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sábado, 28 de março de 2026

.: "O Nazista e o Psiquiatra", o livro que inspirou o filme "Nuremberg"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Publicado por Jack El-Hai, o romance "O Nazista e o Psiquiatra", que inspirou o filme "Nuremberg", em cartaz na Rede Cineflix e em cinemas de todo oBrasil, mergulha em um dos episódios mais inquietantes do pós-guerra: o encontro entre o alto escalão do regime nazista e a tentativa científica de compreender a mente por trás de crimes que desafiam qualquer noção de humanidade. Inspirado nos bastidores dos julgamentos de Nuremberg, o livro publicado pela Editora Planeta articula história e psicologia para investigar uma pergunta incômoda: o mal é uma exceção ou uma possibilidade latente em todos nós?

Preso em 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, Hermann Göring foi conduzido a um centro de detenção sob controle norte-americano, em Luxemburgo. Mesmo diante da derrota, mantinha traços de ostentação e controle: carregava dezenas de malas com objetos que iam de medalhas e pedras preciosas a itens pessoais triviais, como roupas íntimas e uma bolsa de água quente. Entre esses pertences, escondia um segredo fatal - cápsulas de cianeto de potássio, guardadas em frascos de latão dentro de uma simples lata de café. O detalhe não é apenas curioso: antecipa o desfecho trágico e revela uma mente que jamais abriu mão da própria autonomia, nem mesmo diante da iminência do julgamento.

Ao seu redor, reunia-se uma galeria sombria de figuras centrais do nazismo: Karl Dönitz, Wilhelm Keitel, Alfred Jodl, Robert Ley, Hans Frank e Julius Streicher, entre outros. Cinquenta e dois prisioneiros compunham aquele microcosmo do horror recente, homens que haviam ocupado posições de poder e agora aguardavam julgamento por crimes contra a humanidade. Ainda assim, entre todos, Göring se destacava: articulado, carismático e perigosamente convincente, exercia influência até mesmo no cativeiro.

É nesse cenário que entra Douglas McGlashan Kelley, capitão do Exército dos Estados Unidos encarregado de avaliar a sanidade dos réus para que pudessem ser julgados. Ambicioso e intelectualmente instigado pelo desafio, Kelley enxergou ali uma oportunidade única: investigar se aqueles homens eram monstros fora da curva ou expressões extremas de traços humanos comuns. A missão dele, no entanto, rapidamente ultrapassa os limites da observação clínica e adentra um território ético delicado.

A convivência diária com os prisioneiros dá origem a uma relação tão fascinante quanto perturbadora. Kelley não apenas entrevista e aplica testes: ele escuta, dialoga, observa gestos, hesitações e estratégias discursivas. Aos poucos, percebe-se envolvido por uma proximidade que desafia sua própria objetividade. Contra todas as expectativas, passa a compreender e, em certa medida, a se afeiçoar a alguns daqueles homens. Nenhum deles, porém, o intriga tanto quanto Göring, cuja inteligência e habilidade retórica tensionam constantemente a linha entre lucidez e manipulação.

O que Jack El-Hai constrói, com base em documentos inéditos e registros médicos, não é apenas uma narrativa histórica, mas um estudo inquietante sobre os limites da empatia. O livro expõe o risco de se aproximar demais do objeto de análise, sobretudo quando esse objeto é o próprio mal em forma humana. Ao iluminar essa relação ambígua entre médico e paciente, ciência e fascínio, razão e sedução, a obra convida o leitor a encarar uma hipótese desconfortável: a de que a crueldade não pertence apenas aos outros: pode ser compreendida, racionalizada e, em certos contextos, até normalizada. Com isso, o livro propõe uma reflexão urgente sobre responsabilidade, consciência e os mecanismos psicológicos que permitem que indivíduos comuns participem de sistemas extraordinariamente violentos. Compre o livro "O Nazista e o Psiquiatra", de Jack El-Hai, neste link.


Ficha técnica
"Nuremberg" (título original)
Gênero: drama histórico, thriller psicológico.
Duração: 2h28min.
Classificação indicativa: 16 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: inglês.
Direção: James Vanderbilt.
Roteiro: James Vanderbilt e Jack El-Hai.
Elenco: Russell Crowe, Rami Malek, Michael Shannon, Richard E. Grant.
Distribuição no Brasil: Diamond Filmes.
Cenas pós-créditos: não.

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"Nuremberg" no Cineflix Miramar | Santos | Sala 4
Até dia 1° de abril | Sessões no idioma original | 14h00, 17h00 e 20h00 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo 
Ingressos neste link

domingo, 15 de fevereiro de 2026

.: Renato Amado enfrenta a finitude e expõe contradições em “Nonada”


Em entrevista para o portal Resenhando.com, o autor carioca fala sobre melancolia, machismo estrutural, erotização da ausência e o salto no escuro que o levou da carreira jurídica à literatura. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com

Em um mundo hiperconectado e afetivamente exausto, Renato Amado escolheu ampliar as distâncias para falar de proximidade. Em "Nonada", publicado pela Editora Cajuína, segundo romance assinado por ele, o escritor carioca imagina uma Terra plana e mil vezes maior que a nossa para narrar a crise silenciosa de Galeano - motorista de aplicativo, ex-praticante de wingsuit e homem marcado por melancolia, desejo e contradições.

Entre telescópios que substituem o toque, diálogos de Uber que revelam microviolências cotidianas e um machismo que opera quase sem ruído, o romance combina ficção científica, existencialismo e crítica social. Mais do que contar uma história de amor à distância, Amado investiga o medo da morte, a dificuldade de sustentar vínculos profundos e a tentação permanente de adiar o desespero com doses de intensidade. Nesta entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, ele fala sobre o vazio como gesto político, a literatura como adiamento e exercício de aceitação, e o risco de viver quando já se sabe o desfecho da batalha. Compre o livro "Nonada", de Renato Amado, neste link.

Resenhando.com - Galeano observa o mundo à distância, mas evita o contato pleno. Em que medida "Nonada" sugere que o homem contemporâneo prefere o risco da imaginação ao perigo real do encontro?
Renato Amado - Galeano é deslocado em relação à realidade imediata, mas se conecta com uma mulher de outro canto do planeta. Do mesmo modo, por meio de telas damos preferência a ausentes e nos afastamos dos que estão à nossa volta. Parece que a presença assusta. Quanto mais instâncias de mediação, mais protegidos nos sentimos. E mais eficaz do que a distância, só o anonimato.


Resenhando.com - ⁠A Terra plana e descomunal do romance amplia distâncias físicas para falar de abismos emocionais. Essa distopia nasce mais do medo da tecnologia ou da incapacidade humana de sustentar vínculos profundos?
Renato Amado - 
Sem dúvida da dificuldade em sustentar vínculos profundos. A mulher do outro lado do oceano é uma fantasia: a voz não chega, o idioma é outro. Eles estabelecem traços de linguagem que permitem alguma comunicação, mas uma comunicação incompleta, com espaço para vazios preenchidos pela fantasia. Já as pessoas próximas se apresentam com seus defeitos, manias, irracionalidades, teimosias. Não é fácil se conectar em um nível mais profundo com seres tão imperfeitos. Além disso, todos carregamos abismos inomináveis que o outro não alcança, o que gera solidão. No fim das contas, somos sós em nossos universos internos, acessíveis ao outro apenas por brotamentos pontuais na fala, nos gestos, nas expressões.


Resenhando.com - Galeano não é apresentado como vilão, mas como produto de um machismo estrutural “inconsciente”. Até que ponto humanizar esse homem é um gesto crítico e até que ponto pode ser lido como complacência?
Renato Amado - 
O romance não adota um tom panfletário nem subestima a inteligência do leitor. A literatura nos dá uma oportunidade que não existe fora dela: de entrarmos na cabeça do outro. Isso amplia nossa compreensão do humano. A literatura que me interessa, portanto, humaniza qualquer tipo de personagem, pois a desumanização é necessariamente uma simplificação. E humanizar não é justificar, mas compreender processos. Galeano é um homem comum, atravessado pelo machismo estrutural como praticamente todos nós. Desumanizá-lo seria desumanizar a todos. Ele funciona como espelho: reconhecemos nele traços nossos. Ao criticar o machismo estrutural, o livro acaba por criticar também o leitor e o autor.


Resenhando.com - ⁠O telescópio permite ver, mas não tocar. Em tempos de redes sociais, aplicativos e amores espectrais, você diria que estamos vivendo uma erotização da ausência?
Renato Amado - 
O que se apresenta parece não ter mistério: está ali, na nossa frente, é aquilo e pronto. Acostumamo-nos a não perscrutar mais profundamente. Já o que está ausente é promessa, fantasia, possibilidade. Sem precisar caçar para sobreviver, o ser humano moderno - ao menos aquele incluído nos confortos da modernidade – tornou-se um grande entediado. Será que, da tela que despeja bits e bytes em todas as suas variações, não virá algo mais interessante do que a melancolia que nos cerca? Essa expectativa pelo novo e pelo surpreendente a qualquer instante na palma da mão é, sim, uma erotização da ausência. Deseja-se menos o que existe do que o que ainda não se mostrou. O presente tornou-se quase sempre insuficiente.


