segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: Psicanálise involuntária, livro "O Mago" volta em nova edição com texto extra


Biografia que ultrapassou 1 milhão de exemplares ganha posfácio inédito e será relançada pela Realejo Edições com bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, em São Paulo


Fernando Morais volta a "O Mago", livro em que mergulhou na vida de Paulo Coelho e que se tornou um dos grandes sucessos editoriais da trajetória dele. Lançada originalmente em 2008, a biografia ganha nova edição pela Realejo Edições, agora acompanhada de um posfácio inédito escrito pelo autor. O relançamento será no dia 14 de outubro, às 19h00, com bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, em Pinheiros, São Paulo. A mediação ficará a cargo de José Luiz Tahan, sócio da livraria e da editora.

A nova edição de "O Mago" já está em pré-venda, com entregas e retiradas previstas a partir de 26 de setembro. O livro chega novamente às prateleiras depois de ter sido traduzido e publicado em 20 países e ultrapassado a marca de um milhão de exemplares vendidos. Morais costuma apontar "O Mago" como um de seus livros favoritos e relaciona parte do resultado à personalidade pouco previsível do personagem central. "Eu tive sorte de um personagem tão espantoso e surpreendente como o Paulo Coelho cair no meu colo. O livro é o oposto da obra dele: enquanto a obra é plácida e toca a alma, a biografia é uma sucessão de polêmicas e tragédias. Paulo é um antipersonagem que te surpreende a cada página”, revela Morais.

A pesquisa conduzida pelo jornalista percorre diferentes fases da vida de Paulo Coelho, desde a infância e as internações em hospitais psiquiátricos até a aproximação com o ocultismo, a parceria musical com Raul Seixas nos anos 1970, a prisão e a tortura durante a ditadura militar e a posterior transformação espiritual que contribuiu para sua projeção internacional. No centro dessa trajetória está uma ambição que acompanha o escritor desde a juventude: tornar-se um dos autores mais importantes e lidos do mundo. A biografia acompanha as mudanças de rumo, os conflitos e as escolhas que fizeram parte desse percurso.

Para escrever as mais de 600 páginas de "O Mago", Fernando Morais teve acesso a um material particular guardado por Paulo Coelho: diários íntimos e confessionais mantidos pelo escritor desde a juventude, além de dezenas de fitas gravadas ao longo dos anos. "Quando abri aquele ‘baú’ em Copacabana, encontrei ouro puro: quase 200 diários e dezenas de fitas gravadas desde a juventude dele. Ao ver aquilo, joguei fora as 300 páginas que já tinha escrito e recomecei o livro do zero. Os diários puseram a biografia num patamar completamente diferente”, relembra Fernando Morais.

O trabalho também seguiu o compromisso ético adotado pelo biógrafo nas obras dele. Morais teve acesso ao conteúdo sem censura prévia e entregou o exemplar a Paulo Coelho somente depois da publicação comercial. A leitura da biografia pelo próprio escritor teria provocado um efeito curioso. Ao se deparar com memórias e episódios que estavam guardados no passado, Paulo Coelho contou ao biógrafo ter se assustado com a força do relato e comparou a experiência a uma espécie de "psicanálise involuntária".

O sucesso da primeira edição levou "O Mago" para diferentes mercados internacionais. A obra foi publicada em países como Espanha, Estados Unidos, Itália, França, Rússia, Polônia e Alemanha, entre outros, alcançando mais de um milhão de exemplares vendidos. Para José Luiz Tahan, da Realejo Edições, o relançamento aproxima uma nova geração da história de um escritor brasileiro com enorme alcance internacional. “Estamos diante de uma obra relevante por seu conteúdo, por seu autor e por apresentar às novas gerações uma história que envolve um dos maiores vendedores de livros em todo o mundo, o escritor Paulo Coelho. É uma obra que fala de música, política, literatura, família, rompimentos e recomeços”, comenta.

A nova edição preserva, assim, uma biografia construída a partir de uma quantidade incomum de documentos pessoais e chega ao público com material inédito, recolocando nas livrarias a trajetória de um dos escritores brasileiros de maior circulação internacional. Compre o livro "O Mago", de Fernando Morais, neste link.

Serviço
Lançamento do livro "O Mago", com bate-papo e sessão de autógrafos com Fernando Morais
Dia 14 de outubro, a partir das 19h00
Livraria da Travessa - Rua dos Pinheiros, 513, Pinheiros / São Paulo
À venda pelo site da Realejo Edições

.: “O Deus das Urnas” investiga a força da religião nas eleições brasileiras


Livro de Alexandre Landim acompanha as disputas presidenciais de 2010 a 2022 e analisa como católicos e evangélicos passaram a ocupar lugar de destaque nas estratégias eleitorais

Nas últimas eleições presidenciais brasileiras, a religião ganhou espaço nos palanques, nos discursos de candidatos e nas estratégias de campanha. O movimento despertou debates sobre a relação entre fé e política e serviu de ponto de partida para o sociólogo Alexandre Landim escrever “O Deus das Urnas: Evangélicos e Católicos em Eleições Presidenciais no Brasil”, lançado pela Editora Telha. A obra acompanha as eleições realizadas entre 2010 e 2022 para investigar como as identidades religiosas se relacionam com as escolhas políticas dos brasileiros. 

Ao longo da pesquisa, Landim observa a presença crescente de temas religiosos nas campanhas e procura compreender de que maneira questões como aborto, costumes, valores familiares e diferentes concepções sobre o papel do Estado passaram a integrar a disputa pelo voto. Em “O Deus das Urnas”, o discurso religioso aparece também como instrumento de mobilização eleitoral. A pesquisa mostra que católicos e evangélicos não formam grupos homogêneos e que suas identidades religiosas apresentam diferenças no comportamento político. Segundo os estudos reunidos pelo sociólogo, essa distância nas preferências eleitorais aumentou nas últimas décadas, especialmente a partir de 2010.

O resultado ajuda a iluminar uma mudança no cenário político brasileiro. A filiação religiosa passou a dialogar de maneira mais evidente com fatores sociais, econômicos e ideológicos na formação das preferências eleitorais. Igrejas, lideranças religiosas e candidatos também passaram a participar de maneira mais intensa da construção das agendas públicas. Para sustentar a investigação, Landim reúne mais de uma centena de pesquisas de opinião, além de um amplo conjunto de materiais publicados pela imprensa. O levantamento permite observar a presença da religião na política brasileira ao longo do tempo, acompanhando mudanças de comportamento e estratégias eleitorais que ganharam força nas últimas campanhas presidenciais.

A pesquisa evita tratar a participação religiosa na política como fenômeno passageiro. Ao acompanhar diferentes eleições, o autor examina a maneira como candidatos incorporaram referências religiosas aos discursos e como essas mensagens passaram a dialogar com parcelas específicas do eleitorado. Sociólogo formado pela Universidade de São Paulo, mestre pela Universidade Estadual do Ceará e doutor pela Universidade Federal do Ceará, Alexandre Landim pesquisa religiões no Brasil há mais de uma década. Professor de Sociologia do Instituto Federal do Ceará, ele transforma parte dessa trajetória acadêmica em um livro voltado tanto a pesquisadores quanto a leitores interessados em política, comportamento, religião e cultura.


Sobre o autor
Alexandre Landim é paulistano e radicado em Fortaleza, no Ceará, desde 2012. Sociólogo e escritor, dedica-se há mais de dez anos ao estudo das religiões no Brasil. É cientista social pela Universidade de São Paulo (USP), mestre pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com período de estágio na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. É professor de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Também publicou o romance “De onde estou já fui embora” (2019), vencedor do edital das Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza.

.: "Cansei de Ser Belo" cutuca a vaidade e leva galã de novela ao teatro


Comédia inédita de Emílio Boechat estreia em outubro no Teatro YouTube e acompanha um astro da televisão disposto a abrir mão da própria beleza para conquistar o respeito da crítica. Foto: divulgação

A beleza pode abrir muitas portas. Para Rodrigo Contreiras, personagem de Fernando Pavão em "Cansei de Ser Belo", ela também virou uma espécie de prisão. Galã absoluto das novelas, rosto requisitado por marcas e dono de milhões de seguidores, ele chega a uma conclusão bastante peculiar: se quiser ser levado a sério como ator, terá de acabar com a própria imagem de homem perfeito. Essa é a premissa da nova comédia de Emílio Boechat, que estreia no dia 3 de outubro, no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu, em São Paulo. Com direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo reúne no elenco Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes. A produção é assinada por Boechat e Marília Toledo.

