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sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

.: David Crosby: o rock perde sua referência em harmonia vocal


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Ao saber do falecimento de David Crosby na última semana, tive a sensação de ter perdido uma parte de minha memória musical. Suas harmonias vocais cantadas em bandas ou em carreira solo permanecem vivas em minhas lembranças da adolescência e do início do ensino superior, no curso de Jornalismo no extinto campus da Pompeia, da UniSantos. Pois foi nesse período que eu entrei em contato com seus trabalhos  

David Crosby integrou o The Byrds nos anos 60. Ele estava na antológica regravação de "Mr. Tambourine Man", que estourou em todo o mundo. No final daquela década, formou um trio com Stephen Stills e Graham Nash. Mais tarde, Neil Young se juntaria a eles, completando um quarteto que marcaria sua presença na história do rock e da música pop internacional. Também gravou elogiados discos em dupla com Graham Nash nos anos 70 e 80.

Em todos os seus trabalhos se nota uma riqueza nas harmonias vocais. Ele também escreveu ou fez parcerias em canções conhecidas como "Eight Miles High" (no The Byrds) e "Wooden Ships" (com o Crosby, Stills & Nash). É constantemente associado ao folk rock, muito embora se note até influências do jazz em seu trabalho solo.

Por conta desses projetos desenvolvidos em grupos, sua interessante carreira solo apresenta hiatos entre um disco e outro. Infelizmente, foi triste ver a falta de divulgação do seu trabalho solo, seja nas rádios, seja no lançamento dos discos no Brasil. Só consigo me lembrar do álbum "Yes I Can", ainda na época do vinil. Os demais discos só fui ter acesso graças aos serviços de streaming disponíveis, como o Spotify ou o Deezer.

Um dos últimos trabalhos de estúdio foi o brilhante álbum "For Free", que segue a receita do músico, mesclando elementos de folk rock com vertentes do jazz e da música pop. Canções como "Ships In The Night", "River Rise" e "I Won't Stay For Long" confirmam a sua genialidade como compositor e intérprete. Se você só ouviu falar de David Crosby e de seus posicionamentos polêmicos em favor da liberdade, vale a pena procurar conhecer seu consistente trabalho solo na música, que pode ser conferido nos serviços de streaming.

"River Rise" - David Crosby

"Secret Dancer" - David Crosby

"The Other Side of Midnight" - David Crosby


sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

.: Lenda da música: Jeff Beck, um gigante da guitarra sai de cena


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Impossível dimensionar a perda de um nome como Jeff Beck, considerado um dos maiores músicos de todos os tempos, que faleceu no último dia 10 aos 78 anos. Quem conhece sua obra em carreira solo sabe bem que a sua principal qualidade era a fusão de estilos musicais, basicamente o jazz e o rock. Ele conseguia traduzir em emoção os acordes e solos de sua fender stratocaster.

Sua carreira começou na Inglaterra nos anos 60, mais precisamente na banda Yardbirds. Ele sucedeu ninguém menos do que Eric Clapton no grupo e chegaria a tocar junto com Jimmy Page nesta mesma banda, antes de partir para uma promissora carreira solo. Page fundaria mais tarde o Led Zeppelin.

Ainda no final dos anos 60, fundou o Jeff Beck Group com Rod Stewart no vocal e Ron Wood no baixo. Com essa formação gravou dois discos antológicos e por muito pouco não se tornou atração no Festival de Woodstock.

Nos anos 70 fundou um power trio com os músicos Tim Bogert (baixo) e Carmine Appice (bateria) e sua discografia solo ganhou novas dimensões com álbuns do naipe de "Blow By Blow" e "Wired", que sintetizavam de forma brilhante a sua proposta de fusão de estilos musicais. Faixas como "Cause We've Ended As Lovers" (composta por Stevie Wonder para ele), "Blue Wind" e "Scatterbrain" mostravam a sua genialidade por meio de solos e arranjos primorosos. Solos esse aliás difíceis de serem reproduzidos por outros músicos

Os trabalhos nos anos 80 e 90 soavam mais próximos de hits radiofônicos, como a regravação de "People Get Ready" com vocal de Rod Stewart. Nesse período ocorreram inúmeras participações especiais em discos de artistas como por exemplo, Mick Jagger. Seu trabalho mais recente foi o álbum “18”, em parceria com o ator Johnny Depp, um trabalho com uma série de covers e algumas canções inéditas.

Tinha o dom de descobrir cantoras que acabavam se integrando ao seu estilo. Imelda May, Beth Hart e mais recentemente Rosie Bones fizeram trabalhos marcantes ao seu lado. E ao contrário de muitos guitarristas, ele preferia não usar palhetas para tocar seu instrumento. Não por acaso foi apontado como o 5º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista Rolling Stone. E foi indicado duas vezes ao Hall of Fame do Rock, sendo uma como integrante dos Yardbirds e outra pela sua carreira solo.

Ao sair de cena, Jeff Beck deixou um legado cuja importância está ligada com a própria essência do rock como estilo musical. Ele continuará sendo sempre uma referência para músicos iniciantes ou para amantes da música instrumental.

"Cause We've Ended As Lovers"

 "Going Down"

 "Beck´s Bolero"

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

.: Música: Orianthi, a musa da guitarra que encantou o Rei do Pop


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Originária da Austrália, a guitarrista Orianthi está lançando dois álbuns, sendo um ao vivo e outro em estúdio com composições inéditas. O som é um hard rock com ares setentistas, incluindo os providenciais riffs e solos de guitarra. Não por acaso, o seu talento fez até Michael Jackson se render e escala-la em sua banda de apoio naquela que seria suas apresentações ao vivo em 2009.

Vamos a alguns feitos da jovem guitarrista: seu single de estreia em 2009, "According to You", alcançou a 3ª posição no Japão, a 8ª na Austrália e a 17ª nos Estados Unidos. Seu segundo álbum, "Believe", foi lançado mundialmente no final de 2009. No mesmo ano, ela foi nomeada uma das "12 Maiores Guitarristas Femininas" pela revista Elle. Ela também ganhou o prêmio "Guitarrista Revelação do Ano de 2010" oferecido pela revista Guitar International.

Orianthi também integrou a banda de Alice Cooper e chegou a se apresentar ao vivo no Crossroads Guitar Festival com Eric Clapton. Também tocou com Prince e Carlos Santana. Em 2009 ela foi escalada por Michael Jackson para compor a sua banda de apoio na turnê "This Is It", que acabou não sendo realizada em função do falecimento do Rei do Pop. O documentário com os ensaios mostra Orianthi como integrante da banda.