Resenhando.com - ⁠Os diálogos no Uber expõem um Brasil saturado de preconceitos e microviolências. Galeano escuta muito, reage pouco. O silêncio dele é forma de resistência ou mais um sintoma de acomodação masculina?
Renato Amado - 
É fruto de melancolia, de falta de energia, de desistência. Mas é também uma forma de dar voz ao leitor. A literatura deixa espaço e o leitor o ocupa. O silêncio é uma convocação.


Resenhando.com - ⁠"Nonada" é um romance curto, rarefeito, cheio de vazios. Você escreveu pensando no silêncio como escolha estética ou como limite ético diante do que não pode, ou não deve, ser explicado?
Renato Amado - 
Não deve ser explicado por escolha estética. Obras que explicam subestimam o leitor. Obras que apenas sugerem requerem sua intervenção. É nesse momento, quando o leitor precisa completar o texto, que a experiência se torna realmente marcante. Informações mastigadas podem até parecer interessantes, mas costumam se dissipar rapidamente. Já os fragmentos que tocam a emoção e exigem elaboração produzem uma experiência mais duradoura e, se intensos o bastante, passam a integrar a própria constituição psíquica de quem lê.


Resenhando.com - Há algo de paradoxal em um ex-atleta radical, habituado ao risco extremo, tornar-se um homem paralisado diante da vida afetiva. O medo da morte é menor que o medo da intimidade? 
Renato Amado - Por paradoxal que possa parecer, é por medo da morte que Galeano se tornou praticante de esportes radicais. Galeano via a morte como inimiga (só há inimigo quando há temor; não existe inimizade na indiferença) e queria mostrar que poderia vencê-la, ainda que provisoriamente. Uma forma de fazê-lo não era apenas se arriscar, mas viver intensamente: no absoluto do momento, a morte não existe. Mas ele quase foi derrotado, ao sofrer um grave acidente, e a ilusão se rompeu. A morte mostrou-se, “estou aqui, te pego a qualquer hora!”. E Galeano passou a se debater ininterruptamente com a finitude. É uma briga perdida. Se habitamos uma batalha cujo resultado desfavorável já conhecemos, e que perdurará por toda a vida, a consequência é a melancolia. Como se entregar a uma relação afetiva estando tomado pela melancolia? Se a morte cobre e esvazia tudo, nada tem sentido ou beleza. Nada conecta. Ao menos até Galeano ver, através de um telescópio, aquele olho do outro lado do planeta.


Resenhando.com - ⁠Ao trocar uma carreira estável no Direito por uma vida dedicada à literatura, você também realizou um salto no escuro. Que partes de Galeano dialogam, ainda que indiretamente, com essa decisão?

Renato Amado - Assim como Galeano tentava enganar a morte pela intensidade praticando wingsuit, eu tentei fazer o mesmo, buscando outras intensidades. A carreira no Direito não me dava vida, me dava salário. Precisei saltar no escuro, buscar a vida a 100% para enganar a morte.


Resenhando.com - ⁠O título "Nonada" sugere o “quase nada”, o resto, o intervalo. Em um mundo obcecado por performance, produtividade e respostas rápidas, escrever sobre o vazio é um gesto político?

Renato Amado - Existir e escrever, o que seja, é um gesto político, pois implica propor um modo de estar no mundo. Nesse sentido, Nonada se insere em uma das vocações mais recorrentes da arte: não oferecer respostas, mas abrir questões, sugerir possibilidades. Em um contexto obcecado por performance e produtividade, sustentar o vazio, a pausa e o intervalo, torna-se, por si só, uma forma de resistência.


Resenhando.com - ⁠Você afirma que a melhor saída diante da finitude é a aceitação. A literatura, para você, é um caminho real para essa aceitação ou apenas uma forma mais sofisticada de adiar o desespero?
Renato Amado - Faço muitas coisas para adiar o desespero. São as tais ações que buscam intensidade, que nos permitem esquecer a nossa condição por instantes, viver inteiros. Não vejo isso como algo negativo: talvez a melhor estratégia seja justamente adiar o desespero a tal ponto que a morte chegue antes de termos tido tempo para nos desesperar. Quanto à aceitação, ela é difícil, muito difícil, mas também é um caminho. A literatura pode ser ambas as coisas: adiamento e exercício de aceitação. Em Nonada, ao escrever o percurso de Galeano, que se constitui como um ser humano mais íntegro à medida que caminha em direção a uma aceitação ao menos parcial, eu buscava fazer o mesmo. Escrevi este livro para lidar com meus fantasmas, equilibrar-me. O caminho de Galeano é o meu caminho.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

.: Encontro de Leituras traz Itamar Vieira Junior debatendo "Coração Sem Medo"


Romance que encerra Trilogia da Terra será discutido com leitores do Brasil e Portugal em evento on-line e gratuito no dia 10 de fevereiro

O "Encontro de Leituras" de fevereiro recebe o escritor Itamar Vieira Junior para uma conversa sobre seu romance "Coração Sem Medo", publicado no Brasil pela editora Todavia em 2025 e em Portugal pela Dom Quixote em janeiro deste ano. O evento acontece no dia 10 de fevereiro, terça-feira, às 19h00 do Brasil (horário de Brasília) e 22h00 de Portugal, de forma on-line e gratuita, pela plataforma Zoom. O evento pode ser acessado com o ID 842 8191 4937 e a senha de acesso 835758 Para participar, basta seguir neste link. 

Itamar Vieira Junior é geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos. O autor baiano ganhou projeção com Torto Arado (Todavia, 2019), romance que recebeu o Prêmio Jabuti e o Prêmio Oceanos, além de ter sido traduzido para mais de 20 idiomas e integra a Trilogia da Terra, que conta também com a obra Salvar o fogo (Todavia, 2023). 

"Coração Sem Medo" encerra a série de livros cujas narrativas investigam as contradições da sociedade brasileira, dialogando com a memória e a história do país. A literatura de Vieira Junior se dedica a retratar questões sociais do Brasil, dando visibilidade a comunidades marginalizadas e explorando temas como desigualdade, identidade e resistência. 

Nesse volume, acompanhamos a história de Rita Preta, uma operadora de caixa de supermercado e mãe de três filhos que mora na periferia de Salvador. Sua vida é subitamente transformada quando seu filho adolescente Cid desaparece sem deixar rastros após uma abordagem policial. Na sua jornada em busca de respostas, ela enfrenta as possibilidades de perder seu emprego, seu relacionamento amoroso e até mesmo a própria vida.

O evento não é transmitido nas redes nem disponibilizado depois. É uma experiência para ser vivida por aqueles que se juntam à sessão. Os melhores momentos são publicados no podcast Encontro de Leituras, disponível no Spotify, Apple Podcasts, SoundCloud e outros aplicativos de áudio.


Sobre o Encontro de Leituras
O "Encontro de Leituras" resulta da colaboração editorial entre o jornal português PÚBLICO e a revista Quatro Cinco Um, focando em obras literárias disponibilizadas em ambos os países. O Encontro reúne leitores de língua portuguesa e discute romances, ensaios, memórias, literatura de viagem e obras de jornalismo literário na presença de um escritor, editor ou especialista convidado. 

Os encontros são gratuitos e acontecem sempre nas segundas terças-feiras de cada mês, às 19h do Brasil e 22h de Portugal. O evento não é transmitido nas redes sociais, nem disponibilizado depois. É uma experiência para ser vivida por aqueles que se juntam à sessão. Os melhores momentos são depois publicados no podcast Encontro de Leituras, disponível no Spotify, Apple Podcasts, SoundCloud ou outros aplicativos habituais. 

A parceria entre a Quatro Cinco Um e o Público conta com um espaço editorial fixo nos dois veículos e uma newsletter mensal sobre o trânsito literário e editorial entre os países de língua portuguesa. A editoria especial publica materiais jornalísticos sobre autores do Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau e Timor que tenham sido lançados dos dois lados do oceano. A newsletter mensal traz notas, curiosidades, imagens e informações sobre as novidades das livrarias e os eventos literários em Lisboa, São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades onde se fala português. De vez em quando, na programação de festivais e em outras ocasiões, eventos presenciais serão realizados. Compre o livro "Coração Sem Medo", de Itamar  Vieira Junior, neste link.


Sobre a revista Quatro Cinco Um
Publicada em edição impressa, site, newsletters, podcasts e clubes de leitura, a revista dos livros seleciona e divulga mensalmente cerca de duzentos lançamentos em mais de vinte áreas da produção editorial brasileira. Em linguagem clara, sem jargões nem hermetismo, os textos são assinados por nomes de destaque da crítica e da cultura. Tendo o pluralismo e a bibliodiversidade como nortes editoriais, a Quatro Cinco Um busca misturar em sua pauta diferentes gerações, sensibilidades e pontos de vista. 

