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segunda-feira, 15 de junho de 2026

.: Theatro Municipal de São Paulo apresenta "Tristão e Isolda", de Richard Wagner


O Theatro Municipal recebe, nos dias 22, 26, 29, 31 de julho e 2 de agosto, a montagem que Alex Aguilera realizou no Teatro de la Maestranza, em Sevilha. Cena da montagem de Tristão e Isolda de Allex Aguilera, no Teatro de la Maestranza. Foto: Roberto Alcain.
 
Conforme anunciado para a programação 2026, o Theatro Municipal de São Paulo apresenta, entre os dias 22 de julho e 2 de agosto, a ópera "Tristão e Isolda", em três atos com música e libreto de Richard Wagner. A produção reúne a Orquestra Sinfônica Municipal e o Coro Lírico Municipal, sob direção musical de Roberto Minczuk. A direção cênica, que anteriormente seria de Daniela Thomas, passa a ser do diretor brasileiro Allex Aguilera, que traz a montagem realizada no Teatro de la Maestranza, em Sevilha. O elenco conta, alternadamente, com os tenores Simon O’Neill e Michael Weinius no papel de Tristão, e as sopranos Annemarie Kremer e Eiko Senda como Isolda. Completam o elenco Leonardo Neiva (Kurwenal), Denise de Freitas (Brangäne), Hernan Iturralde (Rei Marke), Paulo Queiroz (Marinheiro) e Jessé Vieira (Timoneiro).

Descrita pelo próprio Wagner como o trabalho mais audacioso de sua carreira, a obra representa um marco na história da música ocidental ao expandir os limites da tonalidade e da harmonia tradicional. Seu célebre “acorde de Tristão”, apresentado logo no prelúdio, tornou-se símbolo das transformações que influenciaram profundamente a música dos séculos seguintes.

Baseada na versão de Gottfried von Strassburg para um dos mais conhecidos mitos medievais e inspirada pela filosofia de Arthur Schopenhauer, a trama acompanha a paixão avassaladora entre Tristão e Isolda, desencadeada pela ingestão acidental de uma poção de amor. O relacionamento proibido entre os dois culmina em um desfecho trágico, marcado pela célebre ária final Liebestod, um dos momentos mais emblemáticos da história da música.

domingo, 14 de junho de 2026

.: "Exausta, em Cena" retorna temporada na Galeria Metrópole para discutir


Espetáculo idealizado por Carolina Romano ocupa o novo Studio Mistto, na Galeria Metrópole, em sessões de 20 a 29 de junho. A programação inclui DJ set, bar e lojinha do espetáculo. Foto: divulgação

Depois de circular por teatros, centros culturais e galerias de arte, o espetáculo "Exausta, em Cena" retorna em temporada em São Paulo no Studio Mistto, novo espaço cultural da Galeria Metrópole, no centro da cidade. Com dramaturgia, concepção e atuação de Carolina Romano e direção de Victoria Ariante, o monólogo será apresentado de 20 a 29 de junho, com sessões aos sábados, domingos e segundas, às 19h30, no Studio Mistto, na Galeria Metrópole.

Inspirado em um filtro viral criado por Carolina Romano nas redes sociais, o espetáculo acompanha a trajetória de uma artista visual que decide abandonar o emprego tradicional após viralizar na internet. O reconhecimento repentino parece finalmente abrir espaço para viver da própria arte, até que a ansiedade reaparece e transforma o processo em um confronto interno sobre pertencimento, aceitação e adoecimento mental.

Por meio do drama, a peça trata da existência exaustiva do jovem adulto moderno e das aflições de uma artista ao buscar pertencimento e reconhecimento por seu trabalho. A peça também discute como as redes sociais atravessam afetos, relações e a percepção de valor de uma geração acostumada a medir aceitação por likes, números e interações.

O projeto “exausta” teve início quando ela conheceu a obra 'Untitled #137', na qual a fotógrafa Cindy Sherman retrata uma mulher com aparência cansada. Então, Carolina começou a refletir sobre a própria exaustão e todo o efeito que o caos político e social do período pré-pandemia teve sobre ela e seus amigos. A partir dessa reflexão, ela lançou, no fim de 2021, o filtro no Instagram que simula o cartaz de um filme, com o título Exausta e a foto do usuário. Ele viralizou de forma inesperada e alcançou mais de 100 mil usuários apenas em sua primeira versão. Motivada pela identificação gerada em milhares de pessoas, a artista passou a inserir a personagem em diferentes cenários. A transição para o palco foi inspirada em grandes atrizes e dramaturgas contemporâneas: Phoebe Waller-Bridge, Micaela Coel, Leandra Leal e Clarice Falcão, além de Gregório Duvivier. 

O cruzamento entre diferentes expressões artísticas é uma marca do trabalho de Romano. Formada em 2017 pelo extinto Instituto Stanislavski, em São Paulo, atuou em peças premiadas, performances híbridas e digitais, curtas-metragens e web séries. "Exausta, em Cena" estreou em 2023 no Teatro Pequeno Ato e seguiu em circulação nos anos seguintes com apresentações no Sesc São Caetano, Pinacoteca de São Bernardo do Campo, Hospital do Servidor Público, Teatro OCA e em galerias de arte como Brotero 39 e BR Arte Galeria. Em 2026, o espetáculo inaugura o Studio Mistto, na Galeria Metrópole, reforçando a adaptabilidade estética e artística da montagem.


Ficha técnica
Espetáculo "Exausta, em Cena"
Idealização, concepção, dramaturgia e elenco: Carolina Romano
Direção e concepção: Victoria Ariante
Direção de produção: Carolina Romano
Trilha sonora original: Gui Leal - Despertar
Produção executiva: Brunna Laurino e Rafael Fontenele
Assistente de Produção: Camila Johann
Concepção de luz: Rafa Bernardino
Operação de projeção: Camila Johann
Operação de áudio: Brunna Laurino 
Direção de arte, identidade visual e redes sociais: Carolina Romano e Enzo Malaquias
Realização: Studio Mistto
Apoio Cultural: Espaço Co.lab e Studio A Flor da Vida
Nas redes sociais: @exaustaemcena / @_carolinaromano


Serviço
Espetáculo "Exausta, em Cena"

Temporada: de 20 a 29 de junho de 2026. Sábados, domingos e segundas, às 19h30
Abertura da casa: 18h30, com DJ set, bar e lojinha do espetáculo
Studio Mistto, Galeria Metrópole
Rua Basílio da Gama, 148, República
Entrada pela garagem Ingressos: preço único R$ 35
Vendas: https://www.sympla.com.br/produtor/exaustaemcena

.: Personagens infantins se encontram em espetáculo com história inédita


"Elyntra - O Resgate de Rapunzel" é um infanto-juvenil repleto de música, humor, fantasia e emoção que vai entrar no universo do público infantil e jovem. Em 2025, Luccas Papp fez uma adaptação com a peça de Peter Pan - Crescer é Preciso que levou mais de 15 mil pessoas ao teatro. O novo projeto também dialoga com essa atmosfera lúdica dos contos de fadas

Uma trama que envolve Branca de Neve, Alice, Dorothy, Pinóquio, o Chapeleiro Maluco e outros personagens em uma jornada sobre amizade, coragem e imaginação. Esses são os pilares de "Elyntra - O Resgate de Rapunzel" em cartaz no Teatro das Artes, com sessões aos sábados e domingos, às 14h30. Com texto, direção e músicas com letras originais de Luccas Papp, a montagem apresenta uma história inédita que reúne personagens clássicos dos contos de fadas em um mundo totalmente novo. A temporada vai até 26 de julho. 
 
O elenco é formado por Analu Sampaio (Sofia), Lorena Queiroz (Rapunzel), Giovana Stinglin (Branca de Neve), Théo Medon (Príncipe), Renata Schneider (Alice), João Pedro Delfino (Pinóquio), Laura Binder (Dorothy), Dayzon Nascimento (Lord Ardus), Larissa Milian (Bruxa), Naara Camilo (Tecelã), Matheus Papp (Neco – Cover de Príncipe), Hitallo Alca (Nico) e Iuri Manzini (Chapeleiro).

