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terça-feira, 9 de junho de 2026

Crítica: "Todo Mundo em Pânico 6" é deboche saudosista imperdível



Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


A volta dos irmãos Wayans no controle do roteiro da franquia de deboche "Todo Mundo em Pânico", que chega ao sexto filme, é recheada de críticas divertidas e pesadas. Desde as bobeiras sem sentido da internet como o "six seven", até altas lições de pura consciência sobre os absurdos naturalizados da atualidade, incluindo o preconceito racial muito bem representados pelos grandes nomes da franquia Cindy (Anna Faris, de "Casa das Coelhinhas") e Brenda (Regina Hall, de "Uma Batalha Após a Outra").

Ver "Todo Mundo em Pânico 6" dirigido por Michael Tiddes ("Inatividade Paranormal" e "Cinquenta Tons de Preto"), na telona do cinema, resgatando o tempero perfeito da comédia mesclada a paródias de importantes produções, como os indicados e vencedores do Oscars 2026, "Pecadores""Uma Batalha Após a Outra". Sendo que o segundo filme abocanhou seis estatuetas, entre elas a de "Melhor Filme", e divide a atuação da atriz Teyana Taylor, que, na comédia entrega tudo com uma barriga tanquinho de entortar a faca do Ghostface enquanto empunha o Globo de Ouro com poder. 

O longa é uma verdadeira explosão de nostalgia durante 1 hora e 36 minutos de duração. Ao promover encontros e reencontros, com roteiro de Marlon Wayans, Shawn Wayans, Keenen Ivory Wayans, Craig Wayans e Rick Alvarez, volta à raiz. Ao colocar  Teyana como a primeira garota do sexto longa, resgata que Carmen Electra foi a primeira das garotas quando atendeu o telefonema do Ghostface em "Todo Mundo em Pânico" (2000), sendo perseguida pelo jardim de casa e tem o silicone retirado.

Sem esconder a fórmula da franquia, "Todo Mundo em Pânico 6" a segue com muita acidez e promove o resgate de personagens clássicos como o quarteto Cindy, Brenda, Ray (Shawn Wayans, de "As Branquelas") e Shorty (Marlon Wayans, de "GOAT"), além de reintegrar o elenco com Greg (Lochlyn Munro, de "As Branquelas"), Gail (Cheri Oteri), Doofy (Dave Sheridan, de "O Pequenino"). Até o ex de Cindy, Bobby (Jon Abrahams, de "A Casa de Cera") e o mordomo Hanson (interpretado pelo comediante Chris Elliott), conhecido como o Mãozinha, retornam. Sabiamente, o sexto filme abre espaço para discutir e criticar as escolhas tomadas dentro da própria franquia de paródias irônicas.

Em meio ao elenco estelar de "Todo Mundo em Pânico 6" há novidades. Assim como alguns filmes do gênero terror encontraram uma saída para dar um novo fôlego, "Todo Mundo em Pânico 6" também apresenta os filhos dos sobreviventes que agora estão na mira do grande vilão da trama. Surge na história Waldinha ou Tuesday, não Wandinha ou Wednesday como em "Família Addams" (Savannah Lee Nassif), uma das duas filhas adotas de Cindy Campbell, assim como Sara (Olivia Rose Keegan). 

Criticando o medo moderno de ser cancelado e a patrulha ideológica da internet, o comportamento das pessoas nas redes sociais, retratando o vício em internet como uma "doença crônica", cutuca ainda a política abusiva de Trump e a função efetiva do ICE. "Todo Mundo em Pânico 6" ironiza até a onda de filmes de terror intelectuais ou "cult", abraçando abertamente a chacota e os clichês óbvios.

Resgatando os personagens marcantes da franquia e com grande elenco, "Todo Mundo em Pânico 6"  diverte, mas dá um recado maior dado e reforça que os personagens matrizes não podem ser substituídos, nem mesmo por seus filhos. De fato, não é a nova geração que entrega saudosismo, mas os coroas. A autocrítica também marca presença quando debate na telona os desvios nas tramas da franquia assim como a trocas de atores ou a ausência deles.

Cheio de referências críticas a filmes que  dão liga para cada narrativa diversa estão "Escape Room", "Terrifier", "M3gan", "Pânico", "Pecadores", "Halloween", "Sorria", "A Substância" e o prazo de validade da idade feminina aceita em Hollywood, citando até Demi Moore. "Todo Mundo em Pânico 6"  contempla com deboche um dos maiores marcos do cinema LGBTQIA+ e do drama romântico moderno "O Segredo de Brokeback Mountain", assim como o recente sucesso nos cinemas "Michael"

Vale muito a pena assistir "Todo Mundo em Pânico 6" dublado, uma vez que as vozes na versão nacional são de Priscila Amorim (Anna Faris como Cindy), Marisa Leal (Regina Hall como Brenda), Duda Ribeiro (Shawn Wayans com Ray) e Jorge Lucas (Marlon Wayans como Shorty). Boa diversão e não perca!


