terça-feira, 22 de setembro de 2026

.: “A História dos Meus Peitos” coloca o desejo feminino no centro da narrativa


Romance de estreia de Mariana Guimarães revisita memórias de uma mulher a partir da relação com o próprio corpo e chega a São Paulo em noite de lançamento na Livraria Megafauna

“Nenhum homem nunca mais chupou meus peitos desde que minhas filhas botaram suas boquinhas neles.” É com essa frase que Luiza se apresenta ao leitor. Diante do espelho, ela examina o corpo até chegar aos seios, insatisfeita com as mudanças provocadas pelo tempo e pela maternidade. Depois de marcar uma consulta com um cirurgião plástico, o choque inicial dá lugar a uma viagem pelas lembranças que ajudaram a construir sua relação com o desejo e com o próprio corpo. 

O que começa diante do espelho, entre incômodos com o próprio corpo e a decisão de procurar um cirurgião plástico, logo ganha outros contornos em “A História dos Meus Peitos”, romance de estreia de Mariana Guimarães, publicado pela Editora Record. A protagonista Luiza transforma a própria memória em matéria literária e percorre infância, adolescência, descobertas do prazer, casamento e maternidade a partir de uma perspectiva bastante particular: a dos próprios peitos. 

A escritora Natalia Timerman assina o texto de orelha. O lançamento do livro será no dia 8 de outubro, às 19h00, na Livraria Megafauna do Copan, em São Paulo. Após o bate-papo, a autora participa de uma sessão de autógrafos. A conversa será conduzida pela jornalista Cris Bartis, do Mamilos Podcast.

A narrativa acompanha essa trajetória com intimidade e bom humor, revisitando diferentes momentos da vida da personagem e as maneiras pelas quais ela experimentou o prazer, fez escolhas e passou a enxergar a própria sexualidade. Os peitos, que poderiam ocupar apenas o papel de parte do corpo, ganham voz dentro dessa memória afetiva e se tornam uma espécie de fio condutor da história. 

O romance parte de uma experiência real vivida pela autora e transforma uma inquietação pessoal em literatura. Ao colocar o desejo de Luiza no centro, Mariana Guimarães também desloca a maneira como o corpo feminino costuma aparecer nas narrativas, especialmente quando observado pelo olhar alheio. Compre o livro "A História dos Meus Paitos", de Mariana Guimarães, neste link.


Sobre a autora
Mariana Guimarães nasceu em 1980, em São Paulo. Formada em Direito e Psicologia, trabalhou como advogada criminalista e atualmente atua como psicóloga e psicanalista. Mãe de três meninas, estreia na literatura com “A história dos meus peitos”.


Serviço
“A História dos Meus Peitos”
Lançamento: 8 de outubro, às 19h00
Local: Livraria Megafauna do Copan
Av. Ipiranga, 200, loja 53 - Centro / São Paulo

.: Novo cinema brasileiro coloca novos personagens no centro das histórias


Filmes recentes aproximam crianças, mulheres, idosos, personagens negros e LGBTQIA+ do centro da narrativa e revelam um país contado a partir de experiências que durante muito tempo apareceram nas margens

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Gugu tem quase 12 anos, gosta de futebol, dança e maquiagem, vive com a avó e tenta administrar sozinho uma situação que ultrapassa a idade que tem. Em “Feito Pipa”, Allan Deberton escolheu esse menino do interior do Ceará para conduzir uma história sobre afeto, família, preconceito, memória e perda. A escolha do personagem ajuda a entender uma das características mais interessantes do cinema brasileiro recente: o centro das narrativas está ficando maior.

Durante muito tempo, o cinema brasileiro comercial e autoral repetiu determinados tipos de protagonista. Homens adultos, urbanos, geralmente inseridos em conflitos políticos, familiares ou profissionais, ocuparam boa parte desse espaço. Eles continuam existindo, naturalmente, mas dividem a cena com personagens que chegam de outros lugares, idades, classes sociais, regiões e experiências.

O resultado aparece em filmes de perfis muito diversos em que circulam personagens que fogem do óbvio. Nessas produções, estão uma menina de 13 anos na Ilha do Marajó, uma professora aposentada de 75 anos em Belo Horizonte, duas meninas que se conhecem em um hospital, uma família negra lidando com o luto, duas mulheres que atravessam deslocamentos entre cidade e campo e um menino cearense criado pela avó podem parecer personagens sem muita relação entre si. Juntos, porém, ajudam a desenhar um país cinematográfico menos preocupado em caber em um único retrato.

A escolha de Gugu como protagonista de “Feito Pipa” chama atenção porque o personagem reúne características que poderiam facilmente empurrá-lo para o papel de coadjuvante dentro de uma história familiar. Ele é criança, vive no interior, gosta de atividades que desafiam expectativas associadas ao comportamento masculino e precisa lidar com a doença da avó enquanto teme ser separado dela.

No filme, essas características organizam a própria narrativa. Gugu, interpretado por Yuri Gomes, conduz o espectador por uma experiência de infância marcada por afeto, insegurança e descoberta, enquanto Dilma, interpretada por Teca Pereira, ocupa outro espaço que costuma receber menos atenção no cinema: o de uma mulher idosa que não existe apenas em função dos personagens mais jovens.

A relação entre os dois é fundamental para o filme e também ajuda a deslocar uma ideia antiga de família no audiovisual. Em vez de colocar adultos como responsáveis por explicar o mundo às crianças, “Feito Pipa” acompanha uma criança que também precisa cuidar, decidir, esconder, compreender e encontrar maneiras de continuar vivendo. A repercussão internacional do filme reforça essa escolha. Antes de ser selecionado para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, “Feito Pipa” passou pela Berlinale, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri da Generation Kplus, e depois conquistou cinco prêmios no Festival de Gramado, entre eles os reconhecimentos para Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos.


Protagonista de "Manas", Jamilli Correa foi descoberta em testes com centenas de crianças na Região Metropolitana de Belém e ilhas próximas, sem nenhuma experiência em atuação. Foto: divulgação

Uma menina olha para o futuro
“Manas”, de Marianna Brennand, também coloca uma adolescente no centro de uma história atravessada por violência, desigualdade e falta de perspectivas. Marcielle tem 13 anos e vive na Ilha do Marajó, no Pará. A personagem percebe que o futuro oferecido a ela segue um roteiro conhecido pelas mulheres de sua família e decide confrontá-lo. A diferença está no ponto de vista. O filme acompanha uma menina que observa o mundo ao redor e começa a entender as estruturas que limitam as possibilidades. Marcielle não aparece como uma figura distante a ser observada pelo público, mas é ela quem conduz a narrativa e percebe, aos poucos, aquilo que os adultos ao redor naturalizaram.

O cinema brasileiro recente tem apresentado outras personagens femininas em posições semelhantes, sem precisar encaixá-las em modelos de heroísmo tradicional. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Gabriel Martins acompanha uma professora aposentada de 75 anos que decide procurar as famílias das vítimas de um acidente provocado pelo próprio filho. Vicentina parte de uma tragédia íntima para entrar em contato com pessoas que ela sequer conhece e tentar encontrar uma maneira de continuar vivendo.

A idade da personagem também importa. Mulheres idosas ainda aparecem com frequência menor como protagonistas de histórias cinematográficas, sobretudo quando a narrativa não está organizada em torno da doença, da memória afetiva ou da relação com filhos e netos. Em “Vicentina Pede Desculpas”, Rejane Faria conduz uma personagem que toma decisões, erra, sofre, se movimenta e ocupa a história por inteiro.


Crianças também descobrem o mundo
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, dirigido por Rafaela Camelo, aproxima duas meninas de experiências relacionadas à doença, à amizade, à perda e ao amadurecimento. Glória, de dez anos, passa as férias no hospital onde a mãe trabalha e conhece Sofia, outra menina que está lidando com a piora da saúde da bisavó.

A infância aparece novamente como ponto de observação do mundo adulto. Em vez de apresentar crianças como personagens que apenas acompanham as decisões dos pais, o filme acompanha a maneira como elas interpretam acontecimentos que nem sempre conseguem compreender completamente. Parece uma diferença pequena, mas o que acontece é algo grande na construção narrativa. 

A criança deixa de ser apenas uma lembrança da infância dos adultos e passa a ter uma experiência própria, com dúvidas, desejos, medos e interpretações. “Feito Pipa” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” partem de situações diferentes, mas compartilham uma escolha: permitir que personagens infantis sustentem questões complexas sem transformá-los em pequenos adultos que reproduzem discursos prontos.


