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sexta-feira, 27 de março de 2026

.: "História Pública e Linha do Tempo", de Elcio Rogério Secomandi e Cris Carbone


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Dissertar, defender, justificar.

A arquitetura militar colonial implementada a partir do Século XVI ao XIX em todo o litoral brasileiro, contribuindo grandemente para a formação de uma identidade nacional e para a emancipação de vilas e conjuntos habitacionais característicos, sem maior interferência dos colonizadores portugueses. A partir de materiais improvisados e escassos a engenharia local produziu obras primas em fortes do sistema defensivo colonial que sobrevivem, praticamente intactos, até aos dias atuais e estão enumerados e catalogados neste completo documento histórico.

O material elaborado de "História Pública e Linha do Tempo", pesquisado e escrito por Elcio Rogério Secomandi, publicado pela Navegar Editora, utiliza metodologia científica, pois é parte de documento enviado ao Conselho do Patrimônio Mundial (Unesco), está catalogado pelo IPHAN e representa para a população um grandioso valor documental simbólico e histórico. As belíssimas ilustrações são quadros, óleo sobre tela, a cargo da conceituada artista plástica Cristiane Carbone, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, realizados a partir de fotos aéreas das dezenove fortalezas abordadas pelo estudo arquitetônico em questão.

O livro complementa-se com textos de Secomandi publicados no jornal A Tribuna de Santos sobre aspectos da cultura litorânea, arquitetura, costumes e personagens peculiares relevantes de nossa história. A contacapa nos brinda com informações adicionais através de seis QR-Code, com o intuito de expandir conhecimentos e informações a todos os interessados em arquitetura colonial, sistema defensivo e monumentos históricos.

sexta-feira, 20 de março de 2026

.: #VivoLendo: "Flores do Deserto", de Márcio Catunda


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Quando serei o tempo de um silêncio de plenitude?

O enigma, a essência e a clareza nos espreitam através da capa colorida e do conteúdo poético expostos nas páginas deste livro de Márcio Catunda, publicado por Ventura Editora. Uma fonte repleta de mistérios, ironias e ensinamentos a jorrar ante nossos olhos. A sede se acentua ao provarmos a delicadeza fonética temperada ao sabor da trajetória e da vivência. Ao sorvermos em amplos goles o versejar agalopado e arraigado nas entranhas da nordestinidade, expandida pela universalidade das caminhadas, da erudição enriquecida nos quatro cantos do mundo, a obra de Catunda se agiganta e torna-se leme e bússola aos desbravadores deste deserto em que vivemos em meio a um cotidiano árido, acre e distópico, porém fecundo para íntimas reflexões e fugas interiores.

Adaptamo-nos aos desmandos, coniventes com a distopia infame. A constante preocupação ante os conflitos sociais e à minúscula movimentação dos seres comuns ante à contemporânea teia tecnológica opressiva, soma-se à evolução da espiritualidade e à imagética transcendente dos elementos resultando em poemas criativamente densos, concisos, repletos de sabedoria, humor e leveza, porém de um direcionamento certeiro e eficaz à fisgar a insaciável busca da clareza poética. Autor de uma grandiosa obra impressa, destaca-se por uma contínua trajetória criativa e de admirável e amplo manuseio poético, sempre em busca de um fortalecimento humanista e de interpretação e recepção coletiva para sua arte.

Na urna do obscurantismo o Bem e o Mal fingem que são inimigos. O livro complementa-se com prefácio do professor Willis Santiago Guerra Filho, orelhas a cargo de Anderson Braga Horta e Adelto Gonçalves, contra-capa por Jorge Ventura e capa de Val Melo. Fica evidente, ao término da leitura, a impressão de multi abrangência quimérica e de completude humana em que o teor poético destilado em sábio anti-academismo nos conduz através das trilhas floridas deste deserto.

segunda-feira, 9 de março de 2026

.: #VivoLendo: "Canto do Alaúde", de Rosani Abou Adal


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Não teve tempo de salvar a boneca, 
de dizer adeus aos pais.
A crueldade avassaladora movida e arquitetada pela supremacia bélica sionista sobre populações árabes civis indefesas, inclusive crianças, ressoa, grita e nos abala nas páginas de “Canto do Alaúde”, de Rosani Abou Adal, edição da autora sob o selo Linguagem Viva. A arma da poética da indignação é manuseada pela autora com imenso pesar, um versejar pungente e, ao mesmo tempo, de denúncia e alerta contra a aflição que envolve um cotidiano repleto de sofrimentos, perdas e escombros. A sonoridade plangente do instrumento musical milenar ecoa através das cenas retratadas em cada verso. O pesadelo que se abate diariamente com mísseis, tanques e drones, vem escancarar de maneira cruel e insensível a tragédia humanitária que se abate sobre os indefesos habitantes das áreas ocupadas.

A guerra em balbúrdia, navalha que dilacera.
Utilizando uma linguagem crua e direta, Rosani absorve, reflete e expõe a ausência de futuro infantil imediato, os pesadelos e horrores do dia a dia, a falta de perspectiva alimentar e de moradia para uma imensa quantidade de famílias destroçadas e de um séquito de órfãos atônitos e desamparados. Notamos que o livro torna-se atemporal, enquanto manifesto pacifista, ético e humanista. Uma poética consciente, consistente e sobretudo combatente contra os desvios perpetrados pelo autoritarismo militarista que campeia e nos ameaça neste início de milênio.