"Live from Hollywood" é o primeiro álbum ao vivo de Orianthi. Foi lançado julho pela Frontiers Records e apresenta registro feito no Bourbon Room em Hollywood, Califórnia, em janeiro deste ano. O set list consiste principalmente em versões ao vivo do quarto álbum de estúdio de Orianthi, além de outros hits como a já citada "According To You".

"Rock Candy" é o nome do quinto álbum de estúdio de Orianthi. Foi lançado em outubro deste ano pela Frontiers Records. O primeiro single do álbum, "Light It Up", foi lançado em julho de 2022. A sonoridade de Orianthi é baseada na escola do hard rock dos anos 70, com riffs de guitarra e solos bem destacados nos arranjos. Vale a pena conferir o trabalho da moça.

 "You Don´t Wanna Know"

"Light It Up"

 "Contagious"

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

.: Disco resgata a força do canto de Bettye LaVette nos anos 60


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Nos anos 60, Bettye La Vette lançou uma série de singles pela Silver Fox Records, que integrava a antológica gravadora Sun Records, a mesma que revelou Elvis Presley e outros pioneiros do rock. E parte dessa rica produção foi disponibilizada na coletânea "Let me Down Easy: Bettye LaVette in Memphis", que mostra a força de seu canto moldado basicamente na soul music e em outras influências, como a música folk.

Esta retrospectiva remasterizada inclui faixas como "He Made a Woman Out of Me" e o cover explosivo de "Piece of My Heart", além da pérola que deu título a coletânea, "Let Me Down Easy", que foi recentemente resgatada pela dupla eletrônica Odesza. Aclamada pelo jornal New York Times como "uma das grandes intérpretes de soul de sua geração", Bettye LaVette é uma vocalista que pode pegar qualquer tipo de música e torná-la completamente sua.

As suas qualidades musicais podem facilmente ser conferidas nas faixas desse tesouro musical.Em "Easier to Say", por exemplo, ela dá uma lição de como cantar soul com emoção na dose dose certa. E a sua já citada versão de "Piece of My Heart" ficou acima da média, assim como a ótima e explosiva "My Train´s Coming".

Trata-se de uma cantora que gravou no período de consolidação da soul music nos anos 60. E que ainda continua na ativa, lançando trabalhos convincentes e de qualidade. Mas é inegável que essa fase inicial apresenta ela em um formato de diamante lapidado. Uma joia de intérprete, com arranjos de metais feitos sob medida para seu canto.

"Let Me Down Easy"

"Piece Of My Heart"

"My Train´s Coming"


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

.: Fabio Bergamini estreia com o disco instrumental "Nandri"


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O instrumentista e compositor Fabio Bergamini lançou o seu primeiro álbum instrumental solo, "Nandri" (selo Belic Music), que está disponível em todas as plataformas de música. O trabalho segue a linha da world music e do jazz, sintetizando suas influências e experiências sonoras desenvolvidas em parceria com diversos músicos convidados.

"Nandri" é formado por oito composições instrumentais - “Rasikapriya”, “Swarnabhoomi”, “Camelo”, “Timbila”, “Nandri”, “Guerra Sem Batalha”, “Omni” e “Bel” - que primam pela sonoridade e por arranjos que conduzem o ouvinte a paisagens sonoras e visuais, amparadas pela sonoridade da world music em plena harmonia com a complexidade dos improvisos do jazz.

Com 30 anos de carreira, tocando e viajando o mundo com o grupo português Madredeus e acompanhando artistas de renome, Fabio Bergamini se apresenta agora como criador nesse álbum norteado pela música étnica e pela inserção de instrumentos ‘exóticos’ dos mais diversos cantos do mundo.

Com características de "trilhas sonoras", as composições foram inspiradas em paisagens, viagens ou histórias vividas pelo músico, que assina quase a totalidade da autoria das composições. Os arranjos foram construídos ao longo dos últimos anos, a partir de performances, experimentações e práticas de estudos feitas pelo grupo Fabio Bergamini Ensemble, formado por Bergamini nas percussões e bateria, Rui Barossi no contrabaixo (que também assina a produção musical e os arranjos do álbum, junto com Fabio Bergamini), Rubinho Antunes no trompete, André Bordinhon na guitarra, Paula Mirhan na voz, Fábio Oliva no trombone e Sidney Ferraz no piano.

O disco ainda conta com convidados internacionais e de diversas regiões do Brasil: a cantora espanhola Mili Vizcaíno, os músicos indianos Ghatam Karthick e Sarvesh Karthick, a cantora suíça-brasileira Taïs Reganelli (radicada em Portugal), o saxofonista Guto Lucena (radicado na Suécia), o pianista carioca Pedro Carneiro Silva e os paulistanos Gabriel Levy (acordeon) e Emilio Martins (percussão).

"Nandri" cria um espaço comum entre ocidente e oriente, entre a música instrumental ocidental, sobretudo o jazz e a música brasileira, e algumas das chamadas “músicas do mundo”, com destaque para a indiana, a africana e a árabe. Timbres “exóticos”, harmonias modais, ragas indianas, escalas árabes (maqams), paisagens sonoras brasileiras, instrumentos tradicionais de diversas culturas, diferentes atmosferas e improvisações garantem uma sonoridade peculiar ao trabalho.

“Nandri quer dizer ‘obrigado’ na língua Tamil (sul da Índia), e esse é um álbum feito em agradecimento aos tantos caminhos a que a música pode nos levar e que nos faz mergulhar tanto internamente, na busca de nossa essência. “Esse álbum é uma celebração à música sem fronteiras, à diversidade musical encontrada na cidade de São Paulo e nos possíveis encontros e intersecções onde a música pode ser essa linguagem universal dos sons. É o resultado do que vivi até então, do tanto que estudei, desenvolvi e de como vejo, expresso e entendo o mundo”, finalizou Bergamini.



"Nandri"

 "Camelo"

 "Guerra sem Batalha"




sábado, 10 de dezembro de 2022

.: Crítica musical: Djavan chega ao 25º álbum, djavaneando como sempre


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Djavan está lançando o seu mais recente disco com composições inéditas. Intitulado apenas “D”, o trabalho traz canções com temáticas atuais e arranjos que mantém o seu balanço pop característico, além de um dueto com Milton Nascimento na faixa "Beleza Destruída".

Ele responde pela produção e pelos arranjos, que usam de forma correta os sopros, com aqueles já conhecidos toques jazzísticos pontuados com uma malemolência única e original. Alguns temas parecem ter inspiração no período pandêmico, buscando sempre mensagens positivas focadas no futuro e em mensagens de superação dos problemas que o isolamento causou nas pessoas.