Famílias negras contam as próprias histórias
“Nosso Segredo”, de Grace Passô, parte de uma família negra que tenta reorganizar a vida depois de uma perda. O filme acompanha diferentes maneiras de lidar com o luto e coloca no centro uma família formada por personagens negros, com relações, conflitos e afetos que não precisam ser apresentados ao espectador como uma exceção.

Essa mudança de perspectiva aparece também em outros filmes brasileiros recentes, em que personagens negros ocupam posições variadas dentro das narrativas. Eles podem ser crianças, pais, trabalhadores, artistas, amantes, professores, criminosos, religiosos, idosos, protagonistas ou personagens secundários. A experiência negra deixa de estar limitada a determinados assuntos e passa a integrar a variedade de histórias possíveis.

“Malês”, de Antonio Pitanga, trabalha com outro registro ao recuperar a Revolta dos Malês e acompanhar personagens negros na Salvador de 1835. A produção utiliza um episódio histórico como matéria narrativa, mas também devolve nomes, relações, conflitos e protagonismo a personagens negros que durante muito tempo foram tratados de maneira secundária nas representações audiovisuais da história brasileira.

A diferença entre esses filmes também é reveladora. “Nosso Segredo” parte de uma família contemporânea e de uma experiência de luto. “Malês” olha para o século XIX e para a resistência de pessoas escravizadas. Um fala de uma família; o outro, de uma revolta histórica. Nenhum precisa reduzir seus personagens a uma única questão identitária.


O desejo também muda de lugar
A presença de personagens LGBTQIA+ no cinema brasileiro recente também ajuda a perceber essa ampliação. Em “Feito Pipa”, Gugu é um menino queer que vive sua infância em uma relação de afeto com a avó, enquanto o conflito com o pai está ligado à dificuldade de aceitação de quem ele é. Em “Cidade; Campo”, Juliana Rojas acompanha, entre outras questões, a relação de Flávia e Mara, duas mulheres que se mudam para uma fazenda depois da morte do pai de uma delas. O filme cruza relações afetivas, migração, trabalho, memória e território, sem transformar a relação das duas em uma história isolada do restante da vida.

A presença de personagens LGBTQIA+ nesse cinema também aparece acompanhada de diferenças de classe, idade, região e contexto familiar. Isso amplia a representação porque não existe uma única maneira de contar uma experiência dissidente. O cinema deixa de perguntar apenas quem esses personagens desejam amar e passa a mostrar onde trabalham, como vivem, do que têm medo, o que desejam, de onde vieram e para onde querem ir.


Mulheres atrás e diante da câmera
Os dados mais recentes da Ancine mostram que, entre os 367 longas-metragens brasileiros exibidos em 2025, 78 foram dirigidos exclusivamente por mulheres. O número representa 21,3% do total e supera os 52 filmes dirigidos exclusivamente por mulheres em 2024, quando a participação havia sido de 16,8%.

Ainda existe uma diferença considerável, mas a comparação entre os dois anos ajuda a perceber uma movimentação. “Cidade; Campo”, “Manas” e “A Natureza das Coisas Invisíveis” são exemplos de filmes recentes dirigidos por mulheres em que personagens femininas ocupam posições centrais. A relação entre quem conta e quem é contado não precisa seguir uma regra automática. Uma diretora não precisa fazer filmes sobre mulheres, assim como um homem não está condenado a contar histórias protagonizadas por homens. O que muda quando mais pessoas chegam às diferentes etapas da produção é o número de experiências disponíveis para virar roteiro, personagem, conflito e imagem.


Wagner Moura encabeça o elenco de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho. Foto: divulgação

Um país com mais de um protagonista
“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, oferece outro caminho. O protagonista é Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um homem que retorna ao Recife em 1977 e tenta reencontrar o filho enquanto é perseguido pela repressão da ditadura militar. É um personagem masculino, adulto e inserido em uma trama política, mas a narrativa também se constrói ao redor de figuras que ampliam o retrato daquela cidade e daquele período.

Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria, é um desses exemplos. O personagem integra uma rede de pessoas que oferecem abrigo e proteção a quem está sendo perseguido. A cidade também deixa de ser apenas cenário: Recife participa da construção da história, com seus cinemas, ruas, hábitos, sons, memórias e personagens. É essa variedade que ajuda a compreender o chamado “novo cinema brasileiro”. O termo não define uma escola estética nem uma geração fechada, mas pode ser observado na quantidade de perspectivas que passam a disputar o centro das narrativas. Compre o roteiro de “O Agente Secreto” neste link.


O centro ficou maior
Uma das melhores maneiras de observar o cinema brasileiro atual seja prestar atenção a quem aparece quando a câmera começa a filmar. As histórias são diferentes, os gêneros variam e os lugares também. O que elas têm em comum é a possibilidade de transformar experiências específicas em matéria de cinema. “Feito Pipa” chegou ao Oscar a partir do Ceará. Outros filmes recentes chegaram a Berlim, Cannes, Sundance, Toronto, San Sebastián e a diferentes festivais brasileiros levando personagens que não precisam abandonar sua origem para serem compreendidos fora dela.

O novo cinema brasileiro, nesse sentido, também pode ser observado pelo tamanho do elenco de protagonistas que ele ostentar. Quanto mais gente encontra espaço para contar a própria história, mais difícil fica resumir o país a meia dúzia de personagens conhecidos. O Brasil continua reconhecível, mas começa a aparecer por ângulos que o cinema nem sempre teve disposição, dinheiro ou liberdade para mostrar.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

.: “Os Assassinatos da Casa Decagonal” desafia leitores a decifrar clássico


Clássico de Yukito Ayatsuji, considerado um dos romances policiais mais importantes da literatura japonesa, chega em setembro pela Intrínseca em edição inédita no país. Foto: Naoto Otsubo / Kodansha Ltd.


Yukito Ayatsuji é um dos grandes nomes do honkaku, vertente do mistério japonês marcada pela construção de enigmas e pela valorização do raciocínio lógico na solução dos crimes. Publicado originalmente em 1987, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ajudou a renovar o gênero no Japão, tornou-se referência para uma geração de escritores e chega ao Brasil, pela Intrínseca, em uma edição inédita por aqui, com tradução de Lídia Ivasa. O romance também foi incluído pela revista Time entre os 100 thrillers mais importantes do mundo e tem como uma de suas inspirações “E Não Sobrou Nenhum”, clássico de Agatha Christie.

A história começa alguns meses depois de um crime que chocou o país. Um grupo de universitários decide viajar até uma ilha remota na costa do Japão, cenário de um homicídio quádruplo ainda sem solução. O destino escolhido é a Casa Decagonal, residência projetada pelo arquiteto Seiji Nakamura, uma das vítimas do caso e dono da propriedade. Apaixonados por romances policiais, os jovens chegam ao local esperando aproveitar a viagem entre enigmas, livros e aquela dose de excitação que acompanha uma boa história de mistério. 

O passeio, porém, ganha contornos bem menos divertidos quando um deles é encontrado morto. Isolados na ilha e sem possibilidade de contato com o continente, os universitários percebem que o conhecimento acumulado nas leituras de romances policiais pode ser a única ferramenta disponível para descobrir quem está por trás dos assassinatos - e, principalmente, permanecer vivos.

Com uma morte atrás da outra, a tensão cresce dentro da casa enquanto o grupo tenta compreender a lógica do criminoso e encontrar uma saída antes que seja tarde. No continente, a investigação ganha uma segunda frente quando um ex-integrante do grupo recebe uma carta misteriosa assinada por Seiji Nakamura, morto meses antes. Desconfiado de que a mensagem tenha relação com os crimes, ele começa a seguir as pistas por conta própria. Enquanto os jovens presos na ilha tentam solucionar o enigma que os cerca, a investigação no continente procura entender o que realmente aconteceu naquela casa e qual ligação existe entre a carta e os assassinatos.

Livro de estreia de Ayatsuji, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ocupa um lugar importante na história do mistério japonês e ajudou a consolidar o honkaku como uma vertente de grande força na literatura policial do país. A estrutura de quebra-cabeça, os personagens isolados e a sucessão de pistas fazem da obra uma espécie de jogo literário em que o leitor também é convidado a desconfiar de cada detalhe. Compre o livro “Os Assassinatos da Casa Decagonal”, de Yukito Ayatsuji, neste link.


Sobre o autor
Yukito Ayatsuji nasceu em 1960 e se tornou um dos principais escritores japoneses de suspense e terror. É um dos fundadores do Honkaku Mystery Writers Club, grupo formado por autores dedicados a histórias de mistério construídas em torno de enigmas, investigação e raciocínio lógico, com forte influência dos clássicos policiais. A relação de Ayatsuji com o gênero começou ainda na Universidade de Quioto, quando participou do clube de mistério da instituição. 