Dormir acordado entre os destroços, sem sonhos.
O prefácio de Ronaldo Cagiano intitulado “Uma poética aguerrida num cântico de intervenção” avaliza todo o teor de coerência e combatividade em que Rosani Abou Adal maneja sua adaga fonética, e ainda, emoldurado pela capa e ilustrações de Janaina Adal da Costa Millan temos em mãos um livro contundente a refletir o trágico e dramático quadro das relações de prepotência militar e de desigualdade entre os povos.

sexta-feira, 6 de março de 2026

.: #VivoLendo: "Canto do Alaúde", de Rosani Abou Adal


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Não teve tempo de salvar a boneca, de dizer adeus aos pais.

A crueldade avassaladora movida e arquitetada pela supremacia bélica sionista sobre populações árabes civis indefesas, inclusive crianças, ressoa, grita e nos abala nas páginas de “Canto do Alaúde” de Rosani Abou Adal (Edição da Autora sob o selo Linguagem Viva). A arma da poética da indignação é manuseada pela autora com imenso pesar, um versejar pungente e, ao mesmo tempo, de denúncia e alerta contra a aflição que envolve um cotidiano repleto de sofrimentos, perdas e escombros. A sonoridade plangente do instrumento musical milenar ecoa através das cenas retratadas em cada verso. O pesadelo que se abate diariamente com mísseis, tanques e drones, vem escancarar de maneira cruel e insensível a tragédia humanitária que se abate sobre os indefesos habitantes das áreas ocupadas.

A guerra em balbúrdia, navalha que dilacera.

Utilizando uma linguagem crua e direta, Rosani absorve, reflete e expõe a ausência de futuro infantil imediato, os pesadelos e horrores do dia a dia, a falta de perspectiva alimentar e de moradia para uma imensa quantidade de famílias destroçadas e de um séquito de órfãos atônitos e desamparados. Notamos que o livro torna-se atemporal, enquanto manifesto pacifista, ético e humanista. Uma poética consciente, consistente e sobretudo combatente contra os desvios perpetrados pelo autoritarismo militarista que campeia e nos ameaça neste início de milênio.

Dormir acordado entre os destroços, sem sonhos.

O prefácio de Ronaldo Cagiano intitulado “Uma poética aguerrida num cântico de intervenção” avaliza todo o teor de coerência e combatividade em que Rosani Abou Adal maneja sua adaga fonética, e ainda, emoldurado pela capa e ilustrações de Janaina Adal da Costa Millan temos em mãos um livro contundente a refletir o trágico e dramático quadro das relações de prepotência militar e de desigualdade entre os povos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

.: #VivoLendo: “A Noite do Futuro”, de Murilo Alonso de Oliveira


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

... percebi que a grande noite havia chegado.

Segunda metade do Século XXI, o planeta assiste horrorizado a grande catástrofe denominada “tomada” ou a elevação acentuada do nível do mar sobre extensas regiões do globo terrestre. Cidades inteiras e suas populações submergem diante das avalanches aquáticas e das alterações climáticas e o que resta da  humanidade passa a sobreviver num círculo restrito à pesca, caça, trabalhos braçais e pequenos comércios alojados em  casebres incrustados nos povoamentos construídos nos picos mais altos dos morros, fora do alcance das águas. 

Essa inquietante ficção distópica nos alerta de forma direta e oportuna sobre como os rumos de uma civilização consumista e poluidora poderão resultar em uma involução de nossa sociedade. O livro “A Noite do Futuro” de Murilo Alonso de Oliveira, publicado pela Editora Costelas Felinas, retrata a cidade de Santos submersa, com a pequena população sobrevivente isolada e totalmente desassistida por um governo federal omisso, distante e centralizado. As escolas presenciais desaparecem e os estudos são conduzidos através de intra-redes em pequenos aparelhos eletrônicos e o assistencialismo social é protagonizado apenas pelas pequenas igrejas evangélicas. A comunicação entre as ilhas remanescentes é feita através de rústicas embarcações denominadas “navegáveis”, construídas de lona, cordas e garrafas plásticas. 

Neste cenário ingrato, o autor desenvolve a lida diária dos personagens litorâneos, suas angústias, carências e convivência familiar. A resignação coletiva diante da realidade potencialmente avassaladora nos remete a situações encontradas em outros textos em que Santos e seus habitantes são cruamente retratados, tais como Plínio Marcos, Afonso Schmidit e a prosa de Vicente de Carvalho. Um livro merecedor de maior visibilidade pelo conteúdo, pela estrutura e pela complexidade narrativa e, ainda, nos deixa perplexos quanto ao que poderá advir após a última página.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

.: #VivoLendo indica o livro “Ludibriar das Faltas”, de Marcio Gregório Sá


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
Escrever é a sensação de tapear uma realidade

A partir da utilização de aforismos e de textos curtos, revela-se, ante nossos olhos, uma concisa, reflexiva e consciente subversão de conceitos, dogmas, sínteses e tratados sociais em que se movimenta a sociedade contemporânea. O imenso labirinto sem perspectivas reais de ruptura em que sobrevivem parcamente as classes menos favorecidas, a população pobre oriunda das senzalas, os aprisionados pela manipulação da fé e os acomodados diante do maniqueísmo materialista é cruamente dissecado em cento e onze “afros” (corruptela de aforismo) neste pulsante livro “Ludibriar das Faltas”, publicado pela Editora Primata, de Marcio Gregório Sá.