Rodrigo está cansado de ser visto apenas como um "corpo sarado com milhões de seguidores". Na tentativa de conquistar reconhecimento artístico, ele resolve destruir a própria imagem de perfeição e escolhe o teatro como atalho. Afinal, segundo sua lógica bastante conveniente, montar uma peça é mais rápido do que produzir um filme ou uma série. A ideia para a comédia surgiu depois que Emílio Boechat assistiu à leitura de uma peça protagonizada por um conhecido galã de novelas. “Pensei: por que esse homem tão bonito e bem sucedido ainda se dá ao trabalho de fazer teatro? Foi então que eu lembrei que, segundo o filósofo Henri Bergson, a vaidade é o ‘vício cômico’ mais engraçado. A partir disso decidi escrever sobre a vaidade de uma perspectiva diferente”, revela.

A obsessão de Rodrigo pelo reconhecimento chega ao ponto de fazê-lo encarar aquilo que considera o submundo da profissão: o teatro alternativo e experimental. A provocação, porém, não mira esse segmento teatral. Boechat esclarece que a peça volta suas atenções para quem busca prestígio a qualquer preço e enxerga o teatro experimental como um lugar menor. “Nossa crítica é voltada às pessoas que buscam o reconhecimento a qualquer preço, que têm uma visão distorcida de quem são e tratam esse teatro experimental como algo menor, que dá trabalho pra quem ‘não é bonito o suficiente pra fazer televisão’”, comenta.

Erica Montanheiro vê no absurdo uma das principais fontes de humor do espetáculo. “O texto cria situações limítrofes nas quais, dificilmente, alguém iria se colocar. Essas situações criam constrangimento e, ao mesmo tempo, um olhar debochado sobre o ‘ser artista’. E é, através desse deboche, que as fragilidades do fazer artístico são expostas. Em um país como o Brasil - que não valoriza os trabalhadores da cultura - cada vez mais os próprios artistas são responsáveis por criar situações para vender sua imagem”, diz.

Na pele de Rodrigo, Fernando Pavão também enxerga uma conexão direta entre o personagem e a busca contemporânea por visibilidade. “Acho que o texto acerta a mão em cheio ao espelhar esse Rodrigo, um ator que precisa desesperadamente de visibilidade e reconhecimento com o tempo em que vivemos hoje, em que muita gente busca isso via o mundo fantástico das redes sociais. Uma comédia deliciosa onde o universo dos atores e seus exageros é primorosamente retratado”. A direção de Kleber Montanheiro parte do jogo cênico típico da comédia de Boechat e acrescenta uma camada surrealista à encenação. A proposta trabalha o exagero como ferramenta para criar um espelho da sociedade.

Na cenografia e nos figurinos, a ideia é apostar na simplicidade com bastante movimento. “Queremos que a cenografia seja muito simples, mas muito mutante, que tenha elementos que se transformam. Então, eles se transformam numa sala, num escritório, num camarim, quase como um grande contêiner que vai abrindo e dando origem a diferentes espaços físicos. E isso remete um pouco a essa velocidade das redes sociais, quase como uma tela de celular”, comenta o diretor.


Sobre Emílio Boechat
Emilio Boechat tem 35 anos de carreira escrevendo para rádio, teatro, cinema, TV e plataformas de streaming. Junto com Marilia Toledo ganhou o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Dramaturgia Original em Musicais (2023) por "Ney Matogrosso - Homem com H". Já foi indicado aos prêmios Destaque Imprensa Digital (2023 e 2022), Rio Web Fest (2021), Troféu Mambembe (1998) e APETESP (1991). Ao lado dela, escreveu também os musicais "Uma Noite na Broadway", "Silvio Santos Vem Aí" e "Os Dez Mandamentos".

É autor das comédias "Camila Backer Lives in Concert", "Eu era tudo pra ela e ela me deixou"; do longa-metragem "Barraco de Família" e da série "A Secretária do Presidente" (Multishow/Mixer). É co-produtor e head-writer da série "Camila Baker", premiada pela Lei Paulo Gustavo em 2023. Com Miguel Falabella e Rosana Hermann escreveu a minissérie "O Som e a Sílaba" e a 2ª temporada de "O Coro - sucesso aqui vou eu" (Disney+), ainda inédita.

Foi head-writer da segunda temporada da série "Na Fama, Na Lama" (Multishow). Escreveu com Ingrid Guimarães, por três anos, os roteiros do programa "Mulheres Possíveis" (GNT). De 2005 a 2020, foi roteirista da Record TV, onde escreveu novelas e minisséries como "Bela, a Feia", "Rebelde" e "Os Dez Mandamentos".


Sobre Kleber Montanheiro
Multiartista com 30 anos de carreira, Kleber Montanheiro é diretor cênico, cenógrafo, figurinista e artista visual em expografia. Indicado a mais de 25 prêmios (FEMSA, APCA, Shell, Prêmio Bibi Ferreira e Prêmio DID - Destaque Imprensa Digital) em diversas categorias, foi contemplado pela maioria delas.

Entre seus trabalhos de direção estão espetáculos como "Ópera do Malandro", de Chico Buarque de Holanda; "Carmen, a Grande Pequena Notável", de Heloísa Seixas e Júlia Romeu; "Nossos Ossos", baseado no livro homônimo de Marcelino Freire; e "Tatuagem", musical adaptado do filme de Hilton Lacerda, trabalho que recebeu diversas indicações ao Prêmio Bibi Ferreira e lhe rendeu o prêmio APCA de melhor diretor.

Por "Carmen, a Grande Pequena Notável", recebeu o Prêmio São Paulo de melhor figurino. Dirigiu, concebeu e criou cenografia e figurinos do musical da Broadway "Cabaret", de John Kander e Fred Ebb, que cumpriu temporada no 033 Rooftop, do Teatro Santander - SP, recebendo os prêmios Bibi Ferreira de melhor direção e melhor figurino. Em 2025, dirigiu e concebeu o musical brasileiro original "João", indicado a melhor direção nos prêmios Bibi Ferreira, DID e APCA. Em "Gal - o musical", assina a direção e o figurino.


Sobre o Teatro YouTube
O Teatro YouTube ocupa o Conjunto Nacional, em São Paulo, dentro da Galeria Magalu, sob gestão da Aventura Teatros. O espaço aproxima a experiência presencial do universo digital e recebe espetáculos, projetos de criadores de conteúdo elegíveis, iniciativas de marcas e diferentes formatos de interação com o público. A estrutura também comporta transmissões ao vivo, gravações de podcasts e eventos. O local recebe ainda projetos institucionais, como o YouTube Music Nights, série de shows intimistas lançados exclusivamente nos canais dos artistas convidados.


Sobre a Aventura
Fundada em 2008 e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e de produção geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura atua na produção de espetáculos e no desenvolvimento do teatro musical no Brasil. A empresa soma mais de 40 produções, entre espetáculos inéditos e versões da Broadway, como "Elis, a musical", "A Noviça Rebelde", "Mamma Mia", "Hair", "Sete", "O Mágico de Oz", "SamBRA", "Chacrinha, o musical", "Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte", "Merlin e Arthur, um sonho de liberdade" e o infantil "Zaquim".

Em 2022, a produtora lançou "Vozes Negras – A Força do Canto Feminino", primeiro musical em formato de série do país, e "Seu Neyla", apresentado em dois palcos com uso da internet para criar uma experiência diferenciada para o público. No mesmo período, estreou a parceria com a Disney-Pixar em "Pixar in Concert". Com a proposta de ampliar o acesso à cultura, a Aventura criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil, e também responde pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, são mais de 3,8 mil apresentações, cerca de 4,5 milhões de espectadores e mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados.


Ficha técnica
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Texto: Emilio Boechat
Direção, cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Elenco: Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes
Direção de Produção: Marilia Toledo e Emilio Boechat


Serviço
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Temporada: 3 de outubro a 22 de novembro de 2026
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00
Teatro YouTube (Galeria Magalu - Conjunto Nacional) - Av. Paulista, 2073 - Bela Vista / São Paulo
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada)
Vendas online: Eventim
Classificação: livre
Duração: 70 minutos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

domingo, 27 de setembro de 2026

.: Teatro em SP: "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"


Espetáculo premiado de Lucca Marques e Rafael Salmona reúne amor, luto, saúde mental, masculinidade e vulnerabilidade emocional ao colocar dois homens diante das lembranças de uma relação marcada por afeto, violência e culpa. Foto: Arthur Romão

O espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia", de Lucca Marques e Rafael Salmona, com direção de Áurea Liz, chega a São Paulo para uma curta temporada no Espaço Cia da Revista, de 1º a 11 de outubro. A montagem acompanha dois homens que se reencontram à beira de uma ponte depois de anos afastados e revisitam uma relação marcada por afeto, violência, culpa e sentimentos que ficaram pelo caminho. Com dramaturgia poética e fragmentada, a peça investiga os mecanismos da memória e as marcas deixadas por experiências que permaneceram sem elaboração. João e Felipe transitam entre gravações, lembranças e melodias enquanto tentam compreender o que viveram juntos e as versões que construíram de si mesmos e um do outro.

