terça-feira, 17 de julho de 2007

.: Resenha de "Na Hora do Sol", de Adelaide Carraro

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em julho de 2007


Sonhos que se tornam crimes brutais. Uma criança em busca do pai e um ladrão estuprador sem pudores. Confira Na Hora do Sol, de Adelaide Carraro!

 

Sensualidade à flor da pele, uma linguagem direta, sem palavras requintadas e a história do detento Ubirajara. Este é "Na Hora do Sol", de Adelaide Carraro, publicação de 1977, da Coleção Gama, com selo da Global Editora.

Um livro não muito indicado para leitores mais experientes (e porque não, exigentes!). Digo isto pelo fato de o mercado literário atual oferecer livros de grande qualidade como por exemplo, "Rota 66: A História da Polícia que Mata" e "Abusado: O Dono do Morro Dona Marta", ambos do jornalista Caco Barcellos, publicados pela Editora Record. Em contraponto, "Na Hora do Sol", pode ser encontrado em sebos a preços bem mais acessíveis, porém ao considerarmos o período da produção e sua publicação, percebe-se que publicações neste segmento foram grandes impulsionadores para conquistar novos leitores. Afinal de contas uma capa apelativa, fatalmente colaborava nas vendas destes.

Ok! Vamos ao conteúdo do livro. Já no início temos: Trecho da Carta Enviada por um Detento a Adelaide Carraro. "Eis que isto é Brasil. Brasil de tanto orgulho bem merecido. Mas, nele existem tantos homens manchando esforços por heróis que jamais fariam isto, pois, os nomes deles só figuram como exemplo. Só de exemplo, porque os mais favorecidos pela lei fazem questão de transgredir e saciar o desejo de destruir seres humanos como nós presos" e finaliza "Ao lembrar que ainda existem pessoas como você, tenho esperança de um dia ver estourar nos corredores dos presídios  multidão de homens famintos, gritando seu nome. Dia haverá em que ex-detentos erguerão sua estátua, não em praça pública e sim no coração. Haverá um dia em que mães, irmãs, mulheres e amantes de presos gritarão bem forte seu nome como sendo a madrinha dos menos visados...". - Detentos/Brasil, 1976.

"Na Hora do Sol" conta a história de Ubirajara, apelidado ao longo do livro de Bira. Ele que começou a vida criminosa aos cinco anos e tornou-se ladrão e estuprador, antes tinha pai e vivia em uma casa rodeada de flores. "Tinha rua de verdade com calçamento e eu tinha meus amigos e meu cachorrinho e também podia assistir a televisão na casa de meus amigos". A realidade de Bira muda drasticamente quando seu pai "some" e a mãe dele lê a reportagem: "DOPS Passa a Investigar Espancamento de Operários".

Sem pai, a vida criminosa o acolheu de maneira convidativa, porém ao chegar na prisão muda de personalidade. Toda reviravolta acontece na vida de Bira após matar uma antiga amiga de sua família e mãe de Adriana, garota a quem amava e planejava um belo futuro. Arrependido ele "entrega-se" nas mãos de Deus. "Algum dia nós todos vamos aprender que, do dedão do pé ao couro cabeludo, somos o próprio caminho para conhecermos o mundo que Jesus disse antes de ser pregado na cruz: O Reino de Meu Pai".

Com tanto amor no coração e desejo de ter a alma limpa dos crimes cometidos, ele chega a ouvir dos outros presidiários comentários dos mais variados, como por exemplo o de Zé: "Chiii, Bira acho que você vai sair daqui padre. Sabe que você fala mais bonito que o Capelão, o Pastor e o Macumbeiro?".

Ao leitor curioso: "Por que Na Hora do Sol?". Calma! Acredito que ler é importante, embora a obra não seja muito instigante... blá blá blá blá blá blá. Até que o título é bastante interessante (e por que não inteligente?). Entretanto, o leitor só poderá descobrir o motivo de tal título quando estiver lá pelas últimas páginas do livro.

Apesar de a história não ser bem escrita é possível identificar pontos positivos como por exemplo, o desejo do eu-narrador de colocar fim à criminalidade e tudo, tudo o que a envolve. Eis que entramos na teoria do caos, uma coisa leva à outra e como se diz por aí: "Quem rouba um alfinete, rouba muito mais". Contudo, deseja-se muito que esta frase mude. A vontade de ordem no Brasil também fica expressa na página 154, em que há uma exaltação ao ex-presidente do Brasil Jânio Quadros "que visitava tudo de sopetão, prisões, repartições públicas, escolas, e até o próprio palácio. Moralizou tudo. É o passado... O preso tinha voz".