O jogo de corpo para escapar das faltas, desde os campinhos de futebol da infância, evolui para as brechas em contornar obstáculos, opressões, truculências policiais e preconceitos e se expande para a carência de bens básicos de sobrevivência e de lazer e, ainda, da falta concreta de itens de auto-identificação culturais. A cada página, o autor subverte com sagacidade os imperativos ditames comportamentais e aponta para uma utópica co-relação de forças em que a alteridade sobressaia ante essa insípida e opressora atmosfera. Os textos são enriquecidos com amplas e heterogêneas referências literárias, filosóficas e culturais e temperados com uma fina camada de ironia e perspicácia.

A cada texto notamos os estilhaços fragmentados da realidade e a síntese de reestruturação de uma contínua e incessante diretriz de conduta mental e física para ludibriarmos as faltas e as carências opressoras da realidade e é finalizado com o aforismo cento e onze, trágico número tatuado, para sempre, em nossa cicatriz social. O livro traz, ainda, orelha e contra-capa de Milton Ricardo, prefácio de Marcelo Ariel e posfácio de Ademir Demarchi e, faz-se necessário, destacar, ainda, o contundente aforismo: “O que define o inconsciente nacional é o violento excesso das ausências”.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

.: #VivoLendo indica "Anna Costa - Muito Além de Uma Avenida"


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
O que seria da civilização
sem os pesquisadores históricos?

"Anna Costa - Muito Além de Uma Avenida", de Fabíola Savioli e Alejandro Nascimento, é um relevante e oportuno documento histórico retratando a atmosfera e o aspecto urbano de Santos em meados do Século XIX. Com a densidade demográfica do centro da cidade impulsionada pela movimentação crescente das atividades portuárias e com a dinâmica vertiginosa das empresas em torno do setor cafeeiro e dos estabelecimentos comerciais, a problemática da escassez de moradias se acentuou. Em vista disso, o perímetro central tornou-se limitado em contraste com as vastas áreas despovoadas após o Morro do Monte Serrat até a orla praiana.

Com acentuada visão futurista o comerciante, exportador de café e administrador de inúmeros negócios na cidade, Mathias Casemiro da Costa adquiriu vastas extensões dessas terras inutilizadas até então e iniciou um grande loteamento, com ruas traçadas, sistema de esgoto, água canalizada e uma grande avenida, com 30 metros de largura, ligando o início do empreendimento até a Barra (praia). Os terrenos, vendidos a preços populares, obtiveram enorme sucesso de vendas e os próprios adquirentes batizaram o bairro com o nome de Vila Mathias em homenagem ao visionário empreendedor.

Mathias Casemiro da Costa denominou essa ampla e pioneira artéria urbana com o nome de Avenida Dona Anna Costa em homenagem à sua jovem esposa e, ainda, implantou uma linha de bondes da Vila Mathias à praia, até onde estava localizado o bar do marceneiro Gonzaga. Dona Anna Costa residiu em Santos até o trágico assassinato de seu esposo, aos 35 anos, e logo após fixou residência no Rio de Janeiro,

O livro, publicado pela Editora Comunicar, conta com vastíssimo teor documental, relevantes fotos pertencentes ao acervo particular dos descendentes da homenageada, apurada pesquisa genealógica e recortes de jornais da época embasando com extensa ficha bibliográfica todo o rigor acadêmico referente ao estudo e pesquisa implementados por Fabíola Savioli e Alejandro Nascimento. Conta, ainda, com prefácios de Carolina Ramos, Ives Gandra Martins e Heloisa Mathias Costa, autêntica bisneta dessa importante personagem da história santista.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

.: #VivoLendo: "50 Poemas Escolhidos Pelo Autor", de Flávio Viegas Amoreira



quando a palavra goza

Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Um caudaloso, lascivo e camaleônico oceano fonético onde os versos estalam em vagas, vagidos e vertentes. Um universo marítimo cromático e sonoro, asperamente solícito e convidativo à amplitude do mergulho. O poeta se faz mar e nele os tesouros poéticos emergem e desnudam conceitos, desejos, referências e reverências. A relevante coletânea "50 Poemas Escolhidos Pelo Autor", de Flávio Viegas Amoreira, publicada por Cloé Editora nos revela infinitos ângulos multifacetados de um manancial inesgotável detectados pelo prisma evolutivo de constante aprimoramento. Seguindo a orientação de Kavafis, Viegas perscruta infatigavelmente seu quadrante oceânico interior, e qual etéreo escafandrista, nele descobre, resgata e nos oferece abundantes relíquias, conjecturas, influências, ferramentas, memórias e espelhos.

A presença constante, em seus escritos, de citações respeitosas a inúmeros poetas, músicos e pintores de diferentes períodos, vem enaltecer influências e aprendizado e nos remeter a um complexo e generoso caleidoscópio cultural a enriquecer o teor temático de cada poema. Além de envolver furtivamente cada texto escolhido em uma atmosfera de serena e difusa lascívia através da qual um erotismo velado envolve e sustenta preciosamente o viés abrangente e libertário do poeta.

Em destaque, na coletânea, dois longos poemas em homenagem à São Paulo. De mãos dadas com Piva e Willer, Flávio transita por becos noturnos, ambientes obscuros, parques, avenidas e contrastes sociais, qual um guia obcecado por alternativas marginais, entre a fauna urbana e seus ambientes repletos de desejos explosivos em meio ao concreto frio das esquinas e aos literais avessos da complexidade antropofágica paulistana.