A história traz o reino de Elyntra que está em perigo. O personagem Lord Ardus planeja eliminar o mundo da imaginação, o que provocaria o desaparecimento gradual das histórias. A única possibilidade de impedir isso pode estar em Rapunzel, que guarda em seus cabelos um elemento importante para a situação.

Para tentar salvá-la e evitar o desaparecimento de Elyntra, Branca de Neve reúne um grupo de aliados formado por Alice, Dorothy, Pinóquio e o Chapeleiro Maluco. O grupo inicia uma jornada com o objetivo de impedir o plano de Ardus e proteger o mundo das histórias. A missão depende ainda de encontrar uma pessoa do mundo real que acredite nas fábulas. Essa pessoa é Sofia, uma menina que mantém o hábito de imaginar.

Em 2025, Luccas Papp fez uma adaptação com "Peter Pan - Crescer É Preciso", que levou mais de 15 mil pessoas ao teatro. O próximo projeto dialoga com o mesmo universo lúdico. “A ideia era que o próximo espetáculo infantil fosse uma criação inédita, com um reino e uma história original, mas utilizando personagens já conhecidos para criar identificação com o público. Embora o título seja ‘O Resgate de Rapunzel’, a personagem não é o centro da narrativa. O principal elemento da história é o reino de Elyntra, lugar onde as histórias ficam quando não estão sendo contadas. A peça faz parte de uma proposta inédita, mas dialoga com os clássicos. A obra trata de amizade, de acreditar e da importância das histórias na infância”.

Os personagens clássicos aparecem com novas características e histórias nesta montagem. “Dorothy  é uma adolescente sem paciência, emburrada, a Branca de Neve é recém-divorciada, aquela história de que 'Felizes para Sempre' foi destruído; o Pinóquio é um mentiroso em tratamento, então ele só fala a verdade, às vezes, coloca todos em saia justa; a Alice é completamente lunática”, enfatiza Papp.

Na questão visual em cena, a proposta foi mudar a lógica dos figurinos, criando peças inéditas que fazem referência aos originais, com tons mais leves e naturais. O cenário tem uma característica mais robusta para acompanhar toda a jornada. A trilha sonora conta com seis músicas originais que remetem ao clima dos contos de fadas e são cantadas ao vivo pelos atores. A faixa  principal é Elyntra, que apresenta todo este reino e é responsável pela abertura 


Ficha técnica
Espetáculo "Elyntra - O Resgate de Rapunzel" 
Texto, direção geral e letras originais: Luccas Papp
Elenco: Analu Sampaio (Sofia), Lorena Queiroz (Rapunzel), Giovana Stinglin (Branca de Neve), Théo Medon (Príncipe), Renata Schneider (Alice), João Pedro Delfino (Pinóquio), Laura Binder (Dorothy), Dayzon Nascimento (Lord Ardus), Larissa Milian (Bruxa), Naara Camilo (Tecelã), Matheus Papp (Neco – Cover de Príncipe), Hitallo Alca (Nico), Iuri Manzini (Chapeleiro),
Covers: Alexandra Mayrhofer (Cover Rapunzel / Alice), Giulia Lavínia (Cover Sofia / Tecelã), Priscila Jardim (Cover Branca / Dorothy), Marcus Maia (Cover Masculino), Felipe Brito (Cover Chapeleiro).
Assistência de direção: Letícia Monezi
Iluminação: Gustavo Gonçalo
Figurinos: Thaís Boneville
Trilha sonora: Pedro Lemos
Cenografia e cenotecnia: Evas Carretero
Visagismo: Laura Tonetti
Preparação vocal: Eduardo Frena
Coreografias: Laura Binder e Renata Schneider
Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes
Fotos: Fernando Tavares
Design gráfico: Raphael Ruas
Produção de conteúdo digital: Hitallo Alca, Laura Binder e Renata Schneider
Gestão e design de redes sociais: Agência Philar - Liz Oliveira 
Gestão de produção: Guilherme Bernardino
Produção de elenco e executiva: Richard Lake. Produção Executiva: Isadora Schubert
Equipe de produção: Guilherme Shuet, Luccas Franzi, Gustavo Carraresi e Nicole Casavecchia
Hostess Artística: Bianca Ricco
Operação de luz: Jackson Oliveira
Direção de palco: Martins Silva
Técnico de áudio: Juscimar Pina
Produção e gravação de trilha sonora: Victor Hugo Gal e Gustavo Iandoli
Realização: Ministério da Cultura e LPB Produções
*O elenco pode sofrer alterações sem aviso prévio


Serviço
Espetáculo "Elyntra - O Resgate de Rapunzel" 
Teatro das Artes (Localizado no 3º piso do Shopping Eldorado, loja 409)
Av. Rebouças, 3970, Pinheiros, São Paulo/SP
Temporada: de 2 de maio até 26 de julho. Sábados e domingos, 14h30
Classificação: livre. Duração: 90 minutos. 
Ingressos:  [Plateia] - R$ 120,00 (inteira) | R$ 60,00 (meia-entrada);  [Balcão] - R$ 100,00 (inteira) | R$ 50,00 (meia-entrada); [Balcão Fundo] - R$ 50,00 (inteira) | R$ 25,00 (meia) (ingressos promocionais)

quarta-feira, 10 de junho de 2026

.: “Autobiografia Autorizada”, com Paulo Betti, terá apresentação no Sesc Santos


Dirigido por Juliana Betti e Rafael Ponzi, o ator revisita sua trajetória no espetáculo Autobiografia autorizada. Dia 12 de junho, sexta, às 20h, no Teatro do Sesc Santos. Ingressos à venda on-line e nas bilheterias do Sesc SP. Foto: Mauro Khouri 

Com mais de cinco décadas dedicadas às artes cênicas, o ator Paulo Betti sobe ao palco para compartilhar a própria trajetória em um monólogo que mistura memória, emoção e humor. O espetáculo "Autobiografia Autorizada" será apresentado na sexta-feira, 12 de junho, no Sesc Santos, conta com iluminação, figurinos, trilha sonora, cenário e projeções concebidos especialmente para a montagem.

Aos 73 anos, o ator revisita uma história de vida marcada por desafios e superações. Nascido em uma família numerosa, ele foi o décimo quinto filho de uma camponesa analfabeta que deixou o campo para trabalhar como empregada doméstica na cidade. Seu avô, imigrante italiano, trabalhava em regime de parceria para um fazendeiro negro, enquanto seu pai enfrentava a esquizofrenia. Entre dificuldades materiais e afetivas, Betti construiu um percurso improvável: estudou em boas escolas, cursou um Ginásio Industrial em período integral, formou-se pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP) e tornou-se professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

No palco, o artista assume diferentes vozes e personagens que marcaram sua existência. Pai, mãe, avó, irmãos e tantas outras figuras surgem em uma narrativa pessoal que alterna momentos de comicidade, ternura e reflexão. O resultado é um relato profundamente humano, conduzido por quem viveu cada uma das histórias que conta. Segundo Paulo Betti, a ideia do espetáculo nasceu da leitura de anotações acumuladas ao longo de toda a vida. Ao revisitar esses registros, percebeu que sempre esteve se preparando para compartilhar as circunstâncias extraordinárias que lhe permitiram sobreviver e construir sua trajetória.