Projetos editoriais especiais focalizam temas relevantes, tais como cidades, democracia e justiça, literatura infantojuvenil, literatura japonesa, literatura francesa, literatura israelense e livros LGBTQIA+. Desde 2019, a revista publica o 451 MHz, primeiro podcast da imprensa profissional dedicado exclusivamente a livros. Acreditamos no livro como objeto de transformação individual e coletiva, com base no princípio de que não há sociedade democrática sem ampla circulação de livros. Compre os livros de Itamar Vieira Junior neste link.


Serviço
"Encontro de Leituras" com Itamar Vieira Junior
Data: terça-feira, 10 de fevereiro
Horário: 19h00  do Brasil e 22h00 de Portugal
Modalidade: online e gratuito, via Zoom
ID: 842 8191 4937
Senha de acesso: 835758

sábado, 31 de janeiro de 2026

.: Escrevivência de Conceição Evaristo vira ópera no Theatro São Pedro


Programação terá as óperas "Orfeu no Inferno", "Don Pasquale" e "Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência", com texto da própria autora que completa 80 anos em 2026. Foto: divulgação

A temporada 2026 do Theatro São Pedro ganha um ponto de inflexão simbólico e artístico com “Conceição Evaristo - Uma Ópera Escrevivência”, criação que coloca no centro do palco uma das vozes mais decisivas da literatura brasileira contemporânea. Em um gesto que ultrapassa a programação cultural e toca a história, o teatro dedica uma ópera inteira à autora mineira justamente no ano em que ela completa 80 anos - e o faz com texto assinado pela própria escritora.

A estreia está marcada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, data que não poderia ser mais precisa para a proposta do espetáculo. As récitas seguintes acontecem nos dias 22, 25, 27 e 29 de novembro, esta última coincidindo com o aniversário de Conceição Evaristo. Não se trata apenas de uma homenagem, mas de uma afirmação estética e política: a ópera, gênero historicamente associado a narrativas europeias e cânones brancos, abre espaço para a escrevivência - conceito criado pela autora para nomear uma escrita atravessada por memória, corpo, experiência e ancestralidade.

Com composição musical de Juliana Ripke, a obra articula palavra e música a partir da própria matéria literária de Evaristo, marcada por vozes femininas negras, silêncios históricos e afetos forjados na resistência cotidiana. No elenco estão Edna D’Oliveira, Juliana Taino e Vinicius Costa, que dão corpo e voz a uma narrativa que não busca acomodação, mas escuta. Na mesma temporada, o teatro ainda apresenta títulos como “Orfeu no Inferno”, “Don Pasquale”, produções da Academia de Ópera, criações inéditas do Atelier de Composição Lírica, além de uma programação que envolve cinema, dança, música de câmara e concertos especiais.

domingo, 25 de janeiro de 2026

.: "Hamnet", o livro que inspirou o filme vencedor do Globo de Ouro


"Hamnet"
, vencedor do Globo de Ouro nas categorias Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz em Filme de Drama, é uma adaptação do livro de mesmo nome de Maggie O'Farrell, publicado no Brasil pela Intrínseca em 2021. Nesta obra vencedora do Women’s Prize for Fiction, a autora se inspira na tragédia de William Shakespeare para retratar uma família destroçada pelo luto e pela perda e uma reconstituição delicada e memorável de um menino cuja vida foi esquecida, mas cujo nome intitula uma das peças mais celebradas de todos os tempos. A tradução é de Regina Lyra.

Um dos favoritos para receber o Oscar de Melhor Filme, é estrelado por Paul Mescal e Jessie Buckley e dirigido por Chloé Zhao, que já ganhou a estatueta de melhor direção em 2021 por Nomadland. No livro e no filme, em 1596, o filho de 11 anos de William Shakespeare, Hamnet, morreu em Stratford-upon-Avon, pequena cidade na Inglaterra, de causa desconhecida. Poucos anos depois, o famoso dramaturgo inglês escreveu a peça considerada por muitos sua obra-prima, dando a seu herói trágico uma variação do nome de seu filho morto. 

Passados quase quatro séculos, Maggie O’Farrell era adolescente, quando, na escola, ouviu falar do menino pela primeira vez. A semente da curiosidade plantada há trinta anos se transformou em um romance premiado e arrebatador que, sem mencionar o nome do dramaturgo, mergulha profundamente na história da família ― focando na trajetória da mãe da criança, a quem a autora chama de Agnes (outra variação do nome da esposa de Shakespeare seria Anna), e nas suas tentativas desesperadas de salvar o filho. 

É a partir dessas poucas referências disponíveis sobre a vida do bardo que Maggie O’Farrell cria magistralmente a trama protagonizada por Agnes, uma mulher excêntrica e selvagem que costumava caminhar pela propriedade da família com seu falcão pousado na luva e tinha dons extraordinários, como prever o futuro, ler pessoas e curá-las com poções e plantas. Enquanto isso, o personagem mais famoso do romance não tem nome; ele é chamado de “seu marido”, “o pai”, “o tutor de latim”. Filho de um luveiro caído em desgraça e com péssima reputação na cidade, ele casou-se com a protagonista, detentora de uma generosa porção de terra e alguns anos mais velha. Tiveram uma filha e um casal de gêmeos.

Após o casamento, Agnes se torna uma mãe superprotetora e a força centrífuga na vida do marido, que seguira para Londres com o objetivo de se estabelecer como dramaturgo. A vida do casal é gravemente abalada quando o filho Hamnet sucumbe a uma febre repentina. Compre o livro "Hamnet", de Maggie O'Farrell, neste link.


O que disseram sobre o livro

“Hamnet é a prova de que sempre há novas histórias a serem contadas até quando se trata de uma das figuras históricas mais conhecidas. A obra também revela a escrita extremamente versátil de O’Farrell, com um entendimento profundo dos laços humanos - qualidades atribuídas também a um certo professor de latim de Stratford.” ―The Observer


Sobre a autora

Nascida na Irlanda do Norte em 1972, Maggie O'Farrell cresceu no País de Gales e na Escócia e mora atualmente em Edimburgo. Também é autora de "A Mão Que Me Acariciou Primeiro" (vencedor do Costa Novel Award); "Instructions for a Heatwave"; "This Must Be the Place"; e, mais recentemente, "Existo, Existo, Existo: 17 Tropeços na Morte". Foto: Murdo Macleod. Compre os livros de Maggie O'Farrell neste link.

Ficha técnica
“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” | “Hamnet”
Gênero: drama histórico. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: inglês. Direção: Chloé Zhao. Roteiro: Maggie O’Farrell e Chloé Zhao. Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal. Distribuição no Brasil: Universal Pictures. Duração: 2h05. Cenas pós-créditos: não.

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Cineflix Miramar | Santos
25 a 28 de janeiro | Sessões legendadas | Sala 3 | 18h00 
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo. Ingressos neste link.

domingo, 18 de janeiro de 2026

.: Patrick Selvatti entre envelhecimento e desejo em novo romance


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.

Escritor, jornalista e finalista do Concurso de Dramaturgia da TV Record, Patrick Selvatti voltou à ficção. Em “Ainda Sou Mar”, romance digital lançado pela Amazon, o autor deixa para trás a adolescência prolongada que marcou parte de sua obra e avança para um terreno mais áspero: o de um homem que já foi desejado, já foi referência e agora precisa lidar com o fim do próprio protagonismo.

Marlon Petit tenta entender onde ainda cabe. Ex-modelo internacional, ele circula pelo Rio de Janeiro entre praias, sessões de terapia improvisadas e encontros sexuais que já não prometem permanência. Selvatti constrói esse mosaico sem suavizar o universo gay masculino nem transformar seus personagens em exemplos edificantes. O sexo aparece com crueza, mas nunca como ornamento ou provocação vazia. Nesta entrevista exclusiva ao portal Resenhando.com, o autor fala sobre envelhecimento, desejo, racismo, apagamento profissional e o desconforto de seguir em movimento enquanto o mundo insiste em não esperar ninguém.



Resenhando.com - Você escreveu recentemente dois romances que dialogam com fases diferentes da vida: juventude e maturidade. Em que momento percebeu que precisava escrever sobre o envelhecimento do desejo com "Ainda Sou Mar"?
Patrick Selvatti - Tenho uma marca autoral registrada muito forte relacionada à juventude. Do meu romance de estreia, "Os Filhos da Revolução", até agora, com "A Orquídea e o Beija-flor", abordo muito a juventude. Coincidentemente, ambas histórias nasceram quando eu era adolescente. Percebi que precisava evoluir para a faixa madura quando eu próprio cruzei esse limiar. A partir dos 40 anos, eu comecei a notar o silêncio em torno desse tema. O desejo envelhece, mas a narrativa sobre ele some! Existe uma espécie de pacto social, especialmente dentro do meio gay, que associa erotismo à juventude eterna. Quando o corpo começa a mudar, o desejo vira algo quase vergonhoso, deslocado... Escrever sobre isso é uma tentativa de romper esse silêncio e de me recusar a aceitar que o afeto e o tesão tenham prazo de validade.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um corpo desejado, consumido e descartado. Em algum ponto da escrita você sentiu que estava narrando menos a história de um personagem e mais a anatomia cruel de um sistema que transforma pessoas em fetiche?
Patrick Selvatti - Totalmente. Marlon Petit é menos um indivíduo isolado e mais um corpo atravessado por um sistema que valoriza, usa e descarta. A escrita foi revelando isso aos poucos: não se trata apenas de quem ele é, mas do lugar que o mercado do desejo reserva para certos corpos em determinados momentos da vida. O romance acabou se tornando uma espécie de autópsia emocional desse mecanismo cruel que, como o próprio personagem diz, "te mastiga e te cospe". E ele não se refere apenas ao desejo sexual, mas também ao comercial, onde um corpo, mesmo considerado mito para a mídia, é rapidamente substituído.