O ambiente reunia alguns dos nomes que posteriormente se destacariam na literatura policial japonesa e serviu de inspiração para o grupo de estudantes retratado em “Os assassinatos da Casa Decagonal”. Com o romance de estreia, Ayatsuji recuperou elementos tradicionais do policial de enigma e ajudou a impulsionar uma nova geração de escritores dedicados ao honkaku. O livro se tornou uma referência do gênero no Japão e consolidou o autor entre os principais nomes da literatura de mistério do país. Compre os livros de Yukito Ayatsuji neste link.

.: “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, na Funarte, recupera memórias inscritas


Criação de Claudia Palma reúne Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini em espetáculo inspirado no livro “Escute as Feras”, de Nastassja Martin. Foto: Hamilton Ramos

Depois de décadas de trajetórias que se cruzaram na dança paulistana, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini voltam a dividir a cena em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”, criação coreográfica de 2023 que reestreia no Complexo Cultural Funarte SP. As apresentações acontecem nos dias 25, 26 e 27 de setembro e 1.°, 2 e 3 de outubro, na Sala Renée Gumiel, dentro do projeto “Ser Tempo”, realizado pela iN SAiO Cia. de Arte.

Dirigido por Claudia Palma, o espetáculo parte de “Escute as Feras”, livro da antropóloga francesa Nastassja Martin. A obra nasceu de uma experiência real vivida pela autora durante uma pesquisa de campo entre os even, na península de Kamtchátka, na Sibéria: o encontro com um urso que deixou marcas físicas e profundas consequências em sua relação com o mundo. Publicado originalmente na França como “Croire aux Fauves”, em 2019, o livro chegou ao Brasil pela Editora 34 em 2021.

A experiência de Martin interessa ao espetáculo justamente pela ideia de encontro como acontecimento capaz de deixar marcas no corpo e na memória. Em “Miêdka”, Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini não retomam coreografias antigas de suas trajetórias. O reencontro acontece a partir das lembranças, sensações, afetos e experiências acumuladas ao longo dos anos.

A palavra que dá nome à criação vem de uma referência ligada aos povos even e designa a pessoa marcada pelo encontro com um urso, que passa a carregar uma condição entre o humano e o animal. A própria companhia apresenta a figura da miêdka como alguém que sobrevive ao encontro e passa a compartilhar marcas e sonhos com a natureza.

A escolha do livro de Nastassja Martin também aproxima a dança de uma experiência antropológica bastante particular. Em sua obra, a autora parte do episódio ocorrido em 25 de agosto de 2015 para refletir sobre identidade, natureza, mito e as fronteiras entre diferentes formas de existência. “É um extrato essencial daquilo que reflete nos nossos corpos hoje”, afirma Claudia Palma, que dirige a iN SAiO Cia. de Arte desde 2010. A companhia tem uma trajetória dedicada à pesquisa do corpo e das possibilidades expressivas do movimento e reúne, em seu repertório, trabalhos como “Um Outro Corpo”, “Cálamo”, “Lugar Algum”, “Dark Room”, “Abissal” e “Ato Infinito”.

A criação também marcou a temporada de 2023 ao receber o prêmio APCA Dança de Melhor Elenco para Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini. A premiação reconheceu o trio pela atuação em “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”. A programação da Funarte amplia a proposta da apresentação com atividades gratuitas relacionadas à dança e ao processo criativo. No dia 26 de setembro, após a sessão, acontece o bate-papo “Dança e Etarismo - A Potência das Idades”, com Ana Terra e Mariana Muniz. A apresentação do dia 27 terá audiodescrição.

O projeto “Ser Tempo” continua em outubro com uma residência artística conduzida pelos três intérpretes-criadores, entre os dias 6 e 9, além de duas mesas de discussão. “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”, no dia 8, reúne Zé Maria Carvalho e Zé Renato. No dia 9, “Criação e Memória na Dança” recebe Mariana Muniz, Luis Arrieta e Wellington Duarte, com mediação de Ana Terra.

Toda a programação é gratuita, incluindo as apresentações de “Miêdka – Uma Metáfora do Encontro”. O projeto da iN SAiO Cia. de Arte foi contemplado pela 39ª edição do Programa Municipal de Fomento à Dança para a cidade de São Paulo.


Ficha técnica
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Direção Geral e Artística: Claudia Palma | Intérpretes-Criadores: Armando Aurich, Claudia Palma e Ana Mondini | Trilha Sonora Original: Joaquim Tomé | Ambientação Cênica, Desenho e Operação de Luz: Hernandes Oliveira | Operação de Som: Gui Afonso | Figurino: Elenco | Provocação Filosófica: Rodrigo Vilalba | Escrita e Colaboração Dramatúrgica: Tatiana Avanço | Fotografia: Hamilton Ramos | Assessoria de Comunicação: Elaine Calux | Produção artística: Cristina Ávila | Produção executiva: Dionísio Produção Cultural (Cristiane Klein).


Serviço
Espetáculo “Miêdka - Uma Metáfora do Encontro”
Com: Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini
Dias  25, 26 e 27 de setembro | Sexta-feira, às 19h00; sábado e domingo, às 18h00
Dias 1.°, 2 e 3 de outubro | Quinta a sábado, às 19h00
Complexo Cultural Funarte SP - Sala Renée Gumiel
Alameda Nothmann, 1058 - Campos Elíseos / São Paulo
Duração: 60 minutos. Classificação: livre. Acessibilidade: sim. Audiodescrição: 27 de setembro, mediante reserva pelo WhatsApp 11 99548-4773. Ingressos: gratuitos, distribuídos uma hora antes do espetáculo

Residência artística “Miêdka”
6 a 9 de outubro, das 11h00 às 14h00 | 25 vagas

Mesas de discussão
8 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Políticas Públicas e Perspectivas para os Trabalhadores da Dança”
9 de outubro, das 19h00 às 21h30 - “Criação e Memória na Dança”
Toda a programação é gratuita.

.: Últimos dias de “Mire Veja”, com acervos do MAM SP no Sesc Bom Retiro


Mostra ocupa diferentes espaços da unidade do Sesc Bom Retiro até 27 de setembro e aproxima obras, públicos, práticas curatoriais e formas de mediação. Na imagem, Rodrigo Braga, Comunhão I, 2006. Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo. Foto: Rodrigo Braga

Até 27 de setembro, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e o Sesc São Paulo apresentam “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”, no centro da capital paulista. Com curadoria de Valquíria Prates e Mirela Estelles, a exposição reúne cerca de 50 obras de diferentes linguagens, suportes e períodos, colocando lado a lado trabalhos pertencentes aos acervos das duas instituições. 

A proposta parte do encontro entre coleções que possuem histórias, características e formas distintas de relação com o público. Como visitante, o MAM leva obras de sua coleção para a unidade do Sesc, sem alterar a configuração do espaço anfitrião. Ao mesmo tempo, trabalhos que já fazem parte do edifício e do Acervo Sesc de Arte passam a integrar a exposição, ganhando novas possibilidades de leitura a partir da convivência com as obras trazidas pelo museu.

Entre os artistas representados pelo MAM estão Alberto da Veiga Guignard, Alfredo Ceschiatti, Amelia Toledo, Brígida Baltar, Cao Guimarães, Carlos Zilio, Emanoel Araujo, Franz Weissmann, German Lorca, Giuliana Giorgi, Heitor dos Prazeres, Labo & Rafaela Kennedy, Laura Vinci, Lenora de Barros, Lothar Charoux, Paulo Nenflidio, Pedro Motta, Rodrigo Braga, Rosângela Rennó, Sara Ramo, Xadalu Tupã Jekupe e Zimar. Já o acervo presente no Sesc Bom Retiro inclui obras de Antonio Henrique Amaral, Artur Barrio, Cássio Vasconcellos, Claudio Tozzi, Cleber Machado, Eduardo Coimbra, Iran do Espírito Santo, Motta & Lima, Nelson Leirner, Paulo Bruscky, Rodrigo Andrade e Rubens Gerchman. O encontro entre esses trabalhos amplia as possibilidades de percepção sobre as próprias obras e sobre os espaços onde elas são apresentadas.

A exposição integra o programa “MAM em Movimento”, iniciativa dedicada à circulação de obras do acervo do museu em diálogo com outros espaços e instituições culturais. Em “Mire Veja”, o encontro entre as duas coleções também coloca em pauta as maneiras de construir narrativas, organizar acervos e estabelecer relações com diferentes públicos. A curadoria ocupa toda a unidade do Sesc Bom Retiro e investiga a atuação da mediação cultural na relação pública com os acervos, especialmente por meio de ações de curadoria, educação e comunicação de exposições de arte. 

