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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

.: Musical “A Igreja do Diabo” volta com humor, música e boa dose de pecado


Musical inspirado em Machado de Assis retoma a temporada em São Paulo e coloca virtude, vício e hipocrisia no palco em uma comédia pop dirigida por Guilherme Gila. Foto: Pedro Veras

Depois de conquistar público, crítica e alguns prêmios pelo caminho, “A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” está de volta a São Paulo. A montagem da companhia A Casa que Fala ganha uma curtíssima temporada em outubro, no Teatro Estúdio, com sessões às segundas e terças-feiras, às 20h00. Inspirado no conto homônimo de Machado de Assis, o espetáculo escrito, dirigido e musicado por Guilherme Gila pega a conhecida provocação do escritor do século XIX e a leva para um universo de humor, música pop brasileira, filosofia moral e coreografias de linguagem queer. A proposta é discutir virtude, vício, desejo e comportamento social sem deixar a graça pelo caminho.

Na história, a Diaba resolve fundar sua própria religião. A nova doutrina tem uma regra bastante simples: fazer o mal está liberado. Ser uma pessoa boa, por outro lado, passa a ser visto como um defeito. Parece uma receita perfeita para o caos e, considerando que Machado de Assis está na origem da história, seria estranho esperar que a humanidade obedecesse direitinho a qualquer manual de comportamento. Edyelle Brandão retorna ao papel da Diaba, personagem que lhe rendeu reconhecimento na primeira temporada. O elenco desta nova temporada reúne ainda Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira.


Machado, pecado e música pop
Publicado originalmente no século XIX e posteriormente reunido em “Histórias sem Data”, de 1884, “A Igreja do Diabo” apresenta um Diabo cansado da falta de organização de seu próprio ofício. A solução encontrada por ele é fundar uma igreja, estabelecer regras e inverter a lógica das virtudes e dos pecados. Machado usa a premissa para cutucar a natureza humana e sua relação bastante particular com qualquer sistema moral. Afinal, seguir regras parece uma tarefa simples até que elas começam a contrariar desejos, hábitos e conveniências.

Guilherme Gila parte dessa mesma provocação para construir sua versão musical. Na montagem, a Diaba assume a missão de criar uma religião própria e apresenta aos seguidores os chamados “sete ditados capitais”. A doutrina rapidamente ganha adeptos, todos dispostos a experimentar um mundo em que a maldade virou virtude. Só que existe um pequeno problema: gente é gente. E a natureza humana costuma ter seus próprios planos.

A montagem utiliza música, dança e comicidade para aproximar a obra machadiana de questões contemporâneas. A sonoridade inspirada no pop brasileiro e a linguagem coreográfica queer dialogam com manifestações artísticas associadas a mulheres, pessoas pretas e integrantes da comunidade LGBTQ+, grupos historicamente submetidos a julgamentos sobre seus corpos, comportamentos e formas de expressão. Com isso, a filosofia moral ganha ritmo de teatro musical e o debate sobre virtude, vício, hipocrisia e desejo chega ao palco com uma dose generosa de humor.


Um musical premiado
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário” estreou em São Paulo em 2023 e acumulou mais de dez indicações durante sua primeira temporada. Entre os reconhecimentos estão o prêmio de Melhor Musical Off no Prêmio Bibi Ferreira e o prêmio de Dramaturgia Original para Guilherme Gila no Prêmio Destaque Imprensa Digital.

Edyelle Brandão também foi reconhecida como Atriz Revelação entre os Destaques do Ano de Miguel Arcanjo Prado, enquanto a produção apareceu entre os destaques na categoria Melhor Musical Off. A montagem ainda chegou ao Prêmio PRIO de Humor, com indicações para Edyelle, em Melhor Performance, e para a própria produção.

Gila, responsável pela direção geral, dramaturgia e músicas, já havia levado Machado de Assis ao teatro musical com “Dom Casmurro”, no qual também assinou direção musical, composições e letras. Em “A Igreja do Diabo”, a direção musical fica por conta de Samir Alves e as coreografias são de Gabriella Medeiros.

A equipe criativa conta ainda com Laís Damato na cenografia, Isis Patacho na cenotécnica, Pietro Di Pompeii no desenho do vitral, Fran Barros no desenho de luz e Graziela Bastos nos figurinos. Rebeca Reis assina a produção executiva, Dan Maschio responde pela identidade visual e Anne Beatriz pelas artes gráficas.

Com realização de A Casa que Fala, “A Igreja do Diabo – Um Musical Imoral e Hilário” retorna aos palcos para colocar Machado de Assis diante de uma plateia contemporânea — e, de quebra, provocar uma pergunta que continua bastante inconveniente: será que a humanidade conseguiria obedecer a uma religião cuja principal regra fosse fazer o mal?


Serviço
“A Igreja do Diabo - Um Musical Imoral e Hilário”
Temporada: de 5 a 25 de outubro | Segundas e terças-feiras, às 20h00
Local: Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada para estudantes, professores e aposentados)
Duração: 80 minutos, sem intervalo
Classificação indicativa: 12 anos
Vendas: Sympla

Ficha técnica
Elenco: Edyelle Brandão, Giovana Brandão, Olivia Lopes, Raphael Mota, Aron Luiz e Rupa Figueira
Direção geral, dramaturgia e música: Guilherme Gila
Direção musical: Samir Alves
Coreografia: Gabriella Medeiros
Cenografia: Laís Damato
Cenotécnica: Isis Patacho
Desenho do vitral: Pietro Di Pompeii
Desenho de luz: Fran Barros
Figurino: Graziela Bastos
Produção executiva: Rebeca Reis
Assessoria de imprensa: GPress Comunicação
Identidade visual: Dan Maschio
Artes gráficas: Anne Beatriz
Realização: A Casa que Fala

domingo, 4 de outubro de 2026

.: “Trilogia da Noite Escura da Alma” leva 3 santos para dentro da Catedral da Sé


Trilogia reúne “Edith Stein, a Estrela e a Cruz”, protagonizado por Daniela Schitini; “João da Cruz”, interpretado por Helder Mariani; e “Theresinha”, com Gabriela Cerqueira. Fotos: divulgação

A Catedral da Sé de São Paulo será o ponto de partida para uma experiência teatral que convida o público a caminhar por diferentes espaços do templo enquanto acompanha histórias de fé, dúvida, solidão e busca espiritual. A partir de 6 de outubro, a “Trilogia da Noite Escura da Alma”, com dramaturgia e direção de Helder Mariani, reúne três monólogos dedicados a figuras fundamentais da tradição carmelita: Edith Stein, João da Cruz e Theresinha. A proposta transforma a própria arquitetura da Catedral em parte da encenação. O público percorre o Salão Superior, a Cripta e o Coro, encontrando os personagens ao longo do trajeto, até chegar ao Altar-Mor. São cinco apresentações, nos dias 6, 20 e 27 de outubro e 3 e 10 de novembro, sempre às terças-feiras, às 19h00.

A trilogia reúne “Edith Stein, a Estrela e a Cruz”, protagonizado por Daniela Schitini; “João da Cruz”, interpretado por Helder Mariani; e “Theresinha”, com Gabriela Cerqueira. Katia Naiane e Nicoli Rizzoli completam o elenco como atrizes condutoras, responsáveis também por acompanhar o público durante o percurso pela Catedral.

Os três monólogos partem de um mesmo eixo: a chamada “noite escura da alma”, experiência espiritual associada à tradição carmelita e relacionada a momentos de crise, recolhimento, dúvida e transformação interior. As histórias de Santa Benedita Tereza da Cruz, conhecida como Edith Stein, São João da Cruz e Santa Theresinha do Menino Jesus se passam em épocas distintas, mas encontram pontos de contato nas inquietações que colocam fé e razão frente a frente. A dramaturgia de Helder Mariani foi construída a partir dos textos autobiográficos dos três personagens. A concepção cênica aposta na presença do ator diante do público, em uma comunicação direta que recupera a figura do ator-narrador e do rapsodo no teatro contemporâneo.

João da Cruz e Thérèse de Lisieux foram declarados Doutores da Igreja, enquanto Edith Stein está em processo de declaração. Os três pertencem à tradição dos carmelitas descalços e viveram, cada qual à sua maneira, experiências marcadas por conflitos espirituais e existenciais. A montagem leva essas figuras religiosas para um território que ultrapassa a devoção. Ao humanizar personagens tradicionalmente associados à santidade, a trilogia aproxima suas dúvidas e inquietações de questões bastante presentes na vida contemporânea. A rotina acelerada das grandes cidades, o excesso de trabalho e informação, os medos, a solidão e as dificuldades de convivência entram nesse diálogo com histórias escritas em outros períodos históricos.

A escolha da Catedral da Sé acrescenta outra camada à experiência. Em vez de assistir aos três espetáculos em um único espaço convencional, o espectador se desloca pelo edifício e encontra cada personagem em um ambiente diferente. Segundo o diretor Helder Mariani, a proposta nasceu também da necessidade de olhar para a dimensão espiritual em uma cidade marcada pela velocidade e pela tecnologia.

A trilogia aproxima sentimentos e paixões, dúvidas e certezas, fé e razão, enquanto apresenta santos conhecidos pela tradição católica em uma dimensão mais humana. A “noite escura da alma” deixa de ser uma experiência restrita às biografias dos personagens e passa a dialogar com as inquietações de quem acompanha o percurso teatral. “A quem percorrer esse caminho da Catedral da Sé, há de se iluminar um olhar mais crítico e mais compassivo, para si mesmo e para o outro”, finaliza Helder Mariani.


Ficha técnica
“Trilogia da Noite Escura da Alma”
Dramaturgia e direção: Helder Mariani
Elenco: Daniela Schitini (Edith Stein), Helder Mariani (João da Cruz) e Gabriela Cerqueira (Theresinha)
Atores condutores: Katia Naiane e Nicoli Rizzoli
Coordenação de operação de luz e som: Sylvie Laila
Designer gráfico: Thierry Avelar
Assessoria de imprensa: Eliane Verbena
Idealização e produção: Cia. da Palavra


Serviço
“Trilogia da Noite Escura da Alma”
Solos: “Edith Stein, a Estrela e a Cruz” | “João da Cruz” | “Theresinha”
Apresentações: 6, 20 e 27 de outubro; 3 e 10 de novembro de 2026
Dias e horário: terças-feiras, às 19h
Duração total: 140 minutos
Classificação: 14 anos
Gênero: drama
Capacidade: 100 pessoas
Ingressos: R$ 80 (inteira) | R$ 40 (meia-entrada)
Bilheteria: uma hora antes das sessões
Vendas online: Sympla
Locais de encenação: Salão Superior, Cripta, Coro e Altar-Mor
Acessibilidade: disponível somente para Coro e Salão Superior. A Cripta não possui acessibilidade.

