De volta aos holofotes no reality da Record, atriz merece ser lembrada por personagem de sucesso na novela de Manoel Carlos, que acabou escondida pelas lembranças de Zefa, Alzira e Carmen
Giovanna Gold está de volta ao centro das atenções. Aos 62 anos, a atriz integra a temporada 18 de “A Fazenda”, tornando-se a protagonista da temporada, e reencontra um público que conhece o rosto dela muito antes de saber quantas personagens importantes ela acumulou na televisão brasileira. Quando o nome da atriz aparece nas listas de personagens mais lembradas, três figuras costumam tomar a frente: Zefa, de “Pantanal”; Alzira, de “Mulheres de Areia”; e Carmen, a vilã de “Chiquititas”. A associação faz sentido. São personagens marcantes, cada uma à sua maneira, e que ajudaram a construir a imagem de Giovanna Gold na televisão.
Existe, porém, uma quarta personagem que merece sair do cantinho esquecido da memória televisiva: Kátia, de “Por Amor”. Exibida pela Globo entre 1997 e 1998, a novela de Manoel Carlos foi um enorme sucesso e reuniu personagens que continuam habitando o imaginário do público. Helena, Maria Eduarda, Branca, Milena, Nando e Orestes ganharam vida própria na memória afetiva de quem acompanhou a trama.
Kátia também estava nessa novela. Interpretada por Giovanna Gold, ela era mãe de Cecília (Alessandra Aguiar) e amiga de Lídia (Regina Braga). A personagem era de destaque e circulava por uma das tramas paralelas da novela, em uma época em que as produções de televisão ainda conseguiam reservar espaço para uma quantidade generosa de personagens secundários com vida, relações e conflitos próprios.
Em 2019, quando “Por Amor” voltou ao “Vale a Pena Ver de Novo”, Giovanna Gold falou sobre a personagem ao Gshow. A atriz explicou que Kátia tinha “uma trama própria” e contou que imaginou a personagem com um jeito meio “mamma”. A reprise também fez com que voltasse a ser reconhecida nas ruas. É curioso como a memória da televisão funciona. Uma novela pode ser um fenômeno, um personagem pode aparecer durante centenas de capítulos e, algumas décadas depois, a lembrança coletiva escolhe alguns rostos para guardar e deixa outros em uma gaveta qualquer.
Kátia acabou nessa gaveta. Talvez porque não tivesse o temperamento peculiar de Alzira, de “Mulheres de Areia”, ou a maldade de Carmen, de “Chiquititas”. Também não carregava a aura de Zefa, personagem de “Pantanal” que marcou uma das primeiras fases de grande popularidade de Giovanna.
Alzira, aliás, é outro capítulo curioso da carreira de Giovanna Gold. A personagem de “Mulheres de Areia” ficou marcada pela paixão por Tonho da Lua, vivido por Marcos Frota, mas seu destino poderia ter sido bem diferente. O plano original era terminar a novela com Alzira de mãos dadas com Damião, personagem de João Carlos Barroso, numa solução romântica que não convenceu a atriz. Giovanna contou que procurou Wolf Maya, diretor da novela, para reclamar do desfecho. “Quando veio o final da novela e a 'Magrela' (apelido da personagem) terminava de mão dada com outro, e não com o Tonho, foi punk. Não acreditei, como assim? Falei com o Wolf (Maya) e ele concordou, 'final muito careta'”.
A conversa mudou o rumo da personagem. Em vez de ganhar um novo amor no último capítulo, Alzira terminou sozinha, diante da partida de Tonho da Lua, que deixou Pontal d'Areia para acompanhar um circo. Na cena final da personagem, ela aparece na praia diante de uma escultura de areia com o rosto do homem por quem era apaixonada. Um desfecho melancólico, certamente, mas muito mais afinado com a história que a novela havia contado.
A participação de Giovanna nessa mudança diz bastante sobre a força que ela emprestou à personagem. Alzira não era simplesmente uma mulher apaixonada por Tonho da Lua: tinha uma personalidade própria e uma trajetória que, para a atriz, merecia um encerramento coerente. E foi assim que aquela imagem de Alzira chorando na praia acabou entrando na memória de quem acompanhou “Mulheres de Areia”.
Depois veio “Por Amor” e Kátia ficou pelo caminho da lembrança. Durante a reprise, Giovanna voltou a ser reconhecida nas ruas e falou com carinho sobre o trabalho. A novela trouxe de volta uma personagem que havia ficado escondida atrás de outras três figuras muito mais fáceis de identificar.
Agora, “A Fazenda 18” produz uma situação diferente. Em vez de aparecer em uma reprise, Giovanna Gold está sendo apresentada a uma nova audiência por meio da própria personalidade. O reality coloca a atriz diante de espectadores que podem conhecê-la pela televisão, pelo nome ou simplesmente pela participante que está na casa. E essa exposição acaba puxando uma série de lembranças da trajetória dela. Giovanna Gold não chegou ao reality carregando somente a lembrança de uma vilã de “Chiquititas” ou da mulher apaixonada por Tonho da Lua. Antes de Carmen, Zefa e Alzira se tornarem as referências mais imediatas, mas houve Kátia, uma personagem de “Por Amor” que integrou uma novela de enorme repercussão e que tinha uma história própria dentro daquela trama.
A televisão brasileira é cheia dessas pequenas injustiças da memória. Alguns personagens viram bordão, fantasia, meme, chamada de retrospectiva. Outros simplesmente desaparecem das listas, mesmo tendo participado de novelas que o público jurava nunca ter esquecido. Kátia está nesse segundo grupo. A entrada de Giovanna Gold em “A Fazenda 18” cria uma boa desculpa para abrir o álbum de fotografias da carreira da atriz e procurar aquela imagem que quase sempre fica atrás das outras.
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