Resenhando.com - O que você pensa que mais incomoda hoje em “Ainda Sou Mar”: a explicitude do sexo ou o fato de um homem gay de 42 anos ainda desejar, sofrer e sentir medo de desaparecer?
Patrick Selvatti - Espero que incomode mais o segundo ponto, viu? Afinal, ainda há um falso moralismo em relação a tudo que envolve o sexo, né? Mas a literatura erótica não é uma ferramenta exclusiva do homem gay, que, por tantas vezes, é acusado de promiscuidade. Tanto que os maiores best sellers do gênero dialogam com mulheres, donas de casa que, hoje, consomem narrativas como as da trilogia "365 Dias" assim como minha mãe lia as coleções "Bianca", "Júlia" e "Sabrina" no passado. Aqui, o sexo explícito é quase um álibi moral para alcançar o debate real. A pornografia atrai e fascina, mas não aprofunda. E o meu intuito é que o que realmente desconcerte não seja o realismo cru da narrativa, mas a ideia de que um homem gay maduro ainda sente, deseja, erra e sofre... Existe uma expectativa silenciosa de que, passado um certo tempo, o desejo deveria se aposentar junto com o corpo, e isso é profundamente violento!


Resenhando.com - Ao criar um influenciador de 19 anos como reflexo do protagonista, você quis denunciar uma herança simbólica tóxica ou admitir que todos, em alguma medida, aprendem a desejar de forma equivocada?
Patrick Selvatti - Existe uma herança simbólica sendo passada adiante, sim, mas ela não surge do nada. Todos nós aprendemos a desejar dentro de estruturas que associam valor à aparência, poder à juventude e afeto à performance. O jovem não é vilão, ele é produto e espelho. O romance tenta mostrar esse ciclo sem simplificações morais. Mas a ligação do personagem Mateus com Marlon vem em camadas que vão se apresentando de forma muito poética. E dialoga muito também com questões parentais que, segundo Freud, pautam o fetiche. Para mim, a passagem mais bonita do livro é quando os personagens que representam as três gerações se unem e, literal e poeticamente, se despem uns para os outros em uma praia de nudismo. Ali, eles falam do desejo sexual, mas também do ponto que mais os fere: suas relações parentais. É bonito e eu me emocionei escrevendo!


Resenhando.com - O vizinho negro sexagenário carrega o peso do estereótipo do “preto bem-dotado”. Ao escrever esse personagem, o que mais incomodou você: expor o racismo estrutural do desejo ou perceber o quanto ele é reproduzido dentro da própria comunidade gay?
Patrick Selvatti - Na realidade, Alex surge na narrativa como o espelho que Marlon não quer ver. Ele "despreza" o vizinho que se instala ao seu lado em plena pandemia por representar aquilo que ele enxerga que será seu futuro: um homem gay maduro e solitário que apela ao sexo pago para se sentir desejado. Isso é muito forte! Independentemente da cor da pele, Alex simboliza a velhice gay que a comunidade isola. Mas sempre me incomodou perceber o quanto esse racismo ligado à objetificação é naturalizado e reproduzido internamente. Não se trata apenas de um olhar branco sobre o corpo negro, mas de um sistema de desejo que se perpetua mesmo entre quem também é marginalizado. O próprio Alex busca corpos pretos, jovens e instrumentalmente avantajados para se satisfazer. Ele carrega essa contradição no corpo e na afetividade, e isso torna sua dor ainda mais complexa. Foi uma escolha necessária que o personagem fosse preto, sexagenário, bem-dotado e passivo. E sua profissão, bombeiro que apaga incêndios e salva-vidas no mar, não é à-toa: o personagem luta para conter suas próprias chamas e, ao mesmo tempo, não se afogar no mar revolto.


Resenhando.com - No livro, o marido dermatologista que vive da estética íntima masculina é uma provocação direta à indústria da perfeição. Você acredita que o culto ao corpo se tornou uma nova forma socialmente aceita de autoviolência?
Patrick Selvatti - Acredito plenamente. Quando o cuidado vira obsessão e a autoestima depende de procedimentos, métricas e validação externa, há violência, ainda que bem embalada. O culto ao corpo, hoje, opera como uma exigência social disfarçada de escolha individual. É uma forma elegante de coerção. No meio gay, ela também vem muito associada à distorção da virilidade e da potência: tamanho vira documento. E há o agravante de o personagem Benício sofrer de uma compulsão sexual diagnosticada. A doença está ali, sendo tratada, ainda que maquiada pelo discurso bonito da harmonização. Essa relação conjugal também espelha uma realidade atual que merece uma lente de aumento: até que ponto o amor livre é saudável e uma escolha de mão dupla? É polêmico isso...


Resenhando.com - Seu romance escancara o universo gay masculino sem suavizações. Existe uma cobrança, seja ela explícita ou silenciosa, para que narrativas LGBTQIAPN+ sejam sempre edificantes, pedagógicas ou “exemplares”?
Patrick Selvatti - Talvez se espere que personagens LGBTQIAPN+ representem uma espécie de manual de conduta ou um discurso politicamente correto permanente. Mas isso seria injusto e limitador. Personagens têm o direito de ser contraditórios, falhos, incômodos... A ficção não precisa pedir desculpas por mostrar zonas sombrias. O ser humano, por essência, é complexo. Em diversas situações, Marlon pode deixar de ser vítima para ser algoz. Uma leitora me escreveu que não sabe se sente pena ou raiva dele em diversos momentos. E é exatamente sobre isso.


Você bebe na fonte da teledramaturgia e assume o folhetim como linguagem. Em tempos de literatura que tenta parecer séria demais, o exagero emocional ainda é um ato de resistência narrativa?
Patrick Selvatti - O exagero emocional da dramaturgia sempre foi uma forma de dizer verdades que o realismo contido não alcança. O folhetim entende que sentimento também é estrutura narrativa. Em um momento em que tudo precisa parecer asséptico e intelectualizado, assumir emoção, melodrama e intensidade é, sim, um gesto de resistência. Estamos em um momento peculiar do nosso audiovisual, onde as tradicionais novelas precisam se render ao ritmo alucinante das séries e do consumo rápido do digital. Mas também é o momento em que o Brasil está se curvando ao seu cinema, sabendo valorizar narrativas mais profundas e com mais pausas. "Ainda Sou Mar", inclusive, nasceu de um argumento para um filme. E ele está pronto para se tornar um. 


As ilustrações criadas com auxílio de Inteligência Artificial tensionam o debate sobre autoria e imagem. Para você, elas ampliam a experiência literária ou revelam o quanto a literatura também está refém da lógica visual das redes?
Patrick Selvatti - As ilustrações foram uma escolha consciente e que conduziram toda a narrativa. As imagens foram nascendo junto com a história - muitas delas, aliás, fizeram com que passagens da narrativa nascessem - tal qual ocorre com o storyboard de um filme. "Ainda Sou Mar" não seria o mesmo romance sem o apelo visual, a retratação em imagens. É uma história sobre estética, e as ilustrações contam essa história. Para o leitor, elas ampliam a experiência, mas também podem escancarar essa dependência da imagem, sim. Não vejo isso como contradição, mas como sintoma do nosso tempo. A literatura sempre dialogou com outras linguagens. Ignorar o peso do visual hoje seria artificial. O importante é que a imagem não substitua a palavra, mas dialogue com ela.


Antes de perder o lugar como corpo desejável, Marlon Petit já havia perdido o lugar como referência profissional. O que dói mais: deixar de ser desejado ou deixar de ser necessário?
Patrick Selvatti - Acho que deixar de ser necessário dói mais, porque o desejo ainda pode ser negociado, reinventado, deslocado... A necessidade não. Quando você deixa de ser referência profissional, perde não só espaço, mas função simbólica. É como se o mundo dissesse: “Seguimos sem você”. Isso atinge a identidade de forma muito mais profunda do que o espelho.