Catedral da Sé
Catedral Metropolitana Nossa Senhora da Assunção
Praça da Sé - Sé - São Paulo/SP

Na rede: @trilogianoiteescuradaalma | @catedraldasesp

.: “Alien(nada)” mostra a autodestruição da humanidade a partir do imaginário ET


Monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado combina teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa em apresentações de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo. Foto: Helena Wolfenson

O que os extraterrestres têm a nos ensinar sobre a possibilidade de a humanidade desaparecer por conta própria? Essa é uma das perguntas que movem “Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”, monólogo da dramaturga e ufóloga Lívia Machado, que será apresentado de 9 a 11 de outubro, no Instituto Capobianco, em São Paulo.

Dirigido por Bruna Betito, com dramaturgismo e interlocução cênica de Janaina Leite, o espetáculo parte do Paradoxo de Fermi, questão que confronta a aparente ausência de evidências de vida extraterrestre com a enorme quantidade de possibilidades de existência de vida no universo. A partir daí, Lívia Machado volta a pergunta para a própria espécie humana e investiga os caminhos que poderiam levar à sua extinção.

Em formato de palestra-performance-sampler-audiovisual, “Alien(nada)” aproxima teatro, pesquisa científica e fabulação especulativa para tratar o imaginário alienígena como território estético, político e poético. A montagem integra a Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho, ampliando uma pesquisa continuada da artista sobre as relações entre arte, tecnologia, comunicação e imaginários extraterrestres.

O tema já aparece em trabalhos anteriores de Lívia Machado, como “O Museu Voador”, “O Sol Desapareceu”, “Ainda Sopra” e “Crônicas Marcianas”, que também exploram diferentes possibilidades de relação entre ficção, tecnologia e a ideia de vida para além da Terra. A montagem ainda se relaciona ao laboratório “Sinestesia Alienígena”, realizado em setembro no Instituto Capobianco. A experiência propôs uma investigação artística a partir dos conceitos de “sinestesia” e “alienígena”, aproximando linguagens e materialidades para criar diferentes perspectivas sensoriais sobre temas como morte, permanência do corpo, tecnologia e digitalidade.


Ficha técnica
“Alien(nada): a Terra é Uma Adolescente e o Grande Filtro Pode Ser a Autodestruição da Humanidade”
Idealização, dramaturgia, atuação e colagem audiovisual: Lívia Machado
Direção: Bruna Betito
Dramaturgismo e interlocução cênica: Janaina Leite
Visualidades: Paula Halker
Iluminação: Marcus Garcia e Marina Meyer
Videomapping: Vic Von Poser
Figurino: Vanessa Alves
Operação de luz: Marina Meyer
Operação de vídeo: Vic Von Poser e Mayhara Ribeiro
Direção de produção: Tetembua Dandara
Produção executiva: Tati Mayumi
Provocações: André Medeiros Martins, Lara Duarte e Tetembua Dandara
Fotografia de divulgação: Helena Wolfenson
Agradecimentos: Lena Giuliano, Gabi Guarabyra e Julia Regina.


Serviço
“Alien(nada): a Terra é uma adolescente e o Grande Filtro pode ser a autodestruição da humanidade”
Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho
De 9 a 11 de outubro
Local: Instituto Capobianco
R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo – São Paulo (SP)
Sexta e sábado, às 20h00. Domingo, às 18h00.
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) | R$ 15,00 (meia) | Sympla
Classificação indicativa: 18 anos
Duração: 75 minutos

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: Johnny Massaro leva “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” ao palco


Espetáculo inspirado no best-seller de Ana Suy conduz o público por uma visita bem-humorada ao coração humano, entre desejos amorosos, términos e a solidão que acompanha a vida. 
Foto: Hudson Rennan

Com mais de 500 mil exemplares vendidos, o livro “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, da psicanalista e escritora Ana Suy, chega ao teatro pelas mãos de Johnny Massaro, que idealiza e protagoniza a montagem. O espetáculo estreia no Auditório do Sesc Pinheiros, onde permanece em cartaz até dia 31 de outubro, com produção artística de Pablo Sanábio, dramaturgia de Júlia Portes e direção de Helena Varvaki.

A adaptação parte de uma obra psicanalítica que não nasceu com personagens ou uma narrativa dramática convencional. No palco, esse material ganha corpo por meio de um guia turístico que conduz o público por uma espécie de passeio pelo coração humano. Entre a expectativa pelo encontro com a pessoa amada e os sentimentos que aparecem quando uma relação chega ao fim, o personagem transforma a visita em uma experiência existencial, afetiva e bem-humorada.

A ideia surgiu para Johnny Massaro há cerca de três anos, quando ele encontrou o livro em meio a um período complicado de um relacionamento. “Exigem de nós, e a gente exige de nós mesmos, que saibamos agir no exercício do amor, quando, na verdade, não é algo para o qual fomos educados. É como Ana diz: ‘É porque alguém, em algum momento, nos amou, mesmo que tenha nos amado mal, que a gente aprende a amar’. Eu me via falhando e repetindo os mesmos erros de relação em relação, geralmente culpando o outro pela falta de consciência dos meus próprios padrões e desejos. Estava cansado e curioso. A consciência de que eu precisava aprender de alguma forma aquelas informações do livro foi muito intensa e pareceu inevitável levá-lo ao palco”, revela.

A própria autora acompanhou o processo com entusiasmo. Para Ana Suy, a adaptação provocou uma sensação curiosa de reconhecimento diante de algo que, ao mesmo tempo, se apresentava de maneira nova. “Foi um susto delicioso ver a interpretação do Johnny na adaptação do meu livro! Senti um misto de estranheza e de reconhecimento, se aproximando muito do que Freud chamou de ‘infamiliar'. Para ele, o infamiliar contempla o familiar e foi isso que vivi. Trata-se de um texto emocionante, bastante original... ao mesmo tempo em que reconheço minhas ideias, palavras e a centralidade da minha tese em "a gente mira no amor e acerta na solidão". Só uma equipe muito talentosa e com muito cuidado (que talvez seja um bom nome para o que surge quando somamos amor e solidão) poderia construir uma peça tão bonita!”

Para Pablo Sanábio, o projeto também nasceu de uma coincidência feliz. Quando recebeu a mensagem de Johnny propondo a montagem, estava justamente lendo o livro de Ana Suy. “Acho muito bonita essa coisa da sincronicidade da vida. Quando o Johnny me escreveu falando da ideia de montar a peça, eu estava justamente lendo o livro. Esse projeto tem ainda um significado especial para mim, porque ele nasce também da nossa amizade. Eu e Johnny temos uma relação de muito afeto, troca e admiração. E falar de amor, para mim, é falar também sobre o amor entre amigos. Sobre essas pessoas que a vida coloca no nosso caminho e que acabam se tornando parte da nossa história”.


Da psicanálise ao teatro
Adaptar um livro de psicanálise para o palco exigiu encontrar uma estrutura dramática capaz de transformar ideias e reflexões em ação teatral. Johnny conta que chegou a apresentar o projeto a diversos dramaturgos e dramaturgas, recebendo respostas semelhantes sobre a dificuldade da empreitada. A solução apareceu durante um trabalho para uma série da Netflix, quando o ator conheceu Júlia Portes, que interpretaria sua esposa em “Emergência Radioativa”. A relação profissional acabou levando a outro encontro: o livro “O céu no meio da cara”, escrito por Júlia e finalista do Prêmio Jabuti.

“O desafio de transpor qualquer livro para o teatro já é imenso. Tratando-se de um livro de psicanálise, a coisa se intensifica. Levamos essa ideia a muitos dramaturgos e dramaturgas, que foram unânimes em dizer que seria impossível. Quando parecia que havíamos esgotado todas as nossas possibilidades, fui fazer uma série na Netflix, ‘Emergência Radioativa’, e fui apresentado à Júlia Portes, que faria minha esposa. Nos demos superbem e, em dado momento, ela me presenteou com seu livro, ‘O Céu no Meio da Cara’, que havia sido finalista no Prêmio Jabuti. Li, amei e, meses depois, fui ver a adaptação do livro para o teatro. Foi quando pensei em convidá-la. É um felicíssimo encontro da Julia com a Ana, da Julia comigo, da gente com a Helena, nossa diretora, e de todas as pessoas que, organicamente, foram se juntando ao processo”, conta Massaro.

Na dramaturgia, Júlia encontrou no ofício do personagem a chave para organizar a adaptação. O guia turístico conhece bem a função que desempenha, mas não necessariamente domina o território que apresenta aos visitantes. A contradição serve como ponto de partida para falar sobre as relações amorosas. “Gosto de pensar a partir de uma personagem e acredito que os hábitos dos personagens guardam segredos sobre eles. Por isso, a profissão exercida pode ser uma boa pista para esse enigma que é escrever uma dramaturgia. Foi assim que surgiu o Guia Turístico. Um guia que não conhece muito bem o lugar que está apresentando, no entanto quer que as pessoas acreditem que ele domina o que está falando. No amor, também é assim: a gente se apaixona e tenta parecer no controle, mas, na verdade, não estamos”.

A personagem também permite ampliar o alcance das ideias presentes no livro. “Faço essa analogia e muitas outras se abrem através da figura do Guia Turístico. O livro, para falar das parcerias amorosas, do amor e da nossa solidão, indissociáveis, fala de várias outras parcerias, também amorosas, mas não necessariamente românticas. A dramaturgia está na intersecção entre o percurso íntimo do Guia Turístico e a descoberta do recorte do livro que nos interessava”, acrescenta.


Um coração no palco
Na encenação de Helena Varvaki, a relação entre experiência pessoal e construção teatral ocupa um lugar central. O personagem conta histórias enquanto também se modifica pela própria experiência de contá-las. A diretora explica que a montagem “investe no processo de escuta de nós mesmos, que fazemos ao narrar algo pessoal. É no processo de contar o vivido que repensamos o viver. Ao escorregar no que se propôs, fazer uma visita guiada ao coração, nosso guia reinventa a si mesmo. Fazemos a passagem entre teoria e criação ficcional”.

Essa visita terá um elemento bastante concreto em cena: o coração. O órgão aparece como instrumento para compreender a anatomia, com suas câmaras e passagens, e também como objeto plástico nas mãos do ator, aproximando a dimensão biológica de uma leitura poética. A direção aposta ainda na proximidade entre ator e plateia. “A atuação parte de um lugar de vulnerabilidade - aquele que todos reconhecemos quando imersos em nosso desejo de amor. Um personagem que guia e é, ao mesmo tempo, guiado pelos espectadores numa troca sensível e atenta, usufruindo e manejando a química particular que, na arte teatral, se estabelece e se renova a cada novo encontro com o público”, adiciona Helena.

Para Johnny Massaro, a montagem marca ainda sua estreia em um monólogo depois de 22 anos de carreira. Ao falar sobre a experiência, ele recupera outra passagem do livro de Ana Suy: "É fato que nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra a nossa vida se dá em relação, com várias pessoas. Nada nos livra da solidão, mas certas coisas, como os amigos e o teatro, nos lembram que não estamos, sempre, tão sozinhos”, conclui.