Enfim, "Na Hora do Sol", de Adelaide Carraro, retrata de maneira modesta, porém bastante engajada, o descaso com as classes desfavorecidas. Mostra o brasileiro que cresce com sonhos que se tornam pesadelos na favela, numa casa de quarto e cozinha, feita de madeiras velhas e papelões. A criminalidade, para quase todos é a grande aliada para uma vida "feliz". Eis que isto (ainda) é Brasil.


Livro: Na Hora do Sol

Autora: Adelaide Carraro

204 páginas

Ano: 1977

Coleção: Gama

Editora: Global

domingo, 1 de julho de 2007

.: Perfil: especial com escritor Walcyr Carrasco

"Quando comecei a escrever, me interessei pela vida das pessoas que, de alguma maneira tinham algum tipo de contradição com o mundo." - Walcyr Carrasco
Da Redação do Resenhando

Em julho de 2007


Um escritor e novelista que mostra a verdade sobre a vida e ressalta que neste mundo nada é definitivo.


A literatura é fonte de inspiração para a vida e vice-versa. Lugares distantes, amores proibidos, duelos de espadas e muitos outros temas são destaque em obras literárias que encantam aqueles que tem fome e muita sede de um bom livro.

Walcyr Carrasco, escritor de muitas obras literárias e de novelas de grande sucesso da Rede Globo, como por exemplo, Chocolate com Pimenta, Alma Gêmea, O Cravo e a Rosa e a da atual novela do horário das sete horas da noite, Sete Pecados, há 10 anos escreveu a história inquietante de uma jovem chamada Marcella. 

Ela, após sofrer um acidente de carro, fica paraplégica e passa a viver uma batalha cotidiana cheia de vitórias e novas formas de ver tudo o que cerca o mundo. Marcella é conhecida pelos leitores por meio de vários personagens que convivem ou tentam conviver com a garota. Juntos, familiares e amigos, descobrem o quanto é difícil perder, e o quanto é precioso aprender a ganhar. 

Ter vontade de viver é um item importantíssimo para todos que passam por variados problemas. É justamente nesta busca da realidade que o autor cria uma sadia e forte relação com a obra. Confira o relacionamento autor e obra de Estrelas Tortas!



"Há muito tempo, descobri que olhava o mundo como se cada coisa fosse definitiva. Como se a felicidade fosse definitiva, e a tragédia também. Mais tarde, quando comecei a escrever, me interessei pela vida das pessoas que, de alguma maneira, tinham algum tipo de contradição com o mundo. Pela vida de quem, enfim, não tem uma existência fácil. Em meus livros falo de aids, preconceito racial e das diferenças entre o modo de ser e o de viver, que é o caso de Estrelas Tortas, no qual me dediquei não só ao problema de uma menina que fica paraplégica, mas também ao impacto desse acontecimento nas pessoas que a cercam.
Para escrever o livro, falei com médicos e também com alguns paraplégicos. A extensão da paraplegia varia muito. Há pessoas que perdem os movimentos do corpo inteiro. Um rapaz me impressionou muito: paraplégico há quinze anos, com lesões muito graves, conseguiu reaprender alguns movimentos básicos, casou-se e trabalha para sustentar a família.

Nessa convivência não só com os paraplégicos mas com todas as minhas personagens, que, por assim dizer, não tem vida fácil, aprendi muito. Verifiquei, por exemplo, que existem dois tipos de problema. Um é o problema em si, que pode ser desde uma lesão física a uma crise financeira; o outro é a forma como a pessoa encara as coisas. 

Para alguns, pequenas tragédias se tornam grandes, tal a incapacidade de enfrentar qualquer adversidade. Para outros, grandes problemas são enfrentados com leveza e otimismo. E é a maneira de enfrentá-los que muda tudo. Felicidade e tragédia não são, assim, definitivas. São situações que dependem de cada um para serem atingidas ou superadas.

Em Estrelas Tortas, quis falar da vida de uma paraplégica, mas quis mostrar, também, como todos nós somos livres para voar. Só quem tem força interior supera as dificuldades do dia-a-dia e brilha, enfim, como estrela."
Walcyr Carrasco


Fonte: Livro Estrelas Tortas, de Walcyr Carrasco. Editora Moderna.
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