A montagem estreou no Festival Internacional de Teatro do Atlântico, em Cabo Verde, e passou por Portugal e Espanha, onde ganhou também uma versão em língua espanhola. A estreia nacional aconteceu em Brasília, em janeiro de 2026. Em setembro, o espetáculo participou do FESTEI – Festival Nacional de Teatro de Ibiúna, realizado entre os dias 3 e 7, e voltou para casa com três prêmios: melhor cenografia, melhor dramaturgia e melhor ator, para Rafael Salmona.

No festival, "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" recebeu ainda indicações em oito categorias: melhor cenografia, melhor sonoridade, melhor iluminação, melhor dramaturgia, melhor direção, melhor ator para Lucca Marques, melhor ator para Rafael Salmona e melhor espetáculo. Na encenação, música, palavra e movimento aproximam presente e passado, realidade e lembrança. A estrutura fragmentada acompanha uma memória que não se apresenta de maneira linear: recordações se sobrepõem, versões entram em conflito e acontecimentos aparentemente encerrados reaparecem sob outras perspectivas.

A pergunta que atravessa a montagem está relacionada ao que fazemos com as experiências que continuam reverberando depois que uma relação chega ao fim. “Quando uma melodia se rompe, é possível simplesmente seguir adiante ou levamos para as relações seguintes os ecos daquilo que nunca conseguimos escutar?", questionam os dramaturgos Lucca Marques e Rafael Salmona, que também estão em cena. A trajetória da montagem ganhou ainda uma extensão literária. A dramaturgia foi publicada em edição bilíngue português-espanhol pela editora Giostri. Compre o livro "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia" neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Direção: Áurea Liz
Dramaturgia e atuação: Lucca Marques e Rafael Salmona
Concepção de luz: Caio Maciel
Operação de luz: Caio Maciel
Cenotécnica: Artur Ribeiro
Trilha sonora original: Andrei Machado, Fábio Gesteira e Lucca Marques
Colaboração artística: Irina Buss e Vinícius Ávlis
Produção: Casa dos Quatro e Coletivo Levante
Produtor local: Ricardo Corrêa

Serviço
Espetáculo "Os Nós Desafinados Sempre Tocam Uma Nova Melodia"
Temporada: 1º a 11 de outubro de 2026. 1º de outubro, quinta, às 20h00; 2 e 9 de outubro, sextas, às 20h00; 3 e 10 de outubro, sábados, às 20h00; e 11 de outubro, domingo, às 19h00.
Local: Espaço Cia da Revista (Alameda Nothmann, 1135 - Campos Elíseos / São Paulo) 
Ingressos: R$ 90,00 (inteira) e R$ 45,00 (meia-entrada), à venda pela Sympla.
Duração: 70 minutos
Classificação indicativa: 14 anos

.: “A História dos Meus Peitos” coloca o desejo feminino no centro da narrativa


Romance de estreia de Mariana Guimarães revisita memórias de uma mulher a partir da relação com o próprio corpo e chega a São Paulo em noite de lançamento na Livraria Megafauna

“Nenhum homem nunca mais chupou meus peitos desde que minhas filhas botaram suas boquinhas neles.” É com essa frase que Luiza se apresenta ao leitor. Diante do espelho, ela examina o corpo até chegar aos seios, insatisfeita com as mudanças provocadas pelo tempo e pela maternidade. Depois de marcar uma consulta com um cirurgião plástico, o choque inicial dá lugar a uma viagem pelas lembranças que ajudaram a construir sua relação com o desejo e com o próprio corpo. 

O que começa diante do espelho, entre incômodos com o próprio corpo e a decisão de procurar um cirurgião plástico, logo ganha outros contornos em “A História dos Meus Peitos”, romance de estreia de Mariana Guimarães, publicado pela Editora Record. A protagonista Luiza transforma a própria memória em matéria literária e percorre infância, adolescência, descobertas do prazer, casamento e maternidade a partir de uma perspectiva bastante particular: a dos próprios peitos. 

A escritora Natalia Timerman assina o texto de orelha. O lançamento do livro será no dia 8 de outubro, às 19h00, na Livraria Megafauna do Copan, em São Paulo. Após o bate-papo, a autora participa de uma sessão de autógrafos. A conversa será conduzida pela jornalista Cris Bartis, do Mamilos Podcast.

A narrativa acompanha essa trajetória com intimidade e bom humor, revisitando diferentes momentos da vida da personagem e as maneiras pelas quais ela experimentou o prazer, fez escolhas e passou a enxergar a própria sexualidade. Os peitos, que poderiam ocupar apenas o papel de parte do corpo, ganham voz dentro dessa memória afetiva e se tornam uma espécie de fio condutor da história. 

O romance parte de uma experiência real vivida pela autora e transforma uma inquietação pessoal em literatura. Ao colocar o desejo de Luiza no centro, Mariana Guimarães também desloca a maneira como o corpo feminino costuma aparecer nas narrativas, especialmente quando observado pelo olhar alheio. Compre o livro "A História dos Meus Paitos", de Mariana Guimarães, neste link.


Sobre a autora
Mariana Guimarães nasceu em 1980, em São Paulo. Formada em Direito e Psicologia, trabalhou como advogada criminalista e atualmente atua como psicóloga e psicanalista. Mãe de três meninas, estreia na literatura com “A história dos meus peitos”.


Serviço
“A História dos Meus Peitos”
Lançamento: 8 de outubro, às 19h00
Local: Livraria Megafauna do Copan
Av. Ipiranga, 200, loja 53 - Centro / São Paulo

.: “Os Assassinatos da Casa Decagonal” desafia leitores a decifrar clássico


Clássico de Yukito Ayatsuji, considerado um dos romances policiais mais importantes da literatura japonesa, chega em setembro pela Intrínseca em edição inédita no país. Foto: Naoto Otsubo / Kodansha Ltd.


Yukito Ayatsuji é um dos grandes nomes do honkaku, vertente do mistério japonês marcada pela construção de enigmas e pela valorização do raciocínio lógico na solução dos crimes. Publicado originalmente em 1987, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ajudou a renovar o gênero no Japão, tornou-se referência para uma geração de escritores e chega ao Brasil, pela Intrínseca, em uma edição inédita por aqui, com tradução de Lídia Ivasa. O romance também foi incluído pela revista Time entre os 100 thrillers mais importantes do mundo e tem como uma de suas inspirações “E Não Sobrou Nenhum”, clássico de Agatha Christie.

A história começa alguns meses depois de um crime que chocou o país. Um grupo de universitários decide viajar até uma ilha remota na costa do Japão, cenário de um homicídio quádruplo ainda sem solução. O destino escolhido é a Casa Decagonal, residência projetada pelo arquiteto Seiji Nakamura, uma das vítimas do caso e dono da propriedade. Apaixonados por romances policiais, os jovens chegam ao local esperando aproveitar a viagem entre enigmas, livros e aquela dose de excitação que acompanha uma boa história de mistério. 

O passeio, porém, ganha contornos bem menos divertidos quando um deles é encontrado morto. Isolados na ilha e sem possibilidade de contato com o continente, os universitários percebem que o conhecimento acumulado nas leituras de romances policiais pode ser a única ferramenta disponível para descobrir quem está por trás dos assassinatos - e, principalmente, permanecer vivos.

Com uma morte atrás da outra, a tensão cresce dentro da casa enquanto o grupo tenta compreender a lógica do criminoso e encontrar uma saída antes que seja tarde. No continente, a investigação ganha uma segunda frente quando um ex-integrante do grupo recebe uma carta misteriosa assinada por Seiji Nakamura, morto meses antes. Desconfiado de que a mensagem tenha relação com os crimes, ele começa a seguir as pistas por conta própria. Enquanto os jovens presos na ilha tentam solucionar o enigma que os cerca, a investigação no continente procura entender o que realmente aconteceu naquela casa e qual ligação existe entre a carta e os assassinatos.