"Todo Mundo em Pânico 6" ("Scary Movie"). Gênero: Comédia, Paródia. Direção: Michael Tiddes. Roteiro: Marlon Wayans, Shawn Wayans, Keenen Ivory Wayans, Craig Wayans e Rick Alvarez. Duração: 1h 36 minutos. Classificação Indicativa: 18 anos. Distribuição: Paramount Pictures. Elenco: Anna Faris como Cindy Campbell, Regina Hall como Brenda Meeks, Marlon Wayans como Shorty Meeks, Shawn Wayans como Ray Wilkins, Jon Abrahams como Bobby Prinze, Lochlyn Munro como Greg Phillipe, Dave Sheridan como Doofy Gilmore, Cheri Oteri como Gail Hailstorm, Chris Elliott como Hanson, Anthony Anderson. Sinopse: A trama se passa 26 anos após os eventos originais. O grupo de amigos formado por Cindy, Brenda, Shorty e Ray encontra-se novamente na mira de um assassino mascarado implacável, em uma história recheada de sátiras aos maiores sucessos recentes do cinema de terror (como Halloween, Sorria e Pecadores).


Trailer de "Todo Mundo em Pânico 6"



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domingo, 7 de junho de 2026

.: André Téchiné mergulha na Paris que engole sonhos em "Não Dou Beijos"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1991 e agora em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, "Não Dou Beijos" é uma das obras mais contundentes da filmografia de André Téchiné. O cineasta francês abandona qualquer idealização da capital francesa para acompanhar a trajetória de Pierre, interpretado por Manuel Blanc, um jovem do interior dos Pireneus que desembarca em Paris carregando o sonho de se tornar ator. O que encontra, porém, está longe das promessas de ascensão social frequentemente associadas à cidade. Sem conseguir se firmar profissionalmente, Pierre atravessa uma sucessão de fracassos que o empurram para a marginalidade. Aos poucos, a sobrevivência fala mais alto do que as ambições artísticas, levando-o à prostituição masculina. O percurso do personagem é marcado por encontros, perdas e humilhações que moldam uma dolorosa passagem para a vida adulta.

Escrito por Jacques Nolot em parceria com André Téchiné, o roteiro nasceu de experiências pessoais do próprio Nolot, que chegou a transformar suas vivências em um romance inédito antes da adaptação para o cinema. A colaboração resulta em uma narrativa de forte autenticidade emocional, interessada na observação de um indivíduo tentando encontrar algum lugar no mundo. O título "Não Dou Beijos" sintetiza a postura do protagonista diante de um universo em que quase tudo pode ser negociado. A frase funciona como uma espécie de código íntimo, um limite que Pierre tenta preservar quando sua vida passa a ser determinada por circunstâncias cada vez mais adversas.

Manuel Blanc entrega uma atuação de enorme intensidade, responsável por projetar seu nome internacionalmente e render-lhe o César de Ator Revelação. Ao seu redor, Philippe Noiret constrói um personagem complexo e melancólico, enquanto Emmanuelle Béart adiciona magnetismo e vulnerabilidade à figura de Ingrid. Hélène Vincent completa o núcleo central com uma interpretação marcada por delicadeza e frustração. Téchiné conduz a narrativa sem concessões. 

A Paris dele não possui cartões-postais nem encantamento turístico. As ruas, os apartamentos modestos e os espaços de encontro noturno compõem um cenário hostil, em que o desejo de pertencimento esbarra constantemente na indiferença coletiva. Essa visão desencantada da metrópole antecipa temas que o diretor voltaria a explorar em obras posteriores, entre elas "Rosas Selvagens", consolidando seu interesse por personagens jovens deslocados social e emocionalmente.

Outra curiosidade relevante envolve o personagem Romain, interpretado por Philippe Noiret. Segundo registros sobre a produção, a figura foi inspirada no filósofo Roland Barthes, amigo tanto de Téchiné quanto de Jacques Nolot. A referência acrescenta uma camada intelectual discreta a um filme que, embora profundamente humano, jamais abandona a reflexão sobre poder, afeto e vulnerabilidade. 

Recebido com respeito pela crítica internacional, "Não Dou Beijos" também chamou atenção pela forma direta com que abordou a prostituição masculina, tema raramente tratado com tanta frontalidade no início da década de 1990. O diretor rejeita glamourizações e oferece um retrato duro de quem tenta preservar a própria identidade enquanto tudo ao redor parece exigir algum tipo de renúncia. Mais de três décadas após a estreia, "Não Dou Beijos" continua impressionando pela honestidade de seu olhar. É um drama sobre juventude, desilusão e sobrevivência que permanece atual justamente porque compreende algo fundamental: crescer nem sempre significa realizar sonhos; às vezes significa aprender o que sobra deles.