“Todo acervo começa com um gesto de escolha. Escolher guardar é também escolher o que permanece, o que será cuidado, pesquisado, documentado e mostrado ao longo do tempo”, explica Mirela Estelles, que também é coordenadora do MAM Educativo. “Partindo dessa reflexão, a mostra convida as pessoas a pensar sobre o que significa constituir, preservar e tornar público um conjunto de obras, evidenciando os processos, decisões e práticas que sustentam a vida pública da arte”, diz Mirela.

“A exposição convida o público a refletir sobre o que se busca transformar a partir do contato de pessoas com obras de arte em exposições, conversando sobre trabalhos de arte contemporânea e sobre as múltiplas camadas de experiência que podem ocorrer nas exposições”, continua Valquíria Prates. “O que se coloca em exposição são as obras e seus processos de criação, mas também as formas de mostrá-las, os dispositivos que as acompanham, os textos, os áudios, os livros, os materiais educativos e os próprios espaços por onde o público circula. Aqui, a obra é entendida como um campo aberto de relações intencionais, continuamente atualizado no encontro com cada visitante que esteja interessado em fazer parte dos processos de mediação de uma mostra de arte”, reflete a curadora, que investiga saberes e práticas colaborativas de mediação cultural em diferentes territórios, instituições e contextos sociais.


Arte espalhada pelo Sesc Bom Retiro
A exposição ocupa o edifício onde parte do Acervo Sesc de Arte é apresentada desde a abertura do Sesc Bom Retiro. O percurso passa pelo espaço expositivo e pela biblioteca, mas também chega aos corredores, escadas e áreas de convivência da unidade. Com isso, a experiência diante das obras ganha outros caminhos. A arte aparece em lugares de circulação cotidiana e passa a dividir espaço com as atividades habituais do Sesc, ampliando a possibilidade de encontro entre os trabalhos e seus frequentadores.

Constituído desde os primeiros anos da instituição, o Acervo Sesc de Arte representa uma das principais ações do Sesc São Paulo no campo das artes visuais. A coleção atua simultaneamente como patrimônio cultural e como suporte para atividades educativas. Reúne obras de arte moderna, contemporânea e popular e teve momentos decisivos de formação nas décadas de 1970 e 1980, mantendo-se em expansão por meio de aquisições e doações orientadas por critérios estéticos e históricos.

O acervo está distribuído pelas unidades do Sesc no estado de São Paulo e possui uma característica que interfere diretamente na experiência de quem frequenta os espaços: muitas obras permanecem em exibição permanente, em locais de circulação ou em projetos site-specific, criados especialmente para determinados ambientes arquitetônicos. A opção aproxima arte, arquitetura e território, colocando a produção artística em contato direto com diferentes públicos.

"A opção por apresentar seu acervo artístico em espaços de circulação, é um gesto da instituição que visa aproximar a produção visual do cotidiano de seus frequentadores. Dessa forma, o Sesc São Paulo escolheu pela apresentação de sua coleção em locais improváveis - piscinas, ginásios, centrais de atendimento - permitindo que a arte esteja presente para além dos espaços dedicados", comenta Juliana Braga, gerente de Artes Visuais e Tecnologia do Sesc São Paulo, responsável pela gestão do Acervo Sesc de Artes.

Biblioteca também vira espaço de pesquisa
A pesquisa sobre mediação cultural, educação e exposições também ocupa a biblioteca do Sesc Bom Retiro, que passa a funcionar como espaço de exposição, pesquisa e mediação. Livros, materiais educativos, maquetes táteis e outros recursos desenvolvidos pelo MAM Educativo ampliam a experiência da mostra e ajudam a colocar em evidência os conhecimentos, práticas e experiências construídos ao redor das obras.

Ao aproximar obras, instituições, práticas curatoriais e ações educativas, “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro” propõe uma reflexão sobre os caminhos percorridos pelos acervos quando entram em contato com seus públicos. Cada apresentação pode criar novas relações a partir daquilo que o visitante percebe, questiona e compartilha. O próprio título da exposição brinca com essa relação entre olhar e perceber. Entre “mirar” e “ver”, a mostra abre espaço para diferentes experiências diante das obras e dos ambientes que passam a fazer parte do percurso.


Serviço
Exposição: “Mire Veja: MAM São Paulo visita Sesc Bom Retiro”

Local: Sesc Bom Retiro
Curadoria: Valquíria Prates e Mirela Estelles
Período expositivo: até dia 27 de setembro de 2026
Horários: terça a sexta, das 9h às 20h; sábado, das 10h às 20h; domingo e feriado, das 10h às 18h
Local: Espaço Expositivo
Classificação: livre
Endereço: Alameda Nothmann, 185 - Campos Elíseos / São Paulo
Entrada: gratuita

.: "As Cores do Tempo" costura passado e presente com arte, família e memória


Filme de Cédric Klapisch acompanha quatro primos que investigam a história de uma ancestral na Paris de 1895 e estreia no streaming Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Uma casa abandonada na Normandia, fotografias antigas, pinturas, cartas e uma família numerosa que mal se conhece. É desse conjunto de pistas que Cédric Klapisch parte em "As Cores do Tempo", comédia dramática francesa e belga que coloca quatro primos diante de uma história familiar que começa muito antes de eles nascerem. Depois da passagem pelos cinemas brasileiros e da exibição no 2º Festival de Cinema Europeu Imovision, o filme chega ao streaming Reserva Imovision. O longa-metragem teve sua estreia mundial fora de competição no Festival de Cannes de 2025.

A trama acompanha Seb, Guy, Céline e Abdel, quatro parentes entre mais de trinta herdeiros ligados à mesma família. Eles recebem a tarefa de investigar uma antiga propriedade na Normandia, praticamente intocada desde a década de 1940. No interior da casa aparecem vestígios da vida de Adèle Vermillard, jovem que deixou a região em 1895, aos 20 anos, rumo a Paris, onde pretendia encontrar a mãe.

A investigação contemporânea abre espaço para a segunda linha narrativa do filme. Klapisch leva o público à Paris do final do século XIX, período de grandes mudanças tecnológicas e artísticas, quando a fotografia ganhava força e o Impressionismo modificava a relação entre pintura e realidade. O cineasta contou ao Festival de Cannes que escolheu colocar 1895 e o presente em diálogo justamente por reconhecer semelhanças entre dois momentos de forte transformação tecnológica e cultural.

Suzanne Lindon interpreta Adèle e ocupa uma posição central nessa viagem temporal. A atriz, filha de Vincent Lindon e Sandrine Kiberlain, ganhou projeção com "Jovens Amantes" e aparece cercada por nomes como Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau e Cécile de France. O elenco ainda reserva participações de figuras históricas ligadas à vida cultural francesa, entre elas Claude Monet, Victor Hugo, Sarah Bernhardt e Félix Nadar.

O roteiro é assinado por Klapisch em parceria com Santiago Amigorena, colaborador de longa data do diretor. A fotografia de Alexis Kavyrchine e a direção de arte de Marie Cheminal têm papel particularmente importante na construção das duas épocas. O filme foi rodado em diferentes localidades da Normandia e da região de Île-de-France, além dos jardins e da casa de Claude Monet em Giverny, cenário que combina naturalmente com a aproximação do filme ao universo impressionista.

A produção também utilizou um trem Nomad durante uma viagem entre Paris e Le Havre para algumas cenas. A escolha das locações ajuda a construir uma França de fim de século que ainda preservava áreas rurais próximas à capital, ao mesmo tempo em que experimentava eletricidade, fotografia, novas formas de transporte e outras novidades que alteravam a vida cotidiana.

A presença de Monet não fica restrita à decoração de época. O pintor aparece em momentos diferentes da narrativa, numa brincadeira com o próprio tempo e com a maneira como os personagens contemporâneos passam a enxergar o passado. A relação com a arte, portanto, não serve somente para deixar a produção mais bonita: fotografias, pinturas e objetos antigos funcionam como peças de investigação para os descendentes de Adèle.

A imprensa francesa percebeu essa combinação de leveza, fantasia e reconstrução histórica. Le Monde destacou a maneira como Klapisch articula as duas épocas sem recorrer ao tradicional recurso dos flashbacks, enquanto a TF1 classificou o filme como uma comédia moderna construída a partir dos encontros entre passado e presente.

O resultado tem o conhecido interesse de Klapisch pelas relações humanas, mas aqui a família ganha uma dimensão particular: os personagens precisam conhecer uma mulher que morreu muito antes de eles nascerem para compreender melhor a própria origem. E, como costuma acontecer quando alguém resolve mexer em caixas antigas, uma fotografia nunca é apenas uma fotografia quando existe uma história escondida atrás dela.