Ficha técnica
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Baseado no best-seller de Ana Suy
Idealização e Atuação: Johnny Massaro
Produtor Artístico: Pablo Sanábio
Dramaturgia: Júlia Portes
Direção: Helena Varvaki
Figurino: Sasha Meneghel
Direção de Produção: Roberta Dias
Uma produção: Johnny Massaro e Pablo Sanábio
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Nina Balbi
Trilha Sonora: Pedro Sodré e Frederico Santiago
Programação visual: Ton Zaransa
Preparação Corporal: Esther Weitsman
Produção Executiva: Camila Sequeira
Fotos: Hudson Rennan
Assistente de direção: Lucas Garbois
Assistente de Cenografia: Rachel Merlino
Controller Financeira: Natália Simonete - Estufa de Ideias


Serviço
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Temporada: 24 de setembro a 31 de outubro de 2026
Sesc Pinheiros - Rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena)
Vendas on-line pelo Sesc São Paulo ou presencialmente na bilheteria de qualquer unidade do Sesc São Paulo
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos

.: "Cansei de Ser Belo" cutuca a vaidade e leva galã de novela ao teatro


Comédia inédita de Emílio Boechat estreia em outubro no Teatro YouTube e acompanha um astro da televisão disposto a abrir mão da própria beleza para conquistar o respeito da crítica. Foto: divulgação

A beleza pode abrir muitas portas. Para Rodrigo Contreiras, personagem de Fernando Pavão em "Cansei de Ser Belo", ela também virou uma espécie de prisão. Galã absoluto das novelas, rosto requisitado por marcas e dono de milhões de seguidores, ele chega a uma conclusão bastante peculiar: se quiser ser levado a sério como ator, terá de acabar com a própria imagem de homem perfeito. Essa é a premissa da nova comédia de Emílio Boechat, que estreia no dia 3 de outubro, no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu, em São Paulo. Com direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo reúne no elenco Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes. A produção é assinada por Boechat e Marília Toledo.

Rodrigo está cansado de ser visto apenas como um "corpo sarado com milhões de seguidores". Na tentativa de conquistar reconhecimento artístico, ele resolve destruir a própria imagem de perfeição e escolhe o teatro como atalho. Afinal, segundo sua lógica bastante conveniente, montar uma peça é mais rápido do que produzir um filme ou uma série. A ideia para a comédia surgiu depois que Emílio Boechat assistiu à leitura de uma peça protagonizada por um conhecido galã de novelas. “Pensei: por que esse homem tão bonito e bem sucedido ainda se dá ao trabalho de fazer teatro? Foi então que eu lembrei que, segundo o filósofo Henri Bergson, a vaidade é o ‘vício cômico’ mais engraçado. A partir disso decidi escrever sobre a vaidade de uma perspectiva diferente”, revela.

A obsessão de Rodrigo pelo reconhecimento chega ao ponto de fazê-lo encarar aquilo que considera o submundo da profissão: o teatro alternativo e experimental. A provocação, porém, não mira esse segmento teatral. Boechat esclarece que a peça volta suas atenções para quem busca prestígio a qualquer preço e enxerga o teatro experimental como um lugar menor. “Nossa crítica é voltada às pessoas que buscam o reconhecimento a qualquer preço, que têm uma visão distorcida de quem são e tratam esse teatro experimental como algo menor, que dá trabalho pra quem ‘não é bonito o suficiente pra fazer televisão’”, comenta.

Erica Montanheiro vê no absurdo uma das principais fontes de humor do espetáculo. “O texto cria situações limítrofes nas quais, dificilmente, alguém iria se colocar. Essas situações criam constrangimento e, ao mesmo tempo, um olhar debochado sobre o ‘ser artista’. E é, através desse deboche, que as fragilidades do fazer artístico são expostas. Em um país como o Brasil - que não valoriza os trabalhadores da cultura - cada vez mais os próprios artistas são responsáveis por criar situações para vender sua imagem”, diz.

Na pele de Rodrigo, Fernando Pavão também enxerga uma conexão direta entre o personagem e a busca contemporânea por visibilidade. “Acho que o texto acerta a mão em cheio ao espelhar esse Rodrigo, um ator que precisa desesperadamente de visibilidade e reconhecimento com o tempo em que vivemos hoje, em que muita gente busca isso via o mundo fantástico das redes sociais. Uma comédia deliciosa onde o universo dos atores e seus exageros é primorosamente retratado”. A direção de Kleber Montanheiro parte do jogo cênico típico da comédia de Boechat e acrescenta uma camada surrealista à encenação. A proposta trabalha o exagero como ferramenta para criar um espelho da sociedade.

Na cenografia e nos figurinos, a ideia é apostar na simplicidade com bastante movimento. “Queremos que a cenografia seja muito simples, mas muito mutante, que tenha elementos que se transformam. Então, eles se transformam numa sala, num escritório, num camarim, quase como um grande contêiner que vai abrindo e dando origem a diferentes espaços físicos. E isso remete um pouco a essa velocidade das redes sociais, quase como uma tela de celular”, comenta o diretor.


Sobre Emílio Boechat
Emilio Boechat tem 35 anos de carreira escrevendo para rádio, teatro, cinema, TV e plataformas de streaming. Junto com Marilia Toledo ganhou o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Dramaturgia Original em Musicais (2023) por "Ney Matogrosso - Homem com H". Já foi indicado aos prêmios Destaque Imprensa Digital (2023 e 2022), Rio Web Fest (2021), Troféu Mambembe (1998) e APETESP (1991). Ao lado dela, escreveu também os musicais "Uma Noite na Broadway", "Silvio Santos Vem Aí" e "Os Dez Mandamentos".

É autor das comédias "Camila Backer Lives in Concert", "Eu era tudo pra ela e ela me deixou"; do longa-metragem "Barraco de Família" e da série "A Secretária do Presidente" (Multishow/Mixer). É co-produtor e head-writer da série "Camila Baker", premiada pela Lei Paulo Gustavo em 2023. Com Miguel Falabella e Rosana Hermann escreveu a minissérie "O Som e a Sílaba" e a 2ª temporada de "O Coro - sucesso aqui vou eu" (Disney+), ainda inédita.

Foi head-writer da segunda temporada da série "Na Fama, Na Lama" (Multishow). Escreveu com Ingrid Guimarães, por três anos, os roteiros do programa "Mulheres Possíveis" (GNT). De 2005 a 2020, foi roteirista da Record TV, onde escreveu novelas e minisséries como "Bela, a Feia", "Rebelde" e "Os Dez Mandamentos".


Sobre Kleber Montanheiro
Multiartista com 30 anos de carreira, Kleber Montanheiro é diretor cênico, cenógrafo, figurinista e artista visual em expografia. Indicado a mais de 25 prêmios (FEMSA, APCA, Shell, Prêmio Bibi Ferreira e Prêmio DID - Destaque Imprensa Digital) em diversas categorias, foi contemplado pela maioria delas.

Entre seus trabalhos de direção estão espetáculos como "Ópera do Malandro", de Chico Buarque de Holanda; "Carmen, a Grande Pequena Notável", de Heloísa Seixas e Júlia Romeu; "Nossos Ossos", baseado no livro homônimo de Marcelino Freire; e "Tatuagem", musical adaptado do filme de Hilton Lacerda, trabalho que recebeu diversas indicações ao Prêmio Bibi Ferreira e lhe rendeu o prêmio APCA de melhor diretor.

Por "Carmen, a Grande Pequena Notável", recebeu o Prêmio São Paulo de melhor figurino. Dirigiu, concebeu e criou cenografia e figurinos do musical da Broadway "Cabaret", de John Kander e Fred Ebb, que cumpriu temporada no 033 Rooftop, do Teatro Santander - SP, recebendo os prêmios Bibi Ferreira de melhor direção e melhor figurino. Em 2025, dirigiu e concebeu o musical brasileiro original "João", indicado a melhor direção nos prêmios Bibi Ferreira, DID e APCA. Em "Gal - o musical", assina a direção e o figurino.


Sobre o Teatro YouTube
O Teatro YouTube ocupa o Conjunto Nacional, em São Paulo, dentro da Galeria Magalu, sob gestão da Aventura Teatros. O espaço aproxima a experiência presencial do universo digital e recebe espetáculos, projetos de criadores de conteúdo elegíveis, iniciativas de marcas e diferentes formatos de interação com o público. A estrutura também comporta transmissões ao vivo, gravações de podcasts e eventos. O local recebe ainda projetos institucionais, como o YouTube Music Nights, série de shows intimistas lançados exclusivamente nos canais dos artistas convidados.


Sobre a Aventura
Fundada em 2008 e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e de produção geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura atua na produção de espetáculos e no desenvolvimento do teatro musical no Brasil. A empresa soma mais de 40 produções, entre espetáculos inéditos e versões da Broadway, como "Elis, a musical", "A Noviça Rebelde", "Mamma Mia", "Hair", "Sete", "O Mágico de Oz", "SamBRA", "Chacrinha, o musical", "Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte", "Merlin e Arthur, um sonho de liberdade" e o infantil "Zaquim".

Em 2022, a produtora lançou "Vozes Negras – A Força do Canto Feminino", primeiro musical em formato de série do país, e "Seu Neyla", apresentado em dois palcos com uso da internet para criar uma experiência diferenciada para o público. No mesmo período, estreou a parceria com a Disney-Pixar em "Pixar in Concert". Com a proposta de ampliar o acesso à cultura, a Aventura criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil, e também responde pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, são mais de 3,8 mil apresentações, cerca de 4,5 milhões de espectadores e mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados.


Ficha técnica
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Texto: Emilio Boechat
Direção, cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Elenco: Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes
Direção de Produção: Marilia Toledo e Emilio Boechat


Serviço
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Temporada: 3 de outubro a 22 de novembro de 2026
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00
Teatro YouTube (Galeria Magalu - Conjunto Nacional) - Av. Paulista, 2073 - Bela Vista / São Paulo
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada)
Vendas online: Eventim
Classificação: livre
Duração: 70 minutos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

domingo, 27 de setembro de 2026

.: Teatro em SP: "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"


Espetáculo premiado de Lucca Marques e Rafael Salmona reúne amor, luto, saúde mental, masculinidade e vulnerabilidade emocional ao colocar dois homens diante das lembranças de uma relação marcada por afeto, violência e culpa. Foto: Arthur Romão

O espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia", de Lucca Marques e Rafael Salmona, com direção de Áurea Liz, chega a São Paulo para uma curta temporada no Espaço Cia da Revista, de 1º a 11 de outubro. A montagem acompanha dois homens que se reencontram à beira de uma ponte depois de anos afastados e revisitam uma relação marcada por afeto, violência, culpa e sentimentos que ficaram pelo caminho. Com dramaturgia poética e fragmentada, a peça investiga os mecanismos da memória e as marcas deixadas por experiências que permaneceram sem elaboração. João e Felipe transitam entre gravações, lembranças e melodias enquanto tentam compreender o que viveram juntos e as versões que construíram de si mesmos e um do outro.

