sexta-feira, 15 de maio de 2026

.: "Romeu e Julieta" moderno, "Salem" estreia na Reserva Imovision


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Cinco anos depois de incendiar a Croisette com "Shéhérazade", o diretor francês de origem armênia Jean-Bernard Marlin retornou ao Festival de Cannes com "Salem", exibido na mostra Un Certain Regard, ampliando o seu território estético e temático, filme que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision. Se antes o cineasta mergulhava no naturalismo quase documental das periferias de Marselha, agora ele tensiona essa mesma realidade com uma camada de misticismo que desloca o filme para uma zona híbrida entre o real e o sobrenatural.

A trama acompanha Djibril, um jovem ligado a uma gangue que tenta sobreviver às rivalidades históricas entre bairros marginalizados da cidade. A narrativa se estrutura, inicialmente, como uma tragédia amorosa de contornos shakespearianos - uma evocação direta de "Romeu e Julieta" - ao colocar em cena o romance entre o protagonista, de origem comoriana, e Camilla, uma jovem cigana. O conflito entre comunidades organiza o destino dos personagens com a inevitabilidade típica das grandes tragédias. Marlin, assumidamente fascinado por Shakespeare, constrói esse primeiro ato com precisão clássica, ainda que inserido em um ambiente urbano degradado, de terrenos baldios e edifícios semiabandonados, que funcionam como extensão simbólica do abandono social e afetivo.

O que distingue "Salem" de seu antecessor, no entanto, é a virada narrativa que transforma o filme em uma experiência sensorial e espiritual. Após um evento traumático e uma passagem pela prisão - elemento recorrente na filmografia do diretor - Djibril passa a acreditar que é capaz de ouvir espíritos e interpretar sinais divinos, assumindo uma dimensão quase messiânica. A ideia de uma maldição, proferida por um rival em seus últimos suspiros, atravessa o enredo e reorganiza a lógica do filme, que passa a operar sob o signo da dúvida: trata-se de delírio, fé ou herança invisível transmitida entre gerações?

Marlin, que coassina o roteiro com Jeanne Aptekman e Agnès Feuvre, trabalha com um elenco majoritariamente composto por atores não-profissionais - Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim e Wallenn El Gharbaoui - escolhidos após um processo de casting que durou cerca de dez meses. A aposta no frescor e na vivência desses intérpretes reforça a dimensão orgânica da narrativa, ainda que, em alguns momentos, o filme opte por uma estilização que suaviza a brutalidade vista em "Shéhérazade". Há, aqui, uma ambição estética mais evidente: a câmera frequentemente estática, os momentos oníricos e a trilha que flerta com o hipnótico indicam um diretor interessado em expandir sua linguagem.

Curiosamente, o próprio título "Salem" carrega ambiguidades que dialogam com o filme: em árabe, pode significar “paz”, mas também funciona como saudação cotidiana, algo entre o “olá” e o “bom-dia”. Essa polissemia ecoa na narrativa, que oscila entre o desejo de reconciliação e a permanência do conflito. A Marselha retratada por Marlin segue sendo um território de fronteiras invisíveis, onde identidades se chocam e se reinventam, e onde a herança cultural - seja ela religiosa, étnica ou simbólica - molda destinos.


Ficha técnica
“Salem”
Gênero: drama / fantasia
Duração: 103 minutos (aprox.)
Classificação indicativa: 16 anos (estimada)
Ano de produção: 2023
Idioma: francês
Direção: Jean-Bernard Marlin
Roteiro: Jean-Bernard Marlin, Jeanne Aptekman, Agnès Feuvre
Elenco: Oumar Moindjie, Dalil Abdourahim, Wallenn El Gharbaoui
Distribuição no Brasil: Circuito de arte / independente
Cenas pós-créditos: Não.


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