A crítica de Mary Ellen Farias dos Santos, editora e criadora do Resenhando.com, também chamou atenção para a força visual da produção. Em sua análise, ela descreveu "As Cores do Tempo" como um filme de fotografia contemplativa, marcado pela relação entre arte, memória e passagem do tempo, e destacou a construção em duas linhas temporais, entre 1895 e 2024/2025. Leia a crítica completa neste link.

O filme teve boa recepção popular na França, onde alcançou quase 1 milhão de espectadores, segundo dados divulgados pela Imovision e repercutidos pelo Resenhando.com. No Brasil, chegou aos cinemas em 30 de julho de 2026, depois da passagem pelo Festival de Cinema Europeu Imovision. Agora, com a chegada ao streaming, "As Cores do Tempo" oferece uma viagem cinematográfica em que uma casa velha guarda fotografias, pinturas e cartas capazes de aproximar uma família contemporânea de uma jovem que, em 1895, decidiu descobrir de onde vinha. No caminho, aparecem Paris, Monet, fotografia, Impressionismo, amores, escolhas e uma boa dose da delicadeza que costuma acompanhar os filmes de Klapisch.


Ficha técnica
"As Cores do Tempo" | "La Venue de l'avenir" (título original) | "Colours of Time" (título internacional)
Gênero: comédia dramática. Duração: 126 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 22 de maio de 2025, na França; 15 de janeiro de 2026, em Portugal; 30 de julho de 2026, nos cinemas brasileiros. Idioma: francês. Direção: Cédric Klapisch. Roteiro: Cédric Klapisch e Santiago Amigorena. Elenco: Suzanne Lindon, Abraham Wapler, Vincent Macaigne, Julia Piaton, Zinedine Soualem, Paul Kircher, Vassili Schneider, Sara Giraudeau, Cécile de France, Olivier Gourmet, Claire Pommet, Fred Testot, François Berléand, Philippine Leroy-Beaulieu e Vincent Pérez. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

.: "O Futuro Espera" leva a Paris ocupada para o confinamento de uma família


Drama de Nils Tavernier, inspirado na história real de Tauba Zylbersztejn, acompanha dois anos de uma família escondida em uma pequena dependência sob os telhados de Paris durante a ocupação nazista

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

A Paris de 1942 aparece em "O Futuro Espera" por uma perspectiva bastante particular: a de quem praticamente não pode sair do lugar. Dirigido por Nils Tavernier, o filme franco-belga que acaba de chegar ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte acompanha Tauba Zylbersztejn e seus pais, judeus poloneses que escapam da perseguição aos judeus em Paris e encontram abrigo em uma pequena dependência sob os telhados da cidade. O que deveria ser uma solução provisória acaba se prolongando por cerca de dois anos, enquanto a família convive com o medo de ser descoberta.

Inspirado em uma história real, o filme tem como protagonista a adolescente Tauba, interpretada por Violette Guillon. Guillaume Gallienne e Adeline d’Hermy vivem seus pais, Moshe e Rywka, enquanto Sandrine Bonnaire interpreta Rose Dinanceau, uma das pessoas que ajudam a família a permanecer escondida. O roteiro é assinado por Tavernier ao lado de Guy Birenbaum e Laurent Bertoni.

O caso que deu origem à produção é especialmente impressionante pela duração do confinamento. Segundo o "Le Parisien", Tauba, seus pais e o casal francês que os ajudou passaram 765 dias ligados àquele pequeno espaço. A família havia escapado da batida policial associada à Rafle du Vél’ d’Hiv, em julho de 1942, e conseguiu se esconder no número 209 da Rue Saint-Maur, no 10º arrondissement de Paris.

A história chegou ao cinema a partir do testemunho da própria Tauba. Em 1997, ela relatou sua experiência em uma entrevista que integra o trabalho de preservação de depoimentos de sobreviventes da Shoah associado ao projeto de Steven Spielberg. O material serviu de base para a construção do filme e também para o livro homônimo escrito por Guy Birenbaum, filho de Tauba e um dos roteiristas da produção.

A ligação de Birenbaum com a história dá ao projeto uma dimensão familiar bastante particular. Tauba era sua mãe, e o roteiro parte justamente das lembranças e do testemunho dela. Em entrevista ao CRIF, o escritor contou que a equipe chegou a reproduzir cuidadosamente o espaço onde sua família permaneceu durante os 765 dias. A reconstituição do pequeno cômodo foi um dos elementos centrais da produção.

Tavernier utiliza o espaço reduzido para construir uma narrativa marcada pela tensão da espera. A família precisa administrar o medo, a falta de liberdade e as mudanças na relação entre seus integrantes, enquanto os acontecimentos da guerra chegam por sons, notícias e breves vislumbres do mundo exterior. Para Tauba, entretanto, pequenas possibilidades de liberdade ganham outro peso: um piano desenhado no chão e a vista de Paris pelas janelas tornam-se formas de manter a imaginação em movimento.

A produção também investiu na reconstrução histórica de Paris. O cenário da Rue Saint-Maur e o pequeno espaço ocupado pela família foram recriados com atenção aos detalhes, enquanto imagens de arquivo ajudam a aproximar a experiência particular dos personagens dos acontecimentos que tomavam conta da cidade. O projeto recebeu apoio da Fondation pour la Mémoire de la Shoah, instituição dedicada à preservação e transmissão da memória do Holocausto.

É uma produção que parte de uma história familiar para recuperar um dos períodos mais sombrios da história europeia. O filme já havia estreado nos cinemas franceses em fevereiro de 2025 e apresenta Nils Tavernier, filho do também cineasta Bertrand Tavernier, diante de uma narrativa baseada em uma experiência vivida e registrada pela própria sobrevivente.

Ficha técnica
"O Futuro Espera" | "La Vie Devant Moi" (título original) |"The Future Awaits" (título internacional)
Gênero: drama, biografia. Duração: 93 minutos. Classificação indicativa: a definir no Brasil. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: Nils Tavernier. Roteiro: Nils Tavernier, Guy Birenbaum e Laurent Bertoni. Elenco: Violette Guillon, Guillaume Gallienne, Adeline d’Hermy, Sandrine Bonnaire, Laurent Bateau, Claude Mathieu, Rod Paradot e Bernard Le Coq. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

.: “Feito Pipa” mostra um cinema que deixou o eixo Rio-São Paulo para trás


Filme de Allan Deberton leva Quixadá ao Oscar e ajuda a revelar uma produção audiovisual que cresce fora dos grandes centros, com políticas públicas, festivais, produtoras independentes e histórias que encontram no território a matéria-prima para chegar ao mundo. Foto: divulgação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, no dia 5 de novembro, o público encontrará na tela um pedaço do Ceará que já fez uma viagem considerável. O filme de Allan Deberton surgiu de memórias de infância em Russas, foi rodado em Quixadá, estreou na Berlinale, recebeu dois dos principais prêmios da mostra Generation Kplus, passou por outros festivais internacionais, conquistou quatro Kikitos e uma Menção Honrosa em Gramado e agora representa o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. 

A trajetória de “Feito Pipa” tem uma particularidade que merece atenção: ela começa longe do eixo Rio-São Paulo, onde durante décadas se concentraram boa parte das estruturas, dos profissionais e das oportunidades do cinema brasileiro. O mapa, porém, mudou. Os números mais recentes da Agência Nacional do Cinema ajudam a enxergar essa mudança. Em 2025, o Brasil registrou 3.981 obras audiovisuais, recorde histórico, e as regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste tiveram crescimento de 9% na produção. 

No mesmo ano, 367 filmes brasileiros chegaram aos cinemas, levando 11,12 milhões de espectadores às salas e movimentando R$ 214,99 milhões em renda. Os números não significam que a velha concentração tenha desaparecido, mas que existe mais coisa acontecendo fora dela.


O Ceará que virou cenário, escola e fábrica de cinema
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, mas precisou sair do estado para estudar Cinema. Quando entrou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ainda não havia um curso superior de Cinema no Ceará. O retorno veio pelas próprias histórias. Foi em Russas que o cineasta filmou “Doce de Coco”, seu primeiro curta-metragem, e também “Pacarrete”, o filme que o projetou nacionalmente e conquistou oito Kikitos no Festival de Gramado. 

A trajetória seguinte trouxe “Feito Pipa”, novamente ligado ao interior cearense, e consolidou uma carreira construída em torno de personagens e histórias que carregam a marca de seu território. Existe uma diferença importante entre filmar fora do eixo e simplesmente levar uma equipe para filmar em outro lugar. A própria Deberton Filmes mantém sede em Fortaleza e é liderada por Allan Deberton e pelo produtor Marcelo Pinheiro, profissional formado no ambiente audiovisual cearense. 