Ficha técnica
"Não Dou Beijos" | "J'embrasse Pas" (título original) | "Je N'Embrasse Pas" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 115 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: francês. Direção: André Téchiné. Roteiro: Jacques Nolot e André Téchiné (com colaboração de Michel Grisolia). Elenco: Manuel Blanc, Philippe Noiret, Emmanuelle Béart, Hélène Vincent, Roschdy Zem, Ivan Desny, Christophe Bernard e Michèle Moretti. Data de lançamento nos cinemas: 20 de novembro de 1991 (França). Distribuição no Brasil: sem distribuição comercial ampla registrada nos cinemas brasileiros; circulou em mostras e circuitos especializados. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Contos Imorais" desafia o pudor e expõe as rachaduras da moral ocidental


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Lançado em meio às transformações culturais que marcaram a década de 1970, o filme "Contos Imorais" está em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision como uma obra capaz de provocar discussões que permanecem surpreendentemente atuais. Dirigido pelo cineasta polonês radicado na França Walerian Borowczyk, o longa-metragem antológico reúne quatro histórias ambientadas em épocas distintas para investigar os limites entre desejo, religião, poder e convenções sociais.

Conhecido pela trajetória no cinema experimental e na animação, Borowczyk encontrou em "Contos Imorais" um ponto de inflexão na carreira. O filme ampliou a notoriedade internacional dele ao combinar apuro visual, referências literárias e um erotismo frontal que causou escândalo em diversos países. A produção integrou a Seleção Oficial do Festival Internacional de Cinema de Locarno e conquistou, posteriormente, o Prix de l'Âge d'Or, premiação ligada ao legado surrealista europeu.

A estrutura do filme percorre séculos distintos. Na primeira história, um jovem e sua prima experimentam a descoberta sexual em uma praia isolada. Em seguida, uma adolescente francesa mistura fervor religioso e fantasias íntimas enquanto cumpre um castigo. O terceiro segmento revisita a figura lendária da condessa húngara Erzsébet Báthory, associada a histórias de crueldade e obsessão pela juventude. O encerramento leva o espectador à Itália renascentista para acompanhar uma versão particularmente transgressora da família Bórgia, liderada por Lucrécia, seu irmão Cesare e o papa Alexandre VI.

O roteiro é assinado por Walerian Borowczyk com contribuições inspiradas na obra do escritor surrealista André Pieyre de Mandiargues. A narrativa dialoga com fontes literárias, lendas históricas e relatos que desafiam os limites entre realidade e imaginação. Essa combinação ajuda a explicar por que o filme continua sendo objeto de estudo tanto por pesquisadores do cinema quanto por especialistas em surrealismo e representação da sexualidade.

No elenco, destacam-se Lise Danvers, Fabrice Luchini - que anos depois se tornaria um dos grandes nomes do cinema francês -, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, filha do pintor Pablo Picasso, e Florence Bellamy. Cada segmento possui identidade própria, mas todos compartilham a mesma intenção de questionar os códigos morais que, ao longo da história, tentaram regular os corpos e os desejos.

Uma das curiosidades mais conhecidas envolve o episódio de Erzsébet Báthory. Para criar o célebre banho de sangue da condessa, a produção utilizou cerca de 30 galões de sangue suíno verdadeiro, uma decisão que contribuiu para a reputação extrema da obra. Outra particularidade é que o projeto originalmente possuía um quinto segmento, "La Bête". O episódio acabou removido da montagem principal e posteriormente expandido para se tornar o cultuado longa "A Besta" (1975), outro título fundamental da filmografia de Borowczyk.

O impacto de "Contos Imorais" jamais se limitou às cenas de nudez que escandalizaram plateias nos anos 1970. O filme permanece relevante porque encara a moralidade como construção histórica, variável e frequentemente contraditória. Entre o refinamento plástico e a provocação deliberada, Borowczyk desafia o espectador a observar como diferentes sociedades condenaram desejos que, muitas vezes, coexistiam discretamente nos bastidores do poder, da religião e da aristocracia.

Décadas após sua estreia, "Contos Imorais" continua dividindo opiniões. Alguns enxergam uma obra de arte ousada; outros, um exercício de provocação levado ao limite. O fato é que poucos filmes do período conseguiram preservar tamanho poder de inquietação. Essa capacidade de desconfortar explica a permanência do filme no imaginário do cinema europeu.

Ficha técnica
"Contos Imorais" | "Contes Immoraux" (título original)
Gênero: drama, erótico, antologia, romance. Duração: 125 minutos (2h05). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1973. Idioma: francês, com trechos em italiano e húngaro. Direção: Walerian Borowczyk. Roteiro: Walerian Borowczyk, baseado em histórias de André Pieyre de Mandiargues. Elenco: Lise Danvers, Fabrice Luchini, Charlotte Alexandra, Paloma Picasso, Florence Bellamy, Pascale Christophe, Marie Forså. Distribuição no Brasil: sem distribuidora nacional registrada atualmente; lançado nos cinemas brasileiros em 20 de setembro de 1982. Cenas pós-créditos: não.

sábado, 6 de junho de 2026

.: Crítica: "Diana - A Princesa do Povo" devolve humanidade ao mito


Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. Foto: Carlos Costa

A história de Diana Spencer já foi contada à exaustão pela imprensa, pelo cinema, pela televisão e pelos documentários. Ainda assim, "Diana - A Princesa do Povo", em cartaz no Teatro Liberdade até dia 5 de julho, encontra uma brecha rara: abandonar o fascínio pela figura mítica para observar a mulher que existia por trás das manchetes. O "comeback" de Sara Sarres não poderia ser me melhor. Ela retorna aos palcos em estado de graça. O reencontro dela com o teatro musical não poderia ter encontrado personagem mais poderosa. 

