A estreia de “As Pessoas ao Lado” na plataforma de streaming Reserva Imovision recoloca em circulação um diretor que conhece como poucos as zonas de fricção entre o íntimo e o político. Assinado por André Téchiné, veterano do cinema francês, o longa adapta tensões contemporâneas para um espaço reduzido: o convívio entre vizinhos. Lucie (Isabelle Huppert) trabalha na polícia científica e leva uma vida contida A rotina se altera com a chegada de um casal jovem e de sua filha ao condomínio. A aproximação com Julia (Hafsia Herzi) nasce sem esforço, mas logo esbarra na figura de Yann (Nahuel Pérez Biscayart), artista e ativista com antecedentes criminais e histórico de enfrentamento à polícia. A partir desse dado, o filme constrói um impasse que não se resolve com facilidade: como sustentar vínculos afetivos quando a biografia do outro confronta aquilo que você representa?
Téchiné, que já havia explorado relações atravessadas por dilemas sociais em títulos como “Quando os Homens Caem” e “Os Juncos Selvagens”, aposta aqui em uma narrativa de baixa voltagem externa e alta combustão interna. Não há espetáculo, nem concessão a soluções fáceis. O conflito se infiltra em gestos cotidianos, em silêncios carregados e em escolhas que parecem pequenas, mas reorganizam tudo ao redor.
Selecionado para a Mostra Panorama do Festival de Berlim 2024, o longa chamou atenção da crítica internacional justamente por recusar o caminho mais óbvio. O The Hollywood Reporter destacou o embate entre compromissos profissionais e afetivos como eixo central, enquanto o Screen Daily apontou a ausência de pirotecnia como uma escolha consciente: trata-se de um filme policial sem tiros, interessado menos no crime do que nas pessoas que orbitam suas consequências.
Isabelle Huppert, presença constante no cinema de autor europeu, sustenta o filme com uma composição econômica, quase rígida, que vai cedendo aos poucos. Hafsia Herzi imprime a Julia uma mistura de exaustão e desejo de pertencimento que poderia render ainda mais se o roteiro avançasse com maior contundência. Já Nahuel Pérez Biscayart constrói um Yann ambíguo, distante de caricaturas.
Se há um ponto de atrito, ele surge na montagem. A progressão dramática carece de maior densidade entre as cenas. Os acontecimentos se sucedem sem que o impacto reverbere com a força necessária, o que dilui parte do potencial do conflito. Ainda assim, o filme encontra força na recusa de simplificar personagens em rótulos previsíveis. “Les gens d’à côté”, no título original, aponta para aquilo que está ao alcance do olhar, mas nem sempre é compreendido. Téchiné filma uma França tensionada sem recorrer ao discurso inflamado. Prefere observar. E, nesse gesto, encontra um cinema que provoca mais pelo desconforto do que pela afirmação.
Ficha técnica
“As Pessoas ao Lado” | “Les Gens D’À Côté” (título original)
“As Pessoas ao Lado” | “Les Gens D’À Côté” (título original)
Gênero: drama. Duração: 85 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2024. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: André Téchiné, Régis de Martrin-Donos. Elenco: Isabelle Huppert, Hafsia Herzi, Nahuel Pérez Biscayart, Romane Meunier. Distribuição no Brasil: Imovision (Reserva Imovision). Cenas pós-créditos: não Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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