interseções entre literatura e cinema, Argumentos e Roteiros para Curtas-Metragens é uma proposta ousada que instiga tanto quem escreve quanto quem observa os bastidores da criação.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

.: #LeituraMiau, de Cláudia Brino: Vieira Vivo e um traje para chamar de seu


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

"Coletânea Trajes Poéticos" do autor miau Vieira Vivo, é uma obra que se destaca por sua proposta didática e estética ao mesmo tempo. Trata-se de um verdadeiro guia prático para a arte da versificação, oferecendo ao leitor uma imersão profunda nas estruturas da poesia. Composto por 60 poemas que exploram 41 estilos poéticos, 12 figuras de linguagem e 7 tipos de rimas, o livro serve tanto como material de estudo para estudantes e pesquisadores da literatura quanto como uma experiência sensível para apreciadores da poesia.

A abordagem técnica do autor não compromete a fluidez da leitura. Pelo contrário, cada poema é trabalhado de forma a equilibrar rigor formal e expressão artística. O livro é voltado para um público diversificado, incluindo acadêmicos, escritores em formação e entusiastas da poesia que desejam compreender melhor os mecanismos do verso.

Além de seu valor pedagógico, "Trajes Poéticos" também se sobressai pela diversidade de temas, associada à variedade formal, confere à obra um dinamismo raro, que mantém o leitor envolvido e curioso a cada página.

Vieira Vivo demonstra maestria ao combinar teoria e prática, transformando o livro em uma referência tanto para o aprendizado quanto para a apreciação literária. Trajes Poéticos é uma leitura essencial para quem deseja aprofundar-se na arte do verso, seja pelo estudo técnico ou pelo prazer estético que proporciona.

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

.: #LeituraMiau: A beleza das palavras denuncia os limites do indomável caos


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Em "Deixa que Eu Conto - Volume 2: Rabiscos", a autora miau Maria Braga Canaan constrói uma escrita que desafia classificações. Seus textos, espontâneos e densos, não pretendem se encaixar em moldes: são manifestações da alma, rabiscos feitos com a coragem de quem entende que escrever é uma forma de exposição ainda mais intensa que o ato de se desnudar.

Canaan abraça a natureza fragmentária dos sentimentos. Cada texto é como uma janela entreaberta - às vezes luminosa, às vezes turva - para o universo íntimo que ela partilha com o leitor. A escritora reconhece a beleza das palavras, mas também denuncia seus limites diante do indomável caos emocional que todos carregamos.

Publicada pela Editora Costelas Felinas, a obra propõe uma experiência de leitura sensível e aberta, recusando definições fechadas sobre tema ou propósito. Cada leitor, portanto, se encontrará (ou se perderá) nesses fragmentos, reconhecendo neles algo de si.

O livro é um convite à experiência: cabe ao leitor percorrer esses caminhos de sentidos múltiplos, sentir-se tocado ou desafiado pelas entrelinhas. Maria Braga Canaan oferece uma travessia de impressões, um espaço onde o inacabado e o verdadeiro coexistem com rara honestidade.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

.: #LeituraMiau: "Escutando Demônios", um suspense psicológico perturbador


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

"Escutando Demônios", do autor Miau João Alexandrino, é um mergulho profundo nas sombras da mente humana — um suspense psicológico que confronta o leitor com os limites entre a lucidez e o delírio, a justiça e a perdição. A história acompanha um juiz de reputação impecável, homem de princípios firmes e carreira exemplar, cuja vida começa a desmoronar após um erro irreversível cometido no exercício da função. A partir desse instante, algo se rompe em seu interior: uma voz enigmática e insistente passa a ecoar dentro de sua mente, insinuando verdades que ele não quer ouvir - ou que talvez sempre tenham estado ali.

Enquanto tenta silenciar o sussurro que o persegue, o juiz assiste, impotente, à queda moral e emocional das pessoas ao seu redor. Cada gesto, cada olhar, cada decisão parece manipulado por forças que escapam à razão. Aos poucos, o mundo que o cercava se converte em um labirinto psicológico, onde culpa, poder e desejo se confundem numa espiral de destruição.