Diana oferece a Sara Sarres todas as possibilidades dramáticas imagináveis, e a atriz aproveita cada uma delas. Vulnerável, divertida, apaixonada, indignada e determinada, a interpretação dela evita o retrato santificado que tantas vezes acompanha a princesa. Sara constrói uma mulher real, capaz de despertar empatia sem pedir complacência. Ao lado dela, Claudio Lins entrega um Charles distante da caricatura. A voz cristalina do ator encontra espaço para brilhar em números musicais que ampliam os conflitos internos do personagem. O espetáculo compreende algo que muitas produções ignoram: para que Diana funcione dramaticamente, Charles precisa existir como figura complexa. E Lins alcança esse equilíbrio com precisão.

Uma das decisões mais inteligentes da montagem está na construção de Camilla Parker Bowles. Giselle de Prattes afasta qualquer leitura simplista da personagem e oferece uma interpretação marcada pela humanidade. A Camilla defendida por ela não surge como antagonista de novela, mas como alguém que também espera, sofre e ocupa um lugar desconfortável dentro daquele tabuleiro afetivo. Curiosamente, a figura mais rígida e implacável da narrativa acaba sendo a Rainha Elizabeth II, defendida com firmeza por Simone Centurione. A presença dela no espetáculo ajuda a compreender que o verdadeiro embate nunca foi apenas amoroso, era institucional.

Dino Fernandes também deixa sua marca como James Hewitt. A participação dele ganha destaque em uma das cenas visualmente mais impactantes da montagem, envolvendo o célebre passeio a cavalo. É um momento que sintetiza liberdade, desejo e fuga em meio ao sufocamento imposto pela vida pública.

Marianna Alexandre confirma aquilo que o público habituado ao teatro musical brasileiro já conhece: a presença dela em cena funciona como um selo de qualidade. Nas sequências compartilhadas com Diana, interpretando Sarah Spencer, a atriz introduz afeto, cumplicidade e leveza sem desviar a atenção dos conflitos centrais. São passagens que lembram algo frequentemente esquecido quando se fala da princesa: antes de se tornar um fenômeno mundial, ela era uma mulher que acreditou sinceramente em uma história de amor. Tudo o que veio depois parece surgir como reação ao colapso dessa promessa.

O grande mérito de Tadeu Aguiar está em compreender essas nuances. A direção precisa dele evita julgamentos simplistas e conduz o espectador por zonas moralmente mais interessantes. Não há heróis absolutos e muito menos monstros definitivos em "Diana - A Princesa do Povo". Todos no espetáculo são pessoas presas a protocolos, interesses, expectativas e convenções que acabam esmagando qualquer possibilidade de felicidade genuína.

Com direção musical de Thalyson Rodrigues, cenografia de Natália Lana, figurinos de Ney Madeira e Dani Vidal e coreografias de Sueli Guerra, a superprodução da Estamos Aqui Produções transforma um episódio amplamente conhecido da cultura pop em uma experiência emocionalmente envolvente. O espetáculo revisita a trajetória da princesa Diana sem recorrer à reverência automática que costuma cercar a memória dela. O resultado é um musical que faz uma pergunta desconfortável e atual: o que acontece quando uma instituição milenar exige obediência de alguém que deseja apenas ser amada? A resposta, o mundo inteiro já conhece. O mérito desta montagem está em fazer o público voltar a senti-la.

Serviço
Espetáculo "Diana - A Princesa do Povo"
Local: Teatro Liberdade
Rua São Joaquim, 129 - Liberdade | São Paulo
Temporada até dia 5 de julho de 2026
Sessões: Sextas às 20h00, Sábado às 16h00 e 20h30. Domingos às 15h00 e às 19h30

Ingressos
Plateia Premium 
Sexta-feira, sábado e 1ª sessão de domingo - R$340,00 (Inteira) | R$170,00 (Meia)
Quinta-feira e 2ª sessão de domingo - R$ 280,00 | R$140,00 (Meia)

Plateia 
Sexta-feira, sábado e primeira sessão de domingo - R$250,00 (Inteira) | R$125,00 (Meia)
Quinta-feira e segunda sessão de domingo - R$ 190,00 | R$85,00 (Meia)
Balcão Visão Parcial - R$120,00 (Inteira) | R$60,00 (Meia)
Balcão A - R$170,00 (Inteira) | R$85,00 (Meia)
Balcão B: R$50,00 (Inteira) | R$25,00 (Meia)
Vendas: Site Sympla (https://bileto.sympla.com.br/event/114505) ou Bilheteria local
Gênero: musical
Duração: 150 minutos (com intervalo)
Classificação: 12 anos

Descontos
*Desconto 35%: Obtenha 35% de desconto no ingresso inteiro ao preencher o formulário durante o processo de compra.
Para comprar mais de um ingresso nessa modalidade, basta preencher um formulário por ingresso conforme será solicitado. Desconto disponível para todos os públicos.
*Clientes Glesp: têm 25% de desconto nos ingressos inteiros mediante a aplicação do cupom, limitado a 4 ingressos por cupom. Válido para todos os setores.
*Crianças até 24 meses não pagam entrada e ficam no colo dos responsáveis durante a apresentação. A partir de 02 anos e 1 dia, a criança paga meia-entrada mediante apresentação da carteira de identidade ou certidão de nascimento.