Livro de estreia de Ayatsuji, “Os Assassinatos da Casa Decagonal” ocupa um lugar importante na história do mistério japonês e ajudou a consolidar o honkaku como uma vertente de grande força na literatura policial do país. A estrutura de quebra-cabeça, os personagens isolados e a sucessão de pistas fazem da obra uma espécie de jogo literário em que o leitor também é convidado a desconfiar de cada detalhe. Compre o livro “Os Assassinatos da Casa Decagonal”, de Yukito Ayatsuji, neste link.


Sobre o autor
Yukito Ayatsuji nasceu em 1960 e se tornou um dos principais escritores japoneses de suspense e terror. É um dos fundadores do Honkaku Mystery Writers Club, grupo formado por autores dedicados a histórias de mistério construídas em torno de enigmas, investigação e raciocínio lógico, com forte influência dos clássicos policiais. A relação de Ayatsuji com o gênero começou ainda na Universidade de Quioto, quando participou do clube de mistério da instituição. 

O ambiente reunia alguns dos nomes que posteriormente se destacariam na literatura policial japonesa e serviu de inspiração para o grupo de estudantes retratado em “Os assassinatos da Casa Decagonal”. Com o romance de estreia, Ayatsuji recuperou elementos tradicionais do policial de enigma e ajudou a impulsionar uma nova geração de escritores dedicados ao honkaku. O livro se tornou uma referência do gênero no Japão e consolidou o autor entre os principais nomes da literatura de mistério do país. Compre os livros de Yukito Ayatsuji neste link.

sábado, 26 de setembro de 2026

.: Giovanna Gold, sucesso de "A Fazenda", tem personagem esquecida. Saiba qual


De volta aos holofotes no reality da Record, atriz merece ser lembrada por personagem de sucesso na novela de Manoel Carlos, que acabou escondida pelas lembranças de Zefa, Alzira e Carmen

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Acervo/TV Globo

Giovanna Gold está de volta ao centro das atenções. Aos 62 anos, a atriz integra a temporada 18 de “A Fazenda”, tornando-se a protagonista da temporada, e reencontra um público que conhece o rosto dela muito antes de saber quantas personagens importantes ela acumulou na televisão brasileira. Quando o nome da atriz aparece nas listas de personagens mais lembradas, três figuras costumam tomar a frente: Zefa, de “Pantanal”; Alzira, de “Mulheres de Areia”; e Carmen, a vilã de “Chiquititas”. A associação faz sentido. São personagens marcantes, cada uma à sua maneira, e que ajudaram a construir a imagem de Giovanna Gold na televisão.

Existe, porém, uma quarta personagem que merece sair do cantinho esquecido da memória televisiva: Kátia, de “Por Amor”. Exibida pela Globo entre 1997 e 1998, a novela de Manoel Carlos foi um enorme sucesso e reuniu personagens que continuam habitando o imaginário do público. Helena, Maria Eduarda, Branca, Milena, Nando e Orestes ganharam vida própria na memória afetiva de quem acompanhou a trama.

Kátia também estava nessa novela. Interpretada por Giovanna Gold, ela era mãe de Cecília (Alessandra Aguiar) e amiga de Lídia (Regina Braga). A personagem era de destaque e circulava por uma das tramas paralelas da novela, em uma época em que as produções de televisão ainda conseguiam reservar espaço para uma quantidade generosa de personagens secundários com vida, relações e conflitos próprios.

Em 2019, quando “Por Amor” voltou ao “Vale a Pena Ver de Novo”, Giovanna Gold falou sobre a personagem ao Gshow. A atriz explicou que Kátia tinha “uma trama própria” e contou que imaginou a personagem com um jeito meio “mamma”. A reprise também fez com que voltasse a ser reconhecida nas ruas. É curioso como a memória da televisão funciona. Uma novela pode ser um fenômeno, um personagem pode aparecer durante centenas de capítulos e, algumas décadas depois, a lembrança coletiva escolhe alguns rostos para guardar e deixa outros em uma gaveta qualquer.

Kátia acabou nessa gaveta. Talvez porque não tivesse o temperamento peculiar de Alzira, de “Mulheres de Areia”, ou a maldade de Carmen, de “Chiquititas”. Também não carregava a aura de Zefa, personagem de “Pantanal” que marcou uma das primeiras fases de grande popularidade de Giovanna. 

Alzira, aliás, é outro capítulo curioso da carreira de Giovanna Gold. A personagem de “Mulheres de Areia” ficou marcada pela paixão por Tonho da Lua, vivido por Marcos Frota, mas seu destino poderia ter sido bem diferente. O plano original era terminar a novela com Alzira de mãos dadas com Damião, personagem de João Carlos Barroso, numa solução romântica que não convenceu a atriz. Giovanna contou que procurou Wolf Maya, diretor da novela, para reclamar do desfecho. “Quando veio o final da novela e a 'Magrela' (apelido da personagem) terminava de mão dada com outro, e não com o Tonho, foi punk. Não acreditei, como assim? Falei com o Wolf (Maya) e ele concordou, 'final muito careta'”.

A conversa mudou o rumo da personagem. Em vez de ganhar um novo amor no último capítulo, Alzira terminou sozinha, diante da partida de Tonho da Lua, que deixou Pontal d'Areia para acompanhar um circo. Na cena final da personagem, ela aparece na praia diante de uma escultura de areia com o rosto do homem por quem era apaixonada. Um desfecho melancólico, certamente, mas muito mais afinado com a história que a novela havia contado.

A participação de Giovanna nessa mudança diz bastante sobre a força que ela emprestou à personagem. Alzira não era simplesmente uma mulher apaixonada por Tonho da Lua: tinha uma personalidade própria e uma trajetória que, para a atriz, merecia um encerramento coerente. E foi assim que aquela imagem de Alzira chorando na praia acabou entrando na memória de quem acompanhou “Mulheres de Areia”.

Depois veio “Por Amor” e Kátia ficou pelo caminho da lembrança. Durante a reprise, Giovanna voltou a ser reconhecida nas ruas e falou com carinho sobre o trabalho. A novela trouxe de volta uma personagem que havia ficado escondida atrás de outras três figuras muito mais fáceis de identificar. 
Agora, “A Fazenda 18” produz uma situação diferente. Em vez de aparecer em uma reprise, Giovanna Gold está sendo apresentada a uma nova audiência por meio da própria personalidade. O reality coloca a atriz diante de espectadores que podem conhecê-la pela televisão, pelo nome ou simplesmente pela participante que está na casa. E essa exposição acaba puxando uma série de lembranças da trajetória dela. Giovanna Gold não chegou ao reality carregando somente a lembrança de uma vilã de “Chiquititas” ou da mulher apaixonada por Tonho da Lua. Antes de Carmen, Zefa e Alzira se tornarem as referências mais imediatas, mas houve Kátia, uma personagem de “Por Amor” que integrou uma novela de enorme repercussão e que tinha uma história própria dentro daquela trama.

A televisão brasileira é cheia dessas pequenas injustiças da memória. Alguns personagens viram bordão, fantasia, meme, chamada de retrospectiva. Outros simplesmente desaparecem das listas, mesmo tendo participado de novelas que o público jurava nunca ter esquecido. Kátia está nesse segundo grupo. A entrada de Giovanna Gold em “A Fazenda 18” cria uma boa desculpa para abrir o álbum de fotografias da carreira da atriz e procurar aquela imagem que quase sempre fica atrás das outras.

.: As novas cenas de "Ultimato Encore", filme requentado para "Doutor Destino"


Relançamento de "Vingadores: Ultimato" acrescenta cenas inéditas que conectam Steve Rogers, o colapso do multiverso e o Doutor Destino ao próximo capítulo da Marvel

Atenção: o texto a seguir contém spoilers de "Vingadores: Ultimato Encore"

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Sete anos depois de levar a Saga do Infinito a uma conclusão que parecia definitiva, "Vingadores: Ultimato" voltou aos cinemas com uma nova versão. Batizada de "Vingadores: Ultimato Encore", a produção mantém praticamente intacta a aventura lançada originalmente em 2019, mas acrescenta material inédito que muda a maneira como aquele encerramento conversa com o futuro do Universo Cinematográfico Marvel.

O relançamento chegou aos cinemas brasileiros em setembro de 2026 e foi pensado como uma espécie de ponte para "Vingadores: Doutor Destino", próximo grande encontro dos heróis da Marvel. O resultado é curioso: o público revê praticamente o mesmo filme que já conhece, mas descobre que a despedida de Steve Rogers, afinal, ainda tinha uma visita para receber. A primeira novidade aparece quando "Ultimato" parecia ter terminado.