“Minha fixação pela memória da infância e adolescência, passada num ambiente inóspito e, ao mesmo tempo, poético, talvez mereça ser compartilhada no intuito de provocar emoção, riso, entretenimento e entendimento”, afirma o artista. A montagem dialoga diretamente com um momento especial da carreira dele. Em 2025, Paulo Betti celebrou 50 anos de atuação profissional e lançou sua autobiografia, reunindo histórias presentes no espetáculo e episódios inéditos de sua vida. Paralelamente, prepara o lançamento de “Notas que Tomei”, obra que promete revelar bastidores da teledramaturgia brasileira e reflexões sobre acontecimentos marcantes da vida política nacional. Compre o livro "Autobiografia Autorizada", de Paulo Betti, neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Autobiografia Autorizada"
Texto e interpretação: Paulo Betti
Direção: Juliana Betti e Rafael Ponzi
Elenco: Paulo Betti
Cenário: Mana Bernardes
Figurino: Leticia Ponzi
Iluminação: Dani Sanchez e Luiz Paulo Neném
Direção de movimento: Miriam Weitzman
Programação visual: Mana Bernardes
Trilha sonora: Pedro Bernardes
Fotografia: Mauro Khouri
Coordenador de produção: Fabrício Chianello 


Serviço

Espetáculo "Autobiografia Autorizada"
Sexta-feira. dia 12 de junho, às 20h00
Teatro do Sesc Santos
Ingressos: R$ 18,00 (credencial plena) R$ 30,00 (meia-entrada). R$ 60,00 (inteira)
Duração: 80 minutos 
Gênero: comédia dramática
Classificação: 10 anos
Venda de ingressos         
On-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e no site centralrelacionamento.sescsp.org.br
Presencialmente, nas bilheterias das unidades.
Bilheteria Sesc Santos - Funcionamento    
Terça a sexta-feira, das 9h às 21h30 | Sábados e domingos, 10h às 18h30 
Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida - Santos/SP
Telefone: (13) 3278-9800          

domingo, 7 de junho de 2026

.: Teatro Sérgio Cardoso recebe "Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho"


Baseado em fatos reais, espetáculo acompanha a trajetória de um migrante nordestino em São Paulo em uma narrativa poética sobre deslocamento, preconceito e sobrevivência. Foto: Sander Newton

Espetáculo "Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho", do Teatro do Kaos, realiza temporada no Teatro Sérgio Cardoso, equipamento da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, gerido pela Associação Paulista dos Amigos da Arte (APAA), até dia 28 de junho, com apresentações às sextas, sábados e domingos, às 19h00, na Sala Paschoal Carlos Magno. Com argumento de Lourimar Vieira, texto de Cícero Lopes e direção de Marcos Felipe, o espetáculo parte de experiências atravessadas pela migração, pela exclusão e pela permanência para construir uma narrativa sobre os caminhos impostos pela vida.

A peça acompanha Poim, um migrante nordestino que chega a São Paulo em busca de outras possibilidades de existência. A partir de lembranças, deslocamentos e fragmentos de memória, o personagem revisita episódios de sua trajetória e reorganiza a própria história diante de impasses que atravessam o cotidiano contemporâneo. A montagem articula diferentes linguagens cênicas, como cinema, música, artes visuais, dança e teatro de bonecos, para desenvolver uma dramaturgia que se move entre realidade e fabulação. Em cena, o espetáculo aborda temas como migração nordestina, preconceito, sexualidade, capacitismo, desejo, afeto e resistência.

Ao propor a pergunta “o que você faria diante do abismo?”, a obra organiza sua narrativa em torno de rupturas, perdas e tentativas de reconstrução. A trajetória de Poim é apresentada como ponto de partida para refletir sobre pertencimento, identidade e permanência em contextos marcados por exclusão. O texto de Cícero Lopes marca mais uma colaboração do autor com o Teatro do Kaos. 

Já a direção de Marcos Felipe, que assinou a assistência de direção do também premiado "A Falecida"- Projeto Superação/ Teatro do Kaos, dirigida por Nelson Baskerville-, explica que neste a comunicação com a plateia se dá através da poesia, por meio de metáforas, sendo uma obra mais intimista, desenvolvida com o brilho no olhar. “A peça é extremamente contemporânea, tanto na linguagem quanto no conteúdo, e apresenta um espelho da nossa sociedade atual, discutindo conceitos arcaicos, preconceitos enraizados e verdades absolutas. A peça não é conclusiva. À de se discutir, juntos, sobre os caminhos futuros, mas com este trabalho o público vai dançar, rir, chorar, gozar e gritar, simplesmente porque a vida é assim”.


Ficha técnica
Espetáculo "Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho"
Argumento: Lourimar Vieira
Texto: Cícero Gilmar Lopes
Direção: Marcos Felipe
Direção assistente: Sandra Modesto
Elenco / Criadores: Camila Sandes, Diego Saraiva, Fabiano Di Melo, Levi Tavares e Lourimar Vieira
Vídeos: Lucas Beda
Fotos: Sander Newton
Animação: Lucas Schlosinski
Trilha sonora: Marcos Felipe e Sandra Modesto
Intervenção musical: Gustavo Sarzi
Locução: Theo Rangel
Bonecos: Márcia Alves
Cenário: Teatro do Kaos e Fabiano Di Melo
Cenotécnico: Fabiano de Melo e Irio Sandes
Figurino: Fausto Viana
Desenho de luz: Pedro Augusto
Técnico de luz: Rafael Almeida
Técnico de som/projeção: Alana Vieira
Produção: Teatro do Kaos


Serviço

Espetáculo "Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho"
Temporada: até dia 28 de junho de 2026, sextas, sábados e domingos, às 19h
Ingressos: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia-entrada / estudantes / classe artística / moradores do bairro) | Sympla
Teatro Sérgio Cardoso – Sala Paschoal Carlos Magno | Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 minutos

sábado, 6 de junho de 2026

.: Crítica: "Diana - A Princesa do Povo" devolve humanidade ao mito


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Costa

A história de Diana Spencer já foi contada à exaustão pela imprensa, pelo cinema, pela televisão e pelos documentários. Ainda assim, "Diana - A Princesa do Povo", em cartaz no Teatro Liberdade até dia 5 de julho, encontra uma brecha rara: abandonar o fascínio pela figura mítica para observar a mulher que existia por trás das manchetes. O "comeback" de Sara Sarres não poderia ser me melhor. Ela retorna aos palcos em estado de graça. O reencontro dela com o teatro musical não poderia ter encontrado personagem mais poderosa. 

Diana oferece a Sara Sarres todas as possibilidades dramáticas imagináveis, e a atriz aproveita cada uma delas. Vulnerável, divertida, apaixonada, indignada e determinada, a interpretação dela evita o retrato santificado que tantas vezes acompanha a princesa. Sara constrói uma mulher real, capaz de despertar empatia sem pedir complacência. Ao lado dela, Claudio Lins entrega um Charles distante da caricatura. A voz cristalina do ator encontra espaço para brilhar em números musicais que ampliam os conflitos internos do personagem. O espetáculo compreende algo que muitas produções ignoram: para que Diana funcione dramaticamente, Charles precisa existir como figura complexa. E Lins alcança esse equilíbrio com precisão.

Uma das decisões mais inteligentes da montagem está na construção de Camilla Parker Bowles. Giselle de Prattes afasta qualquer leitura simplista da personagem e oferece uma interpretação marcada pela humanidade. A Camilla defendida por ela não surge como antagonista de novela, mas como alguém que também espera, sofre e ocupa um lugar desconfortável dentro daquele tabuleiro afetivo. Curiosamente, a figura mais rígida e implacável da narrativa acaba sendo a Rainha Elizabeth II, defendida com firmeza por Simone Centurione. A presença dela no espetáculo ajuda a compreender que o verdadeiro embate nunca foi apenas amoroso, era institucional.

Dino Fernandes também deixa sua marca como James Hewitt. A participação dele ganha destaque em uma das cenas visualmente mais impactantes da montagem, envolvendo o célebre passeio a cavalo. É um momento que sintetiza liberdade, desejo e fuga em meio ao sufocamento imposto pela vida pública.

Marianna Alexandre confirma aquilo que o público habituado ao teatro musical brasileiro já conhece: a presença dela em cena funciona como um selo de qualidade. Nas sequências compartilhadas com Diana, interpretando Sarah Spencer, a atriz introduz afeto, cumplicidade e leveza sem desviar a atenção dos conflitos centrais. São passagens que lembram algo frequentemente esquecido quando se fala da princesa: antes de se tornar um fenômeno mundial, ela era uma mulher que acreditou sinceramente em uma história de amor. Tudo o que veio depois parece surgir como reação ao colapso dessa promessa.

O grande mérito de Tadeu Aguiar está em compreender essas nuances. A direção precisa dele evita julgamentos simplistas e conduz o espectador por zonas moralmente mais interessantes. Não há heróis absolutos e muito menos monstros definitivos em "Diana - A Princesa do Povo". Todos no espetáculo são pessoas presas a protocolos, interesses, expectativas e convenções que acabam esmagando qualquer possibilidade de felicidade genuína.