Ingressos
Internet (com taxa de conveniência):
Bilheteria física (sem taxa de conveniência):
Horário de funcionamento de bilheteria:
Atendimento presencial: de terça à sábado das 13h00 às 19h00. Domingos e feriados apenas em dias de espetáculos até o início da apresentação.

Acessibilidade
Deficientes físicos: teatros adequados às normas de acessibilidade, contendo elevador, corrimão, espaço para cadeirantes e acompanhantes, banheiros adaptados.
Deficientes auditivos – Agenda de apresentações com tradução em libras (em construção)
Deficientes visuais - Previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize texto da peça em Braile e resumo descritivo do espetáculo em Braille e em áudio (para cidadãos devidamente identificados)
Deficientes intelectuais – Quatro (quatro) assentos posicionados em local de fácil mobilidade para este público, proporcionando conforto caso haja necessidade de se retirar durante a sessão e, ainda, previsão de que, quando solicitada, a produção disponibilize abafadores de ruído (para cidadãos devidamente identificados)
Este espetáculo contém Luz Estroboscópica (flashes de luz intensa). Este efeito visual é contraindicado para pessoas com epilepsia, sensibilidade à luz ou autismo. Aconselhamos cautela.


.: "Incêndios" mergulha na guerra e em um dos maiores segredos do cinema


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

Poucos filmes conseguem provocar tamanho impacto emocional quanto "Incêndios", filme em cartaz na plataforma de streaming Reserva Imovision. Lançado em 2010 e dirigido por Denis Villeneuve, o drama canadense chegou aos cinemas brasileiros em fevereiro de 2011 e rapidamente conquistou espaço entre as produções mais admiradas do século. Antes de se tornar um dos cineastas mais celebrados de Hollywood com obras como "A Chegada", "Blade Runner 2049" e os dois capítulos de "Duna", Villeneuve entregou uma narrativa poderosa, construída sobre perdas, memória, violência e heranças que atravessam gerações.

Baseado na peça homônima do escritor e dramaturgo Wajdi Mouawad, o longa acompanha os irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan, interpretados por Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette. Após a morte da mãe, Nawal Marwan, vivida de forma impressionante por Lubna Azabal, os dois recebem uma missão inesperada: localizar um pai que acreditavam estar morto e um irmão cuja existência desconheciam. A investigação conduz os personagens ao Oriente Médio e, pouco a pouco, revela um passado marcado pela guerra e por acontecimentos capazes de redefinir tudo o que julgavam saber sobre a própria família.

O roteiro, assinado por Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, organiza a narrativa em diferentes tempos históricos sem perder a clareza dramática. Cada descoberta amplia a dimensão da tragédia e transforma a busca dos irmãos em uma reflexão profunda sobre identidade, culpa, perdão e sobrevivência. A força do texto encontra apoio em uma direção segura, que sabe dosar tensão e emoção sem recorrer a atalhos fáceis.

Uma das curiosidades mais comentadas sobre a produção está na inspiração indireta em acontecimentos ligados à Guerra Civil Libanesa. Embora a história não adapte fatos reais específicos, estudiosos e críticos apontam semelhanças com a trajetória da ativista libanesa Souha Bechara, presa e torturada durante anos em uma penitenciária do sul do Líbano. Essa aproximação ajuda a compreender a intensidade política e humana presente no filme.

A excelência técnica também contribui para o prestígio duradouro da obra. A fotografia de André Turpin alterna paisagens frias e tons áridos para reforçar os contrastes geográficos e emocionais da trama. Já a trilha sonora de Grégoire Hetzel acompanha a jornada sem excessos, permitindo que o peso dos acontecimentos encontre espaço para ressoar por conta própria.

O reconhecimento internacional veio rapidamente. "Incêndios" recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira e consolidou Denis Villeneuve como um dos realizadores mais talentosos de sua geração. Mais de uma década depois, continua sendo apontado por parte da crítica e do público como o trabalho mais contundente de sua carreira. Em tempos de narrativas descartáveis e consumo acelerado, "Incêndios" permanece intacto, preservando a capacidade de surpreender, inquietar e emocionar com a mesma intensidade de sua estreia.