"Beleza Destruída", o dueto com Milton Nascimento, chama a atenção para a necessidade de se preservar a natureza. “A mata queimando/Joga a esperança na mais cruel solidão, solidão/ Chuva demais pra uns e de menos pros demais/Causando mais sofrer, mais sofre...r”. Ouvir as vozes lendárias de Djavan e Milton juntas em uma canção é um privilégio para qualquer ouvinte.

Nas demais faixas ele segue djavaneando como sempre. Canções como “Num Mundo de Paz”, “Quase Fantasia”, “Sevilhando” e “Ao Menos Um Porto” trazem aquele balanço irresistível de apelo pop jazzístico, que é reconhecido logo nos primeiros acordes dos arranjos.

Na canção "Iluminado", Djavan é acompanhado pelos filhos nos vocais. E a letra explora novamente o tema com foco no alto astral. “Fazer o bem/É sempre uma coisa dada/Sem esperar nada/Sem olhar a quem/Vamos sorrir/Pra não cair em cilada/Quem não ri de nada/Não sabe o que tem...”.

Se é para djavanear, que seja então por temas positivos mesmo. Não que ele precise provar algo depois de tantos anos de carreira. Mas já estávamos sentindo falta de ouvir aquele hit com o seu balanço pop característico, feito sob medida para tocar nas rádios. E esse novo disco chega exatamente para preencher essa lacuna. 

"Num Mundo de Paz"

"Beleza Destruída"

"Sevilhando"

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

.: Bruce Springsteen declara amor a soul music em "Only The Strong Survive"


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Bruce Springsteen volta com um mais um excelente álbum. E desta vez, traz um trabalho cheio de covers nostálgicas que revelam uma parte importante de sua formação musical. "Only The Strong Survive", o disco, é composto basicamente por canções do estilo soul music dos anos 60 e 70, que foram determinantes para sua carreira como intérprete.

O disco tem produção de Ron Anielo, que tocou a maioria dos in  strumentos que acompanham Springsteen. E tudo foi cuidadosamente preparado para dar ao disco um certo clima retrô, mas sem exagero. São canções de The Temptations, Diana Ross & The Supremes, Four Tops, Billy Paul (que lançou a canção que deu título ao disco), além de outros menos conhecidos do grande público como Ben E. King e Tyrone Davis.

Se você ficou curioso para ouvir Springsteen como crooner de soul, vai se surpreender com o resultado. É de longe um dos melhores discos que ele gravou nos últimos anos. Se por um lado não traz canções autorais, por outro lado tem o mérito de mostrar para o público uma fase mágica da soul music que era produzida no passado nos Estados Unidos, mais precisamente em Detroit e na Filadélfia.

O disco tem entre as mais conhecidas as canções "Night Shift" (hit do grupo Commodores dos anos 80), "Someday We´ll Be Together" (de Diana Ross & The Supremes), e a surpreendente "The Sun Ain´t Gonna Shine Anymore", que foi gravada pelo grupo vocal Walker Brothers nos anos 60. Todas interpretadas de forma magistral.

Nas canções menos conhecidas, Bruce Springsteen mostra toda sua genialidade. Ele joga luz sobre canções obscuras como "Turn Back the Hands of Time" (de Tyrone Davis) e "Don´t Play That Song" (de Ben E. King), bem como nas demais faixas. A faixa título ganhou um arranjo mais rústico e menos dançante em comparação com a gravação original. E tudo funcionou muito bem na voz de Springsteen.

É preciso entender que ninguém recebe o apelido de The Boss (O Chefe) à toa. E ele faz questão de “exercer plenamente o cargo”, ao direcionar seus trabalhos sempre da forma que deseja conduzir. E este álbum "Only The Strong Survive" bem que poderia ter um segundo volume, porque tenho certeza que ele gostaria de ter incluído outras pérolas desse estilo musical. Ficaremos na torcida. Mas, por hora, esse álbum ficou perfeito. Vale muito a pena conferir. Você pode comprar "Only The Strong Survive"  neste link.

"Do I Love You"

"Turn Back The Hands Of Time"

"Night Shift"


sexta-feira, 25 de novembro de 2022

.: Erasmo Carlos, a partida do amigo de fé, por Luiz Otero

Por Luiz Gomes Otero*, em novembro de 2022.

Erasmo Carlos é um nome gigante. A exemplo do que diz o hino nacional, ele era um gigante pela própria natureza musical. Um gigante gentil. Tanto na sua produção em parceria com Roberto Carlos como na carreira solo, ele deixou uma obra muito interessante que sempre vem sendo redescoberta pelas novas gerações. Por isso é que seu falecimento, ocorrido na última terça-feira, deixa uma lacuna difícil de ser preenchida. Mas, ao mesmo tempo, a sua obra vai manter viva a sua presença em nossa cultura popular.

As declarações de pessoas próximas ao Tremendão descrevem bem a sua personalidade. Silvio Britto, por exemplo, disse que Erasmo tinha um coração enorme, era realmente um amigo com quem você podia contar em momentos difíceis ou mesmo para simplesmente bater um papo.

Sua obra pode ser dividida em três fases distintas. A primeira, nos anos 60, com o advento do programa Jovem Guarda na TV Record, que projetou sua imagem para todo o País. A segunda fase, a partir dos anos 70, quando resolve mudar seu estilo de compor e gravar para ficar mais próximo da MPB. Período esse aliás considerado o mais fértil de sua carreira segundo os críticos.

A terceira fase chega nos anos 80 até os dias atuais, com um som mais radiofônico, próximo do pop nacional e emplacando vários hits como "Mesmo que Seja Eu", "Mulher" e "Minha Superstar", entre outros.

A parceria com Roberto Carlos rendeu hits ao longo de toda sua carreira. As canções como "Detalhes", "Sentado a Beira do Caminho", "Proposta", "O Portão", entre tantas outras que permanecem como clássicos indiscutíveis de nossa MPB.

Tive a sorte de encontrar o Erasmo pessoalmente em São Paulo, no ano de 2005, em uma coletiva de divulgação do DVD 40 anos da Jovem Guarda, que contava ainda com os The Fevers, Golden Boys e Wanderléa. No final da coletiva, pude falar com ele deixando claro minha admiração por seu trabalho. E contei para ele uma curiosidade: para chegar até o local da coletiva, a viatura do jornal teve que subir a Rua Augusta, ou seja, exatamente como descrito na letra de um dos clássicos da Jovem Guarda (Rua Augusta). Ele riu bastante e pediu para incluir esse dado na matéria, desde que o carro não fosse andando a 120 por hora, como dizia a canção cantada pelo saudoso Ronnie Cord. Claro que rimos bastante disso.