O romance sugere que o mercado não envelhece ninguém, ele simplesmente substitui. Em que medida o apagamento profissional é a primeira forma de violência simbólica sofrida pelo protagonista?
Patrick Selvatti - O apagamento profissional vem antes do apagamento do corpo porque ele é silencioso. Ninguém anuncia que você ficou obsoleto, você apenas vai deixando de ser chamado. Para Marlon Petit, essa ausência de demanda antecede o declínio do desejo. O mercado opera por substituição, não por transição. Não há rito de passagem, só descarte. É uma ferida muito mais profunda, e é o que desencadeia nele a impotência sexual como um sintoma dos danos à sua saúde mental... Marlon traz muitas camadas, para além do homem narcisista que vê sua imagem o sugar para o fundo do mar.


Resenhando.com - Marlon Petit foi um “mito” e virou "passado". Você acredita que nossa cultura sabe lidar com trajetórias ou apenas com novidades? Há espaço para a experiência ou só para o próximo hype?
Patrick Selvatti - Nossa cultura é profundamente obcecada pela novidade. Ela consome histórias apenas enquanto elas rendem visibilidade, e não é à toa que vivemos a ditadura do reels. Trajetórias exigem memória, e memória dá trabalho, "Ainda Estou Aqui " e "O Agente Secreto" nos esfrega isso na cara. O hype é fácil porque é descartável. A experiência, ao contrário, exige escuta, paciência e reconhecimento. Essas coisas são cada vez mais raras, né?


Resenhando.com - Existe uma solidão específica de quem já foi alguém profissionalmente e hoje precisa se reinventar fora dos holofotes. Essa dor é menos falada do que a crise do corpo. Por quê?
Patrick Selvatti - Porque a crise do corpo é visível, e sua reparação está ao alcance dos procedimentos estéticos. Já a perda de relevância profissional é invisível e profundamente envergonhante. Admitir que você já teve importância e, hoje, não tem mais é confrontar o medo coletivo de inutilidade. É uma solidão que não rende likes, nem empatia imediata. É fato: o derrotado não engaja.


Escrever "Ainda Sou Mar" foi também uma forma de elaborar o medo de que a relevância profissional tenha prazo de validade, especialmente para quem construiu a própria identidade em torno do reconhecimento público?
Patrick Selvatti - Sem dúvida. Para além do dilema gay, o livro nasceu desse medo que me foi apresentado em diversas entrevistas que fiz e sigo fazendo com artistas, na maioria heterossexuais. Um em especial, que se tornou meu amigo pessoal, desabafava muito comigo sobre o fato de estar com 35 anos e "não ter acontecido". Essa angústia me atravessou muito - afinal, um homem nessa faixa etária está no auge, mas não para a indústria do like. Quando sua identidade está atrelada ao olhar do outro, a perda de reconhecimento vira um abismo. Escrever foi uma tentativa de nomear essa angústia, de encará-la sem a romantização de que envelhecer é bonito. Não para resolver essa angústia, mas para entendê-la e, talvez, sobreviver a ela com mais consciência. E trazer esse tom cinzento que não aparece no colorido do arco-íris foi a cereja do bolo.


Depois de “Ainda Sou Mar”, fica a sensação de que envelhecer é um ato político. Escrever esse livro foi mais um gesto de sobrevivência pessoal ou uma forma de dizer que o desejo também tem direito à maturidade?
Patrick Selvatti - Mas é um ato político, e não sou eu quem afirmo isso, quem sou eu? (risos). Eu só constato que envelhecer, especialmente sendo gay, é resistir a uma lógica que tenta nos apagar. Escrever esse livro, para mim, foi reafirmar que o desejo não pertence apenas à juventude e que a maturidade também tem direito ao corpo, ao afeto, ao erro e ao prazer. É uma declaração de existência.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

.: Projeto aposta na literatura para ampliar repertórios e criar vínculos


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com
Imagem: divulgação

A atividade “Viagens e Livros: as Palavras que Trouxemos na Mala” convida crianças, jovens e adultos a embarcarem em uma experiência de mediação literária que atravessa fronteiras geográficas, culturais e imaginárias. A vivência acontece no sábado, 3 de janeiro, das 15h00 às 17h00, na Biblioteca do Sesc Santos, com entrada gratuita e classificação livre.

Conduzida pelos mediadores-atores Maycon Benedito e Juliana Espírito Santo, a proposta se constrói como uma viagem simbólica pelo mundo a partir da literatura para as infâncias. De volta de suas andanças, os mediadores chegam com a mala repleta de livros e histórias, reunindo narrativas de autores de diferentes regiões e contextos culturais. Cada obra escolhida amplia o repertório estético e temático do público, revelando múltiplas formas de ver, sentir e narrar o mundo.

A mediação combina leitura compartilhada, escuta sensível e presença cênica, criando um ambiente acolhedor e participativo. Ao longo do encontro, a diversidade cultural se manifesta tanto nas histórias quanto nas formas de contar, estimulando a imaginação, o diálogo e a construção coletiva de sentidos. A atividade reforça a leitura como uma prática social e comunitária, capaz de aproximar pessoas, gerar pertencimento e fortalecer vínculos afetivos por meio da palavra.

A iniciativa propõe um encontro com a literatura como território de descoberta, afeto e troca. A experiência valoriza a escuta, o respeito às diferenças e a potência das narrativas na formação de leitores críticos e sensíveis desde a infância.


Sobre os mediadores

Maycon Benedito é ator, mediador e produtor cultural, formado em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em projetos de mediação de leitura e ações culturais voltadas à formação de público, articulando teatro, literatura e educação.

Juliana Espírito Santo é atriz, performer, palhaça, diretora, pesquisadora e arte-educadora. Mestre em Artes da Cena pela Unicamp, bacharel em Artes Cênicas pela UEL e graduada em Artes Visuais pelo Claretiano, desenvolve projetos que cruzam arte e educação em instituições culturais e iniciativas socioculturais, com especial atenção às tradições, festas populares e práticas formativas.


Serviço
Atividade "Viagens e Livros: as Palavras que Trouxemos na Mala"
Data: sábado, dia 3 de janeiro
Horário: das 15h00 às 17h00
Local: Biblioteca do Sesc Santos
Entrada: gratuita
Classificação: livre para todas as idades

Venda de ingressos
As vendas de ingressos para os shows e espetáculos da semana seguinte (segunda a domingo) começa na semana anterior às atividades, em dois lotes: on-line pelo aplicativo Credencial Sesc SP e portal do Sesc São Paulo: às terças-feiras, a partir das 17h00. Presencialmente, nas bilheterias das unidades: às quartas-feiras, a partir das 17h00.

Bilheteria Sesc Santos - Funcionamento
Terça a sexta, das 9h às 21h30 | Sábados e domingos, 10h às 18h30   

Sesc Santos
Rua Conselheiro Ribas, 136 - Aparecida / Santos
Telefone: (13) 3278-9800        
Site do Sesc Santos
Instagram e Facebook: @sescsantos

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

.: Prêmio Sesc de Literatura apresenta novos nomes e aposta no encontro

Abáz, Marcus Groza e Leonardo Piana, vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2025, durante o lançamento dos livros no Rio de Janeiro. Foto: Alexandre Brum

O lançamento dos livros vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2025, realizado na última segunda-feira, dia 15 de dezembro, no Rio de Janeiro, foi mais do que a apresentação de três títulos ao mercado editorial. Foi, sobretudo, a celebração de um rito de passagem: o momento em que a escrita deixa o território íntimo do inédito e passa a circular, ganhar leitores, provocar encontros. Chegam agora ao público o romance “Goiás”, do paulista Marcus Groza; a coletânea de contos “Massaranduba”, do baiano Abáz; e o livro de poemas “Escalar Cansa”, do mineiro Leonardo Piana. São obras distintas em forma, tom e percurso, mas unidas pelo mesmo ponto de partida: o Prêmio Sesc de Literatura, um dos mais importantes reconhecimentos voltados a autores inéditos no Brasil.

A alegria do primeiro livro impresso atravessou os depoimentos dos vencedores. Abáz, contemplado na categoria Conto, destacou a dimensão afetiva e simbólica do prêmio. Para ele, a possibilidade de circular pelo país e dialogar diretamente com leitores marca o verdadeiro início da trajetória literária. “Agora que tenho um livro nas mãos, estou muito ansioso para trocar experiências e conversar com os leitores”, afirmou.

Já Marcus Groza, vencedor na categoria Romance, refletiu sobre o gesto solitário da escrita e o desejo de compartilhamento que se impõe quando o texto ganha o mundo. “Se uma pessoa ressoar algo das emoções que tentei transmitir no livro, será muito gratificante”, disse, apontando para o que talvez seja o sentido mais profundo da literatura: criar vínculos invisíveis entre quem escreve e quem lê.

Na poesia, Leonardo Piana falou da expectativa de ver seus versos em circulação e da experiência de percorrer o Brasil ao lado do Sesc. “Esse contato é muito especial para mim”, comentou, antecipando o diálogo que se estabelece quando o poema encontra sua escuta.

O evento reuniu leitura de trechos das obras, interpretados por estudantes da Escola Sesc de Artes Dramáticas, uma roda de conversa mediada pela escritora Eliana Alves Cruz - integrante da comissão julgadora desta edição - e sessão de autógrafos. Um encontro que reforçou o caráter formativo e público do prêmio, pensado não apenas como distinção, mas como política cultural de acesso à literatura.