Ficha técnica
"Incêndios" | "Incendies" (título original) | "Incendies - A Mulher Que Canta" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 2h10m. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2010. Idioma: francês e árabe. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve e Valérie Beaugrand-Champagne, baseado na peça de Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette e Rémy Girard. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

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.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 5 de junho de 2026

.: Crítica: "Mestres do Universo" tem a força para manter a essência e inovar


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em junho de 2026


A essência da animação de sucesso dos anos 80, chega aos cinemas em 2026 mesclada a uma releitura cinematográfica humanizada para os tempos de hoje. Eis "Mestres do Universo" a aguardada produção do herói fortão de tanguinha e botas que, diante do perigo, para salvar seu povo, ergue a espada do poder a um sonoro: "pelos poderes de Grayskull... eu tenho a força!". Vale destacar aos saudosistas que é uma boa priorizar a versão dublada do longa, uma vez que Garcia Júnior reinterpreta o príncipe Adam (Nicholas Galitzine, de "Continência ao Amor"), com bônus de ter a voz da dubladora Marisa Leal (Ariel na animação Disney, Baby em "Família Dinossauro") como Roboto.

Com direção de Travis Knight ("Bumblebee"), o filme de 2026 é um resgate de nova roupagem que absorve um pouco da história de "Superman". Quando criança, o pequeno príncipe Adam sobrevive a um ataque tenebroso de Esqueleto (voz de Luiz Carlos Persy como Esqueleto, Jared Leto, de "Esquadrão Suicida", "Morbius" e "Tron-Ares") a Eternos. Enviado para a Terra junto de sua espada os dois se desencontram. 

A produção não retrata como Adam se formou, se foi adotado ou cresceu num orfanato. Agora, um homem que ainda tenta encontrar a espada perdida e também sua cara-metade, tenta sobreviver no maçante trabalho para se manter vivo. Outra falha do longa, no caso visual, está no primeiro embate do herói em Etérnia com um vilão, numa ponte estreita em que com um gancho, o rival marca o chão. Contudo, em todo o confronto, tal feito simplesmente some da tela, deixando a ponte em perfeitas condições.

Perdido na Terra, vivendo como um reles mortal com lembranças curiosas da infância, após 10 anos, ele é reencontrado por Teela numa situação de puro enfrentamento. Toda a pancadaria remete muito a sequência de "Homem-Aranha De Volta para Casa" (2021) quando doutor Octopus encontra o cabeça de teia na ponte ou ainda o mais antigo "Deadpool" (2016) no confronto que acontece durante os créditos iniciais do filme. Em tempo, Adam tem Hussein (Christian Vunipola) como amigo na Terra, o que também remete a nova franquia de "Homem-Aranha" com Ned Leeds (Jacob Batalo).

Bebendo da fonte de "Superman""Mestres do Universo" faz lembrar da cena das cartas na saga "Harry Potter", sendo que aqui o que voa pelo ambiente são os desenhos do menino que retratam lembranças de sua infância. Há também um pouco de "O Senhor dos Anéis" na Montanha da Perdição quando Adam joga um rival direto no fogo ardente.

Assim, Adam volta para Etérnia que está destruída tendo o Esqueleto no comando, estando sedento pelo poder absoluto, almejando ter em mãos a espada do poder. Sem ter conhecimento da força descomunal que tem, por carregar o descrédito do pai, o jovem Adam tenta se enturmar com as figuras que conheceu na infância e pareciam sem sentido para os humanos. Afinal, Adam prioriza a conversa antes de partir para o braço o que só alimenta a desconfiança dos outros.

Ao ser enjaulado com Teela, Adam reencontra Mentor, que acaba sendo a representação viva do que Esqueleto fez com Etérnia. Destruído, o pai de Teela encontra a força que precisava no regresso do herói, voltando a seus tempos áureos de auxiliar a família do rei de Etérnia. Em meios a diversos embates, Adam se redescobre e a magia do herói da música brasileira do "Trem da Alegria", acontece na telona de cinema. Sim! "Mestres do Universo" é o tipo de produção para se assistir na telona de cinema com estilo.

Para alguns que imaginavam ver nos cinemas a reprodução das animações dos anos 80, "Mestres do Universo" pode ser frustrante. Contudo, para amarrar todo o histórico do príncipe Adam, certas mudanças são aceitáveis. Vale lembrar que o herói dos músculos de aço já ganhou um longa-metragem em 1987 que fracassou, mesmo tendo Dolph Lundgren como protagonista. E ele marca presença na nova produção em um encontro do tipo o antigo e o atual Adam, numa academia quando o jovem pede um conselho de iniciante. 

Com três cenas pós-créditos, "Mestres do Universo" pode não ser um filmaço que preencha os requisitos de fãs de produções da Marvel, mas consegue ser um super filme de resgate saudosista com potencial para sequências de qualidade. Imperdível!