Steve Rogers (Chris Evans) e Peggy Carter (Hayley Atwell) finalmente vivem o momento que o personagem esperou durante décadas. Os dois dançam na casa de Peggy ao som de "It's Been a Long, Long Time", mas, desta vez, a cena não termina ali. Uma batida na porta interrompe a dança.

Peggy atende e encontra Loki (Tom Hiddleston), usando o uniforme da Autoridade de Variância Temporal, a mesma organização apresentada na série "Loki". Steve observa a situação escondido e, quando Loki entra, fica claro que a visita não é casual. A nova versão do longa-metragem deixa os três diante de uma situação que o filme de 2019 jamais apresentou: o Capitão América encontra uma versão de Loki que teve uma trajetória completamente diferente daquela conhecida por ele.

É uma pequena sequência, mas com potencial para alterar a leitura daquele desfecho. O Steve Rogers que decidiu permanecer no passado para viver com Peggy agora parece ter sido alcançado por acontecimentos que envolvem o multiverso. Depois, "Ultimato Encore" começa a olhar para um problema ainda maior.

Na Autoridade de Variância Temporal, Mobius (Owen Wilson), O.B. (Ke Huy Quan) e Miss Minutes acompanham uma situação que foge rapidamente do controle. Duas realidades entram em processo de incursão e, em pouco tempo, o número de universos ameaçados cresce de maneira vertiginosa. Entre eles está o Universo 10005, associado aos X-Men dos filmes da Fox. A situação evolui de algumas colisões para centenas e, depois, milhares de incursões. O.B. percebe a dimensão do desastre enquanto a TVA acompanha a destruição das realidades. A conclusão é direta: o multiverso está entrando em colapso.

A sequência funciona como uma explicação visual para um conceito que deve ganhar peso em "Vingadores: Doutor Destino": as incursões, quando universos diferentes entram em rota de colisão e ameaçam destruir uns aos outros. Se Steve Rogers recebe uma visita inesperada, Bruce Banner ganha uma ainda mais problemática. Após os acontecimentos de "Homem-Aranha: Um Novo Dia", Banner (Mark Ruffalo) aparece isolado em uma instalação militar subterrânea, a quilômetros abaixo da superfície. Ele registra seus experimentos e trabalha numa maneira de controlar a radiação gama para impedir que o Hulk volte a assumir o controle.

O isolamento, porém, dura pouco. A instalação começa a apresentar interferências. As imagens falham, os equipamentos sofrem alterações e uma presença surge no local. É Doutor Destino (Robert Downey Jr.), interpretado pelo próprio Robert Downey Jr., embora o personagem não seja mostrado integralmente nessa sequência. Banner pergunta o que ele está fazendo ali. Destino responde que veio "coletá-lo". O cientista se transforma no Hulk e parte para o confronto. A luta, porém, não chega a ser mostrada de maneira convencional. A câmera cai e, quando a situação volta a ser observada, Banner e Destino desapareceram. No chão e nas paredes, ficam as marcas da magia de Destino, sugerindo que os dois foram transportados para outro lugar.

A quarta novidade trabalha com a presença de Robert Downey Jr. no novo capítulo da Marvel. "Ultimato", em sua versão original, terminava com uma referência sonora ao primeiro "Homem de Ferro", de 2008: as batidas metálicas remetiam à construção da armadura de Tony Stark, criando um círculo simbólico para a Saga do Infinito. Em "Ultimato Encore", essa lembrança ganha outro significado. As batidas acompanham imagens de Doutor Destino trabalhando na própria máscara metálica. A associação é inevitável: Tony Stark e Victor von Doom são interpretados por Robert Downey Jr., mas agora o ator ocupa uma posição completamente diferente dentro do universo Marvel.

"Vingadores: Ultimato Encore" não acrescenta uma nova aventura às três horas de filme que o público conhece. O que muda está concentrado principalmente no material adicional, criado para aproximar a conclusão da Saga do Infinito dos acontecimentos de "Vingadores: Doutor Destino". Além dessas sequências, a nova apresentação conta com materiais especiais antes da sessão, incluindo uma mensagem de Robert Downey Jr. e Chris Evans e um vídeo produzido para o público dos cinemas.

O efeito é quase o de uma pós-produção feita anos depois para reposicionar um final conhecido. Steve e Peggy ganham uma visita inesperada; Banner deixa de ser apenas um personagem distante do próximo grande conflito; a TVA identifica o avanço das incursões; e Doutor Destino passa a ocupar um espaço cada vez maior na história.

Para quem esperava cenas deletadas de "Ultimato" ou uma versão significativamente diferente do filme de 2019, a novidade é mais pontual. Para os fãs interessados na continuidade do MCU, entretanto, poucos minutos bastam para transformar um encerramento conhecido em uma espécie de prólogo para a próxima reunião dos Vingadores. "Vingadores: Ultimato" já havia encerrado uma era. "Ultimato Encore" acrescenta algo que o filme original não precisava ter: uma porta aberta para a próxima.


Serviço
"Vingadores: Ultimato Encore"
Gênero: ação, aventura, ficção científica.
Direção: Anthony Russo e Joe Russo.
Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Owen Wilson, Ke Huy Quan, entre outros.
Distribuição: Marvel Studios / Disney.
Estreia nos cinemas brasileiros: setembro de 2026.
Atenção: a disponibilidade de determinados materiais adicionais pode variar de acordo com o formato e a sala de exibição. "Vingadores: Doutor Destino" está previsto para chegar aos cinemas brasileiros em dezembro de 2026.

.: "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração


Por
Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural. 

Ex-baixista da banda Barão Vermelho, Rodrigo Santos tem desenvolvido vários projetos interessantes em sua carreira solo; Agora ele apresenta um disco com releituras de canções de Nelson Motta. com várias participações especiais de convidados. Jogar luz sobre a obra de Nelson Motta foi uma ideia muito feliz, porque apesar de ser um compositor de várias parcerias de sucesso. Nelson Motta sempre foi pouco citado por essa sua contribuição na música. 

Em que pese o fato dos vários hits nas rádios, o repertorio se concentra mais nos férteis anos 80, tem parcerias com Lulu Santos ("Tudo Azul", "Como Uma Onda", "Certas Coisas"). e Guilherme Arantes ("Coisas do Brasil"), passandos por outras canções tipo lado B que mereciam ser resgatadas. Com espírito agregador, Rodriho reuniu um seleto elenco de nomes conhecidos como Leila Pinheiro, Sandra Sá, Fernanda Abreu. Ivo Meirelles, Luiz Caldas, Lobão, Sergio Britto (Titãs), Frejat entre outros.

Difícil destacar uma única faixa ou participação especial. Paula Toller está em "Como Uma Onda". Leo Jaime canta "Sereia". E até Chico Chico, filho da Cassia Eller, canta o rock "Perigosa" (o antológico hit das Frenéticas). Mas eu estaria sendo leviano citando apenas essas faixas. O disco merece ser ouvido na integra. "Rodrigo Santos Canta Nelson Motta" é mais do que uma mera celebração. Ele mostra bem a importância de Nelson Motta na nossa música popular. Vale a pena ser conferido.

 "Coisas do Brasil" (Fernanda Takai)


"Como Una Onda" (Paula Toller)


"De Repente Califórnia" (Rogério Flausino)

.: Novo cinema cruza fronteiras e leva o Brasil de 214 milhões ao mundo


De Berlim a Cannes, de Veneza a Locarno e ao Oscar, filmes brasileiros ampliam sua circulação internacional e mostram como diferentes territórios, personagens e formas de contar o país passaram a integrar a imagem do Brasil no cinema contemporâneo

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para Resenhando.com

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Brasil chegou a 214.211.951 habitantes em 2026. Em um recorte muito específico, Quixadá, no interior do Ceará, pode parecer distante de Berlim, Cannes ou Los Angeles quando se pensa na geografia tradicional do cinema internacional. No entanto, foi justamente de lá que “Feito Pipa” partiu para uma trajetória que resume boa parte do movimento que faz hoje o cinema brasileiro: um filme que evoca memórias do interior cearense, produzido fora do eixo Rio-São Paulo, premiado em um dos grandes festivais do mundo e agora escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.

Dirigido por Allan Deberton, o filme conquistou dois dos principais reconhecimentos da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim: o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme e o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem. A produção também circulou por outros festivais internacionais e chegou a Guadalajara, no México, onde recebeu o Prêmio Maguey de Melhor Filme e outro reconhecimento para sua atuação. Em 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema confirmou “Feito Pipa” como representante brasileiro na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.