Em um relevante posfácio analítico, Ademir Demarchi complementa a edição com um preciso tratado sobre a trajetória poética de Flávio Viegas Amoreira e sua original e complexa obra autoral onde segundo seus versos todo o mistério visível só é perceptível na poesia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

.: #VivoLendo: Revista Cuipatã - N.º 1: Dossiê 40 Anos Vila Socó


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
O mangue virou altar de sacrifícios

Saudamos o surgimento da Revista de Ensaios e Literatura Cuipatã, nome que nos remete ao idioma dos povos originários, ao tupi-guarani, com o significado poético e abrangente de água que desce da serra ao qual a oralidade nos trouxe à denominação atual de Cubatão. Neste primeiro número a publicação, cujo projeto foi premiado pelo Conselho Municipal de Política Cultural, disseca o trágico incêndio ocorrido na Vila Socó em fevereiro de 1984. 

A publicação se insere no mais completo dossiê impresso até hoje sobre a inesquecível catástrofe, nos revelando com rigor científico e acadêmico toda a dimensão do sofrimento humano e social das vítimas, o descaso das autoridades, a inércia do judiciário e a apatia e frieza do regime militar.

A primeira parte é composta pelo editorial e por onze ensaios altamente elaborados, com extensa referência bibliográfica, onde a visão de cada colaborador nos elucida sobre a problemática da tragédia noturna, a ineficaz contagem oficial dos mortos, a imputação pela Petrobras da culpabilidade aos próprios moradores, a acusação, sem provas, de furto e estocagem domiciliar de combustível extraído de uma tubulação sem manutenção adequada e que cortava o subsolo pantanoso da favela. 

O rescaldo oficial ao amanhecer revelou a morte de noventa e três pessoas. Porém, somente de crianças, segundo registros posteriores de matriculados nas escolas, a soma alcançou aproximadamente 500 vítimas desaparecidas. O horror reverbera até aos dias atuais. O Grupo Teatral Coletivo 302 encenou a peça “Vila Socó” com profundo impacto artístico e emocional e a revista traz, ainda, no primeiro caderno, extensa entrevista com os integrantes da premiada troupe teatral cubatense.

A segunda parte, denominada Caderno Literatura, traz poemas, crônicas, contos e reflexões sobre o tema implícito da edição e dá voz, também à temática literária livre a cargo de marcantes autores, os quais mantêm a qualidade geral da publicação. Reverenciamos aos editores Douglas Gadelha Sá, Márcio Gregório Sá e Milton Ricardo Junior, assim como ao coordenador editorial Ademir Demarchi pelo árduo e relevante trabalho de manterem viva, através da Revista Cuipatã, a memória e a dor das vítimas e familiares, protagonistas involuntários, da maior tragédia urbana brasileira destes últimos quarenta anos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

.: #VivoLendo: "Trovador no Caos", de Roberto Canuto



Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.
A taça da emoção transborda,
nasce o verso.

A arte de expor a alma em rimas talhadas com esmero e delicadeza, desnudando pensamentos, utopias, quimeras, vivência e lirismo. Caudalosa fonte a jorrar versos sobre o cotidiano de maneira ostensivamente emocional. Ao tecer estrofes lapidadas por arguta observância, o poeta elabora um porta-joias onde degustamos a essência humana, musical e poética de Roberto Canuto.

“Trovador no Caos”, publicado pela Editora Costelas Felinas, aponta essencialmente para o bem-virá. Um mundo de igualdade, de justiça social, de clareza e transparência onde a arte torna-se bússola e leme a nos guiar pelas linhas traçadas da poética bem delineada. Para que confrontar, se podemos unir? O trovador arremete seu canto de esperança e nos enlaça através dos versos em um terno e gentil convite: Sejamos abertos ao imaginário!

O concreto áspero da urbanidade, a desigualdade social, as injustiças latentes e a degradação da natureza, também, estão expostos em seus versos de forma contínua revelando a inquietude do poeta ante tantos obstáculos no mundo contemporâneo. Porém, sua pena nos traz alento e nos guia por uma ponte para novos sonhos. Onde iremos, por fim, encontrar a luz e beber de sua fonte.

Roberto Canuto, neste “Trovador do Caos”, divide-se em múltiplos ângulos para nos alimentar de poemas concisos, reflexivos e reveladores em sua vivência poética e quimérica buscando sempre pela alforria na nova alvorada onde o sonho de justiça é o nosso alimento.



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

.: #VivoLendo: "Os 70 Ausentes de Pedra Branca", de Cláudio Feldman


Por 
Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

...dos inertes saiu uma constante movimentação

A finitude da existência individual movimenta-se incessantemente qual uma fatídica sombra sobre a trajetória fugaz de cada personagem. Em  "Os 70 Ausentes de Pedra Branca", de Cláudio Feldman (Editora Taturana), setenta contos curtos nos conduzem através da fatalidade implacável da morte a ceifar vidas e a selar trágicos destinos compulsoriamente. Com um estilo conciso, o autor nos apresenta os últimos momentos de vida de alguns habitantes de Pedra Branca, pequena cidade ficcional, detentora de uma heterogênea fauna urbana de biotipos.