Com direção musical de Thalyson Rodrigues, cenografia de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e coreografias de Sueli Guerra, a superprodução da Estamos Aqui Produções transforma um episódio amplamente conhecido da cultura pop em uma experiência emocionalmente envolvente. O espetáculo revisita a trajetória da princesa Diana sem recorrer à reverência automática que costuma cercar a memória dela. O resultado é um musical que faz uma pergunta desconfortável e atual: o que acontece quando uma instituição milenar exige obediência de alguém que deseja apenas ser amada? A resposta, o mundo inteiro já conhece. O mérito desta montagem está em fazer o público voltar a senti-la.

Serviço
Espetáculo "Diana - A Princesa do Povo"
Local: Teatro Liberdade
Rua São Joaquim, 129 - Liberdade | São Paulo
Temporada até dia 5 de julho de 2026
Sessões: Sextas às 20h00, Sábado às 16h00 e 20h30. Domingos às 15h00 e às 19h30

Ingressos
Plateia Premium 
Sexta-feira, sábado e 1ª sessão de domingo - R$340,00 (Inteira) | R$170,00 (Meia)
Quinta-feira e 2ª sessão de domingo - R$ 280,00 | R$140,00 (Meia)

Plateia 
Sexta-feira, sábado e primeira sessão de domingo - R$250,00 (Inteira) | R$125,00 (Meia)
Quinta-feira e segunda sessão de domingo - R$ 190,00 | R$85,00 (Meia)
Balcão Visão Parcial - R$120,00 (Inteira) | R$60,00 (Meia)
Balcão A - R$170,00 (Inteira) | R$85,00 (Meia)
Balcão B: R$50,00 (Inteira) | R$25,00 (Meia)
Vendas: Site Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114505) ou Bilheteria local
Gênero: musical
Duração: 150 minutos (com intervalo)
Classificação: 12 anos

Descontos
*Desconto 35%: Obtenha 35% de desconto no ingresso inteiro ao preencher o formulário durante o processo de compra.
Para comprar mais de um ingresso nessa modalidade, basta preencher um formulário por ingresso conforme será solicitado. Desconto disponível para todos os públicos.
*Clientes Glesp: têm 25% de desconto nos ingressos inteiros mediante a aplicação do cupom, limitado a 4 ingressos por cupom. Válido para todos os setores.
*Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.

Ingressos
Internet (com taxa de conveniência):
Bilheteria física (sem taxa de conveniência):
Horário de funcionamento de bilheteria:
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.

Acessibilidade
Deficientes físicos: teatros adequados às normas de acessibilidade, contendo elevador, corrimão, espaço para cadeirantes e acompanhantes, banheiros adaptados.
Deficientes auditivos – Agenda de apresentações com tradução em libras (em construção)
Deficientes visuais - Previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize texto da peça em Braile e resumo descritivo do espetáculo em Braille e em áudio (para cidadãos devidamente identificados)
Deficientes intelectuais – Quatro (quatro) assentos posicionados em local de fácil mobilidade para este público, proporcionando conforto caso haja necessidade de se retirar durante a sessão e, ainda, previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize abafadores de ruído (para cidadãos devidamente identificados)
Este espetáculo contém Luz Estroboscópica (flashes de luz intensa). Este efeito visual é contraindicado para pessoas com epilepsia, sensibilidade à luz ou autismo. Aconselhamos cautela.


.: Espetáculo "O Mercador de Veneza", com Dan Stulbach, reestreia no Tuca


Com Dan Stulbach à frente do elenco, a peça vem realizando um feito: até agora não houve nenhuma sessão em que não tivessem sido vendidos todos os assentos. Foto: Ronaldo Gutierrez

Com ingressos esgotados no Tucarena até maio, o espetáculo “O Mercador de Veneza” migra para um teatro maior e abre novas sessões aos sábados e domingos de junho e julho, agora no Tuca, em São Paulo. A peça vem realizando um feito: até agora não houve nenhuma sessão em que não tivessem sido vendidos todos os assentos. O projeto é uma coprodução da Kavaná Produções e Baccan Produções. À frente do elenco, Dan Stulbach dá vida ao icônico agiota Shylock, já interpretado por nomes como Al Pacino, Laurence Olivier e Pedro Paulo Rangel. A direção é de Daniela Stirbulov. Mergulhando em temas como preconceito e intolerância a todos aqueles que são estrangeiros, a montagem é uma reflexão acerca das transformações nas relações humanas e tensões sociais que transcendem séculos.

“Lidar com os desafios shakesperianos é abrir espaço para o risco, para o confronto com o que somos — e com o que podemos ser. E expandir o entendimento sobre a vida: as relações humanas em sua complexidade e contradições. Tudo está ali. Vilões e heróis se confundem nas máscaras sociais. A obra, atravessada por tensões religiosas e preconceitos, nos confronta com questões sobre intolerância, identidade e justiça - tão atuais quanto no tempo em que foi escrita”, reflete a diretora, Daniela Stirbulov.

A trama acompanha Antônio, um mercador que contrai uma dívida com o agiota judeu Shylock para ajudar seu amigo Bassânio. Como garantia, estipula-se a retirada de uma libra da carne de Antônio. Com o não pagamento da dívida, o contrato desencadeia um julgamento dramático, colocando em pauta temas como justiça e preconceito. Sob a direção de Daniela Stirbulov, “O Mercador de Veneza” se desloca da Itália do século 16 para um cenário contemporâneo, em que questões como o antissemitismo, o preconceito racial, e as guerras motivadas pelo lucro e pelo capital ganham mais potência frente à narrativa. O agiota Shylock é alçado a protagonista nesta montagem, que busca narrar a história a partir de seu ponto de vista.

“Estar à frente da direção me possibilitou criar um universo contemporâneo. A história, escrita no contexto do capitalismo emergente do século XVI, foi transportada para os anos 1990 - década marcada pela aceleração da globalização e pelo surgimento de uma nova ordem mundial. Estabelecemos a Bolsa de Valores como espaço central, implantando a atmosfera das negociações financeiras do tempo presente e o dinheiro como motor principal das relações”, conta a diretora.

No centro do palco, uma estrutura acrílica transparente elevada cria um tablado para os atores. No alto, um painel circular de led desenha palavras e frases ligadas à ação. Há um operador de câmera captando imagens em tempo real, também projetadas no painel. A música é executada ao vivo por uma baterista no palco.

A produção do espetáculo é assinada pela Kavaná e pela Baccan Produções, sob a liderança de Cesar Baccan e Marcelo Ullmann, que também integram o elenco. Com atuação destacada pela qualidade, os produtores vêm consolidando uma trajetória marcada por obras de relevância artística e apelo de público, como “O Nome do Bebê”, com Bianca Bin, “A Pane”, com Antônio Petrin, e “Um Inimigo do Povo”, de Henrik Ibsen. Mais do que viabilizar montagens, Baccan e Ullmann desenvolvem projetos que transitam entre o clássico e o contemporâneo, equilibrando rigor estético, comunicação com o público e consistência de produção, enquanto avançam com novos projetos em desenvolvimento.


Ficha técnica
Espetáculo "O Mercador de Veneza"

Texto: William Shakespeare. Direção: Daniela Stirbulov. Tradução, Adaptação e Assistência de Direção: Bruno Cavalcanti. Elenco / Personagem: Dan Stulbach / Shylock; Augusto Pompeo / Duque; Amaurih Oliveira / Lorenzo e Príncipe de Marrocos; Cesar Baccan / Antônio; Gabriela Westphal / Pórcia; Júnior Cabral / Graciano; Marcelo Diaz / Lancelotte Gobbo; Marcelo Ullmann / Bassânio; Maria Clara Strambi / Jéssica; Rebeca Oliveira / Nerissa; Renato Caldas / Solânio e Tubal; Thiago Sak / Salarino e Príncipe de Aragão. Baterista em cena: Caroline Calê. Cenografia: Carmem Guerra. Cenotécnico: Douglas Caldas. Desenho de luz: Wagner Pinto e Gabriel Greghi. Figurino e visagismo: Allan Ferc. Assistente de figurino: Denise Evangelista. Peruqueiros: Dhiego Durso e Raquel Reis. Direção de movimento: Marisol Marcondes. Aderecista: Rebeca Oliveira. Consultoria sobre Shakespeare: Ricardo Cardoso. Vídeo e imagem: André Voulgaris. Fotos: Ronaldo Gutierrez. Design gráfico: Rafael Oliveira Branco. Operação de luz: Jorge Leal. Operação de som: Eder Sousa. Motorista: Cosme Araujo. Assistente de produção: Amanda Nolleto. Produção executiva: Raquel Murano. Direção de produção: Cesar Baccan e Marcelo Ullmann. Produção: Kavaná Produções e Baccan Produções. Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Sephany.