A montagem estreou no Festival Internacional de Teatro do Atlântico, em Cabo Verde, e passou por Portugal e Espanha, onde ganhou também uma versão em língua espanhola. A estreia nacional aconteceu em Brasília, em janeiro de 2026. Em setembro, o espetáculo participou do FESTEI – Festival Nacional de Teatro de Ibiúna, realizado entre os dias 3 e 7, e voltou para casa com três prêmios: melhor cenografia, melhor dramaturgia e melhor ator, para Rafael Salmona.

No festival, "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" recebeu ainda indicações em oito categorias: melhor cenografia, melhor sonoridade, melhor iluminação, melhor dramaturgia, melhor direção, melhor ator para Lucca Marques, melhor ator para Rafael Salmona e melhor espetáculo. Na encenação, música, palavra e movimento aproximam presente e passado, realidade e lembrança. A estrutura fragmentada acompanha uma memória que não se apresenta de maneira linear: recordações se sobrepõem, versões entram em conflito e acontecimentos aparentemente encerrados reaparecem sob outras perspectivas.

A pergunta que atravessa a montagem está relacionada ao que fazemos com as experiências que continuam reverberando depois que uma relação chega ao fim. “Quando uma melodia se rompe, é possível simplesmente seguir adiante ou levamos para as relações seguintes os ecos daquilo que nunca conseguimos escutar?", questionam os dramaturgos Lucca Marques e Rafael Salmona, que também estão em cena. A trajetória da montagem ganhou ainda uma extensão literária. A dramaturgia foi publicada em edição bilíngue português-espanhol pela editora Giostri. Compre o livro "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Direção: Áurea Liz
Dramaturgia e atuação: Lucca Marques e Rafael Salmona
Concepção de luz: Caio Maciel
Operação de luz: Caio Maciel
Cenotécnica: Artur Ribeiro
Trilha sonora original: Andrei Machado, Fábio Gesteira e Lucca Marques
Colaboração artística: Irina Buss e Vinícius Ávlis
Produção: Casa dos Quatro e Coletivo Levante
Produtor local: Ricardo Corrêa

Serviço
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Temporada: 1º a 11 de outubro de 2026. 1º de outubro, quinta, às 20h00; 2 e 9 de outubro, sextas, às 20h00; 3 e 10 de outubro, sábados, às 20h00; e 11 de outubro, domingo, às 19h00.
Local: Espaço Cia da Revista (Alameda Nothmann, 1135 - Campos Elíseos / São Paulo) 
Ingressos: R$ 90,00 (inteira) e R$ 45,00 (meia-entrada), à venda pela Sympla.
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, na Funarte, recupera memórias inscritas


Criação de Claudia Palma reúne Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini em espetáculo inspirado no livro “Escute as Feras”, de Nastassja Martin. Foto: Hamilton Ramos

Depois de décadas de trajetórias que se cruzaram na dança paulistana, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini voltam a dividir a cena em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, criação coreográfica de 2023 que reestreia no Complexo Cultural Funarte SP. As apresentações acontecem nos dias 25, 26 e 27 de setembro e 1.°, 2 e 3 de outubro, na Sala Renée Gumiel, dentro do projeto “Ser Tempo”, realizado pela iN SAiO Cia. de Arte.

Dirigido por Claudia Palma, o espetáculo parte de “Escute as Feras”, livro da antropóloga francesa Nastassja Martin. A obra nasceu de uma experiência real vivida pela autora durante uma pesquisa de campo entre os even, na península de Kamtchátka, na Sibéria: o encontro com um urso que deixou marcas físicas e profundas consequências em sua relação com o mundo. Publicado originalmente na França como “Croire aux Fauves”, em 2019, o livro chegou ao Brasil pela Editora 34 em 2021.

A experiência de Martin interessa ao espetáculo justamente pela ideia de encontro como acontecimento capaz de deixar marcas no corpo e na memória. Em “Miêdka”, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini não retomam coreografias antigas de suas trajetórias. O reencontro acontece a partir das lembranças, sensações, afetos e experiências acumuladas ao longo dos anos.

A palavra que dá nome à criação vem de uma referência ligada aos povos even e designa a pessoa marcada pelo encontro com um urso, que passa a carregar uma condição entre o humano e o animal. A própria companhia apresenta a figura da miêdka como alguém que sobrevive ao encontro e passa a compartilhar marcas e sonhos com a natureza.

A escolha do livro de Nastassja Martin também aproxima a dança de uma experiência antropológica bastante particular. Em sua obra, a autora parte do episódio ocorrido em 25 de agosto de 2015 para refletir sobre identidade, natureza, mito e as fronteiras entre diferentes formas de existência. “É um extrato essencial daquilo que reflete nos nossos corpos hoje”, afirma Claudia Palma, que dirige a iN SAiO Cia. de Arte desde 2010. A companhia tem uma trajetória dedicada à pesquisa do corpo e das possibilidades expressivas do movimento e reúne, em seu repertório, trabalhos como “Um Outro Corpo”, “Cálamo”, “Lugar Algum”, “Dark Room”, “Abissal” e “Ato Infinito”.

A criação também marcou a temporada de 2023 ao receber o prêmio APCA Dança de Melhor Elenco para Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini. A premiação reconheceu o trio pela atuação em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”. A programação da Funarte amplia a proposta da apresentação com atividades gratuitas relacionadas à dança e ao processo criativo. No dia 26 de setembro, após a sessão, acontece o bate-papo “Dança e Etarismo - A Potência das Idades”, com Ana Terra e Mariana Muniz. A apresentação do dia 27 terá audiodescrição.

O projeto “Ser Tempo” continua em outubro com uma residência artística conduzida pelos três intérpretes-criadores, entre os dias 6 e 9, além de duas mesas de discussão. “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”, no dia 8, reúne Zé Maria Carvalho e Zé Renato. No dia 9, “Criação e Memória na Dança” recebe Mariana Muniz, Luis Arrieta e Wellington Duarte, com mediação de Ana Terra.

Toda a programação é gratuita, incluindo as apresentações de “Miêdka – Uma Metáfora do Encontro”. O projeto da iN SAiO Cia. de Arte foi contemplado pela 39ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.


Ficha técnica
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Direção Geral e Artística: Claudia Palma | Intérpretes-Criadores: Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini | Trilha Sonora Original: Joaquim Tomé | Ambientação Cênica, Desenho e Operação de Luz: Hernandes Oliveira | Operação de Som: Gui Afonso | Figurino: Elenco | Provocação Filosófica: Rodrigo Vilalba | Escrita e Colaboração Dramatúrgica: Tatiana Avanço | Fotografia: Hamilton Ramos | Assessoria de Comunicação: Elaine Calux | Produção artística: Cristina Ávila | Produção executiva: Dionísio Produção Cultural (Cristiane Klein).


Serviço
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Com: Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini
Dias  25, 26 e 27 de setembro | Sexta-feira, às 19h00; sábado e domingo, às 18h00
Dias 1.°, 2 e 3 de outubro | Quinta a sábado, às 19h00
Complexo Cultural Funarte SP - Sala Renée Gumiel
Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos / São Paulo
Duração: 60 minutos. Classificação: livre. Acessibilidade: sim. Audiodescrição: 27 de setembro, mediante reserva pelo WhatsApp 11 99548-4773. Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes do espetáculo

Residência artística “Miêdka”
6 a 9 de outubro, das 11h00 às 14h00 | 25 vagas

Mesas de discussão
8 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”
9 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Criação e Memória na Dança”
Toda a programação é gratuita.

.: Últimos dias de “Mire Veja”, com acervos do MAM SP no Sesc Bom Retiro


Mostra ocupa diferentes espaços da unidade do Sesc Bom Retiro até 27 de setembro e aproxima obras, públicos, práticas curatoriais e formas de mediação. Na imagem, Rodrigo Braga, Comunhão I, 2006. Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo. Foto: Rodrigo Braga

Até 27 de setembro, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Sesc São Paulo apresentam “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”, no centro da capital paulista. Com curadoria de Valquíria Prates e Mirela Estelles, a exposição reúne cerca de 50 obras de diferentes linguagens, suportes e períodos, colocando lado a lado trabalhos pertencentes aos acervos das duas instituições. 

A proposta parte do encontro entre coleções que possuem histórias, características e formas distintas de relação com o público. Como visitante, o MAM leva obras de sua coleção para a unidade do Sesc, sem alterar a configuração do espaço anfitrião. Ao mesmo tempo, trabalhos que já fazem parte do edifício e do Acervo Sesc de Arte passam a integrar a exposição, ganhando novas possibilidades de leitura a partir da convivência com as obras trazidas pelo museu.

Entre os artistas representados pelo MAM estão Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Ceschiatti, Amelia Toledo, Brígida Baltar, Cao Guimarães, Carlos Zilio, Emanoel Araujo, Franz Weissmann, German Lorca, Giuliana Giorgi, Heitor dos Prazeres, Labo & Rafaela Kennedy, Laura Vinci, Lenora de Barros, Lothar Charoux, Paulo Nenflidio, Pedro Motta, Rodrigo Braga, Rosângela Rennó, Sara Ramo, Xadalu Tupã Jekupe e Zimar. Já o acervo presente no Sesc Bom Retiro inclui obras de Antonio Henrique Amaral, Artur Barrio, Cássio Vasconcellos, Claudio Tozzi, Cleber Machado, Eduardo Coimbra, Iran do Espírito Santo, Motta & Lima, Nelson Leirner, Paulo Bruscky, Rodrigo Andrade e Rubens Gerchman. O encontro entre esses trabalhos amplia as possibilidades de percepção sobre as próprias obras e sobre os espaços onde elas são apresentadas.

A exposição integra o programa “MAM em Movimento”, iniciativa dedicada à circulação de obras do acervo do museu em diálogo com outros espaços e instituições culturais. Em “Mire Veja”, o encontro entre as duas coleções também coloca em pauta as maneiras de construir narrativas, organizar acervos e estabelecer relações com diferentes públicos. A curadoria ocupa toda a unidade do Sesc Bom Retiro e investiga a atuação da mediação cultural na relação pública com os acervos, especialmente por meio de ações de curadoria, educação e comunicação de exposições de arte. 

“Todo acervo começa com um gesto de escolha. Escolher guardar é também escolher o que permanece, o que será cuidado, pesquisado, documentado e mostrado ao longo do tempo”, explica Mirela Estelles, que também é coordenadora do MAM Educativo. “Partindo dessa reflexão, a mostra convida as pessoas a pensar sobre o que significa constituir, preservar e tornar público um conjunto de obras, evidenciando os processos, decisões e práticas que sustentam a vida pública da arte”, diz Mirela.

