Escrever é a sensação de tapear uma realidade
A partir da utilização de aforismos e de textos curtos, revela-se, ante nossos olhos, uma concisa, reflexiva e consciente subversão de conceitos, dogmas, sínteses e tratados sociais em que se movimenta a sociedade contemporânea. O imenso labirinto sem perspectivas reais de ruptura em que sobrevivem parcamente as classes menos favorecidas, a população pobre oriunda das senzalas, os aprisionados pela manipulação da fé e os acomodados diante do maniqueísmo materialista é cruamente dissecado em cento e onze “afros” (corruptela de aforismo) neste pulsante livro “Ludibriar das Faltas”, publicado pela Editora Primata, de Marcio Gregório Sá.
O jogo de corpo para escapar das faltas, desde os campinhos de futebol da infância, evolui para as brechas em contornar obstáculos, opressões, truculências policiais e preconceitos e se expande para a carência de bens básicos de sobrevivência e de lazer e, ainda, da falta concreta de itens de auto-identificação culturais. A cada página, o autor subverte com sagacidade os imperativos ditames comportamentais e aponta para uma utópica co-relação de forças em que a alteridade sobressaia ante essa insípida e opressora atmosfera. Os textos são enriquecidos com amplas e heterogêneas referências literárias, filosóficas e culturais e temperados com uma fina camada de ironia e perspicácia.
A cada texto notamos os estilhaços fragmentados da realidade e a síntese de reestruturação de uma contínua e incessante diretriz de conduta mental e física para ludibriarmos as faltas e as carências opressoras da realidade e é finalizado com o aforismo cento e onze, trágico número tatuado, para sempre, em nossa cicatriz social. O livro traz, ainda, orelha e contra-capa de Milton Ricardo, prefácio de Marcelo Ariel e posfácio de Ademir Demarchi e, faz-se necessário, destacar, ainda, o contundente aforismo: “O que define o inconsciente nacional é o violento excesso das ausências”.













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