Serviço
Espetáculo “O Mercador de Veneza”

Reestreia sábado, dia 6 de junho, às 20h00
Teatro Tuca – Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes / São Paulo. Telefone: (11) 3670-8455.
Sábados, às 20h00, e domingos, às 17h00 (as sessões dos dias 13 de junho, 4, 5, 11 e 19 de julho dependem dos jogos do Brasil na Copa do Mundo).
Ingressos: R$ 200,00 e R$ 100,00 (meia-entrada) na bilheteria terça-feira a sábadp, das 14h00 às 20h00, e domingo, das 14h00 às 18h00, ou em https://bileto.sympla.com.br/event/118833?share_id=1-copiarlink
Capacidade: 672 espectadores
Duração: 1h50
Gênero: comédia dramática
Classificação indicativa: 12 anos
Acessibilidade: sim
Temporada: até 26 de julho


domingo, 31 de maio de 2026

.: Milla Fernandez desconstrói a própria experiência para questionar limites


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

Era época da pandemia da covid-19 e pouco antes de o mundo recolher as certezas em salas trancadas e telas acesas, Milla Fernandez descobriu que a sobrevivência material exigia dela uma coreografia inédita. O sustento de uma estrutura familiar inteira dependeu, por meses, do avanço de moedas virtuais em salas de transmissão erótica. 

Sem o verniz da condescendência ou o drama da autocomiseração, estavam postos o corpo, o dinheiro, a webcam e o cansaço de uma jovem atriz que, farta de esperar por testes para novos trabalhos, resolveu precificar os próprios limites diante de estranhos. Do fundo do poço sanitário que a crise de 2020 cavou na cultura, ela emergiu com o texto de "TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo"), monólogo que tem neste domingo , dia 31 de maio, a última apresentação em São Paulo, no Teatro YouTube, após uma passagem incômoda e premiada pelos palcos cariocas. 

Sob a direção precisa e rigorosa de Rodrigo Portella - que limpa a cena de fetiches óbvios para deixar apenas os tapetes vermelhos do sucesso e a crueza da caixa cênica - a atriz faz uma devassa sobre o quanto a sociedade da imagem cobra para manter de pé as ilusões diárias e as perdidas. 


Resenhando.com - No espetáculo "TIP", o gesto de "se atirar no fogo" parece uma estratégia: até que ponto essa exposição radical é controle, e não descontrole, da própria narrativa?
Milla Fernandez - Essa peça nasce de um segredo que pensei que guardaria a vida toda. Contá-lo com as minhas próprias palavras ainda é uma tentativa de controle, mas de outra natureza. Antes eu achava que controlar era prever o resultado e qualquer erro de cálculo era considerado um fracasso. Hoje, “me atirar no fogo” é aceitar que não posso adivinhar a reação das pessoas, só posso decidir não me paralisar diante dela. Ainda existe uma tentativa de controle nisso, mas menos como defesa e mais como a necessidade de colocar no mundo uma versão de mim que não caiba só no olhar do outro. Talvez, daqui a cinco anos, eu mesma mude de ideia sobre a versão que contei. E, estranhamente, aceitar essa instabilidade me libertou mais do que qualquer certeza.


Resenhando.com - Você transforma a lógica da gorjeta ("tip", em inglês) em dramaturgia. O aplauso, no teatro, também pode ser lido como uma moeda? 
Milla Fernandez - Eu não vejo exatamente o aplauso como moeda. Ele pertence a um campo muito mais contraditório: pode ser um encontro genuíno com a obra ou apenas um reflexo social quase automático. A pergunta que fica pra mim é: por que algumas trocas são legitimadas e outras são imediatamente moralizadas? Quem decide o que é nobre e o que é degradante?


Resenhando.com - O que muda quando o desejo do público deixa de ser simbólico e passa a ser literalmente pago?
Milla Fernandez - A experiência de camgirl me fez perceber que desejo, projeção, validação e fantasia existem em muitos tipos de relação entre público e performer, inclusive no teatro. Não da mesma maneira, obviamente. Mas também não tão separados quanto gostamos de imaginar. O dinheiro não cria a objetificação, às vezes ele só impede que certas idealizações permaneçam intactas. E talvez o desconforto venha menos da transação em si e mais do fim da fantasia.


Resenhando.com - Há um momento em que a atriz diz ter aprendido a "respirar debaixo d'água". Esse aprendizado vem antes ou depois de aceitar que talvez não exista superfície para voltar?
Milla Fernandez - Sempre existiu superfície. Acho que o que mudou foi eu parar de acreditar que a superfície era o destino. Por muito tempo, "respirar debaixo d'água" era uma habilidade emergencial, algo que eu fazia enquanto esperava voltar ao normal. Mas fui percebendo que atrofiei minha criatividade tentando me encaixar num molde que nem eu mesma havia escolhido conscientemente, o molde da carreira correta, da progressão esperada, da atriz que espera ser escolhida. O aprendizado de respirar lá embaixo veio quando parei de tratar a submersão como acidente e comecei a tratá-la como território. A superfície não desapareceu, eu é que deixei de precisar dela para existir.


Resenhando.com - Seu trabalho tensiona a fronteira entre autonomia e exploração. Existe um ponto em que essa distinção deixa de fazer sentido, ou ela precisa existir para que a obra se sustente?
Milla Fernandez - Essa tensão precisa existir, não só para que a obra se sustente, mas porque ela é real. Se eu dissesse que fui "livre", estaria mentindo. Se dissesse que fui "explorada", estaria simplificando. A verdade é que as duas coisas habitam o mesmo gesto. O que "TIP" tenta fazer não é resolver essa contradição, é recusar-se a dissolvê-la ou ignorá-la por conforto. Talvez autonomia seja isso: saber que estamos dentro da armadilha e ainda assim tentar decidir como atravessá-la. Acredito que parar de se perguntar é o começo de qualquer forma de violência.


Resenhando.com - O espetáculo parece desmontar a ideia de vocação artística como destino. Depois de tudo, ainda faz sentido falar em "amor à arte" ou as pessoas estão sempre falando, no fundo, de sobrevivência?
Milla Fernandez - Falar em amor à arte sem falar em sobrevivência é um privilégio que muita gente não tem e que o mercado usa para manter artistas em condição de gratidão permanente. “Amor à arte” é uma frase linda, mas muitas vezes usada para romantizar precariedade. Eu ainda acredito no amor, mas desconfio quando ele é exigido como prova de resistência. No fundo, arte e sobrevivência estão muito misturadas. Às vezes a gente cria porque ama; às vezes porque precisa; às vezes porque não sabe mais existir sem transformar a dor em alguma coisa.


Resenhando.com - Em cena, você revisita experiências potencialmente traumáticas com humor ácido. O riso é um mecanismo de defesa, de ataque ou de sedução para o público?
Milla Fernandez - O riso é tudo isso. Defesa, ataque e sedução. Ele protege porque cria distância da ferida, ataca porque desmonta o lugar da vitimização e seduz porque aproxima o público antes de empurrá-lo para um lugar desconfortável. Quando a plateia ri de uma situação constrangedora, ela se surpreende ao se perceber cúmplice. É aí que o espetáculo acontece de verdade, nesse instante em que o riso revela mais do espectador do que da personagem.


Resenhando.com - Ao trazer a família para dentro da narrativa - ainda que ficcionalizada - você desloca o eixo da exposição: o que é mais arriscado, falar de sexo ou falar de afeto?
Milla Fernandez - O sexo nunca esteve separado de afeto, carência ou vulnerabilidade na peça. Então não vejo essas coisas como opostas. O que muda quando a família entra em cena é que a exposição deixa de ser inteiramente administrável. Porque já não envolve só a minha versão sobre mim mesma. Mas o teatro também oferece uma espécie de deslocamento. Nada em cena é exatamente documento, nem totalmente invenção. A ficção não elimina completamente o risco, mas torna possível atravessá-lo.