A impressão que tive naquele pouco espaço de tempo era de que ele era uma pessoa altamente espirituosa, que mantinha um alto astral permanente. Além de brincar com os demais integrantes do projeto (Wanderléa, Fevers e Golden Boys), ele também mexia bastante com os jornalistas mais antigos quer estavam cobrindo a coletiva, deixando o ambiente leve e agradável.

Caso tenha curiosidade de conhecer um pouco sobre a obra musical do Erasmo, recomendo a audição dos discos "Carlos, Erasmo" (1971), "Sonhos e Memórias" (1972) e "Erasmo Carlos e os Tremendões" (1970). Os três álbuns que marcam a transição da Jovem Guarda para os anos 70 do amigo de fé, do irmão camarada. Do amigo de tantos caminhos e tantas jornadas. Aquele que tem cabeça de homem e um coração de menino. Aquele que está ao nosso lado em qualquer caminhada.


Sentado a Beira do Caminho
 

Gente Aberta


Filho Único


*Luiz Gomes Otero é jornalista formado em 1987 pela UniSantos - Universidade Católica de Santos. Trabalhou no jornal A Tribuna de 1996 a 2011 e atualmente é assessor de imprensa e colaborador dos sites Juicy Santos, Lérias e Lixos e Resenhando.com. Criou a página no Facebook Musicalidades, que agrega os textos escritos por ele.
 

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

.: Alto da Maravilha, parceria de Antonio Carlos e Jocafi com Russo Passapusso

Antonio Carlos e Jocafi com Russo Passapusso. Foto: divulgação


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Conhecido pelo trabalho no grupo BaianaSystem, Russo Passapusso concretizou um sonho ao lançar um trabalho solo em parceria com seus ídolos: a dupla Antonio Carlos e Jocafi, que fez muito sucesso na década de 70 e que permanece ativa na música. Alto da Maravilha é o nome do disco que celebra a união entre os músicos baianos, com produção de Curumin, Zé Nigro e Lucas Martins.

O trabalho conta ainda com as participações de Djalma Corrêa e Karina Buhr na faixa  “Olhar Pidão” e de Gilberto Gil em “Mirê Mirê”, música lançada como single em outubro.

A parceria musical entre Russo Passapusso e Antonio Carlos e Jocafi começou a gerar frutos a partir de 2019, quando a dupla participou do álbum “O futuro não demora”, do BaianaSystem, como co-autores e intérpretes de “Água” e “Salve”. Depois veio o single “Miçanga“, em 2020.

A influência de ritmos africanos presente nas canções de Antonio Carlos e Jocafi sempre fizeram a cabeça do vocalista e compositor do BaianaSystem, que tem nos artistas uma de suas maiores influências musicais. 

Faixas animadas como Pitanga e Veneno, contam com ótimos arranjos de metais adornando as melodias. A faixa Vapor de Cachoeira segue a receita suingada da dupla Antonio Carlos e Jocafi, que aliás Russo Passapusso aprendeu com maestria a interpretar e compor. Mirê Mirê, com vocal de Gilberto Gil, é outro momento bem interessante, assim como a ótima Catendê, que encerra o disco de forma brilhante.

Alto da Maravilha é um título que define com precisão essa parceria musical. Se por um lado a dupla Antonio Carlos e Jocafi se renova ao produzir junto com Russo Passapusso, esse por sua vez também consegue mostrar que pode trazer em carreira solo uma produção musical cada vez mais consistente para o público. E que venham mais parcerias deles no futuro.



Mirê Mirê


Vapor de Cachoeira


Catendê




sexta-feira, 11 de novembro de 2022

.: "Gal Costa - Eu sei que é assim", por Luiz Otero

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.


Gal Costa deixou na música um legado rico e fértil. Sua partida inesperada deste mundo aos 77 anos na última quarta-feira não conseguirá apagar as sementes deixadas em seus álbuns. Considero impossível dimensionar o tamanho de sua influência como intérprete. Ela tinha um feeling único, aliado a um timbre agudo e extremamente afinado. Estava em um patamar diferente, assim como Elis Regina.

Minha primeira lembrança de sua voz vem da televisão, no ano de 1975, na abertura da primeira versão da novela Gabriela, cujo tema era cantado por ela. Anos mais tarde, ela passou a alcançar um público maior com discos que tinham hits como "Festa do Interior", "Balancê", "Açai", "Faltando um Pedaço," "Meu Bem Meu Mal" e tantos outros. Mesmo se rendendo aos apelos comerciais do mercado fonográfico na época, ela sempre conseguia se sobressair com interpretações marcantes, sempre acima da média.

Comecei então a pesquisar sobre a sua produção inicial, os discos dos anos 60 e do início da década seguinte. E me surpreendi ainda mais ao ouvir as pérolas gravadas em dueto com Caetano Veloso, como por exemplo a canção "Baby". Chamou muito a atenção o antológico álbum gravado ao vivo chamado "Fa-tal – Gal a Todo Vapor", que traz versões definitivas de clássicos como "Pérola Negra", "Vapor Barato", além de releituras tocantes de "Como Dois e Dois" de Caetano Veloso e de "Sua Estupidez", de Roberto e Erasmo Carlos. A dupla ainda ofereceria a canção "Meu Nome é Gal", que se tornou uma espécie de marca registrada nos shows da cantora.

A sua produção mais recente já não tinha o mesmo brilho de outras épocas. Muito embora ela como intérprete continuasse sendo a mesma Gal de sempre: afinada, mais madura e consciente de sua aura musical. E ainda continuava servindo como referência para intérpretes de gerações mais recentes, como por exemplo Marisa Monte.

Fica difícil imaginar a música sem algo novo da Gal para tocar nossos corações. Felizmente temos os seus discos para poder lembrar sempre daquela canção do Roberto e de tantos outros. Uma canção singela, brasileira, para lançar depois do Carnaval.


Não Identificado


Baby


Minha Voz, Minha Vida




sexta-feira, 4 de novembro de 2022

.: "Ateu Psicodélico": Zé Ramalho, a volta do menestrel lisérgico


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Zé Ramalho
está de volta com um disco autoral, intitulado "Ateu Psicodélico". São 12 canções inéditas que reconectam o músico com seu início de carreira no cenário underground de Recife nos anos 70, quando explorava sons psicodélicos e letras elaboradas que assimilavam o estilo viajante nas mensagens.

O disco tem produção de Robertinho do Recife, seu amigo de longa data. Todas as canções foram produzidas durante o período de isolamento proporcionado pela pandemia. Ele explica que as canções funcionam como uma espécie de “turbilhão de imagens que saltam das letras viajantes”.