Os livros vencedores já estão disponíveis em livrarias físicas e online de todo o país e também serão distribuídos pela rede de bibliotecas e escolas do Sesc, ampliando o alcance das obras e consolidando o compromisso do projeto com a democratização da leitura. A edição de 2025 recebeu 2.451 originais, distribuídos entre poesia, conto e romance, números que revelam a vitalidade da produção literária contemporânea no Brasil.

Publicados pela Editora Senac Rio, os autores vencedores receberam prêmio em dinheiro no valor de R$ 30 mil cada. Também foram concedidas menções honrosas a Lúcio Cordeiro, Lucas Alves e Eduardo Marques, finalistas nas categorias, incluindo a premiação destinada a trabalhadores e trabalhadoras do comércio de bens, serviços e turismo.

Criado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura já recebeu cerca de 24 mil originais e revelou ao mercado editorial 43 novos autores. Comissões julgadoras formadas por escritores, jornalistas e críticos literários de diferentes regiões do país avaliam os trabalhos sob rigoroso anonimato, garantindo independência e mérito literário como critérios soberanos. Um percurso que começa no silêncio da escrita e encontra, no livro publicado, a possibilidade de permanência.


Livros vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2025
Romance:
“Goiás”, de Marcus Groza
Conto: “Massaranduba”, de Abáz
Poesia: “Escalar cansa”, de Leonardo Piana
Disponibilidade: livrarias físicas e on-line em todo o Brasil e rede de bibliotecas e escolas do Sesc

Próxima edição – inscrições
Período:
de 2 de fevereiro a 2 de março de 2026

Tags
#PremioSescDeLiteratura #MarcusGroza #Abaz #EscalarCansa #LeonardoPiana

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

.: Aos 80, "O Pequeno Príncipe" ganha exposição imersiva no MIS Experience


O MIS Experience inaugura no dia 20 de dezembro a exposição "O Pequeno Príncipe - 80 Anos", mostra imersiva e inédita no Brasil que celebra oito décadas da primeira edição francesa da obra de Antoine de Saint-Exupéry. Considerado um dos livros mais traduzidos e lidos do mundo, "O Pequeno Príncipe" ganha uma homenagem de grande escala, que combina tecnologia, artes visuais e narrativa sensorial para revisitar seu universo poético.

A exposição propõe uma jornada cronológica e simbólica que tem início na França dos anos 1920, período decisivo na formação artística e intelectual de Saint-Exupéry. Ao longo do percurso, o público é apresentado a momentos marcantes da vida e da obra do autor, incluindo a atuação dele como escritor, inventor e aviador, além de sua relação profunda com a aviação - elemento central de sua trajetória pessoal e literária.

Composta por cinco salas expositivas e uma sala de imersão 360° inédita, a mostra conduz os visitantes por uma viagem narrativa que atravessa estrelas, planetas e o deserto, recriando, em grande escala, passagens emblemáticas do livro. As aquarelas originais de Saint-Exupéry ganham vida por meio de projeções, animações, trilha sonora exclusiva e recursos visuais que ampliam a experiência sensorial.

Personagens icônicos como o Pequeno Príncipe, a raposa e a rosa surgem ao longo do percurso, reforçando os temas centrais da obra, como amizade, afeto, perda e responsabilidade. Pensada para públicos de todas as idades, a exposição busca dialogar tanto com leitores que cresceram com o livro quanto com novas gerações, reafirmando a atualidade e a força emocional do clássico.


Serviço
Exposição "O Pequeno Príncipe - 80 Anos"
MIS Experience - Museu da Imagem e do Som
Rua Cenno Sbrighi, 250 - Água Branca / São Paulo
Sessões a cada 30 minutos
Terça-feira: entrada gratuita (ingressos apenas na bilheteria)
Quarta a sexta-feira: R$ 40 (inteira) | R$ 20 (meia)
Sábados, domingos e feriados: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia)
Classificação indicativa: livre para todas as idades
Menores de 18 anos apenas acompanhados de um dos pais ou responsável
Gratuidade: crianças até 7 anos
Acessibilidade: espaço acessível para pessoas em cadeira de rodas
Duração: variável, conforme o ritmo do visitante

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

.: Morre aos 55, Sophie Kinsella, a autora dos livros da consumidora Becky Bloom

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em dezembro de 2025


Morre aos 55, Sophie Kinsella, nome artístico de Madeleine Sophie Wickham, autora dos livros protagonizados por Becky Bloom, dois dias antes de completar 56 anos. A escritora britânica foi diagnosticada com um tumor no cérebro em 2022, porém somente em 2024 que tornou o diagnóstico público, alegando querer dar aos familiares tempo para se acostumarem ao “novo normal”. Contudo, revelou estar “muito bem no geral” apesar do cansaço e brincou que sua memória estava “ainda pior do que era antes”.

A notícia da morte foi divulgada pela família, na rede social Instagram, no perfil da autora, dia 10 de dezembro de 2025, com os dizeres: “Ela faleceu em paz e seus últimos dias foram repletos de seus amores: família, música, aconchego, Natal e alegria”.

"Não conseguimos imaginar como será a vida sem sua luz e amor à vida. Apesar da doença, que ela enfrentou com coragem inimaginável, Sophie se considerava verdadeiramente abençoada por ter família e amigos maravilhosos, e pelo sucesso extraordinário de sua carreira como escritora", complementaram.

A obra mais famosa e que gerou uma série de livros foi “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”, adaptada em 2009, aos cinemas com o mesmo título, tendo como protagonista a atriz Isla Fisher. As obras de Sophie Kinsella venderam mais de 50 milhões de cópias e foram traduzidas para mais de 40 idiomas.


Leia+

.: Resenha de "Os delírios de consumo de Becky Bloom", Sophie Kinsella

.: Resenha de "O Segredo de Emma Corrigan", Sophie Kinsella

.: Resenha de "Os Delírios de Consumo de Becky Bloom"


.: Pelo aniversário de Clarice Lispector, IMS lança curta com crianças


O curta já está disponível no canal de YouTube do IMS. Na imagem, Alice e Celeste em frame do curta-metragem A vida íntima de Laura

Nesta quarta-feira, dia 10 de dezembro, data de aniversário da escritora Clarice Lispector (1920-1977), o Instituto Moreira Salles lança um curta-metragem em homenagem a ela. No vídeo, que já está disponível no canal de YouTube do IMS, seis crianças recontam, atuam e ilustram a história do livro infantojuvenil "A Vida Íntima de Laura", publicado por Clarice em 1974.

O curta-metragem é fruto de um trabalho realizado durante este ano pelo Departamento de Literatura do IMS com estudantes da Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, unindo educação, literatura e arte, em três etapas. Na fase da preparação, cada criança recebeu um exemplar do livro, doados pela editora Rocco, e participou de uma atividade de leitura compartilhada; num segundo momento, discutiram a história com seus pais e mães em casa; já na terceira etapa - criativa e artística - elas fizeram um trabalho de encenação de algumas passagens da história e de ilustração de três cenas. São esses os desenhos que dão colorido ao filme, em uma releitura da história da galinha Laura.

O lançamento integra o projeto Hora de Clarice, criado em 2011 pelo IMS para celebrar o nascimento e o legado da autora. O projeto também faz parte das iniciativas para difundir o acervo de Clarice Lispector, sob a guarda do IMS desde 2004. O Instituto também mantém um site sobre a autora, com textos e materiais sobre a sua produção.


Serviço
Curta-metragem "A Vida Íntima de Laura"
Já disponível no canal de YouTube do IMS
Concepção: Bruno Cosentino e Eucanaã Ferraz
Direção: Laura Liuzzi e Bruno Cosentino
Montagem: Laura Liuzzi
Produção: Bruno Cosentino
Apoio: Editora Rocco


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

.: Divulgadas as primeiras imagens de Maria Gal como Carolina Maria de Jesus


Maria Gal caracterizada como Carolina Maria de Jesus , escritora que se tornou símbolo de resistência ao escrever sobre a vivência na favela do Canindé, em São Paulo. Foto: Mariana Vianna

A obra “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus, um dos livros mais importantes da literatura pós-moderna brasileira, vai ganhar uma adaptação para o cinema. E a produção acaba de divulgar as primeiras fotos da atriz Maria Gal caracterizada como a escritora que se tornou símbolo de resistência ao transformar sua vivência na favela do Canindé, em São Paulo, em literatura. Intitulado temporariamente como “Carolina - Quarto de Despejo”, o longa será dirigido por Jeferson De, com roteiro de Maíra Oliveira e produção de Clélia Bessa. O filme é uma produção da Move Maria, Raccord Produções e Buda Filmes, com coprodução da Globo Filmes e distribuição da Elo Studios.