A narrativa sustenta-se em clara e precisa performance onde um halo de humor tênue atravessa os momentos finais de cada conto. Com maestria Feldman constrói fatos, acasos e atitudes que acabam culminando com a tragicidade inerente de cada contexto. A construção dos personagens obedece a uma elaborada arquitetura narrativa onde somente o fundamental, no momento fatal da morte, se destaca. Não há verborragia excessiva, nem descrições enfadonhas que venham a alongar, desnecessariamente, o teor literário da escrita. Outro ponto de destaque é a identificação dos habitantes da cidade. Todos, sem exceção, possuem nomes originais, sonoros e caricatos fazendo com que adentremos a novos e diferentes cenários a cada página e isto estimula nossa curiosidade à medida que se desenrola a leitura.

Cada conto traz ilustração em preto e branco, porém com detalhes em vermelho, criação de Perkins Teodoro Moreira (Ideografia), a realçar o âmbito trágico das narrativas. Com 80 anos e 62 livros publicados, Cláudio Feldman demonstra vigor e criatividade literária incansável e constante construindo uma obra marcante e original desde os tempos em que militava na poesia marginal da década de 1970 quando já se destacava como um nome de peso entre os pioneiros da geração mimeógrafo.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

.: #VivoLendo: “Ascensões e Descensos”, de Marcelo Tápia


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

o ser é o que transita
nos limites do elástico

A leitura apurada de “Ascensões e Descensos” de Marcelo Tápia, publicado pela Editora Madamu, nos revela um aprimorado equilíbrio entre inúmeras vertentes literárias. Os versos traduzem, a cada página, toda a cultura poética do autor, trafegando entre versos livres e métricas concisas a desnudar suas memórias, reminiscências, experiências e fábulas e nos remetem aos escribas da Grécia clássica ao modernismo e aos meandros da metalinguagem. 

O aprimoramento técnico em redondilhas, terças rimas e decassílabos nos conduz a um bailado rítmico de tambores, compassadamente hipnóticos, a realçar os íctos fixos das sílabas métricas a direcionar o âmago das emoções e à dramaticidade contida pela respiração, a nos transportar aos primórdios da poesia falada na literatura teatral da antiguidade.

Entre a sabedoria exposta pelos saberes e sabores, nota-se na construção dos versos a vivência observadora e reflexiva do ser humano atento aos aromas, aos paladares, à passagem do tempo, aos frutos e alimentos e à presença dos desafortunados que transitam anônimos ao redor do escriba. Nos textos fabulares vemos os elementos da natureza, os animais, os rios e as plantas esbanjarem ensinamentos e ética e percebemos, ainda, as glórias homéricas dos vencedores e a capitulação fatal dos derrotados: "... as vozes ressurgindo dos silêncios".

O livro traz posfácio de Leonardo Antunes a nos orientar, em uma dissecação segura e precisa, dos pendores técnicos de Marcelo Tápia e sua marcante trajetória na literatura contemporânea e, ainda, a orelha escrita pelos editores Marcelo e Valéria Toledo. E mesmo após nos encantarmos com a grandeza e o teor poético e vivencial de “Ascensões e Descensos” percebemos implícito em cada poema a fragilidade fugaz de nossa existência e a consistência fugidia de nosso legado sob a contínua concepção dos tempos: "por que esperar ser algo além do nada?".


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#AscensoesEDescensos #MarceloTapia #EditoraMadamu

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

.: #VivoLendo: "Um Bolo de Vingança", de Murilo Alonso de Oliveira


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

O espaço do homem
é o tempo em que ele vive.
Todo o resto é memória.


Observamos em "Um Bolo de Vingança", de Murilo Alonso de Oliveira, publicado pela Costelas Felinas Editora, a vingança alçada ao patamar de terapia redentora. O protagonista tem como meta, para suplantar o marasmo interior e a ínfima auto estima cotidiana, a desforra contra desafetos que o humilharam fisicamente em diferentes períodos de sua adolescência e juventude. A trama muito bem alinhavada pelo escritor e professor Murilo Alonso de Oliveira, tem como elemento motriz a memorização insistente de fatos preponderantes inconclusos, fazendo com que o personagem projete um acerto de contas unilateral ante seus rivais e, em conseqüência, consigo mesmo e com seu próprio passado.

A trama tem um elo interno elaborado a partir de diferentes sub-tramas enriquecendo a leitura e nos abastecendo de elementos vivenciais agudos na movimentação constante do chamado “agon” ou o “conflito” entre o protagonista e os antagonistas. Embora o instinto vingativo esteja furtivamente atrelado à sua hereditariedade, o personagem procura sempre agir racionalmente nos momentos cruciais em que se depara fisicamente com seus “rivais”. Mesmo quando o acaso os traz subitamente, do passado, à sua fatídica e fatal presença.

Além disso, o livro é ambientado em Santos e adjacências, fazendo com que sua leitura nos remeta a um “tour” pela urbanidade santista. O personagem principal foi criado, reside, trabalha e se movimenta na cidade e o autor nos leva pelos bairros, praias, residências, bares e estabelecimentos comerciais colorindo magistralmente o livro em uma atmosfera litorânea cativante para todos nós que nutrimos uma grata memória afetiva por esta região.