No início de carreira, Zé Ramalho lançou um álbum com Lula Cortês que até hoje é cultuado pelos críticos como um dos momentos mais criativos de sua carreira. De uma certa forma, esse trabalho abriu portas para que ele conseguisse produzir uma discografia onde a força da poesia se equilibra e até se sobrepõe à melodia. Seu canto quase falado em alguns momentos é uma marca registrada que até hoje segue firme em seu trabalho.

Tudo em Zé Ramalho gira em torno da mensagem. Nas melodias quase faladas, que expressam suas verdades e sua visão sobre o mundo que o cerca. E nesse "Ateu Psicodélico" a coisa segue nessa mesma linha, como se observa nos versos de Sextilhas Filosóficas. “A vida tem a partida / E o passo que não derrapa / O sonho tem compromissos / E nenhum deles escapa / Do lsimbolismo existentes / Em cada linha do mapa”

Na faixa "Repentista Marvel", Zé Ramalho dá pistas de sua trajetória ao longo dos versos. “Eu já cantei com Raul Seixas / Já cantei com Gonzagão / Cantei com o Sepultura / E muito mais vou cantar / Eu vou viajar”. Na faixa “O Que O Mundo Não Sabe Explicar” ele descreve o momento atual. “Continua no olho espelhado/ A vontade de ter a sapiência / Imprimindo a grande consciência /Na imagem que veio do passado / Se transporta no tempo expirado / Com vontade de ver o que vai dar”.

Essa vertente lisérgica estava fazendo falta na obra mais recente do menestrel nordestino da MPB. Com esse novo disco, Zé Ramalho não só se renova como compositor como ainda comprova a força de seus versos em pleno 2022. 

"As Onze Palavras"

"Repentista Marvel"

"O Que o Mundo Não Sabe Explicar"

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

.: "The Blues Don´t Lie": Buddy Guy, a lenda do blues vive


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Quando uma lenda viva como Buddy Guy lança um novo álbum de blues, temos a certeza de estar diante de um evento significativo. Com 86 anos de idade e podendo se acomodar com os feitos de seu legado, ele prefere mostrar vitalidade e talento em seu mais recente trabalho, intitulado "The Blues Don´t Lie", com participações de vários nomes da música.

Buddy Guy já ganhou oito prêmios Grammy. E mesmo assim parece estar longe de querer desfrutar uma merecida aposentadoria. Produzido pelo colaborador de longa data e vencedor do Grammy, Tom Hambridge, o disco reúne um time de estrelas da música incluindo Mavis Staples, James Taylor, Elvis Costello, Jason Isbell e Bobby Rush.

As faixas com Mavis Staples ("We Go Back") e James Taylor ("Follow The Money") são ótimos momentos do disco, assim como o dueto com o também veterano Bobby Rush. ("What's Wrong With That"). Nas faixas em que canta sozinho, Buddy Guy traz uma ótima releitura de "I´ve Got A Feeling", dos Beatles, que ganhou aquele toque característico do veterano bluesman, sempre mesclando elementos de soul music em suas interpretações

A ótima faixa título ("The Blues Don´t Lie") resume de forma perfeita o legado de Buddy Guy. Afinal de contas, para se interpretar o blues é necessário ser autêntico e ter o feeling certo para cantar e tocar guitarra. E isso ele consegue mostrar com sobras. Basta ouvir as faixas desse disco para se ter certeza disso.

"The Blues Don´t Lie"

"I´ve Got a Feeling"

"Follow The Money"

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

.: Relembrando Evinha: a doce voz que canta e encanta


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Quem possui uma coleção vasta de discos e CDs acaba sempre se deparando de tempos em tempos com sons que proporcionam um sentimento de saudade. No meu caso, essa sensação sempre vem quando eu resolvo ouvir algum disco da cantora Evinha, uma das nossas intérpretes da MPB que há anos reside na França. Com estilo único e intuitivo e dona de uma afinação sem igual, ela sempre consegue trazer as melodias para seu universo cheio de doçura e suavidade na voz.

Para quem não sabe, Eva Correia Jose Maria, a Evinha, começou nos anos 60 como integrante do Trio Esperança, que sempre tinha seu espaço na Jovem Guarda comandada pelo Roberto Carlos. A família Correia aliás era (e ainda é) cheia de talentos musicais. Daí saíram dois grupos: o Trio Esperança, com os irmãos Evinha, Regina e Mario, e os Golden Boys, com os irmãos Renato, Ronaldo, Roberto e mais o primo Valdir.

No final dos anos 60, Evinha ganhou o primeiro lugar no 4º Festival Internacional da Canção cantando a "Cantiga para Luciana", que se tornou seu primeiro hit como artista solo. Em uma entrevista, Beth Carvalho, que acompanhou essa apresentação, comentou que Evinha parecia um passarinho cantando que encantou o público.

Como cantora solo, lançou discos em que interpretava com maestria canções de vários nomes conhecidos, como Roberto Carlos, Taiguara, Marcos Valle e dupla Tibério Gaspar e Antônio Adolfo. Essa dupla aliás assina a marcante canção Teletema, que até hoje Evinha canta nos shows ao vivo.

Seu primeiro disco foi o "Eva 2001", lançado em 1969, que tinha as pérolas "Casaco Marrom", "Sozinha" e "Psiu". No ano seguinte (1970) seu segundo disco tinha uma releitura em ritmo soul de "Something", dos Beatles, além das ótimas "Tema de Eva" (Taiguara) e "Abrace Paul McCartney Por Mim" (de Joyce Moreno).

O terceiro disco solo foi "Cartão Postal", de 1971, que tinha a cândida versão de "De Tanto Amor", de Roberto e Erasmo Carlos. O Rei aliás deve ter ficado orgulhoso dessa bela versão com Evinha. Esse disco tem "Que Bandeira", de Marcos Valle, cantada com a mesma bossa e balanço do autor, além de Feira Moderna, que havia sido gravada pelo grupo Som Imaginário.

O quarto álbum, de 1973, tem outra versão maravilhosa do Rei Roberto: "As Canções Que Você Fez Para Mim". "Como Vai Você", de Antônio Marcos, é outro destaque desse disco. E mesmo as canções menos conhecidas são belas e não soam datadas.

O seu quinto disco, de 1974, intitulado "Eva", tinha como destaque "Sonho Lindo" (que havia sido gravada por Roberto Carlos nos anos 60) e "Seus Olhos Falam Por Você". "Na Baixa do Sapateiro", de Ary Barroso, e "Moon River" (de Henry Mancini, com arranjo soul) são outros pontos essenciais desse álbum.