Com uma narrativa densa e inquietante, João Alexandrino constrói um retrato perturbador da consciência humana em colapso. A atmosfera é claustrofóbica, a escrita é precisa e cortante — e o leitor, prisioneiro da tensão crescente, se vê compelido a questionar junto ao protagonista: até que ponto a voz interior é apenas nossa, e quando ela passa a ser o eco de algo mais sombrio?

Entre revelações, delírios e verdades incômodas, Escutando Demônios é mais do que um romance psicológico - é uma descida aos abismos da alma, onde cada escolha carrega o peso do pecado e da redenção possíveis. Compre o livro "Escutando Demônios", de João Alexandrino, neste link.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

.: E.F. Goodman e Vlamir Belfante falam sobre capoeira e berimbau na música


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Além do valor musical você encontrará nesta simbologia do berimbau uma imersão profunda desde as raízes afro-brasileiras até a presença inesperada em composições nacionais e internacionais.

"Capoeira e Berimbau na Música Brasileira" dos autores E.F. Goodman & Vlamir Belfante é uma obra que se destaca por seu rigor investigativo e sensibilidade cultural ao abordar um dos instrumentos mais emblemáticos da musicalidade brasileira. O livro oferece uma imersão profunda na trajetória do berimbau - desde suas raízes afro-brasileiras até sua presença inesperada e, muitas vezes, surpreendente em composições nacionais e internacionais.

O berimbau, tradicionalmente associado à capoeira, transcende aqui seu uso comum e se revela como uma ponte entre culturas, estilos e continentes. Os autores percorrem trilhas históricas para mostrar como esse instrumento de uma corda só conquistou espaço em gêneros como o jazz, a música eletrônica, o pop e o experimentalismo sonoro contemporâneo. A pesquisa apresentada no livro é sólida e bem documentada. A obra se apoia em registros sonoros.

Além do valor musical, o livro também destaca a simbologia do berimbau enquanto resistência cultural e espiritualidade. Em um país de herança africana tão forte, o instrumento carrega consigo a força de um legado que se renova a cada geração. Nesse sentido, a obra cumpre um papel fundamental ao preservar e difundir o conhecimento sobre esse ícone sonoro e cultural.

Publicações como essa, são fundamentais em um contexto em que muitas tradições sonoras correm o risco de desaparecer diante da globalização e da padronização estética. "Capoeira e Berimbau na Música Brasileira" reafirma a importância de olhar com atenção para nossos instrumentos, nossas histórias e nossas vozes - muitas vezes silenciadas - que ainda ressoam, com potência e beleza, por todo o mundo. Compre o livro neste link.


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segunda-feira, 3 de novembro de 2025

.: #LeituraMiau: Cláudia Brino estreia coluna com livro de Luiz Antonio Canuto


Por Cláudia Brino, escritora, ativista cultural e editora da Costelas Felinas

Uma jornada cuja leitura o levará para o centro
das lutas e transformações de uma cidade.

Em “O Nascer de Uma Cidade - As Origens de Santos”, o professor e historiador Luiz Antonio Canuto resgata. com rigor histórico, os primeiros capítulos da formação de Santos, cidade que viria a ocupar papel de destaque no cenário nacional. O livro oferece uma rica reconstituição dos tempos iniciais do povoamento, revelando figuras emblemáticas, episódios marcantes e os entrelaçamentos políticos, sociais e culturais que deram forma à identidade santista.

Não é apenas um relato cronológico, a obra propõe uma incursão reveladora pelos alicerces de uma cidade que guarda, em seu passado, as marcas de lutas, transformações e permanências. Leitura fundamental para estudiosos e apaixonados por História. O livro contribui, também, para o entendimento do presente urbano à luz de suas origens. Adquira o livro neste link.


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