Pinheiro participa da produtora desde 2020 e esteve envolvido em projetos como “Pacarrete”, “Transversais”, “O Melhor Amigo” e “Feito Pipa”. Cinema não nasce quando alguém grita “ação”. Antes disso, existe formação profissional, roteiro, produção, captação de recursos, preparação de elenco, locação, fotografia, montagem, som, pós-produção, distribuição e uma quantidade considerável de gente que precisa pagar as contas enquanto espera o próximo projeto.


A importância das políticas públicas
“Feito Pipa” teve apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, da PNAB Ceará, do Governo do Ceará, do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul, do Fundo Setorial do Audiovisual, da Ancine e do Ministério da Cultura. Não se trata de uma informação burocrática escondida nos créditos finais. O financiamento ajuda a explicar como uma produção independente consegue existir, contratar profissionais, filmar em uma cidade do interior, finalizar o material e levá-lo para um circuito internacional.

O próprio Allan Deberton resumiu essa relação em entrevista ao C7nema ao falar sobre “Feito Pipa”: “Sem política pública, um filme como 'Feito Pipa' não acontece”. A frase ganha dimensão maior quando colocada diante da estrutura que vem sendo construída no Ceará. Em 2026, o estado abriu o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual, com um conjunto de ações que soma R$ 34 milhões para fortalecer a cadeia produtiva local. Desse total, R$ 25 milhões vêm do Fundo Setorial do Audiovisual e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. 

O programa contempla produção e finalização de curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão e outras modalidades, além de editais específicos para produção de longa-metragem para salas de cinema e conteúdos para TV e vídeo sob demanda. O estado também deu outro passo em 2025, quando a Assembleia Legislativa aprovou a criação da Empresa Cearense do Audiovisual, vinculada à Secretaria da Cultura. 

A legislação prevê atuação em produção, distribuição, promoção e difusão de conteúdos, atração de investimentos, formação, pesquisa, film commission e articulação de políticas públicas para o setor. A expressão “novo cinema brasileiro”, portanto, começa a ganhar uma dimensão que vai além de estética ou geração.


Uma rede que começa antes do filme

Quem acompanha o cinema brasileiro pelos lançamentos costuma encontrar o resultado final: o cartaz, o trailer, o festival, a crítica, os atores conhecidos e, quando tudo dá certo, a indicação a um prêmio. O caminho até ali costuma ser bem menos glamouroso. No Ceará, essa cadeia passa por equipamentos como o Cinema do Dragão e o Cineteatro São Luiz, por editais de produção, difusão e festivais, por cineclubes e por iniciativas de formação. 

O Panorama do Ecossistema Audiovisual publicado pelo Ministério da Cultura registra essa estrutura e mostra também conexões do Ceará com outros estados por meio dos chamados Arranjos Regionais. A lógica dos Arranjos Regionais é especialmente interessante porque mexe numa velha dificuldade do audiovisual brasileiro: produzir fora dos centros tradicionais sem deixar o produtor regional sozinho diante de uma indústria concentrada. 

Em 2025, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual aprovou R$ 242 milhões para suplementação dos Arranjos Regionais. O planejamento estabeleceu percentuais específicos para diferentes regiões e manteve mecanismos de descentralização dos investimentos. A política pública, nesse caso, tenta fazer com que dinheiro e produção circulem por mais lugares.


O Nordeste não é um gênero cinematográfico
Existe uma armadilha na maneira de falar sobre a produção audiovisual nordestina: tratar tudo como se fosse parte de uma mesma estética. Um filme rodado no Ceará não precisa falar de seca. Uma produção baiana não precisa ter carnaval. Um diretor pernambucano não precisa carregar a obrigação de representar Pernambuco a cada plano. 

O que existe é uma multiplicidade de cinematografias produzidas em territórios que durante muito tempo tiveram menos acesso aos mecanismos de produção e circulação. “Feito Pipa” está profundamente ligado ao Ceará, mas sua história não depende de o espectador conhecer Quixadá, Russas ou a paisagem da região. Gugu é um menino específico, numa família específica, vivendo um conflito específico. 


De Quixadá para Berlim

A passagem de “Feito Pipa” pela Berlinale ajuda a dimensionar o que significa essa produção. O filme chegou à mostra Generation Kplus e recebeu o Urso de Cristal, concedido pelo Júri Infantil e Juvenil, além do Grande Prêmio do Júri Internacional. Depois, seguiu para outros festivais e chegou a Gramado já carregando uma trajetória internacional. A recepção também mostra outra característica dessa circulação.

O filme não precisou abandonar sua identidade regional para entrar no circuito internacional. Ao contrário: foi justamente carregando uma história situada no Ceará que encontrou espectadores em outros países. Durante a Berlinale, Allan Deberton contou que André Araújo, roteirista de “Feito Pipa”, é seu conterrâneo e que a história nasceu de um lugar íntimo. É uma informação pequena, mas reveladora: dois profissionais que cresceram no mesmo estado transformaram lembranças em roteiro, roteiro em filme e filme em uma produção exibida na Alemanha. O mapa da criação cinematográfica pode ser muito maior do que o mapa da indústria.

Essa cadeia ainda enfrenta dificuldades de distribuição, formação, financiamento e acesso ao público. A própria Ancine aponta que o fortalecimento da produção regional continua entre os desafios do setor e vem utilizando instrumentos como os Arranjos Regionais para ampliar os investimentos. Em 2025, a agência também registrou crescimento das produções do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Enquanto isso, novos editais continuam surgindo.

Em agosto de 2026, o Ceará abriu inscrições para seu 16º Edital de Cinema e Audiovisual. Entre as modalidades está a produção de longas-metragens para salas de cinema, em parceria com MinC, FSA e BRDE. Isso significa que “Feito Pipa” pode ser visto de duas maneiras: como uma história de sucesso de um filme específico e como parte de uma estrutura que tenta fazer com que outros filmes também possam existir.


Dossiê Resenhando.com - Novo Cinema Brasileiro

domingo, 20 de setembro de 2026

.: Documentário recupera a trajetória de Éder Jofre em sessão com debate


Documentário de Ugo Giorgetti revisita a carreira do maior boxeador brasileiro de todos os tempos em exibição gratuita seguida de bate-papo com o diretor. Foto: divulgação

O MIS - Museu da Imagem e do Som de São Paulo realiza, no dia 24 de setembro, mais uma edição do Doc.MIS, desta vez dedicada a “Quebrando a Cara”, documentário dirigido por Ugo Giorgetti que acompanha a trajetória de Éder Jofre, nome fundamental do boxe brasileiro e duas vezes campeão mundial, nas categorias peso galo e peso pena. Depois da sessão, o diretor do filme participa de um bate-papo com o público, mediado por Liniane Haag Brum. A conversa amplia a experiência da exibição e coloca em discussão a construção do documentário e a trajetória de Éder Jofre, personagem cuja história esportiva se mistura à própria memória paulistana.

Lançado em 1986, o filme combina registros de algumas das principais lutas do pugilista com depoimentos de familiares e pessoas próximas, recuperando também a relação das famílias Zumbano e Jofre com a história do esporte em São Paulo. O resultado é um retrato que vai além do ringue para observar as relações, as dificuldades e o ambiente social que cercava um dos grandes ídolos do boxe nacional.

Sobre o documentário
A trajetória do boxeador Éder Jofre, duas vezes campeão mundial, se entrelaça à história das famílias Zumbano e Jofre e à própria cidade de São Paulo. Entre depoimentos de familiares, lembranças e registros de algumas das principais lutas de Éder, "Quebrando a Cara" revisita as origens de um dos maiores nomes do boxe brasileiro e revela o universo social e afetivo que se formou ao redor dos ringues paulistanos. A produção acompanha as conquistas esportivas sem deixar de lado a luta, a persistência e o desejo de vencer diante das dificuldades enfrentadas pelos personagens.


Sobre o convidado
Ugo Giorgetti  é cineasta, roteirista e cronista. Iniciou a carreira na publicidade e, a partir dos anos 1970, passou a se dedicar ao cinema, realizando documentários e filmes de ficção. Sua filmografia mantém uma relação particular com São Paulo, seus espaços, personagens e transformações sociais. Entre seus principais trabalhos estão “Quebrando a Cara” (1986), “Festa” (1989), vencedor do Festival de Gramado, “Sábado” (1995), “Boleiros - Era Uma Vez o Futebol” (1998), “Uma Outra Cidade” (2000), “O Príncipe” (2002), “Cara ou Coroa” (2012) e “Uma Noite em Sampa” (2015). Também atuou como cronista de futebol no jornal O Estado de S. Paulo. Em 2024, Giorgetti recebeu o Prêmio FCW de Cultura pelo conjunto de sua trajetória. Ao longo de mais de quarenta anos de carreira cinematográfica, dirigiu 22 obras. A mais recente é o documentário “Alberto Dines – Vínculos de liberdade”, lançado em 2026.