A trajetória ajuda a desmontar uma ideia antiga sobre o que precisa acontecer para um filme brasileiro ser visto fora do país. A circulação internacional não começa necessariamente em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem depende de uma história ambientada em grandes capitais. Gugu, personagem de Yuri Gomes, nasce cinematograficamente no sertão cearense e chega a públicos de diferentes países carregando consigo uma experiência muito particular de infância, família, identidade e pertencimento.


O mundo também está olhando para nós
A presença brasileira em festivais internacionais não se resume a um único título. Em 2025, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, levou o cinema brasileiro novamente ao centro do Festival de Cannes. O filme recebeu os prêmios de Melhor Direção, para Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, na competição oficial, além de reconhecimentos paralelos da crítica e de exibidores franceses. A obra foi produzida em coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha.

O resultado também chama atenção pela origem do diretor. Kleber Mendonça Filho construiu uma obra profundamente ligada a Recife, ao cotidiano pernambucano e às contradições sociais e políticas brasileiras. Em Cannes, essa produção deixou de ser uma história exclusivamente local para entrar em uma conversa internacional, sem precisar apagar a cidade onde foi concebida.

Em 2026, outro exemplo veio de Pernambuco. “A Margem do Rio”, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, estreou mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, e foi o único filme brasileiro na disputa pelo Leopardo de Ouro. Poucos dias depois, a produção recebeu o Prêmio Especial do Júri. Ambientado em Recife e centrado no romance entre Izaquiel, auxiliar de serviços gerais, e Jeremias, pescador, o filme levou ao circuito internacional personagens e espaços que também fazem parte de um Brasil distante dos cartões-postais. É uma característica que atravessa boa parte da produção recente: o território deixa de ser simples cenário e passa a participar da identidade do filme. Recife, Quixadá, Marajó, Belo Horizonte, Salvador ou outras cidades e regiões podem estar no centro da narrativa sem que isso seja tratado como uma curiosidade exótica para o público estrangeiro.


“Ainda Estou Aqui” abriu uma porta que continua aberta
Se “Feito Pipa” chega ao Oscar depois de uma passagem internacional construída desde Berlim, o caso de “Ainda Estou Aqui” ajuda a compreender como essa circulação pode se ampliar. O filme de Walter Salles estreou mundialmente no Festival de Veneza de 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Roteiro. Depois, passou por outros festivais, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar 2025 e entrou na shortlist da categoria de Melhor Filme Internacional.

A trajetória terminou com um acontecimento histórico: “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional na cerimônia realizada em 2025. A própria Academia registra o Brasil como vencedor da categoria, com o filme dirigido por Walter Salles. Antes da premiação, porém, houve um percurso que começou muito antes da cerimônia. Veneza, Vancouver, Toronto e outros festivais ajudaram a colocar a produção em circulação, enquanto a distribuição internacional ampliou o acesso ao filme em diferentes territórios.

Esse caminho mostra uma diferença importante entre simplesmente produzir um filme e fazer com que ele encontre espectadores fora do país. A seleção para um festival pode abrir portas, mas depois vêm negociações de distribuição, agentes internacionais, imprensa, mercados, mostras, legendagem, contratos e estratégias para que a obra continue circulando. O festival, portanto, pode ser o começo de uma segunda vida para um filme.

Cannes, Berlim, Veneza: vitrines diferentes para filmes
Os grandes festivais internacionais cumprem funções distintas dentro desse circuito. Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e Sundance possuem programações, públicos e estruturas de mercado próprias. Entrar em uma dessas seleções significa colocar uma produção brasileira diante de curadores, críticos, distribuidores, programadores e compradores de diferentes países.

A própria Ancine mantém iniciativas voltadas à aproximação entre o cinema brasileiro e os grandes festivais. O programa “Encontros com o Cinema Brasileiro”, desenvolvido em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e com o apoio do Cinema do Brasil, foi criado justamente para aproximar curadores internacionais da produção nacional e ampliar sua presença no circuito. Entre os festivais envolvidos ao longo das edições estão Cannes, Berlim, Toronto, Sundance, Veneza, Locarno, San Sebastián e Roterdã.

Esse trabalho de aproximação é menos visível para o público que compra ingresso, mas pode ser decisivo para um filme independente. Antes de uma produção chegar a uma sala francesa, alemã, mexicana ou canadense, existe uma rede profissional responsável por apresentá-la, negociá-la e encontrar o espaço adequado para sua circulação. É nesse ponto que o cinema brasileiro também deixa de ser somente uma questão artística e passa a envolver uma cadeia internacional de negócios.


Coproduzir para atravessar fronteiras
As coproduções internacionais entram nessa equação. Elas podem reunir produtoras, recursos, profissionais e estruturas de diferentes países e facilitar a circulação de uma obra desde sua própria concepção. Em 2026, por exemplo, a Ancine e o Ministério da Cultura lançaram uma chamada de coprodução Brasil-Portugal com aproximadamente R$ 2 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual para longas-metragens de ficção, documentário e animação. A iniciativa brasileira foi acompanhada por uma chamada portuguesa, criando uma estrutura bilateral de financiamento.

Outro edital lançado no mesmo ano destinou aproximadamente R$ 1,5 milhão do FSA à coprodução Brasil-Argentina. A chamada prevê a participação de produtoras brasileiras independentes como coprodutoras minoritárias, enquanto o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, da Argentina, mantém mecanismo correspondente para os projetos em que a participação argentina seja minoritária.

São mecanismos que ajudam a entender uma das questões levantadas na matéria anterior deste dossiê: dinheiro, produção e circulação estão ligados. Um filme pode nascer em uma determinada região brasileira, contar com recursos nacionais, estabelecer uma coprodução internacional e depois encontrar seu público em festivais e salas de outros países.


Um cinema que viaja sem deixar o território para trás
Existe uma questão curiosa na internacionalização do cinema brasileiro. Para ser reconhecido fora do país, um filme nacional não precisa necessariamente parecer menos brasileiro.“Ainda Estou Aqui” levou para Veneza e depois para o Oscar uma história marcada pela ditadura militar e pela experiência de uma família carioca. “O Agente Secreto” levou Recife e a memória política do país a Cannes. “Feito Pipa” saiu do sertão cearense para Berlim e, agora, para o caminho do Oscar. “A Margem do Rio” colocou Recife novamente em uma vitrine internacional a partir de uma história de amor entre dois homens. São filmes muito diferentes entre si, mas existe um ponto de contato: nenhum deles precisou abandonar o lugar de onde veio para encontrar espectadores em outros países.

Essa circulação também altera a própria imagem do Brasil projetada internacionalmente. Em vez de um país representado somente por paisagens reconhecíveis ou por histórias já conhecidas no exterior, aparecem crianças do interior, trabalhadores, famílias, pessoas LGBTQIA+, mulheres, personagens negros, idosos, moradores de grandes cidades e comunidades afastadas dos centros econômicos. O país que viaja nas telas fica maior quando o cinema encontra mais de um Brasil dentro do Brasil.


O Oscar é uma porta, não a chegada
A escolha de “Feito Pipa” para representar o país no Oscar 2027 abre outra discussão. O reconhecimento da Academia Brasileira de Cinema coloca o filme em uma nova etapa de circulação internacional. A candidatura, por si só, não significa que a produção esteja automaticamente entre os indicados finais. A lista de indicados será anunciada posteriormente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Esse cuidado é necessário porque o Oscar costuma concentrar uma atenção enorme, mas o circuito internacional é muito maior do que a premiação de Hollywood. Um filme pode construir uma carreira relevante em Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto, Sundance ou em festivais especializados sem necessariamente chegar à disputa por uma estatueta. O percurso de “Feito Pipa” já demonstra isso. Antes da escolha para representar o Brasil, o filme passou por Berlim e recebeu dois prêmios importantes na Generation Kplus. Depois, encontrou outros festivais e públicos. A indicação ao Oscar, caso venha a acontecer, será mais uma etapa de uma trajetória que começou muito antes.


O Brasil que chega ao mundo
Ao longo de sete matérias, este dossiê passou por personagens, territórios, diretores, políticas públicas, dinheiro e agora circulação internacional. O fio que liga esses assuntos talvez esteja justamente na possibilidade de enxergar o cinema brasileiro como uma produção formada por muitos centros, muitas vozes e diferentes caminhos.

O chamado “novo cinema brasileiro” não cabe em uma geração específica. Também não se limita a uma estética ou a uma cidade. Ele aparece quando um menino de Quixadá ocupa uma tela em Berlim, quando Recife chega a Cannes e Locarno, quando uma família brasileira atravessa Veneza e alcança o Oscar, quando políticas públicas permitem que uma produtora regional coloque um projeto de pé e quando uma história criada em um território específico encontra espectadores do outro lado do oceano. Internacionalizar o cinema brasileiro não significa fazer o país caber na expectativa de quem olha de fora, mas permitir que diferentes Brasis tenham a oportunidade de ser vistos.


