Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
O crime está em um hotel parisiense, mas Jean-Luc Godard parece muito mais interessado em investigar o próprio cinema. “Detetive de Godard” (“Détective”), produção francesa de 1985, chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recuperando uma das obras mais particulares da fase dos anos 1980 do cineasta franco-suíço. No centro da trama estão um assassinato ocorrido dois anos antes, uma dívida milionária, uma luta de boxe, um casamento em crise e uma pequena multidão de personagens que circula pelo mesmo hotel como se todos escondessem alguma coisa.
Laurent Terzieff interpreta William Prospero, antigo detetive do hotel que retorna ao local determinado a esclarecer o assassinato de um hóspede conhecido como Príncipe. Jean-Pierre Léaud vive seu sobrinho, o inspetor Neveu, enquanto Aurelle Doazan interpreta Arielle. Do outro lado dessa intricada rede estão Françoise Chenal, personagem de Nathalie Baye, e seu marido Émile, vivido por Claude Brasseur. O casal enfrenta dificuldades financeiras e pressiona Jim Fox Warner, empresário de boxe interpretado pelo cantor e ator Johnny Hallyday. Para complicar ainda mais a situação, Jim também deve dinheiro à máfia. Alain Cuny aparece como o velho mafioso, enquanto Emmanuelle Seigner e Julie Delpy completam o elenco principal.
A investigação, portanto, rapidamente deixa de ser uma questão policial convencional. Godard espalha as pistas pelo cenário, pelas falas, pelos objetos e pela montagem. O hotel torna-se um tabuleiro em que detetives, boxeadores, amantes, mafiosos e devedores circulam em diferentes combinações. O espectador precisa montar as peças enquanto o diretor embaralha deliberadamente as expectativas de quem espera uma narrativa policial tradicional.
O roteiro é assinado por Alain Sarde e Philippe Setbon, com participação de Jean-Luc Godard nos diálogos e na adaptação ao lado de Anne-Marie Miéville, segundo a Cinemateca Portuguesa. A própria ficha do Festival de Cannes credita Sarde e Setbon pelo roteiro. A escolha do gênero policial tinha uma razão bastante concreta. “Detetive” nasceu de uma encomenda do produtor Alain Sarde, interessado em aproximar Godard de um projeto com potencial comercial. A estratégia reunia atores conhecidos do público francês, como Baye, Brasseur, Hallyday, Terzieff e Cuny, e colocava o diretor diante dos códigos do filme noir. O resultado, porém, conserva o gosto de Godard por desmontar convenções e fazer do próprio mecanismo cinematográfico parte da história.
A imprensa especializada percebeu justamente esse jogo. O crítico Vincent Canby, do “The New York Times”, definiu a produção como uma homenagem fragmentada e divertida ao film noir, enquanto o “Los Angeles Times” observou que Godard reduziu a narrativa ao essencial e carregou cada sequência de referências e associações, exigindo do público uma postura investigativa para compreender personagens e acontecimentos. O filme também marcou a estreia de Julie Delpy no cinema. Aos 14 anos, a atriz aparece em uma participação pequena, anos antes de conquistar reconhecimento internacional por trabalhos como “Antes do Amanhecer”, dirigido por Richard Linklater.
Outro detalhe curioso está na própria formação do elenco. Johnny Hallyday, uma das maiores estrelas da música francesa, assume o papel de um empresário de boxe envolvido com dívidas e negócios escusos. Já Jean-Pierre Léaud, figura fundamental da nouvelle vague e presença recorrente no cinema de Godard, interpreta um detetive de energia quase descontrolada. O contraste entre essas personalidades ajuda a criar a atmosfera peculiar da produção.
“Detetive” ainda foi exibido em competição no Festival de Cannes de 1985, ao lado de filmes como “Paris, Texas”, “Mishima” e “O Beijo da Mulher-Aranha”, entre outros títulos daquele ano. A presença de Godard na competição reforçava sua relação histórica com o festival, que acompanhou diversas fases de sua carreira. O filme é dedicado a três cineastas que Godard admirava: John Cassavetes, Edgar G. Ulmer e Clint Eastwood. A homenagem ajuda a iluminar o caminho escolhido pelo diretor: partir do crime, do gangster, do detetive e das convenções do cinema popular para criar uma obra que brinca com esses elementos enquanto questiona a maneira como uma história policial é construída. Com 95 minutos de duração, “Detetive” permanece uma experiência especialmente interessante para quem gosta de cinema que exige atenção aos detalhes. A trama oferece assassinato, dinheiro, sexo, boxe e máfia, mas Godard acrescenta citações literárias, música clássica, referências cinematográficas e uma montagem que transforma cada cena em uma nova pista. É uma oportunidade de reencontrar um Godard menos celebrado, porém cheio de provocações, inclusive contra as próprias regras do gênero que decidiu explorar.
Ficha técnica
“Detetive de Godard” | “Détective” (título original)
Gênero: comédia, crime e drama. Duração: 95 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 10 de maio de 1985. Idioma: francês, com registros de inglês e italiano. Direção: Jean-Luc Godard. Roteiro: Alain Sarde, Philippe Setbon e Jean-Luc Godard, com adaptação de Alain Sarde, Philippe Setbon, Anne-Marie Miéville e Jean-Luc Godard. Elenco: Laurent Terzieff, Jean-Pierre Léaud, Nathalie Baye, Claude Brasseur, Johnny Hallyday, Alain Cuny, Aurelle Doazan, Stéphane Ferrara, Emmanuelle Seigner e Julie Delpy. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.













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