“A exposição convida o público a refletir sobre o que se busca transformar a partir do contato de pessoas com obras de arte em exposições, conversando sobre trabalhos de arte contemporânea e sobre as múltiplas camadas de experiência que podem ocorrer nas exposições”, continua Valquíria Prates. “O que se coloca em exposição são as obras e seus processos de criação, mas também as formas de mostrá-las, os dispositivos que as acompanham, os textos, os áudios, os livros, os materiais educativos e os próprios espaços por onde o público circula. Aqui, a obra é entendida como um campo aberto de relações intencionais, continuamente atualizado no encontro com cada visitante que esteja interessado em fazer parte dos processos de mediação de uma mostra de arte”, reflete a curadora, que investiga saberes e práticas colaborativas de mediação cultural em diferentes territórios, instituições e contextos sociais.


Arte espalhada pelo Sesc Bom Retiro
A exposição ocupa o edifício onde parte do Acervo Sesc de Arte é apresentada desde a abertura do Sesc Bom Retiro. O percurso passa pelo espaço expositivo e pela biblioteca, mas também chega aos corredores, escadas e áreas de convivência da unidade. Com isso, a experiência diante das obras ganha outros caminhos. A arte aparece em lugares de circulação cotidiana e passa a dividir espaço com as atividades habituais do Sesc, ampliando a possibilidade de encontro entre os trabalhos e seus frequentadores.

Constituído desde os primeiros anos da instituição, o Acervo Sesc de Arte representa uma das principais ações do Sesc São Paulo no campo das artes visuais. A coleção atua simultaneamente como patrimônio cultural e como suporte para atividades educativas. Reúne obras de arte moderna, contemporânea e popular e teve momentos decisivos de formação nas décadas de 1970 e 1980, mantendo-se em expansão por meio de aquisições e doações orientadas por critérios estéticos e históricos.

O acervo está distribuído pelas unidades do Sesc no estado de São Paulo e possui uma característica que interfere diretamente na experiência de quem frequenta os espaços: muitas obras permanecem em exibição permanente, em locais de circulação ou em projetos site-specific, criados especialmente para determinados ambientes arquitetônicos. A opção aproxima arte, arquitetura e território, colocando a produção artística em contato direto com diferentes públicos.

"A opção por apresentar seu acervo artístico em espaços de circulação, é um gesto da instituição que visa aproximar a produção visual do cotidiano de seus frequentadores. Dessa forma, o Sesc São Paulo escolheu pela apresentação de sua coleção em locais improváveis - piscinas, ginásios, centrais de atendimento - permitindo que a arte esteja presente para além dos espaços dedicados", comenta Juliana Braga, gerente de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, responsável pela gestão do Acervo Sesc de Artes.

Biblioteca também vira espaço de pesquisa
A pesquisa sobre mediação cultural, educação e exposições também ocupa a biblioteca do Sesc Bom Retiro, que passa a funcionar como espaço de exposição, pesquisa e mediação. Livros, materiais educativos, maquetes táteis e outros recursos desenvolvidos pelo MAM Educativo ampliam a experiência da mostra e ajudam a colocar em evidência os conhecimentos, práticas e experiências construídos ao redor das obras.

Ao aproximar obras, instituições, práticas curatoriais e ações educativas, “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro” propõe uma reflexão sobre os caminhos percorridos pelos acervos quando entram em contato com seus públicos. Cada apresentação pode criar novas relações a partir daquilo que o visitante percebe, questiona e compartilha. O próprio título da exposição brinca com essa relação entre olhar e perceber. Entre “mirar” e “ver”, a mostra abre espaço para diferentes experiências diante das obras e dos ambientes que passam a fazer parte do percurso.


Serviço
Exposição: “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”

Local: Sesc Bom Retiro
Curadoria: Valquíria Prates e Mirela Estelles
Período expositivo: até dia 27 de setembro de 2026
Horários: terça a sexta, das 9h às 20h; sábado, das 10h às 20h; domingo e feriado, das 10h às 18h
Local: Espaço Expositivo
Classificação: livre
Endereço: Alameda Nothmann, 185 - Campos Elíseos / São Paulo
Entrada: gratuita

domingo, 20 de setembro de 2026

.: Documentário recupera a trajetória de Éder Jofre em sessão com debate


Documentário de Ugo Giorgetti revisita a carreira do maior boxeador brasileiro de todos os tempos em exibição gratuita seguida de bate-papo com o diretor. Foto: divulgação

O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo realiza, no dia 24 de setembro, mais uma edição do Doc.MIS, desta vez dedicada a “Quebrando a Cara”, documentário dirigido por Ugo Giorgetti que acompanha a trajetória de Éder Jofre, nome fundamental do boxe brasileiro e duas vezes campeão mundial, nas categorias peso galo e peso pena. Depois da sessão, o diretor do filme participa de um bate-papo com o público, mediado por Liniane Haag Brum. A conversa amplia a experiência da exibição e coloca em discussão a construção do documentário e a trajetória de Éder Jofre, personagem cuja história esportiva se mistura à própria memória paulistana.

Lançado em 1986, o filme combina registros de algumas das principais lutas do pugilista com depoimentos de familiares e pessoas próximas, recuperando também a relação das famílias Zumbano e Jofre com a história do esporte em São Paulo. O resultado é um retrato que vai além do ringue para observar as relações, as dificuldades e o ambiente social que cercava um dos grandes ídolos do boxe nacional.

Sobre o documentário
A trajetória do boxeador Éder Jofre, duas vezes campeão mundial, se entrelaça à história das famílias Zumbano e Jofre e à própria cidade de São Paulo. Entre depoimentos de familiares, lembranças e registros de algumas das principais lutas de Éder, "Quebrando a Cara" revisita as origens de um dos maiores nomes do boxe brasileiro e revela o universo social e afetivo que se formou ao redor dos ringues paulistanos. A produção acompanha as conquistas esportivas sem deixar de lado a luta, a persistência e o desejo de vencer diante das dificuldades enfrentadas pelos personagens.


Sobre o convidado
Ugo Giorgetti  é cineasta, roteirista e cronista. Iniciou a carreira na publicidade e, a partir dos anos 1970, passou a se dedicar ao cinema, realizando documentários e filmes de ficção. Sua filmografia mantém uma relação particular com São Paulo, seus espaços, personagens e transformações sociais. Entre seus principais trabalhos estão “Quebrando a Cara” (1986), “Festa” (1989), vencedor do Festival de Gramado, “Sábado” (1995), “Boleiros - Era Uma Vez o Futebol” (1998), “Uma Outra Cidade” (2000), “O Príncipe” (2002), “Cara ou Coroa” (2012) e “Uma Noite em Sampa” (2015). Também atuou como cronista de futebol no jornal O Estado de S. Paulo. Em 2024, Giorgetti recebeu o Prêmio FCW de Cultura pelo conjunto de sua trajetória. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira cinematográfica, dirigiu 22 obras. A mais recente é o documentário “Alberto Dines – Vínculos de liberdade”, lançado em 2026.

Sobre a mediadora
Liniane Haag Brum, nascida em Porto Alegre, é escritora e pesquisadora. É autora de “Antes do passado – o silêncio que vem do Araguaia” (Arquipélago), entre outros trabalhos. Doutora em teoria e história literária pela Unicamp, mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e graduada em comunicação social pela PUC-RS, atualmente dedica-se à divulgação científica e cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp.

Serviço | Doc.MIS – “Quebrando a Cara”
Dia 24 de setembro, às 19h00.
Auditório MIS (168 lugares).
Ingresso: gratuito. Retirada com uma hora de antecedência na bilheteria física do museu.
Classificação: 10 anos.
A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac.
O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

.: "Viva, Vida!" retorna a São Paulo: afinal, que horas ela volta?


Por Eduardo Caetano, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Airó Nascimento e Identidade Visual

Regina Casé, musa de Caetano Veloso, para quem ele compôs a música “Rapte-me, Camaleoa” está novamente em cartaz com o espetáculo “Viva! Vida!”, em São Paulo. O solo escrito por Estêvão Ciavatta e dirigido por Daniela Thomas  traz Regina transbordando todo o seu talento enquanto apresenta a biografia da Terra. O DNA do Planeta é surpreendente, mas não tanto quanto a capacidade camaleônica de Regina em nos contar esta trajetória fascinante. O sucesso da primeira temporada, entre julho e agosto, foi tão estrondoso que o público repetia em coro: “Que horas ela volta?”.

Não demorou muito. Novas plateias paulistas poderão apreciar o espetáculo de quinta a domingo, até dia 20 de setembro, no Teatro Sérgio Cardoso. De quinta-feira a sábado, Regina sobe aos palcos às 20h00. Já aos domingos, o “Vida, Vida!” começa mais cedo, às 17h00. Recentemente, fui a São Paulo assistir ao espetáculo. Confesso que foi um "Programa Legal". Havia uma "Muvuca" na entrada do Teatro Sérgio Cardoso, todos ansiosos, mas talvez não tanto quanto eu. Fã da Regina desde muito criança, dos tempos de "TV Pirata", confesso que não estou nada seguro para escrever sobre este solo, mas vou atender ao pedido (e apelo) do meu grande amigo Helder Moraes Miranda para o Portal Resenhando.com.

Na plateia imensa e lotada, eu era pequenininho. Tipo um Plutão. E ela, no palco, gigante diante da Terra, brincava com aquela bolinha azul como se fosse Michael Jordan. Regina, que no latim significa rainha, reina diante do público e faz toda a galáxia gravitar ao seu redor. Poeira de estrelas que somos, Regina resgata a nossa condição galáctica ao mesmo que nos lembra do nosso parentesco com o outro, as samambaias e as baratas.

A jornada da vida na Terra tem milhões de anos e o Planeta outros tantos bilhões de existência. Atravessa do Sagrado ao científico. Vai da imensidão da floresta ao pé de boldo no quintal. Do cosmos ao toque do celular. Da teia de aranha ao colo de Nossa Senhora protegendo o Menino Jesus na fuga para o Egito. E cabe numa única célula. Literalmente, Regina tem o Mundo em suas mãos e nos faz repensar sobre as mãos que governam o mundo.

Atriz, diretora, mulher, mãe, apresentadora, avó, esposa, roteirista e onça, a camaleoa interage com a plateia emprestando às árvores o seu protagonismo. Da genealogia de Adevic, Ademar e Adejar, carioca da gema, soteropolitana por mérito e pernambucana legitimada pela lei, Regina é múltipla. Emociona e arranca gargalhadas com a mesma intensidade. Aborda a rotina, o algoritmo, o tomate do nhoque, o candomblé, os yanomamis e as cianobactérias. Vai do profano e ao Sagrado num piscar de olhos, costurando os temas, que nem vagonite.

Regina faz das notificações do WhatasApp e do toque do celular seus aliados, enquanto nos alerta sobre a urgência de uma sociedade sustentável. Com o aquecimento global, o Planeta Esquenta! Mas não do jeito que a gente gosta e merece. Mudança climática não é praia. É enchente. É deserto! Por isso, a importância de tratarmos a Terra com Amor de Mãe.