"Mestres do Universo" ("Masters Of The Universe"). Gênero: Ação, Aventura e Fantasia. DireçãoTravis Knight. Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee e Adam Nee. Duração: 2h 13 minutos. Classificação Indicativa: 14 anos. Distribuição: Sony Pictures. Elenco: Nicholas Galitzine como Príncipe Adam / He-Man, Camila Mendes como Teela, Idris Elba como Duncan / Man-At-Arms, Jared Leto como Esqueleto, Alison Brie como Maligna. Sinopse: O filme acompanha a jornada do Príncipe Adam para salvar Eternia e aceitar seu destino como He-Man

Trailer de "Mestres do Universo"



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.: A carne, o mar e a ruptura: a juventude desenfreada de "Paixão Juvenil"


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1956 e dirigido com maestria por Kô Nakahira, "Paixão Juvenil", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, hoje é reverenciado como clássico, mas já representou uma transgressão perigosa quando foi lançado. É nesse terreno de provocação que se posiciona o cinema japonês daquele período, batizado de Nuberu Bagu (a "Nouvelle Vague" japonesa). O movimento focava em pequenas crises cotidianas e no registro da intensidade de uma geração que buscava escapar do autoritarismo e da mesmice, sem a preocupação de entregar respostas fáceis ao público. 

As grandes transformações políticas e os traumas das guerras historicamente deixam marcas profundas na produção artística, gerando movimentos que ecoam diretamente no comportamento das novas gerações. Nos anos 1950 e 1960, a efervescência cultural moldou um estilo de vida rebelde, cuja atitude muitas vezes foi confundida com mera imaturidade ou contestação vazia. No cinema, essa necessidade de crueza e urgência encontrou paralelo perfeito com a entrega dos jovens daquela época, uma mistura explosiva de audácia e coragem para desafiar sistemas corrompidos. 

O filme acompanha a trajetória de dois irmãos de classe média alta que aproveitam o verão em uma estância balnear. Natsuhisa, o mais velho, esbanja autoconfiança e experiência com as mulheres; já Haruji, o caçula, carrega uma timidez crônica diante do sexo oposto. A dinâmica pacata e tediosa desse grupo de jovens ricos sofre uma ruptura quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Eri, uma figura misteriosa que o irmão mais novo conhece ao desembarcar na estação de trem. À medida que o enredo avança, descobre-se que a jovem esconde segredos densos, incluindo um casamento com um estrangeiro mais velho, transformando o conflito fraterno em um triângulo amoroso obsessivo e destrutivo.

A construção da personagem feminina representa uma verdadeira revolução para os padrões da cinematografia japonesa da época, historicamente pautada por figuras femininas frágeis e submissas. Eri surge como uma femme fatale de filme noir, uma mulher dotada de uma liberdade incomum que usa a beleza e a aparente fragilidade como isca para manipular e devorar os homens ao seu redor. Nakahira explora o erotismo e o toque corporal com uma audácia impressionante para o ano de 1956, inundando a tela com uma efervescência juvenil focada na busca incessante pelo prazer individual, onde o sentimento amoroso é relegado a um plano secundário.

O longa-metragem escancara a massiva influência dos Estados Unidos no Japão pós-guerra, visível tanto nos figurinos inspirados na moda norte-americana quanto na trilha sonora dominada pelo ritmo das big bands ocidentais. Contudo, essa dominação cultural é ironizada pelo diretor em momentos cirúrgicos, como nas piadas direcionadas ao rapaz que passou uma temporada em solo americano ou na própria escolha de colocar um estrangeiro no papel de marido traído. Em termos técnicos, a produção abraça a cartilha de Hollywood com maestria: a narrativa possui um ritmo frenético, construída com cortes rápidos, planos curtos, variações constantes de tomada e um desenho de som ativo que impede qualquer ameaça de monotonia.

A relevância estética de "Paixão Juvenil" é tamanha que a produção serviu de inspiração direta para os realizadores da Nouvelle Vague francesa, como François Truffaut. O enredo, que remete aos conflitos passionais de "Jules e Jim", caminha para um desfecho violento e febril, comparável ao terceiro ato das tragédias de Tennessee Williams, em que as emoções reprimidas transbordam e provocam a ruína completa dos personagens. Trata-se de um registro temporal audacioso e atemporal, cuja contextualização histórica apenas amplia o prazer de testemunhar o nascimento de uma nova linguagem cinematográfica.


Ficha técnica
“Paixão Juvenil” | "Kurutta kajitsu" (título original) | "Fruto de Paixão" (título em Portugal)
Gênero: drama, cult. Duração: 1h 26min (86 minutos). Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1956. Idioma: japonês e inglês. Direção: Kô Nakahira. Roteiro: Shintaro Ishihara. Elenco: Yûjirô Ishihara (Takishima Natsuhisa), Masahiko Tsugawa (Takishima Haruji), Mie Kitahara (Eri), Harold Conway (Marido de Eri), Taizô Fukami (Pai), Masumi Okada, Eiko Higashiya, Atsuko Akashi, Yoko Benisawa, Ayuko Fujishiro, Keiko Hara, Shigeo Hayashi, Eiko Higashitani, Hiroshi Kondo. Distribuição no Brasil: sem distribuidor oficial nos cinemas (lançado diretamente em festivais e mídia física de colecionador). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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.: "Kokuho" desafia o cinema ao tentar filmar a alma do kabuki


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

O cinema contemporâneo raramente se atreve a flertar com a grandiosidade dos épicos que exigem tempo, fôlego e entrega absoluta. Sob a assinatura do cineasta Lee Sang-il, "Kokuho - O Preço da Perfeição", que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, é uma dessas raras e monumentais exceções. O longa-metragem consegue a proeza de transportar o espectador para o coração pulsante do teatro kabuki, mapeando cinquenta anos de história com uma força dramática que evoca os grandes clássicos do cinema asiático. 