Na segunda metade da década de 70, Evinha passou a integrar o coro da Grande Orquestra de Paul Mauriat, o que acabou fazendo com que ela visitasse várias partes do mundo. E foi nessa ocasião que conheceu o marido Gerard Gambus, talentoso pianista e diretor musical da orquestra do Paul Mauriat. Passou a morar em Paris com ele, mas sempre que pode ela vem visitar os parentes no Brasil.

Nos anos 90 reativou o Trio Esperança com as irmãs Regina e Marisa. Gravaram discos cantando a capela (sem instrumentos musicais), contando com auxílio luxuoso de Gerard Gambus nos arranjos. A iniciativa não tinha como dar errado. Foi um acerto e tanto, com muitas apresentações pelos países da Europa e uma gravação antológica com Charles Aznavour, um mito da música francesa

Mais recentemente Evinha lançou dois discos cantando acompanhada apenas pelo piano de Gerard Gambus. O mais recente tem releitura magistrais de canções de Guilherme Arantes, incluindo os hits "Êxtase", "Um Dia, Um Adeus" e "Amanhã.

O fato de continuar lançando discos e fazendo shows serve como alento para seus fãs e admiradores. Mas sempre que ouço seus discos, tenho a certeza de ter algo único no toca-discos. Uma interpretação afinada e incrivelmente doce e intuitiva. Evinha é pura emoção.

"Tema de Eva"

"Teletema"

"De Tanto Amor"


sexta-feira, 14 de outubro de 2022

.: Zé Guilherme traz a força do Nordeste em forma de música


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Com mais de 20 anos de carreira e quatro discos lançados, Zé Guilherme, músico cearense de Juazeiro do Norte, radicado em São Paulo, traz a força do Nordeste em sua produção. O seu mais recente lançamento é o EP "Zé", com composições autorais que mostram a fonte de suas influências musicais.

"Zé" é um trabalho autoral que chegou às plataformas em novembro de 2021, sendo o primeiro EP da carreira de Zé Guilherme. Formado por composições que vão do pop ao maracatu, passando pelo samba e pelo xote, o EP é formado por: “Meu Querer” (xote que remete à sua raiz cultural nordestina); “Ao Vento” (de Zé Guilherme e Edson Penha, um xote marcado por bela melodia e sonoridade envolvente); “Esperar” (de Flakes e Zé Guilherme, um samba com contornos nostálgicos); “O Desejo de Voar” (samba-canção com poema de Rico Ayade musicado por Zé Guilherme) e “Vento-Criança” (de Zé Guilherme e Hang Ferrero, um maracatu em clima de ciranda com participação especial de Luana Mascari na gravação).

Como em seus trabalhos anteriores, Zé Guilherme mostra uma interpretação suave com aquele conhecido tempero nordestino no sotaque. Algumas composições têm a fonte nos ritmos tradicionais do Nordeste, mas não chegam a soar segmentadas. Pelo contrário. Se integram muito bem com a nossa MPB, inclusive com alguns elementos de pop. Tudo produzido meticulosamente, com esmero nos arranjos e nas performances dos músicos.

No show que vem fazendo pelo País, Zé Guilherme interpreta faixas do EP e canções de outros autores que dialogam com o seu trabalho. Canções como “Blues da Piedade” (de Frejat e Cazuza), “Perto Demais de Deus” (Chico César), “Tua Cantiga” (Chico Buarque e Cristóvão Bastos), “Era pra Ser” (Adriana Calcanhoto), “Adeus, Obrigado e Disponha” (PC Silva) e “Quando Fecho os Olhos” (Carlos Rennó), além de “Cesta Básica” (Cezinha Oliveira), gravada em seu disco Alumia.

Produzido por Cezinha Oliveira, esse EP traduz bem a trajetória de Zé Guilherme, desde Recipiente, CD que o lançou como intérprete, em 2000, até Alumia, que o consolidou como compositor, em 2018. É mais um talento que vem buscando seu espaço na nossa MPB, com um trabalho de extremo bom gosto e que merece ser descoberto pelo público.

"O Desejo de Voar"

"Meu Querer"

"Esperar"


sexta-feira, 7 de outubro de 2022

.: Show antológico do Creedence na Inglaterra ganha documentário e CD

Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Fãs da banda americana Creedence Clearwater Revival têm muito o que comemorar. É que finalmente saiu em CD o show da banda realizado em abril de 1970 na Inglaterra, no mítico Royal Albert Hall. E em paralelo, a Netflix disponibilizou um ótimo documentário sobre essa apresentação, mostrando o grupo no seu auge criativo.

Naquela época a banda estava com sua formação original, com John Fogerty (guitarra e vocal), Tom Fogerty (guitarra base), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria). E além do bom entrosamento no palco, apresentava uma boa relação entre os integrantes.

Aquela seria a primeira vez que se apresentavam em solo britânico. E justamente no mês em que os Beatles anunciaram a separação. No documentário, John Fogerty explica que havia um receio de como seria a receptividade do público inglês, uma vez que a banda vinha conseguindo destaque emplacando hits e boas vendas dos seus álbuns, rivalizando até com os Beatles nas paradas.

Entretanto, todo o receio se dissipou aos primeiros acordes das canções que se tornaram verdadeiros clássicos, como por exemplo Born On The Bayou. O repertório mescla os hits de quatro álbuns, incluindo Fortunate Son, Bad Moon Rising, Green River, Proud Mary e Travelin Band. As releituras de Night Time is the Right Time, uma canção gospel, e de Good Golly Miss Molly (clássico do rock de Little Richard) ficaram ótimas naquele show.

É nítido que John Fogerty se destacava em relação aos demais. Além de cantar, era autor da maioria dos hits. E ainda desempenhava o papel de solista na guitarra. Todo esse destaque aliás deve ter contribuído para o fim precoce do conjunto em 1972. O seu irmão Tom chegou a sair um pouco antes, em 1971.

O show do Royal Albert Hall mostra o grupo no auge absoluto de seus poderes, o ponto alto de um estrelato assustadoramente breve que os viu emplacando incríveis sete singles no Top 5 e cinco álbuns no Top 10 (sendo dois deles em primeiro lugar) em pouco mais de dois anos e, em seguida, desaparecendo tão rapidamente quanto subiram. O filme do show é o melhor documento até hoje do que foi uma banda incrível como a Creedence. E o disco é um item indispensável para sua coleção.


Fortunate Son



Proud Mary


Travelin Band





sexta-feira, 30 de setembro de 2022

.: Crítica musical: Duo Lumme//Prismo lança o primeiro álbum "Ovis Aries"


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

O duo de rock experimental Lumee//Prismo lançou em todas as plataformas digitais o primeiro álbum, intitulado "Ovis Aries". O trabalho traz uma interessante mescla de sons influenciados pela música eletrônica e pelo rock alternativo.