Enquanto a Terra é gerada no ventre da sobrinha da Tia Julinha, refletimos sobre a potência da vida. Camaleoa, diante de nós Regina é o Sol. E para relembrar a capacidade de reinvenção da Mãe Natureza, a onça nos dá uma aula sobre fotossíntese utilizando o seu farol em verso, caetaneando: “Luz do sol/ Que a folha traga e traduz/ Em verde novo/ Em folha, em graça, em vida, em força, em luz”. Caetano que também sou, fui raptado.

Ficha técnica e serviço
Espetáculo “Viva! Vida!”

Elenco: Regina Casé
Roteiro: Estêvão Ciavatta
Direção: Daniela Thomas
Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153 – Bela Vista – São Paulo – SP)
Até dia 20 de setembro
Quinta-feira a sábado, às 20h00. Domingos, às 17h00.

sábado, 12 de setembro de 2026

.: Vladimir Brichta em “O Menor Palco do Mundo” leva a paternidade ao teatro


“O Menor Palco do Mundo”, primeiro solo de Vladimir Brichta, transforma cartas, histórias e imaginação em uma reflexão sobre paternidade, distância, afeto e reconstrução dos vínculos. Foto: Julia Mataruna

Histórias carregam valores, aproximam pessoas e podem servir de abrigo quando a vida aperta. Em “O Menor Palco do Mundo”, primeiro espetáculo solo de Vladimir Brichta, contar histórias ganha outro peso: torna-se uma maneira de enfrentar a distância e manter vivos os vínculos entre um pai e seus filhos. A temporada de estreia acontece no Teatro Vivo, em São Paulo, de 10 a 31 de outubro, com apresentações às sextas e aos sábados, às 20h00, e aos domingos, às 18h00. Inspirado na história real do premiado autor australiano Kim Crotty, o espetáculo tem dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli, direção de Luiz Felipe Reis e idealização de Aura Cunha e Paula Picarelli.

A história acompanha Crotty, um pai que, depois de cometer um erro e ser preso, procura uma maneira de continuar presente na vida dos filhos. Dentro da prisão, começa a inventar histórias e enviá-las às crianças por cartas. O gesto, nascido de uma situação limite, encontra na imaginação uma possibilidade de aproximação. Entre palavras, personagens e fantasia, ele tenta diminuir a distância e reconstruir a relação com os filhos. As idealizadoras Aura Cunha e Paula Picarelli contam que há algum tempo estava procurando um texto que tivessem vontade de montar, até que a Paula leu uma matéria sobre a obra de Kim Crotty. 

Para Vladimir Brichta, a montagem também encontrou ecos em experiências pessoais e familiares. Primeiro espetáculo solo do ator, “O Menor Palco do Mundo” chega ao Brasil carregado de uma história australiana, mas encontra uma ponte em sentimentos que não precisam de tradução. “Tem coisas que só arte é capaz, como encurtar os espaços via afetos. Estive minha vida toda do outro lado do mundo dos australianos, imaginando, assistindo, vendo de sua cultura. Tive uma filha que visitou o país e sonhei em ter a mesma sorte um dia. Fui aconselhado pela minha agente a não estimular os filhos a irem viver na Austrália. Os filhos dela viveram lá e um deles casou e morou durante anos, para sofrimento dela por conta da saudade e da distância. Eis que já reverberava aí a peça de Kim Crotty, a nossa peça”.

“Fui tocado de imediato pela premissa do espetáculo, um homem, um pai, que comete um erro e precisa pagar por ele. Mas o preço não contabilizado é a distância dos filhos que tanto ama e também uma reflexão profunda sobre paternidade e amor, sob o signo da dor da distância, mas também do lúdico do diálogo e da conexão com nossos filhos quando pequenos”, completa o ator. “Um relato tão pessoal e comovente como o de Kim só faria sentido aqui, do outro lado do mundo, se também permeado por alguma pessoalidade de quem a conta, com as particularidades de se viver no Brasil. Estou muito feliz de trazer aos palcos um relato tão afetivo de Kim Crotty e igualmente feliz de diminuir a distância geográfica em nome de algo universal como amor e paternidade”, finaliza ele.

Luiz Felipe Reis, responsável pela direção e pela dramaturgia ao lado de Paula Picarelli, vê no título da peça uma imagem ligada ao espaço íntimo onde cada pessoa guarda suas experiências, lembranças e conflitos. O diretor conta que “O Menor Palco do Mundo” é, para mim, aquilo que todo humano carrega em si, em seu corpo e subjetividade, desde tempos imemoriais: este nosso pequeno palco-teatro interior, repleto de vísceras, pensamentos e emoções, em que buscamos metabolizar e elaborar o que vivemos nesse imensurável teatro da vida em que estamos imersos, com todos os seus mistérios e revelações, assombro e encantamento”.

“A peça é, por tudo isso, um conjunto de elaborações que ocorre a partir de um improvável encontro cênico entre um autor australiano e um ator brasileiro. Pais que precisam lidar, por diferentes razões, com a distância em relação a seus filhos, e a partir daí enfrentam a própria solidão, isolamento, a saudade, o vazio, a fragilidade e a impotência diante de acontecimentos menores ou maiores, até o ponto inevitável, sem escape, em que precisam olhar e adentrar o teatro das suas próprias vidas, olhar sem desvios pras suas próprias histórias, escolhas e crenças em busca, quem sabe, de uma possível transformação”, conclui Luiz Felipe Reis.

A montagem também olha para os modelos de masculinidade transmitidos entre gerações. Histórias de heróis, aventuras e provas de coragem apresentadas aos meninos desde a infância ajudam a construir uma ideia de homem associada à força e à resistência. A peça abre espaço para sentimentos que costumam ficar fora desse repertório, como medo, fragilidade e afeto. O espetáculo original, “The Smallest Stage”, de Kim Crotty, foi produzido pelo BREC, coproduzido pelo Festival de Perth e vencedor da categoria de Melhor Produção de Palco Principal no Performing Arts WA Awards (PAWA Awards), em 2023.


Ficha técnica
Espetáculo "O Menor Palco do Mundo"
Elenco: Vladimir Brichta. Texto: Kim Crotty. Dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Paula Picarelli (a partir do texto de Kim Crotty). Direção: Luiz Felipe Reis. Iluminação: Beto Bruel. Cenografia: Marisa Bentivegna. Trilha Sonora: Felipe Habib. Figurino: Theodoro Cochrane. Trabalho Corporal: Toni Rodrigues. Assistente de iluminação: Sarah Salgado. Assistente de direção e de produção (RJ): Julia Lund. Tradução: Aline Filócomo. Identidade visual e projeto gráfico: Guilherme Falcão. Fotos: Julia Mataruna. Assessoria de Imprensa: Pombo Correio. Produção executiva: Vini Silveira e Yumi Ogino. Idealização e diireção de produção: Aura Cunha (Elephante Produções) e Paula Picarelli (Frey Produções). Realização: Cachalote Produções.

Serviço
“O Menor Palco do Mundo”, com Vladimir Brichta
Temporada: 10 a 31 de outubro de 2026. Horários: sextas e sábados, às 20h00; domingos, às 18h00
Teatro Vivo | Av. Chucri Zaidan, 2460 - Morumbi / São Paulo. Ingressos: R$ 150,00 (inteira), R$ 75,00 (meia-entrada), R$ 50,00 (ingressos populares - inteira) e R$ 25 (ingressos populares - meia-entrada). Vendas on-line: https://bileto.sympla.com.br/event/126035/d/409541/s/2668902. Bilheteria: (11) 3430-1524. Horário de funcionamento da bilheteria: duas horas antes da apresentação. Duração: 80 minutos. Classificação: 14 anos. Capacidade: 274 lugares. Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida. Sessões com interpretação em Libras e Audiodescrição nos dias 10, 11, 16, 17, 18, 23, 24, 30 e 31. Estacionamento no local: entrada pela Av. Roque Petroni Jr, 1464. Valor R$ 30. Funcionamento 2h antes da apresentação e até 30 minutos após a sessão. A temporada de 10 a 31 de outubro será realizada através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura e conta com o patrocínio da Vivo.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

.: "Um Homem com Uma Câmera" ganha vida com trilha sonora ao vivo no MIS


Clássico de Dziga Vertov será exibido pelo Cinematographo em sessão com acompanhamento do pianista e compositor Anselmo Mancini. Foto: divulgação


O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo resgata a experiência das antigas sessões de cinema no dia 13 de setembro, quando o programa Cinematographo apresenta "Um Homem com Uma Câmera", clássico documentário dirigido por Dziga Vertov em 1929. A sessão terá trilha sonora executada ao vivo pelo pianista e compositor Anselmo Mancini, que recriará musicalmente a atmosfera da produção soviética. Considerado um dos grandes documentários da história do cinema, o filme acompanha 24 horas na vida dos moradores de uma cidade grande. Do amanhecer ao anoitecer, um cinegrafista percorre diferentes espaços com a câmera no ombro e registra o movimento urbano, o trabalho, o lazer e a rotina cotidiana.

A proposta de Vertov revolucionou a linguagem documental ao transformar a própria câmera em personagem e explorar possibilidades de montagem, ritmo e enquadramento. Quase um século depois, o filme ganha uma nova camada de experiência no MIS com a música criada e executada ao vivo por Mancini. Os ingressos custam R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia-entrada) e podem ser adquiridos pela plataforma Megapass ou na bilheteria física do MIS.

A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac. O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual. 


Sobre o convidado
Anselmo Mancini
é doutor e mestre em audiovisual e bacharel em composição musical pela Universidade de São Paulo (USP). Com mais de 24 anos de trajetória profissional, atua como compositor e pesquisador, reunindo experiência em diferentes áreas relacionadas à música e ao audiovisual. Mancini ministra cursos, oficinas e workshops sobre trilha sonora em instituições como o Centro de Pesquisa e Formação do SESC, as Oficinas Culturais do Estado de São Paulo e a Academia Internacional de Cinema. Também participa como palestrante convidado e integra bancas de trabalhos de conclusão de curso e defesas de mestrado nos departamentos de Música, Audiovisual e Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP) e da FMU-FIAM-FAAM.

Sobre o Cinematographo
O Cinematographo é um programa mensal do MIS dedicado a recuperar o clima das antigas sessões de cinema, com um detalhe que muda completamente a experiência: músicos convidados criam e executam a trilha sonora ao vivo durante a exibição. A cada edição, filmes de diferentes períodos ganham acompanhamento musical pensado para a sessão, aproximando cinema e música em uma experiência que transforma a relação do público com a obra.

