domingo, 20 de setembro de 2026

.: “Feito Pipa” leva o sertão ao Oscar e provoca o novo cinema brasileiro


Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027, filme de Allan Deberton transforma memórias do interior do Ceará em uma história sobre infância, afeto, família, preconceito e pertencimento, depois de conquistar prêmios em Berlim, Cartagena e Gramado


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Um menino de quase 12 anos que gosta de futebol. Uma avó que o criou com liberdade e carinho. Um pai com quem a relação está longe de ser simples, uma cidade do sertão cearense e, ao redor de tudo isso, as ruínas de um lugar que desapareceu debaixo d’água. É desse universo que “Feito Pipa”, de Allan Deberton, parte para tentar chegar ao Oscar 2027. Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional, o filme chega ao posto depois de construir uma trajetória que começou muito antes do anúncio feito em 16 de setembro. 

A produção estreou mundialmente no Festival de Berlim, conquistou o Urso de Cristal de Melhor Filme e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus, passou por festivais internacionais e chegou ao Festival de Gramado como uma das produções brasileiras de maior repercussão do ano. Agora, o caminho é outro. “Feito Pipa” ainda precisa passar pela seleção da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para entrar na lista de indicados ao Oscar. A shortlist será divulgada em dezembro e os indicados, em janeiro de 2027. A cerimônia está marcada para 14 de março.



Um cinema com sotaque próprio
Allan Deberton nasceu em Russas, no interior do Ceará, e construiu uma carreira que passa pelos curtas-metragens, pelos festivais e por histórias ligadas ao lugar de onde veio. Formado em Cinema pela Universidade Federal Fluminense, o diretor teve trabalhos exibidos em mais de 150 festivais nacionais e internacionais, acumulando 76 prêmios, segundo a Academia Brasileira de Cinema. Em 2019, estreou no cinema como diretor de longa-metragem com “Pacarrete”. Ambientado em Russas, o filme acompanha uma bailarina aposentada que decide preparar uma apresentação para presentear a população durante as comemorações dos 200 anos da cidade.

No Festival de Gramado, levou oito Kikitos, incluindo os de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro. Sete anos depois, Deberton voltou ao festival com “Feito Pipa”. Voltou com força suficiente para levar novamente Melhor Direção, além dos prêmios de Melhor Atriz para Teca Pereira, Melhor Ator Coadjuvante para Lázaro Ramos e Melhor Filme pelo Júri Popular. Yuri Gomes, intérprete de Gugu, recebeu Menção Honrosa. Se “Pacarrete” já colocava uma cidade do interior no centro da narrativa, “Feito Pipa” amplia essa escolha. Quixadá aparece como cenário e como parte da história. A produção nasceu de memórias da infância vivida por Deberton e pelo roteirista André Araújo em Russas, mas foi filmada em Quixadá. O resultado é um filme profundamente ligado ao Ceará sem precisar transformar a paisagem em cartão-postal.


Um menino, uma avó e uma cidade submersa
Gugu (Yuri Gomes) tem quase 12 anos e vive com a avó Dilma (Teca Pereira). É apaixonado por futebol, dança e pela liberdade que encontrou naquela casa. A chegada do pai, porém, ameaça mudar a rotina e colocar em xeque a relação que construiu com a avó. Como se a família já não tivesse problemas suficientes, Dilma enfrenta uma doença que compromete suas lembranças.

Ao redor deles existe a barragem de Araújo Lima. Depois de um período de seca, o recuo das águas revela as ruínas de uma antiga cidade submersa. Enquanto Gugu tenta lidar com a possibilidade de perder a avó e deixar para trás a vida que conhece, o cenário devolve ao presente aquilo que ficou escondido durante anos. A ideia de memória percorre o filme e está na relação entre Gugu e Dilma, na paisagem e na própria história daquele lugar.


Mais de 600 crianças para encontrar Gugu
Uma das apostas do filme estava na escolha do protagonista. Mais de 600 crianças foram testadas até Yuri Gomes ser escolhido para interpretar Gugu: foi a estreia do jovem ator no cinema. Ao lado dele estão Teca Pereira, Lázaro Ramos, Carlos Francisco e Georgina Castro. A escolha acabou rendendo frutos durante a circulação do filme pelos festivais. 

Em Gramado, Yuri recebeu Menção Honrosa. Teca Pereira levou o prêmio de Melhor Atriz e Lázaro Ramos foi reconhecido como Melhor Ator Coadjuvante. O garoto que precisou passar por uma peneira de mais de 600 candidatos terminou no centro das atenções de um dos principais festivais de cinema do país. Nada mal para uma primeira experiência diante das câmeras.


De Berlim a Gramado
Antes de conquistar os Kikitos, “Feito Pipa” já havia recebido uma apresentação de respeito no circuito internacional. A estreia mundial aconteceu no Festival de Berlim, na mostra Generation Kplus. O filme saiu de lá com dois prêmios: o Urso de Cristal de Melhor Filme, concedido pelo Júri Jovem, e o Grande Prêmio do Júri Internacional.

A produção também passou por Guadalajara e Cartagena das Índias, onde recebeu outros reconhecimentos, incluindo prêmios de atuação para Yuri Gomes e Teca Pereira. Em Berlim, o filme ainda participou da disputa pelo Teddy Award, tradicional premiação dedicada ao cinema queer. A trajetória internacional, portanto, já estava em andamento quando o filme entrou na corrida brasileira pelo Oscar.


15 filmes, muitos Brasis
Quando a Academia Brasileira de Cinema abriu a disputa pelo representante brasileiro no Oscar 2027, “Feito Pipa” estava entre 15 produções de diferentes gerações, regiões e propostas. A lista reunia “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Conspiração Condor”, de André Sturm; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher; “Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini; “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes; “Feito Pipa”, de Allan Deberton; “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; “O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar; “Quando Vira a Esquina”, de Chris Alcazar; “Malês”, de Antonio Pitanga; “Papagaios”, de Douglas Soares; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins.

Seis avançaram para a etapa seguinte: “100 Dias”, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, “A Natureza das Coisas Invisíveis”, “Feito Pipa”, “Nosso Segredo” e “Vicentina Pede Desculpas”. Em 16 de setembro, “Feito Pipa” foi escolhido como o representante brasileiro. A comissão de seleção destacou a capacidade da produção de apresentar uma história de alcance universal mantendo uma identidade fortemente brasileira, ligada a uma cidade do interior do Ceará. O filme olha para uma comunidade específica e, ao fazer isso, encontra questões que ultrapassam qualquer fronteira geográfica.

É uma das características que ajudam a aproximar “Feito Pipa” de um movimento maior do cinema brasileiro contemporâneo: histórias locais encontrando espaço em circuitos nacionais e internacionais sem abandonar sua origem. “Feito Pipa” estreia comercialmente em 5 de novembro de 2026, com distribuição da Paris Filmes. Antes disso, participa do Festival do Rio, na mostra Première Brasil: Hors Concours.
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