A produção desembarcou nas telas brasileiras precedida por uma trajetória robusta no circuito internacional, que incluiu uma première mundial na prestigiosa Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, além de passagens celebradas pelos festivais de Toronto e Busan. Fenômeno comercial histórico em seu país de origem, a obra arrastou mais de 12 milhões de espectadores aos cinemas, tornando-se o live-action de maior bilheteria da história do Japão.

A narrativa, estruturada a partir do roteiro preciso de Satoko Okudera, adapta o celebrado romance em dois volumes de Shûichi Yoshida, lançado em 2018. A trama acompanha a saga de Kikuo Tachibana, jovem que carrega o estigma de ter nascido em uma família ligada à yakuza. Após o brutal assassinato de seu pai, o destino do garoto de 14 anos sofre uma guinada radical quando ele acaba acolhido pelo lendário mestre do kabuki, Hanai Hanjiro II, papel defendido com a habitual crueza e generosidade paternal de Ken Watanabe. Nos bastidores da tradicional dinastia artística de Kamigata, Kikuo passa a dividir os dias com Shunsuke Ogaki, o herdeiro legítimo do clã. Juntos, os dois garotos mergulham em um universo onde a busca pela excelência artística exige a renúncia de qualquer vestígio de normalidade cotidiana, iniciando uma jornada que flutua constantemente entre a irmandade mútua e uma rivalidade silenciosa e devastadora.

O núcleo dramático gira em torno da obsessão dos protagonistas em alcançar o título de Kokuho - a honraria máxima de "Tesouro Nacional Vivo", concedida pelo governo japonês aos grandes mestres da arte tradicional. Ambos dedicam-se à complexa especialidade do onnagata, os atores que assumiram os papéis femininos na cena teatral desde que o xogunato baniu as mulheres dos palcos no Período Edo por questões morais. A dinâmica entre os dois adultos, interpretados com assombrosa entrega por Ryo Yoshizawa e Ryusei Yokohama, expõe um embate clássico: de um lado, o talento bruto e instintivo de um órfão marginalizado; de outro, o peso esmagador da hereditariedade e a cobrança pelo sangue azul de uma linhagem artística. O diretor conduz esse emaranhado de orgulho e dor sem pressa, permitindo que o tempo dilate o sacrifício físico e emocional dos personagens.

A obsessão do filme pela autenticidade transborda em cada plano trabalhado pelo diretor de fotografia Sofian El Fani. Para conferir o realismo necessário aos bastidores e camarins, o autor do livro original, Shuichi Yoshida, passou três anos infiltrado como um Kurogo - o assistente de palco que se veste inteiramente de preto para se tornar "invisível" aos olhos do público. Essa vivência íntima reverbera na tela na meticulosa preparação dos atores. 

O protagonista Ryo Yoshizawa submeteu-se a um intenso e rigoroso treinamento de 18 meses com profissionais do kabuki para dominar a precisão cirúrgica de cada gesto, postura e olhar. Não por acaso, a produção garantiu uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Cabelo, honrando a deslumbrante transformação dos intérpretes na alvura impecável das maquiagens tradicionais, contrapondo-se ao universo rústico e melancólico da masculinidade tóxica que rege a vida fora dos palcos.

A trilha sonora sublime de Marihiko Hara, pontuada por canções interpretadas por Miu Sakamoto e Iguchi Osamu, eleva a voltagem dramática da produção, especialmente nas sequências em que a câmera rompe a barreira do "teatro filmado" para rodopiar de forma imersiva ao redor dos corpos em cena. Embora a montagem execute saltos temporais bruscos que por vezes sacrificam o desenvolvimento das personagens femininas - como a matriarca interpretada por Shinobu Terajima -, a obra compensa as arestas com uma força visual avassaladora. "Kokuho – O Preço da Perfeição" se consolida como um registro sofisticado sobre uma manifestação cultural tricentenária que tenta sobreviver ao avanço da modernidade no Japão pós-guerra, expondo sem filtros as cicatrizes incuráveis de quem decide vender a própria alma em troca do vislumbre eterno da divindade artística.


Ficha técnica
“Kokuho  O Preço da Perfeição” | “Kokuhō” (título original)
Gênero: drama. Duração: 175 minutos (2h55m). Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: japonês. Direção: Lee Sang-il. Roteiro: Satoko Okudera (baseado no romance de Shûichi Yoshida). Elenco: Ryo Yoshizawa, Ryusei Yokohama, Sōya Kurokawa, Keitatsu Koshiyama, Ken Watanabe, Mitsuki Takahata, Shinobu Terajima, Nana Mori, Ai Mikami, Kumi Takiuchi, Masatoshi Nagase, Emma Miyazawa, Takahiro Miura, Kyusaku Shimada, Tateto Serizawa, Nakamura Ganjirō IV, Min Tanaka. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


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