Para interpretar a escritora, Gal passou por uma importante transformação. Os cabelos ganharam novo comprimento que, segundo a atriz, contam aquilo que poucas palavras conseguem alcançar. “Quando eu aceito transformar meu cabelo pela história de Carolina, não estou apenas mudando o visual, estou abrindo espaço para acessar uma verdade que vai além da minha. Estou entrando no território dessa mulher gigante, que ainda hoje é uma das autoras mais importantes da literatura mundial. Carolina não é só um papel, ela é uma força literária que atravessou séculos, fronteiras e desigualdades, escrevendo de um lugar de silêncio imposto e, mesmo assim, fazendo ecoar a própria voz para o mundo inteiro”, explica Gal. Ainda como parte da composição da personagem, a atriz passou por um grande processo de emagrecimento, chegando a perder mais de 18kg e iniciou a preparação como atriz há um ano, passando por profissionais do Brasil e dos EUA.

O filme é uma adaptação do livro “Quarto de Despejo - Diário de Uma Favelada”, publicado em 1960, em que Carolina Maria de Jesus narra com autenticidade e força poética a vida na favela do Canindé, em São Paulo. Nascida em 1914, em Sacramento (MG), ela impactou o país com seu diário ao expor, com profundidade e sensibilidade, a realidade da fome, do racismo estrutural e da desigualdade social. Com apenas dois anos de educação formal, a autora vendeu mais de um milhão de exemplares, teve sua obra traduzida para 14 idiomas e se tornou a primeira escritora negra brasileira a alcançar reconhecimento internacional. 

A produção pretende revelar não apenas as dificuldades enfrentadas por Carolina e seus filhos, mas também sua genialidade, coragem e paixão pela escrita, que transformaram sua experiência em um poderoso testemunho de resistência. Ao lado de Maria Gal, a produção conta ainda com Raphael Logam, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso, Ju Colombo,Caio Manhante, Jack Berraquero, Fabio Assunção, Alan Rocha, Thawan Lucas e grande elenco.


Ficha técnica
Título: "Carolina - Quarto de Despejo"
Direção: Jeferson De
Roteiro: Maíra Oliveira
Produção: Clélia Bessa
Baseado no livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus
Elenco: Maria Gal, Raphael Logam, Laura Vick, Raphael Raposo, Thawan Lucas, Caio Manhente, Clayton Nascimento, Liza Del Dala, Carla Cristina Cardoso, Ju Colombo, Jack Berraquero, Fabio Assunção, Alan Rocha e grande elenco
Produção: Move Maria, Raccord Produções, Buda Filmes
CoProdução: Globo Filmes
Distribuição: Elo Studios

.: Uketsu e Jake Adelstein são novidades na Biblioteca da Fundação Japão


Novas aquisições do acervo passam por gêneros como terror, não-ficção, literatura e culinária; livro sobre segredos da Yakuza é um dos principais destaques. Na imagem, biblioteca da Fundação Japão em São Paulo. Foto: d
ivulgação/Fundação Japão

Obras como “Casas Estranhas”, do autor best-seller e youtuber Uketsu, “Eu, Brasil” da jornalista Juliana Sakae, são destaques entre os novos livros do acervo da Biblioteca da Fundação Japão, em São Paulo, no mês de novembro. O foco dos livros adquiridos é a literatura e cultura japonesas, cobrindo áreas como literatura, teatro, mistério, não-ficção e culinária, abordando os mais diversos temas que envolvem a cultura do país.

Terror e jornalismo são destaques do acervo
"Casas Estranhas", de Uketsu: um sucesso de terror e mistério de um autor youtuber com milhões de inscritos. A trama segue um escritor fascinado por ocultismo e um arquiteto enquanto investigam um espaço misterioso e inexplicável no térreo de uma casa recém-construída em Tóquio, levando-os a descobrir uma realidade macabra.

"Tokyo Noir": o investigador americano que desvendou os segredos da máfia japonesa, de Jake Adelstein: Uma obra de não-ficção que expõe o lado sombrio de Tóquio. O autor, um ex-repórter, revela a profunda infiltração da yakuza na sociedade japonesa, descrevendo como a máfia opera como uma espécie de "governo paralelo".

"Caminho Japonês: da Culinária à Cultura Milenar", de Martin Vidal: este livro convida o leitor a uma jornada pela gastronomia e tradição japonesas. Explora as histórias, valores e segredos que moldam cada prato e cerimônia, enfatizando a precisão técnica, o respeito pelos ingredientes e o equilíbrio dos sabores.

"Eu, Brasil", de Juliana Sakae: neste livro de jornada pessoal, a jornalista narra a busca pela história de sua família e ancestrais após a morte de sua mãe. Sua investigação a leva a lugares como Açores e o Japão do início do século passado, revelando apagamentos estruturais na história brasileira em prol de narrativas hegemônicas.

Além dos títulos acima, “Triste História de Uma Mulher: a História de Okichi, Uma Estrangeira” de Yuzo Yamamoto, “Tosa Nikki: o Diário de Tosa” de Kino Tsurayuki, “A Besta nas Sombras” de Edogawa Rampo e “Kirishitan Nobunaga” de Osanai Kaoru também acabam de chegar ao acervo. Localizada na Avenida Paulista, 52, 3º andar, no bairro Bela Vista, a biblioteca funciona de terça a sexta-feira, das 10h30 às 19h30, e aos sábados (alternados), das 9h00 às 14h00.

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

.: #VivoLendo: "Des Casulo", de Flávio Viegas Amoreira, a dica de Vieira Vivo


Por Vieira Vivo, escritor e ativista cultural.

"tanta querência
nesse silêncio de fonte"


Ao trilhar um difuso trajeto direcionado pelas palavras, os versos nos iluminam e guiam ao imprevisível. A surpresa sintetizada em versos que nos induzem ao inatingível, a uma suspensa e extrema comoção poética a flutuar numa atmosfera fluídica e misteriosa. Os entes, objetos deste instigante tabuleiro fonético, bailam em um ambiente movediço onde o alvo jamais revela-se em sua crua totalidade. Há sempre algo a ser descoberto, a ser desvendado. E essa contínua busca dissonante nos enreda em um minimalismo sonoro e intenso fruto de um complexo poder de síntese alicerçado pelo manejo minucioso da escrita: "essa sensação sideral de estarmos nus num aquário etéreo".

Jakobson define a poesia como a linguagem voltada para a sua própria materialidade, porém Flávio Viegas Amoreira em “Des Casulo”, publicado pela Editora Costelas Felinas, incorpora à esta tese a ressonância etérea das sensações incorpóreas a flutuar em devaneios atemporais e esquivos trazendo à tona o sumo das elucubrações utópicas das fantasias mais íntimas: "entre tentações tentaculares os gomos mais rígidos".

Nota-se, ainda, em cada verso uma sensualidade oculta qual um porvir eternamente ausente e distante, porém com uma determinada e concreta presença a emoldurar a dança das emoções cotidianamente. Se para Octavio Paz a poesia é o dizer que diz o indizível, para Viegas o indizível revela-se claridade em um labirinto de sensações profundamente germinadas em seu relicário interior: "há uma forma de poesia não pretérita esboçada no imprevisível horizonte".

Em “Des Casulo” somos, também, agraciados pelos faróis prefaciais de Luiz Rodrigues Corvo e de J. A. Garbino a nos conduzir ao cerne pulsante de cada micro poema. E após a leitura, temos a nítida sensação de termos presenciado ao desabrochar de recônditos alvéolos emocionais iluminados pelos cálidos raios de uma meticulosa depuração poética: "poema o que se escreve poesia o que se sente".

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

.: “As Narradoras”: podcast celebra autoras fundamentais do século XX

A literatura do século XX acaba de ganhar um novo espaço para celebrar as vozes femininas mais vibrantes. "As Narradoras", minissérie em áudio apresentada pela editora Stéphanie Roque, revisita vidas, obras, afetos e rupturas de escritoras que moldaram a literatura mundial - e o faz conectando gerações, temas e possibilidades de leitura. São sete episódios que reúnem autoras distantes no tempo e no espaço, mas profundamente entrelaçadas por afinidades temáticas: amizade, cotidianidade, imaginação, família, escrita íntima e criação artística.

A proposta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: aproximar duplas de autoras para entender como as experiências, estilos e obsessões delas dialogam entre si e permanecem vivas na escrita contemporânea. Para isso, "As Narradoras" traz também a participação de nomes atuais - como Aline Bei, Socorro Acioli e Micheliny Verunschk - que comentam a relevância das homenageadas e expandem suas leituras. A atriz Maeve Jinkings empresta a voz a trechos de livros, criando um elo sensorial entre texto e escuta.


Episódio 1 - "As Irmãs Sisters"
O episódio de estreia mergulha na cumplicidade entre Lygia Fagundes Telles e Hilda Hilst, uma amizade que atravessou mais de meio século. As duas - que se autodenominavam “irmãs sisters” - partilharam confidências, rotinas, risos, medos e criação literária. O programa reconta esse encontro improvável e profundamente frutífero, explorando como suas trajetórias se cruzaram e se influenciaram mutuamente. Entre as vozes convidadas, participam Bruna Khalil Othero, Raquel Cozer e Lúcia Telles, enriquecendo o retrato dessas duas forças da nossa literatura.