Resenhando.com - Dirigida por Rodrigo Portella, a peça assume um minimalismo que escancara o próprio teatro. O que sobra quando se retira quase tudo?
Milla Fernandez - O minimalismo não dá chance pra esconderijos, ele obriga a cena a revelar suas “mentiras”, seus “truques”. Rodrigo tem por hábito, nos seus trabalhos, assumir a ficção como experiência compartilhada. Quando ele propõe tirar quase tudo, é uma escolha que reforça o pacto entre atriz e público. Um pacto que fala mais sobre a honestidade de construirmos uma realidade juntos do que de revelar uma grande e única verdade. Ele é um diretor que, antes de qualquer coisa, convoca o imaginário do espectador e aposta no poder do encontro.


Resenhando.com - Você afirma ter deixado de esperar ser escolhida. Esse gesto de autoria é libertador ou inaugura uma nova forma de solidão dentro do mercado artístico?
Milla Fernandez - É libertador e solitário. Durante muito tempo eu esperei ser escolhida pelo olhar do outro. Assumir autoria interrompe essa lógica, mas também revela que independência artística nunca é absoluta. É uma troca de vulnerabilidades: antes, a fragilidade estava em esperar permissão. Agora, está em sustentar a própria voz mesmo quando ela incomoda ou não encontra acolhimento imediato.


Resenhando.com - Se "TIP" é, no fim, uma pergunta que você se faz todos os dias, qual é a única resposta que você torce para nunca encontrar?
Milla Fernandez - Que teria sido melhor ficar calada. Mas essa preocupação eu não tenho. A partir de "TIP", a única coisa que eu vou conhecer é a vida pós-fogueira.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até este domingo, dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

sábado, 30 de maio de 2026

.: Dez motivos para não perder "Curto-circuito" com Luiz Fernando Guimarães

Luiz Fernando Guimarães e Leticia Augustin - Foto: Leo Aversa

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O espetáculo "Curto-circuito" que celebra os 50 anos de carreira do ator Luiz Fernando Guimarães por meio da comédia inteligente, leva ao palco do Teatro Renaissance o grande nome do humor brasileiro ao lado da atriz Leticia Augustin numa viagem mental hilária. O resultado são reflexões do cotidiano, desde faz um exame médico a uma prova do Enem. Para tanto, nós do Resenhando.com elencamos dez motivos para não perder a montagem dirigida por Gustavo Barchilon e escrita por Gustavo Pinheiro que fica em cartaz até o dia 31 de maio. Confira!

1. A peça de celebração aos 50 anos de carreira de Luiz Fernando Guimarães, que traz de volta aos palcos, externa reflexões hilárias sobre situações do cotidiano por meio do que se passa literalmente na mente de variados personagens. 

2. A homenagem à trajetória de Luiz Fernando Guimarães no teatro e televisão, leva o público a acompanhar a personificação de partes do cérebro em surto com o estresse moderno.

3. Garantindo boas risadas, a peça convida a pensar sobre as pressões que todos enfrentamos diariamente. Situações que chegam a parecer tão particulares, mas são comuns.

4. Assinada por Gustavo Pinheiro, um dos grandes dramaturgos atuais, a peça é inteligente, provocante e ácida.

5. O espetáculo cheio de ritmo e dinamismo tem direção de Gustavo Barchilon, que equilibra o ritmo de cada piada, assim como das pausas dramáticas.

6. A química perfeita entre o veterano Luiz Fernando e a versátil Leticia Augustin dita o tom da dupla afinada nas mais diversas cenas. 

7. A montagem focada nos perrengues cotidianos vai da tensão de fazer uma ressonância magnética, estando preso e sem poder ser mexer, dentro de uma máquina, liderar um grupo passando turbulência durante um voo, lutar contra a implacável insônia e até fazer a prova do Enem e até zerar. Não há como deixar de se identificar com alguma situação-limite.

8. A produção apresenta personagens inusitados em situações absurdas, como por exemplo, uma amígdala cerebral prestes a pedir demissão.

9. As múltiplas personas assumidas em esquetes rápidas pelo mestre do humor Luiz Fernando Guimarães tecem no palco dinamismo e entrosamento perfeito com Leticia Augustin, tendo ainda participações de vozes como Fernanda Montenegro e Fernanda Torres.

10. Numa localização privilegiada, no sofisticado Teatro Renaissance, em São Paulo, o espetáculo de comédia tem ingressos acessíveis que podem ser adquiridos diretamente pelo site oficial.


Serviço
Espetáculo "Curto Circuito"
Local: Teatro Renaissance - Alameda Santos, 2233 – São Paulo / SP
Temporada até dia 31 de maio
Dias e horários: sábados, às 21h00, e domingos, às 18h30


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sexta-feira, 29 de maio de 2026

.: 11 motivos para assistir "Flashdance - O Musical" e se emocionar com clássico

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


Um clássico do cinema dos anos 80 está em cartaz no Teatro Claro Mais, em São Paulo numa adaptação cheia de energia coreográfica e muita música. Eis a superprodução brasileira "Flashdance - O Musical", montagem com coreografias que mesclam jazz e ritmos urbanos com movimentos intensos ao apresentar a história da jovem Alex Owens, uma operária que trabalha como soldadora durante o dia e como dançarina em um bar à noite. 

Enfrentando desafios e preconceitos para realizar o sonho de passar em um teste para um prestigiado conservatório de balé quando esbarra numa paixão confusa com um homem poderoso. Para tanto, nós do Resenhando.com listamos 11 motivos para você não perder o espetáculo da produtora 4ACT Entretenimento, com direção geral e idealização de Ricardo Marques!


1. É uma adaptação inédita e oficial do clássico nos palcos brasileiros, com uma roupagem exclusiva feita pela 4Act Entretenimento.

2. Testemunhar tamanha nostalgia no palco, diante dos olhos, é reviver a atmosfera dos anos 80 com uma trilha sonora que marcou gerações.

3. De trilha sonora inesquecível, o espetáculo conta com os maiores sucessos do filme como, "Maniac" e "I Love Rock 'n Roll". E, claro, apresenta uma sequência de tirar o fôlego do público com o hit vencedor do Oscar "Flashdance... What a Feeling".

4. Coreografias intensas e de encher os olhos do público mesclam jazz, dança de rua e balé. Assinadas por Tutu Morasi, as danças combinam a energia contagiante dos anos 80, exigindo uma performance física impressionante do elenco. 

5. A icônica e sensual sequência do banho de água na cadeira é recriada no palco com forte impacto visual, o que emociona muito o público.

6. O elenco talentoso, estrelado por Marisol Marcondes e Rhener Freitas, soma 24 artistas selecionados entre mais de 600 candidatos.

7. O espetáculo com música ao vivo ganha mais peso tendo a banda com seis músicos no fosso, diferente de produções com trilhas gravadas.

8. A trama de inspiração e superação sobre a jornada de Alex Owens, uma jovem operária que luta para realizar o sonho de se tornar bailarina profissional, tem identidade própria, sendo uma releitura autoral brasileira de 4Act Entretenimento. E o que se vê no palco é incrível!

9. A mágica montagem do clássico, com cenário de estrutura metálica industrial, escadas e iluminação azul intensa, emociona demais a ponto de fazer escorrer lágrimas de ver a história do filme clássico acontecer ao vivo, diante dos olhos do público. 

10. As apresentações acontecem no moderno e confortável Teatro Claro MAIS SP, dentro do Shopping Vila Olímpia, com acessibilidade e ingressos a preços democráticos, com diversos benefícios de meia-entrada e combos promocionais.

11. "Flashdance - O Musical"  está encerrando a temporada de apresentações em 31 de maio, sendo a última semana de chance para conferir a obra.