Em meio à intensa movimentação literária, os capítulos trazem, ainda, elucidativas epígrafes de nomes como Shakespeare, Robert Arlt, Rubem Fonseca... e traz diálogos preenchidos com toques, dicas e informações adicionais sobre psicologia, filosofia, literatura, cultura pop, música contemporânea, publicidade e redes sociais. E, para complementar, transcrevo um trecho do prefácio escrito por Flávio Viegas Amoreira: “...aqui a poesia se revela no prosaísmo cotidiano, nos vestígios da vida e na persistência da memória”.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

.: #VivoLendo: Carolina Ramos, um século iluminando nossa literatura


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural. Na imagem, com ele, Fabíola Savioli, uma das autoras da antologia

Sempre a poesia a
iluminar-me os passos.


A obra biográfica editada pela Editora OLPB, comemora e homenageia a trajetória marcante, coerente e exemplar de Carolina Ramos em seu centenário de vida dedicada às múltiplas atividades em literatura, música e artes plásticas. Nascida em 1924 na antiga Vila dos Andradas, na casa nº. 1, em Santos, onde atualmente se encontra a Rodoviária, conviveu, em sua infância, com o poeta Martins Fontes, frequentador da vizinha casa nº. 5. Estudou em tradicionais colégios da cidade, estudou piano e belas artes e enveredou pelos caminhos da literatura. Em 1964 conquistou seu primeiro prêmio, em Petrópolis e já em 1965 recebeu das mãos de Austregésilo de Athayde, na Academia Brasileira de Letras sua premiação referente ao primeiro lugar no Concurso Bicentenário de Bocage, realizado em Portugal.

Sua vasta obra com dezenas de títulos se faz presente por décadas de contínua dedicação e aprimoramento. Seu livro “Sempre” foi elogiadíssimo por Guilherme de Almeida que o incorporou como uma de suas obras de cabeceira. Foi casada com Luiz Otávio, o “Príncipe das Trovas” e celebrada como Magnífica Trovadora devido à qualidade contundente de suas trovas. Fundou a Academia Brasileira de Trovas e dedicou anos à um trabalho incansável na direção, coordenação e divulgação da arte trovadoresca. Especializou-se, também, em soneto tradicional com riquíssimas metáforas e figuras de linguagem aperfeiçoadas em escorreitas rimas emparelhadas e chaves de ouro perfeitas em temas variados, desde o lirismo e a natureza até as angústias e as fatalidades da natureza humana. Angariou, também, prêmios em artes plásticas e compôs hinos para instituições de ensino e culturais. Sua história está umbilicalmente agregada à cidade de Santos e tê-la em atividade aos cem anos de existência é, no mínimo, um sublime farol para todos nós.

O livro, bem documentado escrito por Juarez Avelar, Gabriel Kwak e Fabíola Savioli, traz prefácio de Ives Gandra Martins e registra, ainda, sua união com o escritor e jornalista Cláudio de Cápua, editor da maioria de seus livros de poemas, trovas, fábulas, memórias. contos, crônicas e infantis. Carolina Ramos é, na atualidade, indubitavelmente, a personalidade de maior brilho no panteon de nossa literatura por tudo que sua centenária trajetória representa e pela postura de serenidade, sabedoria, modéstia, elegância, cultura e coerência.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

.: #VivoLendo: "A Extração dos Dias", de Claudia Roquette Pinto


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

se o poema me habita
“há um céu de mil janelas”

A obra de 367 páginas, editada pelo Círculo de Poemas traz, em uma única edição, a produção abrangente de cinco livros: "Os Dias Gagos" (1991). "Saxifraga" (1993), "Zona de Sombra" (1997), "Corola" (2000), "Margem de Manobra (2005) e, ainda, Poemas Inéditos (1984-1986) numa vertiginosa aquarela fonética onde os substantivos dialogam com o etéreo e se movimentam em uma teia opaca e densa desnudando a própria rotina e solidão ante a contemplação dos dias e as surpreendentes armadilhas poéticas do cotidiano. A leitura nos eleva a um obscuro e incerto firmamento cravejado por chispas de claridade e cores a nos guiar por versos intimamente elaborados em uma dimensão particular de emoções irreais e lisérgicas emoldurando a concepção mística e artística da autora: as sílabas racharam o dique – urdir é o xis da poesia.

Fica evidente na compostura imagética de Claudia Roquette Pinto, uma incansável meditação serena e reflexiva aglutinando seres e objetos em determinada e contínua conversação metalinguística. Os sentimentos, emoções e movimentos dos entes inanimados, insetos, aves, cores e plantas iluminam o núcleo das palavras e a passagem das horas em variados e múltiplos ambientes urbanos, utópicos, bucólicos ou no próprio âmago da poeta: abriu-se, de fonte inexplicável, no nanquim da noite a floração.

Há, também, em sua obra a manipulação caótica das palavras, forjando vazios entre as sílabas, a promover rupturas, criar espaços semânticos e a direcionar para além do mero verso a ousadia poética e rítmica elaborada a partir da lapidação constante. Essas rupturas ficam evidentes nos mosaicos textuais onde frases, aparentemente, desconexas formam, nas entrelinhas, diálogos e situações ímpares e inusitadas: parada no sinal eu vi um coração cheio de gasolina.

Enfim, uma obra poética que não se finda após a primeira leitura. A cada manuseio novas imagens se sobressaem tornando o livro um renovo constante e inconstante de produtiva e coerente produção poética. A edição traz, ainda, orelhas de Marília Garcia e posfácio esclarecedor e detalhado do organizador Gustavo Silveira Ribeiro.