Episódio 2 - "Estranhas Familiares"
O segundo capítulo destaca Leonora Carrington e Silvina Ocampo, duas autoras que embaralharam a fronteira entre o cotidiano e o fantástico. Desejo, infância, sonho, loucura, morte e liberdade atravessam suas narrativas - sempre guiadas por uma imaginação indomável. Micheliny Verunschk e Socorro Acioli comentam suas obras e refletem sobre o realismo fantástico, fio que costura a dupla e faz com que suas histórias permaneçam tão inquietantes quanto atuais.

Uma travessia entre gerações de narradoras
A minissérie propõe um encontro simbólico: escritoras que abriram caminhos sendo celebradas por quem hoje continua a reinventá-los. Mais do que perfis biográficos, "As Narradoras" oferece um mosaico de experiências e sensibilidades que atravessam o século XX e desembocam no presente - reafirmando a potência da literatura escrita por mulheres e sua capacidade de atravessar fronteiras.

Os dois primeiros episódios já estão disponíveis, e os demais chegam sempre às quartas-feiras, no tocador de áudio favorito do público. Uma boa oportunidade para revisitar autoras imprescindíveis e descobrir novas leituras com desconto - basta conferir as indicações divulgadas junto ao projeto. "As Narradoras" estreia como convite e celebração: ouvir para ler mais, ler para compreender melhor quem nos antecedeu, e quem segue narrando o mundo ao nosso lado.

domingo, 16 de novembro de 2025

.: Entrevista: Jerónimo Pizarro fala sobre o legado de Ricardo Reis


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com
Foto: divulgação

Segurar um livro de Ricardo Reis em 2025 é como abrir uma janela para um tempo que nunca existiu - e, ainda assim, insiste em assombrar. Há algo de profundamente irônico, quase literário demais para ser coincidência, no fato de o heterônimo que talvez tenha “se exilado” no Brasil retornar justamente agora, completo, restaurado, decifrado, com seus paradoxos intactos. A Tinta-da-China Brasil lança a primeira obra completa de Ricardo Reis, organizada por Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, e a sensação é a de estar diante não apenas de um volume, mas de uma espécie de artefato arqueológico: um mapa para entrar na mente dividida - e multiplicada - de Fernando Pessoa.

Reis, o mais sereno dos inquietos, o mais clássico dos modernos, sempre foi um desafio até para quem vive de enfrentar manuscritos poeirentos e grafias arcaizadas. “Vivem em nós inúmeros”, escreveu ele - e talvez nenhuma frase explique melhor o exercício de tentar organizar a obra de alguém que, por definição, nunca foi apenas um. Nesta edição, o leitor encontrará poesia, prosa, inéditos, variantes e uma ortografia que soa como mármore: dura, bela, cheia de ecos gregos e latinos. 

Conversar com Jerónimo Pizarro - arqueólogo do espólio pessoano - é perceber que Reis continua a  desafiar. A amplitude da prosa escrita por ele desmonta a imagem de uma serenidade absoluta; sob as odes perfeitas há dúvida, trabalho, hesitação. Em tempos de velocidade ansiosa, há algo de  contemporâneo na contenção ricardiana, nesse equilíbrio que se sustenta sobre tensões, jamais sobre certezas. Em meio ao ruído, Reis oferece lucidez - e uma rebeldia silenciosa.

Em entrevista exclusiva para o portal Resenhando.com, Jerónimo Pizarro abre as “arcas de Pessoa” ao lado de quem passou anos dentro delas. Ele fala de grafias arcaizadas, do paradoxo entre classicismo e modernidade, de descobertas recentes, de ética pagã e também do simbolismo quase poético de lançar, no Brasil, o heterônimo que para cá teria fugido. Afinal - como Reis talvez sorrisse ao lembrar - nada é definitivo. Compre o livro "Obra Completa de Ricardo Reis", edição de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, neste link.


Resenhando.com - “Vivem em nós inúmeros”, escreveu Ricardo Reis - e talvez também se pudesse dizer: “editam-nos inúmeros”. O que significa organizar a obra completa de um heterônimo cuja própria existência é feita de paradoxos e desdobramentos?
Jerónimo Pizarro - Organizar a obra completa de Ricardo Reis é aceitar a contradição como princípio. Reis representa uma forma de disciplina poética que Pessoa inventa para equilibrar o tumulto dos outros. Mas Reis não é menos tumultuoso, nem em termos de filologia nem de ontologia...


Resenhando.com - Entre todos os heterônimos de Pessoa, Ricardo Reis talvez seja o mais enigmático: monárquico e pagão, clássico e moderno, racional e melancólico. Como traduzir esse equilíbrio de contrários em um volume que pretende ser definitivo?
Jerónimo Pizarro - A enigmática serenidade de Reis vem precisamente desse equilíbrio de contrários. A edição tentou refletir isso não através de um gesto unificador, mas respeitando a coexistência de tensões. Basta, por exemplo, começar a ler a prosa em paralelo com a poesia e vice-versa...


Resenhando.com - A edição mantém a grafia original usada por Pessoa - uma escolha que parece mais filosófica do que apenas filológica. Por que era essencial preservar essa ortografia “arcaizada” de Reis?
Jerónimo Pizarro - Preservar a ortografia de Reis é fazer uma homenagem ao seu tempo, ao seu classicismo. Até certo ponto, a ortografia “arcaizada” é parte do estilo ricardiano.


Resenhando.com - Há, neste livro, textos inéditos e variantes que reconfiguram o que sabíamos sobre Ricardo Reis. Que descobertas vocês destacariam? O que surpreendeu até mesmo os organizadores?
Jerónimo Pizarro - Entre as novidades, talvez surpreenda a amplitude da prosa de Reis: as reflexões filosóficas e notas que o aproximam de um ensaísta moral, não apenas de um poeta. Em princípio, as variantes revelam um labor que desmente a imagem de serenidade absoluta: há inquietação e dúvida sob o mármore aparente.


Resenhando.com - Pessoa dizia que “toda a arte é uma forma de literatura”. O que a prosa de Reis - menos conhecida do que as odes - revela sobre sua visão de mundo e sua relação com o próprio Pessoa?
Jerónimo Pizarro - A poesia e a prosa de Reis revelam uma vontade de pensamento, uma ética da distância. Nela, o diálogo com Pessoa torna-se mais nítido; como se ambos, o criador e a criatura, meditassem, lado a lado, sobre o valor da contenção (no meio da inúmera multiplicação...).


Resenhando.com - Ao ler Ricardo Reis hoje, em 2025, o que ele ainda fala? Em um tempo tão convulsionado e impaciente, que lição ética ou estética se pode tirar da serenidade pagã e do ceticismo de Reis?
Jerónimo Pizarro - Em 2025, o ceticismo ricardiano oferece lucidez; uma certa abdicação, resistência. Reis ensina que o equilíbrio pode coexistir com rebeldia e que o classicismo pode ser, paradoxalmente, uma vanguarda ética.


Resenhando.com - O livro encerra a trilogia da Coleção Pessoa, depois das obras completas de Caeiro e Campos. Que imagem do poeta - e do homem Fernando Pessoa - emerge dessa trilogia?
Jerónimo Pizarro - A trilogia da Coleção Pessoa mostra três formas de lidar com o infinito: Caeiro com a simplicidade, Campos com o excesso e Reis com a contenção. Juntas, as três obras revelam um Pessoa plural que se desdobra não para se perder, mas para se compreender melhor.


Resenhando.com - Ambos os organizadores têm trajetórias ligadas ao universo acadêmico e editorial, mas há também uma dimensão quase arqueológica em lidar com o espólio pessoano. O que mais fascina e o que mais exaure nesse trabalho de “abrir as arcas de Pessoa”?
Jerónimo Pizarro - O trabalho com o espólio pessoano é feito de fascínio e de um saber lidar com o cansaço físico. Fascina a inteligência labiríntica dos papéis, o modo como cada fragmento pode dialogar com outro; esgota a vastidão. Editar Pessoa é abrir caminhos que se multiplicam; cada descoberta traz novos interrogantes.


Resenhando.com - Há uma certa ironia em lançar a obra completa de Ricardo Reis no Brasil - o país para onde ele teria se exilado. Essa coincidência tem para vocês algum sentido simbólico?
Jerónimo Pizarro - Publicar Ricardo Reis no Brasil tem um sentido simbólico inevitável: é como se o heterónimo regressasse ao seu exílio imaginário. Há algo de circular e poético nesse gesto: Reis, que partiu para o Brasil, volta agora impresso e completo, como se cumprisse finalmente um destino literário.


Resenhando.com - Se Ricardo Reis pudesse escrever uma ode sobre este lançamento, o que ele diria?
Jerónimo Pizarro - Se Reis escrevesse uma ode sobre este lançamento, talvez dissesse: “Entre sombras antigas / e o rumor das nascentes, / um livro se fecha, outro desponta. / Nada é definitivo.” E sorriria, discretamente, perante a ideia de lançamento.



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