Serviço | Cinematographo – "Um Homem com Uma Câmera"
Domingo, dia 13 de setembro, às 15h00
Auditório MIS (168 lugares)
Ingresso: R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Ingressos disponíveis na plataforma Megapass e na bilheteria do MIS
Classificação: 14 anos

.: Filho transforma pai conservador em drag queen para exposição "Querido Pai"


Artista transforma o próprio pai, um homem conservador do interior do Paraná, em drag queen para investigar homofobia, masculinidade, memória e afeto familiar

O que pode acontecer quando um filho gay convida o próprio pai, um homem do campo, de origem humilde e criado em um ambiente conservador, a experimentar o universo drag? Para o artista brasileiro Danilo Zocatelli Cesco, a resposta virou a exposição "Querido Pai", série fotográfica com curadoria de Renato Negrão que coloca a relação entre pai e filho no centro de uma investigação sobre masculinidade, memória, identidade queer e afeto. Radicado em Londres, onde concluiu o mestrado em fotografia pelo Royal College of Art, Zocatelli retorna ao Brasil para apresentar o trabalho na galeria de arte O Jardim, em São Paulo. A abertura acontece no dia 12 de setembro, com curadoria de Renato Negrão e performances das artistas queers PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias.

Nascido em 1989 e criado em Marialva, no Paraná, Danilo cresceu em um ambiente rural no qual a masculinidade também funcionava como uma espécie de código de pertencimento. Jogar futebol, trabalhar na terra, dirigir tratores, frequentar a igreja e participar das atividades da comunidade faziam parte do repertório esperado de um menino. Para ele, essas experiências serviam como lembretes de um universo masculino ao qual sentia não pertencer.

Ao se reconhecer como queer e encontrar na comunidade drag uma possibilidade de expressão e pertencimento, o artista enxergou nessa linguagem uma ponte possível com o pai. Em vez de explicar sua identidade por meio de uma conversa, propôs que o pai experimentasse fisicamente aquele universo. Diante da câmera, aplicou maquiagem em seu rosto e colocou uma grande peruca, criando uma personagem drag a partir do homem que, em sua memória, representava parte das estruturas de masculinidade das quais havia tentado escapar. “Não se trata de uma tentativa de transformar meu pai em outra pessoa, porque eu aprendi a amá-lo e entendê-lo como ele é. Eu só quiz mostrar a ele como pertenço ao mundo e como me sinto”, conta Danilo.

As fotografias nascem de uma carta escrita pelo artista ao pai. Os trechos da correspondência dão nome às imagens e transformam a série em uma narrativa construída a partir de lembranças pessoais. Entre elas estão o medo de decepcionar o pai e a experiência de crescer ouvindo uma palavra usada de maneira pejorativa para se referir a homens gays. Também aparece na carta uma lembrança decisiva. Aos 17 anos, depois que sua mãe contou ao pai que ele havia se assumido gay, Danilo ouviu dele, pela primeira vez, que era amado.

A história familiar ganhou alcance internacional e levou "Querido Pai" a instituições e festivais dedicados à fotografia contemporânea. A série foi apresentada nos Rencontres d’Arles, na França; na Saatchi Gallery e no Institute of Contemporary Arts (ICA), em Londres; na Embaixada do México em Londres; na Embaixada Britânica em São Francisco; e no PhotoBrussels Festival, na Bélgica. O projeto também foi selecionado para o New Contemporaries, iniciativa britânica que há mais de 70 anos destaca artistas emergentes. Em 2025, integrou ainda a seleção do Dior Photography and Visual Arts Award for Young Talents, apresentado na Luma, em Arles, e posteriormente na Suíça.

A abertura em São Paulo amplia a proposta da exposição com performances de PAVUNAGATOPRETO e Anuby Messias, escolhidas por meio de uma convocatória pública da galeria. Multiartista, cantora, cineasta e performer, Anuby Messias é uma mulher trans e negra criada na periferia de Guarulhos. Seu trabalho reúne audiovisual, música, performance, transgeneridade e negritude. Entre seus projetos está "Ira — A Travesti na Escravidão", que estabelece uma reflexão sobre identidade negra e trans a partir da história de Xica Manicongo, reconhecida como a primeira travesti do Brasil. A participação de PAVUNAGATOPRETO completa a programação da abertura e aproxima "Querido Pai" de uma cena contemporânea de performance que utiliza o corpo como espaço de expressão, provocação e resistência.

Sobre o artista
Nascido em 1989, Danilo Zocatelli Cesco é artista brasileiro radicado em Londres. A prática dele investiga identidade, memória e experiências humanas por meio de storytelling, livros de artista, fotografia sem câmera, vídeo, som e escultura. Os trabalhos dele abordam temas como enfermidade, sistema prisional, crimes de ódio, resiliência queer e reconexões familiares. É mestre em fotografia pelo Royal College of Art (2024) e teve trabalhos apresentados em instituições e exposições no Reino Unido, França, Estados Unidos e outros países.


Serviço
Exposição "Querido Pai", de Danilo Zocatelli

Curador: Renato Negrão
Local: O Jardim, galeria de arte
Endereço: Rua Ilansa, 185, Mooca – São Paulo/SP
Abertura: 12 de setembro, das 15h00 às 20h00
Período de visitação: 12 de setembro a 17 de outubro
Abertura com performances de: Anuby Messias e PAVUNAGATOPRETO

terça-feira, 8 de setembro de 2026

.: “Sobre Poetas e Heresias” leva poesia, humor e ironia ao Sesc Pinheiros


Espetáculo com Jairo Mattos e direção de Carlo Milani aproxima Fernando Pessoa, Padre Antônio Vieira e outros autores em uma montagem que transforma literatura em jogo cênico. Foto: Adriano Escanhuela

A literatura ganha ritmo, humor e provocação em “Sobre Poetas e Heresias”, espetáculo protagonizado por Jairo Mattos e dirigido por Carlo Milani, em cartaz até dia 12 de setembro - de quinta a sábado, às 20h30; no dia 11 de setembro, também às 16h00 - , no auditório do Sesc Pinheiros, em São Paulo. A montagem reúne textos de Padre Antônio Vieira, José Régio, Fernando Pessoa e Wislawa Szymborska para criar um encontro entre poesia, pensamento e comicidade.

Em cena, Mattos interpreta um bufão contemporâneo que assume a função de mestre de cerimônias e comentarista. Diante do público, ele revisita versos, pensamentos e discursos de diferentes épocas, conduzindo a narrativa com ironia e questionamentos. Sermões e poemas ganham novas possibilidades ao serem transformados em ações cênicas, comentários e situações marcadas pelo humor. A dramaturgia, alinhavada por Aloysio Burtin, coloca lado a lado autores de períodos e contextos distintos para abordar temas como poder, fé, amor e ódio. A palavra ocupa o centro da montagem e serve como ponto de partida para um diálogo entre diferentes vozes da literatura.

“Escolhi o bufão porque ele não oferece respostas; ao contrário. Ri das certezas, desmonta discursos e convida o público a olhar o mundo por outro ângulo. Os poetas presentes também são hereges à sua maneira: recusaram aceitar o mundo como algo pronto e fizeram da poesia um ato de liberdade”, afirma Jairo Mattos.

O espetáculo também marca o reencontro artístico entre Mattos e Milani. A parceria entre ator e diretor parte da ideia de transformar a palavra em ação e estabelecer uma relação próxima com a plateia. A direção trabalha com diferentes ritmos para alternar a intimidade dos sermões, a dimensão poética dos textos e as provocações do bufão. O resultado é uma montagem que aproxima obras literárias do público por meio de uma encenação direta e bem-humorada. Entre citações, comentários e invenções, “Sobre Poetas e Heresias” convida a pensar sobre as certezas que atravessam a vida em sociedade sem abrir mão do prazer de rir delas.


Ficha técnica
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Direção: Carlo Milani
Atuação: Jairo Mattos
Figurino: Luiza Curvo
Maquiagem: Beto França
Texto, luz e cenário: Jairo Mattos
Operador de Luz: Bruno Gutierres
Fotografia: Adriano Escanhuela
Direção de produção: Lilia Ladislau e Jorge Moreira
Consultoria: Adolfo Mazzarini
Produção: Orapronobis Produções Culturais


Serviço
Peça teatral "Sobre Poetas e Heresias"
Temporada: até dia 12 de setembro de 2026. De quinta a sábado, às 20h30. No dia 11 de setembro, também às 16h00.
Sessões com LIBRAS: 4 e 5 de setembro
Local: Sesc Pinheiros – Auditório – Rua Paes Leme, 195, Pinheiros, São Paulo, SP
Ingressos: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 15,00 (credencial plena)
Vendas: sescsp.org.br ou nas bilheterias das unidades do Sesc SP
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos
Acessibilidade: auditório acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida.
Sesc Pinheiros | Rua Paes Leme, 195, Pinheiros – São Paulo/SP.
Horário de funcionamento: terça a sexta, das 10h00 às 22h00; sábados, das 10h00 às 21h00; domingos e feriados, das 10h00 às 18h30.
Estacionamento: com manobrista.
Como chegar de transporte público: 350 metros a pé da Estação Faria Lima (Metrô – Linha Amarela), 350 metros a pé da Estação Pinheiros (CPTM – Linha Esmeralda) e do Terminal Municipal Pinheiros (ônibus).
Acessibilidade: a unidade possui rampas de acesso e elevadores, além de banheiros e vestiários acessíveis para pessoas com mobilidade reduzida. Também conta com espaços reservados para cadeirantes.

.: “Nós, Ursos” leva ao teatro um amor que amadureceu em segredo


Espetáculo dirigido por André Corrêa adapta romance de Gilvan Azevedo e coloca em cena dois homens maduros diante das escolhas que fizeram — e das que ainda desejam fazer. Foto: Daniela Ferreira

O que acontece quando a vida construída durante décadas começa a pedir uma revisão de roteiro? É dessa inquietação que parte “Nós, Ursos”, espetáculo que chega ao Teatro Commune, em São Paulo, com direção de André Corrêa e adaptação teatral assinada pelo escritor Gilvan Azevedo. A montagem, que segue em cartaz até dia 27 no Teatro Commune, reúne no elenco o próprio autor e Mauricio Constantino, seu marido e parceiro na criação da Cia. Salor. O espetáculo adapta o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, obra que conquistou leitores ao tratar de amor, identidade e reinvenção na maturidade. As apresentações acontecem aos sábados e domingos, às 20h00.

Em cena, Saulo e Rodney são dois homens maduros que passaram boa parte da vida seguindo os caminhos que pareciam previamente traçados. Pais de família, profissionais estabelecidos e acostumados a atender às expectativas alheias, eles se conhecem quando já carregam no currículo afetivo uma boa coleção de responsabilidades, escolhas e renúncias. A aproximação começa entre mensagens, viagens e encontros escondidos. Aos poucos, a relação ganha espaço e se transforma em algo difícil de manter nos bastidores. O romance passa então a conviver com afastamentos, conflitos internos, pressões familiares e as pequenas vitórias de quem decide, finalmente, olhar para a própria vida com outros olhos.