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

.: #VivoLendo: "Textosterones", de J. A. Garbino, é a indicação de Vieira Vivo


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

O livro “Textosterones”, publicado pela Idea Editora, é composto por 13 contos comportamentais sobre as peripécias, vivências e crendices de personagens construídos sob um meticuloso ofício criativo a dissecar heterogêneas personalidades e seus conflitos, devaneios, fantasias e posicionamento político-social em um turbilhão de acontecimentos e reviravoltas em aprimorados contextos e situações cotidianas e traz, ainda, como sugestivo sub-título: “Veredas Obscuras do Desejo”.

Garbino, com seu extenso e profundo conhecimento do âmago emocional e físico do ser humano, traça com clareza cirúrgica inúmeras situações e enredos onde os personagens travam batalhas épicas contra seus próprios instintos, desejos, paradoxos e prazeres construídos com a extrema habilidade artística de quem pinta com paciência e concisão uma primorosa tela a retratar a fragilidade, de cada um de nós, ante a onipotência das fatalidades.

Notamos, aqui, como a literatura se dedica a traçar caminhos onde situações e atitudes corriqueiras e simplórias são expandidas, pelo talento do autor, e transformam-se em compêndios antropológicos lapidados por intensa carga emocional e reflexiva a elevar a uma dimensão superior a nossa percepção artística sobre uma obra atemporal e inclusiva onde fica evidente os contrastes marcantes dos extratos sociais, o linguajar característico das regionalidades, o sincretismo religioso e suas crendices, a visão animal sobre a ganância e crueldade humanas e até os obscuros impulsos recalcados e retraídos de nossa sexualidade.

O livro traz, ainda, apresentação de Helio Schwartesman, prefácios de Nelson Itaberá e Rivaldo A. Paccola e nota do editor Rodrigo Coube e tem lugar de destaque entre as publicações de contos, este conciso gênero literário breve, porém tornado grandioso por hábeis mãos e por uma mente altamente observadora e envolta em primorosa qualidade literária.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

.: #VivoLendo: "Des Casulo", de Flávio Viegas Amoreira, a dica de Vieira Vivo


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

"tanta querência
nesse silêncio de fonte"


Ao trilhar um difuso trajeto direcionado pelas palavras, os versos nos iluminam e guiam ao imprevisível. A surpresa sintetizada em versos que nos induzem ao inatingível, a uma suspensa e extrema comoção poética a flutuar numa atmosfera fluídica e misteriosa. Os entes, objetos deste instigante tabuleiro fonético, bailam em um ambiente movediço onde o alvo jamais revela-se em sua crua totalidade. Há sempre algo a ser descoberto, a ser desvendado. E essa contínua busca dissonante nos enreda em um minimalismo sonoro e intenso fruto de um complexo poder de síntese alicerçado pelo manejo minucioso da escrita: "essa sensação sideral de estarmos nus num aquário etéreo".

Jakobson define a poesia como a linguagem voltada para a sua própria materialidade, porém Flávio Viegas Amoreira em “Des Casulo”, publicado pela Editora Costelas Felinas, incorpora à esta tese a ressonância etérea das sensações incorpóreas a flutuar em devaneios atemporais e esquivos trazendo à tona o sumo das elucubrações utópicas das fantasias mais íntimas: "entre tentações tentaculares os gomos mais rígidos".

Nota-se, ainda, em cada verso uma sensualidade oculta qual um porvir eternamente ausente e distante, porém com uma determinada e concreta presença a emoldurar a dança das emoções cotidianamente. Se para Octavio Paz a poesia é o dizer que diz o indizível, para Viegas o indizível revela-se claridade em um labirinto de sensações profundamente germinadas em seu relicário interior: "há uma forma de poesia não pretérita esboçada no imprevisível horizonte".

Em “Des Casulo” somos, também, agraciados pelos faróis prefaciais de Luiz Rodrigues Corvo e de J. A. Garbino a nos conduzir ao cerne pulsante de cada micro poema. E após a leitura, temos a nítida sensação de termos presenciado ao desabrochar de recônditos alvéolos emocionais iluminados pelos cálidos raios de uma meticulosa depuração poética: "poema o que se escreve poesia o que se sente".

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

.: #VivoLendo: "Cordilheira de Sonhos", de Márcio Gregório Sá


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

"Liberdade são portas e janelas
de uma casa que só se abrem por dentro."

A partir de um muro, podemos delimitar a catatonia interior da subalternidade e sua antítese elucidativa construtora de consciência e autodeterminação. A claridade intensa da liberdade advém de um pequeno raio de luz teimosamente infiltrado por um minúsculo orifício. A sede cognitiva aliada à curiosidade intelectual eleva e expande a visão do ser humano. À despeito de um ambiente claustrofóbico e opressor, o personagem alimenta-se de conhecimentos ofertados por uma pequena saliência, descoberta ao acaso, em seu obscuro e ínfimo mundo existencial. Esta é a primeira janela, neste livro de contos, aberta ante nosso deslumbrado e atento olhar.

As sagas cotidianas de personagens anônimos oriundos das camadas inferiores do nosso extrato social, a carregar sempre o peso da pele escura e da pobreza secular em suas residências simples em vielas periféricas à sombra das imensas chaminés dos complexos industriais. Nessa atmosfera cinza e esfumaçada aos pés da Serra do Mar, transitando por ruas enlameadas, valas e chuva intensa, as pessoas traçam metas e vitórias opacas entre seus pequenos grandes conflitos, suas perspectivas rotas e fugazes e a perpetuidade das parcas condições de movimentação restritas aos seus conflitos pessoais.

