Relançamento da Editora Record, o livro "Filandras", escrito por Adélia Prado, reúne 43 contos curtos que se debruçam sobre a vida cotidiana de mulheres comuns, aquelas que aprendem a se mover, sonhar, desejar e sofrer no espaço íntimo da casa, entre as obrigações miúdas de todos os dias e os anseios acumulados ao longo de uma existência inteira. São narrativas que nascem do aparentemente banal, mas que revelam, pouco a pouco, a densidade emocional, moral e espiritual de personagens femininas atravessadas pelo tempo, pelo corpo e pela fé. Ao traçar múltiplos retratos dessas mulheres, os contos se interligam e constroem um contexto maior, formando um painel delicado, íntimo e profundamente humano da experiência feminina.
Publicado originalmente em 2001, o livro traz para a prosa os temas mais caros à obra de Adélia Prado: a religiosidade cotidiana, o amor vivido entre culpa e entrega, o desejo feminino muitas vezes silenciado, a inocência, a morte e a consciência aguda da finitude. Tudo aparece entrelaçado por fios finíssimos, como sugere o título do livro, mas fios que podem, a qualquer momento, se estreitar em nós fatais. É dessa tessitura sensível que se constrói o universo ficcional da autora, capaz de transformar histórias aparentemente pequenas em verdadeiros épicos da vida comum.
Entre as personagens, estão Ester, deprimida em meio às transformações físicas e emocionais da menopausa; Calixtinha, que engravida após um namoro secreto com Otavianinho; e a jovem sonhadora que vê no casamento com um funcionário da rede ferroviária a promessa de “solidez e conforto”. São mulheres impactadas por expectativas sociais, desejos íntimos e frustrações silenciosas, sempre narradas com empatia, humor contido e uma profunda compreensão da condição humana. A nova edição traz capa do premiado designer Leonardo Iaccarino sobre obras do artista plástico Pedro Meyer.
Enquanto boa parte dos grandes contistas brasileiros da segunda metade do século XX voltou seu olhar para as mazelas da urbanização acelerada e da vida nas grandes metrópoles, Adélia segue na direção oposta. O foco dela está no interior, no microcosmo da pequena cidade, onde os grandes dramas se revelam nas miudezas. É ali que o humano se manifesta com mais nitidez. Personagens como Dona Ceres, Olinda e Célia, recorrentes na obra da escritora, andam de ônibus de linha, trocam conselhos na calçada, receitam remédios caseiros, emprestam açúcar a quem bate palma diante do portão. Gestos simples que, sob a escrita da autora, ganham espessura simbólica e poética.
O livro também resgata figuras emblemáticas, como Dona Doida, personagem que remete à peça encenada por Fernanda Montenegro nos anos 1980. Aqui, ela surge como uma mulher humilde e cômica, levada ao hospital por causa do “istrés”, termo que, em sua deformação popular, revela tanto humor quanto fragilidade. A linguagem de Adélia Prado, aliás, valoriza essas falas imperfeitas, esses deslizes do idioma que dizem muito sobre quem fala e sobre o mundo que as cerca.
No plano estilístico, "Filandras" se destaca tanto pela força do que é dito quanto pela potência do que permanece em silêncio. A escrita é contida, precisa, mas profundamente sugestiva. Em uma “terra de donasmarias”, a visão católica se manifesta não como doutrina rígida, mas como angústia metafísica, dúvida existencial e tentativa permanente de conciliação entre o corpo e o espírito. O mundo que emerge dessas narrativas, como define uma das narradoras do livro, é simultaneamente “maravilhoso e imperfeito”- definição que poderia servir de síntese para toda a obra de Adélia Prado. Compre o livro "Filandras", de Adélia Prado, neste link.
Sobre a autora
Adélia Luzia Prado de Freitas nasceu em 13 de dezembro de 1935, em Divinópolis, Minas Gerais, cidade onde vive até hoje e que se tornou cenário recorrente de sua obra. Começou a escrever versos aos 15 anos, após a morte da mãe, experiência que marcaria profundamente sua relação com a palavra e com o sagrado. Formou-se no Magistério em 1953 e iniciou a carreira como professora em 1955. Em 1958, casou-se com José Assunção de Freitas, com quem teve cinco filhos.
Antes do nascimento da filha caçula, Adélia e o marido ingressaram no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis, formando-se em 1973, um ano após a morte do pai da escritora. Poucos anos depois, enviou seus poemas ao crítico e escritor Affonso Romano de Sant’Anna, que os submeteu à leitura de Carlos Drummond de Andrade. Impressionado, Drummond classificou os textos como “fenomenais” e recomendou sua publicação ao editor Pedro Paulo de Sena Madureira, da Editora Imago.
O resultado foi o lançamento de "Bagagem", em 1976, no Rio de Janeiro, em um evento que reuniu nomes como Antônio Houaiss, Rachel Jardim, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Affonso Romano de Sant’Anna e Nélida Piñon. Desde então, a obra de Adélia Prado consolidou-se como um dos pilares da literatura brasileira contemporânea, abrangendo poesia, contos, romances, livros infantis e teatro - sempre marcada por uma escrita que une o sagrado e o profano, o cotidiano e o absoluto, o riso e a dor. Compre os livros de Adélia Prado neste link.













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