Sobre a mediadora
Liniane Haag Brum, nascida em Porto Alegre, é escritora e pesquisadora. É autora de “Antes do passado – o silêncio que vem do Araguaia” (Arquipélago), entre outros trabalhos. Doutora em teoria e história literária pela Unicamp, mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP e graduada em comunicação social pela PUC-RS, atualmente dedica-se à divulgação científica e cultural no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, na Unicamp.

Serviço | Doc.MIS – “Quebrando a Cara”
Dia 24 de setembro, às 19h00.
Auditório MIS (168 lugares).
Ingresso: gratuito. Retirada com uma hora de antecedência na bilheteria física do museu.
Classificação: 10 anos.
A programação é uma realização do Ministério da Cultura, Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas de São Paulo, e Museu da Imagem e do Som, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, ProAC e Promac.
O MIS tem patrocínio institucional da Livelo, Vivo, Goldman Sachs, Ituran e Goodstorage e apoio institucional das empresas Delboni, EAÍ?! Marketing, Unisys, Volkswagen Caminhões e Ônibus, Unipar, Campari, Colégio Albert Sabin, PWC, Pirelli, Alcaçuz, Telium, Kaspersky, Gabriel e Play Audiovisual.

.: Teatro em SP: "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"


Espetáculo premiado de Lucca Marques e Rafael Salmona reúne amor, luto, saúde mental, masculinidade e vulnerabilidade emocional ao colocar dois homens diante das lembranças de uma relação marcada por afeto, violência e culpa. Foto: Arthur Romão

O espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia", de Lucca Marques e Rafael Salmona, com direção de Áurea Liz, chega a São Paulo para uma curta temporada no Espaço Cia da Revista, de 1º a 11 de outubro. A montagem acompanha dois homens que se reencontram à beira de uma ponte depois de anos afastados e revisitam uma relação marcada por afeto, violência, culpa e sentimentos que ficaram pelo caminho. Com dramaturgia poética e fragmentada, a peça investiga os mecanismos da memória e as marcas deixadas por experiências que permaneceram sem elaboração. João e Felipe transitam entre gravações, lembranças e melodias enquanto tentam compreender o que viveram juntos e as versões que construíram de si mesmos e um do outro.

A montagem estreou no Festival Internacional de Teatro do Atlântico, em Cabo Verde, e passou por Portugal e Espanha, onde ganhou também uma versão em língua espanhola. A estreia nacional aconteceu em Brasília, em janeiro de 2026. Em setembro, o espetáculo participou do FESTEI – Festival Nacional de Teatro de Ibiúna, realizado entre os dias 3 e 7, e voltou para casa com três prêmios: melhor cenografia, melhor dramaturgia e melhor ator, para Rafael Salmona.

No festival, "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" recebeu ainda indicações em oito categorias: melhor cenografia, melhor sonoridade, melhor iluminação, melhor dramaturgia, melhor direção, melhor ator para Lucca Marques, melhor ator para Rafael Salmona e melhor espetáculo. Na encenação, música, palavra e movimento aproximam presente e passado, realidade e lembrança. A estrutura fragmentada acompanha uma memória que não se apresenta de maneira linear: recordações se sobrepõem, versões entram em conflito e acontecimentos aparentemente encerrados reaparecem sob outras perspectivas.

A pergunta que atravessa a montagem está relacionada ao que fazemos com as experiências que continuam reverberando depois que uma relação chega ao fim. “Quando uma melodia se rompe, é possível simplesmente seguir adiante ou levamos para as relações seguintes os ecos daquilo que nunca conseguimos escutar?", questionam os dramaturgos Lucca Marques e Rafael Salmona, que também estão em cena. A trajetória da montagem ganhou ainda uma extensão literária. A dramaturgia foi publicada em edição bilíngue português-espanhol pela editora Giostri. Compre o livro "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Direção: Áurea Liz
Dramaturgia e atuação: Lucca Marques e Rafael Salmona
Concepção de luz: Caio Maciel
Operação de luz: Caio Maciel
Cenotécnica: Artur Ribeiro
Trilha sonora original: Andrei Machado, Fábio Gesteira e Lucca Marques
Colaboração artística: Irina Buss e Vinícius Ávlis
Produção: Casa dos Quatro e Coletivo Levante
Produtor local: Ricardo Corrêa

Serviço
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Temporada: 1º a 11 de outubro de 2026. 1º de outubro, quinta, às 20h00; 2 e 9 de outubro, sextas, às 20h00; 3 e 10 de outubro, sábados, às 20h00; e 11 de outubro, domingo, às 19h00.
Local: Espaço Cia da Revista (Alameda Nothmann, 1135 - Campos Elíseos / São Paulo) 
Ingressos: R$ 90,00 (inteira) e R$ 45,00 (meia-entrada), à venda pela Sympla.
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

.: Johnny Massaro leva “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” ao palco


Espetáculo inspirado no best-seller de Ana Suy conduz o público por uma visita bem-humorada ao coração humano, entre desejos amorosos, términos e a solidão que acompanha a vida. 
Foto: Hudson Rennan

Com mais de 500 mil exemplares vendidos, o livro “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”, da psicanalista e escritora Ana Suy, chega ao teatro pelas mãos de Johnny Massaro, que idealiza e protagoniza a montagem. O espetáculo estreia no Auditório do Sesc Pinheiros, onde permanece em cartaz de 24 de setembro a 31 de outubro, com produção artística de Pablo Sanábio, dramaturgia de Júlia Portes e direção de Helena Varvaki.

A adaptação parte de uma obra psicanalítica que não nasceu com personagens ou uma narrativa dramática convencional. No palco, esse material ganha corpo por meio de um guia turístico que conduz o público por uma espécie de passeio pelo coração humano. Entre a expectativa pelo encontro com a pessoa amada e os sentimentos que aparecem quando uma relação chega ao fim, o personagem transforma a visita em uma experiência existencial, afetiva e bem-humorada.

A ideia surgiu para Johnny Massaro há cerca de três anos, quando ele encontrou o livro em meio a um período complicado de um relacionamento. “Exigem de nós, e a gente exige de nós mesmos, que saibamos agir no exercício do amor, quando, na verdade, não é algo para o qual fomos educados. É como Ana diz: ‘É porque alguém, em algum momento, nos amou, mesmo que tenha nos amado mal, que a gente aprende a amar’. Eu me via falhando e repetindo os mesmos erros de relação em relação, geralmente culpando o outro pela falta de consciência dos meus próprios padrões e desejos. Estava cansado e curioso. A consciência de que eu precisava aprender de alguma forma aquelas informações do livro foi muito intensa e pareceu inevitável levá-lo ao palco”, revela.

A própria autora acompanhou o processo com entusiasmo. Para Ana Suy, a adaptação provocou uma sensação curiosa de reconhecimento diante de algo que, ao mesmo tempo, se apresentava de maneira nova. “Foi um susto delicioso ver a interpretação do Johnny na adaptação do meu livro! Senti um misto de estranheza e de reconhecimento, se aproximando muito do que Freud chamou de ‘infamiliar'. Para ele, o infamiliar contempla o familiar e foi isso que vivi. Trata-se de um texto emocionante, bastante original... ao mesmo tempo em que reconheço minhas ideias, palavras e a centralidade da minha tese em "a gente mira no amor e acerta na solidão". Só uma equipe muito talentosa e com muito cuidado (que talvez seja um bom nome para o que surge quando somamos amor e solidão) poderia construir uma peça tão bonita!”

Para Pablo Sanábio, o projeto também nasceu de uma coincidência feliz. Quando recebeu a mensagem de Johnny propondo a montagem, estava justamente lendo o livro de Ana Suy. “Acho muito bonita essa coisa da sincronicidade da vida. Quando o Johnny me escreveu falando da ideia de montar a peça, eu estava justamente lendo o livro. Esse projeto tem ainda um significado especial para mim, porque ele nasce também da nossa amizade. Eu e Johnny temos uma relação de muito afeto, troca e admiração. E falar de amor, para mim, é falar também sobre o amor entre amigos. Sobre essas pessoas que a vida coloca no nosso caminho e que acabam se tornando parte da nossa história”.