Formado em 2017 em São Paulo, o duo tem Luma Garcia (Lumee - vocais, piano e synths) e Guilherme da Matta (Prismo - guitarra). Luma participou de diversos outros projetos musicais, com os quais se apresentou pelo Brasil e pelos Estados Unidos, sempre conciliando com outras paixões suas, como as aulas de canto e o teatro. Atualmente, ela integra a Companhia Yara de Canto Lírico, e também já integrou o Núcleo Erínias, da Companhia de Teatro d`Os Satyros.

Guilherme, por sua vez, já comandou bandas de rock e tocou vários tipos de evento. Bacharelado em guitarra jazz e pós-graduado em educação musical, hoje gerencia sua própria escola, a Allemande Escola de Música. Participa também do quarteto de Guitarras Tesla.

Nesse trabalho, o duo investe em um repertório autoral composto em inglês, provavelmente visando o mercado internacional. É possível notar traços de influência de bandas como Audioslave, Rage Against the Machine, Evanescence, King Crimson e Linkin Park. No plano nacional, citam Sepultura e Mutantes como fontes de inspiração.

Uma das faixas mais recentes, "Human Again", já pode ser conferida no canal do YouTube da banda, assim como as demais que compõem esse álbum. As canções tratam de temas atuais, com alguns momentos densos, como se percebe nas faixas "Violence" e "Routine".

A sonoridade vai agradar quem curte rock alternativo denominado indie rock, com uso de efeitos e samplers. A impressão que se tem é que eles investem em uma produção que busca contar histórias por intermédio das canções. Há um certo clima cinematográfico em alguns momentos, como se a canção pudesse se tornar trilha de algum filme.

A voz de Luma é um ponto forte do duo, trazendo sempre interpretações convincentes para os temas densos. As texturas de Guilherme nos arranjos complementam de forma perfeita as canções.O disco foi lançado pelo selo Maxilar, de Gabriel Thomaz (Autoramas) e Henrique Roncoletta, que vêm investindo em lançamentos com foco na diversidade musical. E vale a pena ser conferido.

"Human Again"

"Routine"


"Fear" 

sábado, 24 de setembro de 2022

.: Isadora Melo traz sua música em forma de anagrama


Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Um dos novos nomes da cena musical do Recife, Isadora Melo está divulgando seu mais recente trabalho, o álbum "Anagrama", que reúne composições próprias e escritas em parceria com outros compositores. O trabalho mescla de forma interessante suas influências musicais, resultando em canções com temáticas simples e diretas, com raízes na nossa MPB.

Anagrama é uma espécie de jogo de palavras criado com a reorganização das letras de uma palavra ou expressão para produzir outras palavras ou expressões, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. As palavras Amor e Roma, por exemplo, são formadas com as mesmas letras dispostas de forma diferente.

Para produzir esse disco Isadora contou com três músicos talentosos: Rafael Marques, Henrique Albino (conhecido por seu trabalho com frevo) e Lucas dos Prazeres. A ideia desse trabalho começou a surgir em 2018, depois de lançar o CD "Vestuário", um disco onde ela se mostra como intérprete. Em "Anagrama", ela começou a se aventurar como compositora. A relação próxima com o grupo Cordel do Fogo Encantado acabou incentivando-a para se arriscar nas composições.

As faixas são bem produzidas, com canções construídas por um vocal de timbre suave e agradável. Há raízes de ritmos do nordeste nos arranjos e na interpretação de Isadora. Também se nota uma certa influência da chamada vanguarda paulista, representada por nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assunção e o Grupo Rumo, entre outros.  Gostei muito das faixas Sorriso de Faca e Quanto Mais, onde Isadora mostra uma malemolência agradável ao explorar os ritmos dos arranjos. Anagrama traz um frescor interessante para a nossa MPB, que continua produzindo novos talentos. E que venham novos anagramas musicais da Isadora Melo.  

"Quanto Mais"

"Sorriso de Faca"

"Não Ando Bem"

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

.: Entrevista: Claudia Amorim conquista espaço com garra, talento e simpatia


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Claudia Amorim é mais um nome novo de nossa MPB que vem conquistando seu espaço. Com uma voz de timbre original e singular, ela passeia por vários estilos, passando pelo samba, forró e outros ritmos tradicionais. Já lançou três discos com composições de Danilo Caymmi, Geraldo Azevedo, Simone Guimarães, Dominguinhos, Vander Lee, entre outros. Recentemente lançou três singles: "This Round Is Mine" (de Simone Guimarães), "Não Existe Amor em SP" (de Criolo) e "Eu Só Peço a Deus" (versão de Raul Ellwanger para canção de Leon Gieco). Em entrevista para o Resenhando, Claudia explica como foi o seu início na música e a importância de nomes como Danilo Caymmi, Geraldo Azevedo, Renato Piau e Perinho Santana para sua formação. “Eu tive a sorte de trabalhar com esses músicos incríveis”.


Resenhando -  É verdade que você começou a cantar bem cedo?
Claudia Amorim – Meu início foi com dez anos. Fazia a dublagem do "Clube do Mickey" ao lado de outras jovens que mais tarde se tornaram cantoras, como a Bebel Gilberto (filha de João Gilberto e Miucha). A Cyva, do Quarteto em Cy, coordenava os cantores desse programa no Brasil. Foi a Cyva quem me incentivou a cantar em grupo vocal. A falecida Cibelle, irmã da Cyva, também foi uma amiga que me incentivou bastante. E foi assim que cantei como backing vocal de Sandra de Sá e do Tavito. Mais tarde, encontrei o Danilo Caymmi, que me incentivou a tentar a carreira solo e ainda me presenteou com duas composições.


Resenhando - Quais foram suas referências na música?
Claudia Amorim – Sempre admirei e continuo admirando Elis Regina e Zizi Possi. Simone Guimarães é outro nome que também se tornou uma referência para mim. Na verdade, temos muitos nomes da atualidade fazendo um trabalho com qualidade.


Resenhando - O que é o projeto Cores do Brasil?
Claudia Amorim - É um projeto que desenvolvi com instrumentistas mulheres, com mulheres atuando na produção. É realizado única e exclusivamente por mulheres. Para ressaltar a força e o talento que nós mulheres temos. Gravamos vídeos que podem ser vistos no meu canal oficial do YouTube. Pretendo repetir essa experiência, que foi muito positiva sob todos os aspectos.