Misturando humor, drama e poesia, “Nós, Ursos” aborda amor, paternidade, masculinidades, liberdade, envelhecimento, desejo e reinvenção na vida adulta. A montagem também coloca em evidência relações LGBTQIA+ maduras, tema ainda pouco explorado pela dramaturgia brasileira contemporânea. Gilvan Azevedo, além de adaptar o romance, interpreta um dos protagonistas ao lado de Mauricio Constantino. A passagem da literatura para o palco nasceu da vontade de investigar o que o teatro poderia acrescentar à história.

"O teatro tem a capacidade de tornar visíveis conflitos que, no romance, acontecem dentro dos personagens. A adaptação não surgiu do desejo de ilustrar o livro, mas de explorar aquilo que o palco pode revelar de maneira única", afirma Gilvan Azevedo. Na direção, André Corrêa concentra a encenação nas relações entre os personagens e na passagem do tempo. A proposta combina interpretação, projeções e desenho de som, mantendo os atores e os vínculos estabelecidos entre eles no centro da narrativa.

"Vejo 'Nós, Ursos' como uma história sobre pessoas que chegam a um determinado momento da vida e precisam lidar com escolhas feitas, caminhos abandonados e possibilidades que ainda permanecem abertas. Buscamos uma encenação simples, focada nos atores e nos vínculos que eles constroem, combinando interpretação, projeções e desenho de som para ampliar a experiência emocional do público", afirma o diretor. O título da peça remete à cultura bear, surgida nos Estados Unidos na década de 1980 e difundida no Brasil a partir dos anos 1990.

Na comunidade LGBTQIA+, "urso" identifica homens gays ou bissexuais associados a corpos robustos, pelos e barbas. A expressão também carrega ideias de acolhimento, autenticidade e pertencimento. A referência serve de ponto de partida para ampliar a conversa sobre corpos, afetos e diferentes formas de masculinidade, longe de caricaturas e estereótipos. "A peça apresenta dois homens gays, mas não pretende transformar a sexualidade no único eixo de leitura desses personagens. Eles também são filhos, pais, profissionais, amigos, pessoas tentando conciliar expectativas externas e necessidades internas", afirma Gilvan Azevedo.

O escritor vê na trajetória de Saulo e Rodney uma história capaz de conversar com questões que vão muito além da experiência específica dos protagonistas. "Por isso, embora a história parta de uma experiência específica, acredito que ela dialoga com qualquer pessoa que já tenha se perguntado se a vida que construiu corresponde à vida que deseja viver”. Publicado inicialmente no Brasil e posteriormente lançado em inglês com o título “We Were Bears and Didn't Know”, o romance reúne leitores interessados em temas como identidade, afeto, corpo, pertencimento e as possibilidades que surgem depois dos 40 anos.

A adaptação marca, portanto, uma nova etapa para uma história que nasceu nas páginas de um livro e agora ganha corpo, voz e presença no palco. Porque algumas histórias de amor podem até demorar para começar. O problema é convencer o coração de que ele deveria continuar esperando. “Nós, Ursos” é uma produção da Cia. Salor, criada por Gilvan Azevedo e Mauricio Constantino a partir da experiência da Editora Salor. A companhia desenvolve projetos que aproximam literatura, teatro e outras linguagens artísticas.

“Éramos Ursos e Não Sabíamos” transforma crise de identidade em romance sobre liberdade
Publicado em 2024, o romance “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, acompanha dois homens maduros inseridos no universo corporativo de São Paulo e diante de uma pergunta que costuma chegar sem convite: e se a vida que deu certo para todo mundo estiver errada para quem a vive?

Rodney é um executivo bem-sucedido, mas enfrenta um casamento desgastado e desejos que permanecem escondidos. A rotina ganha outro contorno quando ele conhece Paulo, também executivo e marcado por uma formação familiar conservadora. A aproximação entre os dois provoca uma sucessão de questionamentos sobre identidade, desejo, autonomia e as escolhas feitas ao longo da vida.

Com 213 páginas, o livro combina romance, conflitos familiares, discussões filosóficas e situações do cotidiano para acompanhar personagens que precisam decidir entre a segurança de uma existência conhecida e os riscos de uma vida mais autêntica. O título faz referência à cultura bear e à descoberta tardia de uma identidade que esteve ali o tempo todo, ainda que os próprios personagens não soubessem reconhecê-la.

A obra, que deu origem ao espetáculo “Nós, Ursos”, também propõe uma reflexão sobre o envelhecimento e as possibilidades de recomeço depois dos 40. Afinal, amadurecer pode trazer rugas, boletos e algumas certezas — mas também a coragem de descobrir que ainda há tempo para mudar o roteiro. Compre o livro “Éramos Ursos e Não Sabíamos”, de Gilvan Azevedo, neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Nós, Ursos"

Direção: André Corrêa. Texto e adaptação teatral: Gilvan Azevedo. Elenco: Mauricio Constantino e Gilvan Azevedo. Produção: Cia. Salor. Figurinos e preparação corporal: Lu Castro. Desenho de iluminação: Rodrigo Pivetti. Desenho de som e projeções: Giba. Coordenação de produção: Lu Castro. Assistência de produção: Diogo Castro. Assessoria de imprensa: Adriana Balsanelli. Design gráfico: Werner Schultz. Fotos e filmagens: Daniela Ferreira. Realização: Cia. Salor. Apoios: Carne Fresca Clothing, Planeta’s Restaurante, Cantina Luna di Capri, Piolin, Instituto Marcio Kozonara e ABC Bailão.


Serviço
Espetáculo “Nós, Ursos”
Temporada: de 8 de agosto a 27 de setembro de 2026. Sessões: sábados e domingos, às 20h00. Classificação indicativa: 16 anos. Duração: 70 minutos. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) e R$ 50,00 (meia-entrada). Vendas: Sympla - https://www.sympla.com.br/evento/nos-ursos/3453018. Teatro Commune |  Rua da Consolação, 1218, Consolação / São Paulo. Próximo à estação Higienópolis-Mackenzie.

sábado, 5 de setembro de 2026

.: “Nefelibato” retorna a São Paulo e coloca a loucura diante do espelho


Monólogo de Regiana Antonini, estrelado por Luiz Machado, investiga os limites entre lucidez e loucura e volta ao Teatro B32 para temporada de 4 a 27 de setembro.  Foto: Claudia Ribeiro

Um homem, um carrinho e um mundo inteiro para carregar. É assim que Anderson, personagem central de “Nefelibato”, monólogo escrito por Regiana Antonini, chega ao palco na interpretação de Luiz Machado. Com direção de Fernando Philbert e supervisão artística de Amir Haddad, o espetáculo retorna a São Paulo para uma curta temporada no Teatro B32, até dia 27 de setembro. A montagem, que já passou por temporadas no Rio de Janeiro e em São Paulo, chega à sexta temporada carregando uma história que nasceu nos anos 1990, período marcado pelo confisco das reservas financeiras da população pelo governo, mas que encontra ecos incômodos no Brasil de hoje.

A medida econômica mergulhou milhares de brasileiros em desespero e levou muitos à bancarrota. Anderson foi um deles. Perdeu o negócio, uma pessoa querida, um grande amor e, depois de tudo isso, acabou nas ruas. Entre a realidade e a imaginação, passa a perambular carregando consigo aquilo que restou de seu mundo. É nesse território de fronteira que “Nefelibato” encontra sua força. A peça investiga o quanto de loucura pode existir como mecanismo de sobrevivência e até onde alguém consegue ir para continuar vivo. Para Anderson, a rua se transforma numa espécie de refúgio possível diante de uma existência que deixou de caber nos moldes convencionais.

“O público fica muito impactado, pois o espetáculo reflete uma realidade que tentamos fazer invisível, mas que está sempre à disposição de nossos olhos. Então, é muito interessante quando a plateia percebe que a atitude do personagem é consequência de um ato político e se aproxima ainda mais desta verdade social em que vivemos”, afirma Luiz Machado. O ator conta que se encantou pelo personagem desde o primeiro contato com o texto. "A história de Anderson me fascinou completamente, pois é um personagem que vive no limite da vida e do sonho, entre a lucidez e a loucura", conclui.

Fernando Philbert define a montagem como uma mistura de realidade, fantasia, humor e poesia, tendo como centro um personagem que carrega o próprio universo em um carrinho e, ao mesmo tempo, dentro de si. “Um fato real, que se mistura com a nuvem da fantasia, do drama, do épico, do louco, do homem, do ‘Nefelibato’ que mora na praça que cada um possui no meio do peito. O projeto ‘Nefelibato’ é um espetáculo teatral da dimensão humana que se refaz no humor, na poesia, na força, na busca por um lugar no mundo, seja o mundo real ou mundo imaginário. Este personagem que carrega seu próprio mundo em um carrinho, que tem seu próprio mundo dentro de si, vai como Dom Quixote, como Hamlet, como o capitão Ahab de “Moby Dick” à procura de sua baleia branca, em busca de enfrentar seus moinhos e demônios para ser feliz. Sim, ser feliz é o que todos queremos, este singelo momento que justifica a vida, sorrir ao acordar”, assim o diretor Fernando Philbert discorre sobre o tema da peça.

A trajetória de Anderson também coloca em cena uma pergunta incômoda: o que acontece quando a sociedade empurra alguém para fora dela e depois finge que não viu? Ao transformar a rua em escolha de sobrevivência, o personagem expõe as consequências de uma realidade social que costuma ser empurrada para debaixo do tapete. Com uma única pessoa em cena, Luiz Machado sustenta o espetáculo e transforma a instabilidade emocional do personagem em matéria teatral. A atuação foi reconhecida com indicação ao Prêmio Cenym de melhor ator e com o Prêmio Aplauso Brasil, na categoria especial de Destaque do Ano.


Ficha técnica
Espetáculo "Nefelibato"
Texto: Regiana Antonini. Supervisão artística: Amir Haddad. Direção: Fernando Philbert. Interpretação: Luiz Machado. Direção de produção: Gerardo Franco. Cenografia e figurino: Teca Fichinski. Iluminação: Vilmar Olos. Músicas: Maíra Freitas. Direção de movimento: Marina Salomon. Preparação vocal: Edi Montecchi. Design gráfico: Cláucio Sales. Assistente de direção: Alexandre David. Assistente de cenário: Juju Ribeiro. Realização: LM Produções Artísticas. Assessoria de imprensa: Adriana Monteiro.


Serviço
Espetáculo "Nefelibato"
Teatro B32 | Espaço Experimental | Avenida Brigadeiro Faria Lima, 3732, Itaim Bibi / São Paulo
Temporada: 4 a 27 de setembro, às 20h00. Domingos, às 18h00. Ingressos: R$ 100,00 (inteira) / R$ 50,00 (meia-entrada). Classificação: 14 anos. Duração: uma hora. Lotação: 70 lugares. Atenção: não é permitida a entrada após o início do espetáculo.

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