Da psicanálise ao teatro
Adaptar um livro de psicanálise para o palco exigiu encontrar uma estrutura dramática capaz de transformar ideias e reflexões em ação teatral. Johnny conta que chegou a apresentar o projeto a diversos dramaturgos e dramaturgas, recebendo respostas semelhantes sobre a dificuldade da empreitada. A solução apareceu durante um trabalho para uma série da Netflix, quando o ator conheceu Júlia Portes, que interpretaria sua esposa em “Emergência Radioativa”. A relação profissional acabou levando a outro encontro: o livro “O céu no meio da cara”, escrito por Júlia e finalista do Prêmio Jabuti.

“O desafio de transpor qualquer livro para o teatro já é imenso. Tratando-se de um livro de psicanálise, a coisa se intensifica. Levamos essa ideia a muitos dramaturgos e dramaturgas, que foram unânimes em dizer que seria impossível. Quando parecia que havíamos esgotado todas as nossas possibilidades, fui fazer uma série na Netflix, ‘Emergência Radioativa’, e fui apresentado à Júlia Portes, que faria minha esposa. Nos demos superbem e, em dado momento, ela me presenteou com seu livro, ‘O Céu no Meio da Cara’, que havia sido finalista no Prêmio Jabuti. Li, amei e, meses depois, fui ver a adaptação do livro para o teatro. Foi quando pensei em convidá-la. É um felicíssimo encontro da Julia com a Ana, da Julia comigo, da gente com a Helena, nossa diretora, e de todas as pessoas que, organicamente, foram se juntando ao processo”, conta Massaro.

Na dramaturgia, Júlia encontrou no ofício do personagem a chave para organizar a adaptação. O guia turístico conhece bem a função que desempenha, mas não necessariamente domina o território que apresenta aos visitantes. A contradição serve como ponto de partida para falar sobre as relações amorosas. “Gosto de pensar a partir de uma personagem e acredito que os hábitos dos personagens guardam segredos sobre eles. Por isso, a profissão exercida pode ser uma boa pista para esse enigma que é escrever uma dramaturgia. Foi assim que surgiu o Guia Turístico. Um guia que não conhece muito bem o lugar que está apresentando, no entanto quer que as pessoas acreditem que ele domina o que está falando. No amor, também é assim: a gente se apaixona e tenta parecer no controle, mas, na verdade, não estamos”.

A personagem também permite ampliar o alcance das ideias presentes no livro. “Faço essa analogia e muitas outras se abrem através da figura do Guia Turístico. O livro, para falar das parcerias amorosas, do amor e da nossa solidão, indissociáveis, fala de várias outras parcerias, também amorosas, mas não necessariamente românticas. A dramaturgia está na intersecção entre o percurso íntimo do Guia Turístico e a descoberta do recorte do livro que nos interessava”, acrescenta.


Um coração no palco
Na encenação de Helena Varvaki, a relação entre experiência pessoal e construção teatral ocupa um lugar central. O personagem conta histórias enquanto também se modifica pela própria experiência de contá-las. A diretora explica que a montagem “investe no processo de escuta de nós mesmos, que fazemos ao narrar algo pessoal. É no processo de contar o vivido que repensamos o viver. Ao escorregar no que se propôs, fazer uma visita guiada ao coração, nosso guia reinventa a si mesmo. Fazemos a passagem entre teoria e criação ficcional”.

Essa visita terá um elemento bastante concreto em cena: o coração. O órgão aparece como instrumento para compreender a anatomia, com suas câmaras e passagens, e também como objeto plástico nas mãos do ator, aproximando a dimensão biológica de uma leitura poética. A direção aposta ainda na proximidade entre ator e plateia. “A atuação parte de um lugar de vulnerabilidade - aquele que todos reconhecemos quando imersos em nosso desejo de amor. Um personagem que guia e é, ao mesmo tempo, guiado pelos espectadores numa troca sensível e atenta, usufruindo e manejando a química particular que, na arte teatral, se estabelece e se renova a cada novo encontro com o público”, adiciona Helena.

Para Johnny Massaro, a montagem marca ainda sua estreia em um monólogo depois de 22 anos de carreira. Ao falar sobre a experiência, ele recupera outra passagem do livro de Ana Suy: "É fato que nascemos e morremos sozinhos, mas entre uma ponta e outra a nossa vida se dá em relação, com várias pessoas. Nada nos livra da solidão, mas certas coisas, como os amigos e o teatro, nos lembram que não estamos, sempre, tão sozinhos”, conclui.


Ficha técnica
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Baseado no best-seller de Ana Suy
Idealização e Atuação: Johnny Massaro
Produtor Artístico: Pablo Sanábio
Dramaturgia: Júlia Portes
Direção: Helena Varvaki
Figurino: Sasha Meneghel
Direção de Produção: Roberta Dias
Uma produção: Johnny Massaro e Pablo Sanábio
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Nina Balbi
Trilha Sonora: Pedro Sodré e Frederico Santiago
Programação visual: Ton Zaransa
Preparação Corporal: Esther Weitsman
Produção Executiva: Camila Sequeira
Fotos: Hudson Rennan
Assistente de direção: Lucas Garbois
Assistente de Cenografia: Rachel Merlino
Controller Financeira: Natália Simonete - Estufa de Ideias


Serviço
Espetáculo “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” 
Temporada: 24 de setembro a 31 de outubro de 2026
Sesc Pinheiros - Rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Ingressos: R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia-entrada) e R$ 15 (credencial plena)
Vendas on-line pelo Sesc São Paulo ou presencialmente na bilheteria de qualquer unidade do Sesc São Paulo
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos

.: Cármen Lúcia fala sobre democracia e participação no “Sábados Feministas”


Ministra do STF participa de encontro da Academia Mineira de Letras no dia 26 de setembro, em Belo Horizonte, para discutir conquistas e desafios das mulheres na democracia brasileira. Foto: Gustavo Moreno/STF


A presença feminina nos espaços de poder e os caminhos para o fortalecimento da democracia brasileira pautam a próxima edição do “Sábados Feministas”, iniciativa da Academia Mineira de Letras (AML) em parceria com o movimento Quem Ama Não Mata. No dia 26 de setembro, às 10h00, a sede da instituição recebe a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia Antunes Rocha para a conversa “Democracia e mulheres: conquistas e desafios”. A entrada é gratuita e aberta ao público, com os portões sendo abertos às 9h30.

Magistrada, professora e jurista, Cármen Lúcia integra o STF desde 2006 e foi a segunda mulher a ocupar uma cadeira na Corte. Ao longo da carreira, também presidiu o Supremo Tribunal Federal e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), entre 2016 e 2018. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi eleita em 2009 e comandou a instituição de 2012 a 2013, tornando-se a primeira mulher a presidir o tribunal. Em 2024, voltou ao cargo, permanecendo na presidência até 2026.

A ministra também possui produção na área jurídica e é autora de livros e artigos publicados em revistas especializadas. Entre seus trabalhos está “Pela mão do povo: Voto e democracia no Brasil”, lançado pela Bazar do Tempo em coorganização com Heloisa M. Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto.

O encontro integra os projetos “Academia Mineira de Letras Manutenção e Funcionamento 2026 (CA 2024.3810.0027)”, incluído na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, e “Plano Anual Academia Mineira de Letras – AML (PRONAC 256536)”, previsto na Lei Federal de Incentivo à Cultura. A programação conta com patrocínio da CEMIG, a energia da cultura, e do Instituto Unimed-BH, por meio do incentivo fiscal de mais de 5,9 mil médicos cooperados e colaboradores. Minasmáquinas e Esquina Santê apoiam a realização. Compre os livros da ministra Cármen Lúcia  neste link.


Sobre a palestrante
Cármen Lúcia Antunes Rocha é magistrada, professora e jurista. Mestre em Direito Constitucional, tornou-se ministra do Supremo Tribunal Federal em 2006, sendo a segunda mulher a integrar o tribunal na história do país. No Conselho Nacional de Justiça, presidiu a instituição entre 2016 e 2018. No Tribunal Superior Eleitoral, ocupou a presidência pela primeira vez de 2012 a 2013, como a primeira mulher a comandar o tribunal, e retornou ao cargo entre 2024 e 2026. A produção dela inclui livros jurídicos e artigos publicados em revistas especializadas. A publicação mais recente é “Pela Mão do Povo: Voto e Democracia no Brasil”, da Bazar do Tempo, organizada em parceria com Heloisa M. Starling e Nayara Corrêa Henriques Pinto. Compre os livros da ministra Cármen Lúcia  neste link.


Serviço
Sábados Feministas | “Democracia e Mulheres: Conquistas e Desafios”
Com a ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha
Data: 26 de setembro, a partir das 10h00. Portões abertos às 9h30
Local: Academia Mineira de Letras – Rua da Bahia, 1466, Centro / Belo Horizonte
Entrada gratuita
← Postagens mais recentes Postagens mais antigas → Página inicial
Tecnologia do Blogger.