Além de ser uma ode à cidade de Cubatão e suas adjacências, Márcio Gregório de Sá nos faz trafegar por ínvias trilhas da exuberante Mata Atlântica, pelos pátios de armazéns e trilhos infinitos, pelo comércio claudicante e estagnado de sua urbanidade, traçando conflitos inglórios, retratando a exaustiva e sobre humana tarefa diária dos que vivem à margem do capitalismo. Além do envolvimento dos personagens aos movimentos sociais, ao grafite urbano e à militância sindical. No livro há, ainda, os explícitos métodos preconceituosos arraigados nas elites praianas e o contrastante viver amargo das palafitas.

Os personagens são entes com que cruzamos anonimamente entre os transeuntes e aí reside a grandeza da literatura em tornar o simples e opaco em algo radiante e eterno. Até mesmo Afonso Schmidt encontra seu personagem Salústio no centro histórico de Santos com a mesma familiaridade com que encontramos Marcelo Portuária, com seu violão e chapéu, nas noites boêmias do Valongo.

"Cordilheira de Sonhos" (Editora Patuá). prefácio de Flávio Viegas Amoreira, revela-se um livro marcante, tocante, cativante e tem lugar de destaque, não só em nossa biblioteca pessoal, mas no seleto rol de escritos incorporados ao que há de preponderante em nossa literatura. Compre o livro "Cordilheira de Sonhos", de Márcio Gregório Sá, neste link.


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

.: #VivoLendo: "22 Clareiras e 1 Abismo", de Marcelo Ariel


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

Falar não é ver
Escutar é ver

Ao mergulhar na transsubstanciação das trajetórias intrinsicamente antagônicas da dialética o livro “22 Clareiras e 1 Abismo” de Marcelo Ariel, publicado pela Editora Letra Selvagem, nos conduz, em um poema-ensaio filosófico, aos emaranhados do aperfeiçoamento do ser através da percepção e da espiritualidade dentro da experiência circular em que os pensamentos fluem ao gerar a materialidade dos entes palpáveis, fomentando a criação e a recriação daquilo que supomos concreto no âmago imaginário dos impulsos criativos.

Submerso neste universo racionalmente paradoxal as palavras movimentam-se no sentido de descaracterizar o discurso lógico dissecando o conceito de tese, antítese e síntese das configurações em que supostamente nos movemos. Essa constante movimentação através do nomadismo poético nos remete à nirvânica contemplação ativa e se faz sob a égide da transcendência dentro de nossa essência em meio à temporalidade ocasional de cada ser.

A leitura atenta nos remete à autossimilaridade de fractais onde cada fragmento do ser interage simetricamente com o todo num processo analítico ultra racional. Gregório de Matos em seu raciocínio pré-cartesiano nos alertava: “Se a parte faz o todo, sendo parte. Não se diga que é parte sendo todo”. Porém, Ariel nos leva muito mais além em sua metodologia, onde fica evidente que “a parte e o todo são o vazio na gênese de um outro plano”. Além disso, ao mentalizarmos o livro numa visão extremamente expandida verificamos que o abismo também comporta clareiras e em cada clareira vinte e dois abismos nos espreitam.



sexta-feira, 31 de outubro de 2025

.: #VivoLendo: Vieira Vivo estreia com "Almas com Fome", de Cláudia Brino


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

"Farejar a carne do universo
e comer o caos."


Cláudia Brino em sua constante, profícua e incansável lide poética nos oferece em “Almas com Fome” a plasticidade da palavra para desnudar o âmago de situações onde o texto submerge em um emaranhado cataclísmico. A atmosfera dos poemas, extremamente densa e convulsa, faz com que caminhemos através da leitura absorvendo seiva e sumo a cada imagem e assim adentrarmos aos nossos próprios labirintos emocionais: "A lágrima que escorre de seu espírito escurece a tarde na pupila do tempo."

Os versos nos apresentam um eficaz, insistente e revelador diálogo onde a obscuridade insípida do cotidiano revela-se desnuda e indefesa ante a constatação concreta da passagem das horas em um ambiente envolto em reticências, omissões e silêncios: "Não há nada mais estranho que ver o espanto pousado na própria face."

Por outro lado, o brado intrínseco na resolução poética revela-nos um súbito e surpreendente sentido direcional para onde a poeta conduz o desfecho sobrepondo-se à imagem gerada no espelho de seu próprio interior: "O medo do poema é ter seu íntimo revelado pelo mais profundo ego."

Cada poema assemelha-se a um oráculo onde a passagem angustiante das horas é dissecada minuciosamente e exposta de forma crua e consistente ante nossos olhos ao trazer à luz da poesia o peso opaco e renitente das incertezas rotineiras e sufocantes das vidas sem perspectivas: "Contemplei a ferida que se estendeu sobre a minha memória."

Há, ainda, à ressaltar o ofício da lapidação dos versos a enaltecer a coloração propícia de cada palavra no intuito de torná-la o guia condutor que desvendará, aos leitores, os mistérios ocultos de seu ímpar universo: Havia uma lágrima nossa na teia suspensa no abismo.


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#VivoLendo #VieiraVivo #CostelasFelinas #AlmasComFome #ClaudiaBrino
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