Serviço
"Flashdance, o Musical"

Temporada: 9 de abril a 31 de maio de 2026
Às quintas e sextas-feiras, às 20h; aos sábados, às 16h30 e às 20h30; e aos domingos, às 15h30 e às 19h30.
Teatro Claro Mais SP - Shopping Vila Olímpia - Olimpíadas, 360, 5º Piso - Vila Olímpia, São Paulo - SP, 04551-000
Ingressos: de R$ 25,00 a R$ 250,00
Vendas on-line em https://uhuu.com/evento/sp/sao-paulo/flashdance-15824
Bilheteria: de segunda a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos e feriados, das 12h00 às 20h00
*Clientes Claro Clube têm 50% de desconto em até quatro ingressos
Classificação: 18 anos
Duração: 120 minutos
Capacidade: 801 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida


* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Twitter:@maryellenfsm 



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terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Hugo Bonemer: Ripley no teatro, ator reflete sobre identidade e obsessão

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.comFoto: divulgação

O talentoso Hugo Bonemer poderia ser apenas um jogo de palavras, uma referência ao romance de Patricia Highsmith, mas vira chave de leitura quando o espetáculo "O Talentoso Ripley", em cartaz no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, até dia 31 de maio, aposta no fascínio ambíguo de personagens que orbitam o desejo de ser outro. Inspirado no universo do clássico literário criado em 1955, a peça teatral dialoga com a tradição do thriller psicológico que consagrou o personagem Tom Ripley - figura que atravessou décadas, adaptações e formatos, do cinema europeu de René Clément ao olhar sofisticado de Anthony Minghella na versão de 1999.

O espetáculo tem como base a adaptação em 1999 da escritora e roteirista Phyllis Nagy. Na nova abordagem, Hugo Bonemer assume o papel que flerta com essa herança e desafia todos os intérpretes que já passaram por ele. O ator, conhecido por transitar entre televisão, teatro musical e dublagem, constrói um protagonista que vive na fronteira entre admiração e apropriação - um território dramático que o próprio Bonemer já descreveu como um espaço de “empatia perigosa”. A atuação sustenta o eixo central de uma história que se organiza a partir do desconforto da inquietação prolongada de reconhecer traços humanos em figuras moralmente instáveis.

Interpretando, dirigindo e produzindo a peça na pele de um dos protagonistas mais fascinantes da literatura do século XX, Hugo Bonemer revisita um clássico e propõe um jogo contemporâneo de máscaras. Ao assumir esse risco, em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele transforma o trocadilho inicial em provocação: até onde vai o talento de quem interpreta - e de quem assiste - sem se deixar capturar pelo abismo que observa?

Resenhando.com - Ripley atravessa a fronteira entre admiração e obsessão com rapidez brutal. Hoje, o que o assusta mais: quem se reconhece nele ou quem se encanta por ele?
Hugo Bonemer - Não me assusto com os dois cenários, acho eles naturais e previsíveis, já que um psicopata sedutor consegue o que quer fazendo as pessoas se sentirem exatamente assim: íntimas e familiares. Me assusta que nada disso faça a gente aprender a perceber até que seja tarde demais.


Resenhando.com - Você diz que interpretar Ripley exige visitar lugares desconfortáveis — em que momento esse desconforto deixa de ser ferramenta de criação e começa a ameaçar quem você é fora do palco?
Hugo Bonemer Eu somatizo muito e pra isso tenho feito, além do processo terapêutico de anos, muito cuidado holístico e de massagem com o terapeuta holístico Julius Mac, que tem vindo de Buzios fazer um tratamento físico comigo. É como tenho conseguido manter o corpo e a mente sãos.


Resenhando.com - Ripley é um mestre em desejar a vida do outro. Em algum momento da sua trajetória, você já desejou ser alguém a ponto de quase apagar quem você era?
Hugo Bonemer Muitas vezes! Até chegar num ponto de me amar de verdade eu vivia desejando a vida dos outros. Seja por ser um discípulo intelectual de alguém, seja para ser amado por alguém, ou por conviver com algum daqueles ícones de beleza inalcançável. Não sei se todo mundo passa por isso, mas eu já não me lembro quando foi que deixei de ser assim. Só sei que tem muitos anos que amo existir como eu sou, aperfeiçoar quem eu sou, sem precisar viver na sombra de ninguém.


Resenhando.com - A peça aposta em suspense e terror, gêneros pouco explorados no teatro brasileiro. O que mais o interessa: provocar medo no público ou fazer com que ele reconheça a si mesmo nesse medo?
Hugo Bonemer O terror que se dispõe a provocar medo não causa medo em ninguém. É pelo reconhecimento de si mesmo na trama que a vulnerabilidade aparece. A partir daí, é só uma brincadeira em conjunto. Um susto aqui, um outro ali… tudo nesse acordo silencioso entre artista e espectador.


Resenhando.com - Você acumula funções de ator, diretor, produtor e cenógrafo. Esse controle todo é uma necessidade artística ou uma forma de garantir que nada escape da sua própria narrativa?
Hugo Bonemer Começou como necessidade de produção. Eu tinha um orçamento. Aos poucos fui gostando, confesso, e faria novamente. Exceto as redes sociais, essa parte eu faço, mas detesto.


Resenhando.com - Há uma tradição de “humanizar monstros” na arte contemporânea. Até que ponto compreender Ripley não corre o risco de absolvê-lo e, por tabela, absolver violências muito reais?
Hugo Bonemer Monstros não são humanizados para serem entendidos e acolhidos, mas para serem identificados em nós mesmos. Quando ele é só monstro, ele é externo, vive fora, não é problema nosso. Mas quando você vê uma relação familiar conturbada, um trauma, você se pergunta onde que você não decidiu seguir aquele caminho amoral, e onde o personagem se perdeu na curva. E é aí que a maturidade acontece. O risco que eu às vezes me questiono é o de dar palco para figuras reais, que cometem crimes e ganham dramaturgia e holofotes. Não sei se é um problema, mas li que os psicopatas adoram isso. O Tom Ripley não é uma pessoa real que vai se envaidecer por ter sua história contada.


Resenhando.com - Você fala em “empatia perigosa”. Já houve algum momento em que essa empatia te fez justificar algo que, racionalmente, você condena?
Hugo Bonemer Muitas vezes, a empatia perigosa no caso do Ripley vem quando você percebe que ele está quebrado e tenta gostar dele mesmo ele dizendo na sua cara que vai te fazer mal. Como aquela história do escorpião que pede para o coelho uma carona no barco jurando que não vai avançar, avança e pede desculpas dizendo “é a minha natureza”. O psicopata é assim, e quando ele aparece na nossa vida, faz de tudo para você achar que é um brinquedo quebrado, e que só você é capaz de consertar.


Resenhando.com - A montagem parte de um texto que nunca havia sido encenado em português. O que se ganha e o que se perde quando uma história tão marcada por outros contextos culturais ganha sotaque brasileiro?
Hugo Bonemer Só se ganha. Tirei todos os anglicismos e cortei quase uma hora de peça transformando texto em símbolo. Acredito que quando temos uma dramaturgia mais perto da gente conseguimos dialogar mais a fundo com o que acontece agora.


Resenhando.com - O sucesso da peça foi, nas suas palavras, inesperado. Existe algo de Ripley nesse espanto — alguém que, no fundo, não acredita que merece o lugar que ocupa?
Hugo Bonemer Tem algo voltado mais sobre planilha de custos mesmo haha. Eu não investi em marketing e a peça lotou. Eu faço com tanto amor que acredito que nós merecemos a casa lotada, mas já acreditei em outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso. Por isso inesperado.


Resenhando.com - Curiosamente, você chega a esse momento da carreira aos 37 anos interpretando um personagem criado em 1955. Se a arte é uma forma de driblar o tempo, que tipo de permanência você busca: ser lembrado ou ser compreendido?
Hugo Bonemer Obrigado pelos 37, eu faço 39 em junho. Eu não busco permanência, mas sim sentido. Crio sentido pra mim todo dia, toda hora, por meio da criatividade. Como, e se eu for lembrado com permanência, vai ser uma decisão nem de quem convive comigo, mas de quem está provavelmente nascendo agora. É impossível de controlar.