Dossiê Resenhando - Novo Cinema Brasileiro

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

.: Novo cinema brasileiro revela quem paga a conta para filme chegar até você


Fundo Setorial do Audiovisual, leis de incentivo, editais estaduais e municipais e políticas de descentralização ajudam a financiar uma produção que movimentou cifras recordes em 2025


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Antes de existir um filme, existe uma pergunta pouco cinematográfica: quem vai pagar por ele? A questão costuma desaparecer quando começam os festivais. Depois de pronto, o filme ganha cartaz, trailer, entrevistas, sessões e, em alguns casos, prêmios internacionais. O público vê o resultado, enquanto os créditos finais passam rapidamente diante dos olhos. Antes disso, porém, existe um percurso de desenvolvimento, roteiro, contratação de equipe, preparação, filmagem, montagem, finalização, distribuição e divulgação que precisa ser financiado.

O crescimento recente do cinema brasileiro também passa por essa conta. Em 2025, a Agência Nacional do Cinema registrou R$ 1,41 bilhão em recursos efetivamente destinados para o setor, o maior volume da série histórica. No mesmo ano, havia 1.556 projetos audiovisuais em execução com apoio do fomento da Ancine, enquanto outros 3.697 estavam em fase de captação por leis de incentivo ou de contratação de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA. O número ajuda a explicar por que falar em novo cinema brasileiro também significa lembrar de política pública, investimento, empresas, editais e mecanismos de financiamento, já que uma boa história ainda precisa encontrar dinheiro para virar imagem.

O dinheiro que volta para o cinema
O principal mecanismo federal de investimento direto no audiovisual é o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que recebe, entre outras fontes, recursos da Condecine, contribuição criada para estimular e financiar o desenvolvimento da indústria cinematográfica e audiovisual brasileira. Em 2025, o Fundo alcançou números expressivos. Foram R$ 564,3 milhões contratados em investimentos, segundo a Ancine, o maior valor da série histórica, além de R$ 411,1 milhões destinados a operações de crédito para infraestrutura, modernização de estúdios, equipamentos e criação e comercialização de conteúdos. As leis de incentivo liberaram outros R$ 437,8 milhões.

O FSA pode funcionar por meio de investimento em projetos, enquanto suas linhas de crédito financiam empresas e estruturas do setor. Já os mecanismos de incentivo fiscal permitem que projetos habilitados captem recursos junto a empresas e outros investidores dentro das regras estabelecidas pela legislação. A própria Ancine passou a disponibilizar uma ferramenta que permite consultar as fontes de financiamento das obras brasileiras e identificar aquelas que utilizaram recursos públicos administrados pela agência, como o FSA e as leis de incentivo. O mapa financeiro do cinema, portanto, é mais complexo do que uma simples pergunta sobre quem “bancou” determinado filme.


O Fundo que chega antes do filme
Em 2025, o Comitê Gestor do FSA aprovou um Plano Anual de Investimentos de R$ 911 milhões. Desse valor, R$ 330 milhões foram planejados para o Prodecine, voltado ao cinema; R$ 315 milhões para o Prodav, relacionado à televisão; e R$ 266 milhões para operações de crédito do Proinfra. A existência dessas linhas significa que o financiamento pode alcançar diferentes etapas da cadeia. Desenvolvimento de projeto, produção, infraestrutura, circulação e internacionalização fazem parte de um sistema que tenta manter o audiovisual funcionando para além de um filme específico.

Em dezembro de 2025, por exemplo, o Comitê Gestor aprovou novas ações que incluíram R$ 100 milhões para suplementação da produção cinematográfica, R$ 30 milhões para complementação de projetos, R$ 90 milhões relacionados ao desempenho comercial de produtoras, R$ 40 milhões para desempenho artístico e R$ 25 milhões para coproduções internacionais binacionais. O cinema, portanto, pode receber dinheiro em momentos diferentes. Um projeto pode precisar de recursos para ser desenvolvido antes de conseguir filmar. Uma produtora pode precisar complementar o orçamento. Uma coprodução internacional pode abrir outra porta de financiamento. A famosa expressão “tirar um filme do papel” envolve uma papelada considerável.


O dinheiro também precisa sair do eixo
Se o dinheiro se concentrasse nos mesmos lugares onde historicamente estão as maiores produtoras, distribuidoras, equipes e estruturas, a descentralização da produção continuaria sendo apenas uma promessa. Por isso, os chamados "arranjos regionais" ganharam importância dentro do FSA. O mecanismo combina recursos federais e investimentos de estados e municípios para apoiar políticas audiovisuais locais.

Na edição de 2025, o programa teve R$ 300 milhões aprovados pelo FSA como complemento aos recursos dos entes locais. No resultado final, 41 entes locais foram selecionados e, pelas regras da chamada, 70% dos recursos foram destinados às regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, enquanto 30% ficaram para propostas do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo. A complementação federal pode chegar a cinco vezes o aporte do ente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e a quatro vezes no segundo grupo. A lógica é simples de entender, embora a operação seja bem mais complicada: o dinheiro federal entra para reforçar estruturas e recursos que já estão sendo organizados localmente.

Em vez de imaginar que uma produtora de Fortaleza, Recife, Belém ou Goiânia precisa disputar exatamente as mesmas condições de uma empresa instalada no Rio de Janeiro ou em São Paulo, a política tenta criar mecanismos para fortalecer os próprios ecossistemas regionais. É uma mudança importante porque cinema não se faz apenas durante as semanas de filmagem. Para existir produção contínua, uma região precisa de roteiristas, produtores, técnicos, equipamentos, empresas, espaços de formação, festivais, salas e capacidade de distribuição.


Paulo Gustavo deixou dinheiro na ponta
Outro capítulo dessa história foi escrito pela Lei Paulo Gustavo. Criada em 2022, a legislação destinou R$ 3,862 bilhões para ações culturais em todo o território nacional. O dinheiro foi transferido pela União aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, que ficaram responsáveis pela execução de editais, chamamentos públicos, premiações e outras formas de seleção. A diferença em relação a um edital federal tradicional está justamente nessa descentralização. O dinheiro chega aos governos locais, que passam a organizar chamadas de acordo com suas realidades.

Para o audiovisual, isso pode significar recursos para curta-metragem, desenvolvimento de projetos, formação, cineclubismo, manutenção de espaços e outras atividades que dificilmente aparecem quando o público pensa apenas no filme pronto. A Política Nacional Aldir Blanc, por sua vez, foi criada como uma política permanente de financiamento cultural. O modelo prevê um total de R$ 15 bilhões em repasses ao longo de sua implementação, distribuídos de forma descentralizada entre estados, Distrito Federal e municípios. No segundo ciclo, referente a 2025 e 2026, todos os estados e 99,9% dos municípios haviam aderido à política, segundo o Ministério da Cultura.

O resultado dessa descentralização não aparece necessariamente no cartaz de um filme famoso. Pode estar em uma oficina de roteiro, na compra de equipamentos para uma produtora, na formação de uma equipe técnica ou no primeiro curta de alguém que ainda está longe dos festivais internacionais. É assim que uma política cultural começa a produzir efeitos antes mesmo de existir um filme para o público assistir.


O Ceará coloca dinheiro no próprio cinema
O caso do Ceará ajuda a visualizar essa engrenagem. Em 2026, o 16º Edital Ceará de Cinema e Audiovisual reuniu um conjunto de ações que totaliza R$ 34 milhões sendo R$ 25 milhões provenientes do FSA e R$ 9 milhões do Fundo Estadual de Cultura. O pacote inclui modalidades para curtas, desenvolvimento de roteiros, difusão, produção de longas-metragens para salas de cinema e produção para TV e vídeo sob demanda.

É uma política que tenta alcançar diferentes momentos da cadeia. Um cineasta pode precisar de dinheiro para desenvolver o roteiro muito antes de conseguir captar o orçamento de produção. Uma produtora pode precisar de recursos para filmar. Depois, ainda existe a etapa de levar a obra ao público. O cinema independente depende dessa continuidade. 

“Feito Pipa”, filme escolhido para representar o Brasil no Oscar, portanto, não deve ser entendido apenas pelo valor de um eventual edital ou pela quantidade de instituições que aparecem em seus créditos. O filme é resultado de uma cadeia de produção na qual diferentes mecanismos podem se somar. A própria trajetória da Deberton Filmes, sediada em Fortaleza, mostra como uma produtora regional pode construir projetos ao longo de anos, articulando produção, distribuição e parcerias.