Resenhando – Você já citou o Danilo Caymmi como um incentivador. Mas também trabalhou com outros nomes consagrados. Como foram essas experiências?
Claudia Amorim - Eu posso afirmar que tive muita sorte. Trabalhei com Luiz Claudio Ramos, Lui Coimbra, Renato Piau, Geraldo Azevedo e com o saudoso Perinho Santana. Este último inclusive foi o arranjador do meu segundo disco. Ele foi importante demais na minha formação musical, assim como o Renato Piau, que tocou por muitos anos com o Luiz Melodia. Fiz um show dedicado a obra do Geraldo Azevedo. Gravei dele Dia Branco no meu primeiro disco.


Resenhando - Você já pensou em compor ou prefere ficar na interpretação?
Claudia Amorim – Eu sou uma intérprete. Mas procuro dar uma visão pessoal de cada composição que canto, trazer um toque de originalidade em cada interpretação. Tanto nas composições consagradas como nas inéditas e atuais.


Resenhando - Por que você recentemente preferiu lançar singles ao invés de um novo disco?
Claudia Amorim - Hoje em dia há uma corrente no meio musical que aponta para essa tendência. Um disco levaria mais tempo para gravar e divulgar. Um single lançado nas plataformas (Spotfy, Deezer e YouTube) permite uma visualização mais rápida da canção de trabalho. O vídeo de Não Existe Amor em SP tem participação do ator Paulo Cesar Pereio e rendeu muitas visualizações no YouTube. Tenho experimentado esse tipo de formato (single) e tem funcionado bem. Mas não descarto gravar mais um disco no futuro.


Resenhando - Quais são seus planos para o futuro?
Claudia Amorim - Continuar a divulgação do mais recente single, Eu Só Peço a Deus, que é uma versão em português de uma canção de Leon Gieco feita pelo Raul Ellwanger. E quero levar esse meu trabalho para o maior número de pessoas possível.

Quem quiser conhecer melhor o trabalho de Claudia Amorim pode acessar o site oficial da artista na internet: www.claudiaamorimoficial.com.br.

"Não Existe Amor em SP"

"This Round Is Mine"

"Eu Só Peço a Deus"


sábado, 20 de agosto de 2022

.: Bruno Morais traz o seu "Poder Supremo" para São Paulo



Por Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

Com referências ao teatro, literatura e cinema, o compositor Bruno Morais estreia show de lançamento do álbum “Poder Supremo”, de 25 a 28 de agoe 1° a 4 de setembro, em temporada de shows sensoriais com entrada gratuita, no Centro Cultural São Paulo.
 
Bruno Morais propõe um mergulho onírico no universo psicodélico de seu mais recente lançamento, o CD “Poder Supremo”, numa performance ao vivo que vai além da música. 

O disco sugere um mergulho por camadas e sensações distintas a cada audição. Cada uma das 17 músicas trata direta ou indiretamente de algum sentido, de conexão com o que transcende ou ainda com uma alguma consciência primitiva - algo próximo ao que Freud chamaria de “sentimento oceânico”, a sensação de ser um com o mundo externo, como um todo.

Para o show, Bruno reuniu um coletivo de criadores, músicos e produtores para criar um espetáculo sensorial e imersivo num exercício de expansão da experiência proposta no álbum. O som 360º, o espaço mutante e outras surpresas esperam pelo público no subsolo do Centro Cultural São Paulo. 
 
O projeto traz referências que vão do cinema de Alejandro Jodorowsky e Stanley Kubrick, da Tropicália e outros discos clássicos nacionais, como “Frevo Mulher” de Amelinha e “Água Viva” de Gal Costa, da sonoridade de bandas como Funkadelic, Banda Black Rio e Rotary Connection ao soul de Solange Knowles, Missy Elliot e ainda da literatura de Rosa Montero, Sidarta Ribeiro, Ítalo Calvino e Davi Kopenawa.

Ao ouvir as canções, realmente pode-se perceber detalhes e nuances que nos remete às referências que Bruno Morais cita. Até o resgate da canção Divindade, de Walter Franco, faz sentido dentro desse trabalho. A canção Onironauta, outro destaque, ganhou um interessante vídeoclipe no youtube.
 
O show tem direção de Ronaldo Zero, que dirigiu, em 2021, no Municipal de São Paulo, a premiada ópera “María de Buenos Aires” de Astor Piazzolla. O figurino é de Renan Soares, o cenário de Jonas Soares e a luz de Nicolas Caratori.  O espetáculo tem ainda preparação de ator de Leonardo Ventura e direção vocal de Ana Dan e Estela Paixão.

Show de lançamento do álbum "Poder Supremo"
Local: Sala Ademar Guerra – Subsolo do Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro 1000 – Paraíso)
Datas: 25 a 28/08 e 01 a 04/09
Horários: 21h (quinta e sexta) e 19h (sábado e domingo)
Entrada Gratuita
Retirada do ingresso: na bilheteria uma hora antes do espetáculo
Capacidade: 100 lugares
Classificação etária: livre

 "Divindade"

"Seed"

 "Onironauta"




sábado, 13 de agosto de 2022

.: "Hard to Kill": Janiva Magness de corpo, alma e blues em novo disco


Sete vezes vencedora do Blues Music Award e indicada ao Grammy, Janiva Magness retorna a cena musical com um novo álbum, o  autobiográfico e contundente "Hard to Kill". Ele foi lançado simultaneamente com a edição do audiolivro "Fathead de Weeds Like Us", o seu livro de memórias lançado em 2019.

Este novo material chega três anos depois do seu último trabalho. Dave Darling, seu amigo de longa data e guitarrista, produziu o disco e fez um excelente trabalho ao capturar não apenas os sons, mas também os significados dessas novas músicas.

O estilo de Janiva é calcado no blues rock, cercado por arranjos que buscam a essência desse estilo musical. Suas performances são sempre cheias de energia e honestidade. Mesmo em estúdio você pode sentir como se estivesse em um show ao vivo, por causa do incrível feeling da intérprete.

Destaco a energética "Don´t You Forget About Me" e a balada "Right Here", ambas com vocais impecáveis de Janiva Magness. "Strong As Steel", que abre o disco, é aquele tipo de faixa arrasa-quarteirão. Ela começa pisando fundo no acelerador em ritmo blues rock.

A história de Janiva inclusive tem tudo a ver com a essência do blues. Ela enfrentou problemas com abuso físico e sexual, os suicídios dos pais, os anos em orfanato. Mais tarde encarou a posterior dependência de drogas e álcool, além de uma gravidez na adolescência. Tudo é relatado em seu livro de memórias e nas letras desse seu novo disco. "Hard to Kill" é um disco que merece ser ouvido pelos amantes do blues rock. Afinal de contas, ninguém vence sete vezes o prêmio do Blues Music Award à toa.

Ouça +:
Os álbuns anteriores de Janiva Magness neste link.

"Strong As Steel"

"Don´t You Forget About Me"

 "The Last Time"

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