Serviço
Espetáculo "O Talentoso Ripley"
Teatro Laura Alvim -Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema, Rio de Janeiro - RJ
Temporada: até dia 31 de maio
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00
Lotação: 190 lugares
Classificação: 18 anos
Duração: 1h50min
Direção: Hugo Bonemer
Co-direção: Kamilla Rufino
Elenco: Francisco Paz (Richard Greenleaf), João Fernandes (Marc e Freddie), Cassio Pandolfh (Herbert Greenleaf e Tenente Roverini), Laura Gabriela (Emily Greenleaf e Tia Dottie) e Tom Nader (Red, Fausto e Silvio).
Gênero: suspense/terror
Ingressos: a partir de R$ 35,00

.: Sesc 24 de Maio recebe as últimas apresentações da peça "Meninos"


Espetáculo do Grupo II aborda as relações masculinas no contexto familiar contemporâneo. Foto: Douglas Fontes


O Sesc 24 de Maio recebe o espetáculo "Meninos", do Grupo II, até dia 30 de maio, em curta temporada. A montagem lança um olhar sensível sobre a masculinidade contemporânea, investigando fraturas, afetos e possibilidades de reinvenção a partir das relações familiares. Dividida em três atos, a peça apresenta histórias marcadas pela ausência e pelo silêncio, traçando caminhos de afetividade entre tios e sobrinhos, irmãos, filhos e pais. A dramaturgia constrói um mosaico de vínculos masculinos, revelando tensões, heranças emocionais e formas possíveis de cuidado. 

A programação integra o projeto Cena Jovem, realizado pela unidade 24 de Maio desde 2019, com o objetivo de aproximar as juventudes da linguagem teatral. A iniciativa aposta em espetáculos que dialogam com temas de interesse dos jovens e valorizam diretores, dramaturgos e artistas emergentes, incentivando tanto a formação de público quanto o reconhecimento de novas vozes da cena contemporânea. Assinada por Lucas Mayor, Marcos Gomes e Rafael Cristiano, a dramaturgia dialoga com a obra Sendo um menino, de bell hooks, ao abordar a infância e a adolescência masculina sob a perspectiva do crescimento, da formação da identidade e das pressões sociais impostas aos homens desde cedo. 

Ficha técnica
Espetáculo "Meninos"
Direção: Lucas Mayor e Marcos Gomes
Dramaturgia: Lucas Mayor, Marcos Gomes e Rafael Cristiano
Atuação: Eduardo Guimarães, João Bourbonnais, João Filho, Lucas Laureno, Rafael Cristiano e Ricardo Teodoro
Iluminação: Matheus Brant
Cenografia e Figurino: Grupo II
Produção: Maísa Sousa De Castro
Fotografia: Douglas Fontes


Serviço
Espetáculo "Meninos"

Até dia 30 de maio, de quarta a sábado, às 18h00
Sesc 24 de Maio, Rua 24 de Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Classificação: 14 anos
Ingressos: sescsp.org.br/24demaio ou através do aplicativo Credencial Sesc SP e nas bilheterias das unidades Sesc SP - R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia) e R$ 15,00 (Credencial Sesc).
Acessibilidade: Tradução em Libras nos dia 29 de maio.
Duração do show: 60 minutos
Serviço de van: Transporte gratuito até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30 minutos, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h00 às 21h00.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

.: Últimas apresentações do espetáculo “TIP” no Teatro YouTube


Dirigida por Rodrigo Portella e protagonizada por Milla Fernandez, peça é um corajoso relato de autoficção que partiu da experiência da atriz durante a pandemia. Foto: Ale Catan


Depois de três recentes temporadas no Rio de Janeiro e uma indicação ao Prêmio APTR de Jovem Talento, o espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)” segue com as últimas apresentações no Teatro YouTube (antigo Teatro Eva Herz), no Conjunto Nacional, em São Paulo. Com dramaturgia e performance de Milla Fernandez e direção de Rodrigo Portella, a peça é um corajoso relato de autoficção que partiu da experiência da atriz durante a pandemia. 

Diante das necessidades urgentes de se prover, e da falta de perspectivas, Milla encontrou no sexo virtual, com o apoio do marido e da família, a possibilidade de garantir uma fonte de renda imediata. Sem ideia do que encontraria, mergulhou no mundo do entretenimento adulto, satisfazendo como cam girl desejos de clientes anônimos em troca de gorjetas (tips, em inglês). Com humor ácido, Milla Fernandez não se poupa e brinca com o medo do fracasso, revelando situações cômicas, constrangedoras e dolorosas que viveu na área do entretenimento e no universo pornô.

A vivência provocou na atriz uma reflexão sobre as ilusões de uma sociedade orientada pela imagem. Com humor ácido, Milla Fernandez não se poupa e brinca com o medo do fracasso. A partir das inúmeras situações cômicas, constrangedoras e dolorosas que viveu na área do entretenimento, ela destrincha, com ironia, as consequências de uma vida construída para realizar o desejo dos outros - seja na profissão, no âmbito familiar ou no universo pornô. O que acontece quando uma atriz vive sempre em função da plateia? E ainda, o que acontece quando essa mulher se cansa de tentar agradar?

Nas palavras de Milla Fernandez: “Na pandemia, sem ganhar um centavo como atriz, eu decidi molhar os pés no universo das camgirls. Acabei mergulhando de cabeça, me afogando num mar violento e só quando cheguei no fundo e pensei que ia morrer, descobri que dá pra respirar embaixo d’água. Durante anos meu objetivo foi me sentir segura. Hoje eu quero me sentir cada vez mais confortável na insegurança. Eu pensava que controlar tudo era sinônimo de força. Vivi uma vida inteira tentando estar preparada para quando o mundo caísse. Aí ele caiu e esmagou todas as verdades que eu tinha construído. Essa peça não é uma resposta, é uma pergunta que eu me faço todos os dias”.

Como diretor, Rodrigo Portella direciona seu foco para a visão da atriz sobre a própria experiência: “Eu fico abismado com a coragem dela. Eu jamais me exporia dessa forma. Apesar de que nem tudo corresponde à verdade (no que diz respeito aos fatos), essa é uma das peças mais 'de verdade' em que eu já estive envolvido. Essa peça, pra mim, é sobre uma jovem atriz que se atira no abismo, uma mulher que se lança no fogo ao invés de fugir ou paralisar. Não é só um ato de coragem, mas de resiliência e reparação. Uma espécie de revisão do seu processo de constituição como pessoa e artista.”

A peça foi ensaiada em Barcelona - onde vivem Rodrigo e Milla -, com apoio da Prefeitura da cidade. A encenação de Rodrigo Portella aposta no minimalismo. Como único elemento cenográfico, longos tapetes vermelhos representam a fama e o sucesso. Portella assume a própria arquitetura teatral como cenário, retirando os tradicionais panos pretos da caixa cênica, e assim lembrando aos espectadores que estão num teatro, e que a ilusão dará lugar à imaginação. A trilha de Federico Puppi e Leo Bandeira tem caráter essencialmente percussivo, complementado por Milla Fernandez, que toca sax durante o espetáculo. O figurino de Karen Brusttolin busca desviar dos clichês e dos fetiches.


Ficha técnica
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Dramaturgia e performance: Milla Fernandez
Direção: Rodrigo Portella
Direção musical: Federico Puppi
Trilha sonora original: Leonardo Bandeira (bateria) e Federico Puppi
Figurino: Karen Brusttolin
Cenário e luz: Rodrigo Portella
Colaboração: Georgina Vila Bruch
Vídeo design: Plinio Hit
Visagismo: Neandro Ferreira
Fotos: Ale Catan
Identidade Visual: José Mancini e Diego Navarro
Mídias Sociais e Gestão de Tráfego: Nathália Alves
Captação de apoio: RumoToloá
Produção: Ártemis e Virgínia Bravo (Ártemis Produções Artísticas)
Realização: Mil Atividades Artísticas
Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Serviço
Espetáculo “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”
Temporada até dia 31 de maio
Teatro YouTube (antigo Eva Herz) - Av. Paulista, 2073/3º and, Conjunto Nacional, Bela Vista / SP (estacionamento no local)
Sexta-feira e sábado, às 20h00; domingo, às 17h00. Ingressos: R$120,00 e R$60,00 (meia) em https://www.eventim.com.br/artist/teatro-youtube/tip-antes-que-me-queimem-eu-mesma-me-atiro-no-fogo-4076460/ ou na bilheteria de segundas 13h00 às 21h00 / Capacidade: 166 espectadores / Duração: 90 minutos. Gênero: autoficção. Classificação: 18 anos. Acessibilidade teatro: sim / Temporada: até 31 de maio

Trecho de “TIP (Antes Que Me Queimem Eu Mesma Me Atiro no Fogo)”

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