Existe ainda outro caminho: os mecanismos de incentivo fiscal. A Lei do Audiovisual permite que projetos habilitados captem recursos dentro de determinados mecanismos de incentivo. Em 2025, a Ancine liberou R$ 437,8 milhões por meio das leis de incentivo, mantendo esse mecanismo como uma das fontes importantes de financiamento da produção brasileira.

Nesse mesmo ano, os limites de aporte dos mecanismos previstos nos artigos 1º e 1º-A da Lei do Audiovisual foram atualizados para até R$ 12 milhões na soma desses dispositivos, enquanto os artigos 3º e 3º-A passaram a ter limite de R$ 9 milhões na soma. A legislação também teve sua vigência prorrogada até 2029. Na prática, o produtor não recebe simplesmente um cheque do governo para fazer o filme. Existem regras, aprovação do projeto, captação, prestação de contas e acompanhamento da execução. É uma engrenagem que mistura dinheiro público, participação privada e mecanismos de incentivo.


Coproduzir também é uma maneira de produzir
Quando o orçamento brasileiro não é suficiente para determinado projeto, a coprodução internacional pode abrir outra possibilidade. Em 2026, o FSA lançou chamadas específicas para coproduções com Portugal e Argentina. A chamada com Portugal prevê aproximadamente R$ 2 milhões em recursos do FSA para longas-metragens brasileiros realizados em coprodução com o país europeu. A chamada com a Argentina prevê aproximadamente R$ 1,5 milhão do Fundo para longas brasileiros realizados em coprodução com produtoras argentinas.

Coprodução não significa simplesmente conseguir dinheiro estrangeiro. Ela envolve regras, empresas dos países envolvidos, divisão de responsabilidades e reconhecimento formal da parceria. Também pode ampliar o caminho internacional de um filme. Uma obra que nasce no Brasil pode encontrar parceiros, financiamento, profissionais e circuitos de circulação em outros países. O cinema contemporâneo, nesse sentido, pode ser local na história e internacional na estrutura de produção.


O filme começa muito antes da câmera
Existe uma imagem romântica do cinema que começa quando a câmera é ligada. Na prática, o filme já começou muito antes. Começa quando alguém escreve um argumento, procura uma produtora, desenvolve um roteiro, apresenta um projeto, participa de um laboratório, procura financiamento, entra em um edital, negocia uma coprodução, monta um plano de produção e tenta convencer outras pessoas de que aquela história merece existir.

Depois vêm contratação de equipe, locações, elenco, equipamentos, transporte, alimentação, seguros, montagem, correção de cor, desenho de som, acessibilidade, cópias, materiais de divulgação, distribuição e tudo aquilo que aparece nos créditos quando a sessão termina. É por isso que o número de 3.981 obras audiovisuais brasileiras registradas em 2025, recorde histórico, precisa ser lido ao lado dos dados de financiamento. A Ancine registrou ainda 2.500 obras brasileiras independentes naquele ano, crescimento de 6,7% em relação a 2024, e 810 registros de produtoras sediadas no Centro-Oeste, Norte e Nordeste, alta de 9%.

No entanto, o aumento dos recursos não elimina os problemas: um edital não garante que um filme encontrará público. Um prêmio não paga sozinho a próxima produção. Um projeto aprovado pode enfrentar dificuldades de captação. Uma produtora pode conseguir realizar um filme e ainda ter problemas para distribuí-lo. Além disso, o dinheiro destinado à produção precisa chegar em tempo suficiente para que o setor consiga transformar orçamento em trabalho.

A própria Ancine registrou, ao lado dos recordes de 2025, milhares de projetos ainda em fase de captação ou contratação. O número mostra que existe dinheiro disponível e uma demanda enorme por recursos. Também existe uma questão que os números não resolvem sozinhos: quem consegue acessar os mecanismos de financiamento? Para um produtor experiente, entender um edital pode fazer parte da rotina. Para quem está começando, as exigências técnicas, jurídicas e administrativas podem ser uma barreira tão grande quanto encontrar dinheiro.


O cinema que aparece na tela tem muitos investidores invisíveis
Quando “Feito Pipa” chegar aos cinemas brasileiros, em 5 de novembro, o espectador poderá acompanhar Gugu, Dilma e aquela história familiar ambientada no Ceará. Poderá gostar ou não do filme, emocionar-se, discordar, encontrar referências próprias ou simplesmente seguir para a próxima sessão. Por trás dessa experiência estarão produtoras, profissionais, equipamentos, editais, fundos, leis de incentivo, investimentos, coproduções e anos de trabalho. Alguns desses nomes aparecem nos créditos. Outros ficam escondidos nos documentos de financiamento.

Em 2025, o audiovisual brasileiro recebeu o maior volume de recursos efetivamente desembolsados pela Ancine em sua série histórica. Ao mesmo tempo, a produção independente bateu recorde e regiões fora do eixo tradicional aumentaram sua participação. Ainda existe uma longa estrada entre conseguir dinheiro e atrair público. Saber disso é uma boa maneira de olhar para o chamado novo cinema brasileiro: os filmes que fazem parte dele são resultado de uma infraestrutura que tornou possível filmá-los.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

.: Quem lê, entende: no meu caso, o jornal era um caça-palavras


Thiago Sobral
é escritor. Também publica semanalmente no Substack. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.

Encerro as duas primeiras aulas da manhã e encaro uma “janela” de quase duas horas sem atividades. Primeiro, um respiro de alívio — ou tomada de fôlego — pelos desafios que hão de vir. Com a garrafa térmica em mãos, a fumaça aguça os sentidos que precisam estar despertos. Sento-me calmamente e vou sorvendo cada gole junto com as ideias que ainda não estão aqui. Seria um ótimo momento para escrever, mas estou adiando, pois… você sabe… Forço-me, então, a buscar pelas notícias. Abro portais jornalísticos em busca de assuntos, que não dão conta de uma crônica. Do nacional ao estadual; do regional ao municipal — nada diz o que diria a crônica.

Um deles, porém, apresenta como slogan a frase: “Quem lê, entende”. Pois bem, pus-me a ler.

Havia notícias, claro. Havia reportagens, óbvio. Havia crônicas, por certo. Havia, enfim, um amontoado de palavras (como já disseram por aí) que — juro — li, reli, li novamente e não entendi. “Jornalistas patranheiros!”, bradei baixinho. Como podem afirmar que “quem lê, entende”, se eu, que li e tresli, não entendi patavinas?

Estava prestes a amassar o jornal (se cheiro de jornal sentisse), mas não podia danificar a tela, quando uma matéria me tragou os olhos. O sangue que se espreme sempre de tais folhas não estava ali. Um casal estadunidense do passado comprou um terreno em meio a lagos e florestas para passar o verão. Aquele verão, na verdade, durou a vida inteira que vinha pela frente por culpa de uma coruja-de-chifres. A pobrezinha, ferida, foi levada ao casal, que acabou lhe devolvendo as asas.

Mudança de rota. A temporada de verão tornou-se missão de uma vida toda.

Já eu, não mudo de rota, mas volto ao início. Quem lê, entende. “Jornalistas fidedignos”, sussurrei em alta voz.

O pior cego é aquele que não quer ver, diz a sabedoria popular. A terça-feira modorrenta torrava-me a vista, e as notícias eram nulas ao meu querer. O amargo do café demorou, mas fez efeito. Porque a leitura só faz sentido quando ressoa. Não é à toa que, muitas vezes, um romance seja preterido por um caça-palavras ou deslizar a tela seja mais atrativo que Drummond. Nesse caso, quem lê, não entende mesmo. No meu caso, o jornal era um caça-palavras.

As notícias daquela manhã não bastavam. Eram aquilo mesmo: um amontoado de palavras que precisavam ser buscadas. Mas não seria esse o ofício do cronista: o dever de desentranhar do cotidiano as palavras mais recônditas? Pois pronto! A coruja-de-chifres foi a minha palavra. Ei-la, bela e esvoaçante, cruzando o céu em plena saúde, depois de passar por aquele reduto, ex-rancho de veraneio. E também passar por mim, ex-reduto obscuro aos fatos que merecem ser escritos.

A minha coruja me fez perceber que não se pode apenas caminhar sobre as palavras. Para entendê-las, é preciso mergulhar. Foi assim que pincei, daquele emaranhado de vocábulos, o sentido necessário. Por isso, sou grato à minha coruja. E sou grato também ao jornal, com o qual brado aos quatro ventos: quem lê, entende.
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